28 janeiro, 2011

reavivamento e reforma: qual a trilha sonora?

Hoje, clama-se por reavivamento e reforma. A trilha sonora tem que ser a mesma de séculos passados? 

Os hinos compostos no século XIX eram um produto de seu tempo e falavam diretamente às pessoas daquele tempo. Alguns deles, por motivos variados, romperam a barreira do tempo e ainda hoje soam belos. Outros, porém, não envelheceram muito bem. Por isso, de vez em quando são substituídos por novos hinos.

Na época da Reforma, Lutero compôs hinos que falavam a nova língua doutrinária e para isso usou um novo idioma musical. No tempo do Grande Reavivamento dos séculos 18 e 19, outros compositores fizeram músicas que falavam a língua da renovação espiritual que florescia. E para isso, usaram um novo idioma musical, que já não era mais o de Lutero.

Isso não quer dizer que devamos ungir os hinos e mandá-los para o cemitério das línguas mortas. De modo algum. Muitos deles ainda têm muito a nos dizer. E penso que tenham mais a nos dizer do que boa parte dos louvores de DVDs gravados ao vivo e derramados de unção. 

O conteúdo de um hinário tradicional aborda uma grande variedade de temas, cobre séculos de linhagem poética e musical e confirma as doutrinas com adequado senso hermenêutico. Além disso, entre aqueles mais de 600 hinos, vários deles apresentam a linearidade histórica e teleológica do relato bíblico da criação, queda, sacrifício de Jesus, esperança de vida eterna e segunda vinda de Cristo em suas 3 ou 4 estrofes (ver Quão Grande és Tu, Porque Ele vive, Sou Feliz).

No passado, não foi a mudança de estilos musicais que fez a igreja cantar. Antes, foi a renovação espiritual que levou a igreja a cantar e produzir novos (e antigos) modelos de música.

A tarefa do compositor cristão não é fácil. Ele precisa encontrar a “linguagem musical” sem perder de vista sua identidade bíblica. Ele necessita conciliar a “velha e feliz história” com a inovação artística. Ele deve cuidar de modernizar a mensagem sem “mundanizar” a embalagem.

O músico cristão não deve desprezar o legado musical de sua igreja. Antes, a história dos grandes e pequenos evangelistas e compositores do passado deviam servir para inspirá-lo a grandes mudanças espirituais e suaves mudanças estilísticas.

Nas palavras do poeta T. S. Eliot: a tradição é inescapável e cabe ao poeta comentá-la para renová-la, jamais desprezar seu peso.

Embora eu esteja longe dos profetas maiores e tão perto dos compositores menores, uno-me a você, meu caro poeta e compositor. Vamos renovar a tradição musical sem jamais desprezar sua importância e significado ainda hoje. É verdade que nossa música nunca estará à altura da música do céu. Mas não tenhamos receio. A graça divina cobre até nossos farrapos musicais.

25 janeiro, 2011

o céu e a água

Passei a semana procurando a Deus nas letras de um livro, na melodia de uma canção. E eu O vi. Tanto quanto O vejo num almoço de família, quando parece que Ele está em pé, ao pé da escada, sorrindo com a nossa alegria fugaz.

Percebo que Ele também inventa de estar nos lugares mais inesperados e abrasadores: sarças, fornalhas, carruagens de fogo. Outro dia, eu O vi na água.

Aceitei o convite de tocar piano na igreja. Confesso que não é sempre que O vejo na igreja. Ele está lá, sim. Gosto de estar lá também. Mas nem sempre cuido de perceber que Ele veio.

No templo, três meninas e um homem alto entram na água. Vestem longas batas azuis. Elas moram em um lar especial, onde encontraram muitas irmãs e uma nova mãe. Ele vai falar da vida de uma daquelas adolescentes, mas a voz falha. Ele tenta segurar o choro e fala para a menina que não tinha família que nós também somos os seus numerosos pais e irmãos. Ela chora e ele ora em nome do único e afetuoso Pai. Não sei se foi por causa dos meus olhos marejados, mas naquele preciso instante eu vi o céu dentro da água. 

21 janeiro, 2011

Cristo: o Senhor e Salvador do artista

Costumamos falar, pregar e cantar insistentemente sobre a redenção da cruz e a submissão da nossa vida a Cristo. Mas o fato é que, durante a semana, acabamos erguendo um muro que tenta limitar a atuação do “Senhor de nossas vidas”.

Cristo não é o Senhor apenas de nossa prática científica, de nossa obra médica ou de nosso modelo educacional. Ele também é o Senhor de nossa criatividade, de nossas habilidades e competências para a arte.

Se os cristãos costumam submeter as teorias científicas às evidências arqueológicas e também à Bíblia, por que eles não deveriam também moldar sua arte segundo a cosmovisão bíblica, e não como alguém guiado exclusivamente pela coleira das tendências artísticas da moda?

Não quero dizer que haja cristãos fazendo arte sem nenhuma perspectiva bíblica, pois isso é impossível. Todos os artistas cristãos criam a partir de uma cosmovisão com base em uma interpretação bíblica. E essa é a questão: a multiplicidade de interpretações bíblicas gera uma pluralidade de padrões de atuação artística. Cada um crê piamente que está “ministrando” a Palavra de Deus através da sua arte e todos dirão que sua arte é um fim para levar o evangelho aos confins.

Mas os artistas cristãos precisam deixar de agir segundo sua interpretação pessoal da Bíblia e não mais sair por aí debitando polêmicas atuações na conta do “soprar do Espírito” e da "unção extravagante", que os levariam para lá e para cá, sem saber para onde vão. O artista cristão não pode depender de jargão evangeliquês para justificar seu repertório e sua performance.  


Se o artista cristão cria a partir de uma cosmovisão, o que ele precisa fazer é alinhar essa visão de acordo com uma interpretação teológica sólida. E um dos conceitos mais sólidos no cristianismo é a interpretação de que Cristo é, além de Salvador, o Senhor.

O direito da salvação em Cristo nos leva à obediência ao senhorio de Cristo. Ainda que os seres humanos sejam falhos em manter essa obediência, devemos olhar para Cristo como o Autor da nossa fé e da nossa criatividade. Se, pela fé, vemos a história da redenção com olhos renovados, nossa criatividade também é renovada quando permitimos que Cristo seja o Senhor da nossa arte.

19 janeiro, 2011

todos os filmes do presidente

O filme “Lula, o filho do Brasil” não conseguiu vaga entre os nove filmes pré-selecionados ao Oscar 2011 de melhor filme em língua não-inglesa. Melhor assim. Imagine o protagonista sabendo que o filme ganhou o troféu: “Nunca antes na história do país...”

O júri brasileiro que enviou o filme do Lula para a pré-disputa deve ter escolhido esse filme com base numa equação com o seguinte resultado: a soma da competência cinematográfica do filme é inversamente proporcional à personalidade presidencial elevada ao cubo. Ou seja: o filme é uma droga, mas o personagem é genial.

O júri selecionou o filme sobre o Lula com um olho no carisma do presidente no exterior e outro no prêmio inédito. Mas nos últimos anos o Oscar preferiu eleger filmes com temáticas bem diversas daquelas xaroposas pero edificantes histórias. Exemplos são o formidável A Vida dos Outros (2006) e o comovente A Partida (2008). Essa torcida toda por um filme nacional no Oscar parece a torcida por uma medalha olímpica no futebol: oh, o único troféu que nos falta. Como consolo, sugiro filmes de presidentes para todos os gostos e maus gostos.

Invictus 
Um filme sobre Nelson Mandela, com Morgan Freeman e dirigido por Clint Eastwood não podia mesmo dar errado. Escrevi sobre esse filmaço aqui.

Frost/Nixon 
Richard Nixon, já ex-presidente, concorda em ser entrevistado por um jornalista sequioso por arrancar-lhe novas informações sobre sua participação no escândalo Watergate. Parece um tema chato? Mas o filme não é nenhum um pouco aborrecido. Das grandes atuações ao roteiro, um primor.

13 Dias que Abalaram o Mundo
Em 1962, o planeta prendeu a respiração quando duas siglas superpotentes, EUA e URSS, quase saíram no tapa nuclear. O ator que faz John Kennedy é ótimo.

Como um país que já elegeu um ator pra presidente (Ronald Reagan), um pra governador (Arnold Scharzenegger) e outro pra prefeito (Clint Eastwood), os Estados Unidos cuida de filmar bastante seus amados e odiados presidentes. Richard Nixon, tão criticado quanto George W. Bush, não aparece em Todos os homens do presidente (1976), mas sua sombra está lá. O diretor Oliver Stone conseguiu abrir os arquivos do FBI sobre o assassinato de Kennedy com o filme JFK (1991). Há filmes sobre Abraham Lincoln, Thomas Jefferson, Franklin Roosevelt, Woodrow Wilson, John Adams.

Se você prefere um presidente que faz justiça com as próprias mãos tem Independence Day (96) ou Força Aérea Um (98).

Mas você prefere uma comédia romântica nos corredores da Casa Branca?
Tem Dave – Presidente por um dia (E não é a biografia de Bill Clinton).

O filme do Lula não é assim ruim como gosta de dizer a revista Veja. O problema é o final do filme, quando a gente fica sabendo que ele vira presidente. Tem espectador que fica inconformado com esse final.

17 janeiro, 2011

bestsellers e religião

Olhando a lista dos livros mais vendidos a cada ano, nota-se o interesse do respeitável público leitor pelo tema da espiritualidade, seja em forma de ficção ou não, seja com conteúdos de magia ou de religião institucional.

O interesse mundial está registrado nessa lista dos livros mais vendidos nos últimos 60 anos (em milhões de cópias):

1 - A Bíblia                                              5.000 a 6.000
2 – Citações do presidente Mao Tsé-Tung (ou O pequeno livro vermelho) - 900  
3 – O Corão (ou Alcorão) -                                                      800
4 – Xinhua Zidian (“novo dicionário de caracteres da China”) - 400
5 – O Livro dos Mórmons, de Joseph Smith -                           120
6 – Harry Potter e a Pedra Filosofal, de J. K. Rowling -         107
7 – E Não Sobrou Nenhum, de Agatha Christie -                      100
8 – O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien -                           100
9 – Harry Potter e o Enigma do Príncipe -                               65
10 – O Código Da Vinci, de Dan Brown -                                  65
11 – Harry Potter e a Câmara Secreta -                                   60
12 – O Apanhador no Campo de Centeio, de J. D. Salinger -    60
13 – Harry Potter e o Cálice de Fogo -                                     55
14 – Harry Potter e a Ordem do Fênix -                                   55
15 – Harry Potter e o Prisioneiro de Askaban -                        55
16 – Ben-Hur, de Lew Wallace -                                                 50
17 – Heidi – Johanna Spyri -                                                       50
18 – O Alquimista, de Paulo Coelho -                                         50
19 – Meu Filho, Meu Tesouro, de Benjamin Spock -                  50                                            
20 – O Pequeno Príncipe, de Antoine Saint-Exupéry -                50

Essa lista apresenta três livros fundamentais de denominações religiosas (a Bíblia, o Corão e o Livro dos Mórmons), uma história com personagens cristãos (Ben-Hur), dois com subtexto e referências religiosas (O Código Da Vinci e O Senhor dos Anéis), 7 têm tramas que misturam magia e espiritualismo (O Alquimista e mais 6 livros da série Harry Potter). Alguns livros não são religiosos, embora seus leitores os tenham tratados como bíblias: O Apanhador no Campo de Centeio foi o guia espiritual da geração beatnik dos anos 50/60, e O Pequeno Livro Vermelho foi o livro reverenciado por comunistas do mundo inteiro.

Livros da lista sem conteúdos de espiritualidade ou religião: O pequeno príncipe (embora seja um livro de mensagens quase religiosas), Heidi e o livro de Agatha Christie (E não sobrou nenhum – publicado antes como O caso dos dez negrinhos).

Embora muitas vezes mal-interpretada e desobedecida exatamente pelos seus leitores, a Bíblia segue no topo da lista. Talvez seja o livro mais comprado e o menos lido regularmente. O mais divulgado e o menos explicado corretamente. O mais anunciado nas prédicas e o menos seguido nas práticas.

Mas porque o livro mais vendido dos últimos 60 anos não está nas colunas da crítica dos jornais e revistas? É a pergunta pertinente de Stephen Kanitz (leia aqui). Talvez porque a Bíblia venha sendo silenciada pela grande imprensa, como diz Kanitz. Eu acrescentaria que nossos contemporâneos humanistas fingem que ela não tenha mais nada a dizer de relevante.


Escritores e editores cristãos devem seguir atentos ao interesse das pessoas, que estão sedentas de orientações, guias, soluções e respostas aos seus dilemas espirituais, a suas necessidades mais profundas da alma. E que busquem sempre explicar corretamente e publicar diligentemente a sã doutrina do livro mais vendido de todos os tempos.


fonte da lista dos livros

14 janeiro, 2011

a voz na música sacra

O que a performance vocal secular tem a ver com a música cristã contemporânea?

Tudo. Os cantores evangélicos não inventaram nenhum modo de cantar. Mesmo ao escolher o padrão de voz ideal para cantar determinado estilo musical, suas interpretações também estão calcadas quase inevitavelmente nas performances dos cantores seculares.

Se a influência vocal é inevitável, por outro lado temos que reconhecer que o artista cristão entra com suas particularidades vocais e interpretativas, moldando sua própria maneira de cantar. Embora todo mundo conheça alguém que faça cover gospel.  

A cantora Elis Regina é considerada um paradigma vocal. Entretanto, apesar da alta qualidade de muitas de suas interpretações, Elis não raro enveredava pelo caminho do canto expansivo/excessivo, “colocando” a lágrima e o riso na voz, teatralizando a canção, pois tudo convinha ao seu modo interpretativo quase sempre transbordante. Seria o oposto da interpretação mais arejada de cantoras como Nara Leão e, atualmente, Roberta Sá (MPB) ou Diana Krall (jazz).

O estilo Elis Regina de interpretação com toda aquela entrega performática representa aqueles intérpretes que tendem a “cantar vivendo a letra da música”.

As igrejas cristãs brasileiras não abdicaram dessa maneira de cantar. Para citar exemplos: Aline Barros e Leonardo Gonçalves são cantores cujo repertório muitas vezes demanda uma forma expansiva de cantar. Outros intérpretes, como João Alexandre e Regina Mota, tem a voz mais contida, como aquelas da MPB.

Fique entendido também que os cantores que apresentam esse contraste vocal entre si não são superiores uns aos outros, embora cada um tenha sua preferência pessoal. A personalidade de cada cantor, a percepção das exigências de cada canção e gênero musical, os registros de extensão de cada voz (se soprano, mezzo ou contralto, se tenor ou barítono), tudo isso faz parte da diversidade natural dos grupos religiosos.

Por outro lado, é difícil negar que, na igreja, há momentos no culto que requerem uma forma mais contida de cantar. O canto excessivamente teatral sobrecarrega a canção, a qual, geralmente, já apresenta elementos dramáticos na letra e na melodia. A atenção da congregação acaba sendo dirigida ao gestual, às expressões faciais exageradas, ao maneirismo vocal. Alguns precisam desenvolver a percepção de que há momentos na adoração em que o menos vale mais.

Atualmente, uma referência de muitos admiradores da voz são as cantoras norte-americanas. Não as cantoras do jazz, mas as estrelas do pop. As musas do momento são Mariah Carey e seus hiperagudos, Celine Dion e seus gorjeios apaixonados, Beyoncé e seus melismas dramáticos. Essas três cantoras, donas de um talento vocal insuspeito, são os rouxinóis inspiradores da filosofia “grito, logo existo”. As divas do american brega inspiram boa parte dos concorrentes anônimos dos concursos televisivos de cantoria.

Por mais divertidos que possam ser tais programas, e até mesmo reveladores de talentos genuínos, a insistência na fórmula agudo-melismático-meloso gera clones que satisfazem a audiência, mas produzem o mal do novo século: o maneirismo melodramático.

Não é difícil identificar o que é maneirismo vocal quando se percebe a diferença entre cantar “eu sei que vou te amar” e esgoelar “and I-I-I-I-I-I-I-I-I-I-I will always love you-U-U-U-U-U-U-U-U-U”. As novas gerações de espectadores se acostumaram a tal ponto com esse segundo modo de cantar que chegam a renegar os cantores que apresentam uma forma contida de interpretar.

Repito, não quero dizer que só exista uma forma adequada de cantar. No entanto, quando os fãs de música gospel assoviam e entram em histeria coletiva na hora em que seus cantores prediletos dão seus gritinhos apaixonados-por-Jesus, penso que é tempo de avaliar o quanto a interpretação excessivamente teatralizada tem contribuído para estimular um comportamento gospel cada vez mais semelhante ao das plateias de espetáculos pop. Além disso, as jovens congregações não estão criando expectativas de performance sacra com base em sua escuta de ídolos da música pop?

11 janeiro, 2011

racismo para crianças

"Em nós, até a cor é um defeito. Um imperdoável mal de nascença, o estigma de um crime". Luiz Gama (1830-1882), advogado e jornalista.

Sabemos que a abolição da escravatura, em 1888, não aboliu o preconceito de cor nem promoveu a figura do negro tão violentamente atacada em sua dignidade humana. Os ex-escravos passaram a ser tratados como um empecilho ao progresso social e biológico.

Na Europa, o sociólogo e psicólogo francês Gustave Le Bon defendia "a superioridade racial e correlacionava as raças humanas com as espécies animais, baseando-se em critérios anatômicos como a cor da pele e o formato do crânio", segundo o livro Raça Pura - Uma história da eugenia no Brasil e no mundo, de Pietra Diwan (Editora Contexto).

Entre os figurões da sociedade brasileira que abraçaram o pensamento eugênico estava o escritor Monteiro Lobato, cujas cartas mostram admiração pelo médico Renato Kehl, principal divulgador das teorias de Le Bon no Brasil. Se racismo e “purificação” das raças era um pensamento típico do começo do século XX, então Monteiro Lobato empenhou-se bastante em propagar esse pensamento. 

Em 1926, quando escreveu o livro O Choque das raças ou o presidente negro, Lobato queria vê-lo publicado nos Estados Unidos, onde ocupava o cargo de adido cultural no consulado brasileiro de Nova York. Em carta ao amigo Godofredo Rangel, Lobato comenta: "Um romance americano, isto é, editável nos Estados Unidos (...). Meio à Wells, com visão do futuro. O clou será o choque da raça negra com a branca, quando a primeira, cujo índice de proliferação é maior, alcançar a raça branca e batê-la nas urnas, elegendo um presidente negro! Acontecem coisas tremendas, mas vence por fim a inteligência do branco. Consegue por meio de raios N. inventados pelo professor Brown, esterilizar os negros sem que estes se dêem pela coisa" [a “inteligência” do branco insere uma substância em produtos para alisamento de cabelos crespos].

Estou relembrando esse contexto para falar de Monteiro Lobato e dos livros infantis A caçada da onça, de 1924, e Caçadas de Pedrinho, de 1933. O MEC recomendou a contextualização e a orientação quanto a sua utilização em sala de aula, visto o forte teor racista contido nesses livros. Há quem veja na atitude do MEC uma censura à literatura, à livre interpretação, à livre expressão. Dizem que, agindo assim, logo estaremos podando trechos colonialistas, misóginos ou machistas de livros de Machado de Assis, José de Alencar ou Rudyard Kipling. Nem mesmo a Bíblia escaparia da sanha “politicamente correta” do Ministério de Educação e Cultura!

Quanto exagero! A liberdade de usar esse ou aquele livro não está sendo cerceada. O que está acontecendo é uma orientação à contextualização de obras quando estas são utilizadas com fins pedagógicos. No caso, os livros de Monteiro Lobato são lidos por e para crianças. Elas já estão preparadas para ler fortes termos racistas e proceder sozinhas a uma interpretação do contexto em que os livros foram escritos? Aliás, os livros de Monteiro Lobato podem mesmo ser utilizados como base para promover entre crianças a discussão do racismo?

Todo mundo conhece alguém racista. Mas ninguém diz que o Brasil é racista, né? Imagine que você é uma criança negra, uma das 4 ou 5 da sala numa multidão de brancos, e na hora da leitura em classe do livro de Lobato você ouve os trechos: “macaca de carvão”, “carne preta”, “urubu fedorento”. Se você acha que isso é normal e não é ofensivo, é porque não está conseguindo se colocar no lugar do outro. Imagine como era ser uma criança judia numa Alemanha antissemita. Imagine ser um índio e ser depreciado pela condição de índio.

Os contrários ao parecer técnico do MEC querem proibir uma possível nota acrescentada ao livro de Monteiro Lobato, como se isso fosse um desrespeito à obra do escritor. Curioso é que ninguém grita por causa de uma nota acrescentada sobre o respeito aos animais, no caso do livro de Lobato, a onça. Que mundo é esse em que as onças, que devem ser protegidas da extinção, merecem mais atenção e respeito do que as crianças?

Encerro com o depoimento de crianças de 6 anos no livro Do Silêncio do Lar ao Silêncio Escolar: racismo, discriminação e preconceito na educação infantil, de Eliane Cavalleiro (Editora Contexto):

“Só porque eu sou preta elas falam que não tomo banho. Ficam me xingando de preta cor de carvão. Ela me xingou de preta fedida. Eu contei à professora e ela não fez nada''

[Por que não querem brincar com ela]‘‘Porque sou preta. A gente estava brincando de mamãe. A Catarina branca falou: eu não vou ser tia dela (da própria criança que está narrando). A Camila, que é branca, não tem nojo de mim''. A pesquisadora pergunta: ‘‘E as outras crianças têm nojo de você?'' Responde a garota: "Têm".

Mais:
Não é sobre você que devemos falar, artigo da escritora Ana Maria Gonçalves (do qual extraí informações, citações e argumentos)

07 janeiro, 2011

o leão de Nárnia é cristão?

Em entrevista ao Hollywood Reporter, Mark Johnson, produtor do filme A Viagem do Peregrino da Alvorada, disse que não sabe “se esses livros [As Crônicas de Nárnia] são cristãos”. 

Mark Moring, no site Christianity Today, questiona esse desconhecimento. Leia a tradução da matéria de Moring a seguir: 

Provavelmente, em nome do politicamente correto - e tentando evitar que o filme seja rotulado como um "filme cristão" - um dos principais produtores diz que não sabe se As Crônicas de Nárnia, de C. S. Lewis, são livros cristãos. Isso é espantoso.

A frase completa de Johnson inclui uma referência à cena em que Aslan claramente morre e ressuscita como Cristo no primeiro livro e filme, O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa: “Ressurreição existe em tantas religiões diferentes, de uma forma ou outra, de modo é quase exclusivamente cristã. Não queremos favorecer um grupo em relação a outro ... se esses livros são cristãos, eu não sei”.

Ainda mais espantoso é que as palavras de Johnson vêm apenas alguns dias após Liam Neeson, o ator que dá voz a Aslan, negar que seu personagem, isoladamente, representa Cristo. Neeson disse que Aslan "para mim, também simboliza Maomé, Buda e todos os grandes líderes espirituais e profetas ao longo dos séculos".

Os fãs ao redor do mundo manifestaram sua consternação com o comentário desde então. Um deles perguntou: “Como é que as pessoas encarregadas de fazer um filme realmente não sabem sobre o que o filme é?”

Enquanto isso, o NarniaFaith.com tem divulgado o filme para igrejas e líderes cristãos, em um esforço conjunto entre a Fox, Walden Media e Grace Hill Media. Na seção sobre ilustrações de sermões, o evangelista Luis Palau disse que O Peregrino da Alvorada é "uma história poderosa" sobre "a descoberta de riscos, surpresas e revelações da vida com Jesus Cristo." Palau se referiu a Aslan como “a representação de Cristo por Lewis”.

Outro pastor, Ken Foreman, refere-se à história e ao filme como “uma analogia maravilhosa sobre o nosso crescimento espiritual como cristãos” e que o nome Aslan “em nosso mundo é Jesus”.

O próprio C.S. Lewis escreveu: “Toda a história de Nárnia é sobre Cristo”. Lewis retratou Jesus como um leão em parte porque ele é chamado de “O Leão de Judá” na Bíblia.

Assim, por um lado, aqueles por trás do filme não demonstraram embaraço em associar seu produto com Jesus e o cristianismo, como evidencia o site NarniaFaith. Por outro lado, os recentes comentários de Neeson e Johnson passam uma impressão bem diferente.

Eu não estou dizendo que Neeson e Johnson são obrigados a gritar de cima dos telhados que Nárnia é uma alegoria cristã. Contudo, dizer coisas que essencialmente negam esse fato parece ser uma estratégia tola, pois ofende os cristãos que amam esses livros há décadas e confunde todo mundo.

05 janeiro, 2011

disque Beethoven para sambar

No show da virada do ano em Copacabana, tocaram Beethoven misturado com samba. Cá pra mim, não há Engov no mundo capaz de aliviar uma mistura tão indigesta. Mas é melhor eu falar mal do Beethoven, já que, você já sabe, quem não gosta de samba, bom sujeito não é.

Ninguém precisa ler mais do que dois textos desse blog pra descobrir que o autor tenta passar ao menos por bom sujeito. Mesmo assim, há quem se dê o trabalho de ir até a caixa de comentários e diagnosticar que sou ruim da cabeça. E este é o menor dos imprompérios.

Beethoven com samba é uma mistura indigesta ou indigente? Não é porque eu não saiba dançar um mero dois-pra-lá-dois-pra-cá. Nem acho que Beethoven seja intocável e tenha que ficar num pedestal de pureza sem se misturar com seus primos musicais. Isso quem achava era Hitler (aliás, todos concordam que o nazista Adolf, esse sim, era ruim da cabeça).

Mas pelo andar da sinfonia, Beethoven só se dá a conhecer no país do samba quando toca no caminhão de entrega de gás ou no réveillon fazendo par com mil tambores. Sim, meu senhor, com mil tambores!

Nada contra o tambor, que ele serve até pra animar a alma da gente vez ou outra. Mas só tambor também não, né? Ninguém precisa de erudição pra gostar de samba ou de sonata ao luar. Porém, sem novos conhecimentos o povo fica a dançar sem escutar, a escutar sem apreciar, a apreciar sem saber.

A moral mínima desse país que é uma fábula é esta: em terra onde CPI acaba em pizza, Beethoven termina em samba

03 janeiro, 2011

como será o amanhã

Diz o Ramayana: “Os homens ficam felizes quando veem uma nova estação se aproximar, como se uma coisa nova estivesse para sobrevir”.

As pessoas têm a estranha tendência de achar que o ano novo é uma página em branco e o Réveillon é a lousa onde se escreve as decisões de fazer o que deixou de ser feito. Mas 31 de dezembro não é botão de reset, é no máximo uma tecla de reiniciar, e no dia 1º de janeiro você ainda será você com todos os seus defeitos inconfessáveis e suas virtudes autoproclamadas.

Como será o amanhã, pergunta a canção. Há uma grande probabilidade de o sol nascer e se pôr todos os dias. Mais que isso não sei dizer. Não sei se a Dilma fará um bom governo, mas acho que sim. Não sei se o Rio de Janeiro terá paz, mas desconfio que ainda não. Não sei se algum brasileiro ganhará o Nobel de Literatura, mas acho que não ganharemos nenhum Nobel de Medicina.

Já existiu algum ano pior do que outro na história? Se pensarmos de forma coletiva, tirando o dia em que o pecado entrou no mundo todos os séculos foram iguais em tragédias e desventuras e também em alegrias e conquistas. Mas é na vida pessoal que sabemos a diferença entre dias e dias. Provavelmente, hoje teríamos algumas atitudes diferentes em relação ao que fizemos ontem.

No entanto, é mais saudável pensar em como fazer que amanhã seja melhor que hoje. Mas tenha cuidado. Se o amanhã for melhor apenas para ti, muda de plano. Leva os outros no teu projeto de felicidade.


(Publiquei esse texto primeiro no blog Questão de Confiança no finalzinho do ano que passou)