29 junho, 2009

volta ao mundo em cinco notas

Revolucionários e feministas, tremei! Desta vez, a luta é pela liberdade na indumentária feminina, nova bandeira do presidente Nicholas Sarkozy. Confira aqui. Agora a França estuda a proibição da burca das mulheres muçulmanas. Aqui de longe, esse vestuário parece mesmo imposição de macho-dominador-universal, mas será que, além dos ideais revolucionários, todo imigrante tem que assimilar outros baluartes da tradição francesa como a proibição do uso de nomes próprios em inglês, do desodorante e do banho diário?

Caros jornalistas, tende piedade daqueles a quem investigais! É só reparar o estado da peruca do ex-diretor do Senado Alexandre Gazineo quando ele teve que deixar o cargo pra ver que nem todo mundo reage bem à publicação de um “ato secreto”.

Segundo correligionários de José Sarney, a conquista da seleção brasileira em terras d’além-mar deve inspirar um novo e autobiográfico romance do escritor-senador. Disseram que é só elevar ao cubo o número de vinte e três jogadores mais comissão técnica que dará aproximadamente o número de familiares, apadrinhados e agregados em cargos públicos de confiança. Estaria faltando somente ele decidir se sua própria personagem terá paralelos com a carreira do presidente da CBF Ricardo Teixeira. Já lhe avisaram que a imprensa pode fazer maldosas elocubrações.

Ninguém duvida de que os Estados Unidos querem manter o posto de xerife do planeta. Barack Obama já renovou o contrato de permanência por tempo determinado das tropas militares e das empresas de construção civil no Iraque. Depois que o presidente americano matou rápida e impiedosamente uma mosca num programa de televisão, o mundo respira enquanto espera uma nova demonstração de força vindo da América. Não foi à toa que o ditador norte-coreano guardou os mísseis rapidinho!
Há quem aposte que a África do Sul, e não a China ou o Brasil, é que será a nova potência mundial do novo milênio. Depois de Nelson Mandela e da vuvuzela (aquela corneta da torcida sul-africana que soa como se um enxame de abelhas estivesse dentro da sua TV), periga o dialeto afro-anglo-carioca falado pelo treinador Joel Santana na Copa das Confederações ser adotado nas relações diplomáticas internacionais. Cá pra nós, tem mais chance que o esperanto! (vídeo aqui)

26 junho, 2009

a música mais triste do mundo

"O rei do pop está morto". É assim que têm começado as notícias sobre a morte do cantor Michael Jackson, um astro da música cujo talento e carisma absolutos têm contrapartda em sua vida demasiadamente tumultuada. Para referir-se à Michael Jackson, o recurso da hipérbole é usual: a criança mais afinada da história da música popular, o disco de black music mais vendido (Off the Wall), o intérprete - e às vezes compositor - com mais canções que alcançaram o topo da parada pop (41 canções), o primeiro artista a colocar cinco canções de um mesmo álbum (Bad) em primeiro lugar, o cantor do videoclipe mais caro, o autor do álbum mais vendido (Thriller, com supostas 100 milhões de cópias vendidas, que rendeu ao cantor 94 prêmios), o promotor (inventor?) do passo de dança mais célebre - moonwalk, aquele em que se anda deslizando de costas, o artista mais bem pago da história, enfim, dono de tantos atributos de composição, voz e dança que lhe alcunharam de Rei do Pop.

Por outro lado, o rei da música pop era também o rei das excentricidades e escândalos. Relatos de abusos físicos e psicológicos por parte do pai-empresário-capataz de uma trupe extramente dotada composta por Michael Jackson e seus irmãos; processos em casos de pedofilia (em um dos casos houve acordo judicial, em outro foi absolvido por falta de provas); produções caríssimas que não obtinham um resultado próximo aos de seus primeiros discos; foi filmado pendurando o filho para fora da sacada de um hotel; sua produção teria pago ao traficante Marcinho VP pela autorização da filmagem de um clipe no morro Dona Marta, no Rio de Janeiro.

Avaliado por um especialista em saúde mental como portador de uma mentalidade de criança, Michael Jackson parecia viver num conto de fadas fantasioso e trágico ao mesmo tempo. Morou sozinho por 17 anos num rancho que chamou de Neverland, A Terra do Nunca, referência a história de Peter Pan, talvez para escapar das assombrações traumáticas da infância.

A transformação visual do cantor gerou controvérsias: seria para esconder queimaduras, seria resultado de cirurgias plásticas mal-sucedidas, seria uma busca pela juventude eterna. Segundo o próprio cantor, o aspecto bizarro de suas feições devia-se a uma doença de pele, o vitiligo. Seu casamento com a filha de Elvis Presley não convencia as pessoas. Sua conversão ao islamismo teria sido motivada por um débito astronômico a um sheik do Bahrein, país para onde se retirou solitariamente. Tudo o que cercava o astro era cercado pelo sensacionalismo e pela polêmica. O rei do pop tornava-se, assim, o rei mais triste do mundo.

O que fazer quando se é a maior celebridade pop e o maior vendedor de discos aos 24 anos? Fazer tudo em escala megaespetacular não adiantou muito e sua carreira tornava-se uma arquitetura da autodestruição. Mesmo sendo o artista que mais teria contribuído financeiramente para causas humanitárias, sua vida pessoal requeria um conforto que aparentemente ninguém conseguia suprir. Autor da melodia de "We Are the World" (a letra é de Lionel Richie), em que se cantava "somos aqueles que fazem um dia melhor", seu íntimo denotava um mundo interior em péssimo estado. Cantor de músicas como "Ben" (a letra é um elogio à amizade) e "You are not alone (Você nunca está sozinho)", Michael Jackson passou parte de sua vida em regime de estrita solidão. Compositor de hits alegres e eufóricos, sua trajetória particular tocava a música mais triste do mundo.

E a música mais triste do mundo é aquela escrita depois do apagar das luzes do palco, é a carência de afeto e sinceridade ofuscada pelo brilho da performance pública. As músicas, as imagens, os fãs ficarão por aí muito tempo ainda. Mas, infelizmente, para o ser humano Michael Jackson, ser rei do pop só lhe garantiu pouco mais que instantâneos de felicidade.

23 junho, 2009

Batman quer ser Macbeth


Os super-heróis estão cada vez mais super-humanos. Em um passado não tão distante, Superman, Batman e Homem-Aranha eram seres mais preocupados em estragar os planos do vilão do que com a ética de suas próprias ações, mais ocupados em proteger a dupla identidade do que em debater-se com a esquizofrenia de sua dupla face.

Agora, os heróis estão mais próximos das desilusões e traumas humanos. O componente psicológico, mais do que o físico, dita as aventuras menos super e mais dark. O Superman não está mais naquele patamar inquestionável de protetor da humanidade. O Homem-Aranha se divide entre as grandes responsabilidades advindas de grandes poderes e o simples desejo de agradar a moça a quem ama. Batman é um incompreendido que vaga noite adentro movido mais pela vingança do que pela justiça. Nem as animações escaparam à sanha psico-humanizadora dos roteiristas da moda em Roliúdi. Em Os Incríveis, a família de ex-super-heróis aprende que, tão difícil quanto salvar o mundo, é salvar o casamento e saldar as dívidas.

Estes exemplos mostram que o espectador está preferindo heróis que não finjam sentir a dor que deveras sentem? Ou isso tudo é uma tentativa de transportar as histórias de super-heróis do terreno do entretenimento leve para a tragédia grega, e assim, obter uma credibilidade dramatúrgico-moral que nunca tiveram? Será que o Batman de Frank Miller quer ser como Macbeth, de Shakespeare?

Os últimos lançamentos de filmes de super-heróis demasiadamente humanos demonstram que os roteiristas andaram tomando gosto por Spinoza e Kant. Mas, afinal, isso deixa o resultado fílmico melhor ou pior? Pra ficar no terreiro filosófico, depende. Se a vontade era lustrar os personagens com o verniz da humanidade, que mal haveria. É possível que, em vez de projetarmos nossas vãs fantasias de superpoderes nos heróis, venhamos a questionar o papel dos heróis irreais em nosso cotidiano. Mas, pra usar o fraco de outro herói, essa discussão é o calcanhar-de-aquiles dos gibis transformados em filmes, haja vista que esse superherói tão psicologizado pode soar apenas como mera pretensão cinematográfica. Ou seja, receando a associação com a diversão rápida e barulhenta das aventuras em série, os produtores, diretores e roteiristas carregam seu personagem e sua história com metafísica, ética e meandros sociológicos.

Batman, por não ter recursos sobrehumanos como seus colegas de profissão, seria o personagem mais adequado à sobrecarga de tensão psicologizante. No recente O Cavaleiro das Trevas, ele se transformou num indivíduo em quem não se pode confiar. Suas reações são movidas por impulso e, como nenhum outro herói pop, ele é submetido às mais atordoantes questões existenciais. Quem é Batman, de fato? Suas ações são politicamente aceitáveis? Sua noção de justiça está pondo em risco a vida de pessoas que lhe são próximas? Enfim, Batman é como a polícia naquela canção: Batman para quem precisa de Batman (para quem? quem precisa?)

Os vários personagens do filme são confrontados com dilemas éticos. Batman precisa escolher entre a vida da mulher que ama e a cidade que pede um herói mais sereno e justo, e sobretudo, juridicamente legal. Esse novo herói, o promotor público Harvey Dent, será levado a níveis insanos de escolhas morais. A coletividade social está representada não apenas pelos protagonistas da história. Em dois barcos, dois grupos distintos da coletividade: de um lado, cidadãos comuns e mulheres com crianças, aquilo que representamos como pessoas de bem; de outro, presidiários, aquilo que se convencionou chamar de escória da sociedade. Ambos os grupos com o poder de destruir um ao outro.

Envolvido em todas as tramas, está a figura do Coringa, um provocador doentio que leva ao grau máximo de paroxismo as demandas éticas individuais e sociais. O Coringa entende os códigos que regem as condutas dos governantes, dos criminosos e da população em geral. Porém, em vez de agir em busca de reforma (ou revolução), ele prega o caos e a anarquia como modelo de confrontação política. Para ele, o ser humano corromperá a alma diante dos apelos da sobrevivência; Batman, no entanto, ainda crê que os homens podem tomar decisões eticamente sustentáveis e mais justas. E pode apostar, essa mistura de entretenimento com tintas teatrais de religião e sociologia não é gratuita.

Sim, todo esse drama existencial pode submergir na parafernália de som alto, montagem veloz e efeitos visuais. Sim, é válido reclamar da seriedade pretensiosa do que deveria ser só um passatempo esquecível. No entanto, quando o Coringa pergunta sarcasticamente à Batman por que ele é/está tão sério (why so serious?), alguém vai notar que até Batman tem seus dias de Macbeth.

21 junho, 2009

cem palavras: a feiura do ódio

O cristianismo é uma religião de amor tão radical que não apenas recomenda aos seguidores para que amem a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. É preciso, ainda, que amemos os inimigos e oremos pelos que nos perseguem. Pra muita gente já é difícil corresponder ao amor alheio, imagine então amar quem nos odeia, querer bem a quem preferiria que nem existíssemos. A sabedoria bíblica já disse por outros versos o que você lerá na citação mais abaixo: que o coração alegre aformoseia o rosto, que a tristeza faz secar os ossos, que a palavra branda desvia o curso da ira, e outros conselhos simples e necessários. Às vezes, parece que é preciso que outros digam a mesma coisa, mas de outra maneira, para que se repense o modo de relacionar-se consigo e com os outros seres humanos:

“Uma vez, na televisão, o Miguel Sousa Tavares perguntou-me porque é que eu não tinha inimigos. Eu respondi que um inimigo dá muito trabalho. Quando nas andanças da vida, alguém é desagradável comigo, deixo-o cair e não perco tempo com ele, muito menos a odiá-lo. Isto não é por bondade, é por gestão das minhas energias e, também, como já tenho dito, porque procuro ter uma visão estética da vida e o ódio e a agressividade são coisas muito feias”.

António Alçada Baptista, em A Cor dos Dias, Memórias e Peregrinações

18 junho, 2009

o consumo de gente

É difícil não concordar com o pensador francês Guy Lipovetsky quando ele diz que vivemos no Império do Efêmero. Homens e mulheres, deslumbrados com o milagre publicitário que promove a multiplicação das marcas, compram produto X, sonham com Y e acordam querendo Z. Da noite pro dia, já trocaram de sonho de consumo. Se este sonho de consumo é um sapato, uma bolsa, um carro ou uma namorada, isso já nem importa.

Como se estivessem assistindo a um interminável programa, usam o controle remoto para trocar de canal e de vida. Ah, enjoei desse celular que comprei ontem. Oh, cansei dessa aula sem computador na sala. Não, não posso mais ser visto dirigindo essa “carroça” importada. Sim, serei feliz e bonita e magra e admirada como aquela moça da propaganda de xampu.

De forma consciente ou não, são caprichos alimentados diuturnamente, são vontades que precisam ser saciadas ants que o tempo se vá. A rapidez com que vão surgindo as inovações tecnológicas aliada ao planejamento industrial de envelhecimento precoce dos bens de consumo (a tal obsolescência premeditada) fazem com que o celular, os óculos escuros e o sapato sejam bens tão perecíveis como o tomate e a laranja.

O que tem marcado nossos tempos velozes e furiosos é o processo de reificação das gentes: pessoas viram coisas, relacionamentos se tornam um arranjo de conveniência interesseira. Quase tudo é passível de compra e venda no shopping da fé, quase tudo vira mercadoria na vitrine dos vícios e virtudes. Como escrevia Nelson Rodrigues, "o dinheiro compra tudo, até o amor verdadeiro". Para além da frase teatral e sem esperança, eu diria que não se pode viver assim, negociando princípios e pessoas por trinta moedas de prata.

14 junho, 2009

uma música hoje

Para começar bem a semana, audioveja esta ária da cantata BWV 30, de Johann Sebastian Bach. Extraída do bônus do DVD Bach Arias, a ária foi filmada como um ensaio dirigido pelo próprio Bach. A bela voz é de Magdalena Kozená, meio-soprano tcheca.



A cantata BWV 30 foi composta em 1738 para a Festa de São João Batista. Quem ouve a música e lê o texto (provavelmente de autoria de Picander, baseado em passagens bíblicas sobre o nascimento de João Batista), sente-se enlevado pela sacralidade da obra. No entanto, esta cantata é uma versão religiosa da cantata profana "Angenehmes Wiederau, freue dich in deinem auen" (BWV 30a), uma espécie de homenagem de Bach à beleza dos arredores de um castelo em Wiederau.

O caráter alegre da música sublinha a temática geral da obra, que representa a evocação de Zacarias, pai de João Batista, e também reflete a influência estilística das gerações mais jovens que o maduro Bach não dispensava. O ritmo sincopado da ária acima e o décimo movimento, na forma de giga, expressam não apenas o caráter de júbilo da cantata, mas também revelam que Bach adotava particularidades rítmico-melódicas quando estas poderiam produzir o efeito musical e religioso mais adequado.

11 junho, 2009

eu e você, eu sem você

Por que tem gente que só consegue dizer "eu te amo" se for através da letra de um poema alheio? Qual é a dificuldade de dizer que você sem ela é pouco menos que nada? Acreditem, meninas: toda dificuldade é pouca. Séculos de reticências na hora da declaração criaram uma injustificável incapacidade masculina de dizer "eu te amo". A língua trava, o rapaz esquece essas três palavrinhas mágicas e o momento perfeito se vai.

Ó varões renitentes, até quando evitareis os olhos de quem vos ama?

Então, não tenha medo de parecer brega - ok, não a ponto de mandar flores para o escritório dela (as amigas dela vão fingir que a-m-a-r-a-m) ou de contratar um fatídico carro-som com aquela voz de locutora de aeroporto lendo um cartão romântico de 1,99.

Pensando bem, tenha muito medo de parecer brega. Melhor conhecer o gosto pessoal da amada. Consulte uma amiga dela. Ah, sim. Uma amiga que também goste de você. E, importante, uma amiga que gostaria que ela gostasse de você. Caso contrário, você corre o risco do cartão de 1,99.

Cuide para não soar como o Jack na proa do Titanic. Bem, talvez ela esteja esperando por um rei do mundo na proa do barco da vida! Credo. Pensando bem, melhor não.

Se não sair nada do tipo "eu e você", experimente falar em "eu sem você". Enquanto você ainda não a conquistou/convenceu/converteu, então é melhor dizer o que você é sem ela por perto.

Você começa citando um trecho de canção conhecida, só pra dizer que você é um cabra de cultura. Depois, é por sua conta e risco.

eu sem você não sou mais ninguém
eu sem você sou um peixe na terra, um menino sem casa,

um moleque sem rua
eu sem você sou a chuva na praia, a fruta caída,

a ave abatida, a flora desnuda

eu sem você: um Da Vinci sem tinta,
um Beethoven sem pam-pam-pam-pam
eu sem você sou Jobim sem Vinicius,
o amor sem feitiço, o frio sem a lã


eu sem você: um gol sem abraço,
um Pelé sem golaço, o pão sem o queijoeu sem você? um violão sem cantinho,
la madre sin niño, a face sem beijo
Agora diga eu te amo ou algo do ramo e vá ser feliz, homem de Deus.

08 junho, 2009

cem palavras: 4 possibilidades

A seção "Cem Palavras" volta hoje. Escolhi um texto de Ed Renê Kivitz. Tenho cá minhas restrições quanto à "imanência" como única possibilidade de encontro com o divino, principalmente devido ao extremismo que provém da compreensão de um Deus imanente-dentro-da-gente. Sou atraído pelo ponto de tensão entre transcendência e imanência na relação homem-divindade. Mas para refletir a partir de um texto como esse não é preciso concordar com todas as suas vírgulas. Continue lendo:

"Acabo de ler O espírito do ateísmo, onde André Comte-Sponville propõe uma espiritualidade para ateus, isto é, uma metafísica sem Deus, e demonstra uma sobriedade ausente entre os recentes “religiofóbicos”, como Richard Dawkins, Michel Onfray e Christopher Hitchens. Ao final de sua argumentação, conta que na adolescência, após ler o Eclesiastes, escreveu no caderno de notas: “Das duas uma. Ou Deus existe, e então nada tem importância. Ou Deus não existe, e então nada tem importância”. Na vida adulta conclui: “Não filosofei em vão. Repensando aquela fórmula da minha adolescência eu antes diria o contrário: “Ou Deus existe, e então tudo é importante; ou Deus não existe, e então tudo é importante”. Comento as possibilidades.


"Deus não existe, então nada é importante. Isso é niilismo. Um mundo sem Deus é vazio de valores superiores, ou como disse Nietzsche, “faltam os fins, não há mais resposta para a questão: para que?”. Pensamento concorde com Dostoiévski: “Se Deus não existe e a alma é mortal, tudo é permitido”. Deus é a base absoluta do juízo moral, a única plataforma verdadeira de responsabilidade infinita. Os céticos aos poucos se tornam cínicos. E logo se tornam loucos. Não é possível ao homem sobreviver no vazio.

"Deus existe, então nada é importante. Isso é fanatismo. Separar Deus de sua criação e jogar todas as fichas na transcendência, numa espiritualidade abstrata, implica abandonar a única possibilidade de encontro com o divino, a saber, a imanência, com que se pode interagir dada a transparência. A tentativa de experimentar Deus além da imanência é ilusória. Dar as costas ao mundo de Deus é desprezar o Deus do mundo. Não peço que os tires do mundo… Apenas os fanáticos se sentem bem na “espiritosfera”. E lá também enlouquecem.

"Deus não existe, então tudo é importante. Isso é materialismo. É dar valor último ao que é penúltimo. Chesterton tinha razão, quando deixamos de acreditar em Deus, acabamos crendo em qualquer bobagem. O que é esse “tudo” sem Deus, senão deus? Ainda não entendi (falha minha, é claro), a lógica que afirma que a descrença em Deus resulta em melhor humanidade. Se Deus não existe, tudo é efêmero. Então tudo é temporariamente importante. O que é temporariamente importante, não é importante em si, mas em sua função no tempo. Toda importância é relativa. Toda importância relativa é uma desimportância. Esta terceira possibilidade não me faz sentido. Entre esta e a primeira, fico com a aquela.

"Deus existe, então tudo é importante. Isso não sei o que é. Mas é a fé que me mobiliza".

06 junho, 2009

o jogador pródigo

O saber popular nos avisa que fama e fortuna não trazem felicidade. Por outro lado, ser um anônimo na miséria não faz ninguém feliz. E em nossos tempos de celebridade, pior que não ter dinheiro é não ser reconhecido na rua.

O poeta dizia que tristeza não tem fim, felicidade sim. Comparava, então, a felicidade com a pluma que o vento vai levando pelo ar; voa tão leve, mas tem a vida breve, precisa que haja vento sem parar.

O gol é o instantâneo do futebol. Dura menos que um segundo, e sua comemoração, pouco mais que um minuto. A sensação se vai e o artilheiro será cobrado assim que perder aquele outro gol que parecia tão fácil de fazer. O gol é leve, mas a alegria que ele traz é breve.

Crianças dão um tempo da boneca, da pipa e do videogame pra brincar de ser artilheiro. Alguns enfrentarão dolorosas peneiras, cheios de sonhos de ser Ronaldinhos, Patinhos e Martinhas da vida. O problema é que é mais fácil um cartola ir pro céu do que centenas de garotos entrarem na fábrica de craques endinheirados e famosos. Para piorar, o ilustre milionário da bola é assediado por empresários, que querem tirar um punhado de dólares do jogador, é rodeado por beldades, que estão ali quase sempre pelo brilho dos dólares a mais e não pela cor dos olhos do boleiro, e por marcas, que querem agregar a fama do craque a um produto qualquer. Facilmente, ele se torna uma mercadoria pronta pra ser consumida e logo substituída. Ídolo morto, ídolo posto.

Esse arremedo ludopédico-sociológico era pra falar do jogador de futebol Adriano, que saiu da favela para ser atleta, que saiu do Brasil para ser imperador na Itália e que agora faz o caminho de volta pra ser feliz. A fama não atraía melhores amigos do que já tinha, a fortuna não dava pra comprar passagem só de ida para a tristeza e a felicidade já acabava mal a festa terminava.

Embora conquistasse uma vez o coração da torcida, Adriano nunca mais foi capaz de repetir as atuações de uma época de triunfos. Como um filho pródigo, ele volta pra casa, vem ser feliz na favela, com os amigos que já o amavam antes de ser imperador. Adriano mata dois mitos com uma decisão só: um, o mito odioso e ignorante de que na favela não existem lares verdadeiros e amigos fraternos; o outro, o de que a fama e a fortuna do futebol são a língua do F da felicidade.

Quanto tempo vai durar esse momento feliz do craque? Não se sabe. A alegria é o melhor remédio, mas enquanto não chegam novos céus e nova terra, tudo em nosso mundo aqui tem prazo de validade.

03 junho, 2009

a música brasileira de luto

Entre os passageiros do voo AF 477 da Air France que tragicamente desapareceu sobre o Atlântico estava o maestro Silvio Barbato. Ele foi responsável pela trilha sonora do filme Villa-Lobos - Uma Vida de Paixão e, nos últimos anos, vinha dedicando-se mais à composição que à regência. Estreou duas óperas: O Cientista, inspirada na vida de Oswaldo Cruz, e Chagas, baseada na vida de Carlos Chagas.

Conhecido pelo temperamento forte, já tinha joãogilbertianamente enfrentado um público que ensaiava uma vaia por causa de um concerto que demorava a começar. Fora do palco, era um flamenguista que apreciava o surf e a culinária.

A revista Concerto informa que Silvio Barbato estudou composição e regência com Claudio Santoro, cujas sinfonias mereceram edições de análise crítica de Barbato. "Formou-se depois no Conservatório Giuseppe Verdi, em Milão, onde recebeu o Diploma de Alta Composição na classe de Azio Corghi. Ainda na Itália freqüentou a classe de Franco Ferrara, colaborando com o maestro Romano Gandolfi no Teatro Alla Scala. Em Chicago, realizou seu PhD em Ópera Italiana sob a orientação de Philip Gossett.

"Silvio Barbato, que completou 50 anos em maio passado, foi diretor musical e regente titular da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro, em Brasília, e regente titular da Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal do Rio de Janeiro".

Uma lágrima pelo maestro.