27 fevereiro, 2012

pausa semibreve

Devido à preparação de artigo, viagem para o Encontro Iberoamericano de Musicologia em Lisboa e, quando voltar da terrinha, ainda ter que escrevinhar o arranjo para uma música de coral, este blog só voltará à programação normal a partir de terça-feira da semana que vem. Peço desculpas aos bravos 8 e 1/2 leitores deste web-escriba. Inté, ô pá!

17 fevereiro, 2012

festas, cantar e folgar


Na Idade Média, a tradição de jejuar durante 40 dias e 40 noites entre a Quaresma e a Semana Santa obrigava os mosteiros a esvaziar parte de suas despensas. A carne, que estragaria durante esse período de abstinência, era comida pela população, sendo que a terça-feira era o ápice da comilança. Daí a terça-feira "gorda". 

Hoje, com a quantidade de católicos não-praticantes aumentando, há pouco jejum de carne e muita gula dos "prazeres da carne". Como você sabe, o Carnaval deriva da expressão latina "carne vale", que em bom português pode ser traduzido como "vale tudo, inclusive carne"!

Claro que uma festa como essa iria encontrar nos trópicos solo fértil para crescer e se multiplicar, com o todo o duplo sentido, por favor. Em 1549, o Pe. Manuel da Nóbrega enviou uma carta à Portugal para o Pe. Simão Rodrigues contando de uma procissão de Corpus Christi pelas ruas de Salvador que incluiu todas as "danças e invenções alegorias à maneira de Portugal". Entre as danças, havia "coros, músicas, bandeiras, representações figuradas, folias etc".

O Pe. Serafim Leite observou que tais folias eram uma concessão dos jesuítas ao desejo de diversão dos devotos e que elas não tinham caráter religioso, mas "de simples e honesta diversão popular".

Em 1585, o padre jesuíta José de Anchieta escreveu irritado sobre o gosto por diversão em detrimento dos estudos e trabalhos da incipiente sociedade brasileira: 

"Os estudantes desta terra, além de serem poucos, também sabem pouco, por falta de engenhos e não estudarem com cuidado". Para piorar, ele achava que o ambiente local era pouco propício ao interesse pela ciência: "... nem a terra dá de si, por ser relaxada, remissa e melancólica, e tudo se leva em festas, cantar e folgar".

Reconheço que a única que eu gosto no Carnaval é o feriado, e por isso mesmo eu só acrescentaria uma frase, que de todos já é bem conhecida: "Nada há de novo debaixo do sol".  

10 fevereiro, 2012

adoração neopentecostal e adventismo: cantos e desencantos

Uma das faces mais reconhecíveis do movimento neopentecostal é sua ênfase no louvor coletivo. A especialista Magali Cunha, no livro Explosão Gospel (Ed. Mauad), afirma que a prática do louvor, por sua larga duração e ênfase litúrgica, está substituindo a pregação e estudo da Palavra como ponto central na teologia pentecostal. Desse modo, o sucesso dos ministérios de Adoração & Louvor, estrangeiros ou nacionais, tem contribuído para a exigência de modificação da tradicional liturgia protestante.

Na pesquisa sobre a música produzida pelos adventistas do sétimo dia no Brasil, tenho observado o interesse de líderes de louvor em desenvolver um modelo baseado na adoração neopentecostal. Claro, sem as manifestações extravagantes (como andar em quatro patas ou rodopiar) e sem o êxtase glossolálico (o falar em "línguas estranhas"). Assim, extraídos os elementos mais controversos, seria possível obter uma música capaz de entusiasmar as congregações adventistas.

O que, talvez, não esteja sendo discutido nos círculos musicais do adventismo é a real dificuldade de esvaziar uma música do seu valor simbólico de origem. Em uma pergunta de aplicação prática: uma música originalmente forjada segundo a ênfase neopentecostal no milagre, na unção e no êxtase místico poderia ser transplantada para outro contexto litúrgico sem carregar consigo essas particularidades a ela associadas?

o denominador mínimo musical e o denominador máximo doutrinário

Há quem diga que sim, é possível reduzir tal música a seu denominador mínimo musical e utilizá-la com sucesso em outro contexto evangélico. De que maneira? Por exemplo, restringindo as inúmeras repetições do refrão dessas músicas e descartando o excesso emocionalista e gestual. Assim, mesmo acompanhada da habitual contenção gestual dos adventistas, em geral, mais afeitos ao controle da euforia dentro dos templos, essa restrição das repetições ajudaria a criar um ambiente de adoração mais relevante ou, como gostam de dizer alguns, mais "intensos".

Mas há aqueles que dizem que não é possível esconder o denominador máximo comum das músicas dos ministérios de louvor neopentecostais. Ou seja, essa música não criaria um ambiente mais favorável à adoração coletiva. Ao contrário, ela seria capaz de gerar novos atritos e divisões na igreja por dois motivos: seria musicalmente estranha à tradição doutrinária adventista (ela é rapidamente reconhecível devido à brevidade de sua letra e à repetição de certas expressões); e estaria associada a uma forma de culto cuja carga emocional é considerada excessiva para a tradição protestante (aqui, é mais acertado dizer que tal carga emocional é considerada excessiva para a tradição de culto adventista, e não para o protestantismo brasileiro em geral) .

adoração neopentecostal e adventismo

Aqui, estou falando de momentos de louvor em que algumas canções conhecidas e originárias do meio neopentecostal são utilizadas. Em geral, elas são apresentadas durante um programa jovem juntamente com o repertório adventista produzido para os jovens. Raramente, elas são cantadas nos cultos matutinos de sábado.

Alguns cantores protestantes adeptos da cultura neopentecostal de adoração, embora reduzam a longa duração original das canções e evitem os temas da cura e da prosperidade, reencenam algumas características dos shows ao vivo dos bem-sucedidos Ministérios de Louvor & Adoração. São elas:

a) A preservação da voz chorosa nos momentos de “intercessão” e oração. Tese: demonstração de emoção espiritual e da manifestação do Espírito. Antítese: imitação de cantoras-líderes de grupos de louvor; exagero dramático; artificialidade. Síntese: a emoção espiritual faz parte da adoração, mas o estilo de adoração neopentecostal tem apresentado uma nítida teatralização da contrição.

b) A sugestão de intensidade e/ou entrega espiritual por meio do levantar de mãos e do fechar dos olhos. Tese: o gesto também é expressão de espiritualidade. Antítese: demonstração de santidade exterior; exclusão social de quem não adota esse gestual (são chamados de “frios”). Síntese: a adoração contemporânea tem concedido aos gestos e expressões faciais o status de sinais visíveis de aparência de santidade.

c) O emprego de canções com linguagem romântica. Tese: demonstração de intimidade relacional entre o ser humano e Deus. Antítese: expressões como “apaixonado por Jesus” têm forte conotação de relação passageira e trivial; confusão entre emoção libidinal e emoção espiritual. Síntese: embora não haja amor sem paixão (mas haja paixão sem amor), as expressões ligadas ao amor conjugal sugerem uma ênfase sentimental no relacionamento com Deus.  

É inegável que os ministérios de louvor & adoração origem neopentecostal têm alcançado um feito admirável: o povo tomou gosto por cantar "no meio da congregação", nos átrios, nos logradouros públicos. Mas também não se pode negar que o sucesso desse estilo musical nas rádios afora (muitas vezes consagrado na seção das "mais tocadas") tem orientado a produção de canções que obedecem o mesmo estilo, como se seguissem uma fórmula.

Ao contemplar o sucesso midiático e, por que não, espiritual dos ministérios de louvor, alguns setores adventistas começam a rever certas práticas estagnadas. Quando essa necessária revisão está acompanhada da reflexão sobre a teologia das letras e do respeito à unidade congregacional, tanto melhor para a missão da igreja.    

08 fevereiro, 2012

o hit passageiro e a balada eterna


Tirem as crianças da sala, fujam para as montanhas. As músicas mais tocadas no finado ano de 2011 são o retrato sem photoshop da geração balada. São canções produzidas para a cultura da festa full night, para celebrar o encontro do álcool com a falta de moderação, para a coreografia excessivamente sexualizada, para a cantada machista, para a pole dance das cantoras de ventilador no palco espalhando o cabelão.   


Os videoclipes já são autoexplicativos, mas aí estão as letras para provar que no quesito "letra ruim" o pop americano ainda é insuperável. Como ninguém grogue dá atenção à rima rica e à métrica, os poetas da dance-and-drink music economizam tempo, metáfora e gentileza de uma vez só.

#1 - Far East Movement (Like a G6):
A mulherada adora o meu estilo, ficam loucas na mesa 
Abra logo essas garrafas, a gente vai servir e beber 
Agora me passa mais duas garrafas, porque você sabe que a gente não para
Isso aí / Beba tudo, beba, beba tudo 
Vou criar coragem abrindo garrafas em casa 
É assim que a gente vive, toda noite

[Não foi a número 1 das baladas por acaso]

#2 – Edward Maya (Stereo Love):
O programa “Globo Esporte” se encarregou de divulgar esse hit ao usá-lo como trilha sonora de reportagens e fundo musical dos créditos finais. Antes, os gols eram repetidos ao som do samba tupiniquim. Agora, com trilha bate-estaca, a música chata é globalizada (com trocadilho, por favor).

#3 – Selena Gomez (Shake it up) - O que a princesinha da Disney está fazendo nessa lista? O Wiki diz que a moçoila é fã ardorosa de Britney Spears e Nicky Minaj, duas meigas inspirações, e informa que ela já teve três canções no topo do Hot Dance Club Songs (não deveria, mas tal proeza é motivo de orgulho). Pra compensar, os marketeiros guiam a moça em campanhas de boas ações e em frases como “estou encorajando outras crianças a fazer diferença no mundo”.

#4 – Black Eyed Peas (The Time – dirty bit):
Então vamos, vamos nessa / Vamos perder o controle
Vamos nessa a noite toda / Até não aguentarmos mais
As pessoas estão dançando com a música / Aumente o som, quero ver você dançar
Nós vamos agitar até o fim / Até a casa cair
É, está quente aqui / A temperatura deixou essa mulherada pirando

[Depois da lucidez desses versos, entra a vocalista Fergie e mostra toda a sensatez do estilo]:

Eu fiquei louca, louca, baby / Eu estava relaxando com as minhas amigas 
Eu não vim pra aparecer / Eu vim pra perder a cabeça
Eu nasci pra ser selvagem / Esse é o meu estilo 
Se você não sabia disso / Bem, amor, agora você já sabe

#5Rihanna feat. Drake (What’s My Name):
Erva boa, vinho branco / Eu vivo na noite 
Hey garoto, eu quero ver se você aguenta com uma garota como eu
Hey garoto, eu realmente quero estar com você 
Porque você faz meu tipo, Oh na na na na.

[Erva boa? Tolerância zero americana só funciona para pobre]

#6 – Ke$ha (We R Who We R):
Tenho Jesus no meu colar / Tenho glitter nos meus olhos 
As meias rasgadas até em cima / Com aparência louca e sexy
Então vamos nessa / Esta noite nós vamos pegar pesado 
Como se o mundo fosse nosso / Estamos arrebentando 
Você sabe que somos super estrelas / Nós somos quem somos!
Estamos dançando como patetas / Nossos corpos ficando trôpegos
Nós vamos ser para sempre jovens / Você sabe que somos super estrelas 

[O melancólico sonho de toda estrela que valoriza o hit passageiro e a balada eterna: ser jovem pra sempre]

#7 – Lady Gaga (Just Dance):
Eu bebi um pouco demais / Todas as pessoas começam a requebrar 
Pegas em uma dança louca / Não consigo encontrar minha bebida, cara
Onde estão minhas chaves, eu perdi meu celular / O que está acontecendo na pista 
Eu amo essa música, mas eu não consigo mais ver direito 
Manter a calma, qual o nome desse clube? / Não me lembro, mas está tudo bem, tudo bem

Apenas dance, vai ficar tudo bem (da da doo-doom) 
Apenas dance, gire esse disco, querido (da da doo-doom) 
Apenas dance, vai ficar tudo bem

[Rihanna faz oh na na, Gaga faz da-doo-doom, o axé faz aê-aê-hey-hey-ô-ô. Não discuta, apenas dance]

#8 - Katy Perry & Snoop Dog (California gurls):
É mais ou menos como se a Sandy daquele comercial de cerveja fizesse dueto com o Compadre Washington!

#9 - Black Eyed Peas (Rock That Body):
Eu quero dançar sob as luzes / Eu quero mexer 
Eu quero mexer o teu corpo / Eu quero ir, eu quero ir fazer uma viagem 
Saltar na música e mexer o teu corpo bem
Mexe esse corpo / Vamos lá, vamos lá, mexe esse corpo 
Mexe esse corpo / Vamos lá, vamos lá, mexe esse corpo

[O selo de qualidade do grupo Black Eyed Peas. Midiáticos e estilosos, imagina quando saírem da 4ª série!]

#10 - Katy Perry (Teenage Dream):
Nós dirigimos para Califórnia, e ficamos bêbados na praia

[A questão não é proibir alguém de cantar sobre diversão, velocidade e embriaguez. Não quero fazer pose de moralista fariseu. Mas a canção está tão encharcada desses valores que, se fossem inseridos os caracteres “aprecie com moderação”, não seria de se estranhar]

01 fevereiro, 2012

a moda é ler

Tirinha de Adão Iturrusgarai:









*****

O Nota na Pauta adverte: ler Dostoievski (e/ou Tolstoi, GK Chesterton, John Steinbeck, Jorge Luis Borges, Umberto Eco, Zygmunt Bauman) causa uma irreversível melhora nos hábitos de leitura. Indicado para portadores de um cérebro.