29 junho, 2011

a expansão evangélica e a retração intelectual do cristianismo

O cristianismo evangélico é um fenômeno que cresce a largos passos. Números do IBGE e da FGV dão conta de que os evangélicos já compõem 18% da população brasileira. Isso quer dizer, então, que a cultura do país está sendo impactada, certo? Errado.

Por que a cultura evangélica não tem abalado as estruturas da cultura da mídia, do pensamento universitário, da cosmovisão secular humanista, do modo de fazer política?

Em No place for truth, David Wells lamenta o fato de que “todo esse inchaço de crescimento evangélico não fez qualquer impacto cultural. [...] A presença de evangélicos na cultura norte-americana apenas causou uma marolinha”.

No Brasil, o cristianismo evangélico avança. Há uma bancada evangélica no Congresso, músicos cristãos em programas de TV, milhares de pessoas marchando por avenidas. Tudo isso é importante e dá visibilidade ao cristianismo. Mas isso tudo nos dá credibilidade? Quanto disso tudo tem feito com que os descrentes nos vejam como uma alternativa séria ao secularismo e não como uma classe de ignorantes intelectuais e salteadores da fé?

Duas questões chamam a atenção na expansão evangélica: o anti-intelectualismo e o desejo de reconhecimento social. Debater e ensinar a doutrina, dialogar com as vozes da tradição cristã, ler e fazer pensar são atitudes que estão sendo esquecidas por pastores. Aliás, muitos deles têm sido transformados mais em gestores de recursos do que em proclamadores da doutrina. Para o filósofo e teólogo William Lane Craig, parte da culpa é dos centros de formação de pastores.

Na boa intenção de formar evangelistas, as faculdades de teologia acabam desestimulando a erudição. Já li artigos conclamando os mestres e doutores a abandonar o pensamento teórico e partir para a prática. Entendo essa preocupação urgente de levar a mensagem ao mundo, mas não compreendo porque alguns líderes veem a discussão teórica como um fator que impede a prática. Ora, a pesquisa e a formulação de ideias e conceitos é justamente a sala de ginástica que prepara os líderes no exercício da argumentação e na defesa da fé.

A cosmovisão relativista do nosso século não foi elaborada nas praças ou nos salões, mas em saletas universitárias onde brilhantes pensadores propunham ideias que se tornaram paradigmas sociais de comportamento e pensamento que, infelizmente, excluem a filosofia cristã. 

Estudantes e intelectuais ainda costumam ser vistos como obstáculos à vivência da fé. Dizem que a fé tem de ser simples e pura. Como se o desenvolvimento intelectual fosse o contrário de pureza e fervor. Na verdade, a leitura e o conhecimento de assuntos da fé aprofundam a apreciação das verdades divinas. Como dizia Anselmo, teólogo do século XII, a fé busca a inteligência, o entendimento (fides quarens intelectum).

Mas é espantosa a quantidade de crentes que só fica no templo durante o sermão. As classes de lições e estudos bíblicos estão esvaziadas ao passo que pregadores tentam comover as pessoas com uma historinha lacrimosa ao som de um fundo musical. As dezenas de músicas de um artista gospel são decoradas enquanto os versos bíblicos só são desengavetados em cultos informais vespertinos.

Não é de se admirar que os hinos de Isaac Watts, John Wesley e Lowell Mason levem de 3 a 4 estrofes para enunciar os fundamentos e a alegria de sua esperança enquanto hoje somos convidados ao louvor e adoração “seven-eleven”: sete versos, onze vezes repetidos. Parte desse repertório pode ser agradável e funcional, mas não esconde sua influência anti-intelectual.

Além do desestímulo à erudição, o evangélico contemporâneo tem um forte desejo de ser reconhecido socialmente. Isso não é um problema. O cristianismo precisa ser apresentado à sociedade como uma escolha espiritual e intelectual respeitável. No entanto, as formas de divulgação evangélica muitas vezes têm trazido mais opróbrio que respeitabilidade.

No anseio por converter as pessoas, a igreja não pode perder suas singularidades que a distinguem. E não estou a falar de doutrinas distintivas, mas de modos de conduta. O cristianismo evangélico precisa reconsiderar as ações baseadas na ideia de que estamos cristianizando a cultura do consumo, do espetáculo, da publicidade, da moda, do marketing dos grandes números.

Como é que o cristianismo evangélico quer ser uma alternativa política se seus bispos e pastores são flagrados em corrupção financeira? Como ser uma alternativa cultural se shows, baladas e raves gospel são divulgadas como a opção para baladas seculares? Como “cristianizar” a publicidade se a cantora gospel virou garota-propaganda de marcas de roupas e acessórios? Como ser alternativa espiritual se estão a medir a unção divina com base em troféus de “melhor isso” e “melhor aquilo”?

Enquanto a ideia de que cristianizar for somente remover o fumo e o álcool das festas e inserir uma letra religiosa na dance music, não seremos uma alternativa de conduta, mas apenas uma opção “careta”. Ah, mas os crentes não queremos ser confundidos com gente careta, certo?

Enquanto a erudição for considerada algo de menor importância para a missão e a edificação espiritual dos cristãos, ainda perdurará a noção de que a teologia é irrelevante e de que a vida cristã é feita de estímulos sensoriais.

É preciso espanar o pó da superficialidade teológica. Quando não, a lama da distorção doutrinária. Por isso, precisamos trabalhar e orar por uma igreja cujo pensamento filosófico e teológico não se acomode na periferia do conhecimento humano.

22 junho, 2011

a música do mundo melhor, mas sem paraíso

Um repórter americano embarca de volta para os EUA quando o regime sanguinário do ditador Pol Pot passa a perseguir e matar todos os opositores. Seu amigo cambojano é preso e forçado a entrar no sistema de reeducação do novo governo.

Esse é o enredo do filme Os Gritos do Silêncio (1984), no qual há uma cena que comoveu meio mundo. É quando o filme quer passar a mensagem de que a insanidade bélica pode ser curada por meio da fraternidade entre as pessoas. Parece um sonho, mas se todos se unirem, o mundo poderá viver sem divisões, como se fosse realmente um. Eu também gostaria que fosse assim. E o John Lennon também. É dele a bonita canção que o filme faz tocar: “Imagine”.

Só há um problema. Não com a tocante melodia da música. Não com as boas intenções do filme ou do compositor. A questão é outra e talvez tenha passado despercebida para o diretor do filme, para o responsável pela trilha sonora e para nós espectadores.

A letra de Lennon almeja um mundo sem ambição, cobiça, egoísmo. Sem o imperialismo assassino, sem os motivos torpes para matar e também sem motivos pelos quais morrer (nothing to kill or die for, diz a letra).

“Imagine que não exista nenhum paraíso, é fácil se você tentar; imagine que não há inferno e que acima de nós exista só o céu [o espacial]”. John Lennon devia ter em mente a intolerância e a violência de sistemas religiosos que mataram em nome de Deus e de Alá, pois mais à frente a letra da canção diz: “imagine que não há mais religião”.

Nos anos 70, o Lennon vivia uma fase família (sua canção "Woman" é uma linda declaração de amor à mulher) pacífica e pacifista. Mas ele imaginava um mundo sem religião alguma ou sem um certo tipo de religioso? Não sei dizer ao certo. Quanto ao filme, percebo que seu diretor, pretendendo usar a canção "Imagine" por seu simbolismo de paz, acaba se contradizendo, já que ao denunciar o sistema antirreligião de Pol Pot, usa uma música que imagina um mundo de paz, mas também sem religião. E o regime de terror de Pol Pot preconizava um mundo sem Deus e sem religião. E que matava em nome de Deus nenhum.

As cenas de “reeducação” dos prisioneiros do governo cambojano no filme mostram a tentativa de extirpar da mente das pessoas a ideia de qualquer religião. O comunismo soviético agiu da mesma forma. Quiseram sair da religião para entrar na história. Mas entraram na história da violência, do campo de concentração, da repressão facínora.

A canção de Lennon é querida por muita gente e tem uma legítima intenção pacifista. Porém, escritores ateus como Sam Harris e Richard Dawkins também imaginam um mundo sem religião. Ao criticar as religiões como um mal ao mundo, eles poderiam ser lembrados de que os regimes políticos que almejaram um mundo sem religião e sem religiosos, não só lhes tiraram a liberdade de culto (e de ideologia política) como também lhes tiraram a vida.

O cristianismo prediz um paraíso no céu e não na terra. Até porque, por aqui, ele é muitas vezes tratado como balcão de negócios, como tribunal de censura, como cartola para mágicos da fé. E, francamente, isso não é culpa de nenhum descrente. Já o comunismo lutava para ver a classe operária chegando ao paraíso das conquistas sociais. O capitalismo se contenta em ver todas as classes chegando ao paraíso das compras. O ateísmo gostaria de chegar a um paraíso sem Paraíso.

17 junho, 2011

os irmãos Arrais e a introdução atualizada

As histórias bíblicas parecem não mais fazer sentido para boa parte da juventude urbana contemporânea. Essas narrativas passaram a ser entendidas somente como alegorias cujos temas (pecado, redenção) são recodificados de acordo com as situações particulares de cada indivíduo. Essa é a análise certeira do sociólogo Fredric Jameson. 

Não há dúvida de que as gerações se sucedem desenvolvendo sempre uma nova sensibilidade cultural e estética. É certo, porém, que adentramos o século 21 com o aumento do número de cristãos e também de céticos quanto ao cristianismo. Razões para a juventude questionar as instituições religiosas, há de sobra e desde sempre.

Mas o CD Introdução, dos jovens irmãos André e Tiago Arrais, não está interessado em questionar a igreja enquanto instituição oficial. Este é um trabalho preocupado em reafirmar valores e doutrinas e encorajar a fé em Deus.

Sua linguagem musical, mais próxima do idioma rítmico-melódico contemporâneo, é o veículo utilizado para apresentar uma introdução da história da redenção à juventude contemporânea. Enquanto o absoluto da verdade redentiva não muda, mudou o aspecto estilístico de sua apresentação. Claro que essa tensão entre o incondicional pregado nas letras e o aspecto dinâmico das formas musicais nem sempre é pretendida (ou alcançada) por todo músico cristão.

Enquanto ouvia o CD, eu pensava que as canções podiam estar uns dois tons abaixo e que alguns ritmos não eram os meus preferidos. Mas percebia que muita gente mais jovem que eu poderia ter acesso a uma teologia consistente dentro de uma inovação de estilo que não abusa de guitarras e maneirismos vocais.

A primeira canção, "Introdução", explicita sem metáforas o plano divino para a redenção da humanidade (a elaboração do plano, o nascimento de Jesus, sua morte e ressurreição). Declara que, com tantas fábulas existentes, só a história da nossa redenção pode transformar.

A segunda música faz coro com a primeira: “Aquele que amou antes de existirmos”, “Não fomos fiéis dando ouvidos a outra voz”, “Então o Filho vem mostrando o que o amor queria nos dizer desde o princípio”. Versos que sustentam que a compreensão da visão geral do plano redentor explica os detalhes do painel da vida humana.

Há muitas inquietações que traumatizam a fé, que encharcam a alma de dúvida. Deus existe? Se existe, é como diz a Bíblia? Ele se importa com este planeta? Três proposições fundamentais são questionadas de uma vez: a Criação, a Redenção da humanidade, a volta de Cristo.

Os irmãos Arrais não negam essas questões e cantam: “E se só há verdade na ciência, na razão, no que se vê / E o mundo acaba se tornando o que se assiste na TV”. Mas em seguida declaram: “Mas eu creio em Ti, pela fé vou seguir / Esperando aqui a promessa se cumprir”.

Assim, a dúvida natural é submetida não à evidência empírica, mas à prova existencial. Enquanto o desejo de ver a evidência material de elementos metafísicos nunca está satisfeita, a comprovação interior da existência de Deus é perfeitamente satisfatória ao coração do que crê. Por isso a canção “Manhã” diz que “Não é fácil explicar, muito menos comprovar / Que o mesmo Cristo que morreu, ressuscitou e vivo está / Pois toda prova que possuo minha vida mostrará”.

Como escreve Ravi Zacharias: “Deus pôs neste mundo o suficiente para tornar a fé Nele algo bem razoável. Mas, deixou de fora o suficiente a fim de que viver tão somente pela razão pura fosse impossível” (A morte da razão).

Vivemos em tempos em que afirmar a fé cristã publicamente em certos espaços (universidades, locais de trabalho) é constrangedor. Cada vez mais o ateísmo empurra a fé para o armário, enquanto o multiculturalismo religioso prefere que cada crente guarde sua doutrina para sua igreja.

A profissão de fé dos irmãos Arrais se completa com “Lembra-te” e “Eu acredito”. A primeira trata exclusivamente do sábado e, não por coincidência, é a quarta canção do CD.

Novamente, eles partem do questionamento (“Será que a lei quebrada foi na cruz? Ou anulada foi e perdeu o valor? Como compreender que o Autor de toda vida separa um santo dia? Será que o que creio é mera teoria?”) para a resposta afirmativa: Eu sou criatura, Deus é Criador; Sábado perfeito, creio e obedeço / cravado na pedra para que eu lesse: Lembra-te...do dia santo e da criação.

O cerne do CD está em um resumo da letra de “Eu acredito”: Eu acredito em um Deus e Criador, um Cristo sofredor, [que] morreu para dar vida ao que crer; acredito na completa redenção, na divina intervenção, que há mais do que posso enxergar; acredito no poder da oração, que um dia verei a Sua mão.

Se essas duas últimas músicas que comentei são tão explícitas em sua fé em doutrinas que não prescreveram, é porque, como diz a letra, o compositor não se “envergonha de um Deus que me sustenta e mantém, sabendo quem eu sou e quem eu falho em ser”; é porque o cristão deve, “olhando o horizonte que não está tão longe, esperar no Deus que vai além”; é porque o fiel, “apesar das circunstâncias, palavras ou distâncias” e sabendo “que é difícil crer”, sabe também que é misericordiosamente “declarado justo pelo Seu poder”. Por isso, “escolho crer”.

Aquele “Lembra-te” também ecoa o “lembra-te do teu criador nos dias da tua mocidade”. E o que mais esses dois jovens estão fazendo nesse CD a não ser falando de sua fé jovialmente, com fundamentação teológica e sem irreverência ou trivialidade? Não é a isso que podemos chamar de uma coerente e atualizada introdução ao conteúdo bíblico?

10 junho, 2011

música, mitos, verdades

Talvez já exista uma certa fadiga do público quanto a palestras que envolvem música sacra e música popular. Principalmente, se considerarmos que alguns palestrantes abusam de chavões, historinhas sensacionalistas e, o pior, uma apresentação que não distingue entre fato histórico-social e lenda urbana.

Vou comentar alguns pontos abordados nessas palestras, que povoam a internet na forma acessível do mp3 e do power point. Meu interesse é expandir esses pontos um pouco além do simplismo habitual e da falta de acuidade histórica e musicológica. 

1) A música religiosa e secular dos negros nos EUA do século XIX: há palestrantes que ignoram o contexto histórico do surgimento do pentecostalismo e do desenvolvimento da música afro-americana. Segundo George Marsden (Religion and American Culture), as comunidades negras eram intensamente religiosas e intensamente seculares. Essa vida sem a divisória entre atividades seculares e espirituais era uma herança das sociedades mais antigas. A conversão em massa de negros ao cristianismo nos EUA do século XIX foi seguida de intensa segregação racial por parte da maioria protestante (eram os tempos imorais de separação oficial entre igrejas para brancos e igrejas para negros). O que deixou aqueles recém-conversos à margem do conhecimento litúrgico e doutrinário mais profundo e resolvidos a estabelecer suas próprias igrejas.

Os movimentos de santidade (Holliness, Sanctified) do início do século XX abraçavam o pentecostalismo e sua ênfase no êxtase emocional e espiritual, o que estava muito mais próximo da cultura de transe das religiões de matriz africana. Nesse processo, o gospel e o spiritual podem ter sido separados do jazz e do blues no nascimento, mas se reencontrariam nos anos 1920 dentro das igrejas.

2) Músicos e o pacto satânico: para incentivar o repúdio à música popular, alguns palestrantes citam o suposto pacto demoníaco feito pelo músico Robert Johnson (um dos pais do blues). Há quem diga que essa história é uma criação de invejosos guitarristas da época e que se originou em um contexto místico-religioso específico (hoje, se alguém é um virtuose em seu instrumento ninguém dirá que o indivíduo fez um pacto com o diabo; seria negar a dedicação, o estudo diligente, a criatividade desenvolvida e a disposição motora natural).

Seja como for, o bluesman Johnson também não negava a história. A contrapartida da música clássica é a história de que o violinista Niccoló Paganini tinha pacto com o demônio (para incrementar o folclore marqueteiro, ele também não ‘abjurava’ o tal pacto).

3) Diferença entre o público pop e o público do período clássico-romântico: com o intuito respeitável de advertir quanto a capacidade da música pop provocar instabilidade emocional, as palestras tentam diferenciar a recepção do público histérico dos Beatles do público tranquilo que aplaudia Beethoven. Mas esquecem/omitem/ignoram que, também no século XIX, as divas da ópera eram ovacionadas com assobios e gritos, que o pianista e compositor Franz Liszt recebia cartas e propostas amorosas e lhe atiravam flores (y otras cositas más) em sua passagem, que Paganini até alimentava essa histeria, e que os Beatles, não suportando o assédio fanático do público e a gritaria dos shows, deixaram de fazer concertos públicos a partir de 1965. Em O triunfo da música, o historiador Tim Blanning lista uma série espantosa de atitudes fanáticas por parte do mulherio da high society europeia em torno de Paganini e Liszt. 

4) Mensagens subliminares: há palestrantes que se especializam em assombrar o público com mensagens demoníacas escondidas na rotação reversa de um disco. A maioria dos exemplos de aúdio são seguidos de malabarismos de interpretação (se alguém não disser de antemão o que está sendo cantado não se adivinha uma palavra). Nem precisavam. A propaganda de valores anti-cristãos sempre esteve bem explícita nas letras, na indumentária e no comportamento de muito ídolos pop. Alguns palestrantes concordam que esse era um recurso dos anos 70 para promover os álbuns, mas que também dizia muito sobre a aproximação pessoal dos cantores com o misticismo. 

5) O poder da música sobre o cérebro: há problemas quando se trata o ritmo como um elemento musical de estimulação física, a harmonia como um componente de estímulo mental e a melodia como um componente de estimulação espiritual (ou emocional). Essa compartimentação dos elementos musicais esteve nas pesquisas de Helmholtz (1821-1894), que dava muita ênfase ao fenômeno físico-sonoro na elaboração do significado musical, resultando num obsoleto positivismo biológico.

Já Hugo Riemann (1849-1919) afirmava que o sentido musical era dado por fatores históricos e sociais do sujeito, que suas respostas obedeciam estímulos externos de uma dada cultura, não reduzindo, assim, a relação homem-som a uma perspectiva naturalista. Ou seja, o ser humano não seria um sujeito passivo que reage como um autômato ao fenômeno sonoro. Atualmente, já é uma obviedade dizer que a música, mais que um fenômeno acústico, é um fenômeno sociocultural e que nossa reação a ela está ligada também ao nosso histórico musical e estado emocional.

Por outro lado, não se pode negligenciar a atuação do som musical sobre os sentidos e sobre o corpo, sendo esta uma perspectiva pertinente e que merece ser mais bem explorada – um bom livro sobre o assunto é Alucinações Musicais, do neurologista Oliver Sacks. Este eminente estudioso da música e do cérebro diz que ainda não é possível determinar até que ponto as reações de um indivíduo em relação à música dependem mais da própria fisiologia ou mais da cultura.

03 junho, 2011

quem é o "mundo"?

"Mundo" não são pessoas. São ações e valores imorais, amorais e egoístas, são atitudes contrárias ao reino  de amor e justiça de Deus. Cristãos, dos mais simples aos mais eruditos, convivem diariamente com pessoas não-cristãs e sabem que, entre estas, existem pessoas de grande caráter e nobreza de alma. 

Se perguntarem a um pastor ou a minha vó Maria  se não existem pessoas boas fora da igreja, é provável que ambos digam que pessoas boas e más existem em todo lugar. Minha vó acrescentará, com sua fé simples e sem maiores digressões metafísicas, que é bem capaz, meu filho, que existam mais pessoas realmente boas fora da igreja do que dentro (mas ela de forma alguma recomendará que alguém abandone a fé, a igreja por causa disso).

Claro que tem gente que não sabe externar um pensamento mais equilibrado e acaba criando um apartheid espiritual mesmo. Lutar contra essa forma de segregação tem sido um engajamento de muito bom cristão. Quantas vezes ouvi sermões que apontavam para si e para os próprios membros da igreja, convocando-nos a sair da letargia, da falsa moral, do absurdo senso de exclusivismo de salvação. Em diversos blogs de cristãos, também percebo esse chamamento à vida cristã mais sincera, diligente e respeitosa.

Sempre houve homens e mulheres que, sem autoproclamar-se santos e perfeitos, chamavam os cristãos de suas épocas a viverem um vida de santidade diante de Deus e dos homens. O apóstolo Paulo identificava sérios problemas na igreja cristã primitiva - e não apenas de ordem doutrinária, mas sobretudo de ordem espiritual e moral. Embora entendesse que fora chamado para corrigir e orientar, declarava-se "o menor dos santos" e admitia uma luta contra "um espinho na carne".

Sem dúvida, o estelionato da fé e o autoritarismo notados no meio religioso contribuíram para que os não-cristãos vejam a igreja cristã como uma organização dinheirista, hipócrita, moralista e desprovida de soluções para o mundo moderno. Isso também leva pessoas a generalizar  a atitude excludente e a soberba como marcas do cristianismo.

Contudo, veja que há políticos corruptos, mas não se pensa (é, alguns pensam) em fechar o Congresso ou extinguir o sistema democrático. O melhor, optamos, seria mudar as pessoas que usam o sistema, reformá-lo judiciosamente e fiscalizá-lo com atenção.

Ninguém nega que há falsos pastores e leigos preconceituosos. No entanto, nem sempre os não-cristãos se dispõem a constatar que há líderes que procuram promover o pensamento justo e membros que vivem o cristianismo de forma sã, embora passíveis de incorrer em erros que atribuem ao que chamam de "mundo".

O cristão deve olhar esse mesmo mundo de uma forma bilateral: por um lado, ele vê a si mesmo com humildade, pois sabe que ainda é igual ao mundo, no sentido de que todos pecaram e carecem da graça de Deus. Por outro lado, ele vê que já é diferente do mundo, pois se tornou um representante do amor e da salvação de Deus que renuncia ao "mundo" mas demonstra um genuíno amor pelas pessoas.

Assim, ele estará cumprindo o desejo da oração de Jesus: "Pai, não peço que os tire do MUNDO, mas que os livre do MAL".