22 setembro, 2014

a jovem que queria ficar rica com música

Na feira de profissões, uma estudante se aproximou e disse:
 - O que mais amo é música.
 - Então essa é a profissão pra você. Pois, não é ótimo fazer o que mais se gosta e ainda ser pago por isso?
Olhando a cena, alguns dos alunos que trabalhavam comigo perguntaram:
- Simples assim, professor?
Respondi-lhes:
- Certamente. Pois todo o que vier perguntar sobre o curso de modo algum o lançaremos fora
Outra estudante veio e perguntou:
- Vem cá, música dá dinheiro mesmo?
- Não. Dá prazer, drama, emoção. Dinheiro, nem sempre.
Ela ficou meio decepcionada e seguiu seu caminho.
Os alunos voltaram a perguntar:
- Por que o professor não insistiu?
- É para que ela não perca tempo, já que tempo é dinheiro. Mas música, não. Música é outra coisa.

12 setembro, 2014

matou Deus e foi ao cinema evangélico

Eu bem que gostaria que fosse diferente, mas Deus não está morto é um filme que, embora queira partilhar uma mensagem profunda, é raso de espírito. Deus não está morto, mas a qualidade do cinema evangélico não passa bem.

Não vou falar da performance dos atores, da fotografia ou dos diálogos, todos de um primarismo que se nivela a um seriado bíblico da TV Record. Isso até seria uma marca das produções religiosas nacionais (de qualquer crença). Aliás, muito espectador dessas produções invoca uma virtude cristã, como a condescendência, para assisti-las.

As carências técnicas seriam um problema sem importância, se o alto valor da mensagem que o filme deseja divulgar fosse transmitido com acuidade e grandeza de espírito e não só com suposta nobreza de intenção.

O enredo trata de personagens evangélicos que são perseguidos e humilhados, mas têm uma luz celestial que lhes afasta de toda incerteza ou falta de racionalização crítica. Parece que são capazes de superar doenças com doses de cânticos e orações.

Já os não cristãos são vilões caricatos que, se não acreditam na existência de Deus, é porque eles sofrem com traumas do passado ou de autossuficiência arrogante, já que todas as evidências estariam aí para providenciar a aceitação lógica da fé.

Não importa se o personagem é ateu ou cristão, ele é retratado por meio de ideias preconceituosas e estereotipadas. Ninguém parece de carne e osso, mas apenas fantoches que se revelam como um tipo de evangélico falacioso e um espécime de ateu presunçoso.

Para piorar, o filme acaba mostrando uma noção nada cristã de Deus: a do ser vingativo que não suporta que ninguém discorde dEle, ainda que esse alguém não seja pior do que aqueles que professam a fé nEle.

A menina islâmica se converte ao cristianismo? Há um pai autoritário que a punirá. O rapaz é humilhado por causa de sua retórica evangélica? Seu opressor será punido. O professor não acredita na obviedade da existência de Deus? O próprio Deus o punirá.

Ao final, os humilhados compartilham o gostinho de vitória, o que transmite a ideia de alguns setores evangélicos de hoje, que repetem chavões triunfalistas de prosperidade pessoal. Não é difícil ver esse pensamento circulando em adesivos colados nos carros e em alguns refrões gospel.

Se a intenção era falar com quem não é cristão, o filme mostra um envelhecido e antipático discurso em relação a quem não enxerga a vida pelo mesmo prisma. Se era rebater Nietzsche, o bigodudo filósofo alemão é abordado de forma superficial e rasteira. Se o objetivo era pregar para os iniciados, duvido que todo protestante vá comprar essa retórica que promete uma solução fácil para questões de resolução bem complexa.


É uma pena que, na tentativa de ser didático, o filme esbarre em argumentos simplistas. Se a Bíblia tivesse sido escrita com a falta de densidade de tantos filmes evangélicos, a fé cristã não teria motivado nem um aleluia de Handel, quanto mais a persistência e fidelidade milenar dos cristãos.

09 setembro, 2014

o incrível cinema que encolheu

Joe Gilles: Você é Norma Desmond, atriz do cinema mudo. Você era grande.
Norma: Eu sou grande. Os filmes é que ficaram pequenos.

A Rede Cinemark reprisou alguns clássicos do cinema: Bonequinha de Luxo, Lawrence da Arábia, O Poderoso Chefão I e II, Chinatown, A Felicidade Não se Compra, Taxi Driver. Só pelos títulos já dá pra concordar com a personagem Norma Desmond (personagem de outro clássico, Crepúsculo dos Deuses): o cinema encolheu.

O cinema ficou “big”, mas raramente é “great” como costumava ser. Cinema “big” sempre existiu, mas nos últimos 20 anos o cinema é grande no sentido de bilheteria, número de explosões, de efeitos visuais, de marketing gigantesco e merchandising incomensurável.

Raramente é grande no sentido de grandioso, de tematicamente ambicioso, que visa o impacto emocional e intelectual, e não somente o sensorial, que não tem medo da transcendência.

Bonequinha de Luxo é do tempo em que havia comédias românticas baseadas em roteiros inteligentes e bons atores e não apenas em situações inverossímeis e rostinhos jovens. Lawrence da Arábia é sinônimo de magnificência, A Felicidade não se Compra (assim como Ben-Hur) parece feito por gente que entendeu o cristianismo. Taxi Driver é violento, mas não faz apologia da violência nem se diverte com ela. Aqui, a violência e a violação dos indivíduos repercute a violência legalizada do Estado e a violação cotidiana dos cidadãos.


Na famosa saga da famiglia Corleone, o que se vê não é a glamourização da violência ou da máfia, como alguns enxergaram. Em O Poderoso Chefão II, percebe-se que a tragédia moral do chefão Michael Corleone é a tragédia moral da América, cada vez mais envolvida em corrupção e ganância. Nas primeiras cenas, os congressistas americanos estendem a mão aos mafiosos em negócios escusos. As famiglias e a América se acasalam para construir um império cuja fundação é poder, dinheiro e mentira. Nessa trajetória, morrem pessoas, famílias e a paz de consciência.

De um jovem herói da nação na II Guerra que não queria nada com a famiglia, Michael vai se tornando o espelho decadente de seu próprio pai, Vito Corleone. Um defensor intransigente dos negócios da famiglia e não da sua família, ele vai ficando cada vez mais taciturno e sombrio. Suas cenas são emolduradas pelas trevas, numa fotografia que escurece tudo em volta do personagem (foto acima). Do mesmo modo que seu pai foi filmado na primeira parte da saga, rodeado pela escuridão (foto abaixo).


Ao filmar a máfia como uma organização familiar, achou-se que o cineasta Francis Ford Coppola estava glamourizando a criminalidade. Nada mais falso. Na saga dos Chefões, a violência não se apresenta divertida, não há piadinhas depois de explosões. Há apenas o mal que provem da violência. 

Na verdade, a trilogia do Poderoso Chefão é um relato de como o crime se institucionalizou nos Estados Unidos (e em qualquer outro país) em forma de organização lícita, operando como os governos, que mostram uma fachada limpa em contraste com a obscuridade de suas tramoias e conluios. Esses filmes são um retrato da decadência moral da América, de um país que recebia os imigrantes com as mãos da Estátua da Liberdade, mas que lhes fechava os punhos na vida real, mostrando a face escura do mal, como diz a letra da canção “Alagados”.

Isso é cinema realizado com ambição, feito por cineastas que gostam mais de cinema do que de dinheiro. Não por acaso, a equipe técnica é composta de colaboradores geniais: o diretor de fotografia Gordon Willis, que filmou a máfia como um quadro do pintor holandês Rembrandt; o engenheiro de som Walter Murch; o músico erudito Nino Rota, cujos temas musicais amplificam a grandiosidade e a solenidade do filme.

Destaque-se a fotografia ao estilo Rembrandt (acima, o quadro "Festa de Belsazar"): a luz só mostra os elementos essenciais. Na abertura do primeiro Chefão, m homem chora na escuridão pedindo vingança para sua filha violada. A única luz está sobre sua cabeça. A câmera mostra a mão de outro homem que lhe estende um lenço e, em seguida, vê-se o rosto de Vito Corleone/Marlon Brando que vai atender o pedido. São tramas que só poderiam ser tratadas na escuridão, enquanto lá fora, tudo é sol e luz no casamento da filha do padrinho Corleone.

No segundo Chefão, o filme abre com outra festa ensolarada na propriedade dos Corleone. Depois, vemos Michael Corleone/Al Pacino receber um senador na escuridão do seu gabinete. São tramas que só poderiam ser negociadas nas trevas. O fotógrafo Gordon Willis iluminou (e escureceu) dois mundos contrastantes: a aparência familiar e institucional que a máfia quer transmitir; as negociatas e a decadência moral que afundam nas trevas.

E os atores? Quem são os Robert de Niro, os Al Pacino, as Diane Keaton de hoje? Os melhores atores já passaram dos 70 anos de idade e há raros substitutos para eles num cinema preferencialmente de franquia feito para ser degustado com pipoca e refrigerante.

Em Hollywood, embora ainda haja artistas genuinamente grandes, o cinema se apequenou.