30 novembro, 2011

e se Toy Story acontesse num escritório?

Vi no Almir de Freitas. Tom Jenkins emprestou imagens do Google Street View, casou com animação stop-motion e fez essa pequena joia:




22 novembro, 2011

por favor, não atirem no pianista


Dia do músico. Podia até ser feriado santo dado o caráter de santo remédio atribuído à música. 

O pianista geralmente é visto como um agraciado, um privilegiado que lê hieróglifos e fala pelos dedos. Ou como um chato que martela o piano e o ouvido alheio, que é obrigado ao exercício de escalas musicais enquanto os outros são obrigados ao exercício da tolerância. Aos 13 anos, eu mesmo torturava as ajudantes domésticas tascando-lhes na escuta as escalas de Hanon às duas da tarde. Quando o almoço não tinha sobremesa, aí o castigo infligido era meia hora do terrível "Microkosmos" do Bartók.

À noite, após o jantar e a sagrada reunião familiar, meu pai me pedia: "Filhão, toque aquela música". Era a deixa para eu dedilhar o Pour Elise de Beethoven. Quando recebíamos visitas ilustres, pelo menos ilustres para os meus pais, eu ouvia o indefectível pedido: "Toque aquela música!". 

Mas um dia minha ridícula rebeldia pré-adolescente viria à tona. Visitantes na sala, satisfeitos, inclusive com sobremesa, agora era a hora do Beethoven Apaixonado começar a tocar.

Mas que nada. Saí, exibido, dedilhando outra música, acho que era alguma intitulada Gallop du Diable. A música exigia muita técnica, velocidade e força, ou seja, eu parecia um mozartinho embevecido. Após o finale, olhei pra trás esperando aplausos mas só ouvi alguns muxoxos tipo "bom, hein?", "ah, legal". Aí meu pai não resiste e sussurra:"Não, filhão! Toque aquela!". Ok, ao vencedor, Pour Elise. Agora com palmas e mais palmas.

Um músico de personalidade intrigante está no filme O Pianista (2002), de Roman Polanski. O pianista Szpilmann, interpretado por Adrian Brody, é o retrato de um homem que só ressalta sua humanidade através da sua arte, da sua música.

Szpilmann teme a guerra, é um filho teu que foge à luta. Ele é um artista que não entende porque os homens preferem atirar uns nos outros em vez de fruir um pouco de Chopin em paz. Chopin, o polonês delicado e irascível, mais amigo das artes que dos homens, cuja música é ponto central de um filme que parece falar de guerra e intolerância, quando na verdade fala de atitudes humanas diante da tragédia. 

Comova-me ou devoro-te! A cena do pianista judeu-polonês, famélico, em farrapos, recebendo a Esfinge em forma de oficial nazista em meio a ruínas é significativa. O alemão acabou de tocar o Beethoven da Sonata ao Luar e, ao descobrir a triste figura de Szpilmann, exige dele: se você é mesmo pianista, toque! O fugitivo poderia tocar a Apassionata ou até mesmo, de forma colaboracionista, tocar um arranjo para piano do 2º movimento do Quarteto op. 76, de Haydn, também conhecido como o hino nacional alemão.

Porém, Szpilman, que nunca foi nem delacionista nem revolucionário, que só quis agradar a arte, que mal amava a própria vida, a ponto de insistir em tocar piano enquanto o restaurante em que trabalha é bombardeado; esse mesmo Szpilmann dedilha o piano calorosamente, como se nunca tivesse passado pelas privações que vivia (ou exatamente porque passava por privações), e toca a Balada n. 1 em Sol menor, de Chopin, claro. 

Nos recitais de alunos de piano, costumava-se brincar dizendo "Não atirem no pianista. Ele está fazendo o melhor que pode". O recital de Szpilmann só tem um espectador, que vai julgar se sua performance merece a vida ou a morte. Ele se salvará se for um bom pianista? Ele não viverá por ser um fugitivo do horror, mas por ser um sobrevivente da música? Os dois homens parecem unidos pela música. Então, o que a arte uniu, que não separe a guerra do homem.

O ser humano belicoso se repete nas guerras e não aprende com a arte. Mas, por cima das atrocidades das guerras atuais, está a música de Chopin. Um Prelúdio em meio aos escombros do Iraque, por favor!


17 novembro, 2011

vida de ateu é uma dureza. ou não?

A colunista da revista Época Eliane Brum publicou uma história em que uma ateia entra no táxi de um evangélico. O leitor percebe que a passageira é muito bem-informada, em contraste com o taxista que é devidamente um "ignorante fundamentalista". Enquanto a passageira reflete sobre o caráter mercantil do neopentecostalismo, algo que é bastante estudado nos círculos acadêmicos, e com o que muito protestante concorda, o taxista apresenta uma fala bem simplória.

Não se trata de uma história surreal. Mesmo os chavões proselitistas do taxista são costumeiramente ouvidos por aí. Os diálogos poderiam acontecer numa rua perto de você. Mas nesse texto, vejo que Eliane Brum dá a entender que ser ateu num Brasil evangélico é uma dureza.

Ser ateu no Brasil é mesmo difícil? Só se para o ateu é difícil conviver com pessoas com visões de mundo diferentes. Talvez seja mais difícil para um cristão moderado conviver com este Brasil de um evangelicalismo cada vez mais estridente. Mas ser um ateu é praticamente uma moleza. É o que diz Gravataí Merengue. Para ele, a história de Eliane Brum é de um queixume que representa um ateísmo que não saiu da adolescência. E olha que o Gravataí Merengue também é ateu.

Nessa toada de mal-explicar Deus numa corrida de táxi, aproveito também para sugerir alguns enredos para histórias ateias edificantes que denunciam a selvageria da militância religiosa e o cambalacho evangélico. Por exemplo, Richard Dawkins entra num ônibus lotado com um grupo de crentes cantando "1, 2, 3, Jesus é nosso rei". Ou: o ateísta Christopher Hitchens está num navio naufragando e disputa o único colete salva-vidas que resta com Edir Macedo.

Acho que o texto de Eliane Brum já deve ter recebido comentários nada cristãos de confessos evangélicos. Mas experimente a jornalista descrever a nada mole vida de um jornalista tucano inteligente num país de taxistas petistas e verá o que é bom pra fundamentalismo.  

Então, que tal uma história em que uma jornalista cristã muito bem-informada entra no táxi de um ateu de argumentos simplistas? O jornalista Michelson Borges se deu ao trabalho e contou uma história assim. Pode não ser fácil encontrar uma cristã com domínio de tantas referências apologéticas e científicas, mas para mim a história ilustra bem duas coisas: a falácia das oposições simplistas do tipo ateu esclarecido vs. crente ignorante que vigora na grande mídia; como os cristãos precisam estar sempre bem preparados para dar o testemunho de sua fé, se assim lhe pedirem.

Leia as histórias, confira os argumentos e chegue às suas conclusões:
A dura vida dos ateus no Brasil evangélico, de Eliane Brum
A vida fácil dos ateus,  por Gravataí Merengue
A dura vida de uma cristã "fundamentalista", por Michelson Borges

11 novembro, 2011

UFC: Ultraje Feroz do Corpo


Dois homens em uma arena chutam cabeças e esmurram fígados, e isso rende o delírio da galera. Um quer a deformação do corpo do outro, e isso rende fama e fortuna. UFC (Ultimate Fighting Championship) quer dizer mesmo é Ultraje Feroz do Corpo. Mas para que ninguém fique a pensar na degradação física e espiritual do momento, é preciso fazer dessa rinha de galos um espetáculo televisivo.

A TV Globo, que se recusava a cobrir as lutas do MMA (as artes marciais mistas), gasta sua semana esportiva explicando que agora, com novas regras, as lutas são “um pouco menos violentas do que o vale-tudo”, como disse o apresentador Luís Ernesto Lacombe. A sinceridade foi logo corrigida na fala seguinte: “Mas é bem bacana”.

É bem bacana, então, ver a brutalidade elevada à categoria de esporte “civilizado”. É bem bacana, então, assistir a violência de socos, pontapés e sufocamentos. É bacana ver o público se extasiar quando um homem é espancado no chão (mas agora o juiz intervém mais rápido. Antes que um assassine o outro ao vivo e em HD, né?).

(A Globo escalou Galvão Bueno para narrar o combate. Quem assistir, ouvirá um "É teeeeee...trico?!". Os fãs do UFC não queriam o Galvão de locutor das lutas. Mas o que eles queriam? Galvão de calção e Anderson Silva na narração?)

As lutas de vale-tudo eram só um pouco piores do que as do UFC. Só paravam quando um dos lutadores estava desfigurado. No UFC, ao que parece, há que se ter não só a destreza e o domínio de artes marciais conjugadas, mas também estratégia e inteligência para vencer o combate.

No entanto, assim como a filosofia espiritual que cerca a tradição das artes marciais orientais foi banida dos filmes de “kung-fu”, nas lutas do MMA também não restou um traço da espiritualidade de antigos guerreiros. Sobram apenas chutes no rosto e cheiro de sangue.

Homero descreveu assim o feroz e mítico combate entre Epêo e Euríalo: “Rangem as mandíbulas ao receberem os golpes [...] e o divino Epêo, lançando-se sobre o adversário, aplica-lhe tão tremendo golpe, que Euríalo cai inerme, vomitando negros coágulos de sangue”. Os nomes gregos saíram, mas os apelidos conservam o apelo mitológico: Minotauro, Cigano, Spider, The Beast. Mas outros chamam a fúria pelo nome: Demolition Man e African Assassin, que dispensam traduções.   

O UFC está de acordo com as regras de entretenimento de uma civilização doente. É a nossa civilização que produz filmes que consagram a velocidade e a ferocidade, filmes feitos com muita adrenalina e pouco neurônio, filmes que glorificam machões que falam uma piadinha após decepar outros machões.

Espetáculo da meia-noite, o Ultraje Feroz do Corpo aplaca nossa primitiva sede de sangue por alguns minutos. Depois, cada um faz suas orações e vai dormir. 

04 novembro, 2011

da imperfeição da música moderna

"Muitas composições modernas são muito bonitas e chamativas no papel, mas pobres cantores! Colocam alterações onde querem, [...] Os atuais compositores só nos trazem mais confusão e grandes imperfeições, não de pouca importância, em vez de enriquecer, aumentar e enobrecer a música com recursos variados como fizeram tantos outros, querem transformar a música de modo que o belo não se distinguirá do bárbaro".

Quem disse isso foi o italiano Giovanni Artusi, compositor e pesquisador musical. Você concorda com ele, certo? Você está pensando na decadência da música brasileira, no declínio da música sacra, em como as pessoas hoje estão colocando o feio no lugar do belo, etc? 

O detalhe é que Giovanni Maria Artusi viveu de 1540 a 1613. Ele se envolveu numa discussão quando seu professor Zarlino, defensor do estilo tradicional, foi criticado por Vicenzo Galilei, teórico musical e pai de Galileu. 

Artusi criticou as inovações do compositor Claudio Monteverdi, considerado há bastante tempo uma figura central na história da música. Monteverdi respondeu publicando um livro de madrigais em 1605 em que dizia haver duas práticas musicais: a prima pratica, a prática antiga de usar a polifonia e entretecer vozes utilizando o processo do contraponto, o que dava independência a cada voz; e a seconda pratica, a prática moderna de músicas acompanhadas por instrumento que também dava maior importância ao soprano. 

Artusi foi mais um a tentar deter a marcha do desenvolvimento da música. Ele chamava de bárbaro (no velho sentido de "mal-feito") o que muitos ouvidos da época já chamavam de belo. Não estou dizendo que a forma de fazer música do passado  é ruim e tudo o que é novo é bom pela própria natureza. O quero dizer é que quando o apego à tradição é exagerado, vira reacionarismo cego. 

Nota: Artusi, que nem pode se defender dos web-escribas, é o homem da figura acima.
O título desta postagem é uma referência ao título de um antigo livro retratado na figura mais acima ("Delle imperfezioni della moderna musica").