23 novembro, 2007

da música, aos músicos


Para quem, esse ajuntado de palavras? Para quem, esses louvores terrenos?
A quem se destina a estrofe pequena? A quem, tal destempero de versos?

Às doze notas que mal aprendi
Às mil vozes que escutei
À canção que me balança a rede
À música que, mesmo quando o timbre é amargo,
Mesmo quando a paga não recompensa,
Me faz querer possuí-la na beira do ouvido,
Na ponta dos dedos, na margem da voz

Música não existe por si
Não é um ser não-gerado
Não é uma deusa incriada

A música precisa do músico para ser.

Mas ele não diz: Haja música.
Fica ali, na indecisão,
entre o som e o silêncio,
pois quer bem a ambos

Tudo o que ele toca vira música
Mesmo que chamem de barulho

Por isso:
Aos descobridores de melodias
Aos que com notas de afeto
desatam os nós escuros da alma alheia
e me fazem sorrir numa unhappy hour

Aos desafinados de bom coração
Aos desvalidos da canção reprimida
Aos festeiros da bossa triste
Aos amuados do acorde feliz

Aos que têm escala mas não têm escola
Aos que tangem uma viola
pra chamar a moça bonita
que ainda não sabe o que é mais belo:
Se o amor, se o sorriso, se a flor
Se luiz, se chico, se heitor

Aos endividados do ritmo
Aos dólarmente abençoados
Aos que fazem da costela do som
a música que nos beija a face

A eles, meus ouvidos reverentes.
E também a todo aquele que,
vivendo de uma sonata ao luar do sertão
ou de uma samba de um real só,
preferiu ser carpinteiro de ruídos

Joêzer Mendonça

19 novembro, 2007

Cap. Nascimento: nascido para matar?


Fascista, apólogo da tortura, defensor do estado policialesco. De todos esses nomes o Capitão Nascimento (em foto menos badalada ao lado), personagem do filme Tropa de Elite, já foi chamado. A crítica se dividiu. Uma parte enxergou o ditador Mussolini como diretor do filme, dada a sua suposta justificação da supressão de direitos pelo Estado. Outra parte concordava com a crítica do filme ao filósofo Michel Foucault e sua classificação do aparato ideológico do Estado. Que lado está certo? Há um lado certo, pelo menos?

Os que chamaram o filme de fascista demonstram desconhecer o que é arte fascista, segundo seus opositores. Qualquer arte subvencionada pelo totalitarismo, seja fascista, nazista, maoísta, revelaria um fascínio pelo exibicionismo físico, um apelo ao nacionalismo e um culto à personalidade. Porém, esses três fatores conjugados estão muito mais reforçados em filmes como Coração Valente, 300 ou qualquer patriotada protagonizada por Chuck Norris e Sylvester Stallone nos anos 80.

Em Coração Valente, Mel Gibson faz do herói escocês uma máquina mortífera que contribui para a mitificação (e culto) de William Wallace, um homem simples que apela aos instintos de nacionalismo de seus homens para defender sua terra. Mas é fascista? Em 300, a Batalha das Termópilas vira um desfile de escola de samba com suas deturpações históricas em favor do enredo e com sua folclorização dos persas de acordo com uma mentalidade anti-oriental ou anti-árabe. Isso está mais próximo de uma arte que se poderia chamar fascista, embora a insistência em enquadrar os peitorais malhados dos soldados esteja mais para homoerotismo que para fascismo.

Comparou-se o Cap. Nascimento e sua violência com o John Rambo de Stallone. Rambo se arma na selva para capturar e executar os opositores do regime norte-americano sejam eles capitalistas ou não (no terceiro filme da série, Rambo vai ao Afeganistão enfrentar os comunistas e não Bin Laden, já que este ainda era aluno na escolinha de Tio Reagan). Por sua vez, o Cap. Nascimento se arma na selva de pedra para capturar e executar os traficantes, estejam eles no morro ou nos apartamentos.

O que alguns críticos notaram é que em Tropa de Elite há manifestação da brutalidade policial, mas ela não viria acompanhada de exibicionismo ou gratuidade. As cenas, em geral, são noturnas e escuras e parecem assinalar as trevas morais que circundam as ações de traficantes e policiais. O tratamento brutal é dispensado tanto às gangues do morro quanto aos estudantes endinheirados que freqüentam as universidades particulares, e o que é pior, matriculados nos cursos de direito.

Também não há no filme um apelo ao nacionalismo. Aliás, a guerra é contra a corrupção policial e a devassidão ética. É aqui que o diretor José Padilha precisou tomar partido. Caracterizando a polícia civil como quase que exclusivamente corrupta, o filme distingue o Bope como um batalhão policial formado por homens de retidão moral. Porém, esses mesmos homens mostram-se divididos quanto à extensão da brutalidade que vai dominando cada vez mais as ações do Cap. Nascimento, chefe das operações anti-tráfico.

As provas para a seleção dos candidatos ao BOPE são cruéis e humilhantes e se assemelham aos testes brutais do filme de Stanley Kubrick, Nascido para matar. Nesse filme, os recrutas passam por privações e provas que supostamente os tornariam aptos a encarar o front de batalha, no caso, o Vietnã. O título do filme em português (que deixou de lado o original, Full metal jacket) viria melhor com um ponto de interrogação no final. Porque, na verdade, observa-se que, apesar do intenso preparo para a guerra, nunca se está realmente preparado para o enfrentamento e o filme parece perguntar: o homem está pronto para a adversidade na guerra? O homem nasceu para matar, para tirar a vida de seus semelhantes por causa da desavença de seus líderes?

A demonstração de que o Cap. Nascimento não nasceu para matar advém do recrudescimento de seu descontrole durante as ações, da gradual insatisfação familiar com sua profissão e seus métodos de ação e da intensificação da violência nos interrogatórios (qual o método sem contra-indicações para conseguir informações vitais em situações-limite? Quando se pode dizer que uma dada circunstância é uma situação-limite?)

Houve parte do público que aplaudiu as cenas de tortura e execução. Mas, alguns críticos perceberam que esse público não teve capacidade de compreender o filme um pouco além do thriller bem-feito que aparenta ser. Isto é, Tropa de Elite não é nenhum tratado de sociologia, mas ao revelar os paradoxos de uma classe média-alta que sustenta o tráfico (crise moral coletiva) e as contradições de um policial à beira de um ataque de nervos (crise moral individual), demonstra que as discussões sobre direitos humanos estão permeadas de sociologismo barato – na desclassificação do dever policial – e que a instituição de defesa do cidadão, a polícia, de tal forma brutaliza seus homens, que estes, que não podem reconhecer a si como seres humanos, nunca poderão reconhecer o outro como semelhante também.

15 novembro, 2007

A Finlândia não traz felicidade

Você acredita que alguém sairia correndo ao término da leitura de Os sofrimentos do jovem Werther, de Goethe, e se atiraria do Viaduto do Chá-SP? Já é difícil acreditar que haja alguém lendo Goethe hoje em dia, mas arrazoemos um tantinho.

Na época do lançamento do livro do grande autor alemão, houve leitores que se identificaram tanto com o jovem Werther que começaram a deixar cartas de despedidas e se lançaram para fora desse mundo de meu Deus. Uns preferiram lê-lo e depois guardá-lo na estante, mas aqueles outros, não. Tinham que conservar-se “incontaminados”, tinham que morrer belos e jovens. Isso seria um lema do romantismo mórbido: “morra jovem, viva para sempre”. James Dean, Marilyn e muito roqueiro levou a frase a sério, em vez de guardá-la na estante ou devolver o livro emprestado que a continha.

Sabe-se que os leitores de Paulo Coelho e Danielle Steel não chegariam a tanto por causa da barafunda de idéias que leram num livro. Eles terminam um capítulo, ou no máximo viram algumas páginas, daí ligam uns para os outros para discutir as últimas tendências da primavera-verão ou então vão ver alguma terceira seqüência de um filme qualquer. Menos mal que não resolvem dar trabalho de propósito para os outros com toda aquela parafernália de polícia, legista, compra de terninho preto, óculos escuros decentes,...

O número de suicídios no Brasil ainda é baixo em nível mundial (4,5 mortes por 100 mil habitantes; no Japão, a taxa é de 25 mortes), mas a pesquisa do Ministério da Saúde adverte que, em 2004, a taxa mais baixa de suicídio masculino era do Maranhão (2,3 mortes por 100 mil homens) e a mais alta era do Rio Grande do Sul (16,6 mortes, e sem piadinhas sexistas numa hora dessas). No geral, as taxas altas ficam na região Centro-Sul-Sudeste e as mais baixas na região Norte-Nordeste (o sertanejo de Euclides da Cunha é então um forte?). A pesquisa surpreende pelas altas taxas de suicídio entre os idosos, e idosos masculinos. Na maior parte por armas de fogo ou envenamento.

Mas estou falando do suicida exibido. Esse é sempre juvenil. Você já ouviu falar de um idoso ameaçando saltar de um parapeito ou indo até um centro da melhor idade e desferir tiros a esmo, matar uma velhinha de cabelo roxo e outra de calça de lycra – pode ser a mesma velhinha - e depois dar um tiro na cabeça branca?

Mas semana sim outra também há um jovem inconformado que quer ficar famoso sem ver a fama sangrenta que deixou. Outro dia, um finlandês desses que nascem e crescem abençoados pelo bem-estar social e educacional dos países nórdicos, quis transformar a humanidade exterminando-a. Pois aquele loiro vingador deixou um saldo fúnebre: matou colegas e também a si. Aí disseram que na Finlândia tem poucos dias de sol por ano e isso também causa depressão e... É porque não acredito em reencarnação, mas seria o caso desse depressivo vir na próxima como um sertanejo escravo dos coronéis do biodiesel pra ele ver o que é sol numa pele sem loção Johnson & Johnson. Um blog menos educado diria, “o raio ultra-violeta que o parta”.

Mas voltando ao viaduto do Chá, se alguém em momento pré-suicídio resolver sair de casa pra cometer esse ato desesperado, das duas, uma: ou ele mora na Zona Sul e vai ter que ir de ônibus ou mora próximo ao centro e pode ir até andando. Se ele tiver que ir de ônibus, tudo bem, ou tudo mal – porque fatalmente, quer dizer, possivelmente, ele vai ter muito tempo até chegar à estação final, quer dizer, último ponto, melhor dizendo, derradeiro destino, ok, desisto, não há termo melhor. Isto é, termo também significa fim, e não sei dizer se o quase-suicida chegará a bom termo.

Mas se ele morar perto do centro e for de carro ou a pé, e se o trânsito desvairado da Paulicéia não antecipar sua decisão de dar cabo da própria vida e ele chegar ao viaduto, pode-se aferir que o tal suicida chegou ao "locus mortis" a salvo mas nada são. Porque se são e lúcido estivesse, o eventual suicida veria o ridículo da sua atuação destemperada – se ele se imaginasse de quatro com a cabeça dentro do forno, ou como iriam achar erros gramaticais no seu bilhete de adeus-mundo-cruel, ou a cara da multidão esperando morbidamente pelo salto para então seguir com suas compras no camelódromo, é provável que desistisse.

Talvez ele pudesse ver um exibicionismo infantil, um complexo de vira-latas, uma tentativa sem retorno (ou sem feedback, diria a transeunte caloura de psicologia) de chamar a atenção com aquele salto. Sim, salto, porque aprendi que pulo é quando se tira os pés do chão e eles caem no mesmo lugar – o pular cordas. Já o salto é o aterrissar em outro lugar que não o chão de origem. Por isso, ninguém pode pular para a morte. A menos que queira ao mesmo tempo assassinar a si e a gramática.

07 novembro, 2007

O ano em que meus pais saíram de férias


Alvíssaras! Um filme nacional conseguiu o feito de ser exceção no reino dos filmes dominados por criancinhas com uma frase sempre pronta e genial na língua, com adultos sempre como vilões e castradores, com vovôs sempre doces e gentis, com engodos históricos. O filme O ano em que meus pais saíram de férias, de Cao Hamburger, reúne o habitual temático do gênero (criança forçada a amadurecer em meio a um evento da história, no caso, a ditadura militar), mas trata os temas com rara delicadeza.

No filme, um menino é deixado pelos pais na casa do avô dizendo que vão sair de férias e não podem levá-lo. Na verdade, os pais são alvos da perseguição política promovida pelo governo militar e precisam se esconder. A história se passa durante a Copa do Mundo de 1970, quando o Brasil de Pelé, Tostão, Gérson e Rivelino (este, sim, um quadrado mágico) sagrou-se o primeiro tricampeão de futebol.

Não preciso contar a história do filme. Basta dizer que a paixão do garoto por futebol, a sua convivência forçada numa comunidade judaica e a caça política oficial que sumiu com opositores do regime enquanto o país festejava a Copa, podem render lágrimas, é verdade. Mas o tratamento dado aos personagens, ao enredo e aos detalhes técnicos, revela um diretor dono de uma fina carpintaria cinematográfica, que não submete os personagens aos caprichos e projeções psicológicas do espectador, sabe pontuar a narrativa com doses equilibradas de tensão e humor, e entende a função da música dentro do filme (a trilha sonora chega ao requinte de contrapor-se dramaticamente à alegria de algumas cenas produzindo, assim, outro significado).

Esse filme é o oposto de Olga, cujo diretor, Jayme Monjardim, mais afeito às dramalhices de telenovela, submete os personagens (nesse caso, adultos) e seus calvários pessoais a um irrefreável desejo de comover o espectador a qualquer custo, o que inclui trair os acontecimentos históricos gratuitamente e usar a música de maneira intrusiva e redundante, como se gritasse através das notas, “chore agora”.

O ano em que meus pais... também é o oposto do filme A vida é bela, cujo diretor e ator principal, Roberto Begnini, mais afeito às parvalhices da comédia-pastelão, comete obviedades e leviandades. Obviedades na primeira parte, toda de uma comédia mais para um sub-Didi Mocó do que para Chaplin, e leviandades na segunda parte, de um melodrama falso e matreiro.

Falso, porque nos quer fazer acreditar que as brincadeiras que o pai faz para que o filho não perceba que está passando privações num campo de concentração nazista, são motivadas por amor paterno, quando, na verdade, são apenas um recibo para omitir informações da realidade. Leviano, porque na única cena em que o menino tem que enfrentar a vida real e nada bela, o diretor Roberto Begnini distorce a história e coloca em cena os americanos como libertadores daquele campo de concentração, e não os soviéticos. Isso foi um claro aceno à possibilidade de ganhar um Oscar, o que de fato aconteceu (e isso não é inveja tardia pelo fato desse filme ter ganhado a disputa com Central do Brasil. O Oscar e outros congêneres nunca foram medidas de qualidade de um filme).

Em O ano em que meus pais..., há um delicado equilíbrio entre o pano de fundo histórico e o registro da vivência particular de um menino e sua percepção sensível da realidade. O menino-protagonista tem fatos reais ocultados de si pelos mais velhos, mas pouco a pouco, as coisas vão se revelando tais como são (a moradia com um estranho, a tentativa de fazer amigos, a espera por uma ligação dos pais, o conflito entre estudantes e policiais) até que ele descubra que a vida não é bela quando os pais saem de férias e se atrasam demais para voltar.

04 novembro, 2007

Fábulas menores de moral mínima - 2


Outro dia descobriram uma falcatrua laticínia, mas cá pra nós, num país que engole chiclete com banana, não espanta que se tome leite com água oxigenada. E não foi só o Latino e a Marta Suplicy que tomaram, viu? Foi o Brasil inteiro, de Rosane Collor aos roteiristas de programas infantis, de Galvão Bueno às apresentadoras de programas infantis.

Hoje, quando se vê a horda de mães passando pelo buraco da agulha pra pegar o melhor lugar para suas filhinhas no show do RBD, vem a pergunta: as donzelas e futuras mamães já tomavam leite oxigenado nos anos 80? É isso ou elas estão apenas colhendo o que plantaram, ou seja, quem com Menudo fere com RBD será ferido (a prova está nesse link).

Não é à toa que passamos por uma indigência musical aterradora. A pagodização dos anos 90 deu cria e a trilha sonora do início do milênio são os musicais da Broadway adaptados, a insipidez de Vanessa Camargo, o eterno último show de Sandy e Junior, os uivos de Daniel e a volta daquele que nunca foi: Belo. Sem contar, claro, o funk da evangélica Perlla e o pagode gospel da banda Tempero do Mundo, cujo líder é nada mais nada menos que o senador quase-cassado (pra variar) Magno Malta.

Para explicar porque mais vale um Noel Rosa sem choro nem vela do que dois sertanejos berrando (pra não dizer cinco pagodeiros dublando), segue mais uma fábula menor de moral mínima:

Dois condenados à morte estavam nos umbrais da execução, quando se achega o representante dos direitos humanos e lhes concede a graça de um último desejo. O primeiro condenado poderia ter pedido para aprender mandarim e prorrogar indefinidamente sua execução. Mas, aquele peito desafinado não titubeou e pediu:
- Quero ouvir o cd “O melhor do pagode vol. 3”.
Ouvindo aquele pedido, o segundo condenado implorou:
- Posso morrer antes dele?

01 novembro, 2007

Everybody loves Ricardo Teixeira


O Brasil vai sediar a Copa do Mundo de futebol de 2014. Isso é bom, ruim ou muito pelo contrário? Entreouvido numa conversa dentro de um ônibus: “Pra quê o Brasil vai gastar construindo estádio se nem tem hospital público decente?”. Auscultado no cérebro do pensador em busca de uma ideologia pra viver: “Vão retirar o pão do povo para lhe financiar o circo”. Como ninguém escuta mesmo a voz afônica das ruas, voltemos no tempo que uma pitadinha histórica não faz mal a ninguém.

A teoria conspiratória: na final da Copa do Mundo de 1998, nossa seleção tomou um passeio da França, anfitriã e campeã. Très bien, 3 x 0, eram tempos em que Zidane usava a cabeça pra fazer gols (aliás, dois gols dele nessa final). Mas a arrogância francesa se bandeou pros lados tupiniquins e se espalhou a seguinte e escalafobética teoria: Ronaldo e Cia. entregaram o jogo porque a CBF tinha um acordo com a Nike, a Adidas e a FIFA, no qual a humilhação nacional seria recompensada com a escolha do Brasil como sede de uma Copa do Mundo. Afinal, aqueles filhos de Asterix não ganhariam nunca de novo da gente!

Como fica difícil crer que Dunga e Leonardo ou Zico e Zagallo aceitassem um trato dessa espécie (se fossem 10 Ricardos Teixeiras e 1 Eurico Miranda, vá lá), na Copa de 2006, eis que Zidane está em campo de novo contra o Brasil e contra Ronaldo (pra piorar, agora são dois Ronaldinhos). Claro, nossa empáfia levou outro baile dos franceses. Novamente, veio à tona a teoria: perdemos para ganhar a Copa de 2014. Tudo isso para não se admitir que os pentacampeões do mundo são fregueses dos gauleses.

Como se viu nessa semana, o rodízio de continentes fez com que 2014 fosse a vez da América do Sul. E como não há páreo de verdade nessa parte do mundo, a escolha do Brasil era óbvia. Disputando apenas consigo mesmo, o país ganhou o direito de sediar uma Copa do Mundo outra vez. Mas, quem são esses que querem pôr a pátria de chuteiras e de ingresso de cambista na mão?

Ora, na euforia global pela conquista brasileira, poucos viram o “vôo da alegria”, que levou dezenas de governadores e ministros para a Suíça a reboque do presidente. Não o Lula, mas Sua Majestade, o presidente da CBF Ricardo Teixeira. Ele que escapou de uma CPI contra si e que comandou um escrete de deputados para defenestrar outra CPI que investigaria a negociata MSI/Corinthians, agora é bajulado pelos donatários estatais e federais que querem levar jogos da Copa de 2014 para seu terreiro. Assim, começou o beija-mão, o pega-na-chaleira* outra vez.

Em 2014, até Lula pode se candidatar a um terceiro mandato não-consecutivo e se eleger de “novo com a força do povo”, já que no Brasil a eleição pra presidente é casadinha com as Copas do Mundo. Aliás, a Casa Branca quando quer esconder as mazelas oficiais, planta uma guerra qualquer. O Brasil, quando precisa ocultar as inconveniências políticas, aproveita a euforia da Copa.

Foi assim com Getúlio, que baixava o sarrafo nos esquerdistas enquanto o povo celebrava os feitos de Leônidas da Silva na Copa de 1938 (Getúlio, porém, não pôde evitar a derrota do Brasil para o Uruguai em pleno Maracanã na Copa de 1950 e o resto é história); foi assim com Médici, que sumia com os esquerdistas enquanto o Brasil festejava o tri-campeonato mundial em 1970 (a Argentina, em 1978, aproveitou pra fazer o mesmo com a oposição; dessa vez, como não há esquerda nem no poder nem na oposição...

Então, um viva aos superfaturamentos de sempre na preparação da infra-estrutura da Copa, um hip-hurra às formações de quadrilha pra sumir com o dinheiro dos estádios. Enquanto a população vai viver sete anos de festeira expectativa, os apaniguados do poder vão viver sete anos de fartura até 2014 e, desde já, rezam agradecidos: “Deus lhe pague, Ricardo Teixeira! Mas não esqueça dos nossos 15%!”. Everybody loves Ricardo Teixeira.

* a expressão “pega na chaleira” vem da canção "No Bico da Chaleira" (1909), de Juca Storoni, e referia-se ironicamente aos políticos aduladores do senador gaúcho Pinheiro Machado que se prestavam a pegar na chaleira de água quente para servir a bomba de mate do chimarrão do senador: "Iaiá, me deixa subir a ladeira / eu sou do bloco que pega na chaleira".