25 fevereiro, 2008

Leonardo Gonçalves: Viver e Cantar - I



Há cantores cujas gravações vão além do proselitismo religioso. Eles unem alta qualidade temática e artística. A exigência estética está junto com a eficiência da prédica. O título Viver e cantar, CD de Leonardo Gonçalves, expressa uma compreensão religiosa de vida cristã e adoração. Daí, talvez, o título não ser “viver OU cantar”, mas “viver E cantar”. Ou seja, o cantar-adorar não é uma opção entre vida e adoração. É viver em adoração.


O CD se divide em três partes. A primeira é uma sequência de canções sob o título História da Redenção. A seguir, vem a sequência intitulada Relacionamento com Deus, e uma última série designada Louvor e Adoração. Aqui, o entendimento teológico é luminar: o ser humano é salvo por Deus, relaciona-se com Ele e então O adora. A concepção bíblica de adoração, ou seja, o ato de louvar a Deus não é uma oferenda petitória para que o homem seja salvo. Antes, é exatamente por causa dos atos salvíficos de Deus já realizados é que o homem O louva.


História da Redenção.
Cada uma das cinco canções introduz um ponto doutrinário/teológico importante: a entrada do pecado no mundo, a morte sacrificial de Cristo, Sua ressurreição libertadora, Seu segundo advento e a esperança de vida eterna no céu. O álbum apresenta não somente a teologia cristã, mas também a teleologia bíblica. Isto é, a noção de finalidade, de propósito na história humana na Terra, que se dirige à resolução última de todos os conflitos.


A primeira música, É preciso apenas crer, tem a função de prólogo. A primeira frase é cantada em uníssono, reforçando o sentido da sentença inicial que diz Como por “um” homem o pecado começou. Daí em diante, entra um quarteto vocal que remete à música gregoriana na primeira estrofe e a padrões vocais modernos na parte seguinte. Talvez sem o perceber, os arranjadores iniciam o cd com vários símbolos indicativos de incoatividade (palavrinha difícil que diz respeito às “primeiras ações”): a gênese histórica (a entrada do pecado), o número “um” em Por um homem o pecado começou e Por um homem a salvação entrou, um só cantor gravou as quatro vozes do quarteto – o próprio Leonardo -, a primeira nota da música é dó (nota-símbolo inicial da escala musical) e a tonalidade da música se inicia em dó menor (o acorde final tem resolução em Dó Maior).


Moriá (Daniel Salles), a próxima canção, consegue abranger toda a simbologia cristã do sacrifício expiatório de Cristo. A música aponta para a prefiguração da morte sacrificial de Jesus na substituição de Isaque, filho de Abraão, por um cordeiro. Como diz a letra, Naquele dia o filho escapou e o cordeiro morreu em seu lugar.


A segunda parte fala da morte vicária de Cristo na cruz, morrendo como remissão dos pecados humanos. A letra da canção diz: Naquele dia, o cordeiro escapou e o Filho morreu em meu lugar. A didática bíblica é exemplar ao mencionar que no Moriá (monte do sacrifício de Abraão) Deus revelou o que faria séculos depois na cruz do Calvário.


Na parte final, o cantor, acompanhado por um coral, abandona a zona de conforto das notas musicais da região média e vai em direção às notas da região aguda. Na parte mais alta da música, voz e letra representam o maravilhamento humano diante da Redenção. A melodia se encerra habilmente num retorno à região média inicial após transcorrer toda uma gama de emoção costurada em tensão com a didática racional da letra.


Explicando: se a canção nasce da transformação da fala cotidiana em canto, podemos dizer que a subida dos tons na voz e os sons hiperagudos são o resultado do completo afastamento das regiões da fala. Isso funciona como um recurso musical próprio do transbordamento dos sentimentos e afetos humanos.


A terceira canção trata de um narrador que foi testemunha da morte de Jesus – o personagem diz que viu Os cravos em Suas mãos, o Seu corpo a sofrer, numa explícita referência à canção "Getsêmani", do 1º cd de Leonardo Gonçalves. A melodia expressa melancolia e uma quase resignação do narrador.


A segunda estrofe traz outro estado de espírito, agora confiante e feliz. Na repetição do refrão, Leonardo ganha a companhia vocal do quarteto Communion, que assume a condução da música enquanto a voz principal se dedica às notas mais agudas. Dessa vez, a liberdade de si mesmo (parafraseando o "já não sou mais eu quem vivo, mas Cristo vive em mim") é ressaltada pelos melismas do cantor.


O 2º cd de Leonardo apresenta um caráter judaico constante ao longo das canções. Há uma recriação musical do tradicional estilo melódico judaico: a faixa Nachamu, nachamu -, e uma música com base no modelo literário dos salmos: a canção Salmo (Gerson Salcedo). A música Ele virá (do próprio Leonardo) é um ponto de referencialidade judaica do álbum: na letra, vemos o tradicional modelo hebraico-profético de listar trechos bíblicos para corroborar um discurso - a canção cita passagens literais de Apocalipse 14:7, 12 e 15:3; na melodia, ouvimos trechos ao estilo judaico; e no arranjo instrumental, percebemos a rítmica moura (o violão percussivo e o recurso das palmas lembram a sonoridade ibérica do flamenco, mas no contexto relaciona-se a aspectos rítmicos do Oriente Médio).


Quanto à performance vocal, percebe-se que o molde dos melismas de Leonardo está inspirado no canto judaico. Ele utiliza esse recurso passando milimetricamente pelas notas das escalas musicais das regiões árabes e palestinas, por exemplo.


Na parte final da letra, as certezas da parte cantada dão lugar às dúvidas da parte recitada. O uso do condicional “se” no trecho falado reforça o estado de insegurança e hesitações espirituais vivido. Ao mesmo tempo, ouve-se repetidamente a expressão Ele virá. Esse vocal é de caráter grave e até solene e dá a entender que o narrador experimenta um conflito interno, dividido entre a certeza cantada da volta de Cristo e a dúvida falada tipicamente humana.


O acompanhamento instrumental vai se intensificando em proporção à ascendência e ao volume da voz recitada e do vocal cantado. A tensão dúvida/certeza é dissolvida pela esperança de ver a Cristo sem medo (vou vê-lO naquele dia sorrindo, termina a letra) e pela resolução instrumental serena.


Esta canção é fundamental para a compreensão das intenções da produção do cd Viver e cantar. O cd apresenta uma grande variedade de recursos e temas só na parte inicial. Temos a tradição judaica e a certificação cristã no retorno de Jesus à Terra. Os sentimentos humanos vão da dúvida à certeza. A voz do cantor vai da recitação verbal à expansão melódica. Os arranjos vão do estilo ocidental à musicalidade oriental.


O encerramento da sequência História da redenção só poderia ser com a descrição da eternidade concedida finalmente aos salvos, na canção Um dia. Toda a tensividade vocal e orquestral dá lugar a um quadro de placidez e quietude. Segundo um comentarista deste texto, tanto o uso da harpa quanto a suavidade de movimento melódico-harmônico estão, nesse arranjo, relacionados ao imaginário da atmosfera celestial da era medieval e ao sentido de perfeição da igreja da época. (Hoje, esta sonoridade está também associada à música minimalista e às paisagens musicais de relaxamento físico e mental). Importa, porém, a funcionalidade do arranjo e da canção ao usar modelos musicais e culturais variados.



Leonardo Gonçalves: Viver e Cantar - II



O álbum “Viver e cantar” propõe que o Relacionamento com Deus (tema da 2ª parte do CD) nasce do conhecimento da História da Redenção (ouvida na 1ª parte). A segunda parte abre com a declaração Conhecereis a Verdade, e a Verdade vos libertará.

A seguir, um vocal no estilo medieval repete a palavra “livre” enquanto um dueto canta frases como Livre dos meus preconceitos. Enquanto o dueto é cantado em terças, um outro vocal canta em quintas (um intervalo padrão do estilo gregoriano).

Uma composição de João Alexandre é que dá título ao CD. Essa canção usa o contraste entre cordas vigorosas e violão simples desde o início. Embora em certas passagens as cordas pareçam de muita pompa para a circunstância de simplicidade melódica da canção, elas dialogam com a música, inclusive citando trechos de outra canção do cd, Ele virá.

As duas músicas seguintes tratam da liberdade para se relacionar com um Deus que liberta o homem de seu pior inimigo: o próprio homem. Ambas as músicas, Livre sou e Livre, enfim, falam do desejo de Viver livre da culpa, da natureza pecaminosa, de andar com Cristo e, principalmente, e estar livre de si mesmo. Essa liberdade é a chave para se compreender o trabalho de Leonardo Gonçalves.

O segmento mais significativo da canção Livre sou ocorre quando a letra, a partir do verso Livre do sentimento de culpa, descreve a acentuada vontade do sujeito de ser livre, enfatizada por um aumento de sílabas que acabam por extrapolar a métrica tradicional. Na teoria da semiótica da canção, que estou usando parcial e pretensiosamente nesses textos, isso é resultado de um transbordamento tensivo do sujeito. O tamanho dos versos não é suficiente para conter seu transbordar do espírito.

A parte do cd intitulada Relacionamento com Deus termina com a calma Se tiveres paz (Cleverson Pedro), uma canção de cadências sem sobressaltos e que busca propiciar uma atmosfera de paz por meio da interpretação tranquila de Leonardo.


Leonardo Gonçalves: Viver e Cantar - III


A última parte do cd – Louvor e adoração – também começa com um interlúdio, de título Serviço. André Gonçalves, autor da música, escreve um belo arranjo a capella para as vozes cantadas por Leonardo. O arranjo é complexo e difícil mesmo para quatro cantores diferentes.



Em duas canções, Minha fortaleza e Salmo, a orientação do louvor e adoração parte da tradição judaica de fé e glorificação de Deus. Ambas estão claramente baseadas no livro dos Salmos, embora as letras não tenham a opulência metafórica dos originais bíblicos. Há também uma mudança de timbre na voz do cantor, de tons líricos e sem os habituais melismas.

A canção Obrigado (Samuel Silva) apresenta outra configuração, agora com ecos melódico-harmônicos do estilo Motown - um estilo, diga-se, fundamentado no gospel americano. Assim como a música seguinte (Somente a Ti, de Wendel Matos), a facilidade da melodia dá o tom de alegre reverência das modernas canções congregacionais adventistas.

Ao final do álbum, observa-se a marca mais importante de sua produção: seu sentido litúrgico. J. Von Allmen escreve que o sentido profundo do culto e da liturgia é a recapitulação da história da salvação. Ao recapitular a história da redenção, esse CD relembra o culto judaico-cristão e sua motivação pedagógica, missiológica e litúrgica.

O culto é uma devoção realizada como reconhecimento dos feitos divinos na vida individual e que a adoração é a resposta humana a esses feitos de salvação. Na sua divisão temática, o CD Viver e cantar segue essas interpretações.

Esse CD tem uma distinção lítero-musical que escapa do lugar-comum da mera colocação de letra religiosa sobre melodias de estilos populares da mídia. Antes, não há um gênero comum às canções – não é um cd de rock gospel, não é de “ministério de adoração”, não há baladas românticas. As melodias e arranjos parecem mais alinhados com a tendência da música alternativa ou independente contemporânea, que não busca alinhar-se a um gênero musical único, mas está em constante pesquisa de fontes sonoras. Isso leva a uma multiplicidade estilística (do coral gregoriano aos estilos modernos) e a uma capacidade de transcendência do padrão massificado de clichês melódicos e poéticos.

Nota-se também uma procura do cantor Leonardo Gonçalves para escapar do rótulo de artista. É que o termo “artista” está cada vez atrelado ao indivíduo transformado em ídolo, com direito a tratamento de popstar pelas mídias e pelos fãs. Embora o virtuosismo da sua voz melismática seja justificado pela adoção de estilos black norte-americanos, infelizmente isso também vem suscitando gritos histéricos de fiéis cada vez mais parecidos com o fã secular. Como a repetição dos melismas está sempre a um passo do maneirismo, e o maneirismo é o tique dos cantores, o recurso do melisma pode acabar sendo abandonado daqui a algum tempo (favor não achar que isto é uma profecia!).

O making of do CD é bem explicativo quanto às idéias centrais do álbum defendidas por Leonardo: suas entrevistas pessoais, a oportunidade dada aos compositores para que falem de seu processo de criação - uma valorização da figura quase sempre anônima do compositor -, a concepção de arranjo filmada nos estúdios e a sua declaração de amor à família, às tradições esquecidas e à música.

O álbum, em sua inteireza, nos faz ver que o artista Leonardo cede lugar ao artesão Leonardo. Artesão é o que procura tecer cuidadosamente cada minúcia de um objeto de arte, é aquele que trabalha nas filigranas invisíveis para o espectador, mas que salta aos nossos olhos e ouvidos se tivermos atenção.

20 fevereiro, 2008

A igreja eletrônica e a fé no mercado


O ano de 2008 já começa com mais um capítulo da batalha entre a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) e a mídia. Dessa vez, os fiéis estão movendo processos na Justiça contra os jornais Folha de S. Paulo e O Globo. A reportagem, mais uma que trata de corrupção em igrejas neopentecostais, refere-se à igreja como seita (cujo sentido pejorativo teria ofendido a fé dos membros) e levanta a hipótese de que o dízimo dos fiéis seria “esquentado” em paraísos fiscais (alguns fiéis entenderam que estavam sendo chamados de bobos ou alienados, o que consignaria ofensa moral).

Em que pese o tratamento claramente pejorativo (esse é o sentido mais utilizado da palavra seita – o conceito semiológico do termo não é comum) e a especulação jornalístico-investigativa, a reação da IURD, principalmente através da Rede Record, tenta deslocar a discussão das páginas policiais para a seção de cartas do leitor. Isto é, a defesa da igreja pode estar desviando o foco sobre um crime supostamente cometido por pastores fazendo parecer que seus fiéis é que são os suspeitos de corrupção.

Por outro lado, a mídia usa toda a sua massa de trabalho não apenas para desvendar casos de corrupção, mas também para invocar para si atributos inquestionáveis de liberdade de expressão. Às vezes, o faz com o discurso requentado de uma cruzada anti-censura.

A reportagem sobre a suspeita de faturamento ilícito da IURD coincide com a prisão do casal-líder da Igreja Renascer (apesar das provas factuais, os membros da igreja ainda alegam perseguição religiosa) e também com o avanço de alguns programas da Record sobre a grade de programação da Globo. A Record, apesar de ser uma TV de propriedade de uma instituição religiosa, tem montado sua programação noturna claramente baseada no padrão global – novelas e telejornais – e seus programas matutinos e dominicais tem batido consagrados teleshows da Globo. Vê-se, então, que a IURD-Record tem assimilado cada vez mais uma fé no mercado, disputando artistas e executivos com a Globo numa busca que, sem abdicar da igreja eletrônica e sua congregação, persegue a lógica de mercado e sua audiência.

No Brasil, as TVs revelam uma clara filiação religiosa. A maior rede brasileira cede espaço às grandes manifestações e festejos do catolicismo anual e à transmissão de missas locais e pronunciamentos papais. A Record, destaca sua origem mista de empreendimento neopentecostal (nas madrugadas - e parte da manhã em afiliadas) e organização empresarial (da alvorada à meia-noite). Mesmo as TVs públicas adotam o catolicismo tradicional em suas transmissões religiosas. Às igrejas protestantes e pentecostais sobram os escândalos sexuais e financeiros e nenhum proselitismo denominacional.

A Rede Record de televisão, comprada pela Igreja Universal em 1989 por 45 milhões de dólares em uma operação financeira contestada na Justiça, e o espantoso crescimento do neopentecostalismo trouxeram à IURD adversários religiosos e comerciais. A partir de 1990, programas jornalísticos da Globo começaram a denunciar a denominação evangélica.

1992: Edir Macedo foi preso, acusado de charlatanismo, curandeirismo e estelionato – sua prisão teve cobertura exclusiva da Globo. 1995: o auge do que a mídia chamou de “guerra santa”. Naquele ano, a Globo exibiu uma minissérie, Decadência, cujo protagonista era um pastor que liderava uma igreja com práticas desonestas. 12 de outubro, dia de N. S. de Aparecida: o bispo da IURD Sérgio von Helde aparece ridicularizando uma imagem tocando-a com pés e mãos. A cena, reproduzida exaustivamente pela Globo, foi apelidada de “chute na santa”. Embora a CNBB tenha reagido de forma conciliadora, a mobilização exaltada de católicos levou padres e bispos a celebração de missas e concentrações públicas de desagravo. Através da TV Record, a IURD respondeu acusando a Igreja Católica e a Globo de perseguição religiosa.

Em 22 de dezembro daquele ano, a Globo exibiu um vídeo em que líderes da Universal riam enquanto contavam dinheiro em um templo em Nova York, dançavam numa vigília no Rio de Janeiro e recebiam orientações de Edir Macedo sobre como pedir doações financeiras dos fiéis. A IURD reagiu tentando desqualificar tanto o ex-dirigente, Carlos Magno de Miranda, que teria levado a fita à Globo, como a edição feita pela mesma emissora.

O confronto entre as redes de TV foi atenuado no início do novo século e talvez esteja voltando à carga. Dessa vez, os recentes indícios e provas contra a idoneidade de líderes neopentecostais reacenderam a discussão sobre a legalidade do dinheiro usado em investimentos na Record. Assim, a viabilização financeira do canal Record News também teria origens escusas; os programas religiosos das madrugadas da Record, com exibição paga pela Igreja Universal, são questionados quanto à exorbitância financeira paga pela transmissão na própria Record e a quantia bem menor paga à TVs que transmitem o mesmo programa; suspeita-se da compra dos direitos de cobertura das Olimpíadas de 2012 e 2016 e da proposta financeira astronômica de compra dos direitos da Copa do Mundo e do Campeonato Brasileiro – embora a proposta da Record fosse maior, a Globo ficou com os direitos exclusivos de transmissão das competições futebolísticas.

Enquanto se questiona a má-fé e os interesses seculares de líderes da Universal, alguns membros – orientados pela igreja ou não – parecem ofender-se com o tratamento da mídia e esquecem que a investigação não é sobre a origem do dízimo dos fiéis, mas o provável desvio ilícito que o dinheiro estaria tomando. Cabe lembrar que a perseguição religiosa no passado era por questões de fé e doutrina e não por denúncias de corrupção ativa da liderança protestante e pentecostal – não que os líderes da época fossem todos de boa-fé.

Porém, há que se refletir sobre outros sinais:

- entre os anos de 1960 e 1980, os programas evangélicos televisivos apresentavam duas marcantes características: 1) privilégio de cultos e pregações com ênfase nas experiências de cura e na proposta de salvação em Cristo; 2) centralização no tele-evangelista – personagem carismático portador das promessas de saúde e redenção. Atualmente, a programação está calcada em padrões seculares com ênfase no entretenimento. Na TV neopentecostal, o conteúdo deixa o modelo milagres/salvação para dar proeminência à pregação da prosperidade financeira e da guerra espiritual e o telepastor perde espaço para pastores-cantores (a contrapartida católica são os padres-cantores);

- a programação evangélica de rádio, TV e mídia impressa (com raras e devidas exceções) não enfatiza o conhecimento objetivo doutrinário, a Igreja ou uma possível adesão a ela, mas a experiência religiosa mediada pela TV, conduzindo ao cultivo de uma religiosidade autônoma, intimista e individualizada (1);

- a inserção das instituições religiosas na lógica do capitalismo globalizado é observada não só por sua presença na mídia, mas também na prática religiosa cotidiana, em que a imagem tem grande valor na promoção de cantores e do discurso neopentecostal. O destaque é a fórmula do show, no qual a pregação didática dá lugar à pregação de modelo avivalista, o culto tradicional racional em demasia cede lugar ao outro extremo do culto emocionalista e extático, o ‘momento do louvor’ tem uma duração privilegiada na programação-apresentação;

- a organização da igreja eletrônica também recorre a técnicas do marketing agressivo e competitivo. Os produtos (CDs, livros, filmes, roupas, acessórios) são repetidos com slogans como: presenteie seu pastor, fique mais perto de Deus com o produto x. Produtos como o celular "Fiel" da Ericsson – o celular para quem acredita no poder da palavra e que oferece serviços como ringtones de hinos e “caixa de promessas” eletrônica; a linha Blessed – o cosmético abençoado, cujo texto publicitário diz: “agora você, que é raça eleita e sacerdócio real, pode usufruir o que há de melhor com Blessed cosméticos”; de adesivos para o carro à cartões de crédito, de xampus e perfumes “Beleza Cristã” à passeios turísticos, a fé no mercado é tal que todos os produtos, ao receberem o selo gospel, são vendidos como abençoados e assim recebidos pelo consumidor.

O panorama atual permite ver que o confronto religioso está atrelado ao conflito comercial entre denominações religiosas e empresas de comunicação, chegando até ao âmbito judicial. Na igreja eletrônica, o indivíduo é estimulado ao consumo por meio de uma conjugação entre proselitismo religioso e publicitário. O embate já atinge um nível em que se transforma numa disputa por um composto de audiência, congregação e clientela, com o espectador transformado em fiel e o fiel transformado em consumidor.
Para saber mais:
Assman, Hugo. A igreja eletrônica e seu impacto na América Latina.
Campos, Leonildo. Teatro, templo e mercado.
(1) Cunha, Magali. As igrejas e o uso da rádio e da TV.

15 fevereiro, 2008

Ronaldo: Fenômeno pela própria natureza

Primeiro, foi chamado de Ronaldinho, diminutivo que se adequava bem ao adolescente tímido e goleador. Depois, apelidado “Fenômeno” pela imprensa européia, esse aposto logo cinzelou-se como sobrenome, em parte devido à sagração de outro Ronaldinho, o Gaúcho.

A alcunha de “Fenômeno” nasceu da constatação de que o jovem e recém-campeão do mundo de 94, ao marcar tentos inenarráveis, ao desconcertar zagueiros com sua ginga, ao transpor os umbrais da grande área com assombrosa velocidade, não era um atleta ordinário. Ele só poderia ser extraordinário, uma legítima manifestação de uma força da natureza, enfim, um fenômeno.

Os números afogam qualquer contador: campeão do mundo aos 17 anos, vice-campeão aos 21, de novo campeão mundial aos 25, maior goleador em Copas do Mundo com 15 gols aos 29 anos. As cifras pecuniárias, um capítulo à parte. Bem como os casamentos fracassados (sorte no jogo,...). Eis um Fenômeno do futebol, da conta bancária, da mídia.

Entretanto, sua história de vida, sim, atesta que se está diante de um fenômeno. Sua trajetória dentro e fora de campo é cercada por aqueles fatores que, se acontecem num livro ou num filme, chamamos de “excesso de ficção”, ou de ato de “forçar uma barra” com o intuito pouco nobre de nos levar à emoção mais desabrida.

Descontando sua infância e adolescência de parcas condições de sobrevivência nos bairros desfavorecidos em que morou, o menino já era de estirpe incomum. Foi driblando os outros meninos e a falta de grana pra passagem de ônibus que o pequeno fenômeno chegou a um grande clube que o projetou nacionalmente. Resultado: revelação do Brasileirão aos 17 anos e contrato para jogar na Holanda.

Até aqui, a história tem contornos de capítulos iniciais pouco dados a surpresas e súbitas emoções. Tudo sorri para o menino que aos 20 anos é eleito o melhor jogador do mundo, agora no Barcelona da Espanha. Em 1996, uma contusão o deixa fora de campo por dois meses. Mas isso não impede que seja reeleito o melhor do mundo no ano seguinte.

Com apenas 21 anos, Ronaldo se vê entre cifrões no banco e infiltrações no joelho, entre carrões e copiadores de seu cabelo raspado e no olho do tsunami de pressão na Copa da França, em 98. Parece demais para o guri, que desmorona horas antes da grande final e depois ao vivo com todo o time durante o jogo.

Após o mal esclarecido e retumbante malogro, Ronaldo era dado como desaparecido. Ele volta timidamente, como um adolescente desentrosado, dessa vez, na Inter de Milão. Mas (na vida de Ronaldo, o “mas” é uma constante pouco variável), seu joelho não suporta e o faz passar cinco meses longe dos convidativos gramados italianos. Aumentam as vozes que agouram seu retorno.

A reestréia, em 2000, é rápida, mas não indolor: com apenas 11 minutos em campo, Ronaldo sofre rompimento total do tendão patelar do joelho direito. Em português: a morte para o futebol assistida via satélite. O final feliz de um grande craque se torna remoto e um novo retorno é improvável.

Dois anos se passam e Ronaldo ressuscita na Copa do Japão e da Coréia: campeão outra vez. Quatro anos após um fracasso, providencialmente Ronaldo tem a chance de reescrever sua história numa final de Copa do Mundo. No seu choro infantil à beira do campo, suas lágrimas são pela batalha pessoal vencida com todos os gols. A ficção não faria melhor.

No Real Madri, Ronaldo é uma estrela na galáxia onde brilham Roberto Carlos, Beckham, Raúl e, se não pode vencê-lo, Zidane. Mas, nem tudo que reluz é ouro e, com lampejos de pisca-pisca, a constelação vira um buraco negro que traga o Fenômeno consigo. Para piorar, seu tempo de recuperação de contusões é demorado e inversamente proporcional ao tempo que consegue ficar casado.

Se a noiva se lhe escapa, nem a sorte no jogo lhe consola. Ronaldo conserva a fome de gols na sua quarta Copa do Mundo, mas o Brasil sucumbe diante da França. Ronaldo, dizem, não é mais uma força da natureza. No máximo, uma brisa que não incomoda o adversário. Seu peso (ou excesso de) é motivo de escárnio. Sua morte é anunciada de novo.

Muda de ares, vai para o Milan, onde encontra um ambiente que favorece seu (inesperado? Ainda não aprenderam?) renascimento. Ovacionado outra vez, sugerido até, vejam só, para a seleção brasileira. Se a vida parece bem, é hora do “mas”: rompimento total do tendão patelar do joelho direito (os casos de rompimento bilateral são raríssimos. Até nisso ele é fenômeno). Os obituários do futebol já lavram a ata.

Antes, Ronaldo tinha pelejas a vencer. Hoje, o guerreiro já ganhou do mundo tanto o maravilhamento pelo atleta que ele é quanto a admiração pelo homem que refaz sua sina. Mas ele quer encerrar a carreira com um boletim médico? Deseja um final mais feliz para o filme de sua vida?

Ronaldo já voltou tantas vezes da morte anunciada que não surpreenderá se retornar, bem, fenomenalmente. E se quiser parar, não será a morte. Ao contrário, sua estrada de infortúnios e glórias logo se transmudará em mito no qual os descrentes do futuro só crerão porque sua fé está firmada no YouTube.

Mesmo que se diga que lições de vida descambam para o melodrama, não resisto a afirmar que Ronaldo é um fenômeno de persistência, de superação. Já que a maioria não pode jogar como ele, que se busque a mesma resiliência, que se ouse superar o passado pela alteração do próprio destino.



11 fevereiro, 2008

Quem tem medo de música clássica?


Esse texto podia ter como título “Música clássica vs. Música pop”, pois é como os fãs de ambos os estilos parecem entender a música: como um confronto direto por espaço junto a Vossa Excelência, o espectador. Talvez o único espaço onde o clássico e o pop realmente estejam em intrépida batalha pelo nosso apreço seja o espaço virtual das lojas on-line de venda de música. E aí temos uma disputa um tanto injusta, porque se alguém quiser escolher duas ou três canções de um cd pop, gastará de 5 a 7 reais em média. Mas se outro ou o mesmo alguém preferir uma sonata, pagará os mesmos 5 a 7 reais, mas terá apenas uma música, a menos que se queira comprar apenas um movimento de uma sonata.

Isso mesmo: na hora de aplaudir a sonata ao vivo, deve-se aplaudir somente ao final do último movimento da peça, e nunca-jamais entre o primeiro e o segundo movimento, pois a peça ainda não acabou. Ao final, se aplaudiu apenas uma peça. Porém, na hora de comprar a mesma sonata, o escambo on-line divide os movimentos dando um preço para cada um deles. Como se vê, aplausos não conquistam descontos.

Alguém pode dizer que a peça clássica:
1) tem um valor cultural agregado superior à canção pop – se compararmos a sonata Waldstein, de Beethoven, com o cd as 10 Mais do Caldeirão do Huck vol. 3, a gente entende; por outro lado, três canções do álbum Elis & Tom valem bem mais que 10 cds do André Rieu, o Richard Clayderman do violino;

2) possui menos compradores, o que inflacionaria o mercado – o grupo New York Dolls é menos conhecido do que Mozart, mas isso não influi na hora da compra a não ser que a gravação do Dolls seja de canções inéditas desenterradas dos anos 70 e a de Mozart seja a enésima interpretação da Pequena Serenata Noturna por uma orquestra paraguaia (se for de regência de João Carlos Martins, o cd inflaciona mesmo);

3) não interessa ao público jovem, o maior alvo das gravadoras – só quem nunca foi a um concerto pode dizer uma insanidade dessas. As propagandas criaram um perfil etário em que a música clássica só é ouvida por idosos e os mais jovens só escutam hip-hop. É mais fácil ver uma velhinha rebolar ao som do Bonde do Tigrão do que um jovem se encantar com Stravinski. Entretanto, de São Luís a São Paulo, pude observar gente como menos de 25 anos participando de um concerto (no palco ou na platéia), pesquisando nas universidades, comprando cds eruditos (ô, palavrinha), enfim, mostrando um interesse perene ainda que pouco notado.

É difícil engolir termos como música de concerto ou, pior ainda, música erudita – quanto cd rotulado de pop também não apresenta farta erudição? Embora uma vez ou outra eu ainda use os termos referidos, ainda utilizo com mais freqüência o termo música clássica. Aí, vem a pergunta: como ampliar o público de música clássica?

Digo ampliar porque não quero crer que a música clássica contemporânea tenha que ficar reduzida a experimentações cerebrais apresentada a meia dúzia de eleitos. Nesses concertos, uma parte do público entende porque a música é assim, outra parte não entende porque tem que ser assim, e todos fingem que gostaram. Fica parecendo uma exposição de arte contemporânea: nem sempre dá pra saber quando é arte ou quando é charlatanice. Ou só falta de criatividade mesmo.

Por vezes se acusa a OSESP de promover um repertório muito conservador. Noves fora a necessidade de se atender ao gosto médio dominante de seus assinantes (o que não deixa de ser bom também, convenhamos), Arvo Päart, Ratauvaara já estiveram na Sala São Paulo, e no último concerto de 2007 houve a estréia da peça Crase, de Flo Menezes, reconhecidamente um dos nomes mais significativos da música contemporânea. Claro que nesse mesmo concerto tocou-se também a Nona Sinfonia de Beethoven, mas de alguma coisa se precisava atrair o público. E a Nona uma por ano nunca será demais.

Segundo o crítico Greg Sandow, uma das propostas já em ação nos Estados Unidos, é aquela que une o melhor dos dois mundos. Isto é, no mesmo show ou concerto, há música clássica contemporânea e música popular alternativa ou indie (ou crossover). No Brasil, pode-se tocar músicas de Ronaldo Miranda e Rodolfo Coelho de Souza e na segunda parte um concerto de André Mehmari ou Marcos Nimrichter. Ou então começar com lieder (canções de câmara) de João Guilherme Ripper e encerrar o concerto com as vozes de Ná Ozzetti e Suzana Salles.

As possibilidades são muitas quanto os talentos que há. O que falta é vontade de agir e um tanto assim de dinheiro. Às vezes, nem é o dinheiro, mas persistência. E sem um pouco de persistência ninguém segura esse rojão.


Greg Sandow fala mais sobre clássico e pop aqui.

07 fevereiro, 2008

Os hits e os invasores de ouvidos


Certo indivíduo trabalha 8 horas por dia, gasta mais duas (ou três, depende da velocidade e da distância) no deslocamento casa-trabalho-casa, faz suas refeições, abluções e higiene pessoal. Claro que no trabalho sempre sobram cinco minutinhos para passar 3 horas pendurado no MSN, mas isso já é caso para o RH de sua empresa.

O que interessa é que durante o dia ele já escutou muita música, principalmente o último refrão axé-forró-funk da moda. Em casos passíveis de cura, essa escuta foi involuntária, já que seu espaço sonoro foi invadido por seres humanóides de voz eletronificada, cabelos tingidos e uniformes de paquita – se você não notou qualquer semelhança com Joelma do Calypso e congêneres, então você já foi abduzido.

Se ainda não foi vítima dos invasores de ouvidos, você pode reconhecer alguns sinais desses alienígenas. Por exemplo, eles se comunicam muito por vogais, tipo “aê, aê, aê”, “eô, eô” e costumam obedecer cegamente a uma voz de comando mil vezes repetida em suas assembléias: “tira o pé do chão!”. Faltaram as vogais: “tira o pé do chão aí!!!”. Se você sentiu um comichão nas pernas e uma súbita vontade de gritar “Ivete, eu te amo”, então pode esquecer, já era, Deus o tenha.

Se alguém reclamar que essa música é só pra se divertir, então peça pra ele se divertir em volume mais baixo. Aliás, peça com carinho. Pensando bem, melhor não pedir nada. Os abduzidos pelos invasores de ouvidos demonstram reações adversas quando são contrariados e têm o péssimo hábito de amplificar ainda mais o som que sai das profundezas (ou fossas) do porta-malas. Se for arriscar uma queixa, verifique antes se o veículo dele possui a inscrição “Fui!”, e/ou “Sou chicleteiro” ou dizeres afins. Em caso de sim, é provável que os escutadores estejam apreciando uma marca de cerveja sem nenhuma moderação e você estará sujeito ao ridículo do risco de morte causada por uma ridícula discussão por causa de uma ridícula música.

Poderia ser pior. Você poderia ter passado o carnaval em Salvador, lugar em que todas as músicas do mundo foram cantadas em ritmo de axé; em alguma capital nordestina, onde até a junk-music da Jovem Pan vira forró eletrônico dos Aviões, Cavaleiros e qualquer outro substantivo acompanhado do termo “do forró” (procure não saber como é a versão daquele hit dos anos 80, “Forever young”); em Belém, onde tudo que os Midas das aparelhagens gigantes tocam vira tecnobrega (só a Regina Casé recomendaria a versão de “Crazy”, do Gnarls Barkley); ou no Rio, lugar onde quem não gosta de funk nem de samba-enredo, bom sujeito não é.

Você já está pensando que esse é o pior dos mundos, eu sei. Mas tem ainda o resto do ano para a cornidão sertaneja, que assim como o axé, parece feito de isopor e, portanto, não é biodegradável e vai durar mais que o Fidel. Como tudo o que está ruim sempre pode ficar pior, tem o pagode do Armandinho em ritmo de reggae - Deus pode ter desenhado a namorada dele, mas só o cão pra misturar pagode com reggae, mastruz com leite e chiclete com banana.

Não adianta dizer que prefere rock. Metade da turma que me fala isso é fã de bandas com nome de marca de celular (NXZero, CPM-22) ou de engodos como Cachorro Grande (a canção “Você me faz acreditar” é um dos objetos sonoros mais infames dos últimos milênios. Parece com rock gospel ou é o rock gospel que parece com ela?). Mas essa é a prova cabal de que a MTV também foi abduzida. Se bem que, tirando a Marina Person e a turma do Rockgol, já dava pra desconfiar. Ou você achava que Cicarelli, Penélope e Marcos Mion eram terráqueos?

Mas vai ver que os invasores de ouvidos é que são da Terra e, pra ficar nos vivos, Chico, Roberta Sá, Paulinho da Viola, Mehmari, Yamandú, Calcanhoto, Zizi, Ivan Lins, Nelson Freire, Teresa Cristina, Paulo Moura, Baleiro e Francis Hime é que são os alienígenas. Caetano e Tom Zé só podem ser resultado do único cruzamento interplanetário que deu certo.

Por fim, enquanto os antropólogos decidem se ainda existe noção de bom e ruim (alguns deles defendem que toda cultura é intrinsecamente boa), eles, que costumam estudar essa turma, podiam pedir pra que se pelo menos baixasse o volume do som.