23 dezembro, 2007

Djingo béus pra você também!

Entre as mais bizarras adoções culturais brasileiras certamente está o Natal com pinheirinhos, renas, trenó, meia na lareira, e claro, a esdrúxula e escalafobética figura de um velhinho obeso e rosado e risonho vestido de vermelho e branco e calçando botinha Carla Perez. Nessa altura, a criançada já não tem mais tanta empatia com o bom velhinho e sabe de sua origem pelas mãos lucro-criativas da Coca-Cola. O que, a bem da verdade, fez perder um bocado da graça que o Santa Claus tinha por essas bandas. Este mesmo escriba hyperlinkado que lhe atazana o fim-de-ano possui uma foto de infância com figurino e barba noelinas, sabe-se lá a peso de que chantagens...

Ex-habitante da Lapônia, eis que a indústria da publicidade natalina espalhou o rechonchudo presenteador por quase todos os rincões do planeta (se alguém souber de um Noel palestino, me avise), o que faz a gente pensar como será o Natal e o Papai Noel na Etiópia, no Pantanal, etc. Na Venezuela, o único adulto com gorro vermelho ainda deve ser o Chávez.

Se o seu Natal será à base daquele disco de harpa tocando canções natalinas, console-se sabendo que, dependendo da idade que você tem, a vida do homem possui 4 fases: na primeira, ele acredita em Papai Noel; na segunda, ele não acredita em Papai Noel; depois, ele é o Papai Noel; por último, ele se parece com o Papai Noel.

Fazendo arcaicos e sinceros votos de um feliz você nesse Natal, confira texto de Leonardo Martinelli sobre o estranho Natal musical nos Trópicos aqui.

20 dezembro, 2007

Troféu MAXIGOIABINHA de 2007

Do troféu MaxiGoiabinha: dá pra levar a sério uma companhia aérea que rende 1 bilhão de dólares a cada irmão Constantino e cujo cardápio dos passageiros é uma barra de MaxiGoiabinha? A TAM e a GOL poderiam fazer melhor, todos sabem. Mas ao distribuírem aquela rala barrinha de cereais, estavam sinalizando o tratamento que dariam aos passageiros durante o ano.

O MaxiGoiabinha também representa o ridículo da situação para uns (comer aquela barra grudenta sem Corega Taps é um risco) e o sinal dos novos tempos para outros (todos os passageiros podem exercer democraticamente sua cidadania e partilharem juntos da ceia aérea com resignado bom-humor).
Desde já, não ofenda quem lhe injuriou nesse ano, não lhe jogue uma torta no rosto. Só lhe dê gentilmente um MaxiGoiabinha. Veja algumas categorias do Troféu MaxiGoiabinha e depois participe da nossa enquete:

Música: quando o último disco lançado não vende mais como antes, é hora de usar a seguinte tática: a banda pode anunciar que já é tempo de separar os trapinhos e fazer como Sandy e Junior, que passaram o ano fazendo lucrativos shows de despedida; ou anunciar a volta dos que não foram, quer dizer, reunir os antigos companheiros sessentões, reforçar o plano geriátrico da banda e ver até onde vai a fidelidade dos fãs. Como Michael Jackson, cuja gravadora já dá como certa a volta do Jackson Five. Michael Jackson já até iniciou tratamento para voltar a ser negro.

Moda: a maior prova de que a seleção brasileira reencontrou seu melhor futebol é que ninguém mais presta atenção na roupa do Dunga à beira do campo. Nem quando ele vai ao gramado trajando o uniforme do Corpo de Bombeiros (à direita, em passo de ganso). Agora, a seleção pode ser vaiada, mas seu figurino passa ileso.

Lula também ganhou uma trégua das vaias populares. Seja ao receber a presidente da Argentina, Cristina Kirchner e seu figurino tragicômico (só faltou um poodle pra combinar com o sapato e a bolsa) ou ao desfilar na parada de 7 de setembro ao lado de Dona Marisa e seu vestido.
Pode acreditar: é impossível vaiar e ficar boquiaberto ao mesmo tempo.

Os últimos durões: a Europa não tem feito bem a Felipão. O Centro de Tradições Gaúchas identificou uma clara delicadeza de movimentos na tentativa do técnico de agredir aquele jogador sérvio.
A globalização não poupa nem mesmo o empoeirado terrorista. No último vídeo que enviou ao Ocidente, qualquer um pode notar que Bin Laden tingiu as madeixas com a loção Grecin 5. Isso é que é contra-propaganda!

Onde está a honestidade?: era o que perguntava a canção de Noel Rosa nos anos 30. Em 2007, a honestidade foi artigo raro na vida pública do país (não que a honestidade seja um bem particular de todo brasileiro) e a fraude esteve na ordem do dia. Farsa do leite longa vida, do anticoncepcional, do exame anti-doping, do gado milionário, do brinquedo da Mattel. O governo está cuidando para que a população não fique alarmada com uma possível epidemia de fraudes.

Eu vou tirar você desse lugar: como dizia o refrão de Odair José nos anos 70, as esposas e amantes (ambas oficiais) nunca se esforçaram tanto pra tirar os políticos de seus postos. Que o digam Don Renan e suas duas mulheres.
As ex-mulheres, no melhor estilo Nicéa Pitta, também não deixaram por menos. A última é Rosane Collor. Atenção, ex-maridões sovinas! Quando ex-mulher começa a dar entrevista é que a pensão tá pouca.

Você não tem esportiva: como Galvão Bueno anda sem motivação pra narrar a Fórmula 1 (pois quando o carro de Felipe Massa enguiça, francamente, não tem a mesma graça do Barrichello), o locutor se põe a melhorar os verbetes do Aurélio. “Queijo cremoso numa caixa de madeira: isso é o cérebro”, definiu o enciclopedista global.
Por sua vez, os chefões resolveram assumir a definição “o circo da Fórmula 1” e puniram levemente a MacLaren da farsa (mais uma) da espionagem industrial, mas absolveram os pilotos, como se pode ver na foto.

Mensagem de fim de ano: quando teu adversário levantar a voz contra ti, se te sentires ofendido em teus princípios por causa da voz de quem te calunia, não temas. Sê audaz e ergue tua voz, dizendo, então: “Por que no te callas?”

E você? Quem você acha que merece o Troféu MaxiGoiabinha do ano?

A ANAC e as companhias aéreas?
Marta Suplicy, porque só pensa naquilo?
Renan Calheiros, mesmo sem a loção contra calvície de Romário?
Mônica Veloso, porque é dos carecas que ela gosta mais?
Hugo Chávez e Evo Morales, dupla-sensação do mau-humor latino?
O Senado, pelo conjunto da obra?
O Corinthians, que jogava na 1ª divisão quando a TV era analógica?
Casal Hernández, protagonistas de Por um Punhado de Dólares?
Outro?

07 dezembro, 2007

American Brega


Apesar dos avisos da crítica, tive que assistir a Dreamgirls por uma razão acadêmica. Após o “the end” do filme, fiquei pensando porque raios me recomendaram vê-lo. Talvez eu tenha me confundido e quem me receitou esse filme era um sádico querendo que eu experimentasse uma sessão (da tarde) de tortura, ou um dos doutores da alegria tratando meus humores com essa comédia involuntária, ou era apenas uma prova de paciência que me ensinasse a suportar biblicamente a leva de canções ruins do filme.

Torturado pela chatice do enredo, rindo dos sérios intérpretes musicais e suportando a monotonia das canções. Explico.

Quando o filme começa, somos pegos pela fotografia de cores fortes e pelo enquadramento do show mostrado. Porém, a seguir, percebemos que quase todas as cenas cantadas têm a mesma obsessão por cores berrantes (principalmente com aquela luz azul sobre o intérprete). A história, bem, que história? Os eventos se sucedem com elipses mal-feitas que tentam explicar as decisões dos personagens, os quais têm a profundidade psicológica de um prato de restaurante self-service.

Mas o pior não é a história contada como um enredo de escola de samba. É certo que o filme parece um carro alegórico desajeitado num daqueles desfiles que só vejo nas reportagens pós-carnaval dos telejornais. Não é o samba do crioulo doido, na expressão politicamente incorreta de Stanislaw Ponte Preta. É a black music do crioulo doido. E aqui está a razão pela qual me recomendaram o filme e também a razão pela qual eu não posso recomendá-lo: as canções.

Em geral, o musical americano sempre foi uma adaptação cinematográfica dos musicais de sucesso da Broadway. Os compositores eram do quilate de Jerome Kern, Richard Rodgers, Cole Porter e até Leonard Berstein (Amor Sublime Amor – 1961). Muitas das melodias sabiam acompanhar as emoções do filme e, mesmo quando o personagem apaixonado de repente sapateava na chuva, ou uma governanta ensinava a escala musical aos sete filhos de um ricaço, percebia-se a exuberância melódica, a harmonização inteligente. As letras, que perdiam a qualidade nas legendas em português, eram criativas, com uso de aliterações, rimas surpreendentes e adequação à melodia. Loerenz Hart, Oscar Hammerstein II, Stephen Sondheim, eram alguns dos letristas geniais. Pode-se não gostar da ingenuidade de A Noviça Rebelde (1965), mas as músicas são inegavelmente belas (verifique a poesia da canção “Sound of Music” ou a delicadeza afetiva de “Something Good”).

O musical esteve adormecido durante os anos 80 e 90 para ressurgir no século XXI. Porém, Dreamgirls não tem nem as doloridas canções de Björk em Dançando no Escuro (2000) nem a inventividade de Moulin Rouge (2001). Também não possui a qualidade musical dos anos 50 (e olha que tem por base uma das mais fecundas criações musicais, o soul e o som da Motown) e as letras são de um primarismo constrangedor. Animações da Disney, como A Bela e a Fera e Aladdin, têm letras muito melhores.

As interpretações seguem o modelo filosófico American Idol: grito, logo existo. Isto é, quanto mais berros melismáticos, mais a audiência sobe. Jennifer Hudson, uma participante desse reality show que é uma encarniçada disputa pelo gogó de ouro, ganhou o Oscar de interpretação (?!), o que já nos revela o “nível” de seu trabalho. Assim, vence o padrão Beyoncé Knowles: aquele de muita potência vocal e nenhuma qualidade musical. Se bem que isso vem desde a escola Mariah Carey, aquela escola onde a miniatura artística é simetricamente proporcional ao tamanho das peças do vestuário.

Beyoncé, que, umpf, atua no filme, tem sua oportunidade de estar nesse veículo que também pode ser o eternizador do tosco que é o cinema e não desperdiçou a sua vez de entrar no hall do American Brega (voltarei ao tema noutro dia). Fazendo o papel da cantora de voz apagada que é elevada a condição de musa pop por causa do rostinho e do corpinho, a ironia é que esse é o papel que a própria Beyoncé desempenha na realidade como representante de uma música chata e pasteurizada, exclusiva para o estímulo de hormônios e não de neurônios.

São tantas as canções e poucas as emoções que não consigo me lembrar de uma sequer pra servir de exemplo didático. Só lembro que são uma tentativa de reviver a black music da Motown, aquela gravadora que ficou famosa nos anos 60 por revelar o talento de Diana Ross, Marvin Gaye, Stevie Wonder e os Jackson 5. Não posso dizer que a tentativa foi bem-sucedida. Os personagens, talvez por medo da indústria americana do processo judicial, foram elaborados, ops, rascunhados levemente nas figuras musicais reais da gravadora. Mas, assim como as canções, mal chegam a ser clones de uma época.

Dessa forma, pelo extremo mau gosto e por sua incapacidade de oferecer um mínimo de força visual ou narrativa, o filme perde a chance de retratar um período histórico e também de rememorar com qualidade artística o estilo de sucesso da Motown. Em suma, é um musical que perdeu a chance de ficar calado.

02 dezembro, 2007

Kaká e a religião do futebol


Se a guerra, segundo Clausewitz, é a continuação da política por outros meios, o futebol seria o prosseguimento da religião em nosso meio. Noves fora a politicagem contumaz que assola a organização desse esporte no Brasil, o futebol pode ser explicado como a religião com o maior número de fiéis no país.

Se o futebol é a religião, os times são as múltiplas denominações. Com a diferença de que o crente vai de uma denominação a outra, enquanto não se conhece quem troque de time com a mesma facilidade. Aliás, diz-se que o torcedor pode trocar de religião, de cônjuge e até de sexo, mas nunca trocará de time.

Assim como a maioria dos religiosos pouco se dá ao trabalho de conhecer a história de sua igreja ou estudar a fundo suas doutrinas, o torcedor (e boa parte dos jogadores também) mal conhece a história do esporte, suas regras ou seus direitos. No máximo, sabe de cor a escalação de um grande time do passado. Em geral, o torcedor fanático age como um fundamentalista religioso: ele logo esquece os erros do passado do seu time em prol das ações de sua equipe no presente, exibe sua paixão usando camisas, bonés e acessórios da equipe, seu time sempre está com a razão e, além de exigir vitórias o tempo todo, quer mais que o adversário se dê mal.

Esse último ponto é a marca do fiel torcedor (e secador): não basta ganhar do adversário. É preciso humilhá-lo, arrasá-lo, quase exterminá-lo. Digo quase, porque, no fundo, o torcedor de um time precisa do rival para que as partidas sejam épicas. É costume um time em baixa levantar-se justamente com uma vitória sobre o rival. Nesse caso, até o anoréxico 1 X 0 se torna um triunfo acachapante.

Se há religiosos que procuram acomodar equilibradamente sua cosmovisão religiosa, há aqueles que, em nome de não importa o deus ou deuses, subjugam violentamente qualquer um que não torça para a mesma fé, ou que não reze para o mesmo time. Esses costumam digladiar-se furiosamente na defesa de suas paixões clubísticas/doutrinárias, com saldo negativo para ambos os lados.

Mas será por causa dos fundamentalistas, dos criminosos eclesiásticos, dos pastores lobistas no Congresso, das ovelhas aliciadas pelo marketing religioso, por causa disso, a religião (ou o futebol) em si mesma é um erro, uma anomalia ultrapassada? Ora, não é esse um dos arrozoados de sempre do ateísmo e que hoje faz a fama de Richard Dawkins e Christopher Hitchens, apóstolos do proselitismo ateísta, o qual defendem, bem, religiosamente?

E o que Kaká tem a ver com tudo isso? É que o jovem craque eleito melhor jogador do ano é religioso e futebolista, e o é de uma forma pouco celebrada pela mídia. Kaká, no futebol, não é de cair na balada, não faz declarações de auto-promoção, não troca de namorada a cada estação, não teve uma infância pobre como a maioria, não é “maloqueiro”. Tem opiniões firmes sem ser agressivo. Em suma, mais parece um jogador europeu do que um típico boleiro brasileiro. Além disso, é boa-pinta – Maradona dizia de Beckham, “como alguém pode ser craque com essa carinha?” – e disciplinado.

Como religioso, Kaká é membro de uma denominação evangélica. Ou seja, num país de maioria católica, o craque veste a camisa de outra fé. E como a mídia põe num mesmo caldeirão toda igreja evangélica, em geral apresentada como um bando de fanáticos fundamentalistas em transe que grita nas ruas e nos templos-armazéns, Kaká também é visto com desconfiança.

Nesse aspecto, Kaká também parece diferente. Em certa entrevista, revelou sem grito que seu livro preferido é a Bíblia, lendo inclusive sua passagem preferida. Casou virgem, mas não fez disso um palanque promocional. Quer ser pastor quando encerrar a carreira de jogador, mas já adiantou que deve estudar teologia para conhecer os dogmas e doutrinas. Ele não se parece com aquele típico atleta de Cristo que se envolve em confusões dentro e fora do campo ou com aquele evangélico que só tem um assunto. Como já declarou, tem consciência do quanto é difícil ser fiel hoje em relação a princípios escritos há milênios.

Assim, como Kaká faz o estilo que os cínicos apelidam de “certinho”, o jogador não tem o perfil que as páginas sociais adoram e que muitos colunistas esportivos exaltam. Exemplos podem às vezes desapontar; talvez seja melhor seguir bons valores. Mas não seria ruim se o estilo Kaká fosse mais celebrado pela mídia.

23 novembro, 2007

da música, aos músicos


Para quem, esse ajuntado de palavras? Para quem, esses louvores terrenos?
A quem se destina a estrofe pequena? A quem, tal destempero de versos?

Às doze notas que mal aprendi
Às mil vozes que escutei
À canção que me balança a rede
À música que, mesmo quando o timbre é amargo,
Mesmo quando a paga não recompensa,
Me faz querer possuí-la na beira do ouvido,
Na ponta dos dedos, na margem da voz

Música não existe por si
Não é um ser não-gerado
Não é uma deusa incriada

A música precisa do músico para ser.

Mas ele não diz: Haja música.
Fica ali, na indecisão,
entre o som e o silêncio,
pois quer bem a ambos

Tudo o que ele toca vira música
Mesmo que chamem de barulho

Por isso:
Aos descobridores de melodias
Aos que com notas de afeto
desatam os nós escuros da alma alheia
e me fazem sorrir numa unhappy hour

Aos desafinados de bom coração
Aos desvalidos da canção reprimida
Aos festeiros da bossa triste
Aos amuados do acorde feliz

Aos que têm escala mas não têm escola
Aos que tangem uma viola
pra chamar a moça bonita
que ainda não sabe o que é mais belo:
Se o amor, se o sorriso, se a flor
Se luiz, se chico, se heitor

Aos endividados do ritmo
Aos dólarmente abençoados
Aos que fazem da costela do som
a música que nos beija a face

A eles, meus ouvidos reverentes.
E também a todo aquele que,
vivendo de uma sonata ao luar do sertão
ou de uma samba de um real só,
preferiu ser carpinteiro de ruídos

Joêzer Mendonça

19 novembro, 2007

Cap. Nascimento: nascido para matar?


Fascista, apólogo da tortura, defensor do estado policialesco. De todos esses nomes o Capitão Nascimento (em foto menos badalada ao lado), personagem do filme Tropa de Elite, já foi chamado. A crítica se dividiu. Uma parte enxergou o ditador Mussolini como diretor do filme, dada a sua suposta justificação da supressão de direitos pelo Estado. Outra parte concordava com a crítica do filme ao filósofo Michel Foucault e sua classificação do aparato ideológico do Estado. Que lado está certo? Há um lado certo, pelo menos?

Os que chamaram o filme de fascista demonstram desconhecer o que é arte fascista, segundo seus opositores. Qualquer arte subvencionada pelo totalitarismo, seja fascista, nazista, maoísta, revelaria um fascínio pelo exibicionismo físico, um apelo ao nacionalismo e um culto à personalidade. Porém, esses três fatores conjugados estão muito mais reforçados em filmes como Coração Valente, 300 ou qualquer patriotada protagonizada por Chuck Norris e Sylvester Stallone nos anos 80.

Em Coração Valente, Mel Gibson faz do herói escocês uma máquina mortífera que contribui para a mitificação (e culto) de William Wallace, um homem simples que apela aos instintos de nacionalismo de seus homens para defender sua terra. Mas é fascista? Em 300, a Batalha das Termópilas vira um desfile de escola de samba com suas deturpações históricas em favor do enredo e com sua folclorização dos persas de acordo com uma mentalidade anti-oriental ou anti-árabe. Isso está mais próximo de uma arte que se poderia chamar fascista, embora a insistência em enquadrar os peitorais malhados dos soldados esteja mais para homoerotismo que para fascismo.

Comparou-se o Cap. Nascimento e sua violência com o John Rambo de Stallone. Rambo se arma na selva para capturar e executar os opositores do regime norte-americano sejam eles capitalistas ou não (no terceiro filme da série, Rambo vai ao Afeganistão enfrentar os comunistas e não Bin Laden, já que este ainda era aluno na escolinha de Tio Reagan). Por sua vez, o Cap. Nascimento se arma na selva de pedra para capturar e executar os traficantes, estejam eles no morro ou nos apartamentos.

O que alguns críticos notaram é que em Tropa de Elite há manifestação da brutalidade policial, mas ela não viria acompanhada de exibicionismo ou gratuidade. As cenas, em geral, são noturnas e escuras e parecem assinalar as trevas morais que circundam as ações de traficantes e policiais. O tratamento brutal é dispensado tanto às gangues do morro quanto aos estudantes endinheirados que freqüentam as universidades particulares, e o que é pior, matriculados nos cursos de direito.

Também não há no filme um apelo ao nacionalismo. Aliás, a guerra é contra a corrupção policial e a devassidão ética. É aqui que o diretor José Padilha precisou tomar partido. Caracterizando a polícia civil como quase que exclusivamente corrupta, o filme distingue o Bope como um batalhão policial formado por homens de retidão moral. Porém, esses mesmos homens mostram-se divididos quanto à extensão da brutalidade que vai dominando cada vez mais as ações do Cap. Nascimento, chefe das operações anti-tráfico.

As provas para a seleção dos candidatos ao BOPE são cruéis e humilhantes e se assemelham aos testes brutais do filme de Stanley Kubrick, Nascido para matar. Nesse filme, os recrutas passam por privações e provas que supostamente os tornariam aptos a encarar o front de batalha, no caso, o Vietnã. O título do filme em português (que deixou de lado o original, Full metal jacket) viria melhor com um ponto de interrogação no final. Porque, na verdade, observa-se que, apesar do intenso preparo para a guerra, nunca se está realmente preparado para o enfrentamento e o filme parece perguntar: o homem está pronto para a adversidade na guerra? O homem nasceu para matar, para tirar a vida de seus semelhantes por causa da desavença de seus líderes?

A demonstração de que o Cap. Nascimento não nasceu para matar advém do recrudescimento de seu descontrole durante as ações, da gradual insatisfação familiar com sua profissão e seus métodos de ação e da intensificação da violência nos interrogatórios (qual o método sem contra-indicações para conseguir informações vitais em situações-limite? Quando se pode dizer que uma dada circunstância é uma situação-limite?)

Houve parte do público que aplaudiu as cenas de tortura e execução. Mas, alguns críticos perceberam que esse público não teve capacidade de compreender o filme um pouco além do thriller bem-feito que aparenta ser. Isto é, Tropa de Elite não é nenhum tratado de sociologia, mas ao revelar os paradoxos de uma classe média-alta que sustenta o tráfico (crise moral coletiva) e as contradições de um policial à beira de um ataque de nervos (crise moral individual), demonstra que as discussões sobre direitos humanos estão permeadas de sociologismo barato – na desclassificação do dever policial – e que a instituição de defesa do cidadão, a polícia, de tal forma brutaliza seus homens, que estes, que não podem reconhecer a si como seres humanos, nunca poderão reconhecer o outro como semelhante também.

15 novembro, 2007

A Finlândia não traz felicidade

Você acredita que alguém sairia correndo ao término da leitura de Os sofrimentos do jovem Werther, de Goethe, e se atiraria do Viaduto do Chá-SP? Já é difícil acreditar que haja alguém lendo Goethe hoje em dia, mas arrazoemos um tantinho.

Na época do lançamento do livro do grande autor alemão, houve leitores que se identificaram tanto com o jovem Werther que começaram a deixar cartas de despedidas e se lançaram para fora desse mundo de meu Deus. Uns preferiram lê-lo e depois guardá-lo na estante, mas aqueles outros, não. Tinham que conservar-se “incontaminados”, tinham que morrer belos e jovens. Isso seria um lema do romantismo mórbido: “morra jovem, viva para sempre”. James Dean, Marilyn e muito roqueiro levou a frase a sério, em vez de guardá-la na estante ou devolver o livro emprestado que a continha.

Sabe-se que os leitores de Paulo Coelho e Danielle Steel não chegariam a tanto por causa da barafunda de idéias que leram num livro. Eles terminam um capítulo, ou no máximo viram algumas páginas, daí ligam uns para os outros para discutir as últimas tendências da primavera-verão ou então vão ver alguma terceira seqüência de um filme qualquer. Menos mal que não resolvem dar trabalho de propósito para os outros com toda aquela parafernália de polícia, legista, compra de terninho preto, óculos escuros decentes,...

O número de suicídios no Brasil ainda é baixo em nível mundial (4,5 mortes por 100 mil habitantes; no Japão, a taxa é de 25 mortes), mas a pesquisa do Ministério da Saúde adverte que, em 2004, a taxa mais baixa de suicídio masculino era do Maranhão (2,3 mortes por 100 mil homens) e a mais alta era do Rio Grande do Sul (16,6 mortes, e sem piadinhas sexistas numa hora dessas). No geral, as taxas altas ficam na região Centro-Sul-Sudeste e as mais baixas na região Norte-Nordeste (o sertanejo de Euclides da Cunha é então um forte?). A pesquisa surpreende pelas altas taxas de suicídio entre os idosos, e idosos masculinos. Na maior parte por armas de fogo ou envenamento.

Mas estou falando do suicida exibido. Esse é sempre juvenil. Você já ouviu falar de um idoso ameaçando saltar de um parapeito ou indo até um centro da melhor idade e desferir tiros a esmo, matar uma velhinha de cabelo roxo e outra de calça de lycra – pode ser a mesma velhinha - e depois dar um tiro na cabeça branca?

Mas semana sim outra também há um jovem inconformado que quer ficar famoso sem ver a fama sangrenta que deixou. Outro dia, um finlandês desses que nascem e crescem abençoados pelo bem-estar social e educacional dos países nórdicos, quis transformar a humanidade exterminando-a. Pois aquele loiro vingador deixou um saldo fúnebre: matou colegas e também a si. Aí disseram que na Finlândia tem poucos dias de sol por ano e isso também causa depressão e... É porque não acredito em reencarnação, mas seria o caso desse depressivo vir na próxima como um sertanejo escravo dos coronéis do biodiesel pra ele ver o que é sol numa pele sem loção Johnson & Johnson. Um blog menos educado diria, “o raio ultra-violeta que o parta”.

Mas voltando ao viaduto do Chá, se alguém em momento pré-suicídio resolver sair de casa pra cometer esse ato desesperado, das duas, uma: ou ele mora na Zona Sul e vai ter que ir de ônibus ou mora próximo ao centro e pode ir até andando. Se ele tiver que ir de ônibus, tudo bem, ou tudo mal – porque fatalmente, quer dizer, possivelmente, ele vai ter muito tempo até chegar à estação final, quer dizer, último ponto, melhor dizendo, derradeiro destino, ok, desisto, não há termo melhor. Isto é, termo também significa fim, e não sei dizer se o quase-suicida chegará a bom termo.

Mas se ele morar perto do centro e for de carro ou a pé, e se o trânsito desvairado da Paulicéia não antecipar sua decisão de dar cabo da própria vida e ele chegar ao viaduto, pode-se aferir que o tal suicida chegou ao "locus mortis" a salvo mas nada são. Porque se são e lúcido estivesse, o eventual suicida veria o ridículo da sua atuação destemperada – se ele se imaginasse de quatro com a cabeça dentro do forno, ou como iriam achar erros gramaticais no seu bilhete de adeus-mundo-cruel, ou a cara da multidão esperando morbidamente pelo salto para então seguir com suas compras no camelódromo, é provável que desistisse.

Talvez ele pudesse ver um exibicionismo infantil, um complexo de vira-latas, uma tentativa sem retorno (ou sem feedback, diria a transeunte caloura de psicologia) de chamar a atenção com aquele salto. Sim, salto, porque aprendi que pulo é quando se tira os pés do chão e eles caem no mesmo lugar – o pular cordas. Já o salto é o aterrissar em outro lugar que não o chão de origem. Por isso, ninguém pode pular para a morte. A menos que queira ao mesmo tempo assassinar a si e a gramática.

07 novembro, 2007

O ano em que meus pais saíram de férias


Alvíssaras! Um filme nacional conseguiu o feito de ser exceção no reino dos filmes dominados por criancinhas com uma frase sempre pronta e genial na língua, com adultos sempre como vilões e castradores, com vovôs sempre doces e gentis, com engodos históricos. O filme O ano em que meus pais saíram de férias, de Cao Hamburger, reúne o habitual temático do gênero (criança forçada a amadurecer em meio a um evento da história, no caso, a ditadura militar), mas trata os temas com rara delicadeza.

No filme, um menino é deixado pelos pais na casa do avô dizendo que vão sair de férias e não podem levá-lo. Na verdade, os pais são alvos da perseguição política promovida pelo governo militar e precisam se esconder. A história se passa durante a Copa do Mundo de 1970, quando o Brasil de Pelé, Tostão, Gérson e Rivelino (este, sim, um quadrado mágico) sagrou-se o primeiro tricampeão de futebol.

Não preciso contar a história do filme. Basta dizer que a paixão do garoto por futebol, a sua convivência forçada numa comunidade judaica e a caça política oficial que sumiu com opositores do regime enquanto o país festejava a Copa, podem render lágrimas, é verdade. Mas o tratamento dado aos personagens, ao enredo e aos detalhes técnicos, revela um diretor dono de uma fina carpintaria cinematográfica, que não submete os personagens aos caprichos e projeções psicológicas do espectador, sabe pontuar a narrativa com doses equilibradas de tensão e humor, e entende a função da música dentro do filme (a trilha sonora chega ao requinte de contrapor-se dramaticamente à alegria de algumas cenas produzindo, assim, outro significado).

Esse filme é o oposto de Olga, cujo diretor, Jayme Monjardim, mais afeito às dramalhices de telenovela, submete os personagens (nesse caso, adultos) e seus calvários pessoais a um irrefreável desejo de comover o espectador a qualquer custo, o que inclui trair os acontecimentos históricos gratuitamente e usar a música de maneira intrusiva e redundante, como se gritasse através das notas, “chore agora”.

O ano em que meus pais... também é o oposto do filme A vida é bela, cujo diretor e ator principal, Roberto Begnini, mais afeito às parvalhices da comédia-pastelão, comete obviedades e leviandades. Obviedades na primeira parte, toda de uma comédia mais para um sub-Didi Mocó do que para Chaplin, e leviandades na segunda parte, de um melodrama falso e matreiro.

Falso, porque nos quer fazer acreditar que as brincadeiras que o pai faz para que o filho não perceba que está passando privações num campo de concentração nazista, são motivadas por amor paterno, quando, na verdade, são apenas um recibo para omitir informações da realidade. Leviano, porque na única cena em que o menino tem que enfrentar a vida real e nada bela, o diretor Roberto Begnini distorce a história e coloca em cena os americanos como libertadores daquele campo de concentração, e não os soviéticos. Isso foi um claro aceno à possibilidade de ganhar um Oscar, o que de fato aconteceu (e isso não é inveja tardia pelo fato desse filme ter ganhado a disputa com Central do Brasil. O Oscar e outros congêneres nunca foram medidas de qualidade de um filme).

Em O ano em que meus pais..., há um delicado equilíbrio entre o pano de fundo histórico e o registro da vivência particular de um menino e sua percepção sensível da realidade. O menino-protagonista tem fatos reais ocultados de si pelos mais velhos, mas pouco a pouco, as coisas vão se revelando tais como são (a moradia com um estranho, a tentativa de fazer amigos, a espera por uma ligação dos pais, o conflito entre estudantes e policiais) até que ele descubra que a vida não é bela quando os pais saem de férias e se atrasam demais para voltar.

04 novembro, 2007

Fábulas menores de moral mínima - 2


Outro dia descobriram uma falcatrua laticínia, mas cá pra nós, num país que engole chiclete com banana, não espanta que se tome leite com água oxigenada. E não foi só o Latino e a Marta Suplicy que tomaram, viu? Foi o Brasil inteiro, de Rosane Collor aos roteiristas de programas infantis, de Galvão Bueno às apresentadoras de programas infantis.

Hoje, quando se vê a horda de mães passando pelo buraco da agulha pra pegar o melhor lugar para suas filhinhas no show do RBD, vem a pergunta: as donzelas e futuras mamães já tomavam leite oxigenado nos anos 80? É isso ou elas estão apenas colhendo o que plantaram, ou seja, quem com Menudo fere com RBD será ferido (a prova está nesse link).

Não é à toa que passamos por uma indigência musical aterradora. A pagodização dos anos 90 deu cria e a trilha sonora do início do milênio são os musicais da Broadway adaptados, a insipidez de Vanessa Camargo, o eterno último show de Sandy e Junior, os uivos de Daniel e a volta daquele que nunca foi: Belo. Sem contar, claro, o funk da evangélica Perlla e o pagode gospel da banda Tempero do Mundo, cujo líder é nada mais nada menos que o senador quase-cassado (pra variar) Magno Malta.

Para explicar porque mais vale um Noel Rosa sem choro nem vela do que dois sertanejos berrando (pra não dizer cinco pagodeiros dublando), segue mais uma fábula menor de moral mínima:

Dois condenados à morte estavam nos umbrais da execução, quando se achega o representante dos direitos humanos e lhes concede a graça de um último desejo. O primeiro condenado poderia ter pedido para aprender mandarim e prorrogar indefinidamente sua execução. Mas, aquele peito desafinado não titubeou e pediu:
- Quero ouvir o cd “O melhor do pagode vol. 3”.
Ouvindo aquele pedido, o segundo condenado implorou:
- Posso morrer antes dele?

01 novembro, 2007

Everybody loves Ricardo Teixeira


O Brasil vai sediar a Copa do Mundo de futebol de 2014. Isso é bom, ruim ou muito pelo contrário? Entreouvido numa conversa dentro de um ônibus: “Pra quê o Brasil vai gastar construindo estádio se nem tem hospital público decente?”. Auscultado no cérebro do pensador em busca de uma ideologia pra viver: “Vão retirar o pão do povo para lhe financiar o circo”. Como ninguém escuta mesmo a voz afônica das ruas, voltemos no tempo que uma pitadinha histórica não faz mal a ninguém.

A teoria conspiratória: na final da Copa do Mundo de 1998, nossa seleção tomou um passeio da França, anfitriã e campeã. Très bien, 3 x 0, eram tempos em que Zidane usava a cabeça pra fazer gols (aliás, dois gols dele nessa final). Mas a arrogância francesa se bandeou pros lados tupiniquins e se espalhou a seguinte e escalafobética teoria: Ronaldo e Cia. entregaram o jogo porque a CBF tinha um acordo com a Nike, a Adidas e a FIFA, no qual a humilhação nacional seria recompensada com a escolha do Brasil como sede de uma Copa do Mundo. Afinal, aqueles filhos de Asterix não ganhariam nunca de novo da gente!

Como fica difícil crer que Dunga e Leonardo ou Zico e Zagallo aceitassem um trato dessa espécie (se fossem 10 Ricardos Teixeiras e 1 Eurico Miranda, vá lá), na Copa de 2006, eis que Zidane está em campo de novo contra o Brasil e contra Ronaldo (pra piorar, agora são dois Ronaldinhos). Claro, nossa empáfia levou outro baile dos franceses. Novamente, veio à tona a teoria: perdemos para ganhar a Copa de 2014. Tudo isso para não se admitir que os pentacampeões do mundo são fregueses dos gauleses.

Como se viu nessa semana, o rodízio de continentes fez com que 2014 fosse a vez da América do Sul. E como não há páreo de verdade nessa parte do mundo, a escolha do Brasil era óbvia. Disputando apenas consigo mesmo, o país ganhou o direito de sediar uma Copa do Mundo outra vez. Mas, quem são esses que querem pôr a pátria de chuteiras e de ingresso de cambista na mão?

Ora, na euforia global pela conquista brasileira, poucos viram o “vôo da alegria”, que levou dezenas de governadores e ministros para a Suíça a reboque do presidente. Não o Lula, mas Sua Majestade, o presidente da CBF Ricardo Teixeira. Ele que escapou de uma CPI contra si e que comandou um escrete de deputados para defenestrar outra CPI que investigaria a negociata MSI/Corinthians, agora é bajulado pelos donatários estatais e federais que querem levar jogos da Copa de 2014 para seu terreiro. Assim, começou o beija-mão, o pega-na-chaleira* outra vez.

Em 2014, até Lula pode se candidatar a um terceiro mandato não-consecutivo e se eleger de “novo com a força do povo”, já que no Brasil a eleição pra presidente é casadinha com as Copas do Mundo. Aliás, a Casa Branca quando quer esconder as mazelas oficiais, planta uma guerra qualquer. O Brasil, quando precisa ocultar as inconveniências políticas, aproveita a euforia da Copa.

Foi assim com Getúlio, que baixava o sarrafo nos esquerdistas enquanto o povo celebrava os feitos de Leônidas da Silva na Copa de 1938 (Getúlio, porém, não pôde evitar a derrota do Brasil para o Uruguai em pleno Maracanã na Copa de 1950 e o resto é história); foi assim com Médici, que sumia com os esquerdistas enquanto o Brasil festejava o tri-campeonato mundial em 1970 (a Argentina, em 1978, aproveitou pra fazer o mesmo com a oposição; dessa vez, como não há esquerda nem no poder nem na oposição...

Então, um viva aos superfaturamentos de sempre na preparação da infra-estrutura da Copa, um hip-hurra às formações de quadrilha pra sumir com o dinheiro dos estádios. Enquanto a população vai viver sete anos de festeira expectativa, os apaniguados do poder vão viver sete anos de fartura até 2014 e, desde já, rezam agradecidos: “Deus lhe pague, Ricardo Teixeira! Mas não esqueça dos nossos 15%!”. Everybody loves Ricardo Teixeira.

* a expressão “pega na chaleira” vem da canção "No Bico da Chaleira" (1909), de Juca Storoni, e referia-se ironicamente aos políticos aduladores do senador gaúcho Pinheiro Machado que se prestavam a pegar na chaleira de água quente para servir a bomba de mate do chimarrão do senador: "Iaiá, me deixa subir a ladeira / eu sou do bloco que pega na chaleira".

21 outubro, 2007

A morte e a morte de Che Guevara


Primeiro, a revolução era dourada e se cantava que as flores venceriam o canhão. Depois, os tempos eram rebeldes e a viola passou a abrigar o fuzil. Logo vieram os meninos barulhentos e as mocinhas que amavam um mártir barbado. E então chegaram os canalhas adultos, essa espécie de gente que, por não ter mais condições de dar maus exemplos, se põe a distribuir bons conselhos. Esses adultos 'corruptores de ídolos' aplicaram o infalível método de destruir o sonho dos mais novos: “Raspem o cabelo deles! Tosem essas barbas incompletas!”, ordenavam, como aquela rainha degoladora de Alice no País das Maravilhas.
Eram tempos em que a cabeleira crescia e não tinha partido, pois tanto Caetano quanto Roberto Carlos balouçavam suas melenas e caracóis nos festivais e bailes da vida. Porém, nem sempre o pêlo que descia da costeleta encontrava os tufos do cavanhaque que, por sua vez, nunca alcançavam a terra prometida do bigode e, assim, as costeletas ficavam ali, indecisas numa encruzilhada à meia polegada de fartar-se em barba.

Mas, antes ser barbicas do que cara limpa, afinal como que é se vai a uma barricada com esse rostinho de Sundance Kid, com essas bochechas descobertas de Chico Buarque, quando ontem mesmo morreu o camarada Che, um barbaçudo que amava os homens acima das posses e que deu a própria vida em favor dos seus semelhantes, não ninguém tem mais amor do que ele, que foi cruci-fuzilado pelos fariseus do capitalismo e no dia seguinte ressuscita como Cristo nas ruas povoadas de sonhos desmanchados pelo cassetete. Claro, não é à toa que ele, na morte, se parece tanto com o Filho do Homem.

As mocinhas, rezando em seus leitos com as mãos apoiadas nos pergaminhos do profeta Marx, não tinham pêlos para esconder os rostos em flor, mas agradeciam por não se parecer com a noviça rebelde e pediam que seus cachos de graúna crescessem em desmazelada formosura como os de Violeta Parra e que fossem compridos como suas saias e simples como suas sandálias de Maria Bonita.

A Paixão de Che, sua vida amada, sua morte em batalha e sua ressurreição em espírito e em verdade estiveram na ordem dos anos até que ele morresse de novo. O segundo golpe seria dado pelo tempo, esse insidioso manchador de reputações ilibadas, esse crápula perseguidor dos apóstolos leninistas.

Pois o tempo se encarregou de repartir a cicuta que borbulhava dos diários do mui amado Che. Dessas páginas amarelas surge um homem com as mãos sujas de sangue, um ser que amava mais a causa que as pessoas, um homem que endureceu e perdeu a ternura, um exterminador que matava de madrugada, sem esperar o dia amanhecer porque também achava que quem sabe faz a hora e não espera acontecer. Testemunhas oculares desmentem seus milagres, suas parábolas e ditos se tornam apócrifos, e a Paixão de Che, sua vida armada, sua morte glorificada e sua ressurreição em camisetas de grife estarão na ordem das manchetes por uma semana, e Che será enterrado de novo, desta vez, humanamente morto.

Os meninos e meninas que assistiram a sua primeira morte não têm mais canção, nem samba, nem violão, nem roseira, foi tudo ilusão passageira que o primeiro financiamento levou. Hoje, Bush e Bin Laden, os irmãos gêmeos da intolerância, também crêem que o sangue derramado (não o deles, claro) trará a redenção social ao planeta. Mas hoje também, o comunismo - o ópio das revoluções sangrentas, a religião com mais mártires e celebridades nos livros de História -, passa a ser exorcizado como o mal do século XX. Pior (ou melhor) para Cuba, a Graceland dos socialistas e Meca dos comunistas, onde só Fidel é deus e Che era seu profeta.

14 outubro, 2007

Que horas são, Luciano Huck?


Há momentos em que um homem deve correr atrás dos seus objetivos, se impor, manifestar sua presença, exigir o que pode ser seu, arrancar do destino, com o suor do seu rosto e pela força do ofício, uma oportunidade de converter em benefícios pessoais a matéria-prima que se lhe afigura nas avenidas do cotidiano.

Esse tal homem pode ser o Luciano Huck, empresário das jovens tardes nada sabáticas da Globo, pai de dois filhos, um que já nasceu e outro ainda na barriga da linda mamãe Angélica. Outro dia, Luciano foi assaltado no trânsito de São Paulo. Até aí nenhuma novidade, o trânsito paulistano é mesmo uma luta de boxe: a cada três minutos, um assalto. O problema começa quando um jornal publica a sua carta de cidadão “envergonhado de ser paulistano”. Nada de novo na seção de cartas. Qualquer estagiário de redação sabe que é mais fácil publicarem um artigo indignado do Luciano Huck do que de um anônimo, como este web-escriba que te atazana semanalmente, amigo leitor.

As respostas às “confissões quase póstumas” de Luciano Huck foram de apoio e também, vejam só, de repúdio. Houve gente que condenou sua ingenuidade de sair com um Rolex no braço em plena Paulicéia Despoliciada, um outro disse que houve “justiça social”, pois Luciano teria ficado com o que mais queria – sua vida – e o assaltante também – o Rolex, e assim seguiu-se o desatino de outras tantas respostas que só faltaram atirar Luciano no caldeirão dos leões.

Triste da sociedade que condena as elites (no dicionário de Lula seria “a zelite”) econômicas e sociais por serem o que são e faz a justificação de seus bandidos, todos bandidos porque pretos, pobres e explorados pela “zelite”. Esse discurso é de quem dormiu com Lênin e acordou Mao, muito Mao. A retórica anti-burguesia ainda é a panacéia sociológica de pessoas que querem explicar o mundo do ponto de vista da segregação econômica, que existe, sim, mas não é com um 38 apontado para a cabeça dos mais ricos que a distribuição de renda vai ser mais igualitária.

Aquele tal homem descrito na cumeeira dessas mal-traçadas também pode ser o assaltante, que, segundo algumas das respostas enviesadas a Luciano Huck, estaria tirando do braço do apresentador famoso o equivalente a muitas “casas populares”. Pois esse Robin Hood dos semáforos certamente não foi correndo levar o produto do seu crime para uma associação de moradores. E mesmo que levasse ainda estaria a usar de meios ilícitos para produzir o “bem-estar social” de sua comunidade. E tanto ele quanto parlamentares corruptos, pobres e ricos sem distinção de cor, devem ser punidos com prisão, pois, a lei – e o cumprimento da lei – deve alcançar a todos (quando isso acontecerá?).

Luciano Huck não escreveu nenhuma grande peça de defesa. Aliás, seu texto é cheio de auto-referências superestimadas e permeado de ingênua divisão de classes. Mas, até aí Luciano não cometeu nenhum crime. Escrever um artigo indignado ou andar com Rolex ainda não é crime previsto em lei. Mas para seus detratores, pertencer à elite já é um crime de lesa-pátria e um Rolex à mostra é um risco (incontestável, é verdade) à integridade física.

Pelo tipo de julgamento e execução que se fez quanto ao assaltado e pelo tipo de legitimação da violência e apologia a uma distorcida malandragem e justiça social em relação ao assaltante, pode-se ler o primeiro parágrafo desse texto da seguinte forma:

há momentos em que um criminoso deve correr de moto atrás dos seus objetivos, se impor com uma arma na mão, manifestar sua presença um tanto irreconhecível pelo capacete, exigir do outro o que pode ser seu, arrancar do destino e do passageiro, com o suor nervoso do seu rosto e pela força do ofício do assalto, uma oportunidade de converter em benefícios pessoais a matéria-prima de um Rolex que se lhe afigura nas avenidas e faróis do cotidiano.

11 outubro, 2007

Meu reino por um Transformer

Os filmes viraram apenas um motivo pra se reunir os amigos e conversar, comer,...Filme? Que filme? No dia seguinte, quase ninguém se lembra do título do filme, que era com aquele, eh, que tinha aquela cena em que, eh, deixa pra lá, próximo fim de semana a gente aluga aquele que todo mundo já viu, qual?, aquele com aquela menina, eh,...

Porém, o problema não está apenas com aquele tipo de platéia que só consegue assistir a filmes com o mocinho e o vilão bem discerníveis, história bem linearzinha, e tiros, muitos tiros, ou piadas velhas, muitas piadas velhas e mal contadas, efeitos visuais espetaculares, muitos efeitos.

A outra ponta do problema são os filmes vendidos como se fossem o único tipo de cinema possível. São filmes que fazem questão de dizer que só um tipo de cinema existe: o cinema monoglota, aquele cujas balas e óculos escuros só falam inglês. Em filmes assim, uma cena dura pouco mais que alguns centésimos de segundo, outras cenas disputam para saber qual atinge os mais altos decibéis, e quase todas apresentam QI de uma bolha de sabão.

O cinema americano de ação e ficção viciou os olhos do mundo, banalizando o grande diferencial do cinema em relação às outras formas de arte: a edição. Ao acelerar cada vez mais os cortes de cena, esses filmes viciam os olhos e o hipotálamo numa montanha-russa emocional e visual; ao infantilizar as histórias, dão ao espectador aquilo que supostamente ele mais deseja, ou seja, uma narrativa que se entenda com o cérebro em ponto morto; ao vulgarizar o amor e o erotismo, rebaixam os relacionamentos humanos a um encontro entre um torso malhado e uma cintura de tanquinho; ao banalizar a violência, as sensibilidades se tornam tão pétreas quanto um punho do Steven Seagal (alguém aí já percebeu que esses moços, pobres moços, desses filmes parecem repetir o tempo todo o mantra “espelho, espelho meu, quem tem mais testosterona do que eu”?).

Não assisti o filme Transformers, e nem irei até ele na videolocadora – talvez se ele vier até mim gratuitamente numa sessão insone da Tela Quente... Pode ser que esse filme seja até divertido, mas de tanto barulho que faz, seja pelo marketing agressivo ou pelo ruído ensurdecedor de seus efeitos sonoros, peguei o filme pra Judas. Transformers representa o tipo de filme onde se dá o casamento entre a tecnologia digital e o emburrecimento formal (não confundir com “aborrecimento”, um pecado em qualquer esfera da arte). Esse matrimônio é abençoado por Santo Spielberg, padroeiro dos efeitos impossíveis, e os convidados costumam se divertir bastante à base de milho com sal e xarope gelado de cafeína com gás.

Essa espécie de filme é semelhante a um bolo de noiva: muito glacê e nenhum valor nutritivo. Não que os bufês de casamento tenham que ser nutricionalmente corretos – afinal, qual é a graça de uma recepção de casamento onde não se pode nem falar mal da comida? Mas assim como o bolo de noiva não é a única dieta alimentar, assim também os filmes “bolos-de-noiva” não são a única forma de cinema que há.

O historiador Eric Hobsbawn escreveu que, por medo de parecer anti-democrático, o crítico moderno não sabe ou não quer dizer se Shakespeare é melhor ou superior que Batman. Por isso, a hora vem e já chegou em que os adoradores de efeitos especiais colocarão na tela um Ricardo III de tríceps bombado urrando: “Meu reino por um transformer! Meu reino por um transformer!”. Se bem que as crianças já gritam assim mal pisam num shopping.

08 outubro, 2007

A esperança é uma bola na área aos 47' do 2º tempo


Uma das frases mais repetidas de todo o repetitivo repertório do futebol é: “o jogo só termina quando acaba”. Esse pleonasmo do mundo ludopédico serve para qualquer outro esporte, como o vôlei – lembra da derrota das meninas do Brasil para a Rússia, quando as brasileiras estavam 4 pontos à frente das russas e a um pontinho de ganhar a partida?; até a fábula da lebre e a tartaruga vive desse clichê – antes da internet ainda se contava a historinha da lebre e da tartaruga. Aliás, um amigo me contou que o filho dele de 12 anos leu minha fábula recontando a fábula de João e o pé de feijão, e perguntou com a maior cara de quem conheceu as fábulas através do Shrek: “Papai, o outro menino parece que é o Renan Calheiros, mas quem é esse ‘João do feijão’?”. Talvez nem tudo esteja perdido e isso seja apenas uma prova de que viramos arcaicos adultos.

Mas não me façam perder o fio da história que eu estava falando do jogo de quinta à noite entre River Plate e Botafogo, uma partida impressionante até para não-torcedores como eu, que tenho um antigo hábito de tirar lições de tudo. Quem tiver paciência, leia.

O Botafogo começou a partida marcando 1 x 0 e, com esse placar, só perdia a classificação se perdesse por 2 gols de diferença. Não passam nem 15 minutos e o River Plate empata. Tudo bem, podemos levar mais um gol que ainda ganhamos, pensam os atletas do time carioca. Menos de 10 minutos depois, um jogador do Botafogo é expulso. E foi nesse momento que a Lógica deixou o estádio e foi dormir, pois sabemos que é uma Lógica dormir 8 horas por noite, e se a metódica Lógica não dormir suas 8 horas, ela sai da rotina e deixa de ser Lógica.

No segundo tempo da partida, um zagueiro do River Plate é expulso e ambas as equipes ficam com dez jogadores. Don’t cry for me, torcedor argentino que, resignadamente, começa a pegar o caminho de casa. E como o que está ruim sempre pode ficar pior, o time do Botafogo, que não tem mais Didi e tem que se virar com Dodô, faz mais um gol: 2 x 1. Agora, o River só se classifica se fizer 3 gols em menos de 20 minutos.

Para aumentar a síndrome de tragédia dos argentinos, outro jogador do River é expulso. Agora, o Botafogo é que tem dez homens em campo e o River só tem nove. Os argentinos estão perdidos e o melhor que eles podem fazer é dançar um tango. Mais uma leva de torcedores abandona o estádio e os jogadores do Botafogo aproveitam pra ir embora também. Sim, porque o Botafogo virou um time de zumbis em campo, enquanto o time do River tomou uma taça homérica de brio, garra, ganas de vencer. Os argentinos fizeram um gol: 2 x 2. Ah, pensaram os botafoguenses, por que esses argentinos ainda estão a correr ensandecidos, por que eles não dizem um hasta la vista e vão embora? Mais dois gol eles não fazem, é impossível, Deus é brasileiro, lembra?

Mas o time do River está acreditando que aqueles últimos minutos do jogo são a Guerra das Malvinas e marcam seu terceiro gol: 3 x 2. Fizemos três, podemos fazer mais um? Quizás, quizás, quizás. 47 minutos do segundo tempo: uma bola desesperada atravessa imperturbável a pequena área e um jogador do River com nome de ave matadora, Falcão, cabeceia a bola para dentro do gol do Botafogo: 4 x 2. O torcedor que esperou até o apito final assistiu a uma façanha épica dos seus jogadores. Estes, dotados naquela noite de um heroísmo sobrenatural, assombraram o Botafogo e, um River Plate inflexível e incansável como as mães da Plaza de Mayo, com apenas nove jogadores leoninamente indomáveis, tomou conta do jogo, aquele mesmo jogo que só termina quando acaba.

O vídeo abaixo demonstra tanto o "quem espera, sempre alcança" quanto o “nunca conte com o ovo que a galinha ainda não botou”. O ditado depende do time em que você joga.

video

20 setembro, 2007

Fábulas Menores de Moral Mínima

A atuação dos parlamentares brasileiros é coisa de fábula. No entanto, sinto frustar leitores interessados em colher boas lições para sua vida terrena, já que a história política parece sempre terminar com uma moral mínima.

Atualização em novembro/2009: a primeira fábula, para refrescar a memória, é sobre as histórias contadas pelo senador Renan Calheiros para desmentir as denúncias de seu enriquecimento agropecuário. A segunda é da época em que o barbudo Lula e o bigodudo Sarney estavam às voltas com os quarenta deputados acusados de envolvimento com o tal mensalão, enquanto o careca e casado Renan Calheiros envolvia-se com uma jornalista.

A VAQUINHA MÁGICA

No dia em que Joãozinho saiu da periferia pra vender a única vaquinha da família, mal sabia que ia virar fábula. Ao chegar à feira agropecuária da cidade, o menino logo viu outro menino, e sabe-se que os meninos dessa idade sempre acham outros meninos com sua idade. Os dois começaram a brincar e, bola vai bola vem, os meninos dessa idade nunca aprendem que futebol encurta as tardes, o sol já descia, a feira se desarrumava e a vaquinha não fora vendida. Foi então que o outro menino disse a Joãozinho: “Pra você não dormir com a pele marcada de cinto, eu troco as minhas sementes de feijão mágico pela sua vaquinha triste”. Mal sabia Joãozinho que aquela era uma vaquinha mágica.

O resto da história todos já sabem: a mãe de Joãozinho jogou fora as tais sementes, que viraram um enorme pé de feijão, aonde morava um gigante burguês, de quem o menor Joãozinho roubou uma galinha dos ovos de ouro, galinha essa que morreu de desgosto com a queda do preço do ouro nas Bolsas, e Joãozinho virou motoboy do shopping que construíram no lugar do pé de feijão. Quanto ao outro menino, com sua lábia precoce se tornou político. E hoje, quando lhe acusam de ter enriquecido ilegalmente, ele responde: “Meu único patrimônio são essas vaquinhas mágicas”.


40 HOMENS E UM DESTINO

Ali Babá chamou Um-dos-40 e disse, “Preciso falar com o bigodudo. O barbudo viajou, mas o bigodudo pode me ajudar. Afinal, o bigodudo já foi rei e quem foi rei não perde as concessões, digo, a majestade”. Um-dos-40 então lhe disse, “O bigodudo tem uma filha de recados. Mande seu recado por ela”. O conselho do bigodudo veio rápido como uma nota fiscal fria, “Meu caro e careca Ali Babá, diga lá que quem já não teve amante, empreiteira e fazenda, que atire a primeira vaca, quer dizer, pedra”.

Mas a mulher do caro, careca e feioso Ali não podia concordar com tal proposta e tratou de engendrar outro plano, porque ter fazendas com vacas milionárias, tudo bem, mas ter uma vaca, digo, amante, aí já é demais e vai contra minha religião. E pensando bem, vai ver essas palavras inconvenientes nem saíram da boca do bigodudo, pois o homem, pôxa vida, é um homem das letras.

Quando o barbudo voltou de viagem, disse ao feioso e ao bigodudo, “Nessa minha viagem, não achei nada de podre no reino da Dinamarca”, ao que o bigodudo replicou, “mas por aqui a coisa andava fedendo pro nosso lado”, ao que o feioso explicou, “não era nadica de nada. Mesmo assim, eu fui logo dizendo que se ninguém me apoiasse, o Ali Babá aqui iria dedurar 40 ladrões aí”.

16 setembro, 2007

NOVO TOM - parte 1


Assim como os corais jovens dos colégios, a proposta do Novo Tom sugere, tanto quanto possível, uma aproximação da juventude por meio da linguagem musical do jovem moderno. Há críticos que desestimulam essa proposta, temendo uma demasiada associação com os estilos musicais da moda. Porém, esquecem que as igrejas costumam adotar a Bíblia na versão Linguagem de Hoje como um modo de estimular a leitura das Escrituras, mesmo com o risco de mal-entendidos que se apresentem nessa versão facilitada (em que a linguagem poética desaparece do livro dos Salmos).

Dizem que a proposta musical do Novo Tom pegou a corrente do pragmatismo musical em curso na modernidade. Ao lado do pragmatismo retórico do cristianismo atual, o grupo teria cedido ao "vale-tudo" a fim de falar do evangelho para a juventude moderna. Entretanto, esse argumento de exagerado pragmatismo é uma falácia sem tamanho, pelo menos quando se trata do grupo Novo Tom.

Uma das correntes do pragmatismo religioso pós-moderno é a apresentação de mensagens de teor ético: os direitos humanos, a defesa do ecossistema, a paz no mundo. O teólogo Leonardo Boff, por exemplo, fez um upgrade filosófico e atualizou seu discurso ético-religioso: nos anos 60 era a Teologia da Libertação, baseada na liberdade política e no programa de amparo às classes desfavorecidas; agora seu discurso é ecológico-espiritual. As intenções são inegavelmente boas e só um cínico as combateria. Mas, a presença de Deus na história dos indivíduos está um tanto ausente desses discursos. Mais recentemente, o papa Bento XVI, em sua cruzada ainda tímida em favor da guarda santificada do domingo, recomendou o primeiro dia da semana para “preocupações ecológicas”.

O grupo Novo Tom também aborda o tema da paz. Porém, não fala da paz como uma espécie de fraternidade demagógica. O título do CD já introduz sua idéia de paz: Pode Cair o Mundo, Estou em Paz. Assim, a paz não é a unificação do pensamento global, mas um sentido de segurança exterior e placidez interior, só inteiramente adquirida pela confiança em Deus. Como exemplo, metade das doze canções do CD menciona a palavra “paz” relacionando-a a ações e atributos divinos: a frase-título (na canção "Estou em paz"), o autor da eterna paz (em "Nosso lar não é aqui"), na oração encontro paz e em seu perdão encontro paz (em "Falar com Deus"), só em Teus braços encontro paz (em "Descansar"), frutos de paz Ele quer nos doar (em "Deus tudo pode"), este nome traz a paz e Príncipe da Paz (em "Cristo").

Alguém vai argumentar que as frases acima são quase obrigatórias nas canções cristãs. Contudo, há duas razões para não crer na casualidade da palavra “paz” nesse álbum do Novo Tom: 1) o letrista principal é Valdecir Lima, o que é uma certidão de propósito literário e teológico; 2) a “paz divina” é uma ideia recorrente ao longo das canções desse CD.

Além de sinalizar a paz em metade de suas canções, este CD também tem uma característica: o contraste súbito de intensidade entre o muito forte (fortissimo) e o muito suave (pianissimo). Num exercício de encontrar conexões entre a música ouvida e o significado que ela pode sugerir, num exercício de semiótica musical para complicar um pouco, é possível relacionar a força vocal e o impacto dos contrastes repentinos de intensidade ao símbolo comum da tormenta humana subjugada pelo poder da paz divina.

Nos anos 70, uma canção jocosa chamada “Pare o Mundo, Eu Quero Descer”, fez sucesso no Brasil. Mas a música “Estou em Paz” não pede para sair do mundo, nem por brincadeira. Certificada pela oração de Jesus (João 17:15), que pediu ao Pai que não nos tire do mundo, mas que nos livre do mal, a canção declara o “estar no mundo, mas em Deus confiar”. Seu refrão,

(...) Não temo o futuro, pois tenho Deus comigo
Pode cair o mundo, estou em paz

é cantado no final com bastante força em “(pode) cair o mundo”. Aqui, o contraste se faz de dois modos: 1) o fortissimo vocal e orquestral em “cair” é subitamente interrompido pelo pianissimo em “mundo”; 2) a parte cantada em “ca-ir o mun...” dá um salto para baixo na sílaba seguinte (“...do”), traduzindo o cair, o desabar do mundo. O verso final “estou em paz” completa a frase e encerra a música de forma serena, com um vocal em uníssono.

Esse contraste, além de ser ouvido, pode ser visualizado nas fotos do CD antes mesmo de tirá-lo do invólucro de plástico - que como todos os demais CDs do planeta, exige um conjunto de técnica e paciência para abrí-lo civilizadamente. Na capa frontal, há uma criança sentada numa escadaria com a típica placidez infantil quanto está só e entretida com um objeto. A parte de trás do CD traz a habitual ordem das músicas e também uma foto ao estilo já clássico do artista futurista Marinetti, que traduzia com traços velozes o movimento urbano. Os veículos passando velozmente no ruído caótico das cidades é o contraponto escolhido para a calma confiante de uma criança em paz.

Entendi que o Novo Tom quer afirmar que, enquanto o homem pode espalhar a paz no mundo, isto só é possível pela efetivação da paz de Deus em cada indivíduo. Sai a narrativa grandiloqüente de paz global, como se as diferenças pudessem ser resolvidas por discurso ou decreto, e entra em cena a vivência individual da comunhão com Deus como propiciadora de uma verdadeira fraternidade, refletindo os versos daquele hino, “haja paz na Terra, a começar em mim”.

As canções “Nosso Lar Não é Aqui” (também de Lineu e Valdecir) e “Cenas” (Daniel Salles) também se valem da alternância de potência e serenidade musicais. Na primeira, ouvimos um coro infantil breve em baixo volume seguido de introdução instrumental estrondosa com bateria, metais e guitarra. Essa introdução é contrastada subitamente pela leveza da voz de Joyce Carnassale acompanhada apenas de violão e alguma percussão. A singeleza do coro das crianças é retomada, contudo, escondendo os acordes sofisticados e a quebra de acentuação rítmica, o que provoca certa instabilidade proposital.

A música “Cenas”, que começa sobrepondo vozes que recitam versos bíblicos, descreve as imagens da paixão de Cristo com a característica dramaticidade evangélica. O martírio é amplificado em versos (com Seu corpo a sangrar; não podia respirar; as feridas abertas; açoites tão cruéis) que procuram comover o ouvinte. As cenas descritas detêm a força das palavras emocionalmente necessárias para o propósito espiritual da música, que alcança seu clímax com um vocal de extrema energia.


NOVO TOM - parte 2


Retomando o que falei sobre pragmatismo musical no 1º texto sobre o grupo Novo Tom, vejamos como o grupo lida com essa questão em suas músicas. Não entrevistei seu diretor musical ou o letrista, mas acabei identificando por minha conta e risco os sinais do pensamento evangelístico-musical do grupo nos arranjos e no repertório do CD Pode Cair o Mundo...

Focando em dois aspectos: 1) a particularidade vocal do grupo; 2) a aproximação com a linguagem musical urbano-contemporânea.

A qualidade vocal dos componentes do Novo Tom é incontestável. A base vocal feminina (Riane Junqueira, Joyce Carnassale, Lanny Soares) que acompanha o grupo desde que este se chamava Tom de Vida por certo contribui para a singularidade sonora identificável do Novo Tom. As cantoras do grupo possuem uma característica vocal sem excesso de vibratos, com timbre moderno e energia nos agudos – nada de soprano lírico corolatura, ufa, ainda bem.

As vozes masculinas me pareceram determinadas pelo estilo anasalado na dicção, com ênfase nas vogais e certa americanização nas consoantes (m, n, d, t são as letras, digamos, mais afetadas). Nas canções dramáticas, os tenores assumem um tom de vigor quase operístico, escutado na técnica da dicção, no alcance estratosférico da voz, na verve da interpretação. Isso tudo está nas canções “Estou em paz” e “Cenas”, que os solistas perfazem com rara felicidade.

O percurso musical do Novo Tom enveredou cada vez mais na aproximação dos gêneros populares urbanos. Mas, ao contrário da maioria das bandas evangélicas modernas, o Novo Tom prefere o caminho da reorganização musical à transposição estética integral. Explico: a transposição estética integral ocorre quando um gênero musical (rock, reggae, samba) é transcrito ou copiado por grupos musicais cristãos com toda semelhança de melodia, arranjo vocal e instrumental, e uso de figurinos e adereços típicos.

Isso pode ser notado em artistas gospel como o Oficina G3 ou o DJ Alpiste, cujas canções reproduzem o estilo melódico e de arranjos dos artistas seculares do rock e do hip-hop. [Mas não vai aqui nenhum julgamento do mérito de religiosidade de ninguém].

Já a reorganização musical pode ser notada quando determinado gênero musical (falo aqui dos estilos populares da mídia) perde sua característica melódica mais característica mas conserva certa semelhança rítmica. Desse modo, o arranjo musical não reproduz integralmente a influência inevitável, mas lhe dá um caráter de apropriação, como se aquele estilo ou “swing” instrumental estivesse ali para lembrar que estamos na contemporaneidade. Desde Lutero, passando por Lowell Mason e Ira Sankey, chegando até nossos dias, isso consistiu numa espécie de louvável tradição.

O grupo Novo Tom pode ser inserido nesse último grupo. As canções “Nosso Lar Não é Aqui” e “O Amor é Jesus” têm aquilo que os músicos costumam chamar de “levada” ou “pegada” pop. Contudo, a interpretação está a anos-luz da mera imitação da música secular perceptível nas canções gospel que arremedam o pop/rock, o forró, a balada romântica.

A canção “Preto no Branco”, esta sim, possui a tal “levada” pop bem destacada, tanto pela voz solista de Marlon Miranda quanto pelo arranjo instrumental. No decorrer da canção, os vocalises são cada vez mais intensos e o som vai se tornando mais semelhante ao soul permeado de funk de Pedro Mariano e Cláudio Zoli, com ecos do Stevie Wonder dos anos 70. É a faixa que certamente encontra maior resistência por uma parte dos ouvintes.

A música “O amor é Jesus” (Lineu e Valdecir) recebe um brilhante arranjo vocal altamente estilizado que reproduz o som de jazz a capella do Take 6 e do Manhattan Transfer, com suas elaborações harmônicas e imitação de instrumentos pela voz humana, como a percussão vocal de Marlon Miranda e o trompete vocal de Denis Versiani, este, o autor do arranjo.

A pergunta é: esses tipos de arranjos e canções podem induzir o ouvinte a uma perspectiva mundana? Uma resposta pode ser: depende de quem está ouvindo. Muitos ouvidos pudicos de Calvino entendem tais canções como excessivamente secularizadas e liturgicamente inadequadas. No entanto, o repertório do Novo Tom utiliza a influência secular mas distancia-se do modelo musical de memetização da estética pop adotada por muitos grupos evangélicos contemporâneos. Mas é certo que os cantores e diretores de música precisam de sabedoria para perceber qual música do CD do Novo Tom será mais adequada para cada hora, lugar e público.

10 setembro, 2007

ELVIS E O GOSPEL: Elvis além da pélvis


No ano em que a morte de Elvis Presley completa 30 anos, fãs e crítica relembram as principais marcas que Elvis teria deixado na música e na cultura do século XX. Mas eu gostaria de lembrar aqui uma faceta do “rei do rock” bem menos conhecida que seus filmes em Acapulco, suas canções românticas ou a proibição de filmar os seus rebolantes quadris no programa de TV de Ed Sullivan no início da carreira. Aliás, os requebros da “pélvis de Elvis” foram um fator nada descartável para sua ascenção meteórica. A voz absolutamente marcante, os cabelos cuidadosamente desalinhados, o repertório quase recatado se comparado à fúria libidinal das canções de Jerry Lee Lewis e Little Richards, quase tudo seguia uma construção publicitária perfeita comandada pelo “Coronel” Tom Parker, como apelidavam o empresário de Elvis.

Os americanos sempre demonstraram afinidade com o gospel gravado por artistas não-religiosos. Por exemplo, nos anos 1950, Tennessee Ernie Ford gravou álbuns que estão entre os dez mais vendidos da década. Mas Elvis revelava também seu gosto pela música gospel. E talvez houvesse nisso mais do que ambição de vender para outro nicho de mercado. Para Don Cusic, autor do livro The Sound of Light: a history of gospel music, Elvis tinha ouvido muita música gospel - na igreja ou em casa com a mãe – e, ao cantar aquelas músicas, ele não cumpria só um dever espiritual, mas também revivia a infância. Talvez, diz Cusic, Elvis estivesse mostrando que era um bom garoto, temia a Deus (à sua maneira) e queria salvação.

Em 1952, quando ainda era um jovem motorista de caminhão, Elvis fez um teste vocal para entrar no quarteto Songfellows e foi reprovado. Mais tarde, Jim Hammil, um dos componentes “acusados” de dispensar Elvis Presley, deu sua versão dos fatos: “Eu não disse que ele não sabia cantar, mas sim que ele não conseguia ouvir a harmonia. Sozinho, ele se saía bem. Mas quando as outras vozes do quarteto entravam, ele se perdia e cantava as outras vozes que ouvia”. (Em geral, a formação vocal de um quarteto masculino é de º e 2º tenores, barítono e baixo).

Elvis ainda não era famoso quando encontrou o quarteto The Jordanaires no Grand Ole Opry, em 1955. O quarteto havia surgido em 1948 e só conservava um integrante da formação original, o 1º tenor Gordon Stoker. As primeiras gravações de Elvis nos estúdios da RCA têm um vocal de apoio formado, entre outros, por Stoker e Ben e Brock Speer, da Speer Family, famosa família de cantores. Mais tarde, a formação completa dos Jordanaires marcaria o som dos discos de Elvis, que passava a vender 10 milhões de discos e se tornava um ídolo teen e um ícone cultural.

Os primeiros álbuns gospel de Elvis chegariam a partir de 1957, no auge da carreira no rock, quando era inimigo dos pregadores. Primeiro, a gravação de Peace in the Valley, e depois o disco His Hand in Mine. Esse disco tinha os Jordanaires no vocal de apoio e entre as faixas estavam músicas como Swing low, sweet chariot e Mansion over the hilltop (em português, é a conhecida Mansão sobre o monte). A capa desse álbum trazia um Elvis Presley sentado ao piano num sóbrio smoking, de cabelo grande e roupas brilhantes. O figurino e o penteado, porém, não eram uma afronta ao estilo religioso. Pelo menos, não ao estilo de certos cantores e pastores evangélicos da época. James Brown, por exemplo, explicava que seu estilo inconfundível de se movimentar no palco, falar e cantar, era influência de pregadores, digamos, hiperativos.

A voz de Elvis também recebeu grande influência do gospel. Certa vez, o cantor escutava um disco de Jake Hess, um dos grandes nomes da música gospel, quando revelou a Johnny Rivers algo como “agora você sabe de onde vem o meu estilo de cantar”.

Em 1967, Elvis convidou os quartetos The Imperials e The Jordanaires e também algumas cantoras para o vocal do seu disco gospel de maior resposta positiva de público e crítica, How Great Thou Art. Além da clássica faixa-título (no Brasil é conhecida como Quão grande és Tu), já famosa na voz de George Beverly Shea, o disco trazia Where could I go but to the Lord, In the garden (No jardim) e Where no one stands alone (Minha mão em Tua mão). Nesse disco, Elvis faz um dueto com Jake Hess na música If the Lord wasn’t walking by my side, conhecida música do quarteto The Statesmen, do qual Jake Hess já tinha sido integrante.

He Touched Me é o álbum gospel de 1972 que traz a clássica Amazing grace (Graça excelsa) e a canção-título (Tocou-me), de autoria do casal Bill e Gloria Gaither.

A partir de 1969, o quarteto The Stamps passou a abrir os shows de Elvis. J. D. Sumner, membro do quarteto, conta que após os shows Elvis reunia os cantores para cantar gospel. Freqüentador da casa de Elvis, Sumner também diz que o cantor “só ouvia gospel. Ele não ouvia nem suas próprias gravações”.

No funeral de Elvis, em agosto de 77, Jake Hess e dois integrantes do quarteto The Statesmen cantaram Known only to Him, Kate Westmoreland cantou My heavenly Father watches over me, e James Blackwood e The Stamps cantaram How great Thou art. O final trágico do cantor e suas gravações ora religiosas ora seculars podem traduzir que, de algum modo, Elvis Presley não conseguiu conciliar sua vida de sucesso fabuloso com as crenças de sua juventude. Mesmo assim, para Don Cusic, a maior contribuição de Elvis ao gospel foi apresentar esse estilo ao mundo do rock.
* Os títulos em português e entre parênteses mencionados no texto foram extraídos do Hinário Adventista (Casa Publicadora Brasileira).

03 setembro, 2007

ADORAÇÃO: pragmatismo, esteticismo e missão


Na dinâmica do mundo moderno há uma pergunta sempre recorrente: como tornar o evangelho de Cristo pertinente para a “sociedade do espetáculo”, para uma juventude bombardeada por um fluxo incessante de imagens e signos atraentes e de claros estímulos não-bíblicos?

Para atender às expectativas modernas, muitos líderes e músicos cristãos inserem-se na corrente do pragmatismo. Ou seja, usam novas estratégias, empregam novos meios para alcançar os velhos fins – entenda-se “velhos fins” por tentativa honesta de divulgar a mensagem cristã, mas também por velhas finalidades de enriquecimento através da boa-fé alheia. Não obstante, segundo Wolgang Stefani, “ninguém pode duvidar da sinceridade daqueles que advogam essa abordagem [o pragmatismo], nem depreciar sua ‘utilidade’ e ‘resultados’ (aspas do autor), e deve-se considerar seus resultados significativos (Música Sacra, cultura e adoração, 2006, p. 13).

Calvin Johannson aponta falhas mais sérias na abordagem pragmática, como:
1) a desconsideração de normas e padrões resulta na transferência do controle da qualidade e da legitimidade para o gosto do público;
2) a auto-contradição do pragmatismo enquanto negadora dos padrões absolutos, mas promotora incontestável do relativismo;
3) a utilização da música como ferramenta manipuladora em substituição a ação do Espírito Santo.

Considerações quanto à indicação número 1 de Johannson:
a) Não se pode esquecer que Lutero, Lowell Mason e Ira Sankey promoveram mudanças significativas na música sacra concedendo espaço ao “gosto” da congregação;
b) Pode-se verificar um discurso marcado pelo preconceito social ao definir-se o “gosto do público” como responsável pela perda de qualidade musical. Afirma-se ainda que esse “gosto” público não pode ser legitimado. Mas quem é que pode legitimar a estética e o gosto musical? Os privilegiados pelo acesso à educação musical? As regiões geopoliticamente favorecidas? As classes modeladas pelo saber europeu?

Quanto à indicação número 3, pode-se ressaltar a quantidade de palestras e sermões que empregam a música como ferramenta para influenciar escolhas e decisões (qual pianista de igreja não ouviu o pedido para tocar uma suave música de fundo na hora final de um culto?). A afirmativa de Johannson traduz a propalada dicotomia entre razão e emoção, sugerindo-se dessa forma uma livre escolha racional (pela palavra) em contraste com uma submissão emocional (pela música).

Tal discurso permeia muitas palestras bem-intencionadas que acabam sendo descuidadas na sua abordagem dos efeitos psicofisiológicos da música, que tratam o ser humano (em especial, a juventude) como objeto de fácil hipnose musical e moral e apontam mais proibições do que orientam positivamente, além de deixarem para a ciência todas as respostas.

Por outro lado, há diversos grupos musicais conhecidos pelos seus momentos de extremada e planejada comunhão. Em tais momentos, nota-se claramente o estímulo a evasão racional ou fuga dos níveis imediatos da consciência através da sugestão de forte concentração (no fechar de olhos, como na oração), da alteração da fala (que pode ir da voz embargada à glossolalia – falar em línguas desconhecidas), da performance física (visível na expressão facial de contrição e no gestual do corpo), e também da repetição prolongada de frases cantadas (no refrão interminável) ou faladas (nas longas orações de intercessão com um fundo instrumental).

Sobre esse aspecto, confira o livro de Magali Cunha, Explosão gospel, sobre o cenário evangélico brasileiro, o trabalho de Sandra R. Nascimento (UFG), O ‘padrão psico-musical’ dos contextos religiosos: a mensagem subliminar de uma manifestação musical, ou Cristãos em busca de êxtase, de Vanderlei Dorneles.

Além da idéia de pragmatismo na música cristã, outra abordagem é o esteticismo, que considera que os valores estéticos garantem a qualidade e a arte necessária para uma aceitável adoração a Deus (Música Sacra,..., p. 11). Para Wolfgang Stefani, porém, a medida do que é esteticamente superior tende a ser determinada subjetivamente assim como é difícil precisar o que é de alta qualidade artística. Isto acontece devido a crescente afirmação das identidades locais e ao forte dinamismo dos padrões de estilo musical.

O esteticismo também pode ser nefasto quando um produtor musical insere um certo arranjo ou um cantor utiliza determinado recurso vocal como artifício exibicionista. Nelson Freire, um dos maiores pianistas da atualidade, disse que “o mais importante é a música e não o que eu faço com ela”. Às vezes, o esteticismo pode se tornar uma derivação nefasta do pragmatismo quando a mensagem desaparece diante do marketing vocal e instrumental em torno dela. Mesmo assim, fica a pergunta: como dar sentido ao evangelho de Cristo no mundo moderno sem recorrer aos recursos de atração secularizantes?

Contudo, enquanto diversos cantores se acomodam numa ou noutra abordagem, às vezes o primordial é esquecido: o sentido de missão. Deve-se estar atento às táticas apelativas do emocionalismo. É preciso estar vigilante quanto às estratégias modernosas de assimilação da música pop e evitar exageros quanto à adoção natural de estilos contemporâneos. Mas, sobretudo, é tão necessário para alguns despojar-se das muletas da auto-publicidade artístico-musical quanto é urgente para todos desvencilhar-se da carapaça do criticismo autoritário e vestir o manto da orientação bíblico-construtiva.

02 setembro, 2007

Deus na linha de fogo


A temporada de caça à religião está aberta. Na vanguarda ateísta estão Christopher Hitchens e Richard Dawkins. Na linha de fogo está, principalmente, o monoteísmo religioso e sua figura mais célebre: Deus. Mas, o que querem os cientistas-filósofos-ateístas-evolucionistas mesmo?

Os disparos do front da tropa de elite da “Razão” têm três destinos:

1º- Deus: a filosofia pós-Kant e a ciência pós-Darwin partiram do benefício da dúvida – Deus realmente existe? - para a certeza irretratável – Deus não existe! Se as especulações filosófico-racionalistas procuram excluir o sentido de Deus da existência humana, as elocubrações do naturalismo-evolucionista atribuem a existência de Deus a um delírio do sentido humano. Daí, surgem variantes de uma espécie de “sociologia evolucionista” que tem todas as respostas, inclusive as psicológicas, para o comportamento das comunidades humanas, capaz de explicar desde a milenar preferência feminina pela cor rosa até, claro, a fé religiosa;

2º- Religião: segundo Hitchens e Dawkins, a “religião é a raiz de todos os males”. Para os apólogos do Humanismo e da Modernidade Tecnocientífica, a ausência de religião pode propiciar ao mundo uma nova era de igualdade, liberdade e fraternidade. Entretanto, como soa ingênua essa oposição simplista entre ciência e religião! O filósofo francês Jacques Derrida percebe nessa questão “uma certa vigilância crítica e anti-religiosa, anti-judaico-cristã-islâmica, uma certa filiação “Voltaire-Feuerbach-Marx-Nietzsche-Freud”;

3º- Fiéis em geral: sem religião, sem religiosos. Os ateístas pavoneiam-se em declarações e juramentos de que jamais queimariam livros, como fazem os muçulmanos, ou que não queimariam os discordantes, como fez a Inquisição. É mesmo? Qual o atestado de idoneidade que dão? A queima de livros religiosos na Revolução Francesa e o banimento de cristãos e judeus na Revolução Russa?

Mas há explicações para as hostilidades em relação a Deus e a Religião?

1) Os cristãos têm culpa nessa ojeriza racionalista ao Cristianismo. É tamanha a vastidão de monstruosidade e barbárie perpetrada em nome de Deus que chega a ser admirável a persistência do cristianismo no mundo. Voltaire, no verbete ‘toleránce’ do Dictionnaire Philosophique, acusa a religião cristã e a Igreja. Mas, vejam só, ele invoca a lição do cristianismo originário, “os tempos dos primeiros cristãos”, Jesus e os apóstolos, abandonados pela “religião católica, apostólica e romana”;

2) Os protestantes e suas variantes dogmáticas também foram responsáveis por períodos de repressão e perseguição e hoje muitos dos seus adeptos servem de opróbrio ao evangelho de Cristo. Antigamente, o moralismo puritano e a intolerância denominacional reproduziam o farisaísmo insepulto, ou seja, casavam hipocrisia moral com soberba doutrinária. Hoje, se presencia uma religião de muito marketing, “tantas emoções” e nenhuma doutrina;

3) A fúria anti-religião reveste-se de tradição religiosa, passando-se por nova religião ao apenas substituir a verdade absoluta pelo relativismo absoluto, Deus pelo Homem-Deus, a fé pela ciência, o evangelismo cristão pelo proselitismo ateísta.

Anthony Flew, filósofo ateu e autor de The Presumption of Atheism, admite que “se a Ressurreição [de Cristo] fosse verdadeira provaria que todas as outras religiões e sistemas filosóficos estão ‘redondamente errados’”. Mais um motivo para reconsiderar a religião bíblica como parte do processo de religação do homem com o divino e também como narradora da história que confere sentido às existências de Deus e do homem.

22 agosto, 2007

PARAPAN ou Quem é deficiente mesmo?

Observando o triunfo dos atletas durante os Jogos Parapan-Americanos, se percebe o quão alto e nobre pode o homem chegar a ser. No ParaPan não há derrotados. São todos vitoriosos por nadar contra a correnteza social, correr atrás da normalidade perdida, saltar os obstáculos do preconceito e voar, sim, voar para além de uma sociedade orientada para a beleza exterior e a aparência física “perfeita”.

Os atletas do ParaPan são como a estátua grega Vitória de Samotrácia (foto). Essa estátua simbolizava as conquistas helênicas na guerra, mas foi encontrada sem algumas partes do corpo. Isso, porém, em nada diminuiu seu valor. A estátua, também chamada Niké (vitória, em grego), tem a incompletude formal derivada da ação da natureza, mas possui dignidade altaneira e beleza majestática.

Os atletas do ParaPan perderam o controle de partes do corpo ou não têm mesmo a totalidade de braços e pernas. Entretanto, até a chegada em último lugar exala vitória irrestrita. Veja-se o exemplo de Kathryn Sullivan (foto abaixo): a corredora americana não ganhou medalha, mas sua superação pessoal vale muito mais. Ou o nadador brasileiro Clodoaldo (foto, mais abaixo): suas restrições físicas não lhe impedem de bater recordes. Ou os corredores cegos que sonham com as cores do mundo e conquistam, mais que títulos, um novo modo de viver. Ou os cadeirantes, que trafegam velozmente pelas pistas, pelas quadras, afugentando a auto-piedade destrutiva, rodopiando em suas cadeiras sua plena exaltação da vida.

O que faz com que esses atletas não se atirem para fora da vida, quando a própria vida se assemelha a um portão fechado e intransponível, quando lutar contra a desventura parece correr atrás do vento? João Cabral de Mello Neto oferece uma saída em Morte e Vida Severina:

— Seu José, mestre carpina,
e em que nos faz diferença
que como frieira se alastre,
ou como rio na cheia,
se acabamos naufragados
num braço do mar miséria?
— Severino, retirante,
muita diferença faz
entre lutar com as mãos
e abandoná-las para trás,
porque ao menos esse mar
não pode adiantar-se mais.

Ao ver esses atletas bailando na adversidade com tal gosto pela vida, podemos recitar os versos de Ferreira Gullar:

Como dois e dois são quatro
Sei que a vida vale a pena
Mesmo que o pão seja caro
E a liberdade pequena

Esses mesmos atletas valorizam cada fôlego da vida, e nada os impede de cantar que a vida é bonita, é bonita e é bonita. Ainda que sua liberdade pareça pequena perto das limitações, eles são capazes de apequenar suas restrições e aperfeiçoar o sentido de liberdade. De novo João Cabral:


E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.

Quem tem a suposta normalidade de locomoção tem, às vezes, não a deficiência, mas a deturpação mental. Desperdiça-se a vida em futilidades ou questiona-se o próprio existir. Homens e mulheres como Clodoaldo e Kathryn Sullivan não esperaram o acaso oportuno, mas criaram novas e especiais possibilidades.

“Tudo quanto te vier à mão, faze-o conforme tuas próprias forças” (A Bíblia).

15 agosto, 2007

A prisão de CARAS

Na semana passada, li uma entrevista na revista Veja que só fez aumentar minha admiração na capacidade humana de fantasiar a realidade vivida. A entrevista era com a socialite Wilma Magalhães (foto), de quem eu jamais lera uma linha sequer de suas gotas de sabedorias. Esta semana, ao ler a seção de cartas da mesma revista, vi que alguns leitores relatavam que tinham se divertido com as respostas da socialite, um diagnosticava um caso clínico de fuga da realidade, outra indignava-se com a falta de assunto da revista ao entrevistar alguém como Wilma.

Wilma, socialite que costumava temperar seus jantares com pó de ouro, está numa prisão em Brasília cumprindo pena de 6 anos por estar envolvida num esquema de legalizar propinas recebidas por ninguém menos que João Alves, um dos mais célebres anões do Orçamento. Como se vê, a vida de Wilma era um conto de fadas, e sua Terra do Nunca era Brasília. Ali, rodeada de anõezinhos sortudos, a fada era ela, claro. Pois, as fadas brilham e, segundo Wilma, “meu [dela] brilho é muito grande”.

Ela também revela que está escrevendo um livro no qual abrirá a cortina do passado e descreverá ao mundo o calvário de uma socialite. Sua intenção, nobre e desinteressada em auto-promoção, é que sua experiência de vida possa “ajudar as famílias que passam o mesmo”. Só falta dizer que o título será Os ricos também choram.

Em suas reminiscências literárias, ela contará que, como toda estrela, ela tem luz própria. Assim, mesmo passando uma temporada numa cela que tem o tamanho do lavabo de sua casa, Wilma resplandece o brilho das verdadeiras socialites. Por isso, as funcionárias do presídio brigam para vê-la jantando uma humilde lasanha com um humilde suco de uva. Para o ensino das criaturas que povoam as colunas sociais, ela dirá que nem tudo na vida é um sutiã Victoria’s Secret, a lingerie das estrelas, principalmente quando se está na prisão.

Ainda com humildade, a marca de suas sandálias, a fada Wilma escreverá que foi ingênua ao acreditar em dinheiro de anões e um dia, ainda que inocente como Sininho, esteve na cadeia “pagando pelo erro” cometido.

A futura memorialista Wilma pode lançar esse livro em forma de fascículos encartados na revista Caras. Assim, sua vida, que já é uma revista Caras aberta, poderá servir de alento aos apaniguados da fama. Com o 1º fascículo, os leitores poderão ganhar de brinde o dvd “Boninho e Narcisa Tamborideguy se divertem atirando ovos do seu apartamento”.

Como socialite não é de ferro, ela já adianta na revista algumas pérolas de admoestação e padrões de convívio em sociedade. Nesse novíssimo dicionário do contrato social, constarão os verbetes:

- dinheiro: “dinheiro pequeno é para gastar à toa”.

- muito dinheiro: “dinheiro grande eu gasto mesmo”.

- quantia impublicável de dinheiro: “já comprei dois rolex no mesmo mês. O primeiro de 6.000 xxxx (moeda impublicável). Depois, vi uma amiga com outro rolex de 10.000 xxxx. Não resisti e comprei um pra mim”.

- homem: “José Roberto Arruda ( governador-DF). Dorme às 3 da manhã, já acorda às 5, era casado, tinha amante, dispensou as duas, e agora está de namorada nova. É charmoso e bonito”.

- bonito?: “poder e beleza estão misturados”.

- bebida: “a gente bebe tudo mesmo” ( sua adega exibia 3 mil garrafas).

- moda: “é possível passar um ano sem repetir roupa”.

- pensamento: “o importante é onde a mente está, não o corpo” (a mula-sem-cabeça concordaria. Ou não.)

Wilma está, de fato, realizando o sonho de toda chique endinheirada: lançar moda. No caso de Wilma, a presidiária das estrelas, o modelo (ela diria “atitude”) da moda é o prison chic. Diferente daquelas celebridades americanas, que não apregoam bom comportamento e cujo segundo lar é uma clínica de reabilitação – esta é a moda rehab chic –, nossa fada-socialite mantém a pose mesmo no cárcere, admite os “equívocos” que a levaram à prisão e vai entrar no ramo beletrista da auto-ajuda.

A entrevista com Wilma Magalhães pode ser acusada de tudo, menos de não retratar uma certa classe social que vê o mundo como um satélite do seu umbigo. Em níveis normais, é a mesma classe que venera Lily Marinho e Hebe Camargo, freqüenta a ilha de Caras e boceja nos concertos da Sala São Paulo. Em níveis patológicos, é a classe que põe fogo em índio, bate em doméstica, atira ovos do apartamento e adora ser flagrada em suas peripécias amorosas.

Por outro lado, em sua sinceridade (muitos diriam “autenticidade”) planejada ou não, Wilma Magalhães espelha em suas palavras a busca pela ostentação, a frivolidade festiva, o novo "homem ideal", a atração alcoólica, o pensamento irrefletido, o desejo de auto-promoção de muita gente, não importa a classe social.