29 maio, 2009

graças a todos

Enfim, a caminhada do mestrado chegou a bom termo. Na quinta-feira, 28/05, apresentei a defesa da minha dissertação na UNESP. E viu a banca que o trabalho era muito bom. Ouvir os elogios (desculpem o baita e byte surto de imodéstia, já vai passar) e as sugestões para este trabalho e para futuras pesquisas, pronunciadas por especialistas que admiro e respeito, os professores doutores Alberto Ikeda (etnomusicólogo - UNESP) e Leonildo Campos (ciências da religião - Universidade Metodista, SP), validou e aprovou o suor deste escriba que ora torna-se mestre em música/musicologia.

Minha orientadora, profa/dra Dorotéa Kerr, elevou meu nível de exigência e estimulou o raciocínio e a formulação adequada.

Um galo sozinho não tece uma manhã
Ele precisará sempre de muitos outros galos

Esses versos de João Cabral de Melo Neto dizem tudo sobre a gratidão de um pesquisador como eu, que não teci essa dissertação sozinho, mas precisei
de quem me indicasse a porta de entrada dos livros: meus pais,
de quem compartilhasse comigo as opiniões sobre os temas que eu estudava: os colegas pesquisadores que chegaram antes de mim e divulgaram seus labores em artigos e livros,
precisei até de quem tinha uma opinião diferente e me forçava a estudar mais para entendê-lo.

Precisei também da tranquilidade e do suporte de casa, comida e roupa lavada quando morei um ano em sampa, frequentando as aulas presenciais e os arquivos de bibliotecas: obrigado Julison, obrigado Ellen, por me disponibilizar um "quarto do profeta" ultra-hi-tech com tv a cabo e internet wireless.
Caronas, impressões, formatações e quebras de páginas: valeu, Kelly e Rodrigo. Ah, este ainda aguentou calado duas ou três sessões em que discorri sobre a pesquisa falando como se não houvesse amanhã.
Ao mano e kids-sitter mais intelectual de Curitiba: Raulison, thanks.
Daniel Salles, the man: amigo de trajetos, partituras e muito incentivo.

Ninguém ouviu mais e dividiu mais do que a Silvia, a mulher que me disse Vai estudar, eu fico aqui com nossos filhos. Esse "ficar aqui" significava ficar em São Luís enquanto eu seguia para São Paulo. Sem o saber (ou talvez sabendo que é sempre assim), o prof. Leonildo disse a ela gentilmente Parabéns à co-autora do trabalho. Há um ano e meio morando em Curitiba, ela esteve presente na pequena audiência da minha apresentação na UNESP. Afinal, eu precisava de uma testemunha imparcial como minha esposa para que não me deixasse mentir sozinho pelos sites da vida.

Deus me oportunizou conhecer todas essas pessoas de que falei. Sem Ele e sem eles, nem eu nem a pesquisa seríamos o que hoje chegamos a ser.

A quem interessar possa, a dissertação intitulada "O gospel é pop: música e religião na cultura pós-moderna" estará em breve disponível na biblioteca do Instituto de Artes da UNESP.

16 maio, 2009

a megadecibelização do louvor

Quando no livro de Amós (capítulo 5) se lê que Deus pede para que "se afaste dEle o barulho dos instrumentos de louvor" deve-se entender que Ele não está dizendo que se pare de tocar qualquer instrumento musical que seja. O problema, na verdade, é o falso espírito de louvor de um povo que O louva com seus lábios mas O desonra em seus corações, fazendo da música apenas um ruído desagradável. Vê-se um Deus menos preocupado com o estilo musical e mais atento ao estilo de vida do adorador.

Porém, se alguém disser que os versos de Amós se referem ao atual volume das bandas de louvor estará exegeticamente errado, mas auditivamente correto. A intensidade exagerada das vozes e instrumentos se deve primordialmente à má direção musical - onde está o equilíbrio entre os instrumentos e as vozes dos cantores do grupo e da congregação? Submersa pelos decibéis empolgados da banda, a congregação acaba assistindo a um concerto. Essa megadecibelização do louvor contribui para uma inversão de papéis.

Com humor e muita pertinência, John G. Stackhouse Jr., professor de Teologia e Cultura no Regent College em Vancouver, Canadá, faz algumas observações a respeito da intensidade do volume dos grupos de louvor das igrejas:

" (...) Eu estava num acampamento cristão, há não muito tempo, onde nos reunimos para cantar ao redor de uma fogueira. Apareceram guitarras, mas, um pouco antes que eu pudesse ficar nostálgico e sugerisse que cantássemos “Pass it on”, apareceu o pedestal de um microfone também. Aparentemente três guitarras para quatro pessoas não eram suficientes. Não, elas tinham que ser amplificadas.

"Eu não tenho 110 anos de idade, amigos. Eu cresci nos anos 70 com montes de amplificadores Marshall e bandas barulhentas de heavy metal o suficiente para competir com boeings 747 e ganhar. Tenho tocado em bandas de louvor por mais de 30 anos e muitas músicas passaram pelo meu teclado Roland ou baixo Fender ou guitarra Godin. Além disso, sou um homem de meia idade e minha audição está propensa a ir falhando. Mas, ainda acho o som de quase todas as bandas em quase todas as igrejas que visito muito alto - não apenas um pouco alto, mas desconfortável, e mesmo dolorosamente, alto.

"Então, aqui estão cinco razões para que cada um diminua o som um ponto – ou talvez três ou quatro.

"Primeiro, eu sei que dizer isso significa quebrar as regras dos músicos – do mesmo modo que os mágicos nunca devem revelar um segredo – mas aumentar o volume é um truque barato para aumentar a energia do ambiente. A comédia This is Spinal Tap nos mostrou todos os absurdos truques de som utilizados para compensar a falta de talento. (Os botões das guitarras dos componentes de bandas foram modificados para ir até 11.) Não compensa aumentar a amperagem da mediocridade para transformá-la em MEDIOCRIDADE.

"Segundo, quando vocês não são muito afinados – e vamos encarar isso, a maioria dos cantores e instrumentistas não está próxima de um tom perfeito – aumentá-lo só faz prejudicar mais. Se eu ouço um “cantor afinado” tendo problemas em decidir se atinge a terça maior ou menor e ao invés disso ele chega a um meio termo com um volume alto, eu sinto como se a minha cabeça fosse rachar.

"Terceiro, as caixas de som, usadas na maioria das igrejas com o sistema PA, não devem colocar muita força nos pianos, baixos e baterias. Assim nós estaremos sendo triturados com um som desagradável e estrepitante – o que não induz à adoração.
"Quarto, considerem que vocês podem estar excluindo as pessoas mais velhas que, em sua maioria, não gosta do volume do Guns N´ Roses na igreja. E se vocês desconfiarem que os mais velhos estejam encantados por trás de seus sorrisos fechados, perguntem a eles. Eu desafio vocês.

"Quinto, deixe-me falar um pouco da história da igreja e de teologia pra vocês. Nos tempos em que a música se desenvolveu na Palestina [sic] no século XVI, tornou-se muito requintada e adornada para cantores comuns. Então os cristãos iam à igreja para ouvir um padre e um coral. (Atualização: Levi Tavares sugere que onde se lê na Palestina leia-se, mais acertadamente, com Palestrina - Giovanni da Palestrina, compositor da Renascença).

"(...) O problema hoje, certamente, é a raridade de músicas elaboradas. Nós poderíamos utilizar um pouco mais de arte, na verdade, do que normalmente conseguimos, com a simplicidade e formatos musicais repetitivos de muitas músicas de adoração contemporâneas.

"Não, o contraste com a Reforma é a insistência dos dias modernos de que as pessoas sejam o centro das atenções. Nós fazemos isso ao permitir que uma banda com seis membros faça mais barulho do que uma congregação lotada. Mas o culto na igreja não é um concerto no qual o público canta com os cantores principais. Musicistas – cada um deles, incluindo os cantores - acompanham o louvor da congregação. Eles deveriam estar misturados ao som o suficiente apenas para fazer a sua parte, conduzindo e apoiando a congregação (...)".

Ilustração e trechos do texto de Stackhouse Jr na Christianity Today International traduzido por Ana Maria Neves para o site Cristianismo Hoje.

08 maio, 2009

poemãe

Agora que as compras para o Dia das Mães têm a sublime função de debelar a crise financeira mundial, mais que uma retribuição materno-comercial esse dia torna-se um dever cívico global. Como uma pátria-mãe gentil, o governo reduz impostos e sobretaxas a fim de estimular os filhos deste solo a saírem empunhando seus cartões de crédito pelos shoppings e camelódromos.

Quantas vezes já não se cantou “mamãe, mamãe, és a rainha do lar” ou quantas serenatas já não louvaram o “avental sujo de ovo” da mulher que tudo suporta? Se antigamente o povo (não muito a contragosto, diga-se) aguentava as xaroposas canções de homenagem às mães na voz de Agnaldo Timóteo, agora ouve-se ardorosamente os mercadores berrantes das Casas Bahia.

O cancioneiro nacional idolatrava e idealizava a figura da mãe como sofredora por um filho ingrato, como provedora de todo afeto que se encerra, cujas boas chineladas de correção doem mais no seu coração do que nos fundilhos do filho rebelde. Eu também já cometi uma canção de homenagem às mães. E também rascunhei uns versos que acho um tanto melhores do que a canção. Mas não se engane: o estilo é perdoavelmente sentimental. E dá pra ser diferente com a mãe da gente, puxa vida?


POEMÃE

Essas letras ajuntadas são

Para quem cruza destemida o rio da tristeza
E desemboca esperançosa na foz da alegria.
Para quem sabe que o desespero e sua paga indigesta
É só um degrau de fé numa escadaria de festa.

Para quem se arrisca a um bom sucesso
E petisca um campo grande
Pra quem avista um porto alegre
E conquista o coração da menina sem seara
E do menino que não pára.

Mulher da chuva e do sol
Mulher da mata e do concreto
Mulher de alma que ama
Mulher que ama as almas.

Nossa mãe! Que bom que essa mulher é a minha mãe!


Antes que o tempo se vá: Os versos acima foram escritos para minha mãe Lindalva em dezembro de 2007 a pedido do IACS, um dos tantos colégios em que ela deixou suas marcas de afeto-educação-trabalho. Essa mulher-fábula, que saiu do fundo das amazonas e chegou ao chuí, não vai ficar só com esses versos nesse dia, claro. Apareça com esse papo de poema e de mãos abanando pra ver o que acontece!