30 dezembro, 2012

meus livros e músicas de 2012

Comecei a postar essas listas anuais na época em que comecei o mestrado. Desde então (e ainda agora no doutorado), o tempo para leitura de ficção ficou menor diante das obrigações de leituras acadêmicas e ensaios literários. 

Meus livros do ano:



Beethoven (Lewis Lockwood) – obra de fôlego que analisa a vida e a música do meu compositor preferido há muito tempo,desde as aulas com o mestre Jael Enéas. Os amigos preferiam me ouvir tocando a "Pour Elise", mas meu espírito gostava mesmo era da "Sonata ao Luar".

A reinvenção do mundo: um adeus ao século XX (Jean-Claude Guillebaud) – a nova mentalidade social, a tecnologia, a cultura e nós que vivemos em meio a tudo isso. Para não renunciar à mudança por causa do passado e nem aprovar o novo só porque é o futuro.

A new song for an old world (Calvin Stapert) – nos primeiros séculos do cristianismo, pensadores da estirpe de Clemente de Alexandria, Tertuliano, João Crisóstomo e Agostinho escreveram textos sobre música que ainda são bastante atuais.


Em busca de identidade (George Knight) – um pequeno livro que mostra as tensões teológicas dentro da história do adventismo. Deveria ser obrigatório para aqueles que têm a ilusória certeza de que o pensamento religioso/doutrinário já nasceu pronto e acabado.

Las culturas musicales (Francisco Cruces et. al.) – conjunto de ensaios escritos por pesquisadores essenciais da etnomusicologia. As relações entre antropologia, cultura, sociedade e música favorecem um olhar mais abrangente não apenas sobre a música, mas sobre as sociedades que praticam música.

O livro de areia (Jorge Luis Borges) – só o conto “O Outro” já vale a leitura do livro inteiro, que tem outras pequenas pérolas do grande escritor argentino.

A tentação do cristianismo: de seita à civilização (Luc Ferry & Lucien Jerphagnon) – como uma religião estrangeira seduziu o império romano e mudou aquele mundo. Publicação do debate fascinante entre os dois pensadores.


A selva do dinheiro – reunião de contos sobre o ser humano e o dinheiro. Olha a escalação de escritores: Tolstoi, Tchecov, Poe, Joseph Conrad, Eça, Hawthorne, Dostoiévski, Maupassant, Kafka, Fitzgerald, Gogol, London, Henry James, ...



Meus discos do ano:

Pra Ver o Rei (Curitiba Coral) – melodias fortes, ritmos empolgantes, letras profundamente convictas do sentido de missão. Marcas características do trabalho de Daniel Salles, regente e compositor capaz de simplificar a teologia sem abdicar da poesia.

Princípio e Fim (Leonardo Gonçalves) – um disco autoral sem medo de ser erudito na produção musical e na expressão teológica.

Vida (Joyce Zanardi) – A simplicidade sofisticada, a melodia bonita e despretensiosa: como é bom ouvir uma cantora sem a menor afetação vocal (curiosamente, jovens cantoras Joyce Carnassale e Riane Junqueira têm a voz limpa, sem maneirismos na performance - seria efeito da "escola" do maestro Lineu Soares para a voz feminina? rs).

Europa Konzert from Lisbon – a Filarmônica de Berlim na regência de Pierre Boulez, Maria João Pires ao piano, tocando maravilhas de Ravel, Mozart e Bártok. Deleite puro.

Brasileiro: Villa-Lobos and Friends – com o brilhantismo de sempre, o fenômeno Nelson Freire reconta a trajetória da música para piano de compositores brasileiros.


Leaving Home: Rythm – documentário inglês em que o maestro Simon Rattle fala sobre o ritmo na música orquestral do século XX. A Sinfônica de Birmingham toca trechos de obras de Stravinski, Varèse, Messiaen, Boulez, Mahler e Ligeti. Meus alunos de História da Música agradecem.

Canteiro – Não é “música pra churrasco” (sem preconceito, mas com trocadilho). As rádios podem ter abandonado a finesse e a poesia, mas André Mehmari e seus amigos músicos e letristas insistem em fazer música popular requintada e inteligente.

Arautos do Rei, 50 anos – gravação emocionante do concerto do cinquentenário que traz as vozes e as músicas que fizeram história na música cristã. É mais que flashback. É flashblessing.


24 dezembro, 2012

meus melhores filmes de 2012


Minha lista de melhores não dos melhores filmes desse ano, mas de filmes que vi neste ano não importa o ano de sua produção. Em 2012, assisti obras-primas como A Separação e Na Estrada da Vida, ótimos dramas como Jean de Florette e A Morte e a Donzela, animações estupendas como  A Viagem de Chihiro e filmes não tão bons mas com interessantes questões teológicas, como Prometheus. À lista:

Brinquedo proibido (1952) – na França da 2ª Guerra Mundial, uma menina perde os pais e encontra a amizade de outra criança, filho de camponeses que lhe dão abrigo. O travo amargo da guerra é aliviado por momentos inesperados de humor. Mas se prepare, ao contrário do engodo de A Vida é Bela, em que Aschwitz vira Disneylândia, este pequeno filme não maquia o horror da guerra para consolar o espectador.

4 meses, 3 semanas e 2 dias (2007) – após assistir a esse filme, qualquer que seja sua opinião a respeito do aborto, contrária ou a favor, ela vai mudar. Porque esta não é mais uma comédia adolescente, mas um drama que mostra como o processo pode ser traumatizante para a mulher. E os homens dessa história? Bem, “boys” just wanna have fun.

Do jeito que ela é (2003) – essa história de tolerância e aceitação familiar trata as diferenças inconciliáveis do relacionamento entre pais e filhos com a dose certa de emoção e realismo. Se fosse uma letra de música, o filme seria: “você diz que seus pais não lhe entendem, mas você não entende seus pais”.

Fausto (2011) – nessa versão da milenar história de um homem que faz um pacto com o diabo, o homem é um cientista e o diabo é um comerciante. Em meio a diálogos de alta voltagem teoógica, e filmando ora paisagens deslumbrantes ora cenas atordoantes, o cineasta russo Alexander Sokúrov nos diz que o grande mal que assola o homem não é o embate entre ciência e religião, mas o cientificismo que repudia a fé e o amor pelos semelhantes.

O garoto da bicicleta (2011) – um adolescente abandonado pelo pai passa a desenvolver sentimentos extremos de fúria e solidão, manifestando tanto o ódio quanto a vontade de receber afeto. Uma mulher desconhecida passa a visitá-lo no orfanato e acolhê-lo em sua casa. Uma parábola sobre o amor incondicional.

O artista (2011) – um filme mudo sobre os tempos do cinema mudo. É uma proeza técnica o fato de espectadores do século XXI se deliciarem com a inventividade do cinema que, sem dispensar a música, abdica da voz.

Pina (2011) – espetáculo visual impressionante dirigido por Wim Wenders que reencena as revolucionárias coreografias de Pina Bausch, a mulher que trouxe o balé para o risco do cotidiano e lhe deu gestos simples, mas nem por isso menos sofisticados.

A separação (2011) – a princípio, parece apenas ser sobre a vida de um casal em processo de separação no Irã. Mas pouco a pouco começam a entrar aspectos da religião islâmica que vão sendo discutidos sem apontar soluções apressadas. É um painel rico de situações cotidianas e surpreendentes que nos faz perceber como boa parte das encenações familiares filmadas em Hollywood são apelativas, sentimentalóides e fotogênicas.

P.S: Eu já não esperava grande coisa, mas O Espetacular Homem-Aranha deveria se chamar o apenas razoável homem-aranha. Com mudanças forçadas na história, mais coincidências que novela do SBT, teia comprada na Amazon e uma aluna de ensino médio como estagiária-chefe de uma megacorporação, não deu pra engolir esse caça-níqueis. 



19 dezembro, 2012

dave brubeck e ravi shankar

Dois músicos geniais faleceram em dezembro: o pianista Dave Brubeck e o músico indiano Ravi Shankar. Há pouco mais de 50 anos, ambos passavam a estabelecer novos parâmetros para a escuta e a prática de sua música. O jazz não seria mais o mesmo após o álbum "Time Out", de Brubeck e sua magnífica trupe, e os sons da Índia atingiriam uma popularidade mundial inesperada pelas mãos de Shankar. Nada mais a declarar: só tire um tempo para ouvi-los.

Dave Brubeck, "Take Five":




Ravi Shankar e sua filha Anoushka (ele também é pai da cantora Norah Jones):

 

11 dezembro, 2012

o fim do mundo: seis ficções e uma verdade


O cinema trata o fim do mundo como se fosse verdade. Uma verdade de duas horas. O espectador fica em suspense quando assiste “O Dia depois de Amanhã”. Quando o filme acaba, ele sai para comer como se não houvesse amanhã. Para Hollywood e para o vendedor de pipocas, o fim do mundo pode ser só ficção, mas o lucro é bem real.

Como os maias “agendaram” a destruição do planeta para o dia 21/12/12, vamos lembrar de seis ficções e uma verdade sobre o fim do mundo:

Ficção 1: Presságio
O começo: números e cálculos feitos por uma garota há mais de 50 anos são interpretados como previsões (acertadas) de catástrofes. O fim: aniquilação total. O lado religioso: em meio a várias referências bíblicas (4 cavaleiros, profecias), arruma-se até uma espécie de “nave de Noé”.

Ficção 2: O Fim do Mundo
O começo: cientista descobre que um planeta desgovernado atingirá a Terra. O fim: colisão de planetas. O lado religioso: uma arca de Noé espacial levará alguns habitantes sorteados para um lugar seguro.

Ficção 3: O Abrigo
O começo: um homem tenta avisar a todos sobre a iminente destruição. O fim: o apocalipse tarda mas não falha. O lado religioso: ninguém acredita na sua pregação. O filme pode ser um tanto enigmático, mas possui um subtexto teológico instigante. 

Ficção 4: A Última Noite
O começo já é o fim: o mundo vai acabar à meia-noite do último dia do ano de 1999. O lado religioso:  descrença geral. 6 horas antes do fim, alguns personagens se conformam e outros querem fazer tudo o que não fizeram antes na vida. "Quando o Filho do Homem vier, achará fé na Terra?"

Ficção 5: 2012
O começo: a profecia dos maias vai se cumprir no dia marcado. O fim: monumentos (e grande parte da população) não sobrevivem. O lado religioso: os que sobreviveram vão recomeçar a vida numa nova região que se formou após a catástrofe planetária. O apocalipse e o gênesis sem a intervenção de Deus.

Ficção 6: Deixados para Trás
O começo: após o arrebatamento dos fiéis, o mundo é entregue ao Anticristo. O fim: a interpretação teológica de Tim LaHaye é mesmo o fim. O lado religioso: o filme dá uma requentada numa teoria (Arrebatamento Secreto) surgida em 1827 e se torna o engodo mais lucrativo do cinema evangélico norte-americano.

Verdade 1: O livro do Apocalipse
Lido apressadamente, esse livro parece uma história mítica e tremendamente excludente. Mas, lido com acuidade, o Apocalipse também pode ser visto como uma história de amor. É que, com relação ao juízo divino, o amor vem junto com a justiça.  Por isso, para quem não crê, soa terrível. Para quem crê, soa esperançoso. Mas atenção: segundo a Bíblia (Mateus 7), até para quem diz crer pode não haver um final feliz.

As variações do fim do mundo contadas por livros e filmes vão da melancolia ao escárnio. Banalizado por descrentes e desacreditado por causa de fanáticos marcadores de datas, o fim do mundo, pelo menos de acordo com a Bíblia, representa um novo começo. Como você faria se quisesse entender seriamente qualquer assunto, sugiro que o leitor procure os especialistas e teólogos que tratam do tema como uma verdade coerente.

É incrível como Hollywood nunca pretendeu filmar a versão bíblica do apocalipse. Uma história de grandes conflitos, esperança e concretização de antigas profecias: se os cristãos não proclamarem corretamente, as pedras hollywoodianas clamarão? 

07 dezembro, 2012

a parábola do bom legalista


Certo dia, porque é sempre em certo dia que esses eventos se dão, um grupo de alunos subiu ao andar onde seu professor corrigia provas e lhe perguntaram: “Mestre, é mais fácil um camelo entrar voando por essa janela do que um legalista ir para o céu?”

O professor, sabendo que camelos não voam e que todo legalista pensa que a lei dá asas, contou a seus alunos a seguinte parábola:

Um homem ao sair para o trabalho encontrou um livro no chão. Pegou, olhou, folheou e guardou o livro que tinha por título uma só palavra: “Lei”. E pensou: “Cristo não veio revogar a lei, mas cumpri-la. Que bom que eu já obedeço à lei, ao contrário desse meu colega de trabalho evangélico que não sabe o que é verdade.” E assim passou a semana como o legalista que era, exigindo muito, pedindo um pouco e não agradecendo por nada. Chegando o sábado, foi à igreja achando que sua observância da lei lhe dava créditos e méritos de salvação.

Outro homem ao sair para a igreja encontrou um livro igual no chão. E quase disse em voz alta: “Cristo não veio revogar a lei, mas cumpri-la. Eu procuro obedecer toda a lei, ao contrário dos meus irmãos da igreja que não sabem que estão condenados”. Chegando à igreja, mediu o tamanho da saia da irmã e o dízimo do irmão, saiu quando o grupo jovem cantou, voltou quando o pastor começou a pregar, dormiu de tarde, esperou o sol se por e foi, contrariado, levar a esposa ao restaurante.

Um terceiro homem encontrou o mesmo livro. Ele não tinha o costume de bater no peito, e por isso, disse apenas: “Cristo não veio revogar a lei, mas cumpri-la. Eu procuro obedecer toda a lei, mas não sou capaz. Como eu preciso da tua graça, Senhor”. E assim passou a semana sendo amável e honesto. Chegando o sábado, foi à igreja, e mais uma vez entendeu que legalista bom é aquele que deixa de sê-lo por que reconhece sua condição caída e obedece toda a lei por amor, e não por orgulho de se salvar ou por medo de se perder.

Sua oração de todos os dias era: “Senhor, que eu seja alguém leal à Tua casa sem ser um legalista em Tua causa”.

Tendo ouvido estas coisas, um dos alunos perguntou: “Agora o senhor vai nos dizer qual destes três agradou a Deus?”

“Não”, respondeu-lhe o professor, “agora se pergunte qual dos três é você”

Joêzer Mendonça

27 novembro, 2012

um estudo sobre o cd Princípio e Fim


As congregações evangélicas, de um modo geral, foram acostumadas a um modelo musical de melodias firmes, poesia simples e teologia direta. Isso pode explicar o apreço pelos dois primeiros CDs de Leonardo Gonçalves, nos quais há músicas que se consolidaram no repertório evangélico dos últimos anos (“Getsêmani”, “Volta”, “Moriá”, “Ele Virá”, são algumas).

O 1º CD, "Poemas e Canções", apresentava temas gerais do cristianismo. O segundo, "Viver e Cantar", pôs em sequência teológica as doutrinas cristãs centrais. O terceiro, "Avinu Malkenu", relaciona a tradição musical e teológica judaica à compreensão teológica  cristã. O CD “Princípio e Fim” diverge dos anteriores nos aspectos musicais e poéticos. E também é diferente no viés teológico. Antes de falar sobre eles, vamos aos aspectos musicais.

Ouvindo musicalmente

Talvez haja menos canções memoráveis neste CD do que nos anteriores. E isso não é necessariamente um defeito. Se as músicas se adequam mais à reflexão pessoal do que à performance pública, isso chega a ser reconfortante. Talvez seja um risco para a Sony Music, e o resultado artístico do CD prova que a gravadora não interferiu na produção. Esta é uma produção que não buscou a fórmula do hit gospel, e para isso renunciou (talvez deliberadamente) à familiaridade melódica.

Nesse CD, as melodias estão mais assentadas, lentas, reflexivas. Nos trabalhos anteriores, as músicas exigiam muita potência vocal e os intervalos entre as notas exibiam maiores saltos entre as notas graves e as agudas. Neste, há mais ênfase na região média da voz.

Percebi também um fator musical que não sei se todos vão entender devido à forma pouco eficiente da minha explicação: há uma demora em resolver as expectativas criadas pelos acordes de tensão e repouso. Por exemplo: o refrão da canção “Novo” [“mas à meia-noite o céu se abre...”] tem um ostinato (repetição de grupos de notas) que adia longamente a resolução da tensão. É um efeito interessante e que se relaciona com a letra, mas soa pouco familiar para uma parte dos ouvintes, para quem o ostinato resulta bastante prolongado.

Que canções têm essa característica?

“Sublime” – que tem belos achados na letra, como no verso “Compreendo que o eterno lar começa no momento em que vivo para Te encontrar”

“Viver o amor” – o refrão (“estender a mão / partir o pão”) tem uma melodia flutuante e seu final tem uma sequência de acordes que criam um efeito suspensivo permanente.

A versão de “Eu acredito” – a sequência de acordes do piano desarticula a fluidez da versão original de Tiago Arrais e cria outra atmosfera: suspensa, ondulante, resolvida de um modo inesperado.

“Jamais” e “Princípio e Fim” – as duas canções dialogam em vários aspectos. Experimente apenas ler suas  letras e você perceberá que os conjuntos de versos não estão ligados por uma narrativa, uma história. São como quadros justapostos que somente a visão do todo poderá apresentar coerência.

Assim como o letrista não estabeleceu uma relação convencional entre os versos, a melodia e a harmonia também não seguem as resoluções melódicas e harmônicas comuns. Essas duas músicas soam mais como comentários sobre a compreensão da eternidade e da infinitude de Deus e menos como canções sobre o encontro final com Cristo no céu,

Não ouvimos as afirmações seguras sobre a volta de Jesus, como em “Ele Virá”, por exemplo. O aspecto esperançoso e triunfante dessa música deu lugar à espera mais contida – “a esperança pressupõe a espera, logo vem o Rei”, trecho da canção “Novo”, é um sinal. Não é triunfalista, mas também não é triunfante no modelo comum da música evangélica e, particularmente, da música adventista.

O tema da volta de Jesus costuma gerar expectativas musicais afirmativas ou também de grandiosidade (final orquestral, trompetes no fortíssimo). No entanto, o instrumental de cordas que se segue após a última frase da última música do CD dá uma ideia da opção pela contenção. A música parece encerrar com reticências. Talvez a ausência de um ponto final não atenda às expectativas convencionais do ouvinte.

Seria este, então, um CD que agradaria mais aos músicos? Não sei responder. Mas eu diria que essa produção deveria ser ouvida com atenção pelos arranjadores gospel. 

Ouvindo teologicamente

Olhando agora para as letras, e mesmo não passando de um musicólogo que aprecia estudos em religião, vou arriscar algumas especulações teológicas.

Os poemas e canções do CD me sugerem que eles estão dentro de um conceito duplo em relação ao título dessa produção.

Princípio é o começo de todas as coisas. No entanto, diferente do CD “Viver e Cantar”, não há um relato cronológico da história da redenção. Seu começo não está no gênesis, mas nos eventos do apocalipse. Vejamos:

A segunda faixa do CD chama-se “Tsion” (a 1ª é um prelúdio instrumental ligado à 2ª) e trata do esperado encontro entre o salvo e o Salvador. O primeiro verso da letra diz “hoje acordei em sonho para ver o que é real”. Como sabemos, os sonhos não têm começo definido (é raro lembrar o início de um sonho) e é só a realidade que põe um fim aos sonhos.

A terceira canção é “Novo”. O refrão fala da vinda de Jesus nos céus e pergunta: "a luz que enche toda a terra é o Rei?" A interrogação é cantada por Leonardo com a entonação vocal para cima na palavra “Rei?”. Depois, essa frase será repetida, mas, na letra que consta no encarte do CD, há um ponto de exclamação no final (“a luz que enche toda a terra é o Rei!”). A voz faz uma entoação para baixo na palavra “Rei!”, como que afirmando e não perguntando.

Os eventos do apocalipse são cantados: “a canção do Cordeiro vai ressoar como o alto mar” (como o som de muitas águas); “tudo novo se fez”.

Há referências à nova terra (algo que é pós-apocalíptico) nas bonitas rimas da música cantada em inglês, “There”, que fala da cidade celeste de Jerusalém e da importância dada a presença de Cristo ali. Em “Sublime”, há um coro que canta repetidamente “Jerusalém”.

Essa última canção diz: “[...] vou Te encontrar / quando não sei / um dia, eu sei / estarei no meu lugar”. O que ainda não foi realizado, e carece de espera e esperança, se realiza no final da música: “Hoje encontrei, em Ti encontrei, encontrei o meu lugar”. Não é o encontro no céu, mas a percepção de encontrá-Lo espiritualmente e localizar-se emocional e intelectualmente, deixando de perambular atrás de outras soluções. É outra forma poética de dizer "o céu é aqui, se aqui Jesus está", como na música de Jader Santos.

Isso está de acordo com o texto de apresentação do CD, escrito por Leonardo: “o reino de Deus vai existir porque já existe. [...] um dia vai existir plenamente. Já, mas não ainda...”

Preceito e Finalidade

Uma segunda relação das músicas com o título do CD penso que está num plano mais profundo (e são apenas especulações deste escriba, e podem não ter nada a ver com as reais intenções do produtor).

Princípio também significa preceito, teoria, diretrizes que regulam a vida. Os princípios cristãos saltam aos ouvidos nas canções.

Princípios de fé: na canção “Novo”, canta-se a crença na ressurreição de Cristo (“minha fé não vê um Cristo morto, mas que ressurgiu”), a ressurreição dos que creem em Cristo (“acordam os que dormem no Senhor”), e a volta pessoal de Jesus (“todo olho O vê”).

Princípios da sola scriptura: são citadas várias passagens bíblicas, algumas ipsis litteris – Mateus 25:21 (em “Tsion”), o salmo 121:1 (“Novo”), Coríntios 13:2 e algumas bem-aventuranças (em “Bondade”), Isaías 58:6 (“Viver o amor”).

A lei como princípio: "acredito que Sua lei está dentro do meu coração" (na música “Eu acredito”); "sempre obedecer à lei do Seu coração" (“Viver o amor”), "guardar suas leis" (“Mente e coração”).

Fim quer dizer final das coisas. E também é um termo que pertence ao domínio da escatologia cristã, o estudo dos últimos eventos. Fim também significa finalidade, objetivo. A finalidade da criação e da redenção está dentro do que se chama teleologia, o conceito de propósito do universo. O propósito (o telos) do evangelho é anunciar tanto o fim/propósito da vida quanto o começo/finalidade de uma nova vida. As canções do CD "Princípio e Fim" são perpassadas por esse princípio, por esse propósito.

O telos, a finalidade da vida do cristão na terra inclui o amor pelos seus semelhantes, abrangendo aqueles que, como diz o texto de apresentação do CD, “não compartilham de nossas perguntas, que dirá de nossas respostas”. Por isso, a música “Bondade” (preciso a bondade partilhar), por isso “Viver o Amor” (estender a mão, partir o pão; nunca mais me esconder do meu semelhante).

Já fui longe demais em minhas especulações teomusicológicas e agradeço a boa vontade do leitor que chegou até aqui. Eu encerro com esse verso da canção "Mente e coração":

Quero entender o sentido / quero sentir o entendido: o cristão quer compreender o significado e o propósito das coisas. Mas assim que compreende, ainda que em parte, pois lhe é impossível a totalidade deste lado da eternidade, ele precisa vivenciar o que entendeu. Razão para entender, sentimento para incorporar. Letra para compreender o sentido, música para expressar o entendido.

Em relação a essa canção, talvez várias pessoas deem mais atenção ao arranjo musical do que à teologia contida na letra. É claro que ritmos e melodias às vezes podem nos distrair dos santos propósitos. Mas também penso que não é sábio usar a preferência musical como régua para medir a espiritualidade pessoal. O amor é um princípio e a salvação é um fim, mas a música é um meio.

19 novembro, 2012

César e Deus numa nota de cem reais

Em São Paulo, a Procuradoria dos Direitos do Cidadão entrou com ação que propõe que não se inclua a expressão "Deus seja louvado" nas futuras notas de real a serem impressas. O argumento apela à laicidade do Estado, ou seja, que um Estado laico não deve promover esta ou aquela religião. Isso é diferente de propor a mudança do nome dos Estados de São Paulo para "Eduardo" e de Santa Catarina para "Mônica". Eu não tenho nada contra o governo retirar das cédulas essa expressão tipicamente cristã. E tenho 3 razões:

1) Os cristãos provavelmente não gostariam de ver escrito nas cédulas expressões como "Buda seja louvado" ou "Tupã seja louvado", ou qualquer uma das frases escritas na nota de real no começo desta postagem. Tem cristão que não suporta calado nem o título sincrético-religioso de uma novela, tipo "Salve Jorge", imagina carregar expressões assim na carteira!

Alguns defendem a permanência da expressão cristã nas notas de real porque isso seria parte da tradição histórica do Brasil. Quando a expressão "Deus seja louvado" foi inscrita na moeda, o Estado ainda adotava oficialmente uma religião. E isso era uma tradição histórica de vários países. Hoje, porém, a Constituição prevê um Estado laico, que respeita todas as religiões, mas não adere a nenhuma delas. Vivemos num tempo em que as pessoas exigem mais respeito a sua crença (ou descrença) do que antes. Então, seria correto exigir que César use o nome de Deus só porque a sociedade brasileira é culturalmente cristã? (eu digo culturalmente cristã, porque espiritualmente...ai de nós).

2) Ao pagar suas contas, você e o comerciante podem até dizer "Deus seja louvado". Infelizmente, não é o que a maioria diz quando vai retirar o salário. Para piorar, do sujeito que suborna o policial para não ser multado ao cidadão que dá um "jeitinho" de enganar a Receita Federal, do corrupto que desvia verbas escolares ao traficante que vende crack, todos usam cédulas que estampam um "Deus seja louvado". Chega a ser uma blasfêmia. Ou, no mínimo, uma situação bizarra.

Não é por causa de uma expressão com o nome de Deus que o dinheiro pode ser uma benção. Certamente não foi por conta dos abençoados que se começou a dizer que o dinheiro é a raiz de todos os males.

3) Ainda faz sentido que o nome de Deus esteja escrito numa cédula de real quando até as paredes da Casa da Moeda sabem que o deus desse mundo é o dinheiro? Nelson Rodrigues ironizava dizendo que "o dinheiro compra tudo, até o amor verdadeiro". Numa sociedade que caminha firmemente para a compra e venda de tudo, a expressão mais fiel aos novos tempos seria "Pagando bem que mal tem".  

06 novembro, 2012

Adventistas na América: republicanos ou democratas?


Em 1874, após o Congresso norte-americano rejeitar um projeto que outorgava ao estado o poder de impor valores morais do cristianismo, a Associação de Reforma Nacional, formada por uma frente evangélica conservadora e próxima ao Partido Republicano, passou a propor a imposição de leis dominicais.

Quando alguns estados começaram a apoiar estas leis e as perseguições aos violadores do domingo como dia de descanso terminaram em multas e prisões de grupos sabatistas, como os batistas e adventistas do sétimo dia, estes reivindicaram a liberdade religiosa e de consciência.

“O Partido Republicano endossava a imposição da lei dominical, e os adventistas que tendiam a apoiar os republicanos desde 1856, mudaram sua lealdade em favor dos democratas” (R. Schwarz e F. Greenleaf, Portadores de Luz, p. 242). Na década de 1880, na Califórnia, quando os democratas venceram as eleições estaduais, eles revogaram a legislação dominical.

Na época, o que interessava aos políticos era a questão trabalhista, e não religiosa. Era comum o indivíduo ser obrigado a uma jornada de sete dias de trabalho. Todavia, em alguns estados, como os do sul wasp (branco, anglo-saxão, protestante), a questão dominical era abertamente religiosa.

Houve tentativas ainda de aprovar a lei dominical em âmbito nacional. No entanto, as discussões, em parte promovidas pelos adventistas por meio de comissões e conferências de liberdade religiosa, ajudaram a bloquear a legislação que não permitia que os sabatistas, que já descansavam no sábado, pudessem trabalhar no domingo.

Nas décadas de 1980 e 1990, os adventistas também apoiaram a organização Americanos Unidos (AU), embora de forma não oficial. A publicação mensal Church and State (Igreja e Estado) da AU defendia a liberdade religiosa e a separação entre estado e igreja, o que faz parte das convicções históricas do adventismo.

Esse periódico fazia oposição às atividades da chamada Nova Direita Cristã, ala republicana que reunia evangélicos conservadores. Na época em que o presidente Ronald Reagan restabeleceu os vínculos diplomáticos com o Vaticano, houve vários protestos por parte da AU, que temia a união entre religião e estado que poderia resultar desse vínculo político. A esse temor, o adventismo adicionava sua crença profética de que a união entre os Estados Unidos e o papado é um sinal escatológico.

Os adventistas tem a tendência de apoiar os democratas ou os republicanos?

Na eleição de 1964, estudantes adventistas apoiaram o candidato republicano Barry Goldwater na disputa contra o presidente Johnson (vice que tomou posse após o assassinato de Kennedy). Em 1968, eles mostravam mais preferência por Richard Nixon do que pelo possível candidato democrata Robert Kennedy (irmão de John que também viria a ser assassinado antes de concorrer à presidência). Nixon, para quem não lembra, foi o presidente que sofreu o processo de impeachment nos anos 1970 na esteira do escândalo Watergate.

Em pesquisa mais recente, 44% dos adventistas americanos se identificavam com o Partido Republicano contra 24% que se identificavam com o Partido Democrata. Na eleição presidencial de 1984, o candidato republicano Reagan tinha preferência de dois terços dos adventistas pesquisados.

A agenda política republicana tradicional não aprova o sindicalismo e a ingerência do estado em questões do mercado. Outras bandeiras são consideradas de ordem moral, como a rejeição da legalização do aborto e da união civil homoafetiva. É também conhecido o lobby republicano em favor da propriedade particular de armas de fogo e da maior participação da religião na esfera pública.

O Partido Republicano é, via de regra, visto como um partido conservador. Embora haja diversidade de pensamento em seus quadros, muitas vezes ele é considerado francamente reacionário, como a facção do Tea Party, que a liderança republicana em Washington não vê com bons olhos, mas teve de submeter-se a alguns itens ultraconservadores de sua agenda durante a campanha presidencial de Mitt Romney. O próprio Romney, que tinha um discurso mais liberal, fez concessões ao conservadorismo.

Por outro lado, o adventismo norte-americano também tem uma faceta identificada com as propostas políticas do Partido Democrata (em alguns casos, até mesmo com a esquerda moderada). A bandeira da liberdade de consciência e o não envolvimento da igreja em questões do estado e sua própria estrutura institucional e seu gerenciamento de finanças tem mais a ver com uma central única do que com uma estrutura de livre mercado ou livre concorrência.

Possivelmente considerando a odiosa segregação racial promovida longamente por estados administrados pelos republicanos, 40% dos negros adventistas intencionavam votar no candidato democrata John Kerry e 23% em George W. Bush na corrida presidencial de 2004. De outro lado, a mesma pesquisa apontava que 47% dos eleitores brancos apoiariam Bush e somente 13% votariam em Kerry.

Em outra pesquisa, 47% dos adventistas brancos tinham afiliação com o Partido Republicano e 37% com o Democrata. Entre os negros, a diferença era maior: 70% eram afiliados do Partido Democrata e somente 9% afiliavam-se aos republicanos. A adventista eleita para o Congresso americano pelo estado do Texas, Sheila Jackson-Lee, é democrata.

Os números apontam que a opinião política dentro do adventismo norte-americano, embora de inclinação republicana, também se dirige aos democratas quando o assunto de liberdade de consciência está em questão. Como os democratas têm demonstrado mais esforços para a inclusão de latinos e afro-americanos na sociedade, é possível que essa questão venha motivando novos grupos de eleitores a considerar outros rumos dentro da consciência política adventista.

Fontes: Douglas Morgan, Adventism and the American Republic; R. Schawrz e F. Greenleaf, Portadores de Luz; R. Dudley e E. Hernández, Citizens of two worlds: religion and politics among American Seventh-day Adventists.

26 outubro, 2012

meritocracia ou meriTEOcracia


"Mestre, o que devo fazer para ser salvo?"
Há pessoas que fazem a pergunta com a esperança de receber uma receita pronta de salvação. Elas perguntam, e pensam adivinhar a resposta. “O Mestre vai dizer que é preciso um tanto de amor ao próximo e dez tantos de mandamento”.

O problema é que achamos que Jesus não vai contar com nossa astúcia. A resposta Dele é sempre mais profunda do que esperamos: “Vai vende tudo o que tens, dá aos pobres e segue-Me”. Ou então: “Você tem que nascer de novo”. Ou ainda: “A Minha graça te basta”.

Nossa sociedade está tão obcecada com a meritocracia, com o pensamento de que apenas os mais esforçados merecem prêmios e troféus, que muitos chegam a acreditar que a salvação é uma questão de esforço pessoal e crédito na praça. Há quem se apegue a ritos, a indulgências compradas, a leis cumpridas, a cerimônias entediantes, a teologias liberalizantes para garantir seu troféu. Melhor dizendo, sua coroa.

Mas isso é meritocracia aplicada à salvação. É buscar a justificação por meio da observância a rituais, obras caridosas ou símbolos com o intuito de obter favores divinos. Isso é pensar que minha música, meu serviço ou minha adesão a alguma igreja vai sensibilizar algum deus iracundo.

Esse é um princípio das religiões de magia: fazer algo para a divindade para que esta faça algo por mim. Se isso fosse válido para a religião de salvação, nós teríamos um Deus em reação à nossa ação. No entanto, a redenção estava planejada como uma solução para o pecado antes mesmo que o pecado entrasse no mundo.

Se um ser humano comum, mesmo o mais puro de todos, morresse como expiação pelo pecado da humanidade, então qualquer um de nós poderia salvar-se a si próprio. Isso é meritocracia.

Mas Deus amou ao mundo de tal maneira que entregou seu Filho à morte para que todos os que Nele creem possam ter a vida. Isso é meriTEOcracia. Os méritos do Filho de Deus justificando nossa total ausência de mérito.

Na religião mágica, o homem age e a divindade reage. Na religião bíblica, Deus age antes do homem. A meritocracia é o ser humano trabalhando em favor de si. A meriTEOcracia é Deus atuando em favor do ser humano. Na meritocracia, o pecador se declara justo, mas sua justiça não passa de trapos imundos. Na meriTEOcracia, não há “nenhum justo, não nenhum”, e ainda assim ele pode receber as vestes do “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”.

Por fim, a meritocracia aplicada à salvação usa a obediência à lei para salvar os seres humanos, enquanto a meriTEOcracia é graça.  A obediência é um resultado do reconhecimento da graça, é uma resposta aos atos divinos de salvação.

Ao ser humano, não cabe decidir quem é justo ou não. A preciosa graça, a excelsa graça, é que decide. A nós, cabe simplesmente o arrependimento e aceitação da graça pela fé. A explicação poderia ser muito mais complicada. Mas a graça é simples assim. Perdão se recebe, se aceita e fim. Pecado não se explica, pecado se paga, e Cristo pagou por mim.

23 outubro, 2012

telenovela, medo e a religião dos outros

O site exercitouniversal.com.br, criado por adeptos da Igreja Universal, lançou uma campanha pela internet contra a novela da Globo “Salve Jorge”. Segundo o site, essa novela promove a adoração a Ogum, entidade espiritual que, no sincretismo católico, representa São Jorge. Por isso, os evangélicos devem boicotar a novela global. A campanha também agregou imagens com o slogan "Queima o Jorge".

Sem querer perder a audiência da fatia evangélica que assiste suas novelas, a Rede Globo afirma que a novela não vai enfocar as religiões afro-brasileiras ou o catolicismo, mas vai somente utilizar na trama o mito do guerreiro Jorge da Capadócia.

A semana de estreia da novela global marca também a reestreia da minissérie “Rei Davi”, na Rede Record, a TV do bispo Macedo. A contrapropaganda do site neopentecostal é mera coincidência?


Há muitos motivos para não assistir a telenovelas. Mas não assistir por causa do seu título é crer num mundo mágico que não tem nada a ver com a atitude racional do cristão. O cristão tem medo de fantasmas, é assombrado por mau olhado, encosto, simpatia, vodu, despacho? Só se for aquele crente que não canta o “rá-tim-bum” ao final do Parabéns a Você porque acha que é uma senha que atrai o diabo [a expressão “rá-tim-bum” é a onomatopeia do final das músicas das bandas e fanfarras do começo do século XX]. Ou então é aquele que compra toalha abençoada com o suor de tele-exorcistas!  

Três questões me chamam a atenção na campanha que pede o boicote dos evangélicos à novela “Salve Jorge”:

1 – A novela anterior, como de praxe nas novelas, exibia violência, assassinato, traição, sequestro e, segundo os jornais, teve picos de audiência quando um marido bateu na esposa que o traíra por vários anos. Os espectadores achavam justa a agressão física contra a mulher. 
Alguém lembra de uma campanha evangélica de tamanha repercussão contra a novela “Avenida Brasil”? Talvez isso queira dizer que assistir noite após noite o deprimente espetáculo da maldade glamourizada é algo aceitável para muitos evangélicos. Porém, se o título de uma novela exibir uma saudação típica de outra religião, aí assim, o evangélico não deve assistir. Vai entender...

2 - O site dos fiéis da Universal assegura que "com a chegada de outro espírito [Ogum], o Espírito de Deus se ausentará". Nesse sentido, Deus é que sai correndo quando outros supostos espíritos se aproximam? Não seria exatamente o contrário?

3 – Uma das imagens da campanha que pede o boicote diz “Queima o Jorge”. Eles querem dizer: queima o santo guerreiro dos católicos? Se for assim, esse é o tipo de preconceito que leva muita gente a satirizar e ofender a fé muçulmana. Pedir a fogueira para a religião dos outros revela o mesmo tipo de rancor e ódio que levou Bin Laden a explodir as Torres Gêmeas. E desse tipo de crente, que não tolera a religião alheia, eu confesso que tenho medo.

19 outubro, 2012

as três criações de Deus


A dúvida não é um problema. Ficar paralisado pela dúvida, sim; passar a vida indeciso repetindo para si a mãe hamletiana de todas as dúvidas: ser ou não ser. Duvidar, questionar, perguntar, tudo isso é humano. Nossos ossos são dúvida, nossa carne é dúvida, nosso pensamento é pergunta. E como perguntar não ofende...

Mas há algo nessa breve história da dúvida que precisa ser contada. Minhas dúvidas vão se apagando na medida em que acende a certeza da centelha divina da criação que há em mim. Quando eu vejo um bebê sendo gestado no mar amniótico da tranquilidade, eu penso: há um Criador. Quando eu olho para a rotina da Terra a girar feito bailarina incansável, eu acredito: há um Criador. Quando eu contemplo a tapeçaria celeste disposta como teto sobre mim, eu não tenho dúvidas: há um Criador.

Alguns cristãos procuram conciliar a teoria da evolução e o Gênesis. No entanto, aceitar o evolucionismo teísta, que dispõe Deus como supervisor do processo evolutivo e não como o Criador da natureza e do ser humano, derruba algumas colunas inegociáveis do Cristianismo. Como? É que alguns pressupostos caros ao cristianismo, como pecado, expiação, redenção, perdem o sentido sem a literalidade ou, no mínimo, sem a veracidade do Gênesis.

O Gênesis, o livro dos começos, nos conta que a criação do homem e do mundo ocorreu em sete dias literais. Houve tarde e manhã e aquela foi a primeira criação de Deus. E Ele viu que tudo era bom.

Depois, a perfeita natureza foi desmantelada pela foice afiada do pecado nas mãos do pecador cego. Mas se os animais não se atacavam e se devoravam, como eles passaram a saber que um era mais forte do que outro, que este devia fugir daquele? O equilíbrio edênico da criação teve, suponho, que ser reequilibrado. Um novo ecossistema que não degenerasse no caos no primeiro dia precisou ser desenhado. Se assim foi, esta teria sido a segunda criação de Deus.

Todo o estudo criacionista, porém, cairia por terra se não fosse por um último e importante detalhe: a restauração do ser humano e da sua casa-mundo. Por isso a Bíblia não acaba no Gênesis nem nos quatro evangelhos. O Apocalipse parece o livro dos finais, mas na verdade é o livro dos recomeços. Nesse livro, aprendi que a existência de um Deus criador também faz sentido na recriação de tudo. E essa será a terceira criação de Deus.


John Baldwin escreveu melhor no artigo "Deus, o pardal e a jiboia esmeraldina" 

17 outubro, 2012

melancolia e depressão na música pop

A música popular de hoje está depressiva? As melodias têm maior inclinação melancólica do que antes? 

A música triste e melancólica não é uma atribuição do pop contemporâneo. No século XIX, Chopin compôs peças de caráter nostálgico e melancólico, o que seria um reflexo de sua própria personalidade. Isso nos leva à pergunta: a música reflete o estado da alma de seu compositor?

O ato de composição é complexo. Por isso, o que vou dizer a seguir é algo bem simplificado. Uma música pode expressar uma experiência dolorosa que um músico pode estar vivenciando; o compositor procurou somente representar musicalmente uma emoção ou sentimento. Ou ainda, não é o compositor que está buscando representar uma determinada emoção em forma musical, mas o ouvinte é que tenta encontrar na melodia um significado emocional.

Ouça o movimento poco alegretto da 3ª Sinfonia de Brahms [ouça o 1º minuto]:


Essa música é melancólica? Depressiva? Ou é o ouvinte que associa certas sonoridades a certas emoções? Essa peça pode ter um caráter associado à melancolia, porém, penso que ela está mais bem associada ao sublime. Ela convida à contemplação da beleza plácida e contrita. 

A melancolia pode ter um tom de saudade, uma sombra de tristeza ou de sentimento elevado. Kant aponta como as coisas sublimes convidam à melancolia. "É uma emoção complexa com aspectos de dor e prazer que se baseia em uma série de emoções, tristeza, amor e desejo – todos vinculados a um estado de espírito reflexivo e solitário" [ver o estudo de Emily Brady e Arto Happala, "Melancholy as an Aesthetic Emotion"].

Essa natureza sublime também está no Op. 67 nº 4, de Chopin, no Adaggieto da 5ª Sinfonia, de Mahler, no Estudo em Dó Sustenido menor, de Scriabin.

A música para cinema opera, quase sempre, no reforço expressivo de uma cena ou de uma ideia. O futuro sorumbático da ficção científica Blade Runner ganha tons melancólicos na trilha sonora feita por Vangelis. Mesmo John Williams, um compositor que opera na linha da música épica e triunfante (Star Wars, Indiana Jones, Superman), escreveu um tema musical que reflete a melancolia trágica de um povo no filme A Lista de Schindler. [ouça apenas o começo]



A música popular brasileira é vista como alegre e festiva. Mas há um lado nem sempre lembrado da canção popular: sua tristeza e melancolia. Desde as modinhas dos séculos 18 e 19, passando pelo samba-canção de “dor-de-cotovelo” dos anos 1940-1950 e chegando à bossa nova, os compositores expressaram a ausência, a solidão e a saudade.

Vejamos, por exemplo, o tema da felicidade. Como é mais fácil estar alegre do que ser plenamente feliz, a felicidade, na música popular, é retratada como algo fugidio, passageiro. Por isso, as canções que falam de “Felicidade” têm uma melodia que, assim como a letra, tende à melancolia. “Felicidade foi-se embora e a saudade no meu peito” e assim a música continua com a melodia sempre descendo as notas da escala. “Tristeza não tem fim, felicidade, sim / A felicidade é como a gota de orvalho numa pétala de flor / Brilha tranquila, depois, de leve, oscila / E cai como uma lágrima de amor”, nos versos de Vinícius de Moraes.

No entanto, não são músicas com teor depressivo, mas canções cujo modo lento e contemplativo convida à reflexão sobre o caráter efêmero da felicidade humana.

Depressão não é o mesmo que melancolia. A depressão deixa a pessoa desmotivada, incapaz de completar as tarefas mais simples e sem interesse ou força para sair desse estado emocional. É um estado de doloroso pessimismo. Por outro lado, a melancolia não envolve um dor tão debilitante. Ela está ligada ao prazer obtido na reflexão e na contemplação. Esse aspecto reflexivo ou pensativo se traduz em um fazer produtivo.

Se os músicos estiverem passando por depressão, eles dificilmente serão capazes de ir ao estúdio encarar um longo processo de gravação ou de sair em turnê. Ou nem mesmo conseguem completar a composição de uma música. Assim, enquanto a depressão emperra a força produtiva, a melancolia poderá se traduzir num fazer criativo.

E o pop contemporâneo, então, está mais triste, depressivo?

A partir dos anos 1980, nota-se um desencanto individual e coletivo que resultou num pop melancólico, com tendências depressivas (Joy Division, The Cure, The Smiths, entre outras bandas). Os fãs do rock dos anos 70, por exemplo, costumam dizer que a banda Nirvana trouxe a depressão para o rock. O rock, que antes era considerado caso de polícia, agora seria um caso para psiquiatras? Hits entusiásticos, como “Jump” ou “Final Countdown”, foram sendo substituídos por um rock macambúzio, tristonho, um rock jururu.

O número de bandas que fizeram sucesso com canções soturnas, cabisbaixas, melancólicas e depressivas aumentou consideravelmente: Evanescence, Linkin Park, Sonic Youth, Arcade Fire, My Bloody Valentine, Coldplay, Green Day, Radiohead.

Como essa melancolia se expressa na música? Por meio da estrutura musical e do padrão de performance.

A estrutura rítmica é mais lenta, a estrofe tem uma linha melódica sem grandes saltos e é cantada na região médio-grave da voz. Há bastante espaço vazio entre os versos, o que cria uma sensação de longa espera pelo próximo verso e aumenta a sensação de incompletude. A guitarra não faz solos virtuosos, contentando-se com notas esparsas e arpejos lentos. No refrão, os instrumentos entram com mais peso e a voz fica mais aguda e forte. Ao final do refrão, volta-se ao clima soturno e reflexivo de antes, como se o refrão fosse uma tentativa de superação e o retorno à estrofe fosse uma forma de resignação ou, então, de pessimismo.

As letras falam de sentir-se estranho, esquisito ou deslocado no mundo, falam de solidão, de desilusão com a sociedade. Na comparação das músicas da banda Radiohead com as canções mais antigas do pop/rock, não é difícil perceber o aumento da tendência melancólica ou depressiva na música popular. 

Numa lista de canções mais melancólicas do pop, a maioria tinha sido composta nos últimos 30 anos: "Love will tear us apart", Joy Division; "Creep" e "No Surprises", Radiohead; "How soon is now", Cure; "Over", Portishead. Do lado oposto, uma canção dos Beatles, "Because", é de caráter musical melancólico, mas sua letra, não. Ou seja, é reflexiva, mas não deprimida. [ouça apenas o 1º minuto]




Nos anos 80, entre as bandas brasileiras que seguiram a rota melancólica figura a Legião Urbana. Vento no Litoral, Será?, Há Tempos, Pais e Filhos, e outras canções em que Renato Russo expressava as dores e anseios de sua geração. 

Ainda assim, canções como Pais e Filhos, descrevem os conflitos e infortúnios familiares, mas traziam uma mensagem de mútuo entendimento [você diz que seus pais não lhe entendem, mas você não entende seus pais] e o amor como solução para os conflitos afetivos [é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã].

Como se vê, alguns do hits melancólicos dos anos 80 e 90 podem ter descrito a ansiedade e o desespero, mas costumavam oferecer uma esperança de conforto, uma luz no túnel, como "Everybody hurts" (R.E.M.). Outras, afundavam no próprio desânimo. 

Diante do acúmulo de sucessos pop de teor depressivo, fica a pergunta: a escuta contínua de canções melancólicas e reflexivas pode aumentar a mágoa, a culpa,  a sensação de vazio? É claro que a simples audição de músicas mais alegres não é uma saída, já que o problema é de ordem psicológica e não musical. Mas a quantidade de canções de teor melancólico ou depressivo diz muito sobre uma geração autocomplacente e ansiosa. E muitas canções mais recentes não estão dispostas a oferecer conforto. 


*****
E na música cristã contemporânea, há músicas melancólicas? A melancolia é um estado de espírito adequado para transmitir as mensagens de esperança e salvação proclamadas pelo cristianismo? Isso fica para a próxima postagem.

15 outubro, 2012

aos mestres

O que fazemos bem hoje, devemos a um bom professor. Afinal, quem quer aprender sozinho sempre aprende com alguém bem ignorante.




12 outubro, 2012

a palavra da fé e a fé na Palavra


A Bíblia é uma perfeita literatura artística e espiritual. Ao estudarmos a Bíblia sem preconceitos e mente aberta, colocamos em xeque nosso modo de viver, passamos a duvidar de que temos a resposta humana para tudo e começamos a compreender o significado da vida.

Então, tudo está explicado? Não. Muitas vezes, gostaríamos que certos pontos da Bíblia fossem mais claros e diretos, gostaríamos de ver um “x” marcando a alternativa correta para que ninguém interpretasse diferente.

Não é assim tão fácil. Aliás, não é difícil enxergar a Bíblia como a palavra da fé. Mas o que precisamos mesmo é ter fé na Palavra.

Em João 5:39, vemos Jesus dizendo: “Examinais as Escrituras porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas que testificam de Mim”. Muitos de nós examinamos, pesquisamos e estudamos a Bíblia buscando achar um erro histórico, uma incoerência textual. E é possível encontrar o que se quer: a falha gramatical, a dúvida factual, a vida eterna.

No verso 40, Jesus adverte: “Mas não quereis vir a Mim para terdes vida”. Sem desprezar as perguntas, as dúvidas e o espírito científico, afinal, os pioneiros da igreja inquiriam e estudavam arduamente a Bíblia a fim de encontrar respostas, nós também não podemos baixar os olhos para examinar a Palavra e deixar de encontrar o Cristo que ela apresenta.

Para muitos, a Bíblia é letra morta. Mas para os que creem, ela contém o Cristo vivo.

10 outubro, 2012

o ano em que não fomos mais os mesmos

Música, tecnologia, guerra, direitos civis, religião: de tempos em tempos, o modo de pensar e agir sobre isso tudo muda. Se alguém quiser saber quando foi que nossa sociedade começou a ser do jeito que é hoje, é preciso recuar até 1962. Há 50 anos, deixamos de ser os mesmos.

Em fevereiro de 1962, John Glenn tornava-se o primeiro astronauta americano cruzando a órbita da Terra. O próximo passo seria a chegada à Lua e o resto é história (ou uma tremenda "estória").

A corrida espacial disputada por americanos e soviéticos era acalorada. Enquanto a isso, a Guerra Fria também esquentava naquele ano. Em 14 de outubro, um avião espião dos Estados Unidos fotografou quatro lançadores de mísseis em Cuba, desde a época, uma ilha comunista rodeada de capitalismo por todos os lados. O mundo prendeu o fôlego por 13 dias esperando o Armagedom atômico.  Só no dia 28, o premiê soviético Nikita Kruschev declarou que as armas seriam desmontadas, encaixotadas e enviadas de volta à União Soviética.

Enquanto o mundo respirava aliviado, a construção do Muro de Berlim, iniciada em junho, seguia firme. O muro era o lado concreto da divisão da Europa em dois blocos antagônicos.

O mundo do cinema não deixou passar esse tema em brancas bilheterias. Em 1962, era lançado o primeiro filme da série 007. Em agosto, Marilyn Monroe tinha sido encontrada morta vítima de uma superdose de Nembutal. O cinema perdia uma estrela e lançava um astro:  o espião 007. Mesmo que você não tenha assistido a nenhum filme da série, você conhece a música-tema.

Falando em música, 1962 foi um divisor de águas. Em abril, Bob Dylan apresentava sua música folk politizada e poética em Nova York. Novos ventos sopravam. As mentes mais aguçadas entendiam o recado de Dylan.

Em 5 de outubro, quem entendia o recado eram os corações e pés dos mais jovens. A canção Love me Do, dos Beatles, estreava nas rádios e seu sucesso criava um novo código de comportamento. Uma introdução de gaita de bolso, um refrão simples e pegajoso, uma letra exaltando o amor e a música pop seria a tônica dominante da mídia.

Nem só de entretenimento e Guerra Fria vivia 1962. A luta dos negros pelos direitos civis não arrefecia, mesmo que, no dia 6 de agosto, Nelson Mandela estivesse sendo preso pelo regime do apartheid na África do Sul. Nos Estados Unidos, não sem ferrenha oposição racista, em 1º de outubro, o jovem James Meredith tornava-se o primeiro estudante negro a matricular-se na Universidade do Mississipi.


Para garantir que ele caminhasse com segurança até a universidade, foi preciso escolta policial federal e oficial de justiça (foto). Durante todo o trajeto, Meredith foi insultado por brancos que repeliam sua presença ali. 

A busca por maior liberdade de comportamento e o ativismo social estiveram presentes nas reuniões do Segundo Concílio do Vaticano. Convocado pelo para João XXIII, o concílio era um processo de atualização (aggiornamento) da Igreja. Houve orientações quanto a mudanças na liturgia e no compromisso social da igreja. Embora o futuro papa João Paulo II tenha recuado em algumas das propostas, a modernização da Igreja Católica teria impacto em várias esferas políticas, sociais e religiosas.

Por último, ao terminar de ler este texto na web, você pode ter certeza de que faz parte de uma revolução na mentalidade ocidental que teve impulso naquele ano. Até porque, foi em 3 de novembro de 1962 que o jornal New York Times estampou a notícia sobre um tal de “computador pessoal”.

05 outubro, 2012

qual é a política do cristão?


O cristão não é um ser apolítico. Primeiro, ninguém é apolítico. Todo posicionamento a favor, contra ou muito pelo contrário é um posicionamento político. Segundo, o cristão que verdadeiramente ama a Deus também ama seu semelhante. Isso implica reconhecer sua responsabilidade social.

O pastor Bert Beach escreveu que o “cristianismo é uma religião de comunidade. Os dons e as virtudes cristãs têm implicações sociais. Devoção a Cristo significa devoção a todos os filhos de Deus, o que gera responsabilidade pelo bem-estar dos outros”.

Isso não quer dizer que todo cristão tem que se filiar a um partido político. Além de denunciar estruturas socioeconômicas opressoras, o cristão deve trabalhar para mudar pessoas. O cristão também é um revolucionário. Mas do tipo que apresenta a paz e a vida em Cristo. Ele tem como objetivo mudar o homem. O homem transformado mudará as estruturas sociais de exploração e opressão.

O cristão espera novo céu e nova terra. Enquanto isso, ele trabalha para minorar o sofrimento, a injustiça e a pobreza mesmo tendo consciência de que as dores do mundo não serão curadas definitivamente pelo próprio homem.

Não quero dizer que o cristão não deve entrar oficialmente para a política. O cristão que almeja ou ocupa um cargo público costuma usar o argumento de que até personagens bíblicos atuaram na esfera política, como José, Ester e Daniel. É verdade. Mas eles pagaram o preço por não se corromperem. Quer se candidatar? Então, mais do que ser um cristão político você deve atuar como um político cristão.

Um candidato cristão não deve usar os cultos de sua igreja para a autopromoção. Púlpito não é palanque. O púlpito não merece ser ocupado com outro assunto que não seja a mensagem da salvação em Jesus.

Os candidatos políticos têm suas diferenças ideológicas, e nós costumamos defender nossas preferências políticas. Por isso, gastamos nossa lábia tentando provar que nosso voto é melhor que o dos outros. Alguns irmãos se unem pela fé e se separam pela ideologia. Vão à igreja pela doutrina e deixam até de se cumprimentar por causa de partidarismo. Por isso, esse é um bom conselho: “Mantende secreto o vosso voto. Não acheis ser vosso dever insistir com todo o mundo para fazer como fazeis”(EGW, Carta 4, 1898).

O evangelho é a prioridade das instituições cristãs. Uma coisa é manter um relacionamento respeitoso com as instâncias governamentais. Outra bem diferente é buscar proximidade a fim de obter favorecimento. Tanto a oposição aberta como o apoio oficial à situação acabam atrelando a imagem da igreja a contendas políticas e não à divulgação do evangelho.

O discipulado cristão tem uma dupla missão: anunciar o evangelho puro e simples de Cristo e ajudar a diminuir as necessidades sociais. A igreja desempenha um papel na comunidade, mas não é um comitê de campanha. A igreja busca servir os desfavorecidos, mas não é uma ONG. A igreja pode ter relevância social, mas não pode omitir sua missão na restauração espiritual.


03 outubro, 2012

o curioso caso do delegado mãos-de-tesoura


O delegado Protógenes foi ao cinema ver um filme sobre um ursinho de pelúcia. E levou seu filho de 11 anos. Como acontece com 90% dos espectadores, ele não se informou sobre a história do filme e só lá dentro foi descobrir que o ursinho não tinha nada de pelúcia. Era, na verdade, um ursinho de malícia. O ursinho fuma, bebe, fala palavrões, cai na gandaia. Ou seja, não deve morar com os Ursinhos Carinhosos.

Tem crítico de jornal vendo o filme como uma fábula sobre a adolescência sem fim dos adultos de hoje, que casam com a irresponsabilidade e o hedonismo até que a maturidade os separe. Não sei se o filme é bom ou ruim, mas acho que não vale a pena descobrir. O que todos sabem é que o delegado Protógenes levou seu filho de 11 anos para ver um filme qualificado como não recomendado para menores de 16 anos, e que saiu do cinema esbaforido pedindo pelo Twitter a censura do filme em todo o território nacional.

Essa é a história do Delegado Mãos-de-Tesoura. Parece uma fábula, mas o que se segue é inteiramente baseado em minhas especulações.

Ao chegar em casa, foi direto para o laptop. Para você ver que não importa a patente, todos são mordidos pela vontade de falar da vida pessoal aos 4 ventos e às 100 redes sociais. O delegado queria proibir o filme. Mais tarde, pensou melhor (leia-se: os internautas discordaram veementemente da vontade do delegado) e disse que iria sugerir aos órgãos competentes a mudança de faixa etária apropriada para o filme, de 16 para 18 anos.

O caso tomou proporções nacionais e o delegado se viu no papel de paladino da moral e dos bons costumes. Pelo jeito, ele crê que as diabruras de um ursinho de malícia que não trabalha, não estuda e se diverte é um mau exemplo para os espectadores em idade escolar. Disso, nenhum pai vai discordar. [Considerando que cada pai, por ter sido adolescente, lembra muito bem a distância entre o que o pai recomendava e o que o filho fazia].

É claro que o “Seu” delegado deve achar que a roubalheira da classe política, o sucateamento da escola pública e a glamourização dos astros da TV e do futebol não são bons estímulos para nossa linda juventude. Mas ele prefere não comentar.

É claro que o “Seu” delegado também prefere não comentar o que raios estava pensando quando entrou, junto com seu filho de 11 anos, num cinema que exibia um filme impróprio para menores de 16 anos.

É claro que o honorável delegado não imaginava que a repercussão desse caso iria aumentar o número de curiosos que foram ver o tal "filme que o delegado quer proibir". Nada como um escândalo para promover um filme. Melhor para os produtores do filme que não gastaram um dólar furado. Marketing involuntário e gratuito: só as autoridades indignadas são capazes de fazer.

Moral mínima: se for zelar pela moral e pelos bons costumes, tenha o cuidado de não servir de marketing.