16 março, 2017

los perfeccionistas musicales #2: uma harpa tem Davi



Naqueles dias, havia diversas pessoas que faziam palestras sobre música sacra, sendo que o povo acorria a tais eventos em grande número, especialmente se o palestrante não tivesse formação musical alguma e se chamasse o pecado pelo nome de bateria.

- Ouviste, mestre, que o palestrante provou biblicamente que se tocarmos a música adequada – a suave – com o instrumento adequado, como a harpa, então os espíritos maus fugirão, tal como na história de Davi ao tocar diante do rei Saul?

- Então, vós e vosso palestrante tens lido somente os trechos bíblicos que vos interessam. Pois se é verdade que está escrito em 1 Samuel 16:23 que “Davi tocava a harpa e Saul se sentia melhor, e o espírito mau se retirava dele”, também está escrito em 1 Samuel 18:10-11 que noutro dia Davi tocava a harpa diante de Saul e este atirou uma lança em Davi. E noutra ocasião, registrada em 1 Samuel 19:9-10, tocava Davi sua harpa e procurou Saul com sua lança matar a Davi, “porém ele se desviou de Saul, o qual feriu com a lança a parede”.

Então, perguntou-lhes o mestre:

- Se imaginais que Davi tocou música adequada com o instrumento adequado para acalmar os nervos do rei ou dispersar os maus espíritos, que música Davi teria tocado, então, para despertar no rei seus instintos mais primitivos? Porventura ele tocou o funk amalequita “Deu Onda no Mar Morto” ou o rock filisteu “Highway to Babel”?

E prosseguiu dizendo-lhes:

- Não lembrai vós que Saul passou a invejar a popularidade de Davi após este matar o gigante Golias? Portanto, não havia música de harpa que pudesse deter a vontade assassina do rei. Esse relato bíblico não é um manual de musicoterapia e nem um guia de estilos musicais sacros; e se prova alguma coisa, nos prova que o efeito da música sobre as pessoas depende da predisposição individual de alguém para envolver-se com a música. Ai daqueles que leem nas Escrituras o texto, mas ocultam das pessoas o contexto.

Os perfeccionistas musicais entreolharam-se, pois nenhuma destas coisas havia lhes falado o palestrante.



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As imagens anexadas mostram as diferentes reações de Saul quando Davi tocou a harpa.

Na parte superior: "Saul e David", de Rembrandt, obra de c. 1651

Na parte inferior: "David tocando harpa diante de Saul (1 Sam. 16:23)", de Franz Wulfhagen (1624-1670)

NOTA: repare que o artista Wulfhagen pintou Saul prestes a atirar sua lança em Davi, cena relatada em 1 Sam 18 e 19, mas o título cita equivocadamente a passagem bíblica de 1 Sam 16.

08 março, 2017

R-E-S-P-E-I-T-O

Há 50 anos, Aretha Franklin pedia R-E-S-P-E-I-T-O. A canção "Respect" havia sido gravada por Otis Redding dois anos antes. A gravação de Otis é muito boa, mas uma coisa era um homem cantar que passava o dia trabalhando e ao chegar em casa queria respeito. Novidade era a voz explosiva de Aretha invertendo o discurso e cantando "eu quero pelo menos um pouco de respeito quando você chegar em casa".
A gravação de Aretha incluiu um backing vocal feminino e uma particularidade marcante: no meio da canção, ela soletra R-E-S-P-E-C-T, deixando bem claro que as relações humanas têm de se estabelecer na base do respeito mútuo.
Filha do pregador batista C. L. Franklin, chamado de "a voz de um milhão de dólares", Aretha tinha 14 anos quando gravou em 1956 o disco Songs of Faith, que incluía a música "Precious Lord, Take my Hand", presente em vários hinários evangélicos.
"Respect" foi a primeira canção de Aretha a atingir o 1º lugar nas rádios, mas extrapolou o pódio radiofônico e se tornou um hino das mulheres numa América que vivia dias de luta pelos direitos civis e de ruptura de patriarcalismos milenares.