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Mostrando postagens de Agosto, 2008

A moderna canção cristã e a bossa nova

O que a canção cristã feita no Brasil poderia aprender com a cinqüentenária bossa nova? Vou responder indicando os traços de seletividade estética que caracterizaram a consolidação do estilo bossa nova. O estudioso da canção popular Luiz Tatit aponta o processo de “triagem” como uma das marcas centrais do processo que gerou a bossa nova (daqui em diante chamarei de BN). A “triagem” consiste em filtrar elementos cancionais (como melodia, arranjo, interpretação) e conteúdos de tradição e modernidade a fim de estabelecer um outro parâmetro de composição e performance musicais. No caso da BN, veremos como tradição e renovação foram assimiladas e dali se extraiu componentes de indelével qualidade.

1) Valorização equânime dos parâmetros musicais

Na BN, a integração entre melodia, harmonia, ritmo, arranjo e interpretação não sobrevaloriza nenhum desses aspectos em detrimento do outro. Se na música popular anterior à BN o componente melódico-rítmico era comumente realçado através do vozeirão,…

Lições olímpicas

Terminadas as escaramuças esportivas, é hora de fechar a conta, passar a régua e descobrir se algum saldo nos resta no anticlímax do encerramento das festividades olímpicas. Aí vão algumas conclusões apressadas desse web-escriba cujo sono, sempre mais intenso que o brio patriótico, se não permitiu que assistisse as raras conquistas douradas também evitou a contemplação dos tantos fiascos.

Medalha de ouro em bronze: o amigo que mumificou-se frente à TV durantes as madrugadas ainda com problemas para ajustar o fuso horário: 8 horas de sono. A amiga que estragou a franja descabelando-se pelo Brasil: 3 horas de salão. Ver a máquina brasileira de chegar em terceiro lugar: não tem preço. Noves fora as brincadeiras, ficamos na frente da Argentina e da Suíça no quadro de medalhas. E atrás de Jamaica, Romênia e Etiópia. Ficar em 23º lugar no ranking olímpico não é nenhuma vergonha. Ruim é ser o 70º no ranking de Desenvolvimento Humano.
A questão é que esses três últimos países investem no que te…

Música de sala de estar

“Uma tendência aparentemente unânime parece redirecionar todo o estilo novo a uma espécie ordenada de variações de gêneros que flutuam entre o kitsch e o eletrônico em modalidades que vão da bossa nova ao funk: confinada a desfiles de moda, raves ou lounges em ilhas sugestivas, a música moderna é um mantra de muzaks. Suas referências são como um sonho digital que faz com Percy Faith, Mantovani, o período de Ray Conniff na Columbia, os Boston Pops e a Mystic Moods Orchestra um looping infinito em que o que era a lassidão de uma estética de coquetel passa a ser reinterpretado como a sensualidade anestesiada de uma disposição alucinadamente cool. É uma música que confunde deliberadamente o fundo e a figura tentando criar um hiato diabólico entre o som e sua experiência direta: se todo envolvimento pessoal ou afetivo insinuado pelo muzak clássico devesse ser filtrado por mecanismos que reduzissem cada insinuação a uma sugestão quase secreta, hoje todos pretendem assumir como um princípio…

EUA e China: assim caminham os impérios

No melhor estilo China, o espetáculo de abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim foi um primor de criatividade e excelência artística. No pior estilo China, o mesmo espetáculo mostrou seu lado fajuto de imitação e seleção ariana. Os fogos de artifício que pareciam pegadas no ar eram imagens pré-gravadas; as 56 crianças que representavam as 56 etnias que habitam no país na verdade eram todas de uma etnia apenas – ou seja, a democracia racial chinesa era fajuta até na ficção do espetáculo.

Mas nada se compara ao uso de uma cantora falsa naquela abertura. E não estou falando de Sarah Brightman, por favor. Mas, convenhamos, seria bem pior se ela cantasse balançando no trapézio como nos seus shows. Mas voltemos ao espetáculo made in China. A voz que cantou a música “Ode à Pátria” durante a cerimônia de abertura não era de Lin Miaoke (à direita na foto), de nove anos. A garotinha estava apenas dublando. “Queríamos passar uma imagem perfeita e pensamos no que seria melhor para a nação”, disse o…

Se é Phelps, é bom

Jim Phelps coordena uma tropa de elite escolhida por suas diversas habilidades em tecnologia, lutas e disfarces. Essa equipe secreta forma o núcleo de ação de Missão Impossível, série exibida nos EUA entre 1966 e 1973 e uma lucrativa franquia com Tom Cruise nos últimos doze anos. A função dos agentes era infiltrar-se em nações que ofereciam perigo à ‘segurança nacional’ e em organizações criminosas que pretendiam dominar o mundo. Assim como Pinky e Cérebro, todos os inimigos-alvo viam seus planos serem frustrados. No caso da série, Jim Phelps e seus agentes sempre triunfavam.


Michael Phelps saiu da piscina para entrar na história. Após quatro anos de vida monástica e treinos cientificamente estudados, o nadador tornou-se o maior atleta olímpico de todos os tempos. Superando os geniais compatriotas Mark Spitz e Carl Lewis (deste eu me recordo nas Olimpíadas de Los Angeles-84), Phelps assombrou as platéias na última semana ao ganhar todas as oito medalhas de ouro que disputou em Pequim.…

A república musical

A influência de Platão (428/27-347 a.C.) sobre o pensamento ocidental é indiscutível. Para Alfred North Whitehead (1861-1947), toda a filosofia não passaria de uma nota de rodapé a Platão. Já Aristóteles (384-322 a.C), o brilhante aluno de Platão, também deixou um importante legado filosófico, principalmente em questões de ética e lógica. Estarei viajando durante essa semana e deixo os amigos leitores em muito melhor companhia. As citações a seguir foram extraídas do pensamento de ambos os pensadores gregos sobre a função da música e a relevância da educação musical.

Platão - República, 399 E, 400 A – B. (Damon e a educação)
“A seguir às harmonias, devemos tratar dos ritmos – não os procurar variados, nem pés de toda espécie, mas observar quais são os correspondentes a uma vida ordenada e corajosa (...). Sobre esse assunto (...) pediremos conselho a Dâmon [Damon], sobre os pés adequados à baixeza e à insolência, à loucura e aos outros defeitos, e os ritmos que devem deixar-se aos seus …

Ética e estética nas Olimpíadas do espetáculo

Na primeira vez que vi e ouvi as cataratas do Iguaçu cheguei a gravar o som das águas com o intuito de fazer uma peça no estilo música concreta-eletro-acústica. Tinha até nome: Iguaçu Sound System. Mas outras prioridades (além da baixa qualidade da gravação) me fizeram esquecer do projeto. Me lembro de ver o sol nascendo na foz do Rio Amazonas. Todo aquele rio-mar, o esplendor daquela bola de fogo surgindo, e eu ali, na proa do barco. Mas são obras da natureza, que me fizeram desejar ser o salmista.

O espetáculo de abertura da olimpíada de Pequim foi uma cascata de surpresas, um rio de encantamento que, dirigido pelo mestre cineasta Zhang Yimou, foi capaz de emocionar gente de qualquer parte do planeta. Quem conhece a obra de Yimou sabe que ele é criador de cenas que parecem tableaux vivant. É só lembrar de filmes como Lanternas Vermelhas, Herói ou o belíssimo O Clã das Adagas Voadoras. Ele é um cineasta que compõe cenas em que os gestos, os movimentos e o figurino dos personagens se …

Você não tem esportiva?

Todo esporte tem seu encanto. Até o golfe. Mas o futebol fascina tanto porque é imprevisível. No futebol, um time chamado “pequeno” pode bater o chamado “grande”, um time ganhando por dois gols pode levar uma virada inesquecível, o craque pode negar fogo na hora H e o anônimo reserva adversário pode virar o herói do título. Ok, tudo isso acontece nos outros esportes coletivos também. Mas o futebol ainda tem duas singularidades. A primeira é ser um esporte com o maior número de falastrões por metro de grama: Romário, Túlio Maravilha, Vampeta, Luxemburgo, Leão, Maradona... Olha o Renato Gaúcho, técnico do Fluminense.

Quando eliminou o Boca Juniors na semi-final da Libertadores, ele cravou: “Boca Juniors, muito prazer, Fluminense!”. Perguntado porque seu time ia mal no Campeonato Brasileiro, ele respondeu: “Os outros times estão a 5.000 km da próxima Libertadores; eu estou a 5 metros!”. E assim, a dois passos do paraíso, Renato e seus tricolores conheceram, muito prazer, a LDU, perderam e…