27 novembro, 2012

um estudo sobre o cd Princípio e Fim


As congregações evangélicas, de um modo geral, foram acostumadas a um modelo musical de melodias firmes, poesia simples e teologia direta. Isso pode explicar o apreço pelos dois primeiros CDs de Leonardo Gonçalves, nos quais há músicas que se consolidaram no repertório evangélico dos últimos anos (“Getsêmani”, “Volta”, “Moriá”, “Ele Virá”, são algumas).

O 1º CD, "Poemas e Canções", apresentava temas gerais do cristianismo. O segundo, "Viver e Cantar", pôs em sequência teológica as doutrinas cristãs centrais. O terceiro, "Avinu Malkenu", relaciona a tradição musical e teológica judaica à compreensão teológica  cristã. O CD “Princípio e Fim” diverge dos anteriores nos aspectos musicais e poéticos. E também é diferente no viés teológico. Antes de falar sobre eles, vamos aos aspectos musicais.

Ouvindo musicalmente

Talvez haja menos canções memoráveis neste CD do que nos anteriores. E isso não é necessariamente um defeito. Se as músicas se adequam mais à reflexão pessoal do que à performance pública, isso chega a ser reconfortante. Talvez seja um risco para a Sony Music, e o resultado artístico do CD prova que a gravadora não interferiu na produção. Esta é uma produção que não buscou a fórmula do hit gospel, e para isso renunciou (talvez deliberadamente) à familiaridade melódica.

Nesse CD, as melodias estão mais assentadas, lentas, reflexivas. Nos trabalhos anteriores, as músicas exigiam muita potência vocal e os intervalos entre as notas exibiam maiores saltos entre as notas graves e as agudas. Neste, há mais ênfase na região média da voz.

Percebi também um fator musical que não sei se todos vão entender devido à forma pouco eficiente da minha explicação: há uma demora em resolver as expectativas criadas pelos acordes de tensão e repouso. Por exemplo: o refrão da canção “Novo” [“mas à meia-noite o céu se abre...”] tem um ostinato (repetição de grupos de notas) que adia longamente a resolução da tensão. É um efeito interessante e que se relaciona com a letra, mas soa pouco familiar para uma parte dos ouvintes, para quem o ostinato resulta bastante prolongado.

Que canções têm essa característica?

“Sublime” – que tem belos achados na letra, como no verso “Compreendo que o eterno lar começa no momento em que vivo para Te encontrar”

“Viver o amor” – o refrão (“estender a mão / partir o pão”) tem uma melodia flutuante e seu final tem uma sequência de acordes que criam um efeito suspensivo permanente.

A versão de “Eu acredito” – a sequência de acordes do piano desarticula a fluidez da versão original de Tiago Arrais e cria outra atmosfera: suspensa, ondulante, resolvida de um modo inesperado.

“Jamais” e “Princípio e Fim” – as duas canções dialogam em vários aspectos. Experimente apenas ler suas  letras e você perceberá que os conjuntos de versos não estão ligados por uma narrativa, uma história. São como quadros justapostos que somente a visão do todo poderá apresentar coerência.

Assim como o letrista não estabeleceu uma relação convencional entre os versos, a melodia e a harmonia também não seguem as resoluções melódicas e harmônicas comuns. Essas duas músicas soam mais como comentários sobre a compreensão da eternidade e da infinitude de Deus e menos como canções sobre o encontro final com Cristo no céu,

Não ouvimos as afirmações seguras sobre a volta de Jesus, como em “Ele Virá”, por exemplo. O aspecto esperançoso e triunfante dessa música deu lugar à espera mais contida – “a esperança pressupõe a espera, logo vem o Rei”, trecho da canção “Novo”, é um sinal. Não é triunfalista, mas também não é triunfante no modelo comum da música evangélica e, particularmente, da música adventista.

O tema da volta de Jesus costuma gerar expectativas musicais afirmativas ou também de grandiosidade (final orquestral, trompetes no fortíssimo). No entanto, o instrumental de cordas que se segue após a última frase da última música do CD dá uma ideia da opção pela contenção. A música parece encerrar com reticências. Talvez a ausência de um ponto final não atenda às expectativas convencionais do ouvinte.

Seria este, então, um CD que agradaria mais aos músicos? Não sei responder. Mas eu diria que essa produção deveria ser ouvida com atenção pelos arranjadores gospel. 

Ouvindo teologicamente

Olhando agora para as letras, e mesmo não passando de um musicólogo que aprecia estudos em religião, vou arriscar algumas especulações teológicas.

Os poemas e canções do CD me sugerem que eles estão dentro de um conceito duplo em relação ao título dessa produção.

Princípio é o começo de todas as coisas. No entanto, diferente do CD “Viver e Cantar”, não há um relato cronológico da história da redenção. Seu começo não está no gênesis, mas nos eventos do apocalipse. Vejamos:

A segunda faixa do CD chama-se “Tsion” (a 1ª é um prelúdio instrumental ligado à 2ª) e trata do esperado encontro entre o salvo e o Salvador. O primeiro verso da letra diz “hoje acordei em sonho para ver o que é real”. Como sabemos, os sonhos não têm começo definido (é raro lembrar o início de um sonho) e é só a realidade que põe um fim aos sonhos.

A terceira canção é “Novo”. O refrão fala da vinda de Jesus nos céus e pergunta: "a luz que enche toda a terra é o Rei?" A interrogação é cantada por Leonardo com a entonação vocal para cima na palavra “Rei?”. Depois, essa frase será repetida, mas, na letra que consta no encarte do CD, há um ponto de exclamação no final (“a luz que enche toda a terra é o Rei!”). A voz faz uma entoação para baixo na palavra “Rei!”, como que afirmando e não perguntando.

Os eventos do apocalipse são cantados: “a canção do Cordeiro vai ressoar como o alto mar” (como o som de muitas águas); “tudo novo se fez”.

Há referências à nova terra (algo que é pós-apocalíptico) nas bonitas rimas da música cantada em inglês, “There”, que fala da cidade celeste de Jerusalém e da importância dada a presença de Cristo ali. Em “Sublime”, há um coro que canta repetidamente “Jerusalém”.

Essa última canção diz: “[...] vou Te encontrar / quando não sei / um dia, eu sei / estarei no meu lugar”. O que ainda não foi realizado, e carece de espera e esperança, se realiza no final da música: “Hoje encontrei, em Ti encontrei, encontrei o meu lugar”. Não é o encontro no céu, mas a percepção de encontrá-Lo espiritualmente e localizar-se emocional e intelectualmente, deixando de perambular atrás de outras soluções. É outra forma poética de dizer "o céu é aqui, se aqui Jesus está", como na música de Jader Santos.

Isso está de acordo com o texto de apresentação do CD, escrito por Leonardo: “o reino de Deus vai existir porque já existe. [...] um dia vai existir plenamente. Já, mas não ainda...”

Preceito e Finalidade

Uma segunda relação das músicas com o título do CD penso que está num plano mais profundo (e são apenas especulações deste escriba, e podem não ter nada a ver com as reais intenções do produtor).

Princípio também significa preceito, teoria, diretrizes que regulam a vida. Os princípios cristãos saltam aos ouvidos nas canções.

Princípios de fé: na canção “Novo”, canta-se a crença na ressurreição de Cristo (“minha fé não vê um Cristo morto, mas que ressurgiu”), a ressurreição dos que creem em Cristo (“acordam os que dormem no Senhor”), e a volta pessoal de Jesus (“todo olho O vê”).

Princípios da sola scriptura: são citadas várias passagens bíblicas, algumas ipsis litteris – Mateus 25:21 (em “Tsion”), o salmo 121:1 (“Novo”), Coríntios 13:2 e algumas bem-aventuranças (em “Bondade”), Isaías 58:6 (“Viver o amor”).

A lei como princípio: "acredito que Sua lei está dentro do meu coração" (na música “Eu acredito”); "sempre obedecer à lei do Seu coração" (“Viver o amor”), "guardar suas leis" (“Mente e coração”).

Fim quer dizer final das coisas. E também é um termo que pertence ao domínio da escatologia cristã, o estudo dos últimos eventos. Fim também significa finalidade, objetivo. A finalidade da criação e da redenção está dentro do que se chama teleologia, o conceito de propósito do universo. O propósito (o telos) do evangelho é anunciar tanto o fim/propósito da vida quanto o começo/finalidade de uma nova vida. As canções do CD "Princípio e Fim" são perpassadas por esse princípio, por esse propósito.

O telos, a finalidade da vida do cristão na terra inclui o amor pelos seus semelhantes, abrangendo aqueles que, como diz o texto de apresentação do CD, “não compartilham de nossas perguntas, que dirá de nossas respostas”. Por isso, a música “Bondade” (preciso a bondade partilhar), por isso “Viver o Amor” (estender a mão, partir o pão; nunca mais me esconder do meu semelhante).

Já fui longe demais em minhas especulações teomusicológicas e agradeço a boa vontade do leitor que chegou até aqui. Eu encerro com esse verso da canção "Mente e coração":

Quero entender o sentido / quero sentir o entendido: o cristão quer compreender o significado e o propósito das coisas. Mas assim que compreende, ainda que em parte, pois lhe é impossível a totalidade deste lado da eternidade, ele precisa vivenciar o que entendeu. Razão para entender, sentimento para incorporar. Letra para compreender o sentido, música para expressar o entendido.

Em relação a essa canção, talvez várias pessoas deem mais atenção ao arranjo musical do que à teologia contida na letra. É claro que ritmos e melodias às vezes podem nos distrair dos santos propósitos. Mas também penso que não é sábio usar a preferência musical como régua para medir a espiritualidade pessoal. O amor é um princípio e a salvação é um fim, mas a música é um meio.

19 novembro, 2012

César e Deus numa nota de cem reais

Em São Paulo, a Procuradoria dos Direitos do Cidadão entrou com ação que propõe que não se inclua a expressão "Deus seja louvado" nas futuras notas de real a serem impressas. O argumento apela à laicidade do Estado, ou seja, que um Estado laico não deve promover esta ou aquela religião. Isso é diferente de propor a mudança do nome dos Estados de São Paulo para "Eduardo" e de Santa Catarina para "Mônica". Eu não tenho nada contra o governo retirar das cédulas essa expressão tipicamente cristã. E tenho 3 razões:

1) Os cristãos provavelmente não gostariam de ver escrito nas cédulas expressões como "Buda seja louvado" ou "Tupã seja louvado", ou qualquer uma das frases escritas na nota de real no começo desta postagem. Tem cristão que não suporta calado nem o título sincrético-religioso de uma novela, tipo "Salve Jorge", imagina carregar expressões assim na carteira!

Alguns defendem a permanência da expressão cristã nas notas de real porque isso seria parte da tradição histórica do Brasil. Quando a expressão "Deus seja louvado" foi inscrita na moeda, o Estado ainda adotava oficialmente uma religião. E isso era uma tradição histórica de vários países. Hoje, porém, a Constituição prevê um Estado laico, que respeita todas as religiões, mas não adere a nenhuma delas. Vivemos num tempo em que as pessoas exigem mais respeito a sua crença (ou descrença) do que antes. Então, seria correto exigir que César use o nome de Deus só porque a sociedade brasileira é culturalmente cristã? (eu digo culturalmente cristã, porque espiritualmente...ai de nós).

2) Ao pagar suas contas, você e o comerciante podem até dizer "Deus seja louvado". Infelizmente, não é o que a maioria diz quando vai retirar o salário. Para piorar, do sujeito que suborna o policial para não ser multado ao cidadão que dá um "jeitinho" de enganar a Receita Federal, do corrupto que desvia verbas escolares ao traficante que vende crack, todos usam cédulas que estampam um "Deus seja louvado". Chega a ser uma blasfêmia. Ou, no mínimo, uma situação bizarra.

Não é por causa de uma expressão com o nome de Deus que o dinheiro pode ser uma benção. Certamente não foi por conta dos abençoados que se começou a dizer que o dinheiro é a raiz de todos os males.

3) Ainda faz sentido que o nome de Deus esteja escrito numa cédula de real quando até as paredes da Casa da Moeda sabem que o deus desse mundo é o dinheiro? Nelson Rodrigues ironizava dizendo que "o dinheiro compra tudo, até o amor verdadeiro". Numa sociedade que caminha firmemente para a compra e venda de tudo, a expressão mais fiel aos novos tempos seria "Pagando bem que mal tem".  

06 novembro, 2012

Adventistas na América: republicanos ou democratas?


Em 1874, após o Congresso norte-americano rejeitar um projeto que outorgava ao estado o poder de impor valores morais do cristianismo, a Associação de Reforma Nacional, formada por uma frente evangélica conservadora e próxima ao Partido Republicano, passou a propor a imposição de leis dominicais.

Quando alguns estados começaram a apoiar estas leis e as perseguições aos violadores do domingo como dia de descanso terminaram em multas e prisões de grupos sabatistas, como os batistas e adventistas do sétimo dia, estes reivindicaram a liberdade religiosa e de consciência.

“O Partido Republicano endossava a imposição da lei dominical, e os adventistas que tendiam a apoiar os republicanos desde 1856, mudaram sua lealdade em favor dos democratas” (R. Schwarz e F. Greenleaf, Portadores de Luz, p. 242). Na década de 1880, na Califórnia, quando os democratas venceram as eleições estaduais, eles revogaram a legislação dominical.

Na época, o que interessava aos políticos era a questão trabalhista, e não religiosa. Era comum o indivíduo ser obrigado a uma jornada de sete dias de trabalho. Todavia, em alguns estados, como os do sul wasp (branco, anglo-saxão, protestante), a questão dominical era abertamente religiosa.

Houve tentativas ainda de aprovar a lei dominical em âmbito nacional. No entanto, as discussões, em parte promovidas pelos adventistas por meio de comissões e conferências de liberdade religiosa, ajudaram a bloquear a legislação que não permitia que os sabatistas, que já descansavam no sábado, pudessem trabalhar no domingo.

Nas décadas de 1980 e 1990, os adventistas também apoiaram a organização Americanos Unidos (AU), embora de forma não oficial. A publicação mensal Church and State (Igreja e Estado) da AU defendia a liberdade religiosa e a separação entre estado e igreja, o que faz parte das convicções históricas do adventismo.

Esse periódico fazia oposição às atividades da chamada Nova Direita Cristã, ala republicana que reunia evangélicos conservadores. Na época em que o presidente Ronald Reagan restabeleceu os vínculos diplomáticos com o Vaticano, houve vários protestos por parte da AU, que temia a união entre religião e estado que poderia resultar desse vínculo político. A esse temor, o adventismo adicionava sua crença profética de que a união entre os Estados Unidos e o papado é um sinal escatológico.

Os adventistas tem a tendência de apoiar os democratas ou os republicanos?

Na eleição de 1964, estudantes adventistas apoiaram o candidato republicano Barry Goldwater na disputa contra o presidente Johnson (vice que tomou posse após o assassinato de Kennedy). Em 1968, eles mostravam mais preferência por Richard Nixon do que pelo possível candidato democrata Robert Kennedy (irmão de John que também viria a ser assassinado antes de concorrer à presidência). Nixon, para quem não lembra, foi o presidente que sofreu o processo de impeachment nos anos 1970 na esteira do escândalo Watergate.

Em pesquisa mais recente, 44% dos adventistas americanos se identificavam com o Partido Republicano contra 24% que se identificavam com o Partido Democrata. Na eleição presidencial de 1984, o candidato republicano Reagan tinha preferência de dois terços dos adventistas pesquisados.

A agenda política republicana tradicional não aprova o sindicalismo e a ingerência do estado em questões do mercado. Outras bandeiras são consideradas de ordem moral, como a rejeição da legalização do aborto e da união civil homoafetiva. É também conhecido o lobby republicano em favor da propriedade particular de armas de fogo e da maior participação da religião na esfera pública.

O Partido Republicano é, via de regra, visto como um partido conservador. Embora haja diversidade de pensamento em seus quadros, muitas vezes ele é considerado francamente reacionário, como a facção do Tea Party, que a liderança republicana em Washington não vê com bons olhos, mas teve de submeter-se a alguns itens ultraconservadores de sua agenda durante a campanha presidencial de Mitt Romney. O próprio Romney, que tinha um discurso mais liberal, fez concessões ao conservadorismo.

Por outro lado, o adventismo norte-americano também tem uma faceta identificada com as propostas políticas do Partido Democrata (em alguns casos, até mesmo com a esquerda moderada). A bandeira da liberdade de consciência e o não envolvimento da igreja em questões do estado e sua própria estrutura institucional e seu gerenciamento de finanças tem mais a ver com uma central única do que com uma estrutura de livre mercado ou livre concorrência.

Possivelmente considerando a odiosa segregação racial promovida longamente por estados administrados pelos republicanos, 40% dos negros adventistas intencionavam votar no candidato democrata John Kerry e 23% em George W. Bush na corrida presidencial de 2004. De outro lado, a mesma pesquisa apontava que 47% dos eleitores brancos apoiariam Bush e somente 13% votariam em Kerry.

Em outra pesquisa, 47% dos adventistas brancos tinham afiliação com o Partido Republicano e 37% com o Democrata. Entre os negros, a diferença era maior: 70% eram afiliados do Partido Democrata e somente 9% afiliavam-se aos republicanos. A adventista eleita para o Congresso americano pelo estado do Texas, Sheila Jackson-Lee, é democrata.

Os números apontam que a opinião política dentro do adventismo norte-americano, embora de inclinação republicana, também se dirige aos democratas quando o assunto de liberdade de consciência está em questão. Como os democratas têm demonstrado mais esforços para a inclusão de latinos e afro-americanos na sociedade, é possível que essa questão venha motivando novos grupos de eleitores a considerar outros rumos dentro da consciência política adventista.

Fontes: Douglas Morgan, Adventism and the American Republic; R. Schawrz e F. Greenleaf, Portadores de Luz; R. Dudley e E. Hernández, Citizens of two worlds: religion and politics among American Seventh-day Adventists.