31 agosto, 2012

três mitos sobre o gospel nacional


Quando o gospel começou a se firmar no Brasil na metade da década de 1980, logo boa parte do repertório evangélico tradicional foi esquecido. Não por acaso, muita gente que frequenta as igrejas cristãs há menos de quinze anos tem a impressão de que o gospel é o marco zero da música sacra. Não se conhece a história dos pioneiros que se empenhavam em pregar a Palavra, quanto mais o passado de músicos que ousavam inovar a Palavra cantada. É como se tudo tivesse começado com o movimento gospel. Vamos relembrar um pouco a história falando de três mitos disseminados pelo gospel nacional:

1) O gospel trouxe inovação musical para a igreja: à parte a história bem antiga da renovação musical que vem desde antes da Reforma Protestante no século 16, algumas inovações formais que são atribuídas ao gospel, como a introdução de música popular brasileira e instrumentos musicais como guitarra e bateria, já eram praticadas em gravações evangélicas desde a década de 1970. Bem antes dos CDs, o repertório ainda era gravado em LPs e se constituía primordialmente de hinos arranjados ao estilo da música clássica.

Mas alguns cantores, como Feliciano Amaral e Luiz de Carvalho, reproduziam também um estilo seresteiro. Além disso, gêneros musicais nacionais, como o sertanejo, recebiam letra religiosa em várias igrejas pentecostais desde os anos 1950. Aliás, Luiz de Carvalho, no LP Obra Santa, gravado em meados dos anos 60, inseriu valsa, bolero e o “maldito” violão. E nem todo mundo ouviu satisfeito!

Até os anos 1970, as produções musicais não contavam com bateria e guitarra. A preferência era para órgão, piano, harpa e até sanfona. A partir dessa época, começou-se a ouvir canções religiosas em ritmo de guarânia, bolero, rock, blues e baião. Cantores como Josué Barbosa Lira, Nicoletti, Jorge Araújo, e vários compositores e grupos alinhados com a Música Popular Brasileira Religiosa (MPBR), inseriram instrumentos e/ou arranjos mais próximos do caráter musical brasileiro ou da cultura pop internacional.

2) O gospel foi o primeiro movimento a atrair a juventude: o rock gospel foi um ponto de atração jovem na metade dos anos 1980. Mas as faixas etárias juvenis eram o alvo preferencial de grupos musicais e evangelísticos nos anos 1960 e 1970, seja por meio de corinhos importados com versão em português ou por meio da introdução de estilos da cena musical pop globalizada. Muito embora essa juventude tenha dado menor atenção à música cristã baseada em gêneros nacionais, talvez pela associação pouco litúrgica desses estilos, talvez pela predileção por celebridades do pop que cantassem em inglês, talvez pelo descaso em relação à cultura brasileira. De toda forma, o gospel não é o pioneiro em evangelismo musical jovem.

3) A partir do gospel, os cantores evangélicos foram contratados por gravadoras seculares: em abril de 1976, o cantor Francisco Rossi gravou com enorme sucesso a canção do famoso refrão “Segura na mão de Deus e vai”. O lançamento foi pela gravadora secular RCA Victor, atingindo a marca de 100 mil cópias (na época, essa quantidade valia o disco de ouro).

O cantor Álvaro Tito, que tocava percussão nos seus discos influenciados pela black music, lançou LPs pela PolyGram nos anos 80. Aristeu Pires Junior teve um LP produzido pela BMG Ariola. A banda Rebanhão lançou discos pela PolyGram e pela Continental. Em suma, bem antes da Sony e da Som Livre produzirem ou distribuírem CDs e DVDs de música gospel, outras grandes e pequenas gravadoras seculares estavam de olho nos cantores evangélicos.

É verdade que o movimento gospel costuma ser alvo de críticas negativas que precisam ser analisadas de forma mais imparcial. Em todo caso, alguns defensores mais entusiasmados esquecem do passado de inovações e tensões vividos pelos músicos e equivocadamente atribuem ao gospel o papel de autor do gênesis da música cristã.

21 agosto, 2012

André Rieu é o pior professor de música clássica


André Rieu não toca música clássica. O que ele faz é recortar o trecho mais conhecido de uma peça erudita e, junto com aquelas violinistas e cellistas com roupa de baile de aniversário de 15 anos, alardear que está revigorando a música clássica.

É como se fosse um show global de fim de ano em que Roberto Carlos cantasse somente o refrão dos maiores sucessos dos Beatles em ritmo de Emoções e pop-sertanejo.

Anunciado como o maior violinista do mundo (o que já é uma mentira), Mr. Rieu é o maestro de um grande circo. Aliás, um circo bem caro: os ingressos chegam a R$ 400. Quem paga um absurdo desses certamente já tem pão em casa. Só faltava o circo.

Cada um faz com a música clássica o que bem quiser. Pode mutilar essa música, pode picotá-la, pode por três tenores para vendê-la, pode por uma escola de samba junto com a orquestra, pode fazer acrobacias em cima do piano. Só não pode dizer que está revigorando a música clássica.

André Rieu é um empresário da indústria do entretenimento. E isso não é nenhum problema. A música clássica também é um grande entretenimento. Pelo menos, assim o era para os patrões de Haydn e Mozart, que queriam apenas convidar a nobreza para passar o tempo ouvindo música após a refeição. Ou simplesmente ter uma respeitável música de fundo para o seu jogo de cartas. 

Nos dias de hoje, muita gente que vai a um concerto também quer somente alguns bons momentos de alto entretenimento. Depois do espetáculo, eles não vão ficar falando do nível de interpretação da orquestra, da vida dos compositores ou dos projetos culturais para a música erudita na cidade. E nisso não há problema algum.

Mas é um equívoco dizer que André Rieu é uma porta de entrada para o ouvinte conhecer o vasto mundo da música clássica. Pode ser que aconteça de alguém passar a ler e conhecer melhor esse mundo. A consequência será sua percepção da falsificação promovida por André Rieu.

O crítico Leonardo Martinelli afirmou que que o espectador da música clássica fatiada por André Rieu não irá atrás das obras clássicas integrais. Para ele, um adulto que só lê Harry Potter dificilmente vai migrar para Shakespeare. Esse leitor continuará em busca de fantasia romântica e vai migrar para as histórias de Crepúsculo. Leitores de Paulo Coelho não passam a ler Vidas Secas, de Graciliano Ramos. Eles vão procurar outro drama espiritualista ou buscar consolo em Augusto Cury. E quem se proíbe de Paulo Coelho fica só no Augusto Cury.

Richard Clayderman e os pianos brancos, Ray Conniff e sua orquestra que fazia as músicas de todos os países no mesmo estilo big band, Andrea Boccelli e os cenários ultrabregas onde o colocam para cantar. Nenhum deles levou o público a um maior conhecimento da música clássica. Para isso, é preciso educação musical em casa ou na escola.

Não quero passar um atestado de superioridade ou elitismo intelectual. Eu mesmo já escrevi por aqui sobre meus desgostos em relação à chamada música erudita [eu odeio música clássica]. Mas entendo que é preciso saber diferenciar entre arte e entretenimento de massa. Elas podem ser combinadas, distanciadas ou influenciadas. Isso é intercruzamento cultural. Mas uma não pode ser vendida como se fosse a outra. Isso é desonestidade comercial.

André Rieu não é o professor da música clássica. Ao contrário, ele deseduca as pessoas ao falsificar a música erudita. No intuito de facilitar a audição de obras famosas do universo clássico, ele adultera essas peças colocando tudo no liquidificador do entretenimento pop. A música clássica não precisa ficar parecida com samba ou disco music para se popularizar. Descaracterizar a música não é nenhum favor a Beethoven ou Chopin.

Quem quiser comprar os DVDs de André Rieu com aqueles cenários de cruzeiro marítimo ou de réveillon europeu, fique à vontade. Eu não compro e nem vou a nenhum dos seus 18 shows agendados em São Paulo. Essa atitude não me torna superior ou inferior a meus semelhantes. Mas eu decididamente não tenho o mínimo interesse em comprar gato por lebre.

13 agosto, 2012

volta ao mundo olímpico em 7 notas


1 - Pela reação indiferente da torcida brasileira à derrota da seleção de futebol masculino, já dá pra dizer que somos o país do vôlei e do judô? [Eu nunca tinha vibrado tanto com uma vitória brasileira como naquele jogo épico das meninas do vôlei, Brasil 3 x 2 Rússia].

2 - O lutador de taekwondo Diogo Silva justificou sua derrota para Mohammad Bagheri dizendo que o adversário é o “Neymar do Irã” na sua categoria. Fica difícil vencer quando não se consegue nem mesmo derrubar o Neymar.

3 - A música mais ouvida nos Jogos foi o tema de Carruagens de Fogo. Mas o filme mais visto foi “Jamaica Abaixo de 10 segundos”.

4 - Momento #vaicuríntia: segundo anedota que correu as redes sociais, “se o Brasil tivesse levado seis corintianos na delegação, nós teríamos trazido 12 medalhas de ouro, 22 de prata, 33 de bronze, 76 relógios, 40 km de fio de cobre e até a coroa da rainha”. 

5 - Por que o brasileiro sentado preguiçosamente diante da TV exige medalha de ouro dos seus atletas? A única medalha de ouro que deveria cobrar era a do futebol masculino, esporte em que os atletas nadam em dinheiro, correm atrás da fama e saltam o limite do bom gosto.

6 - As músicas britânicas tocadas na festa de encerramento dos Jogos deixaram bem claro o significado de “decadência”. Ninguém precisa gostar de música pop para saber que essa palavra define a linha musical que começa com os Beatles mas termina em Spice Girls.

7 - O Brasil conquistou 17 medalhas olímpicas, sendo 9 delas orgulhosamente de bronze. Como diz a canção, “chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor”.


Parabéns a todos os medalhistas olímpicos brasileiros. 

08 agosto, 2012

tempos modernos e perdidos



Se tanta invenção é feita para ganharmos tempo, por que estamos sempre dizendo que nunca temos tempo?


03 agosto, 2012

o ateu, o crente e o bicho-papão

Texto de Ed Renê Kivitz.

Outro dia alguém me enviou pelo twitter a seguinte pergunta: “quando vc era criança também acreditava em bicho-papão, porque deixou de acreditar?”

Minha primeira reação foi ignorar a pergunta, formulada em tom de crítica a um tweet que postei testemunhando minha fé em Deus. Imaginei que o autor da pergunta não esperava resposta, apenas pretendia sugerir a estupidez da minha fé. Tive a mesma sensação que experimentei quando comecei a ler um texto sobre “razões porque deixei de ser crente” e o autor logo na primeira página comparou a crença em Deus à crença no Saci-Pererê. Mas, passado o ímpeto de deixar pra lá, resolvi responder, pelo menos para mim mesmo.

Minha resposta começaria afirmando que jamais acreditei em bicho-papão. O que me aterrorizava na infância eram os ciganos e o “velho do saco”. Devo isso às minhas avós, que diziam que esses homens malvados gostavam de raptar meninos desobedientes. Registro que acredito em ciganos e velhos do saco, não necessariamente como raptores de crianças, embora seja em parte verdadeiro. Mas resolvi responder como se meu imaginário infantil tivesse sido ocupado por esse tal de bicho-papão.

Eis, portanto, algumas razões porque, embora continue acreditando em Deus, deixei de acreditar em bicho-papão.
  
.    Não conheço nenhum adulto que acredita em bicho-papão
 .    Não conheço nenhuma civilização baseada em bicho-papão
 .    Não conheço nenhuma religião que considere o bicho-papão um ser divino
 .    Nunca ouvi uma pessoa dizer que foi transformada pelo bicho-papão
 .    O bicho-papão não constitui o dilema existencial humano desde sempre
 .    Nenhuma tradição de pensamento humano se ocupa com o bicho-papão
 .    Nenhum gênio da humanidade viveu atormentado por causa do bicho-papão
 .    O bicho-papão não se sustenta num texto considerado sagrado por mais da metade da população mundial, escrito ao longo de 2 mil anos, por 40 autores diferentes
 .    Não existe quem atribua a existência do universo ao bicho-papão
 .    Jamais alguém defendeu sua fé no bicho-papão com a própria vida
 .    Nenhuma das virtudes humanas é associada ao bicho-papão
 .    O bicho-papão não é uma crença universal e atemporal
 .    O bicho-papão não ajuda a explicar o mundo em que vivo
 .    O bicho-papão não ajuda a explicar a complexidade da raça humana
 .    O bicho-papão não ajuda a explicar o homem que sou.

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Nota na Pauta: nos comentários do texto no blog de Ed Kivitz, o leitor Mauricio acrescenta "que ninguém fica perdendo tempo tentando provar que o bicho-papão não existe".


Imagem acima:"Monsters under the bed", de Dean Bloomfield