30 dezembro, 2012

meus livros e músicas de 2012

Comecei a postar essas listas anuais na época em que comecei o mestrado. Desde então (e ainda agora no doutorado), o tempo para leitura de ficção ficou menor diante das obrigações de leituras acadêmicas e ensaios literários. 

Meus livros do ano:



Beethoven (Lewis Lockwood) – obra de fôlego que analisa a vida e a música do meu compositor preferido há muito tempo,desde as aulas com o mestre Jael Enéas. Os amigos preferiam me ouvir tocando a "Pour Elise", mas meu espírito gostava mesmo era da "Sonata ao Luar".

A reinvenção do mundo: um adeus ao século XX (Jean-Claude Guillebaud) – a nova mentalidade social, a tecnologia, a cultura e nós que vivemos em meio a tudo isso. Para não renunciar à mudança por causa do passado e nem aprovar o novo só porque é o futuro.

A new song for an old world (Calvin Stapert) – nos primeiros séculos do cristianismo, pensadores da estirpe de Clemente de Alexandria, Tertuliano, João Crisóstomo e Agostinho escreveram textos sobre música que ainda são bastante atuais.


Em busca de identidade (George Knight) – um pequeno livro que mostra as tensões teológicas dentro da história do adventismo. Deveria ser obrigatório para aqueles que têm a ilusória certeza de que o pensamento religioso/doutrinário já nasceu pronto e acabado.

Las culturas musicales (Francisco Cruces et. al.) – conjunto de ensaios escritos por pesquisadores essenciais da etnomusicologia. As relações entre antropologia, cultura, sociedade e música favorecem um olhar mais abrangente não apenas sobre a música, mas sobre as sociedades que praticam música.

O livro de areia (Jorge Luis Borges) – só o conto “O Outro” já vale a leitura do livro inteiro, que tem outras pequenas pérolas do grande escritor argentino.

A tentação do cristianismo: de seita à civilização (Luc Ferry & Lucien Jerphagnon) – como uma religião estrangeira seduziu o império romano e mudou aquele mundo. Publicação do debate fascinante entre os dois pensadores.


A selva do dinheiro – reunião de contos sobre o ser humano e o dinheiro. Olha a escalação de escritores: Tolstoi, Tchecov, Poe, Joseph Conrad, Eça, Hawthorne, Dostoiévski, Maupassant, Kafka, Fitzgerald, Gogol, London, Henry James, ...



Meus discos do ano:

Pra Ver o Rei (Curitiba Coral) – melodias fortes, ritmos empolgantes, letras profundamente convictas do sentido de missão. Marcas características do trabalho de Daniel Salles, regente e compositor capaz de simplificar a teologia sem abdicar da poesia.

Princípio e Fim (Leonardo Gonçalves) – um disco autoral sem medo de ser erudito na produção musical e na expressão teológica.

Vida (Joyce Zanardi) – A simplicidade sofisticada, a melodia bonita e despretensiosa: como é bom ouvir uma cantora sem a menor afetação vocal (curiosamente, jovens cantoras Joyce Carnassale e Riane Junqueira têm a voz limpa, sem maneirismos na performance - seria efeito da "escola" do maestro Lineu Soares para a voz feminina? rs).

Europa Konzert from Lisbon – a Filarmônica de Berlim na regência de Pierre Boulez, Maria João Pires ao piano, tocando maravilhas de Ravel, Mozart e Bártok. Deleite puro.

Brasileiro: Villa-Lobos and Friends – com o brilhantismo de sempre, o fenômeno Nelson Freire reconta a trajetória da música para piano de compositores brasileiros.


Leaving Home: Rythm – documentário inglês em que o maestro Simon Rattle fala sobre o ritmo na música orquestral do século XX. A Sinfônica de Birmingham toca trechos de obras de Stravinski, Varèse, Messiaen, Boulez, Mahler e Ligeti. Meus alunos de História da Música agradecem.

Canteiro – Não é “música pra churrasco” (sem preconceito, mas com trocadilho). As rádios podem ter abandonado a finesse e a poesia, mas André Mehmari e seus amigos músicos e letristas insistem em fazer música popular requintada e inteligente.

Arautos do Rei, 50 anos – gravação emocionante do concerto do cinquentenário que traz as vozes e as músicas que fizeram história na música cristã. É mais que flashback. É flashblessing.


24 dezembro, 2012

meus melhores filmes de 2012


Minha lista de melhores não dos melhores filmes desse ano, mas de filmes que vi neste ano não importa o ano de sua produção. Em 2012, assisti obras-primas como A Separação e Na Estrada da Vida, ótimos dramas como Jean de Florette e A Morte e a Donzela, animações estupendas como  A Viagem de Chihiro e filmes não tão bons mas com interessantes questões teológicas, como Prometheus. À lista:

Brinquedo proibido (1952) – na França da 2ª Guerra Mundial, uma menina perde os pais e encontra a amizade de outra criança, filho de camponeses que lhe dão abrigo. O travo amargo da guerra é aliviado por momentos inesperados de humor. Mas se prepare, ao contrário do engodo de A Vida é Bela, em que Aschwitz vira Disneylândia, este pequeno filme não maquia o horror da guerra para consolar o espectador.

4 meses, 3 semanas e 2 dias (2007) – após assistir a esse filme, qualquer que seja sua opinião a respeito do aborto, contrária ou a favor, ela vai mudar. Porque esta não é mais uma comédia adolescente, mas um drama que mostra como o processo pode ser traumatizante para a mulher. E os homens dessa história? Bem, “boys” just wanna have fun.

Do jeito que ela é (2003) – essa história de tolerância e aceitação familiar trata as diferenças inconciliáveis do relacionamento entre pais e filhos com a dose certa de emoção e realismo. Se fosse uma letra de música, o filme seria: “você diz que seus pais não lhe entendem, mas você não entende seus pais”.

Fausto (2011) – nessa versão da milenar história de um homem que faz um pacto com o diabo, o homem é um cientista e o diabo é um comerciante. Em meio a diálogos de alta voltagem teoógica, e filmando ora paisagens deslumbrantes ora cenas atordoantes, o cineasta russo Alexander Sokúrov nos diz que o grande mal que assola o homem não é o embate entre ciência e religião, mas o cientificismo que repudia a fé e o amor pelos semelhantes.

O garoto da bicicleta (2011) – um adolescente abandonado pelo pai passa a desenvolver sentimentos extremos de fúria e solidão, manifestando tanto o ódio quanto a vontade de receber afeto. Uma mulher desconhecida passa a visitá-lo no orfanato e acolhê-lo em sua casa. Uma parábola sobre o amor incondicional.

O artista (2011) – um filme mudo sobre os tempos do cinema mudo. É uma proeza técnica o fato de espectadores do século XXI se deliciarem com a inventividade do cinema que, sem dispensar a música, abdica da voz.

Pina (2011) – espetáculo visual impressionante dirigido por Wim Wenders que reencena as revolucionárias coreografias de Pina Bausch, a mulher que trouxe o balé para o risco do cotidiano e lhe deu gestos simples, mas nem por isso menos sofisticados.

A separação (2011) – a princípio, parece apenas ser sobre a vida de um casal em processo de separação no Irã. Mas pouco a pouco começam a entrar aspectos da religião islâmica que vão sendo discutidos sem apontar soluções apressadas. É um painel rico de situações cotidianas e surpreendentes que nos faz perceber como boa parte das encenações familiares filmadas em Hollywood são apelativas, sentimentalóides e fotogênicas.

P.S: Eu já não esperava grande coisa, mas O Espetacular Homem-Aranha deveria se chamar o apenas razoável homem-aranha. Com mudanças forçadas na história, mais coincidências que novela do SBT, teia comprada na Amazon e uma aluna de ensino médio como estagiária-chefe de uma megacorporação, não deu pra engolir esse caça-níqueis. 



19 dezembro, 2012

dave brubeck e ravi shankar

Dois músicos geniais faleceram em dezembro: o pianista Dave Brubeck e o músico indiano Ravi Shankar. Há pouco mais de 50 anos, ambos passavam a estabelecer novos parâmetros para a escuta e a prática de sua música. O jazz não seria mais o mesmo após o álbum "Time Out", de Brubeck e sua magnífica trupe, e os sons da Índia atingiriam uma popularidade mundial inesperada pelas mãos de Shankar. Nada mais a declarar: só tire um tempo para ouvi-los.

Dave Brubeck, "Take Five":




Ravi Shankar e sua filha Anoushka (ele também é pai da cantora Norah Jones):

 

11 dezembro, 2012

o fim do mundo: seis ficções e uma verdade


O cinema trata o fim do mundo como se fosse verdade. Uma verdade de duas horas. O espectador fica em suspense quando assiste “O Dia depois de Amanhã”. Quando o filme acaba, ele sai para comer como se não houvesse amanhã. Para Hollywood e para o vendedor de pipocas, o fim do mundo pode ser só ficção, mas o lucro é bem real.

Como os maias “agendaram” a destruição do planeta para o dia 21/12/12, vamos lembrar de seis ficções e uma verdade sobre o fim do mundo:

Ficção 1: Presságio
O começo: números e cálculos feitos por uma garota há mais de 50 anos são interpretados como previsões (acertadas) de catástrofes. O fim: aniquilação total. O lado religioso: em meio a várias referências bíblicas (4 cavaleiros, profecias), arruma-se até uma espécie de “nave de Noé”.

Ficção 2: O Fim do Mundo
O começo: cientista descobre que um planeta desgovernado atingirá a Terra. O fim: colisão de planetas. O lado religioso: uma arca de Noé espacial levará alguns habitantes sorteados para um lugar seguro.

Ficção 3: O Abrigo
O começo: um homem tenta avisar a todos sobre a iminente destruição. O fim: o apocalipse tarda mas não falha. O lado religioso: ninguém acredita na sua pregação. O filme pode ser um tanto enigmático, mas possui um subtexto teológico instigante. 

Ficção 4: A Última Noite
O começo já é o fim: o mundo vai acabar à meia-noite do último dia do ano de 1999. O lado religioso:  descrença geral. 6 horas antes do fim, alguns personagens se conformam e outros querem fazer tudo o que não fizeram antes na vida. "Quando o Filho do Homem vier, achará fé na Terra?"

Ficção 5: 2012
O começo: a profecia dos maias vai se cumprir no dia marcado. O fim: monumentos (e grande parte da população) não sobrevivem. O lado religioso: os que sobreviveram vão recomeçar a vida numa nova região que se formou após a catástrofe planetária. O apocalipse e o gênesis sem a intervenção de Deus.

Ficção 6: Deixados para Trás
O começo: após o arrebatamento dos fiéis, o mundo é entregue ao Anticristo. O fim: a interpretação teológica de Tim LaHaye é mesmo o fim. O lado religioso: o filme dá uma requentada numa teoria (Arrebatamento Secreto) surgida em 1827 e se torna o engodo mais lucrativo do cinema evangélico norte-americano.

Verdade 1: O livro do Apocalipse
Lido apressadamente, esse livro parece uma história mítica e tremendamente excludente. Mas, lido com acuidade, o Apocalipse também pode ser visto como uma história de amor. É que, com relação ao juízo divino, o amor vem junto com a justiça.  Por isso, para quem não crê, soa terrível. Para quem crê, soa esperançoso. Mas atenção: segundo a Bíblia (Mateus 7), até para quem diz crer pode não haver um final feliz.

As variações do fim do mundo contadas por livros e filmes vão da melancolia ao escárnio. Banalizado por descrentes e desacreditado por causa de fanáticos marcadores de datas, o fim do mundo, pelo menos de acordo com a Bíblia, representa um novo começo. Como você faria se quisesse entender seriamente qualquer assunto, sugiro que o leitor procure os especialistas e teólogos que tratam do tema como uma verdade coerente.

É incrível como Hollywood nunca pretendeu filmar a versão bíblica do apocalipse. Uma história de grandes conflitos, esperança e concretização de antigas profecias: se os cristãos não proclamarem corretamente, as pedras hollywoodianas clamarão? 

07 dezembro, 2012

a parábola do bom legalista


Certo dia, porque é sempre em certo dia que esses eventos se dão, um grupo de alunos subiu ao andar onde seu professor corrigia provas e lhe perguntaram: “Mestre, é mais fácil um camelo entrar voando por essa janela do que um legalista ir para o céu?”

O professor, sabendo que camelos não voam e que todo legalista pensa que a lei dá asas, contou a seus alunos a seguinte parábola:

Um homem ao sair para o trabalho encontrou um livro no chão. Pegou, olhou, folheou e guardou o livro que tinha por título uma só palavra: “Lei”. E pensou: “Cristo não veio revogar a lei, mas cumpri-la. Que bom que eu já obedeço à lei, ao contrário desse meu colega de trabalho evangélico que não sabe o que é verdade.” E assim passou a semana como o legalista que era, exigindo muito, pedindo um pouco e não agradecendo por nada. Chegando o sábado, foi à igreja achando que sua observância da lei lhe dava créditos e méritos de salvação.

Outro homem ao sair para a igreja encontrou um livro igual no chão. E quase disse em voz alta: “Cristo não veio revogar a lei, mas cumpri-la. Eu procuro obedecer toda a lei, ao contrário dos meus irmãos da igreja que não sabem que estão condenados”. Chegando à igreja, mediu o tamanho da saia da irmã e o dízimo do irmão, saiu quando o grupo jovem cantou, voltou quando o pastor começou a pregar, dormiu de tarde, esperou o sol se por e foi, contrariado, levar a esposa ao restaurante.

Um terceiro homem encontrou o mesmo livro. Ele não tinha o costume de bater no peito, e por isso, disse apenas: “Cristo não veio revogar a lei, mas cumpri-la. Eu procuro obedecer toda a lei, mas não sou capaz. Como eu preciso da tua graça, Senhor”. E assim passou a semana sendo amável e honesto. Chegando o sábado, foi à igreja, e mais uma vez entendeu que legalista bom é aquele que deixa de sê-lo por que reconhece sua condição caída e obedece toda a lei por amor, e não por orgulho de se salvar ou por medo de se perder.

Sua oração de todos os dias era: “Senhor, que eu seja alguém leal à Tua casa sem ser um legalista em Tua causa”.

Tendo ouvido estas coisas, um dos alunos perguntou: “Agora o senhor vai nos dizer qual destes três agradou a Deus?”

“Não”, respondeu-lhe o professor, “agora se pergunte qual dos três é você”

Joêzer Mendonça