23 dezembro, 2016

a opinião pública e a opinião publicada sobre os evangélicos

Parece que tem uma revista que quer ficar de boas com potenciais consumidores.
O dossiê Brasil Evangélico fala de protestantes e pentecostais sem a habitual ironia vista em suas matérias sobre os evangélicos. Em texto de quatro páginas, a ADRA [Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais]  é bastante elogiada e as crenças adventistas são tratadas com respeito.
Todos os textos reconhecem o trabalho social dos evangélicos - são boas matérias sobre batistas, mórmons, assembleianos... 
Acho ótimo. Mas reportagens como essa mostram que a opinião pública (mídia, universidades) só ressalva as igrejas quando estas aparecem como ONGs. A função espiritual e as diferenças teológicas seriam somente propulsoras de intolerância e, lá vem, fundamentalismo.

É claro que o objetivo e o escopo da Superinteressante não é proselitismo religioso e nem detalhar minúcias teológicas do cristianismo evangélico no Brasil. O que tem chamado atenção da mídia é o expressivo crescimento numérico dos evangélicos e a visibilidade social que essa expansão acarreta. O Dossiê da revista cobre somente as igrejas que continuam crescendo. Luteranos, anglicanos, presbiterianos e metodistas, embora desenvolvam trabalhos educacionais e sociais, ficaram de fora dessa edição da Superinteressante.

A expansão evangélica atraiu os olhares daquilo que se chama opinião pública - embora diga-se que "não existe opinião pública e sim opinião publicada" (frase atribuída a Winston Churchill). Bem, no paraíso da opinião pública, neopentecostal não entra. Por isso, o dossiê castiga a música gospel (só visualizada na ótica do mercado), a teologia da prosperidade, o lobby político, o templo de Salomão, a esquisitice, a bizarrice, a malafaíce. 

É inegável que vários grupos de novos pentecostais promovem certos desvios teológicos, usam controversas estratégias de atração e abusam da boa fé de pessoas em situação de risco. Mas as reportagens também poderiam abordar a transformação socioeconômica, a rede de afetos que ampara milhares de famílias partidas, o envolvimento sadio dos jovens.
 Infelizmente, como o pior é sempre melhor para a cobertura midiática, é essa opinião publicada que vira opinião pública.

19 dezembro, 2016

Steven Spielberg, 70 anos: os 10 melhores filmes

Steven Spielberg acaba de completar 70 anos de idade. Soa estranho que o cineasta que melhor soube mexer com nossas fantasias e medos infantis já seja um ancião. É verdade que ele deixou um pouco suas criaturas fantásticas e seus caçadores de aventuras indestrutíveis e preferiu dar aula de História. Alguns preferem seus ETs, dinossauros e Indiana Jones; outros gostam mais de seus filmes sobre escravidão e II Guerra Mundial. Eu prefiro os bons filmes que ele faz, porque para mim importa sua incrível capacidade de contar histórias, sejam reais ou sobrenaturais.

Seus prós são muitos

- até seus filmes medianos têm enquadramentos incríveis 
- dirige atores infantis como ninguém: ele dirigiu uma Drew Barrymore garotinha em ET e um Christian Bale pré-Batman e pré-adolescente em Império do Sol
- chamou John Williams para compor as trilhas dos seus filmes
- os efeitos visuais de seus filmes servem à trama e não ao exibicionismo tecnológico
- tem pleno domínio na filmagem de cenas de ação ou suspense: os 20 minutos iniciais de Resgate do Soldado Ryan, os três primeiros Indiana Jones, as explosões em Munique

Mas é humano e tem problemas

- escorrega para o dramalhão na parte final de vários de seus filmes: quando a gente já entendeu que é pra chorar, ele prolonga demais a cena e manda aumentar a música.

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Nos seus filmes históricos, ele parte do painel amplo de uma tragédia coletiva para chegar ao drama individual de pessoas arrastadas pelo turbilhão da História: em Soldado Ryan, ele não fala de combate, e sim de caráter; em Amistad, é a dignidade do escravizado.


Nos filmes de fantasia, ele se nivela ao mundo infantil: em ET, sua câmera está quase sempre na altura das crianças protagonistas; em Contatos Imediatos, os adultos são docemente infantis. Spielberg também fica com a pureza da resposta e da fantasia das crianças.

Um top 10 possível dentro de uma filmografia tão boa:


10. Prenda-me se for capaz


Não se divirta se for capaz.

9. Minority Report


Continua atualíssimo.


8. O Resgate do Soldado Ryan


A bandeira americana tremulando quase atrapalha. Mas o que é importa é a nobreza de atitudes.


7. Munique


O olho por olho israel-palestina cega todo mundo.


6. Império do Sol


Filmaço dolorido e otimista.

5. A Lista de Schindler


Sem palavras. Toquem a trilha.


4. Contatos Imediatos do 3º Grau


Spielberg revela ser um adulto genialmente infantil.



3. E.T., o extraterrestre


Terno, divertido e extraordinário.


2. Os Caçadores da Arca Perdida


A obra-prima dos filmes escapistas.


1. Tubarão


Spielberg, 28 anos, na boca do seu tubarão que revolucionou o cinema. Depois dele, ritmo, música, suspense e até o marketing nunca mais foram os mesmos.


26 novembro, 2016

Hacksaw Ridge e o testemunho da fé na Europa

Hacksaw Ridge é o título em inglês do filme de Mel Gibson que conta a história do socorrista adventista Desmond Doss, soldado americano alistado na II Guerra Mundial que se recusou a pegar em armas por objeção de consciência. Servindo entre 1942 e 1946, sua coragem para resgatar feridos o levou a salvar muitos companheiros de batalhão. No Brasil, o filme se chamará Até o Último Homem, e vai estrear nos cinemas em 12 de janeiro de 2017.



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Karolina e Monika, de Cracóvia, Polônia, passaram muito tempo neste último mês em seu cinema local. Gêmeas adolescentes recém-batizadas (foto), elas vestem camisas que lembram o uniforme que Desmond Doss teria usado na II Guerra Mundial. Atrás da camisa está escrito "Desmond Doss salvou 75. Jesus salvou a todos. Eu sou adventista como Desmond Doss - me pergunte mais".
Elas não estão sozinhas. Mais de 100 jovens adventistas em cidades de toda a Polônia passaram o mês de novembro como voluntários nos cinemas, na rua, em uma feira de livros e em exibições especiais do documentário sobre Desmond Doss, "The Conscientious Objector", em suas igrejas locais.
O resultado? Pessoas já estão tendo estudos bíblicos com pastores depois de assistir ao filme de Mel Gibson e pelo menos 100 foram a uma Igreja Adventista pela primeira vez.


Tudo isso não aconteceu por acidente. Marek Micyk, diretor de jovens da Igreja Adventista na Polônia, juntou-se ao consultor de relações públicas Michal Rakowski e a um grupo de jovens para formular um plano que pudesse maximizar o testemunho da igreja durante o lançamento do filme nos cinemas.
A equipe de Micyk traduziu a página da Wikipedia sobre Doss para o polonês, que já foi visualizada 33.000 vezes nas últimas três semanas, sendo o terceiro maior resultado da página sobre Doss no mundo, logo depois do inglês e do francês. A equipe projetou um site de propriedade da igreja, DesmondDoss (em polonês) que foi acessado 35.000 vezes por 8.500 usuários. Micyk está mais orgulhoso da fanpage Desmond Doss PL no facebook, onde o infográfico mais popular foi visto por 209.000 usuários. Muitos jovens adventistas poloneses mudaram suas fotos de perfil do facebook para imagens do cartaz do filme e a frase "Eu sou um adventista como Desmond Doss".

Voluntário adventista na Feira Internacional de Livros da Cracóvia

"É fantástico", afirma o pastor Marek Rakowski, Secretário Executivo da Igreja Adventista na Polônia. "Um estranho paradoxo é que em um país que é um dos mais católicos da Europa, falar sobre espiritualidade e outras religiões é geralmente tabu. Este filme quebrou o tabu e deu a igreja uma voz".
Essa "voz" chegou a níveis mais altos do que o esperado tanto na Polônia quanto na Hungria. Em ambos os países, o distribuidor de filmes entrou em contato com a Igreja Adventista pedindo ajuda para verificar a precisão da tradução.
Não só os membros da igreja foram capazes de ajudar com uma tradução precisa e uma compreensão de conceitos teológicos, como o sábado bíblico do sétimo dia, mas a Igreja Adventista terá um spot de 15 segundos de mídia antes da exibição do filme em cada cinema e um espaço em cada cartaz do filme com seu endereço na web quando o filme estrear em 29 de dezembro. Os líderes da igreja igualmente irão a duas mostras especiais para a mídia em exibições VIP onde poderão falar sobre questões de liberdade e tolerância religiosas. Tudo isto sem custo algum para a igreja.
"Em toda a minha vida como adventista do sétimo dia nunca vi a nossa igreja ganhar tão boa cobertura na mídia", diz Marek Rakowski, o secretário da Igreja Adventista na Polônia.
Durante uma pré-estreia especial na Polônia, designada apenas para a imprensa, YouTubers e outros formadores de opinião, o porta-voz adventista, pastor Andrzej Siciński, juntou-se a outros dois especialistas (um comandante da unidade de contra-terrorismo aposentado e um padre católico), que refletiram sobre o filme durante um painel de discussão.
Os adventistas também montaram um estande durante a exibição do filme para a imprensa, distribuindo pendrives com materiais de mídia sobre Doss e os adventistas. Isso levou Siciński a ser convidado para falar em outros programas dos meios de comunicação.


Michal Rakowski está impressionado. "Se a Igreja tivesse pago uma campanha publicitária deste tipo, usando a mesma mídia, calculamos que custaria 180.700 euros! Esse é um preço que é totalmente inacessível para os adventistas na Polônia, onde há apenas 5.820 membros em uma população de 38,5 milhões".
Róbert Csizmadia, Secretário Executivo da Igreja Adventista na Hungria, disse que em meio a "tanta guerra, inimizade, terrorismo e pessoas verdadeiramente com sede de paz e amor, temos algo positivo a oferecer".

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Veja também: desmonddoss.com.br
 O premiado documentário de Terry Benedict "The Conscientious Objector" no youtube.

31 outubro, 2016

Lutero e a Reforma da música - parte 1


Andreas Karlstadt acaba de publicar em Wittenberg um panfleto com 53 tópicos condenando a liturgia católica, rejeitando seu formato, seu idioma e sua música inacessível ao canto congregacional. Isso foi manchete em março de 1522.
Naquele ano, Martinho Lutero, após seu exílio no castelo de Wartburg, voltava para Wittenberg, onde em 31 de outubro de 1517 ele publicara suas 95 Teses. Isso continua sendo manchete há 499 anos.
Esperava-se que o Dr. Lutero, o reformador protestante, apoiasse Karlstadt. Mas ao chegar na cidade, Lutero profere uma série de oito sermões com o intuito de corrigir a reforma litúrgica radical de Karlstadt. A reforma luterana deveria ser mais cautelosa e mais conservadora devido 1) à necessidade de reformar o ensino bíblico antes de modificar o ritual e 2) ao apreço de Lutero pelo canto tradicional polifônico.
As proposições reformadoras de Lutero cuidaram de preservar o aparato cerimonial da missa católica, cuja música, linguagem e ornamentações possuíam alto valor simbólico na mente religiosa popular. Assim, a menos que os textos entrassem em contradição com os dogmas luteranos, os cantos tradicionais e os motetos polifônicos católicos eram mantidos no rito luterano.
Lutero explicava que, assim como não se pretendia “abolir o ofício de pregar, mas objetivamos restaurá-lo novamente ao seu lugar justo e apropriado, também não é nossa intenção eliminar o serviço [litúrgico], mas restaurá-lo novamente para o seu uso correto" [“Concerning the Orders of Public Worship”, Luther’s Works 53, p.11]
Seguiu-se, então, uma variedade de práticas. Em algumas cidades, cantava-se partes da missa (como Introito, Kyrie, Agnus Dei, Gloria, Credo) em latim ou em alemão, usava-se canto polifônico ou melodias mais simples, canto melismático (várias notas em uma sílaba) ou canto silábico (uma nota para cada sílaba). Essa variação linguística e musical estava de acordo com o pensamento de Lutero sobre a diversidade de usos da música na igreja:
"Que cada igreja tenha a música segundo seu próprio livro e costume. Pois, eu mesmo não gosto de ouvir as notas, em um responsorial ou noutro cântico, modificadas daquilo a que fui acostumado na juventude. Nós estamos interessados em mudar o texto, não a música" [“Preface to Burial Hymns”, in Luther’s Works 53, p. 328].

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Esta é uma brevíssima amostra do pensamento de Lutero sobre música. Por enquanto, ficam algumas considerações extraídas das ideias ilustradas no texto:
- As ações de renovação não precisam descartar a tradição musical da congregação, os cânticos a que muita gente foi acostumada na juventude
- A unidade do discurso teológico não está em contradição com a diversidade da retórica musical

[a pintura acima: Martinho Lutero em família, de G. A. Spangenberg (1886)]

14 outubro, 2016

marchando para a guerra ao som de hinos

Quando fez sessenta anos de idade, o velho rei ainda se lembrava da manhã em que viu um grupo de cantores marchando à frente de pelotões de soldados que permaneciam surpreendentemente na retaguarda.
Ele lembrou do silêncio interrompido pela voz alta dos cantores e sorriu sozinho ao lembrar que, enquanto eles entoavam cânticos de louvor, os três exércitos inimigos do outro lado da montanha começaram a lutar uns contra os outros numa estranha e encarniçada batalha que os destruiu por completo.

O velho rei prendeu o sorriso por um instante, olhou para os lados para assegurar-se de que ninguém o visse rindo feito um idoso senil, e então cantou os primeiros versos da música que ouvira naquela guerra em que nenhum dos seus soldados precisou entrar em combate: “Rendei graças ao Senhor, porque Ele é bom e a sua misericórdia dura para sempre”.

O dia em que a música foi uma arma de combate foi relatado em 2 Crônicas 20, capítulo da Bíblia que registra uma ordem divina para que o rei Josafá posicionasse seu exército atrás dos levitas cantores na batalha do deserto de Tecoa contra os exércitos moabitas, amonitas e meunitas.

Em se tratando de utilização de artefato musical na guerra, o povo de Israel era reincidente. A primeira vez havia sido séculos atrás, quando os levitas marcharam por sete dias consecutivos ao redor das muralhas de Jericó. Naquela ocasião, os levitas foram na retaguarda e iam tocando buzina de carneiro. É claro que os muros daquela cidade não eram tão mal feitos a ponto de caírem ao som de shofar e vozes. Na verdade, nem contrabaixos, guitarras e microfones explodindo um hard rock no volume máximo teriam essa capacidade.

Essa não foi a primeira nem a última vez na história em que se cantou hinos antes de uma batalha, visto que os generais entendiam que a invocação musical eleva o moral dos combatentes. Antes de começar a perseguição campal aos fugitivos escoceses em 3 de setembro de 1650, Oliver Cromwell liderou o exército inglês no canto do Salmo 117: “Aleluia! Povos todos, louvai o Senhor, nações todas, dai-lhe glórias…”

Louvar a Deus após a vitória também foi um comportamento típico dos antigos batalhões europeus. Essa conduta religiosa e musical é retratada numa peça de William Shakespeare em que os britânicos entoam um cântico de gratidão a Deus: “Que ninguém se vanglorie ou tome o louvor que é de Deus somente”, diz o rei Henrique V. “Deus lutou por nós… que todos cantem Non Nobis e Te Deum”. Non nobis, não a nós, Senhor.

Na manhã do dia 5 de setembro de 1757, 33 mil soldados prussianos foram para o campo de batalha cantando hinos luteranos. Após o combate em que venceram um exército austríaco com o dobro do tamanho, eles entoaram o cântico Num danket alle Gott em agradecimento a Deus, conforme descrição de Thomas Carlyle:

“Escuridão total; silêncio, rompido por um granadeiro prussiano que, com voz solene de tenor, entoa uma música sacra: um hino conhecido, do tipo familiar do Te Deum, a que 25 mil outras vozes, e todas as bandas regimentais, logo aderiram:
Agradeçam todos vós a Deus
Com coração, mãos e vozes
Que coisas maravilhosas fez
Em quem o mundo exulta”
No livro Canhões de Agosto, a historiadora Barbara Tuchman relata que esse mesmo hino foi cantado entusiasticamente por uma multidão de alemães em 1o de agosto de 1914, quando a Alemanha entrou na guerra.

Em outras batalhas, o apoio divino era invocado pelos dois lados do conflito. Na Guerra Civil Americana, soldados do Norte (União) e do Sul (os confederados) cantavam as estrofes do hino “Lutai por Cristo” [Stand up, stand up for Jesus]:

Lutai, lutai por Cristo
Soldados sois da cruz
Alçai seu estandarte
Bem alto deixai brilhar sua luz
Hinos não ganham batalhas, mas a empolgação com que se cantava devia fazer os soldados acreditarem que Deus iria lutar com eles contra o exército inimigo. Talvez ocorresse a eles que o exército do outro lado também havia cantado com todo o entusiasmo ao mesmo Deus. No entanto, ao final do dia, só um dos batalhões estaria cantando hinos de gratidão.

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- A imagem no topo do texto é a gravura O Coral de Leuthen, de Arthur Kampf (1887). Frederico, o Grande, foi retratado cantando em pé com os soldados. Algo pouco provável, considerando-se o ateísmo do monarca.
- Assista trecho do filme Henrique V (1989), em que os ingleses cantam Non Nobis Domine após a batalha de Agincourt:


17 agosto, 2016

Deus não bate pênaltis

Se o goleiro e o batedor do pênalti pedem a ajuda de Deus no mesmo momento, para quem o Onipotente decide? Ao falar sobre a natureza do universo, Einstein teria dito que "Deus não joga dados". A frase estava relacionada a determinações e incertezas propostas por teorias da mecânica e física quântica. Os resultados do esporte também podem ser tão difíceis de determinar, e têm tantas variáveis e incertezas, que dá pra dizer que se Deus não joga dados, Ele também não bate nem defende pênaltis.

Outra situação: num concurso federal onde 5 mil pessoas disputam duas vagas. Ainda que todos rezem para o mesmo Deus, ninguém espera um milagre em que todos os candidatos sejam aprovados e convocados. Até porque isso criaria um mar de contas no vermelho para o governo e não haveria Moisés ou José do Egito capaz de administrar esse inchaço do funcionalismo público.

Os primeiros lugares em concursos e os medalhistas de ouro têm mais fé do que outros? Não tenho fé para acreditar nesse tipo de meritocracia, e nem há base bíblica pra isso. Na verdade, na Bíblia está escrito que "Deus faz nascer o seu sol sobre bons e maus, e faz chover sobre justos e injustos"(Mateus 5:45). Não custa lembra que ser bom ou mau não tem relação direta com o fato de alguém ser cristão ou ateu.

Ter fé do tamanho de uma bola de basquete não é suficiente para remover os adversários. Está aí o ginasta japonês Kohei Ishimura, bicampeão olímpico que disse que não acredita em Deus, e sim em treinamento.




Não parece haver muita lógica em um esportista atribuir a alguma divindade o motivo de sua derrota ou vitória, mas sim ao treinamento duro, a habilidades superdesenvolvidas e ao esforço contínuo. No entanto, e se Usain Bolt e Michael Phelps quiserem agradecer a Deus por tudo isso e mais as oportunidades que tiveram?

Nesse caso, quando o assunto é gratidão, não há qualquer impedimento em ser grato a Deus. Está aí a seleção de rugby das ilhas Fiji creditando sua medalha de ouro a Deus. É verdade que a letra da canção diz "vencemos pelo sangue do Cordeiro e pela Palavra do Senhor", dando a impressão de uma mistura de triunfos esportivos com conquistas espirituais. Mas, se eles estiverem seguindo a recomendação de "Em tudo, dai graças" (I Tessalonicenses 5:18), então, deixa o time cantar.


 


Em caso de derrota, muito cristão resignado diz que isso também foi vontade de Deus. Mas tem gente que, em vez de creditar sua derrota a erros pessoais, ao seu treinamento ou à maior competência do concorrente, prefere atribuir seu fracasso à vontade dos deuses dos outros.

"Ele [Thiago Braz] estava influenciado pelas forças místicas do candomblé": foi o que teria dito o treinador do atleta Renaud Lavillenie, que perdeu a medalha de ouro na modalidade salto com vara para o brasileiro Thiago Braz. Seria este o primeiro caso de doping espiritual de um atleta medalha de ouro. Se os organizadores da competição acreditarem nisso, o comitê de doping vai passar a ser formado por um médico e um exorcista. [mais tarde, o repórter do Le Monde disse ter inventado a fala do treinador]

Voltando a pergunta inicial, se o goleiro e o batedor do pênalti pedem a ajuda de Deus, como o Onipotente decide? Sabendo que todos são iguais ao olhos divinos, e entendendo que o fato de ser bom ou mau, ateu ou devoto, não altera o resultado de um jogo, resta confiar em outra qualidade atribuída a Deus: a sabedoria.

15 julho, 2016

poema para nice


Nesse olho por olho, ficamos cegos de afeto
Nesse dente por dente, ficamos mudos de respeito
Matamos o Cristo e ainda batemos no peito:
“Pai, queima aquela igreja, eu sou o único correto”

Um pouco de amor para o devoto que sonha com o paraíso
Mais tolerância para a fé do homem que se faz bomba
Mais compaixão para o bispo que chuta a santa
Um pouco de poesia para um mundo que perdeu o juízo




JSM.

08 julho, 2016

quando a teologia canta




Convencer alguém a ir à igreja num sábado à noite parece tão difícil quanto convencer uma pessoa a ir ao dentista extrair um siso. Todo mundo espera alguma coisa de um sábado à noite: uma pizza, um filme, uma conversa boa. Menos ter que ir a um culto. Ou ao dentista.
Mas foi justo num sábado à noite que fui com meus filhos à igreja. Na verdade, fomos assistir a um concerto cristão. Os cantores entraram no palco, a banda começou a tocar e fluíram uma, duas, três canções bonitas que todo mundo parecia conhecer.
Antes de cada música, os músicos falavam um pouco sobre sua vida e, especialmente, a respeito da existência humana, da convivência e da busca por significado. Em seguida, abordavam questões de fé, religião e comunhão, reforçavam a necessidade individual de conhecer melhor a Bíblia e apontavam para o sentido da vida: relacionamento com Deus e com os semelhantes.
Fez toda diferença ouvir um concerto em que os cantores são também pastores. E uma das funções mais nobres de um pastor é traduzir o texto bíblico para a linguagem dos leigos; é tornar a teologia não somente compreensível, mas irresistível.
Músicos não precisam ter formação teológica. No entanto, com o apoio da leitura da Bíblia, de devocionais e de livros teológicos, as letras de suas composições poderão deixar os córregos superficiais e passar a navegar em águas profundas. Assim, músicos profissionais podem ser também teólogos amadores com a função de traduzir as Escrituras para uma poesia fértil de teologia e comunicar uma teologia que canta.
“Pra trás eu deixo o homem que fui e as casas que eu construí longe de Ti. Se tudo mudou eu abro as velas da embarcação, na esperança que pela manhã avistarei o porto onde Te encontrarei” (Esperança – Os Arrais).
Essa letra está numa canção contemporânea, mas conta a velha e feliz história sobre portos e praias de lugares celestiais presentes no hino “The Homeland Shore”, canção contemporânea do século 19 que recebeu letra de Fanny Crosby e foi inserida nos primeiros hinários adventistas pelos editores Urias Smith e Tiago White. No Brasil, canta-se como “Saudade” (Da linda pátria estou muito longe…).

De volta à sala de concertos, as canções se sucediam dizendo que para “não ser tentado a abandonar a missão” é melhor “por fogo na embarcação” e, assim como os discípulos André e Tiago, seguir o Mestre; alertando para a contradição de falar que conhece a Cristo e logo esquecê-Lo na primeira esquina; e nos levando a fechar os olhos e se encher “do ar de um monte onde rico e pobre comerão da mesa do Rei”.
No final da última canção, os dois irmãos teólogos-cantores emendaram o hino tradicional “Mais Perto Quero Estar”, e em seguida deixaram o palco enquanto continuamos cantando a capella. E a cortina se fechou e não houve bis, mas aplausos contidos e a percepção de que naquele concerto a plateia foi convertida em congregação.

Foi assim que, sem saber, as pessoas saíram de casa num sábado à noite para ir a um culto. Foi assim que dois cantores transformaram uma sala de concertos em igreja. É assim que, de Tiago White a André e Tiago Arrais, a fagulha da esperança não se apaga e a fé cristã ainda se move cantando.
Agradeci pelo alimento recebido ali, agradeci por meus filhos terem ouvido a teologia cantada no seu idioma, e voltei para casa entendendo que a teologia é boa de ler, mas ela fica ainda melhor quando enternece a gente e motiva a cantar a gratidão, o amor e a esperança no Eterno. Seja isso nossa estrofe, ponte e refrão.

22 junho, 2016

o ano em que os cristãos cantaram com entusiasmo


 

 “Mas é fato que havia naqueles dias um poder que foi chamado de canto do Advento [Advent singing], como não se sentiu em nenhum outro. Pareceu-me que nem mãos nem pés se moveram em toda a multidão até que eu terminasse todas as palavras desta longa melodia. Muitos choraram, e o estado de sentimento foi mais favorável para a introdução dos solenes assuntos daquela noite”.

Populista, emocionalista, demagogo: já podemos começar com as críticas a esse pregador suspeito de usar a música para comover as pessoas. Mas o fato é que esse relato está nas memórias de Tiago White (Life Incidents, 1868, p. 94-95). O cântico citado por ele é “You Will See Your Lord A-coming” (Você verá o Senhor voltando), cujos versos repetitivos ele costumava cantar antes de pregar. Entoada durante o movimento milerita, a letra dessa música simples reforçava a expectativa pela iminência do advento: 


Você verá o Senhor voltando
Você verá o Senhor voltando
Você verá o Senhor voltando
Dentro de poucos dias

Trata-se de um cântico bastante entoado durante e também depois do movimento milerita dos anos 1840. Esse hino está registrado no atual hinário adventista norte-americano (Seventh-day Adventist Hymnal, nº 438), mas não consta nos hinários adventistas brasileiros, talvez porque o sabor histórico do hino tenha mais sentido ao paladar da terra natal do adventismo.

Contudo, para os mais céticos, o milerismo e sua ideia de destruição iminente estava na contracorrente do notável progresso da civilização. Aliás, o constante agendamento de novas datas para o juízo final era motivo de sátira, inclusive em forma de cançonetas:

"Oh dear! Oh dear! What shall we do
In eighteen hundred and forty-two?
Oh dear! Oh dear! Where shall we be
In eighteen hundred and forty-three?
Oh dear! Oh dear! We shall be no more
In eighteen hundred and forty-four.

Uma tradução livre desses versos seria: "Ó céus, o que nós faremos em 1842? Ó céus, onde estaremos em 1843? Ó céus, já não existiremos em 1844" (A New England Girlhood, 1889, p.249).

Por outro lado, o entusiasmo gerado pela proximidade do retorno de Cristo para o ano de 1844 parece ter encontrado nos cânticos do advento um elemento propulsor da maneira mais viva de se cantar. Joseph Bates, outro pioneiro do adventismo do sétimo dia, descreveu uma entusiástica reunião campal milerita: “No domingo, havia cerca de dez mil pessoas no acampamento. A pregação clara e solene da segunda vinda de Cristo, e as fervorosas orações e o canto animado dos novos hinos do Segundo Advento, acompanhados pelo Espírito de Deus vivo, enviou emoções tais através do acampamento, que muitos gritavam de alegria” (The Autobiography of Elder Joseph Bates, 1868, p. 265).

Os cultos das reuniões campais eram mais informais. A maneira entusiástica de se cantar os hinos, entremeadas com as típicas exclamações de “Glória” e “Aleluia”, era uma herança do metodismo, denominação que formava boa parte do movimento milerita-adventista. Tamanha demonstração de entusiasmo não surpreende, visto que o próprio John Wesley, pai do metodismo, encorajava a participação dos fiéis durante o canto congregacional. Nas orientações para o canto que ele anexou ao hinário Select Hymns, de 1761, Wesley estimulava os fiéis a cantar “sem mais vergonha de ser ouvidos, como quando vocês cantavam as melodias de Satanás”. O que Wesley pretendia era que as energias outrora despendidas em canções profanas fossem canalizadas para o canto entusiasmado na igreja ou em outros lugares.

Não se pode omitir que o reavivamento espiritual e a esperança do advento produziram um fervor popular sem precedentes. E ainda que alguns líderes mileritas advertissem suas congregações quanto a demonstrações de fanatismo, havia facções que tendiam à histeria. Nos cultos realizados ao ar livre na zona rural [chamados de camp meetings/reuniões campais], a aglomeração de milhares de pessoas, os apelos à conversão e os sermões sobre a proximidade do juízo final suscitavam reações coletivas que misturavam o fervor com a euforia, e muitas pessoas gritavam e se atiravam ao chão.

Tiago White esteve num desses encontros religiosos em Watertown, Massachussetts, no verão de 1844, onde presenciou “gestos estranhos” e pessoas gritando em voz “alta e incessante como se fossem cavalos”. No entanto, se o ardor espiritual que ele notou ali parecia sobrecarregado de excessos físicos e emocionais, ele tinha outra opinião sobre a forma entusiástica de entoar as músicas do Segundo Advento: “A reunião [em Exeter, outubro de 1842] foi grande, com tendas numerosas, pregava-se de forma clara e poderosa, e as melodias do Segundo Advento possuíam um poder como nunca antes testemunhado em canções sacras” (Life Incidents).

A expectativa do iminente retorno de Jesus foi a tônica do louvor congregacional no início do movimento adventista. Hoje, quem aguarda o retorno de Cristo e quem tem a missão de anunciar o evangelho do Reino está ligado ao cordão umbilical dos seus pioneiros. E eles não mediam esforços para cumprir a missão nem mediam entusiasmo para entoar um cântico.

10 maio, 2016

a teologia em Batman vs. Superman


Alguns críticos têm apontado que os super-heróis estão substituindo Deus na mentalidade contemporânea. Esse pessoal ainda crê piamente que, depois de um filme do Superman, os espectadores sairão mais descrentes na Bíblia, mais crentes no super-herói, e com uma louca vontade de comprar pipoca e coca-cola.

O Superman não está substituindo Deus. Nem se trata de substituição, mas de metáfora. Sim, uma metáfora como as crônicas de C. S. Lewis e a Terra Média de Tolkien. Nem toda metáfora do cristianismo é coerente ou convincente, mas é fato inegável que as pessoas gostam de narrativas, símbolos, parábolas, metáforas, enfim, de boas histórias que recontem suas histórias preferidas.

Outros críticos disseram que os novos heróis são os antigos deuses gregos repaginados. No entanto, um ateniense - ou um romano - não aceitaria um deus que habita entre os humanos e que ainda dá a vida por eles. O filósofo Lucien Jerphagnon ressaltou a constatação do apóstolo Paulo de que Cristo era loucura para os gregos: “Então [diriam os gregos], nas ruas de Jerusalém topava-se com um deus, quando se ia às compras? Um mago, até que era possível. Mas um deus e, além disso, que morreu crucificado?” (A tentação do cristianismo, p. 23).

Para gregos e romanos, a presença de um Superman caminhando por Metropolis e se sacrificando pelas pessoas também seria um completo absurdo. 

O que chamou minha atenção no filme Batman vs. Superman: a origem da justiça foi a exploração teológica da figura do super-herói, pois tenho interesse em observar como os temas sagrados são mediados pela cultura, e não apenas pela religião. 

Batman vs. Superman levanta questões éticas e religiosas, como os direitos e o raio de ação de um super-herói (ele não está circunscrito às leis e deveres dos cidadãos comuns?) e a onipotência e a bondade de Deus. Mas a frase que incomodou algumas pessoas foi esta: “Se o homem não matou Deus, então o diabo vai matá-lo”. Elas interpretaram essa fala como a presunção pós-moderna de eliminar Deus. Mas por que a perplexidade? Nietzsche já filosofara que “Deus está morto, nós o matamos”. E os próprios cristãos acreditam num conflito cósmico em que o diabo está empenhado em destruir Deus – ou no mínimo, a imagem de amor associada à Ele.

No filme, porém, quem quer matar “Deus” é Lex Luthor, o vilão. Não seria muito mais coerente, então, interpretar que o Mal representado em Luthor é que pretende exterminar Deus?


O filme não perde oportunidade de criar uma interessante iconografia de Superman como um tipo de Cristo. Não com cenas de demonstração de força e poder, mas com quadros de salvamento [como a imagem acima]. Mais uma vez, isso não é substituição, mas uma representação do sagrado cristão mediada pela cultura da mídia. É evidente que essas representações estão sujeitas a críticas, porém, dizer que elas usurpam o lugar de Deus na mentalidade humana é querer dar à religião a exclusividade no manuseio dos temas sacros.

Outros viram um engodo no fato de que o último adversário a ser derrotado pelos super-heróis se chama Doomsday ou Apocalipse. Para vencê-lo, Superman precisará fazer um sacrifício impossível de ser feito por um ser humano ou por qualquer outro super-herói. Aí vem a queixa: “Isto é uma contrafação, pois Cristo não é derrotado no Apocalipse...” Amiguinho, qual a parte que você não entendeu quando falei em metáfora?!

Em relação às questões éticas do filme, Superman também vive no mesmo contexto midiático e de conturbações geopolíticas que os humanos. Suas ações públicas agora são questionadas em programas de TV. Alguns dizem: “Ele está entre nós, devemos viver sob esse novo paradigma”. E outros o rejeitam: “Volte pro seu mundo, não precisamos de você”.

A angústia de ser rejeitado transforma o Superman otimista em um super-homem de dores. Ele até tenta se afastar das pessoas, mas seu cuidado desinteressado e sobre-humano aflora no seu amor pela mãe, por Lois Lane e pelas frágeis criaturas humanas. E então o vemos cumprir sua missão. É quando ele dá um beijo em Lois como quem beija o mundo e se despede dizendo “Este é o meu mundo” como quem diz “Essa é a minha missão”.


Uma crença que fundamenta a fé cristã é o túmulo sem corpo, a tumba vazia que anuncia que Cristo não está ali. Diferente da narrativa bíblica, no filme há túmulo e homenagens após a morte do Superman. Mas há também um caixão vazio: “Se quiser ver o seu monumento, olhe ao redor”, diz o letreiro. A teologia da morte substitutiva de Cristo pelos humanos poucas vezes foi tão explícita como aqui.

Essa é a suma do que realmente importou para mim nessa história: o Superman veio do espaço, foi criado por um casal de humanos e ao crescer saiu de casa para cumprir sua missão. Fecha a metáfora: já que os atuais filmes baseados em histórias bíblicas fazem um Deus à imagem e semelhança do homem, as HQs constroem super-homens à semelhança de Deus.

Hollywood funciona segundo a lógica do entretenimento e do capital. E às vezes, a religião que não se pode conter, a história que não se pode deixar de contar, parece escapar do controle dos técnicos e executivos e a vida do Cristo é apresentada em milhares de salas multiplex mundo afora pelas vias tortas de um filme de super-herói.