30 junho, 2010

mozart, ou a inveja que mata é um mito

Antes de morrer em 1791, aos 35 anos, Wolfgang Amadeus Mozart já se sentia derrotado pela vida. Suas dívidas aumentavam. A alta sociedade deu-lhe as costas. Morreu com a sensação de que sua existência fora um fracasso. Duas fontes que alimentavam sua autoestima e senso de importância estavam quase secas: o amor de uma mulher em quem pudesse confiar, e o amor do público de Viena por sua música. Por algum tempo ele tivera a ambos. Mas há razões para crer que, em seus últimos anos de vida, ele sentia cada vez mais que perdera os dois.

Em matéria sobre o assunto, a revista SuperInteressante acerta quando diz que não há vestígios de que Antonio Salieri, compositor da corte do imperador José II, teria envenenado Mozart porque invejava seu talento. Essa estória não é hollywoodiana, apesar do ótimo filme Amadeus (1984), e vem da mania romântica do século XIX de dar aos gênios uma história de martírio social e melodrama individual.

Mas a revista erra ao supor que Mozart é que poderia ter inveja de Salieri. Salieri não foi um músico medíocre, e ensinou compositores como Beethoven, Schubert, Liszt e Czerny (claro, antes destes serem o que vieram a ser).

Contudo, Salieri representava tudo o que Mozart não desejava para si: ser um empregado da corte. Enquanto trabalhou para o príncipe de Salzburgo, Mozart identificava-se com a nobreza da corte e seu gosto, mas desgostava da afetação dos aristocratas e ressentia-se da humilhação a que lhe submetiam, principalmente em razão de sua origem social (seu pai vinha de uma família de artesãos). Além disso, os músicos eram meros serviçais – costumavam entrar pela porta dos fundos e comiam com a criadagem, por exemplo. Devido a sua arte distinta, Mozart tinha permissão para jantar à mesa de cortesãos, normalmente em troca de uma execução ao piano.

O fato é que Mozart pediu dispensa do seu posto permanente na corte de Salzburgo e rumou para Viena a fim de construir para si uma carreira de maior autonomia de criação e relação social. Suas óperas passaram a fugir do tradicional receituário "elegante" esperado pelo público; algumas de suas obras instrumentais apresentavam inovações, embora vez ou outra tivesse de fazer concessões ao gosto do público do qual vinha sua renda. As cortes financiavam a produção de óperas e assinavam listas de frequência a concertos. Ou seja, Mozart continuava dependendo da audiência da corte para sobreviver fora dela.

Acontece que a música tinha a função primordial de agradar aos senhores e senhoras da classe dominante, e não de evocar sentimentos pessoais. E Mozart já não era aquela criança que ia de palácio em palácio como um bichinho de circo a se exibir para as madames e reis. Sua personalidade e sua vontade criativa não se moldavam àquela sociedade.

Seu rompimento com a corte de Salzburgo repercutiu entre os cortesãos, o que fez despencar as encomendas por novas músicas. Em carta ao pai, Mozart conta como o conde Colloredo o humilhara. Seu pai lhe pede várias vezes para que se sujeite aos empregadores. Isso acabou levando Mozart a revoltar-se com a atitude subserviente do pai.

Mozart foi abandonado pela alta sociedade vienense devido a sua busca de autonomia numa época de dependência financeira e social da aristocracia de corte, e não devido à inveja alheia. Anos depois da morte de Mozart, Beethoven conseguiria construir uma sólida carreira independente da corte. Eram outros tempos, em que a ascendente burguesia, copiando as ações da agora decadente corte, atuava no patronato artístico e ia a concertos.

É provável que, se Mozart quisesse ter sido como Salieri, lhe bastasse permanecer como um subordinado na corte a compor tudo-o-que-o-seu-mestre-mandar. Mas é bem provável que jamais passasse para a posteridade como um compositor genial (e genioso) cujas obras da maturidade, fora dos salões da nobreza, ainda assomam, sublimes, à porta do século XXI nos causando maravilhamento.

O primeiro parágrafo desse texto é um resumo do primeiro parágrafo do pequeno livro de Norbert Elias, Mozart - Sociologia de um Gênio, de leitura agradável e totalmente recomendável para entender mais sobre criatividade, música e sociedade.


28 junho, 2010

o chute de Platão: o clássico dos clássicos


O escritor José Roberto Torero "descobriu" fragmentos de um jornal grego e transcreveu inventando o relato de uma partida de futebol disputada em 29 de abril de 312 a.C., desde sempre, a mais clássica de todos os tempos:

O clássico dos clássicos

A final do campeonato deste ano entre os times do Liceu e da Academia foi confusa. Mal começou a partida e os acadêmicos atacaram: Sócrates tocou a esfera para Platão, e este rapidamente devolveu para Pitágoras, que a devolveu para Sócrates, com que o objeto desenhou um belo triângulo escaleno. Então, Sócrates dominou a esfera, girou seu corpo e disparou um petardo contra o arco adversário.

O goleiro do Liceu, Aristóteles, apenas pôde assistir à trajetória do bólido, que bateu na haste superior - à qual os escravos chamam de travessão - e caiu sobre a linha. O problema é que a esfera caiu numa poça d'água, ficando metade para dentro e metade para fora. Imediatamente os jogadores formaram uma roda em torno da esfera e teve início uma emocionante discussão:

"Não poderemos contar esse ponto", disse o arqueiro Aristóteles. "Só meia esfera está adiante da linha e, logicamente, uma metade não pode ser uma totalidade."

Platão rebateu: "Com o devido respeito, brilhante, Aristóteles, não há fração que não contenha parte do todo. Sendo assim, o todo, ao menos em parte, está adiante da linha. Isso nos leva a admitir, ao menos conceitualmente, a existência desse ponto."

"São sábios os argumentos de Platão", secundou Epicuro, lateral esquerdo do Liceu, "mas a parte não contém o espírito do todo, tanto que, se cortarmos o dedo de um homem, ele cairá ao chão, deixando de cumprir suas funções naturais. Daí, concluo que a alma está no todo, mas não na parte, com o que não podemos validar o gol."

"Pobre é a discussão que fica sem o pensamento de Epicuro", disse Zenon, túnica 10 da Academia, "porém a animação, no reino inanimado, não se dá por ligação de veias, mas por prolongamento da essência. Logo, se partimos ao meio uma pedra, uma gota d'água ou a esfera em questão, as duas partes terão idênticas qualidades, o que nos leva a considerar esse ponto como legítimo."

E assim a discussão arrastou-se por uma hora. Nas arquibancadas, os acadêmicos e liceístas vibravam a cada argumento.

Contudo, Beócio, o tosco zagueiro da Academia, irritado com aquela demora, deu um tremendo chute na bola, mandando-a definitivamente para dentro do arco adversário. Como a esfera ainda estava em jogo, o juiz Demócrito não teve outra alternativa a não ser validar o tento.

Aristóteles, irado com a atitude antifilosófica de Beócio, não quis mais argumentar e deu-lhe um soco. Depois, Platão chutou Aristóteles, Epicuro mordeu Sócrates, Zenon esmurrou Pitágoras e logo começou uma gigantesca luta, com todos os atletas agredindo-se mutuamente.

Definitivamente, o futebol não é o esporte da razão.

Do livro de crônicas sobre futebol (Os cabeças-de-bagre também merecem o paraíso), de José Roberto Torero, que reproduzo aqui nesses tempos de amor e ódio ao futebol e no futebol.


25 junho, 2010

novo coração antes de nova adoração

Ted Wilson, recém-eleito presidente mundial das igrejas adventistas, reiterou "a necessidade de reavivamento e reforma". Algumas pessoas poderão entender que é preciso radicalizar os apelos à reforma dos hábitos alimentares, enquanto outras pensarão que se carece de um novo tipo de culto para reavivar o espírito dos fiéis.
De fato, boa parte dos adventistas precisam experimentar no cotidiano os princípios de saúde oficialmente propostos pela sua igreja, mas sem radicalizações que sugiram perfeccionismo. De outro lado, há real necessidade de um reavivamento espiritual, que não passa por um novo modelo de adoração na liturgia, mas sim pela atitude diária de comunhão durante a semana que precede o culto.
Russell Burrill, em Waking the Dead, escreve sobre o significado de adoração e reavivamento (a tradução é do Pr. Isaac Meira):
"O problema repousa na tentativa de algumas igrejas adventistas de copiar os paradigmas de adoração de outras denominações. Não que esses paradigmas estejam necessariamente errados; mas quando o culto não é desenvolvido a partir da necessidade da congregação, mas através da imposição de um sistema de adoração fora da congregação, então as dificuldades surgem. Algumas pessoas têm sentido que, se elas apenas mudassem o formato de culto, repentinamente, mais pessoas "perdidas" se uniriam à igreja, cumprindo assim a Grande Comissão evangélica. Mas isso raramente acontece.
O culto semanal é significativo apenas se corações forem tocados por Deus durante a semana. Caso contrário, será apenas como artigos ornamentais adicionados à igreja, e não haverá vibração. Apenas mudar o estilo de culto sem mudar os corações dos adoradores não fará nenhum bem. Mas quando o coração das pessoas for liberto pelas boas novas do evangelho de Jesus, então o culto desse povo redimido será vibrante, não importa em qual estilo.
Trazer tambores para a igreja, trocar corais por equipes de louvor, acrescentar batidas rítmicas às músicas – essas coisas não criarão vibração genuína. Elas são artigos inúteis que criarão guerra na igreja se as pessoas não forem reavivadas primeiro. Muitas das coisas mencionadas acima podem ser utilizadas como parte do reavivamento espiritual que ocorre nas igrejas, mas o ponto aqui é: elas devem brotar dos corações renovados, não apenas serem artificialmente acrescentadas na esperança de que tragam vida. Fazer isso é como prender folhas verdes numa árvore morta. Isso pode fazer a árvore parecer vibrante a princípio, mas com o passar do tempo as folhas apodrecem, e a apatia se revelará repulsiva.
(...)
O que eu estou sugerindo aqui é que, quando você está lidando com uma igreja estagnada e declinante, não comece a renovação da igreja com a renovação do culto. Isso deve surgir como resultado de outras restaurações. De outra forma, você vai dividir a igreja e matá-la. O caminho para trazer igrejas de volta à genuína vibração raramente começa com a renovação do culto. Mas o resultado do retorno à vibração é a renovação do culto.

O texto completo está no site adoração adventista.

22 junho, 2010

saramago: a ética e a estética

José Saramago foi um artífice da palavra dos últimos 30 anos. Se as convicções de um homem espalham-se como pegadas pela sua obra, é possível enxergar o homem José nas letras de Saramago: seu comunismo retórico, seu ateísmo ortodoxo, seu humanismo ferrenho.

Saramago polarizava os debates: para os cristãos, ele era demasiadamente ateu para ser gênio; para os ateus, ele era gênio inclusive porque não era cristão. Para os cristãos mais liberais, sua estética desculpava sua ética; para os ateus neoliberais, sua gramática não desculpava seu comunismo.

Há quem ache exagerado o foco dos crentes ao Saramago ateu em detrimento do Saramago escritor. Acontece que o autor português fazia questão de destacar nos livros seu anticlericalismo e, sobretudo, suas ideias anti-Deus. De Memorial do Convento a Evangelho segundo Jesus Cristo e chegando a Caim: no pensamento de Saramago, Deus é um obstáculo à liberdade humana e as igrejas são lideradas por gente inescrupulosa e frequentadas por gente cega. Por outro lado, em Ensaio sobre a Cegueira perpassa uma espiritualidade transformadora, ainda que seja uma espiritualidade humanista. Então, como não falar dessa faceta tão marcante do genial escritor?

Em suas concorridas entrevistas, desancava a Igreja Católica e se mostrava estupefato com as atitudes do “Deus do Velho Testamento”. Tinha mais reprimendas a Deus do que a Fidel Castro.

Podemos concordar ou não com as convicções de Saramago. Não podemos é ocultar ou omitir a ética do homem em nome da estética do escritor. Afinal, eles eram a mesma pessoa.

leia também:

Aqui, um conterrâneo de Saramago defende o escritor num breve debate comigo (na seção comentários da postagem José Saramago, sentimental e hormonauta)

E aqui, um conterrâneo de Saramago não toma o partido do escritor.

foto daqui.

18 junho, 2010

o poeta, a criação e a cruz

Te Vejo Poeta

Te vejo Poeta quando nasce o dia
E no fim do dia, quando a noite vem
Te vejo Poeta na flor escondida
No vento que instiga mais um temporal
Te vejo Poeta no andar das pessoas
Nessas coisas boas que a vida me dá
Te vejo Poeta na velha amizade
Na imensa saudade que trago de lá
Contudo um poema, Tua obra de arte
Destaca-se à parte numa cruz vulgar
Custando o suplício do Teu Filho amado
Mais alta expressão do ato de amar

Certa vez, a crítica teatral Barbara Heliodora disse que as únicas imagens que não podiam ser criticadas eram as imagens reais da natureza. “Ninguém vê um pôr-do-sol e diz: ah, este pôr-do-sol está muito acadêmico”. De fato, para criticar a natureza é preciso níveis absurdos de rabujice. E quando falo natureza me refiro ao que o ser humano ainda não conseguiu destruir: a formação das nuvens, a alvorada, uma colina, uma árvore.

"Os céus proclamam a glória da criação", cantava Davi, o rei-poeta, quando, maravilhado, ficava a pensar nas obras das mãos criadoras de Deus. Os autores dessa pequena-grande canção, João Alexandre e Guilherme Kerr Neto, deviam estar com a mente repleta de lembranças bonitas do contato rotineiro com a natureza. A pontualidade da maré, o incansável surgir do sol no horizonte, a majestade de uma grande árvore; tudo é tão cotidiano que é fácil perder a capacidade de nos maravilharmos com a natureza.

Os compositores estão aí para nos lembrar que o Criador é muito mais do que um arquiteto. É um Poeta. Um Poeta que espelha Seu amor no Filho e espalha Seu dom nos seres criados.

Te vejo Poeta quando nasce o dia
E no fim do dia, quando a noite vem
Te vejo Poeta na flor escondida
No vento que instiga mais um temporal

A letra da música fala de alguém que é capaz de perceber o Poeta revelado nas obras, como um pintor cuja autoria é identificada nas cores e traços de um quadro. Esse eu-lírico vê a poesia tanto na aurora quanto no entardecer. Isso a canção deixa claro: Deus não está no dia, na noite, no vento, na flor. Antes, é a natureza que manifesta as digitais de um Criador.

Já se disse que o primeiro a rimar flor com amor foi um gênio; o segundo, um plagiador sem criatividade. Os autores de Te Vejo Poeta escapam da rima desgastada. Assim, a última sílaba de um verso nem sempre vai encontrar uma rima no fim do verso seguinte; a rima às vezes está no centro do próximo verso:
Te vejo Poeta na flor escondida /no vento que instiga mais um temporal Te vejo Poeta no andar das pessoas / nessas coisas boas que a vida me dá Te vejo Poeta na velha amizade/ Na imensa saudade que trago de lá

A canção anuncia que há algo mais pra se olhar no andar das pessoas além do balanço de quem vem e que passa a caminho do mar. É o caminhar das pessoas tão diferentes na aparência mas tão semelhantes em seus anseios de felicidade, de sentido na vida.

Numa época de relações passageiras, líquidas, que escoam pelos desvãos do tempo e da egolatria, o companheirismo de uma longa amizade está se ausentando dos relacionamentos humanos. É que grandes amizades raramente se constroem nos escaninhos do orkut. O rodízio de carros é seguido do rodízio de amigos. Os compositores da canção celebram a velha amizade ao mesmo tempo em que já sentem saudade dos amigos distantes.

A música fala da perfeição da natureza e também do homem, “a coroa da glória da Criação". No fim da canção, vemos um outro quadro, sem raios luminosos, sem noites enluaradas, sem flor, mas pintado com as cores dramáticas do sangue. Para além da tragédia do Crucificado, os autores vêem beleza na rudeza da cruz, conhecedores e beneficiários que são do plano de redenção.

Contudo um poema, Tua obra de arte
Destaca-se à parte numa cruz vulgar
Custando o suplício do Teu Filho amado
Mais alta expressão do ato de amar

Aquele Homem de dores desfigurado pela tortura é parte de um poema, de um quadro tão terrível, e ao mesmo tempo tão misterioso, que não pode ser contado entre os feitos artísticos já enunciados pela canção. É uma obra que destaca-se à parte porque não é de criação, mas de redenção. Essa obra é de arte não por causa dos painéis renascentistas e quadros barrocos inspirados pelas cenas da cruz vulgar, mas porque é a mais alta expressão do ato de amar, e “ninguém tem maior amor do que esse: o de dar a própria vida em favor de seus amigos”.

A arte, assim, está na motivação, concepção e execução do plano. Um plano que faz do Criador o Redentor que experimenta a amizade e a inimizade, a infância e a morte, e troca inexplicavelmente de lugar com a criatura. O Grande Poeta escreveu algo trágico demais, mas poemas não falam somente da árvore, mas também do machado que a corta. A Criação dá testemunho da arte do Poeta; a Cruz revela a Sua missão.

14 junho, 2010

lady gaga e a zebra caleidoscópica

O que há de novo no front pop? Muito e nada. Muito, porque a indústria pop vive de alimentar o mundo com novos rostos, novas vozes, novos corpos que se perpetuam por uma estação, se tanto. Nada, porque essa indústria vive de retroalimentar-se com shows do tipo “a última turnê da banda X”, “o reencontro dos músicos da antiga banda Y”, “o maior sucesso de todos os tempos do fim de semana”. A música pop é um baú de velhas novidades.

O mercado pop trabalha com rendas milionárias. É um mercado louco, mas que ainda não rasga dinheiro. Por isso, não abdica das fórmulas que se repetem com uma gagueira incontrolável. Nada mais representativo dessa gagueira do que o fenômeno Lady Gaga.

A nova estrela eterna-enquanto-dure do pop é Lady Gaga. Formada na Academia Madonna de Marketing Escandaloso, Lady Gaga eleva a excentricidade sexual e a bizarrice pessoal à enésima potência. E o que é que a Gaga tem? Tem música pra se dançar? Tem. Tem vídeo pra provocar? Tem. Tem roupa escalofebética? Tem. A moçoila tem tudo calculadinho para parecer uma fora-da-lei. E aí está a primeira lei do pop: a música mais banal tem que estar assessorada pelo personal style. Ou seja, no pop, música é um acessório do estilo visual.

Os leitores que fazem oposição ao partido fashionista de Lady Gaga certamente deploram também suas canções desenxabidas. Os petardos disparados pelo front pop são multivariados, vão do american brega a frangotes emos, do rebolation desvairado a rappers que cantam de galo machão. Todos esses estilos cabem no caldeirão de Gaga. Com esperteza, usa a seu favor a mistura de desfile de moda, sexo autopromocional e espetáculo circense que faz a cabeça do pop.

Pós-graduada na Academia Madonna de Feminismo Sexista, ela inverte a dominação masculina e toma para si um papel agressivo nos jogos sexuais altamente fetichizados e exibicionistas. Talvez Lady Gaga seja assim. Mas assim será também Stefani Joanne Germanotta, a pessoa por baixo das extravagâncias de Gaga? Se não for, precisa ser. Temos então uma segunda lei do pop: ser ou não ser não importa. Importa parecer que é.

Gaga não está sozinha no front. Beyoncé e Shakira também exaltam o erotismo fake e violento como forma de dominação. Todas são pós-Britney Spears, a estrela pós-Madonna. O que virá no pós-Gaga? Não sei, mas a multidão segue adorando a gagueira da música pop.

E o que tem a ver a zebra caleidoscópica? É só um título extravagante e bizarro para chamar atenção. Mas imagine quantos não pagam pra ver uma zebra dessas cantando!


11 junho, 2010

um poema: quem é o meu próximo?


Olha o homem no chão,

Roubado, meio morto

Quem terá compaixão,

Será amparo e porto?


Lá vem o sacerdote

Pelo mesmo caminho,

É certo que devote

Cuidados e carinho.


Mas ele passa ao largo

Prossegue para igreja

E lá cumpre seu cargo

E diz: “Louvado seja!”


Olha o homem no chão,

Roubado, meio morto

Quem terá compaixão,

Será amparo e porto?


Decerto o levita

Que desce e o vê também

Mas prossegue e o evita

Nem o fita. “Amém!”


Mas o samaritano

Que vinha de viagem

Tido por desumano

Levou-o à estalagem


Não pensa em perda e dano

E dá do seu dinheiro

E resume seu plano:

“O custo pago inteiro”


E ensina: “O meu próximo

Quem é? É todo aquele

De quem me aproximo.”

Pois o amor lhe impele.


Poema de Silvestre Kuhlmann, músico cristão.

Imagem: O bom samaritano (1852), de Eugène Delacroix (1798-1863)


09 junho, 2010

a pátria evangélica de chuteiras

A FIFA proibiu que as seleções que disputam a Copa do Mundo façam manifestações religiosas, como fazer rodas de oração após as partidas. Proibiu também que os jogadores mostrem camisas com inscrições relacionadas à fé. Grupos evangélicos começam a articular-se contra essa norma da FIFA. Dizem que isso fere a liberdade de consciência dos jogadores. A FIFA responde que não quer fazer de um evento esportivo um palco para religião e política (a entidade proibiu também manifestações de caráter político, embora futebol e política seja uma receita favorita nos bastidores).

A FIFA está errada? A entidade maior do futebol mundial está cerceando a liberdade de expressão, algo que se tornou um bem tão sagrado da sociedade?

Por outro lado, os mesmos evangélicos que querem ver sua fé confirmada numa competição laica estariam discutindo a liberdade de expressão e crença se, em vez de frases cristãs, um jogador vestisse algo dizendo "I belong to Buda", ou "Sou 100% Ogum"? Ou se estivesse escrito "Deus provavelmente não existe" ou "Eu também sou ateu"?

Para explicar melhor, vou tomar como exemplo o jogador Kaká, que costuma usar uma camiseta com a inscrição "I belong to Jesus" (eu pertenço a Jesus) por baixo do uniforme da equipe. Kaká evangelista? Vamos a outros fatos correlatos.

Kaká, em suas entrevistas, é comedido, e não parece alguém sempre em transe místico. Se ele fosse como alguns artistas gospel de sucesso, talvez falasse assim: "Pois é, Galvão. Aquele passe que eu dei pro Luis Fabiano foi uma iluminação do Espírito"; "aquele foi um gol realmente abençoado"; "nosso time está na unção"; "a intenção era cruzar a bola, mas ninguém sabe para onde o Espírito sopra e a bola caiu direto dentro do gol". Atenção: ler todas as frases com três exclamações.

Mas sejamos francos. Nessa corrente evangélica, para cada Kaká há cem Marcelinhos Cariocas. O primeiro é tratado como um anjo; já o segundo...

O fato de muitos deplorarem a crença na camisa de Kaká e ao mesmo tempo admirarem seu futebol excepcional e seu comportamento extracampo parece dizer que: um, muitos preferem ter o futebol como religião a ver a religião no futebol; dois, outros acreditam que a permissão para fazer proselitismo religioso em campo deve ser inclusiva, dando espaço para toda e qualquer manifestação a favor ou contra as religiões.

E quando cada um quiser aparecer com sua fé estampada (sempre nas vitórias para fazer associações com seu triunfo)? O que impedirá a liberação de proselitismo ecológico e propaganda política? E quanto aos extremistas religiosos do Oriente e do Ocidente?

Muitos evangélicos acham que a cena de jogadores ajoelhados rezando no meio do campo representa o fervor nacional-religioso. É a pátria evangélica de chuteiras “tomando o Brasil para Cristo”, como gostam os slogans gospel.

Então, cá pergunto: você já viu os jogadores logo antes de uma partida? Eles fazem uma roda abraçados, o líder grita palavras de ordem, xinga o adversário, eleva o espírito da moçada e aí todos rezam um Pai-Nosso no grito. E quando os jogadores católicos enveredam pelo “Ave-Maria cheia de graça...”? Assim é o Brasil: o maior país católico do mundo tabelando com o maior país evangélico do mundo.

Assim como tem brasileiro que só é patriota no estádio, tem cristão brasileiro que só é crente na igreja. Um vai pra rua com trio elétrico se gabar de pentacampeonato com a multidão, o outro se orgulha da multidão numa marcha religiosa com trio elétrico na avenida. Só são semelhantes na hora do gol: levantam a mão pra cima como se Deus fosse o décimo-segundo jogador. Para esses, Deus não joga dados, mas bate pênaltis.

Não há problema em agradecer a Deus por conquistas. Isso apenas demonstra um coração grato. Mas, quando isso é feito numa acirrada disputa dita "esportiva" e parece espetacularizar a fé, penso que há um desvirtuamento da religião. Não vejo "evangelicofobia" na proibição da FIFA. Isso talvez evite extremismos. Mas, quando a mesma entidade libera propaganda de cerveja na Copa, estou certo que a FIFA deturpa o sentido do esporte.



07 junho, 2010

o livro é um objeto bioagradável

Num dia de sábado feliz, amigos estiveram em minha choupana para um bate-papo acompanhado de almoço. O inevitável álbum de família foi descoberto e seguiu-se o tradicional “recordar é viver”. Entre uma desculpa e outra que apresentei sobre a caboquice (caipirice, em língua amazônica) de minhas tenras caras e bocas, revi uma foto que me chamou a atenção: eu, de aniversariante de 7 anos posando para o papai, para a mamãe, mais uma foto para a titia que tem uma sensacional máquina fotográfica descartável Love, outra foto com a bola, com o helicóptero e, o retrato de que falei, com uma revista Nosso Amiguinho.

Você tem uma foto de criança em que você está lendo um livro? Acho que isso explica meus momentos de devoção aos livros e o súbito esquecimento da vida que passava do lado.

Depois fui lembrando de que eu fuçava livros e revistas na casa de minha avó, que tinha de ralhar (sim, naquele tempo se ralhava) comigo dizendo: “Larga esse livro e vai brincar com teus primos na rua, ô criatura”. Só então eu saía.

Fui adquirindo um respeito majestático pelos livros. Aprendi (na revista Nosso Amiguinho) que não se devia largar o livro aberto no sofá nem amassar suas páginas. E também sempre lavar as mãos antes de fazer uma refeição ou abrir um livro. Se bem que, na primeira situação, não raro me ocorria um lapso de memória.

Quando entro na biblioteca pública de Curitiba, sinto um misto de reverência e conforto. Reverência pelos autores clássicos (aprendi a respeitar os mais velhos) e não tão clássicos que estão ali a espera de uma conversa amistosa ou de um diálogo perturbador. Conforto por estar na presença de tantos amigos-autores hospitaleiros (alguns nem tanto).

É assim que passeio pela biblioteca de infinitas galerias hexagonais do conto de Jorge Luis Borges, em que "a cada um dos muros de cada hexágono correspondem cinco prateleiras; cada prateleira contém trinta e dois livros de formato uniforme; cada livro tem quatrocentas e dez páginas; cada página, quarenta linhas; cada linha, umas oitenta letras de cor negra".

Na adolescência, se gosta de literatura de entretenimento. Hormônios e neurônios travam um conflito desigual e a mente prefere aquilo que fala ao coração. Definitivamente, não é hora (salvo as exceções de honra) para dramas existenciais, contos filosóficos e discussões epistemológicas. Essas maravilhas do aborrecimento ficam para mais tarde, quando a poeira hormonal já assentou e a gente começa a encontrar personagens cujos sentimentos e vontades são parecidos com os nossos (ou vice-versa).

Hoje tenho menos paciência para a ficção. Fiquei sério demais? Na verdade, tenho dedicado meu tempo a ensaios sociológicos, teológicos e culturais. Parece chato, mas não é. Nem é presunção de erudição. Fujo disso. Escolho autores que escrevem verdades com a fluidez da boa ficção e escritores que escrevem ficção como se dissessem as maiores verdades. Ando muito seletivo (é a bendita idade?), mas não abomino o romance, a comédia e a tragédia. Não queimo livros porque não gosto deles. Aliás, desconfie de gente que queima livros; homens que queimam livros, queimam pessoas.

04 junho, 2010

o que fazemos com o Cristo vivo?

O que teria acontecido com o corpo de Cristo, sepultado há dois mil anos? Foi sequestrado pelos seus seguidores? Foi escondido pelos romanos? Ou Cristo de fato ressuscitou?

Uma simples resposta positiva a uma das duas primeiras questões mudaria completamente o sentido do cristianismo. O apóstolo Paulo já adiantava as consequências: "Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé". No entanto, se sim, Cristo ressuscitou dentre os mortos, então essa verdade não apenas corrobora o cristianismo bíblico como também altera o sentido da existência humana.

Desse modo, a ressurreição de Jesus não seria um mito fundador da religião cristão. Ao contrário, seria uma verdade lógica. Seria um fato. A crença nesse fato mobilizou as primeiras comunidades cristãs que procuravam viver de acordo com os ensinamentos de Cristo. Três desses ensinos moviam seus corações: eles ajudavam-se mutuamente em tudo (o"amai-vos uns aos outros"), eles disseminavam a boa nova do evangelho em todos os lugares (o "ide e pregai"), seus mártires enfrentavam a morte com a inabalável certeza de que um dia ressuscitariam e viveriam com o seu Senhor (o"virei outra vez").

O amor, a missão e a esperança configuraram a crença da igreja primitiva. Tudo isso, porém, estava baseado num fato histórico e não numa lenda edificante. Se a ressurreição é real, então ela deve ser tratada como um fato extraordinário, único. Acreditar nesse fato condiciona todas as ações. Foi assim com os apóstolos, que de homens hesitantes passaram a homens confiantes, intrépidos. Neles cresceu a autoconfiança porque fundamentavam sua confiança no Alto.

O evangelho não pode basear-se somente na “cruz”, mas no “Cristo ressurreto”. Se Cristo de fato ressuscitou, e ressuscitou como fato histórico e não peça mitológica, a Bíblia tem de ser lida à luz desse evento, o que modifica amplamente o sentido da vida e a compreensão teleológica (o propósito, os fins) da história humana.

Assim, me parece que há três modos de agir quanto ao conhecimento da ressurreição:
1) Cristo não ressuscitou, então vã é nossa pregação e vã é nossa fé;
2) Cristo ressuscitou, mas nossa fé é displicente e descompromissada em relação a essa garantia bíblica extraordinária;
3) Cristo ressuscitou e nosso estilo de vida e nossa fé refletem o amor, a missão e a esperança que procedem desse fato.

Então, o que fazemos hoje com o Cristo vivo?