22 agosto, 2007

PARAPAN ou Quem é deficiente mesmo?

Observando o triunfo dos atletas durante os Jogos Parapan-Americanos, se percebe o quão alto e nobre pode o homem chegar a ser. No ParaPan não há derrotados. São todos vitoriosos por nadar contra a correnteza social, correr atrás da normalidade perdida, saltar os obstáculos do preconceito e voar, sim, voar para além de uma sociedade orientada para a beleza exterior e a aparência física “perfeita”.

Os atletas do ParaPan são como a estátua grega Vitória de Samotrácia (foto). Essa estátua simbolizava as conquistas helênicas na guerra, mas foi encontrada sem algumas partes do corpo. Isso, porém, em nada diminuiu seu valor. A estátua, também chamada Niké (vitória, em grego), tem a incompletude formal derivada da ação da natureza, mas possui dignidade altaneira e beleza majestática.

Os atletas do ParaPan perderam o controle de partes do corpo ou não têm mesmo a totalidade de braços e pernas. Entretanto, até a chegada em último lugar exala vitória irrestrita. Veja-se o exemplo de Kathryn Sullivan (foto abaixo): a corredora americana não ganhou medalha, mas sua superação pessoal vale muito mais. Ou o nadador brasileiro Clodoaldo (foto, mais abaixo): suas restrições físicas não lhe impedem de bater recordes. Ou os corredores cegos que sonham com as cores do mundo e conquistam, mais que títulos, um novo modo de viver. Ou os cadeirantes, que trafegam velozmente pelas pistas, pelas quadras, afugentando a auto-piedade destrutiva, rodopiando em suas cadeiras sua plena exaltação da vida.

O que faz com que esses atletas não se atirem para fora da vida, quando a própria vida se assemelha a um portão fechado e intransponível, quando lutar contra a desventura parece correr atrás do vento? João Cabral de Mello Neto oferece uma saída em Morte e Vida Severina:

— Seu José, mestre carpina,
e em que nos faz diferença
que como frieira se alastre,
ou como rio na cheia,
se acabamos naufragados
num braço do mar miséria?
— Severino, retirante,
muita diferença faz
entre lutar com as mãos
e abandoná-las para trás,
porque ao menos esse mar
não pode adiantar-se mais.

Ao ver esses atletas bailando na adversidade com tal gosto pela vida, podemos recitar os versos de Ferreira Gullar:

Como dois e dois são quatro
Sei que a vida vale a pena
Mesmo que o pão seja caro
E a liberdade pequena

Esses mesmos atletas valorizam cada fôlego da vida, e nada os impede de cantar que a vida é bonita, é bonita e é bonita. Ainda que sua liberdade pareça pequena perto das limitações, eles são capazes de apequenar suas restrições e aperfeiçoar o sentido de liberdade. De novo João Cabral:


E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.

Quem tem a suposta normalidade de locomoção tem, às vezes, não a deficiência, mas a deturpação mental. Desperdiça-se a vida em futilidades ou questiona-se o próprio existir. Homens e mulheres como Clodoaldo e Kathryn Sullivan não esperaram o acaso oportuno, mas criaram novas e especiais possibilidades.

“Tudo quanto te vier à mão, faze-o conforme tuas próprias forças” (A Bíblia).

15 agosto, 2007

A prisão de CARAS

Na semana passada, li uma entrevista na revista Veja que só fez aumentar minha admiração na capacidade humana de fantasiar a realidade vivida. A entrevista era com a socialite Wilma Magalhães (foto), de quem eu jamais lera uma linha sequer de suas gotas de sabedorias. Esta semana, ao ler a seção de cartas da mesma revista, vi que alguns leitores relatavam que tinham se divertido com as respostas da socialite, um diagnosticava um caso clínico de fuga da realidade, outra indignava-se com a falta de assunto da revista ao entrevistar alguém como Wilma.

Wilma, socialite que costumava temperar seus jantares com pó de ouro, está numa prisão em Brasília cumprindo pena de 6 anos por estar envolvida num esquema de legalizar propinas recebidas por ninguém menos que João Alves, um dos mais célebres anões do Orçamento. Como se vê, a vida de Wilma era um conto de fadas, e sua Terra do Nunca era Brasília. Ali, rodeada de anõezinhos sortudos, a fada era ela, claro. Pois, as fadas brilham e, segundo Wilma, “meu [dela] brilho é muito grande”.

Ela também revela que está escrevendo um livro no qual abrirá a cortina do passado e descreverá ao mundo o calvário de uma socialite. Sua intenção, nobre e desinteressada em auto-promoção, é que sua experiência de vida possa “ajudar as famílias que passam o mesmo”. Só falta dizer que o título será Os ricos também choram.

Em suas reminiscências literárias, ela contará que, como toda estrela, ela tem luz própria. Assim, mesmo passando uma temporada numa cela que tem o tamanho do lavabo de sua casa, Wilma resplandece o brilho das verdadeiras socialites. Por isso, as funcionárias do presídio brigam para vê-la jantando uma humilde lasanha com um humilde suco de uva. Para o ensino das criaturas que povoam as colunas sociais, ela dirá que nem tudo na vida é um sutiã Victoria’s Secret, a lingerie das estrelas, principalmente quando se está na prisão.

Ainda com humildade, a marca de suas sandálias, a fada Wilma escreverá que foi ingênua ao acreditar em dinheiro de anões e um dia, ainda que inocente como Sininho, esteve na cadeia “pagando pelo erro” cometido.

A futura memorialista Wilma pode lançar esse livro em forma de fascículos encartados na revista Caras. Assim, sua vida, que já é uma revista Caras aberta, poderá servir de alento aos apaniguados da fama. Com o 1º fascículo, os leitores poderão ganhar de brinde o dvd “Boninho e Narcisa Tamborideguy se divertem atirando ovos do seu apartamento”.

Como socialite não é de ferro, ela já adianta na revista algumas pérolas de admoestação e padrões de convívio em sociedade. Nesse novíssimo dicionário do contrato social, constarão os verbetes:

- dinheiro: “dinheiro pequeno é para gastar à toa”.

- muito dinheiro: “dinheiro grande eu gasto mesmo”.

- quantia impublicável de dinheiro: “já comprei dois rolex no mesmo mês. O primeiro de 6.000 xxxx (moeda impublicável). Depois, vi uma amiga com outro rolex de 10.000 xxxx. Não resisti e comprei um pra mim”.

- homem: “José Roberto Arruda ( governador-DF). Dorme às 3 da manhã, já acorda às 5, era casado, tinha amante, dispensou as duas, e agora está de namorada nova. É charmoso e bonito”.

- bonito?: “poder e beleza estão misturados”.

- bebida: “a gente bebe tudo mesmo” ( sua adega exibia 3 mil garrafas).

- moda: “é possível passar um ano sem repetir roupa”.

- pensamento: “o importante é onde a mente está, não o corpo” (a mula-sem-cabeça concordaria. Ou não.)

Wilma está, de fato, realizando o sonho de toda chique endinheirada: lançar moda. No caso de Wilma, a presidiária das estrelas, o modelo (ela diria “atitude”) da moda é o prison chic. Diferente daquelas celebridades americanas, que não apregoam bom comportamento e cujo segundo lar é uma clínica de reabilitação – esta é a moda rehab chic –, nossa fada-socialite mantém a pose mesmo no cárcere, admite os “equívocos” que a levaram à prisão e vai entrar no ramo beletrista da auto-ajuda.

A entrevista com Wilma Magalhães pode ser acusada de tudo, menos de não retratar uma certa classe social que vê o mundo como um satélite do seu umbigo. Em níveis normais, é a mesma classe que venera Lily Marinho e Hebe Camargo, freqüenta a ilha de Caras e boceja nos concertos da Sala São Paulo. Em níveis patológicos, é a classe que põe fogo em índio, bate em doméstica, atira ovos do apartamento e adora ser flagrada em suas peripécias amorosas.

Por outro lado, em sua sinceridade (muitos diriam “autenticidade”) planejada ou não, Wilma Magalhães espelha em suas palavras a busca pela ostentação, a frivolidade festiva, o novo "homem ideal", a atração alcoólica, o pensamento irrefletido, o desejo de auto-promoção de muita gente, não importa a classe social.

10 agosto, 2007

INGMAR BERGMAN: cineasta do espírito humano



Ao contrário dos heróis de Cazuza, os meus heróis não morreram de overdose. Meus heróis estão morrendo de velhice. Talvez meus heróis sejam meio “antigos” ou “caretas” para a turma pós-moderna. Pra piorar, os heróis que admiro não são os personagens de cinema ou os atores que os personificam; na verdade, os diretores dos filmes é que são os meus favoritos. São eles é que estão morrendo um a um.

É verdade que minha iniciação ao cinema se deu numa tv de 14 polegadas em cores. Tudo bem, só eram duas cores, preto e branco, mas pode ser esta a razão de eu gostar de filmes em preto e branco. Além disso, como diz o tradutor Alexandre Soares, “meus ouvidos pudicos de Jane Austen” pouco suportam a verborréia chula dos, se posso chamar assim, diálogos dos filmes americanos pós-1980. A desculpa dos novos cineastas é que isso confere mais realismo.

O recém-falecido cineasta sueco Ingmar Bergman agora faz parte da lista de artistas que a velhice mortal levou. Não assisti a sua filmografia completa, mas o que vi me comoveu profundamente. Não falo da comoção do pranto. Falo daquela comoção filosófica que também leva os homens a uma compreensão maior de si e das pessoas que o cercam; falo daquela emoção estética advinda da percepção de estar diante de uma obra de arte bela e verdadeira.

Em Bergman, a angústia e a incerteza eram belas. E aqui, a noção de belo está mais ligada ao essencialmente verdadeiro e humano do que ao simples e plasticamente bonito. Não que a plasticidade artística estivesse ausente dos seus filmes; afinal, seu diretor de fotografia predileto era o gênio da luz Sven Nykvyst, também já falecido. Mas, ao revelar na tela suas próprias questões existenciais e espirituais, ao abrir à platéia suas dúvidas de relacionamento e seus traumas pessoais, era como se aquela figura desesperada do quadro O Grito, de Edvard Munch, se movesse e continuasse andando na ponte daquele atormentado (e belo) cenário expressionista.

Certamente, por causa da minha vivência e das minhas convicções pessoais, meus Bergmans preferidos são O sétimo selo (por tratar do homem em busca de Deus e em confronto com a morte), A flauta mágica (filmagem da ópera de Mozart que revela uma insuspeitada leveza de Bergman) e Fanny e Alexander ( em que a epifania revelada no valor da família se contrapõe a uma infância reprimida). Deste último filme, tenho um texto escrito por ocasião da primeira vez em que o assisti, que servirá de comprovação das minhas incorrigíveis imperfeições de redação, mas também como minha homenagem à Ingmar Bergman.

Fanny e Alexander (Fanny och Alexander, SUE, 1982)
Os fantasmas de Ingmar Bergman estão mais próximos e claros nesta belíssima declaração de amor à família, à alegria, ao acolhimento. Como de praxe, os personagens são obrigados à fúria dos relacionamentos humanos para descobrir que: os traumas ultrapassam os esforços de superá-los; e, sartreanamente, o inferno são os outros. A tênue divisória entre imaginação e realidade presente neste filme é alimentada por outro gênio escandinavo, Henrik Ibsen. Sendo assim, a fantasia é irremediavelmente dolorosa e a realidade, às vezes, pode ser aconchegante como uma lareira numa noite de inverno.

Desculpe, Ingmar. Adeus, Bergman.

o sétimo selo (1957) - a clássica cena
do jogo de xadrez entre o homem e a morte
Fanny e Alexander - os temores e
as alegrias da infância

09 agosto, 2007

DE PATRICINHA A 'PARISINHA'


Não é de hoje que socialite ri à toa. Sem a cabecinha estorvada por preocupações tão plebéias como, o que vamos comer ou como vamos pagar?, sobra tempo para considerações mais sérias, tipo “tenho mesmo que convidar a nova namorada do meu antigo affair para minha festa?” ou “essa invejosa (cumprimentando a invejosa) comprou um Rolex mais caro que o meu?”

A diversão e o prazer estão no topo das prioridades de muito endinheirado desde Babilônia, passando por Grécia e Roma, até os denominados roaring twenties (numa tradução à Danuza Leão, a 'socialite esclarecida': os saltitantes anos 20). Essa década, inclusive, teve sua descrição nos Seis contos da era do jazz, de Scott Fitzgerald, e Paris é uma festa, de Ernest Hemingway. Com o propósito de extrair um perfil das ilusões perdidas pós-I Guerra Mundial e um olhar sobre a lassidão moral e sexual da “feérica Paris”, ambos os escritores usaram o velho método da imersão total: no cumprimento do dever literário, os dois caíram na gandaia e ainda faturaram uns bons trocados.

Se há 90 anos, todos queriam ir à Paris, hoje muitas querem ser a Paris Hilton. A saltitante Paris, seja na salutar companhia de sua alma gêmea, a maluquete Britney Spears, ou quando divide a atenção com a doidivanas Lindsay Lohan, segue sua rotina estafante de ir pra balada, tomar várias, ficar com diversos, ser fotografada por alguns, aparecer na tv para muitos, ser xingada por todos (obs.: a foto acima não é de nenhuma das 3 meninas mencionadas).

Mas certa vez, Paris dirigia pela estrada afora bem contente quando foi abordada por policiais. Então, a rainha das celebridades frenéticas, a fim de sair desse noite-a-noite monótono que vivia, resolveu assumir a culpa e decidiu passar uns dias na prisão, prestando-se exemplarmente de repreensão e correção para a sociedade civil adolescente. Afinal, toda Tati Quebra-Barraco tem seu dia de Sandy.

Tarde demais. Ela já era a representante-mor de uma categoria recém-criada: a parisinha. Depois da patricinha, aquela menina movida a celular e cuja vida é um shopping center, chegou a parisinha, aquela garota total flex, movida à álcool no sangue, gasolina no tanque e cuja vida é uma balada. Emprestando o jargão, as parisinhas vivem como se não houvesse amanhã.

E como os paparazzi são inimigos necessários à manutenção do estrelato, é provável que uma multidão de parisinhas venha a acorrer às prisões para experimentar o deleite de beber, dirigir, ser algemada e, claro, ser capa de revista.

O trio ululante Paris-Brit-Lind serve de pedra de escândalo planejado e é apenas a ponta famosa de uma meninada que vive la vida loca ainda no anonimato.

A ditadura da fama aliou-se à ditadura do hedonismo, em que a satisfação da curiosidade comanda os índices de audiência e a busca da auto-gratificação instantânea governa os sentidos. Assim, morbidamente curiosos para saber “quem saiu com quem e com que roupa” e com a fúria hormonal atiçada pelo padrão ultra-sexualizado do visual cine-televisivo, há jovens e adolescentes, e também muita gente grandinha, que não têm a menor dúvida de quem é seu herói: a superParis, a heroína (com trocadilho, por favor) que não estuda, não trabalha, não mora com os pais, aparece na tv, namora quem quer, vai pra onde quer e, quando quer, ainda vai posar na cadeia.

Talvez fosse melhor não mais fotografá-las nem lhes dar cobertura na mídia. Em suma, deixar as meninas dançarem em paz e não dar atenção às tentativas de marketing pessoal de celebridades com extrema necessidade de serem notadas. Mas, talvez, fingir que não existem seja apenas varrer o problema pra debaixo do já empoeiradíssimo carpete social. O filme delas não sai de cartaz porque a mesma mídia que glamouriza Paris Hilton é a mesma que transmite o vídeo-testamento de um terrorista universitário; a mesma mídia que condena Britney Spears é a mesma que chama de censura a crítica a superexposição sexual de suas novelas.

Sorte das parisinhas de hoje. Azar mesmo teve Maria Antonieta, a tresloucada rainha-celebridade da corte francesa, que viveu sem paparazzi nos tempos da guilhotina.

05 agosto, 2007

REGINA MOTA: Basta Viver o Amor

Nem sempre um intérprete é capaz de revelar seus questionamentos e angústias surgidos na expectativa das escolhas musicais para uma gravação. Ainda em menor quantidade são aqueles que desnudam suas fraquezas e falhas diante da multidão. Corajosamente, Regina Mota escreve no encarte do CD que sua intenção era representar através da música seus momentos de testemunho cristão. Ela descreve suas falhas individuais, o “lado sombrio de sua alma”, ao mesmo tempo em que fala das incertezas e certezas que se alternaram até a gravação.

A cantora adota o Salmo 33:3 – “cantem a Deus uma nova canção”, – como baluarte e linha norteadora deste trabalho. É possível que as escolhas musicais deste CD sejam fruto de uma experiência renovadora traduzida em inovação formal.

Essa inovação formal não está presente apenas nos arranjos musicais. Há um sopro do "novo" até na disposição das informações no encarte, com o requinte de grifar o título das canções no corpo dos versos. A concepção das fotos da cantora também é significativa. A presença de Regina Mota numa estação viária sinaliza a dinâmica e o movimento da vida cotidiana e como o artista cristão pode se posicionar para marcar sua mensagem.

O CD abre com a música “Se eu não tiver amor”, de Jader Santos. Apesar das inúmeras canções que utilizaram I Coríntios 13 como referência, Jader extrai uma pertinência para o mundo moderno, ligando o "o dom maior, o amor" do refrão ao bem servir. A letra poderia cair no mero assistencialismo se ficasse apenas nos milhares que não têm abrigo/ e vêm pedir um pedaço de pão. Mas o compositor aborda a questão do auxílio emocional, tão premente numa sociedade atingida pela depressão: ao meu redor eu vejo gente triste; (...) se me recuso a atender o aflito/ então não entendi que amar é bem servir.

Os vocais recebem tratamento de protagonista. O termo vem do inglês background vocal, porém, o que na tradução seria algo como “vocal de fundo”, ganha nesta música papel de protagonista. Os vocais abrem e encerram a música, além de cantarem o refrão completo.

A faixa 2, “Obrigado, bom Pai” (Rize Mateus e Regina Mota), faz Regina Mota exercitar seus agudos, o que a obriga a usar o recurso do falsete. Este recurso é empregado aqui com elegância e na medida certa. A letra da canção parte da pequenez e da angústia do salmista Davi perante o transcendente e o incompreensível: que é o homem pra que mereça favor?/ que é o homem pra que dele se lembre o Senhor?

Assim, a canção segue o modelo bíblico de oração em aspectos como:

1) reconhecimento da ausência de mérito individual;

2) exaltação da soberania divina: manteres o universo com Tua poderosa mão;

3) gratidão pela manutenção da vida e concessão de graça e dons: pela vida, pelo pão de cada dia; [por] nos dares carinho e perdão; pela chance de usarmos a voz.

4) gratidão pela revelação de Deus ao homem: por Tua palavra, luz para os nossos caminhos

5) gratidão pela esperança do retorno de Jesus: e por fim porque em breve virás nos buscar.

A música não termina pedindo bênçãos - é uma canção de gratidão. Antes, encerra-se com a humildade dos versos iniciais: somos nada, somos pó/mas o Pai nos sustém com imenso amor.

A canção “Ovelha errante” nos relembra como é límpida a voz de Anderson César, aqui em dueto com Regina. É um refrigério vocal aquela voz de tenor: uma ilha sem firulas e sem exageros maneiristas no atual oceano de emuladores de Mariah Carey e Brian McKight (Nesse ponto, é preciso reconhecer que alguns dos adeptos desse estilo o fazem com propriedade, brilhantismo e estilo pessoal, enquanto outros ainda confundem os limites entre recurso técnico e a falta de noção).

A canção “Viver para servir” (Lineu Soares/Valdecir Lima) tem um tratamento de citação ou recriação de modelos musicais que remetem ao final dos anos 70, como a bateria e o baixo pulsantes e os metais suingados à Lincoln Olivetti (afamado produtor da época). O problema está em que alguém vai dizer que essa citação tem associação em demasia com os padrões do pop daquele período. Mas não se pode esquecer do que a cantora escreve no encarte: “minha intenção não foi cantar exclusivamente para o público das igrejas ou das rádios” e “ficaria muito feliz se esta diversidade” musical alcançasse mais pessoas. Certamente, para que mais pessoas fossem sensibilizadas quanto a uma reflexão e a um conhecimento da mensagem cristã.

A música “Se com tua boca confessares” (Evaldo Vicente), faixa 10 do cd, alinha-se a novidade evangelístico-musical da proposta da cantora. O arranjo de João Alexandre se inicia num reggae mais jamaicano passando para um som que denominava-se no começo dos anos 80 de white reggae (reggae branco, algo que o grupo The Police celebrizou). O que garante distanciamento de um típico reggae é a interpretação delicada de Regina, em contraste com o ritmo marcado, além da própria linha melódica desta canção, afastando-se dessa forma do panorama gospel moderno de transplante integral de melodia, arranjo e performance.

Por último, as músicas “Casa grande” (Gladir Cabral) e “O sândalo e o poeta” (Edílson Botelho) são de grande profundidade poética. A primeira é uma belíssima analogia entre a abjeta escravidão do negro e a não menos odiosa escravidão humana do pecado (na casa grande há uma cruz numa parede), empregando aliteração (encontro, comunhão e caminhada) e metáfora (no coração de um negro há uma casa nova/(...) e nas paredes não há Cristos esquecidos) em versos belos e criativos que caminham para a declaração de fé na redenção (os nossos corpos redimidos num momento/bem mais veloz que a luz de todo pensamento).

Desde o título do CD – Basta viver o amor – passando pelas canções – o que importa é a fé em Cristo (verso da música “Nossa fé”), Regina Mota faz aqui sua profissão de fé musical na poesia e na diversidade estilística, mas não prescinde da fé e do amor como fundamento do seu testemunho cristão.


01 agosto, 2007

NEM SÓ DE PAN VIVE O HOMEM


É finda a luta quadrienal que são os jogos pan-americanos. É tempo de contabilizar os ganhos, deduzir as perdas, enfim, fechar o comitê para balanço. Em clima de festa, louva-se o recorde de medalhas brasileiro (thanks, Tio Sam, por não enviar seus principais atletas), a engenharia das arenas esportivas (obrigado, Lula, por transferir os 2 bilhões a mais do orçamento do PAN para a conta da Viúva).

É tempo também de aprender que:
O Pan do Brasil é uma mulher: a despeito das braçadas recordistas de Tiago Pereira (não vale comparar com Mark Spitz, por favor), e das pernas velozes e resistentes de Franck Caldeira e Hudson Fonseca, o Pan tomou a forma feminina. O que marcou mesmo foi o surgimento de novas estrelas – Jade, Fabiana, Yanne, Keila, - a consolidação de outras – Marta, Maurreen, Ednanci, - o ocaso de algumas – Daniele Hipólito, Janete. Até mesmo quando perdiam, como as meninas de vôlei, perdiam com destaque e afã de vitória.

O brasileiro só é patriota no esporte: o hino toca, a bandeira sobe, a garganta seca, as lágrimas caem. Essa seqüência se repetiu nas 54 vezes em que os atletas nacionais receberam a medalha de ouro. Aquele choro incontido pode inquietar, principalmente quando se leva em conta que nossas autoridades costumam aproveitar a euforia da conquista para faturar alguns pontinhos junto aos eleitores. Quando Pelé, Tostão e cia. ganharam a Copa de 70, o povo celebrava o Tri nas ruas, enquanto os porões da ditadura se refestelavam na tortura. Exaltava-se o Brasil Grande, as verdes matas, o céu anil, o verdadeiro “espetáculo do crescimento” pré-Lula, o “ame-o ou deixe-o”, a flâmula verde-amarela, enquanto os militares verde-oliva escondiam a Transamazônica, o endividamento sem lastro, a censura deslavada, a corrupção nas estatais, os governantes biônicos e a perseguição a rodo.

Rejeita-se o ufanismo americano como símbolo de uma alienação imposta via colonização econômico-cultural. A bandeira tremulando nos finais de filmes de guerra cheira a patriotada para vender a imagem do americano xerife global. E o povo norte-americano, vendo toda a pujança econômica e poderio cultural de seu país, adota uma postura sinceramente patriota, exagerada até.

Mas, e nós do lado de baixo do Equador? Há razões que nos tornariam nacionalistas contumazes? Seria porque o país é belo e gigante pela própria natureza? Seria porque o brasileiro é um forte e não desiste nunca? Chega de ironia. Somos patriotas só no esporte porque as conquistas esportivas são os únicos momentos onde se percebe integridade nas atitudes. O brasileiro nota quando os atletas procuram fazer de sua façanha individual uma realização da coletividade nacional. Pudera muitos dos políticos aprendessem a fazer de suas ações particulares uma conquista nacional em vez de extrair dividendos privados de suas efetivações públicas.

Desculpe, mas eu vou chorar: a frieza dos anglo-saxões e seus descendentes é ressaltada como sinal de controle emocional diante da prova. Já o brasileiro chora a bandeiras despregadas, o que é visto como prova de despreparo psicológico e submissão ao colonizador, um "complexo de vira-latas" tardio.
Nada disso. Toda vez que vejo uma american girl (ou uma meninota canadense) equilibrar-se impassível numa trave de 10 cm, ou então um nadador anglófono imperturbável na sua raia dourada, lembro que o caminho da glória desses vencedores, em geral, é acarpetado desde a infância.

Como cobrar domínio dos sentimentos quando uma ginasta teve uma criação desastrada, quando um judoca passou fome, quando uma corredora enfrentou a seca, quando um corredor foi vítima de racismo, quando uma jogadora de futebol foi estigmatizada preconceituosamente?

Por isso, eles choram. Choram durante e depois da disputa. Quando ganham, choram e riem na cara do destino cruel que lhes assombrava desde a meninice.

No Pan, o Rio é uma Zurique: se, antes dos jogos, a cidade carioca estava uma Bagdá, se o Rio vivia todo dia um capítulo de 24 Horas, durante o Pan, os tiros ouvidos eram só pra dar a largada de competições. A idéia é realizar um Pan anualmente em cada grande cidade a fim de zerar as taxas de insegurança urbana.

Mulher, onde estão os teus agressores?: se o Rio virou Zurique, o Brasil tomou a forma de um imenso Maracanã, uma arena poliesportiva onde a glória dos vencedores escondeu os agressores da doméstica, encobriu as vacas milionárias do Calheiros e, tristemente, se não fosse pela maior tragédia da aviação brasileira, o caos aéreo estaria fadado a ser uma cotidiana e repetitiva nota jornalística.

Nem só de Pan vive o homem: a cobrança é justa e de direito e perguntar não ofende: Senador, onde estão os comprovantes fidedignos? Senhores do apagão aéreo, de quem (de quantos) é a responsabilidade pelas tragédias? Sr. Nuzman, e o amparo pós-Pan aos nossos atletas? Cabral (o Sérgio), o Rio voltará a tudo como dantes?