31 maio, 2010

os morangos silvestres da sabedoria

Já ouvi (ou penso ter ouvido) a frase saída da boca de um homem velho, cansado e doente: “A sabedoria nos chega numa idade em que já não nos serve para nada”. Quando ouço os ex-jogadores Edmundo e Neto falando dos erros cometidos que sabotaram a própria carreira, entendo o que quis dizer aquele idoso. Talvez, se sábios fossem, tivessem agido diferente ao longo da vida.

Para o doutor Isak Borg, apesar das cãs de seus 73 anos, a sabedoria nem sequer chegou. Borg, o protagonista da obra-prima Morangos Silvestres (1957), viaja de carro até uma cidade onde receberá um título acadêmico. No trajeto lhe acompanha sua nora e três jovens que lhe pedem carona. Ao longo da viagem, ele faz uma revisão de sua vida e começa a perceber o quanto se afastou dos seus ideais de juventude.

Os morangos silvestres colhidos agora pela sua memória, além de representarem a porta para relembrar a inocência distante, simbolizam os simples prazeres da vida que ele trocou por aquisições intelectuais.

Doces recordações são nubladas pela proximidade da morte, o que atormenta o doutor Borg com pesadelos terríveis (um deles, que envolve uma rua vazia, um homem sem rosto, e uma carruagem de onde cai um ataúde – mais que isso não posso dizer –, é encenado no começo do filme com uma genialidade rara).

Em uma cena memorável, Isak Borg sonha que está numa sala em que as pessoas que ele menosprezou comparecem como testemunhas mudas de sua indiferença ao convívio de amigos e familiares. Um homem lhe pergunta: “Qual o primeiro dever de um médico?” Isak Borg não lembra ou não sabe. A resposta é um golpe direto: “O primeiro dever de um médico é pedir desculpas!” Borg admite, então, que o castigo para ele é a solidão, a clausura de soberba e autossuficiência em que ele mesmo se aprisionou.

Mas o personagem é alguém que, na sua reavaliação do passado, vai enfim encontrando a reconciliação consigo e com a família.

O cineasta Ingmar Bergman é um mestre na arte de mudar o tom da narrativa da melancolia para a alegria, e de volta para a melancolia e depois para a serena harmonia. Esse encadeamento é sutil e desenrola-se com o auxílio de uma belíssima fotografia em preto e branco e da atuação não menos que sublime de Victor Sjöström, cujas rugas transmitem o desconsolo de um homem que se refugia em recordações juvenis.

Morangos Silvestres não quer ser mais um passatempo esquecível no nosso precioso tempo. É um filme que pesa assuntos que não queremos por na balança, como a morte, a solidão, a velhice. Mas muitos de nós parecemos tão cansados (e nos sentimos tão longe do fim da vida) que só nos contentamos com um entretenimento passageiro, algo banal que nos faça esquecer nossa mortalidade, nosso aprendizado diário de convivência.

É um filme sem pressa, mas que absorve rapidamente o espectador. Sem pressa, diga-se, mas absolutamente sem tédio. A menos que você esteja atrás de balas, beijos e bombas para se entreter.

28 maio, 2010

Wintley Phipps canta, Obama ouve

O hino "Amazing Grace" é um clássico dos mais amados do repertório protestante. É simples e magnífica ao mesmo tempo. A letra é de John Newton, um ex-comandante de navio negreiro que se converteu ao cristianismo. E a música é de "Anônimo". Como diz o cantor Wintley Phipps, quando chegar ao céu ele quer ver Jesus, Davi, Moisés, mas ele quer muito conhecer esse "anônimo", por certo um escravo cujo canto nativo sofrido serviu de inspiração para John Newton.

No vídeo, o presidente Barack Obama e a primeira dama Michelle, Bill e Hillary Clinton, e o vice-presidente Joe Biden e esposa assistem o pastor e cantor adventista Wintley Phipps interpretando "Amazing Grace" em um culto na National Cathedral:

27 maio, 2010

a felicidade mudou de endereço

Entre as dez cidades com melhor qualidade de vida do mundo, 4 são européias (Viena ficou em segundo lugar), 3 são australianas e 3 são canadenses, sendo Vancouver (foto) a primeira dessa lista. No ranking de 140 cidades, comparecem São Paulo e Rio de Janeiro, ambas pra lá do centésimo lugar. Mas Londres (51º) e Nova York (56º) ficaram longe do top ten.

As cidades receberam pontos de 0 a 100 em trinta itens distribuídos em cinco áreas: estabilidade, cuidado com a saúde, cultura e meio ambiente, educação e infraestrutura. Mas assim é covardia, pôxa vida. Na Europa e no Canadá isso não é item de pesquisa. É pré-requisito. Exijo uma segunda pesquisa, com outros fatores. Anote aí:

Índice nacional de feriados: os workaholics noruegueses perdem feio.

Rua mais cosmopolita: só na 25 de Março tem Líbano, China e Paraguai.

Jogador que levanta a mão pro céu quando faz gol: duvido aqueles euroateus repetirem isso.

Árvore de jabuticaba: essa é que nem a “paradinha” no pênalti. Só tem no Brasil.

Isso é pra começar. Não vou nem falar de itens como nosso céu é mais azul, nossos bosques têm mais vida e os pastéis têm muito mais vento. Nesses termos, podemos competir.

Pior mesmo é perder para a Austrália. Como é que um lugar onde tem ornitorrinco, deserto e a celebridade mais conhecida é o Crocodilo Dundee foi ganhar da gente. Ora, do mesmo jeito que uma terra onde tem mico-leão, floresta e a celebridade mais conhecida é Paulo Coelho sempre perde em pesquisas sobre o bem-estar. A Austrália é muito mais do que acredita nossa vã pouca leitura. O Brasil também não é só carnaval, mata e Ronaldinhos. A diferença é que os australianos fizeram o dever de casa social e político.

Assim como a Dinamarca, país onde o índice de felicidade dos cidadãos é o maior do mundo. Depois vêm Suíça, Áustria, Islândia, mais na frente o Canadá de novo. Essa é outra pesquisa encomendada para humilhar os países emergentes. Embora até as Bahamas e as Ilhas Seychelles estejam entre os 20 primeiros colocados. Prova de que viver num lugar paradisíaco que também é um paraíso fiscal satisfaz os habitantes.

Ah, mas eu sou feliz, dirá o brasileiro ferido na sua lendária cordialidade. É melhor ser alegre que ser triste, dizia o poetinha. No entanto, uma coisa é estar alegre, e nisso o brasileiro festeiro é bom. Outra coisa é ser feliz. Se é possível definir felicidade, eu diria que é uma sensação de completude, de satisfação contínua. Ficamos em 81º lugar no ranking da felicidade. Pelo menos, essas pesquisas desmistificam aquela conversa de que o brasileiro comum não tem dinheiro nem saneamento, mas é feliz.

Na verdade, boa distribuição de renda, cidade limpa, educação e saúde são elementos essenciais como a água e o ar puro. Ô Hamlet, vê se conta outra! Não há nada de podre no reino da Dinamarca!

24 maio, 2010

alienados de Fidel, engajados em Victor & Leo

Lembra daquela canção que diz que "ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais"? Tem muito de verdade nisso, mas não "somos universitários" como nossos pais. Enquanto a universidade se dividia em engajados vs. alienados nos conflitos ideológicos e políticos dos anos 60 e 70, hoje o destaque é dado aos fariseus universitários que jogam pedra nas Genis de minissaia e às donzelas engajadas na noite baladeira do sertanejo universitário.

Os engajados viviam segundo o evangelho comunista de Fidel e Che Guevara e só ouviriam canções “revolucionárias”. Os chamados “alienados” preferiam escutar a Jovem Guarda. Atualmente, os universitários estão mais distantes e alienados de Fidel, ainda bem. Muitos aderiram à causa engajada no entretenimento de Victor & Leo. Bem, cada geração tem a jovem guarda que merece.

Sim, a música sertaneja não larga o osso do sucesso passageiro. Mas estamos falando de festas de universitários, o que quer dizer que o sertanejo que eles ouvem vem da viola singela de Helena Meireles, da poesia de Almir Sater, do cancioneiro de Renato Teixeira, certo? Mas que nada. Os universitários andam curtindo mesmo é a linha decadente da música sertaneja que foi se diluindo, diluindo até desembocar no pula-pula e no chora-chora do "sertanejo universitário".

A trajetória do estilo pode ser resumida nos nomes dos cantores sertanejos. Em priscas eras, juntavam-se dois nomes caipiras e a cantoria começava: Tonico e Tinoco, Pena Branca & Xavantinho, Tião Carreiro e Pardinho. Ou uma dupla de cognome, digamos, "chamativo": Milionário & Zé Rico, Gavião Moreno e El Condor, Domingo e Feryado, e o inacreditável Bátima e Robinson. A dupla Chitãozinho & Xororó foi a última dos apelidos rurais.

Nos anos 90, os nomes eram mais urbanos, já que a patroa começava a assumir que gostava da mesma música que sua empregada ouvia: Leandro e Leonardo, João Paulo e Daniel, Gian e Giovani, Zezé di Camargo e Luciano. Hoje, os nomes escolhidos são tão mauricinhos quanto inodoros: Victor e Leo, Jorge e Mateus, João Bosco e Vinícius, Lucas & Matheus (este último não é dupla gospel). Ou se junta um nome citadino com um apelido caipira: Fernando e Sorocaba, Matogrosso e Mathias.

Enquanto nossos pais, ou pelo menos, os pais de alguns, cantavam as músicas de protesto de Geraldo Vandré e Chico Buarque, e eram obrigados a camuflar o "cale-se" da ditadura com um "cálice" na letra, nossos universitários de hoje, ou pelo menos, boa parte deles, cantam a música conformada dos amores chorosos e as letras que não camuflam nem o primarismo. Onde está o "cale-se" quando a gente mais precisa dele?

Não pense o leitor que vivo a sonhar com uma casinha branca de varanda, um quintal e uma janela para ver o sol nascer. Aguento firme só uns 10 dias nesse cenário bucólico. Não faço planos de me mudar para um rancho fundo bem pra lá fim do mundo (embora a canção No Rancho Fundo seja das melodias mais belas do repertório nacional). Mas a canção sertaneja já viveu dias mais interessantes.

O sertanejo moderno abusa da temática do amor perdido, embora as letras estejam menos embebidas em dor-de-cotovelo. Ainda há letras de duplo sentido, mas bem longe da pornofonia do batidão do funk. A melodia continua simples, mas os gogós, quanta diferença. Há menos trinados inalcançáveis, menos veias saltando na garganta.

Ao contrário do "forró universitário", que prefere as raízes pé-de-serra do estilo, o sertanejo universitário bebe no caldeirão pop que ergue ídolos e os esquece em uma estação. Essa rápida troca de guarda no topo das paradas tem lá suas vantagens. Já pensou o que seria do ouvinte passar 20 anos ouvindo Luan Santana?

Aqui, uma lista de nomes estrambólicos de duplas.

23 maio, 2010

Bem-vindo ao BOOK

Experimentei ler as páginas de um livro num iPad. Não tive dificuldade, não me senti um traidor de Gutemberg. O melhor disso será pesquisar e marcar os trechos facilmente, criando até um índice onomástico pessoal. Como não há a menor previsão para eu adquirir um e-reader nos próximos 10 anos, mas não ficarei chateado se essa previsão não se confirmar, sigo incentivando a leitura em qualquer suporte. Até em braço engessado. Audioveja:



Já me perguntaram de onde tirei esse "audioveja", se já temos em português um verbo equivalente e suficiente, "assistir". Ora, pois. "Audioveja" vem da língua natimorta dos neologismos baratos.

19 maio, 2010

ghost não se discute


O cinema é uma arte do espírito. De qual espírito, eu não sei. Tirando por Transformers barulhentos, deve ser de um espírito caído. Se for por filmes de vampiros melodramáticos, então deve ser de um espírito caidaço.

Na historietas de Roliúdi, é fácil topar com fantasmas benevolentes, ectoplasmas apaixonados, visagens carismáticas. E haja espíritos maus e assustadores, doidos para levar tua alma à meia-noite. Mas o personagem espiritualista, se não for uma adivinhadora folclórica, é retratado com açúcar e com afeto e seu médium predileto merecerá uma hagiografia, o que, no cinema, nada mais é do que um photoshop na biografia do indivíduo. Nem isso os adeptos de outras religiões merecem: judeu? a reputação não muda; cristãos? quase sempre figuras fanáticas; islâmicos? gentalha terrorista.

Não importa a crença. Melhor a falta de crença até. A novela espírita global Escrito nas Estrelas é de autoria de uma católica; o filme Chico Xavier é dirigido pelo ateu Daniel Filho. Isso prova que a fé (e a falta de fé) movem bilheterias.

A questão não é dizer se o filme é bom ou ruim ou acreditar na existência de seres sobrenaturais. Religião, e até o gosto, se discutem, sim, e se aprimoram no estudo e no diálogo. Já o conteúdo, as mensagens, de filmes com temáticas espiritualistas e/ou mágicas, isso não se discute. Como escreve o crítico Luiz Fernando Gallego sobre o público desses filmes: "[uma] enorme parcela interessada em milagres, mais do que em narrativas cinematográficas; ou em busca de saídas mágicas, mais do que em reflexões sobre a realidade sócio-psicológica-existencial".

Como a filosofia new age é tratada pelo cinema na base de duendes inofensivos e bruxinhos adolescentes, então a crítica parece menos preocupada com o conteúdo e mais com a estética e o sucesso desses filmes. Como as donzelas vivem amores sobrenaturais e crianças puras enxergam o além, então não se questiona a inocência das peripécias espíritas. Afinal, ghost não se discute.

Experimente alguém chegar com a ideia de um filme com mensagem cristã. Aí não. Isso logo será taxado de moralismo e, valei-nos Alan Kardec, de proselitismo evangélico. No máximo apresentam repetidas histórias de personagens bíblicos. O restante do cristianismo, com as exceções de praxe, é mostrado como representações mitológicas da Antiguidade. Anjos segundo a Bíblia no cinema? Nunca. Já o diabo é quase sempre um fanfarrão e não o personagem importante no conflito cósmico descrito na Bíblia.

O cinema e as novelas da TV vêm reciclando as doutrinas new age, o nome de batismo do neopaganismo, e encenando os princípios do espiritualismo. De O Fantasma apaixonado (1948) à Amor além da vida (1998) e Mensagem do Além, de Reencarnação (2004) à 1408 (2007) e Um Olhar do Paraíso (2009) passando pelo inevitável Ghost (1990) e chegando aos avatarianos Na’vi praticantes da religião de Gaia. Das novelas A Viagem e Alma Gêmea aos filmes Bezerra de Menezes e Chico Xavier. Mais os seriados Ghost Whisperer e Medium.

Os jornais tão laicos e seculares ainda mantêm uma seção dedicada às previsões do horóscopo. Duvido publicarem uma seção de aconselhamento cristão e reflexões bíblicas coerentes.

Marina Silva foi questionada quando afirmou que o criacionismo merece credibilidade de estudo. Por outro lado, a revista Veja publicou em seu site o mapa astral de José Serra, que acha a astrologia incrível. Claro, mapa com prognósticos auspiciosos em ano de eleição. Em sua notória linha serrista, só faltou dizer que o candidato traz seu amor de volta em três dias.

17 maio, 2010

Dunga, o chato que satisfaz

Há mais de 30 anos, a canção “Feijão Maravilha” exaltava as virtudes únicas do prato nacional. “Dez entre dez brasileiros preferem feijão”, começava a música. E dizia que o feijão era “o preto que satisfaz”. Eu era muito novo pra entender se essa frase era preconceito ou elogio. Além disso, a canção era tema de novela e na minha casa não tinha TV.

Televisão na minha casa só na Copa do Mundo de 82. Foi quando assisti ao desfile de supercraques como Cerezzo, Falcão, Zico, Sócrates, Leandro, Júnior e Éder. Mas perdemos para a Itália de Paolo Rossi e vimos algo único: a derrota que satisfaz. Poucas vezes se exaltou tanto um time que não ganhou. Aquele time era genial; e o YouTube não deixa minha memória mentir.

A poucos dias da Copa da África do Sul, vimos a seleção de Dunga, o técnico com apelido de conto de fadas mas de futebol nem tão fantástico assim. Era aparecer um jogador na lista de convocados pra gente saber que aquela era a seleção do anão: Josué. AH NÃO. Kleberson. AH NÃO. Elano. AH NÃO.

O povo querendo ver os meninos-show do Santos na seleção e Dunga nos negando a mera possibilidade de espetáculo como se fosse um prazer proibido. Ele deu preferência para jogador conhecido e velho de guerra. Temeu. Apequenou-se. Que lhe custava chamar ao menos o jovem craque Paulo Henrique Ganso, no mínimo, um legítimo substituto para o caso de uma contusão de Kaká, além de ser muito superior a Elano ou Ramires?

Dunga não tem medo de ser chato. Na entrevista após a convocação invocou o sacrossanto patriotismo para que marchemos cegamente junto com o selecionado brasileiro na Copa, ressaltou o comprometimento de jogadores medianos em oposição a jogadores com lampejos de gênio, como Neymar e Ronaldinho Gaúcho.

Por último, Dunga refrescou nossa memória. Foi com esses jogadores (alguns deles, excelentes – o goleiro Júlio César, o ala Maicon, o zagueiro Lúcio, o atacante Robinho) que a seleção ganhou Copa América e Copa das Confederações; foi com esse time que deu baile em Portugal, Itália e Argentina. A gente quer mais o quê?

Entre uma seleção que se arrisca ao espetáculo e outra que se arrisca a vencer ou vencer, a CBF prefere a segunda. Dunga é o chato que satisfaz. E isso pode ser um elogio.


14 maio, 2010

para viver com esperança

Você sabe quais são as três frases que as pessoas mais gostam de ouvir? A primeira é: "Eu te amo." Ainda não nasceu quem não queira amar e ser amado. O compositor Jader Santos escreveu uma bonita canção que diz que "o amor pode ser bonito, sincero e genuíno, mas o amor tem que ser divino pra ser amor". Nosso amor é falho e condicionado à reciprocidade; mal merece ser chamado de amor. Mas ninguém pode ter maior amor do que este: o de amar os habitantes do mundo a ponto de dar a própria vida em favor deles.

04 maio, 2010

esta é sua vida


Se esta é a sua vida, que tal colocar mais um pouco de play (pode ser leitura, refeição em família, esporte, passeio) onde tem muito work (trabalho), e trocar algum play por mais pray (oração)?

Via Ricardo Lombardi.