29 agosto, 2008

A moderna canção cristã e a bossa nova

O que a canção cristã feita no Brasil poderia aprender com a cinqüentenária bossa nova? Vou responder indicando os traços de seletividade estética que caracterizaram a consolidação do estilo bossa nova. O estudioso da canção popular Luiz Tatit aponta o processo de “triagem” como uma das marcas centrais do processo que gerou a bossa nova (daqui em diante chamarei de BN). A “triagem” consiste em filtrar elementos cancionais (como melodia, arranjo, interpretação) e conteúdos de tradição e modernidade a fim de estabelecer um outro parâmetro de composição e performance musicais. No caso da BN, veremos como tradição e renovação foram assimiladas e dali se extraiu componentes de indelével qualidade.

1) Valorização equânime dos parâmetros musicais

Na BN, a integração entre melodia, harmonia, ritmo, arranjo e interpretação não sobrevaloriza nenhum desses aspectos em detrimento do outro. Se na música popular anterior à BN o componente melódico-rítmico era comumente realçado através do vozeirão, da orquestração pomposa e da “cozinha percussiva”, na BN instrumentistas e cantores não prevalecem uns sobre os outros, o que deixa pouco espaço para estrelismo e exibicionismo técnico. Segundo Rocha Brito , a valorização do cantor acontece na medida em que ele co-participa da elaboração musical, seguindo o conceito de que ele existe em função da obra e não para afirmar sua personalidade sobre ela. A performance na BN é uma maneira de assegurar a realização coletiva em vez do brilho individualista.

2) Recusa do efeito grandiloqüente e do arroubo operístico

Ao contrário da maior parte do pop/rock, que se caracteriza pela busca de virtuosismo e de efeitos de arrancar suspiros, a BN renuncia ao arrebatamento vocal e aos efeitos de forte contraste. Não há pianos velozes, guitarras em disparada, viradas homéricas de bateria, cantores em rodopios, cantoras em figurinos extravagantes. O intérprete não se opõe à banda. E mesmo o arranjo não se sobressai, acompanhando a proposta de contenção de sons e gestos da BN.
O operismo virtuosístico das obras do Romantismo eram bastante reproduzidos na música popular brasileira até o surgimento da BN. Os reis da voz carregavam nas tintas melodramáticas e no “canto soluçado”, na “lágrima na voz”. Embora Elis Regina levasse esse estilo de cantar quase ao paroxismo, uma boa leva dos cantores populares abraçou a proposta da BN de cantar sem afetação, sem malabarismos, sem a busca do efeito dramático (nos anos 60 e 70, Roberto Carlos fazia o estilo BN de cantar em suas canções românticas).

3) Integração não-ideológica da canção nacional com os estilos internacionais

O pensamento de revitalização dos estilos típicos nacionais esteve em questão no período pós-bossa (1965-1979). Ai dos pianistas e guitarristas, ai das melodias sob a influência estrangeira. Essa orientação musical xenófoba, herdeira do pior da ideologia nacionalista, ressaltava que nosso céu é mais azul e nossa música regional era a mais bela, não porque fosse intrinsecamente bela, mas simplesmente porque pertencia ao que chamavam de ‘povo brasileiro’. Ainda bem que essa demagogia cultural, que adentrou as portas de igrejas católicas e protestantes por um bom tempo, não ocorria com tanta força nos anos 50 e hoje caiu na obscuridade.

Na BN, a importação de procedimentos musicais (harmonia jazzística, interpretação cool) coexistiu com a adoção de estilos regionais brasileiros. Assim, a tradição melódica/rítmica do samba de Noel Rosa, Geraldo Pereira e Dorival Caymmi se integra à modernidade harmônica/vocal de Gershwin, Chet Baker e Mel Thormé. Os inventores da BN foram, durante os anos 50, agregando material local e internacional sem, contudo, redundar em mera mimetização de estilos já consagrados ou da moda recente. O processo de triagem eliminou características que não se conformavam aos seus princípios de elaboração musical, o que resultou na “batida diferente”, num estilo diferenciado. Foi, portanto, reduzindo a canção e sua interpretação ao essencial melódico, rítmico, instrumental e interpretativo das experiências musicais que conheciam e optando pela simplicidade expressiva que a BN deu um “salto qualitativo” reconhecido aqui e no exterior.

* * *

Podemos lembrar da aparente simplicidade das letras da bossa nova, do romantismo respeitoso de Vinicius aos poemas metalingüísticos de Newton Mendonça passando pelo engajamento de Carlos Lyra. Mas fica pra outro texto.

Antes de concluir, quero deixar claro que, embora a BN seja o estilo mais elegante e comedido da música brasileira, não é intenção do meu texto discutir que gênero é bom ou não para as denominações cristãs. Considerei aqui princípios norteadores de seleção de parâmetros musicais. E ainda, lendo que a BN pautou-se pela contenção lírica e pela renúncia ao efeito virtuoso, posso até ouvir dois ou três leitores reunidos apontando esse texto como crítica pessoal a alguns cantores cristãos. Mas basta clicar no link da seção ‘gospel’ do meu blog e ler as análises de cds para entender meu pensamento em relação ao assunto ‘performance’.

As letras da BN focalizavam o “o amor, o sorriso e a flor” em temas melódicos suaves e ondulantes como o “macio azul do mar” em que um barquinho deslizava. Mesmo ao dizer “que tristeza não tem fim, felicidade sim”, a melodia não era um pote até aqui de mágoa. A sinuosidade melódica e a dissonância harmônica restringiam o exaspero por parte do cantor. Porém, mesmo a BN capitulou quando o golpe militar fez com que alguns compositores e cantores percebessem que a leveza da BN não rimava com os anos de chumbo que viriam e aumentaram o volume do protesto. Infelizmente, a flor dava lugar ao fuzil.

Na música cristã, os temas falam não apenas de conversão e comunhão, temas estes que podem ser cantados sem maiores arroubos. Porém, os conteúdos que rememoram o sacrifício de Cristo na cruz ou que antecipam cenas da segunda vinda de Jesus dificilmente podem ser cantados sem o extravasamento emocional que perpassa pela voz. Pode-se desgostar de certos exageros e trejeitos chamativos, mas é preciso levar em conta a tentativa de transmitir o sentimento e a mensagem do verso cantado.

Voltando à pergunta inicial, “o que a canção cristã feita no Brasil pode aprender com a bossa nova?”, a resposta está nas entrelinhas das características que citei acima. Para ser uma música relevante, a canção cristã não precisa desprezar a tradição em favor do modismo mais imediatista, nem tampouco rejeitar a musicalidade moderna invocando uma discutível pureza das tradições musicais.

Os músicos cristãos precisam saber o que e por que escolher os elementos da tradição sacro-musical e como introduzi-los em seus hinos e canções. Não é o caso de somente regravar o consagrado em nova roupagem, mas de dar continuidade à história da música protestante orientando-se por princípios gerais e não por modelos circunstanciais. A triagem, para a música cristã, se faz necessária porque essa música pretende divulgar uma mensagem de clara oposição ao pensamento secular. O pensamento de que o componente melódico-rítmico é apenas um meio de apresentar letras religiosas é um equívoco. A canção é também a performance vocal e instrumental, a poética e o estilo, além de ser representativa do contexto em que se manifesta.

Sabemos que compor ou cantar sem ser alcançado pelos “disparos do front da música pop” é tarefa inexeqüível. Mas cabe aos compositores, cantores e produtores a procura por filtrar as informações e experiências musicais, submetendo-as ao estudo e à triagem, a fim de construir canções e interpretações que, ao mesmo tempo, façam sentido para sua geração e expressem novidade de valor e diferença à altura dos conteúdos cristãos que prezam.




Luiz Tatit, O século da canção.


Rocha Brito, em O balanço da bossa, de Augusto de Campos.

26 agosto, 2008

Lições olímpicas


Terminadas as escaramuças esportivas, é hora de fechar a conta, passar a régua e descobrir se algum saldo nos resta no anticlímax do encerramento das festividades olímpicas. Aí vão algumas conclusões apressadas desse web-escriba cujo sono, sempre mais intenso que o brio patriótico, se não permitiu que assistisse as raras conquistas douradas também evitou a contemplação dos tantos fiascos.

Medalha de ouro em bronze: o amigo que mumificou-se frente à TV durantes as madrugadas ainda com problemas para ajustar o fuso horário: 8 horas de sono. A amiga que estragou a franja descabelando-se pelo Brasil: 3 horas de salão. Ver a máquina brasileira de chegar em terceiro lugar: não tem preço. Noves fora as brincadeiras, ficamos na frente da Argentina e da Suíça no quadro de medalhas. E atrás de Jamaica, Romênia e Etiópia. Ficar em 23º lugar no ranking olímpico não é nenhuma vergonha. Ruim é ser o 70º no ranking de Desenvolvimento Humano.
A questão é que esses três últimos países investem no que tem de melhor, não importa se é em velocidade ou ginástica. Todas as suas medalhas são em uma ou duas modalidades. O Brasil, que caiu na conversa de Duque Estrada de que é um gigante pela própria natureza, investe um pouco em tudo e acaba chorando o quase e o nada. Agora é fazer pressão para que o Comitê Olímpico admita novos esportes, como: corrida contra o salário, tiro a esmo, revezamento de banqueiro preso, saque de merenda escolar e o tradicional cancelamento de celular.

Medalha de ouro não cai do ‘cielo’: o ouro-medalhista César Cielo venceu Michael Phelps na única prova que o americano não disputou. Ufa! Mesmo sem o apoio dos Correios, que não quis investir em um atleta que fosse treinar fora do Brasil, valeu ter ido morar nos Estados Unidos, onde foi o melhor nadador universitário. Treinos duríssimos, vida monástica, determinação e grande talento é o conjunto de forças fizeram o campeão. O investimento no esporte ainda é pífio aqui na Terra de Vera Cruz. Séculos de rapina dos cofres públicos, intolerância à punição e mais a horda de degradados que iniciou a exploração do terreno não poderiam fazer dos tupiniquins uma legião vencedora. Viramos uma monocultura futebolística que tardiamente percebeu que, nessa terra, em se patrocinando todo esporte dá. Não acho que a escola tenha que se tornar um centro de formação de atletas. Mal conseguimos formar o pacato cidadão, imagine uma fornada de Isinbayevas e Phelps.
E o apoio quase sempre chega depois. Lembremos de Joaquim Cruz, ouro nos 800 metros em Los Angeles-84, a quem quiseram dar uma casa pela sua performance de ouro: “Não, obrigado. Já tenho uma casa. Quando eu precisava, não me deram”.

As musas do Galvão: de vovó Olga à Dona Terezinha, Galvão Bueno deixava o atleta de lado e torcia pelos parentes do atleta. O homem que solicitava ao torcedor pensamento positivo e força mental via satélite para nossa delegação na China estava num frenesi contagiante. Também, passar duas semanas ouvindo os trocadilhos do Régis Roesing e as crônicas do Pedro Bial deixa qualquer um gritando “vovó Olga, vovó Olga” em vez de “Céééésar Cielo do Brasil”.

Dunga e os onze anões: a festa abriu-se como num conto de fadas. Cantores de mentirinha e promessas de ouro, muito ouro para a China. Mas o sonho de conquistar a medalha de ouro no futebol olímpico para o Brasil fica adiada outra vez. Em pesquisa realizada por estas plagas, 101% dos torcedores responderam afirmativamente a única alternativa do questionário: “Dunga não é técnico nem aqui nem na China”.

Emagrecer é preciso. Ganhar também: enquanto vimos a extraordinária Yelena Isinbayeva batendo recordes ao encolher a barriga para superar o sarrafo no dificílimo salto com vara, Ronaldinho Gaúcho correu contra a balança para estar em forma em Pequim, mas não levou o ouro no futebol masculino. Assim, perde-se uma chance de grande valor pedagógico para Ronaldo Fenômeno, que a essa altura já deve estar pensando se vale a pena tanto esforço para voltar a jogar.

O Brasil olímpico é uma mulher: como no Pan do Rio-2007 (leia meu comentário aqui), o Brasil olímpico foi das mulheres. Desde as inconsoláveis Jade Barbosa, a menina capaz e triste, e Fabiana Murer (Tutty Vasques, do Estadão, aposta que o mesmo ensandecido que empurrou o maratonista Vanderlei Cordeiro da Silva em Sydney-04 foi quem escondeu a vara de nossa saltadora); passando por Marta, Cristiane e Formiga do futebol, as meninas do vôlei, Natalia Falavigna, Keitlyn Quadros e Maurren Maggi. Mulheres que desafiam a gravidade, a distância, a maternidade, a tripla jornada de mulher, mãe e atleta de alto nível.

Medalha de choro olímpico: nosso primeiro choro foi o do ex-favorito João Derly, o judoca que trapaceou no amor e recebeu seu castigo no tatame pelas mãos do ex-amigo ferido e trapaceado (e que ambos negaram após os jornais portugueses publicarem o caso). Servirá o esporte para vingança em legítima defesa da honra? Mas, veja só que o campeoníssimo Michael Phelps e o sobrenatural Usain Bolt não choram. Até porque não perdem. Tudo bem que nem todos são como Daiane dos Santos, para quem a tênue fronteira entre o triunfo e o fracasso não vale uma crise de choro. Mas para a Globo, não é suficiente ver nossos atletas ganharem ou perderem uma disputa. Nessa hora, sai a precisão de repórteres como Sônia Bridi e Marcos Uchôa e entra a mistura de novela com jornalismo. É preciso mostrar a família enternecida, é preciso perguntar pelo passado do atleta, fazê-lo lembrar-se de que deixou os amados em terras distantes para lutar por um povo sofrido cujo único orgulho são seus locutores e atletas. Se não chorar, não vale ouro.

A quem chegou em Pequim e viu seus sonhos desmoronarem em quedas e tropeços, é lembrar que não existe nada como uma Olimpíada depois da outra. Aqui e agora, uma frase como essa não tem a menor serventia. Mas quem sabe num pódio daqui a quatro anos, ou em uma outra competição, veremos esse atleta naquele ato tão contraditoriamente belo: chorar de alegria.

22 agosto, 2008

Música de sala de estar

“Uma tendência aparentemente unânime parece redirecionar todo o estilo novo a uma espécie ordenada de variações de gêneros que flutuam entre o kitsch e o eletrônico em modalidades que vão da bossa nova ao funk: confinada a desfiles de moda, raves ou lounges em ilhas sugestivas, a música moderna é um mantra de muzaks. Suas referências são como um sonho digital que faz com Percy Faith, Mantovani, o período de Ray Conniff na Columbia, os Boston Pops e a Mystic Moods Orchestra um looping infinito em que o que era a lassidão de uma estética de coquetel passa a ser reinterpretado como a sensualidade anestesiada de uma disposição alucinadamente cool. É uma música que confunde deliberadamente o fundo e a figura tentando criar um hiato diabólico entre o som e sua experiência direta: se todo envolvimento pessoal ou afetivo insinuado pelo muzak clássico devesse ser filtrado por mecanismos que reduzissem cada insinuação a uma sugestão quase secreta, hoje todos pretendem assumir como um princípio estabelecido o fato de que qualquer envolvimento não é só antiestético; é imoral. A música moderna pretende transformar o mundo todo numa sala de estar.”

Sérgio Augusto de Andrade


to be continued

19 agosto, 2008

EUA e China: assim caminham os impérios

No melhor estilo China, o espetáculo de abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim foi um primor de criatividade e excelência artística. No pior estilo China, o mesmo espetáculo mostrou seu lado fajuto de imitação e seleção ariana. Os fogos de artifício que pareciam pegadas no ar eram imagens pré-gravadas; as 56 crianças que representavam as 56 etnias que habitam no país na verdade eram todas de uma etnia apenas – ou seja, a democracia racial chinesa era fajuta até na ficção do espetáculo.

Mas nada se compara ao uso de uma cantora falsa naquela abertura. E não estou falando de Sarah Brightman, por favor. Mas, convenhamos, seria bem pior se ela cantasse balançando no trapézio como nos seus shows. Mas voltemos ao espetáculo made in China. A voz que cantou a música “Ode à Pátria” durante a cerimônia de abertura não era de Lin Miaoke (à direita na foto), de nove anos. A garotinha estava apenas dublando. “Queríamos passar uma imagem perfeita e pensamos no que seria melhor para a nação”, disse o diretor musical Chen Qijang.

A voz original pertence a Yang Peiyi (à esquerda), uma menina gordinha, de sete anos e com os dentes fora do lugar, e claro que ninguém se importou com a frustração da criança. “Era uma questão de interesse nacional. A criança tinha de ser expressiva”, justificou Chen. Vemos, assim, que a frase de Samuel Johnson é de aplicação universal: “O nacionalismo é o último refúgio dos canalhas”. Na adaptação de Millôr, é o primeiro.

Mas, calma aí. Andam acusando a China de converter o mundo numa Grande Calçada da 25 de Março quando muito brasileiro não se segura quando vê uma promoção de dvds a 1 real no camelódromo mais próximo, não resiste a um Stand Center (se você não conhece, o Stand Center é uma espécie de Zona Franca da China no coração da Avenida Paulista).

Reclama-se da falsidade dos brinquedos chineses, mas poucos alimentos são mais fajutos do que um BigBob ou Big Mac com Coca-Cola, e resistir quem há de?

Os espetáculos chineses são fajutos? O que dizer, então, da falsidade dos reality shows americanos? E o que são as cópias brasileiras de musicais de Andrew Lloyd Webber, o papa do american brega? E a dupla Milli Vanilli, que teve que devolver os prêmios que recebeu porque eram dublês de cantores? E a fajutice ridícula de rappers e roqueiros que denunciam o consumismo e o preconceito vestidos com bermudão de marca e mostrando a indefectível cueca de marca?

O Ocidente civilizado e democrático denuncia a política chinesa de direitos humanos? Mas, e a terra sem lei de Guantánamo? E as expulsões de estrangeiros na Europa? E o assassinato de crianças dentro de carros por policiais cariocas? Como no Oriente, no Ocidente costuma-se usar a defesa do bem coletivo para casos de 'segurança nacional'. Quando você ouvir falar em assuntos de segurança nacional pode apostar que sangue, inocente ou não, já está sendo derramado.

A China suprime sites de oposição ao governo e também reprime a violência pornográfica de games? Mas o que são os políticos ocidentais que desviam verbas destinadas à escolas e tramam projetos auto-beneficiários senão cruéis atores de ladroagem pornográfica.

Critica-se o uso demagógico do confucionismo na China. E o que é o uso demagógico do marxismo pelos partidos de esquerda no Ocidente? E o abuso demagógico e marketeiro do cristianismo pelo carismatismo católico e pelos políticos neopentecostais?

A China resolveu deixar de ser colônia e agora quer ser império. Os impérios são assim: escravocratas, exploradores e ufanistas. Assim como a China moderna remove florestas e montanhas para fazer avançar seu projeto econômico-industrial, assim foram Roma na antigüidade, Portugal e Espanha na América, Holanda e Inglaterra na África. E amanhã, a supremacia chinesa vai fazer a gente sentir falta do tempo em que estávamos à sombra de Tio Sam? Qual será o menos pior? O império repressor do dragão chinês ou o império do lobo fundamentalista norte-americano que finge ser um cordeiro liberal?

Aguardem.

17 agosto, 2008

Se é Phelps, é bom

Jim Phelps coordena uma tropa de elite escolhida por suas diversas habilidades em tecnologia, lutas e disfarces. Essa equipe secreta forma o núcleo de ação de Missão Impossível, série exibida nos EUA entre 1966 e 1973 e uma lucrativa franquia com Tom Cruise nos últimos doze anos. A função dos agentes era infiltrar-se em nações que ofereciam perigo à ‘segurança nacional’ e em organizações criminosas que pretendiam dominar o mundo. Assim como Pinky e Cérebro, todos os inimigos-alvo viam seus planos serem frustrados. No caso da série, Jim Phelps e seus agentes sempre triunfavam.


Michael Phelps saiu da piscina para entrar na história. Após quatro anos de vida monástica e treinos cientificamente estudados, o nadador tornou-se o maior atleta olímpico de todos os tempos. Superando os geniais compatriotas Mark Spitz e Carl Lewis (deste eu me recordo nas Olimpíadas de Los Angeles-84), Phelps assombrou as platéias na última semana ao ganhar todas as oito medalhas de ouro que disputou em Pequim. E o que parecia uma real missão impossível virou um feito espetacular.

Essa trajetória única corre o risco de virar mais um filme baseado em fato real – ainda mais se contarmos com a infância desacreditada do atleta contraposta ao seu destino glorioso. Ou, como uma autêntica celebridade moderna, tornar-se ele mesmo um astro das telas, como Michael Jordan e Shaquille O’Neal (ou o campeão mundial Chuck Norris). Se lembrarmos que nas Olimpíadas de 1924 e 1928 o também nadador Johnny Weissmuller ganhou cinco medalhas de ouro, bateu os recordes das provas que disputou e depois se transformou no Tarzan dos cinemas nos anos 30, ninguém pode dizer que Michael Phelps não deixará a marca de seus infindáveis braços na Calçada da Fama hollywoodiana.


David Phelps não está em cartaz no cinema nem nas raias olímpicas. A qualidade desse Phelps é outra: sua voz (há também um homônimo americano escultor). David Phelps é um cantor gospel muito admirado no meio cristão. Particularmente, eu aprecio o período em que ele era o primeiro tenor do quarteto Gaither Vocal Band, em que cantava com impressionante vitalidade os agudos das belas canções do casal Bill e Gloria Gaither.

Ao lançar-se como solista, David Phelps alcançou um público no mínimo menos conservador do que aquele do centro-sul americano, haja vista o estilo mais pop que apresenta (noves fora o upgrade na aparência). Embora se possa notar diferenças no caráter de sua interpretação ao longo dos anos, quando as canções e o gestual eram mais comedidos (diferença bem visível entre os dvds I Do Believe/1997 – com o quarteto - e Legacy of Love/2006 – solo), sua voz permanece cativante e suas performances de “The end of the beginning”, “These are they”, “More than ever”, “Let Freedom Ring” e da já clássica “No more night”, são inesquecíveis.
Plagiando aquela propaganda, se é Phelps, é bom.

12 agosto, 2008

A república musical

A influência de Platão (428/27-347 a.C.) sobre o pensamento ocidental é indiscutível. Para Alfred North Whitehead (1861-1947), toda a filosofia não passaria de uma nota de rodapé a Platão. Já Aristóteles (384-322 a.C), o brilhante aluno de Platão, também deixou um importante legado filosófico, principalmente em questões de ética e lógica. Estarei viajando durante essa semana e deixo os amigos leitores em muito melhor companhia. As citações a seguir foram extraídas do pensamento de ambos os pensadores gregos sobre a função da música e a relevância da educação musical.

Platão - República, 399 E, 400 A – B. (Damon e a educação)
“A seguir às harmonias, devemos tratar dos ritmos – não os procurar variados, nem pés de toda espécie, mas observar quais são os correspondentes a uma vida ordenada e corajosa (...). Sobre esse assunto (...) pediremos conselho a Dâmon [Damon], sobre os pés adequados à baixeza e à insolência, à loucura e aos outros defeitos, e os ritmos que devem deixar-se aos seus contrários”

424 C: [Sócrates]: “deve-se ter cuidado com a mudança para um novo gênero musical, que pode pôr tudo em risco. É que nunca se abalam os gêneros musicais sem abalar as mais altas leis da cidade, como Dâmon afirma e eu creio”.

401 D: [Sócrates]: : Não é por este motivo, ò Gláucon, que a educação pela música é capital, porque o ritmo e a harmonia penetram mais fundo na alma e afectam-na [sic] mais fortemente, trazendo consigo a perfeição, e tornando aquela perfeita, se se tiver sido educado”?

410 A: [Sócrates]: “No entanto é evidente que os jovens se precatarão da necessidade de justiça, se cultivarem aquela música simples, da qual dissemos que gerava a moderação”.


Aristóteles - Política, livro VIII, II, 1337b-1338a

“Pode-se dizer que há quatro ramos de educação atualmente: a gramática, a ginástica, a música e o quarto segundo alguns é o desenho; a gramática e o desenho são considerados úteis na vida e com muitas aplicações, e se pensa que a ginástica contribui para a bravura; quanto à música, todavia, levantam-se algumas dúvidas. Com efeito, atualmente a maioria das pessoas a cultiva por prazer, mas aqueles que a incluíram na educação agiram assim porque, como já foi dito muitas vezes, a própria natureza atua no sentido de sermos não somente capazes de ocupar-nos eficientemente de negócios, mas também de nos dedicarmos nobremente ao lazer, pois – voltando mais uma vez ao assunto – este é o princípio de todas as coisas. (...)”

“Por esta razão os antigos incluíram a música na educação, não por ser necessária (nada há de necessário nela), nem útil no sentido em que escrever e ler são úteis aos negócios e à economia doméstica e à aquisição de conhecimentos e às várias atividades da vida em uma cidade (...) nem como nos dedicamos à ginástica, por causa da saúde e da força (não vemos qualquer destas duas resultarem da música); resta, portanto, que ela seja útil como uma diversão no tempo de lazer; parece que sua introdução na educação se deve a esta circunstância, pois ela é classificada entre as diversões consideradas próprias para os homens livres.”

Política, livro VIII,V,1339b

“Nossa primeira indagação é se a música não deve ser incluída na educação, ou se deve, e em qual dos três tópicos que já discutimos sua eficácia é maior: na educação, na diversão ou no entretenimento. É necessário incluí-la nos três, e ela parece participar da natureza de todos eles. A diversão visa ao relaxamento, e o relaxamento deve ser forçosamente agradável, pois ele é um remédio para as penas resultantes do esforço; há consenso quanto ao fato de o entretenimento dever ser não somente elevado, mas também agradável, pois estas são duas condições para a felicidade. Ora: todos nós afirmamos que a música é uma das coisas mais agradáveis, seja ela apenas instrumental, seja acompanhada de canto, (...), de tal forma que também por este motivo se deve supor que a música tem de ser incluída na educação dos jovens.”


Acima, Platão e Aristóteles em detalhe de A Escola de Atenas, quadro de Rafael Sanzio. Qualquer semelhança de Platão (à esquerda) com Leonardo da Vinci não é mera coincidência, mas uma homenagem de Rafael ao genial colega. Leonardo seria, então, mais que símbolo de homem da Renascença, aquela criatura capaz de dominar tantas áreas do conhecimento humano (física, geometria, arte, culinária e até os primórdios da fotografia),

08 agosto, 2008

Ética e estética nas Olimpíadas do espetáculo

Na primeira vez que vi e ouvi as cataratas do Iguaçu cheguei a gravar o som das águas com o intuito de fazer uma peça no estilo música concreta-eletro-acústica. Tinha até nome: Iguaçu Sound System. Mas outras prioridades (além da baixa qualidade da gravação) me fizeram esquecer do projeto. Me lembro de ver o sol nascendo na foz do Rio Amazonas. Todo aquele rio-mar, o esplendor daquela bola de fogo surgindo, e eu ali, na proa do barco. Mas são obras da natureza, que me fizeram desejar ser o salmista.

O espetáculo de abertura da olimpíada de Pequim foi uma cascata de surpresas, um rio de encantamento que, dirigido pelo mestre cineasta Zhang Yimou, foi capaz de emocionar gente de qualquer parte do planeta. Quem conhece a obra de Yimou sabe que ele é criador de cenas que parecem tableaux vivant. É só lembrar de filmes como Lanternas Vermelhas, Herói ou o belíssimo O Clã das Adagas Voadoras. Ele é um cineasta que compõe cenas em que os gestos, os movimentos e o figurino dos personagens se juntam às cores e aos enquadramentos de câmera para formar um mosaico de grande plasticidade.

Observando a movimentação e a composição de luzes, cores e gente, vi a imensa capacidade que a arte e a tecnologia (e a dinheirama pra providenciar tudo aquilo) têm de nos deixar embevecidos. Posso resumir minhas impressões em três pontos:

1) A tecnologia a serviço da grande arte chinesa: a projeção de imagens no centro do estádio Ninho de Pássaro, como se o campo servisse de tela de cinema, e na parte superior da arena, onde o ex-ginasta Li Ning (foto acima) dava uma volta olímpica espacial para acender a tocha dos jogos; os fogos de artifício desenhando pegadas no espaço; o formidável aparato de luzes projetadas sobre os corpos dos bailarinos; pessoas andando de cabeça para baixo no globo representando o planeta.

2) A harmonia das coreografias: barcos, remos, a pomba da paz, o próprio Ninho de Pássaro (foto),tudo formado por um mar de gente sincronizada (no Ocidente, nos perguntamos do rigor da disciplina a que teriam sido submetidos os participantes). Porém, aquela construção humana de tipos móveis, de movimentos tão perfeitos que se poderia julgar que tudo não passava de projeções criadas em computador, foi uma visão de surpreendente e rara beleza. Os dez divulgados meses de ensaios proporcionaram cenas de maravilhamento.


3) O gigante e o herói: no desfile burocrático dos atletas nacionais, a comitiva da China, última a entrar no estádio, trazia como porta-bandeiras o gigante Yao Ming e, ao seu lado, o menino Lin Hao, de apenas 9 anos (foto abaixo). Yao Ming, de 2, 26 m, joga basquete nos EUA e é filho do casal mais alto da China (o casamento de seus pais teve a “coordenação” e a benção do Partido Comunista do país). O pequeno Lin Hao tornou-se herói nacional durante o terremoto que abalou a província de Sinchuan ao ajudar no resgate de seus colegas soterrados cantando enquanto esperavam socorro, voltando ao local destroçado para resgatar outros dois amigos e andando com a irmã por 7 horas até encontrar a família. Enquanto o famoso jogador representava (in)voluntariamente as estratégias chinesas para entrar na arena esportivo- econômica mundial, o menino traduzia o heroísmo da vida comum.

Embora ouçamos os relatos das derrotas sociais da história chinesa (e que a China nomeia de ‘período da vergonha’), o espetáculo, evidentemente, saltava essas épocas e celebrava a invenção da pólvora, do papel, dos tipos móveis e da bússola. Afinal, foram 100 milhões de dólares genialmente usados para o show - um grãozinho perto dos 40 bilhões gastos para incrementar e maquiar a cidade.

Se operários foram mandados de volta ao campo para não poluir mais a cidade, se o comércio da falsificação é feito sem pudor nos shoppings, se há um uso do confucionismo para obediência irrestrita à política do partido, o espetáculo e os jogos irão, além de nos emocionar, camuflar as trevas sociais e oferecer por algumas semanas a doce ilusão da tolerância e da paz na terra e aos jogadores e torcedores de boa vontade.


E viva o espírito olímpico!

05 agosto, 2008

Você não tem esportiva?

Todo esporte tem seu encanto. Até o golfe. Mas o futebol fascina tanto porque é imprevisível. No futebol, um time chamado “pequeno” pode bater o chamado “grande”, um time ganhando por dois gols pode levar uma virada inesquecível, o craque pode negar fogo na hora H e o anônimo reserva adversário pode virar o herói do título. Ok, tudo isso acontece nos outros esportes coletivos também. Mas o futebol ainda tem duas singularidades. A primeira é ser um esporte com o maior número de falastrões por metro de grama: Romário, Túlio Maravilha, Vampeta, Luxemburgo, Leão, Maradona... Olha o Renato Gaúcho, técnico do Fluminense.

Quando eliminou o Boca Juniors na semi-final da Libertadores, ele cravou: “Boca Juniors, muito prazer, Fluminense!”. Perguntado porque seu time ia mal no Campeonato Brasileiro, ele respondeu: “Os outros times estão a 5.000 km da próxima Libertadores; eu estou a 5 metros!”. E assim, a dois passos do paraíso, Renato e seus tricolores conheceram, muito prazer, a LDU, perderam e já estão na rabeira do Brasileirão.

Mas o que se queria do técnico Renato? Que ele cantasse a mesma velha toada de “é, respeitamos o adversário mas vamos lutar pelos três pontos”, ou falasse academicamente coisas como “todos os times são dignos do triunfo e a hipotética supremacia de um dos lados não se dará sem renhido combate e demonstrações explícitas de unidade de pensamento na diversidade da técnica”.

Tem ainda as respostas dos jogadores. Só a baixa escolaridade e o nervosismo diante dos microfones não explicam a questão. Ou explicam?

Anos 60 - O radialista elogia o fôlego de Garrincha: “Puxa, como você corre! Parece que tem uns dez pulmões!”. E Garrincha: “Que nada! Tenho só um como todo mundo”.

Anos 70 - Valdomiro, salvo engano, respondendo ao repórter na chegada do Internacional no aeroporto de Belém do Pará: “É bom estar aqui na cidade onde Jesus nasceu”.

Anos 90 - Jardel, inquirido sobre a dureza do Gre-Nal da semana: “Clássico é clássico e vice-versa!”.

A última? No dia 31 de julho, após jogar bem e marcar um gol em sua estréia no Sport (vitória sobre o Ipatinga), Ciro, 18 anos, responde ofegante no fim do jogo: “A gente tem que ser ‘pessimista’ se quiser vencer!”. O companheiro de clube, Carlinhos Bala, não deixou por menos ao comentar os gritos eufóricos da torcida naquela noite: “Agora é assim, é essa idolatria. Mas tem que ter a ‘cabeça’ no chão pra não se perder!”

Jogadores também são seres humanos, ora, pois. E quem manda jornalista fazer sempre a mesma pergunta. Na hora de driblar a resposta-padrão, o jogador, que não é nenhuma máquina de elaboração de respostas, se arrisca na gramática e na sintática e, qual um Dadá Maravilha, o pioneiro, pode dizer de uma partida: “Se eles tem a problemática, eu tenho a solucionática”.

Nos esportes coletivos, o lema é conhecido: “Um por todos e todos por um”. Mas nem essa união toda supera o maior mérito e singularidade do futebol: o empate. Salvo em rodadas decisivas (oitavas, quartas, semi, finais), há uma chance de o jogo terminar sem vencedores. O dualismo vitória/derrota, dependendo das circunstâncias da torneio, é vencido pela singeleza do empate. A mentalidade de acirrada competição norte-americana nunca vai engolir o futebol como ele é. Por isso, o basquete tem quantas prorrogações forem necessárias para que haja um vencedor e um perdedor. Deve ser muito complicado entender que na vida podem coexistir dois vencedores ou dois derrotados.

Por último, vejamos a Fórmula 1, aquele esporte com as máquinas conduzindo o homem que pensa dirigir as máquinas. O cinema prevê a rebelião e o domínio das máquinas sobre o planeta, mas os delírios de conquista do computador HAL-9000 e dos Transformers são fichinha perto do que já acontece com os seres abduzidos pelo MSN e pelo celular. As máquinas plantam, colhem, dão de comer e botam pra dormir. Parecem infalíveis.

Contudo, quem achava que só o seu HD falhava nos momentos em que mais precisava dele, pôde suspirar aliviado quando viu o carro de Felipe Massa parando devagarinho a três voltas da vitória no GP da Hungria. Na hora foi duro, mas sempre é bom saber que as máquinas também são seres humanos.