28 julho, 2009

a mais incrível aventura da família

Melhor do que um filme para a família é o ato de uma família assistir junto a um filme apropriado. Rir, emocionar-se, entreolhar-se, compreender a mensagem. Particularmente, não sou entusiasta de filmes com “mensagens edificantes”. Não por causa do tema e da importância real da mensagem. O problema, em geral, é a forma canhestra de realização utilizada que atrapalha a comunicação: diálogos do pior dramalhão, enquadramentos primários, atuações medíocres. Dá a impressão de que deixaram o Clube das Mães tomar conta da câmera enquanto o diretor está negociando seu próximo filme edificante para as massas.

Falando nisso, a produtora Pixar tem sido uma mãe para os espectadores, mas sem esquecer o apuro técnico e a excelência da narrativa. Não é difícil perceber que seus filmes não pertencem ao entulho que Roliúdi despeja desavergonhadamente sobre o mundo.

Em seus filmes-família, o tema central é quase sempre, claro, a família, sendo que os roteiristas da Pixar estão atentos às diferentes configurações familiares, como aquelas formadas por pai e filho (Procurando Nemo), mãe e filhos (Toy Story) ou grupo comunitário (Vida de Inseto). Mas há espaço para aquela formação familiar que infelizmente tem sido a mais atacada de todas, aquele núcleo social “obsoleto” formado por pai, mãe e filhos, como é o caso da família de super-heróis de Os Incríveis.

O filme não perde tempo com divagações sobre como a família é o monstro repressor da autonomia individual e agora-sou-um-pote-até-aqui-de-mágoa etc. Assim, esta animação não cai na tola generalização de mostrar a família como mais uma raiz de todos os males. Ela mostra que, sim, famílias enfrentam problemas de relacionamento, mas a porta de saída não é a melhor solução. Ao contrário, fazer coisas juntos pode fazer uma grande diferença.

A história é simples: super-heróis passam a ser um incômodo para as pessoas comuns e são obrigados a levar uma vida comum. O Sr. Incrível vira auxiliar de escritório, sua esposa, a Mulher-Elástica, se torna uma senhora do lar, e a família se completa com um bebê, uma garota introvertida com ares de emo e um adolescente explosivo. Isso não lhe parece bem comum?

Saudoso dos tempos de heroísmo reconhecido, o pai e maridão aceitará uma missão que, contra suas expectativas, vai fortalecer os corroídos laços de família. Se fosse só isso, esta animação poderia se converter num monturo de lágrimas e humor pastelão. Os Incríveis, porém, tem tal domínio de expressões que consegue o feito de ser tanto uma fantasia infanto-juvenil com cenas de ação vibrantes como também uma comédia de costumes e um ótimo melodrama familiar.

A família, a princípio, esfacela-se pela desatenção do pai na criação dos filhos, abalado pela mediocridade do seu novo emprego; pelo nomadismo da família (eles têm que mudar de cidade cada vez que sua identidade é descoberta); pela convivência nada amistosa entre irmãos cujos poderes são duramente reprimidos pela família e pela sociedade.

O casal de super-heróis entende que salvar um casamento é mais difícil e heróico quanto derrotar os vilões. Como eu disse no início do texto: fazer coisas juntos pode ser uma boa resposta para as demandas de afeto e segurança que envolvem uma família. Não à toa, após uma aventura bem-sucedida, o espevitado filho do casal diz: “Eu amo essa família”. O garoto enfatiza a aventura, mas não deixa de ressaltar o contentamento de ter feito tudo aquilo junto com sua família.

Há cenas de ternura incrivelmente sincera por parte de personagens de cartum (o amor cotidiano entre marido e mulher é mostrado de forma honesta); há citações e sátira ao mundo do cinema e do gibi (a costureira Edna é responsável por parte delas); há uma trilha sonora formidável. Mas é a cena em que uma redoma erguida por um componente da família os protege da destruição que tem muito a nos dizer: a construção de uma família saudável depende dos valores autoatribuídos pela própria família. E isso é a mais incrível aventura das famílias.


Clique nos links para ouvir e comparar a música-tema de Os Incríveis com o tema de Henry Mancini para Peter Gunn. Atenção ao uso dos metais e da percussão.

24 julho, 2009

ensaio sobre a visão


Certo dia, sem mais nem menos, pessoas começam a ficar cegas. Submetidas à convivência forçada, elas experimentam não apenas as agruras da escuridão visual, mas passam a vivenciar a cegueira da razão e do amor, quando aumentam as disputas pelo poder e subtraem-se a tolerância e o senso de partilha. Este é o ponto de partida do livro Ensaio sobre a Cegueira, do português José Saramago (também filme de Fernando Meirelles).

Na história, apenas uma mulher conserva a visão, e é ela que servirá de guia para a turba de cegos; é ela que será vítima resignada, junto com as mulheres cegas, da torpeza moral masculina; é ela que terá a chance de retirar os cativos de uma espécie de caverna de Platão, dirigindo os outros e a si para a luz. Alguns destes perceberão que, mesmo quando eram capazes de ver, nunca souberam enxergar. Só agora, quando nada vêem é que, na verdade, podem realmente enxergar que são todos seres desgraçados e precisam uns dos outros e de alguém que conheça o caminho da luz.

Esta é uma parábola para qualquer tempo, pois há muito tempo que deixamos de ver (desde o primeiro homem e a primeira mulher); há muito que pensamos estar agarrando a verdade, quando estamos só tateando o mistério; há muito que pensamos estar à frente dos outros, quando andamos como cegos guiando cegos.

O apóstolo Paulo, quando ainda Saulo, foi repentinamente cegado. Ele não foi curado na cena seguinte. Ele precisava experimentar a cegueira para enxergar mais longe. Deixando de ver o mundo tátil, ele poderia verdadeiramente prestar atenção às coisas espirituais, ele poderia escutar a voz do Cristo a Quem perseguia. Um paradoxo completo: Saulo, vendo, perseguia cristãos e fazia mal ao evangelho; Paulo, cego, descobriu que sua missão era tornar-se um perseguido em nome do evangelho.

Este sublime paradoxo foi também vivenciado quando Jesus, após curar um cego de nascença (ver João, cap. 9), lhe disse: Eu vim a este mundo para juízo, a fim de que os que não veem vejam, e os que veem se tornem cegos. A roda dos escarnecedores fariseus perguntou a Cristo, então: Acaso também somos cegos?. E a resposta franca e definitiva de Jesus: Se fôsseis cegos, não teríeis pecado algum; mas, porque agora dizeis: Nós vemos, subsiste o vosso pecado.

Precisamos mudar o modo como vemos, é premente a necessidade de transformarmos o olhar. Nossa visão precisa ser tão vasta que caiba as lições do passado, tão penetrante que possa distinguir o melhor para nossa vida futura e tão amável que possa cativar nosso próximo. É preciso admitir a cegueira para que enxerguemos melhor. Somente quando cegos é que vemos nossa justiça de trapos, nossa intolerância mal-escondida, nosso desamor.

Uma história de Saramago pode ampliar o campo de compreensão para muita gente. Um filme tocante pode trazer à tona reflexões que insistimos em adiar. Mas para vê-los necessita-se de olhos abertos. O cristianismo requer olhos abertos, mas requer um recuo aparente que é, de fato, uma marcha adiante. Ser cristão é pedir a cota diária de luz: pedir a Deus que Ele nos abra os olhos é pedir que Ele nos tire da cegueira espiritual. Assim, poderemos entender qual é a vontade do Pai e enxergar nosso semelhante como alguém não mais cego que nós e não menos merecedor da graça que qualquer ser humano. Então, um dia, poderemos dizer como os discípulos: Nós vimos a Sua glória.
Ilustração: A cura do cego de Jericó, de Nicholas Poussin (óleo em tela, 1650)

21 julho, 2009

o homem que sonhava com a lua

Há 40 anos, a humanidade, representada por três navegantes, chegava à Lua da mesma forma que o europeu chegava à América. No lugar das caravelas Pinta, Ninã e Santa Maria, agora a nave espacial Apollo 11. Sai Colombo e entra Neil Armstrong, em vez do império ibérico, o império norte-americano. As testemunhas não eram mais os índios nativos, mas o embasbacamento de milhares de espectadores diante da transmissão ao vivo pela TV era semelhante. A carta de intenções também era igual: no século XV, a Espanha precisava aumentar o mercado e vencer a concorrência; no século XX, os Estados Unidos necessitavam vencer a concorrência e aumentar o mercado. Venceu a concorrência soviética de tal forma que até o mero termo "soviético" caiu em total desuso.

Eu sonhava com a lua. Não como os poetas sonhavam - ainda há poetas que sonham com a lua? Minha lua era a do livrinho infantil que contava como na Lua tudo era pelo avesso. Inclusive os letreiros que anunciavam SETEVROS geladinhos. Depois, minha lua passou a ser como a de Jules Verne, pronta para ser colonizada, civilizada.

Há muito tempo, antes mesmo do Photoshop, o homem foi à lua plantar imagens que provassem sua indomável conquista. É que andam contestando a aventura mais incrível do ser humano. Eu não duvido da fábrica de ilusões globalizadas, que seria perfeitamente capaz de encenar o passeio de dois homens no solo lunar. O maquinário da NASA já dava conta mesmo de fazer uma alunissagem? E quanto à transmissão pela TV em tempo real, inclusive com diálogos entre os astronautas e a estação na Terra? E as pegadas na Lua, e o vento na bandeirola, e a penumbra, e as sombras em direções diferentes? E como a NASA perde os filmes originais do seu feito mais notável? E chega. Tudo é possível ao que crê e também ao que não crê.

Não gosto nem costumo acreditar em teorias conspiratórias. Mas que las hay, las hay. Mas o pior nessa história toda (mal-contada?) é a foto da bandeirola na Lua. O Neil Armstrong me decora aquela frase feita ("um pequeno passo para o homem, um grande salto para a humanidade") e depois crava a bandeira estadunidense. Não era a humanidade, ô cara pálida? Sim, mas é que os EUA representavam a gente. Entendido, sir, yes, sir.

Já que tomaram a Lua dos poetas, dos lobos e dos sonhos, então prefiro voltar ao poema de Carlos Drummond de Andrade, "O homem; suas viagens". É um dos poucos poemas que ainda sei de cor. Lua, planetas, espaço sideral, ir audaciosamente aonde ninguém chegou? Há ainda uma viagem mais difícil que o homem tem se negado a fazer.

O homem; suas viagens

O homem, bicho da terra tão pequeno
Chateia-se na terra
Lugar de muita miséria e pouca diversão,
Faz um foguete, uma cápsula, um módulo
Toca para a lua
Desce cauteloso na lua
Pisa na lua
Planta bandeirola na lua
Experimenta a lua
Coloniza a lua
Civiliza a lua
Humaniza a lua.

Lua humanizada: tão igual à terra.
O homem chateia-se na lua.
Vamos para Marte — ordena a suas máquinas.
Elas obedecem, o homem desce em Marte
Pisa em marte
Experimenta
Coloniza
Civiliza
Humaniza Marte com engenho e arte.

Marte humanizado, que lugar quadrado.
Vamos a outra parte?
Claro — diz o engenho
Sofisticado e dócil.
Vamos a Vênus.
O homem põe o pé em Vênus,
Vê o visto — é isto?
Idem
Idem
Idem.

O homem funde a cuca se não for a Júpiter
Proclamar justiça junto com injustiça
Repetir a fossa
Repetir o inquieto
Repetitório.

Outros planetas restam para outras colônias.
O espaço todo vira terra-a-terra.
O homem chega ao sol ou dá uma volta
Só para tever?
Não-vê que ele inventa
Roupa insiderável de viver no sol.
Põe o pé e:
Mas que chato é o sol, falso touro
Espanhol domado.

Restam outros sistemas fora
Do solar a colonizar.
Ao acabarem todos
Só resta ao homem (estará equipado?)
A dificílima dangerosíssima viagem
De si a si mesmo:
Pôr o pé no chão
Do seu coração
Experimentar
Colonizar
Civilizar
Humanizar
O homem
Descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
A perene, insuspeitada alegria
De con-viver.

17 julho, 2009

veste a camisa, kaká

Num dia ele rejeita uma proposta financeira indecente para jogar na Inglaterra e recebe o afeto que se encerra no peito juvenil do torcedor do Milan. Noutro dia ele já é o novo ídolo dos torcedores do Real Madrid. O que aconteceu? Kaká não foi para a Inglaterra porque a proposta vinha do glorioso Manchester City, time que tirou Robinho das vistosas confusões madrilenas e o lançou a dois passos da obscuridade. Não era o dinheiro, meus caros. O obstáculo era o timeco inglês sem chances de estrelato. O galático Real acaba sendo bom pra todo mundo: tira o time milanês de Silvio Berlusconi do buraco das dívidas, dá a Kaká a chance de mudar de ares e voltar a ser o melhor do mundo e ajuda o clube espanhol a atrair patrocínio, vender camisas e faturar com amistosos na Ásia.

Num dia ele se reserva o direito de não expor a vida privada no ralo público no noticiário das fofocas. Noutro dia estampa-se o primeiro aniversário do filhote debutando nas páginas das revistas de salão. O que aconteceu? Kaká se tornou um Narciso que acha feio o que não é capa da CARAS? Menos, menos. Entreouvia-se nas filas de banco que o craque já estava passando da conta em sua carolice, e a sede de polêmica precisa de falas bombásticas e não daquelas entrevistas coerentes ao Galvão Bueno, precisa de poses cheias de amor pra dar e não daquele rosto sereno de quem acabou de sair do comercial de lâmina de barbear, exige machões insaciáveis e não daquele ar de marido bem-resolvido.

Bem, o genro-da-mamãe é brasileiro sem ser brahmeiro, não pilota carrões a 190 km/h e acredita que sexo e intimidade são tão importantes que merecem ser entregues apenas durante o compromisso firmado do casamento feliz. É muito pouco pra mídia marrom. Mas, para satisfação quase geral, pelo menos ele abre as portas do aniversário do filhinho para a mundanidade frívola e desejável de certas revistas. Todos ganham: o público fica momentaneamente saciado, os programas sobre celebridades têm assunto pra uma semana e Kaká não fica tão distante do mundo dos flashes invasores de privacidade.

A última crítica ao jogador é que ele anda exibindo sua fé aos quatro cantos globalizados. Sua camiseta com a inscrição "I belong to Jesus" (eu pertenço a Jesus), vestida por baixo do uniforme da equipe que estiver defendendo, aparece sempre após uma conquista. Ainda no campo, ele desfila sua crença. Kaká evangelista? Vamos a outros fatos correlatos.
A Marcha Pra Jesus é um evento da Igreja Renascer que tomou proporções ecumênicas. Megashows, megartistas, megapúblico, megabispos presos nos EUA, esse evento anual é, mais que uma celebração religiosa, um ato de afirmação social. Não basta se dizer de Cristo, é preciso dizer olhem como os de Cristo somos muitos. Kaká é presença garantida nos palcos da festa, cuja atuação parece tão tímida quanto a matéria do Jornal Nacional sobre o evento. Pôxa vida, Kaká! Até o casal Hernandes fica mais à vontade falando da prisão domiciliar na Flórida!
Kaká, em suas entrevistas, é comedido, e não parece alguém em transe místico quando fala na TV. Se ele fosse como um dos artistas gospel de vendas milionárias e discos premiados, talvez ele falasse assim: "Pois é, Galvão. Aquele passe que eu dei pro Luis Fabiano foi uma iluminação do Espírito"; "aquele foi um gol realmente abençoado"; nossa equipe está na unção"; "cruzei de cabeça baixa, mas ninguém sabe para onde o Espírito sopra e a bola caiu direto dentro do gol". Atenção: ler todas as frases com exclamação.

Mas sejamos francos. Na recente expansão evangélica, para cada Kaká há mil Marcelinhos Cariocas. O primeiro é tratado como um anjo; já o segundo... Mas não estou interessado no aspecto individual da religião. A religião tem um aspecto social que não pode ser negado. Se assim não é, que cada um fique em casa confessando sua religião entre quatro paredes.

Ocorre, no entanto, que o lado social da religão cristã tem sido enfatizado de uma maneira que a muitos descrentes traz mais suspeitas e irritação do que curiosidade e atração. Não que o cristianismo irá agradar a todos. Isso é absolutamente impossível. Mas como não achar incômodo os cultos em alto-falantes que parecem querer ressuscitar até os filisteus para então convertê-los; e aqueles outros que leem a Bíblia em voz alta dentro dos trens lotadíssimos? E o funk gospel? E os jovens fervorosos que tatuaram no corpo a fidelidade à Igreja Renascer? E as lutas de vale-tudo como atração para o culto? E os pregoeiros de curas e milagres que pedem palmas pra Jesus? Pode haver sinceridade e lealdade em alguns casos, porém, o formato sensacionalista distorce a questão. E ainda: fica cada vez mais difícil distinguir o que é charlatanismo e o que é evangelismo, o que é busca de sustento através do dinheiro alheio e o que é sustento fiel de uma causa apostólica.

Por isso, no campo individual, nem todos recomendariam a forma como Kaká exalta sua crença na camiseta, muito embora ele pareça ser alguém que vive sua fé para além da inscrição na camisa branca, o que só aumenta minha admiração por alguém de falar calmo, de comportamento digno e ainda tão excepcional atleta. Sua real conversão conta muito, mas também não se despreze sua personalidade e o ambiente familiar favorável em que cresceu.

No âmbito coletivo, respeito a oração dos jogadores da seleção brasileira após a conquista da Copa das Confederações na África do Sul, mas discordo de que o círculo de atletas abraçados e ajoelhados no meio do campo seja de fato uma demonstração de fé. Talvez de religiosidade, algo de superstição, não de religião, e muito menos de fé.

Muitos evangélicos acharam a cena um momento de gratidão a Quem de direito, de fervor nacional-religioso, de enlace da fé. Então, cá pergunto: você já viu os jogadores logo antes de uma partida? Eles fazem uma roda abraçados, o líder grita palavras de ordem, xinga o adversário, eleva o espírito da moçada e aí todos rezam um Pai-Nosso em voz gritada. Se levassem um pé-de-coelho ou fizessem figa dava no mesmo. É esta a verdadeira religião, é este o evangelho simples de Cristo?

Sigo perguntando: se tivessem perdido a final daquela Copa, os jogadores fariam um círculo agradecendo porque fora feita a vontade do Pai? Quando Zidane e cia. eliminaram o Brasil em 98 e em 2006, nossos jogadores fizeram uma reunião testemunhal no meio do campo, descobriram camisas brancas com inscrições religiosas? Ah, então só posso mostrar que sou de Jesus em caso de vitória. Pode arranhar a imagem e dar lenha pra oposição se o nome Dele for involuntariamente associado à derrota, né? Nisso reside a questão: minhas ações cotidianas fazem mais pela minha religião do que rezas altissonantes, gritaria pública e figurino evangelizador.

A última pergunta: aqueles mesmo evangélicos que viram sua fé confirmada em rede mundial de televisão num evento laico valorizariam a liberdade de expressão e crença se, em vez de frases cristãs, um jogador vestisse algo dizendo "I belong to Buda", ou "I love Iemanjá", ou "Sou 100% Ogum"? Ou se tivesse escrito "Deus provavelmente não existe" ou "Eu também sou ateu"?

O evangelho conclama ao testemunho, incentiva o falar das boas novas da salvação a toda a gente. Esse mandado nunca deveria nos permitir a usar métodos que mais confundem que esclarecem. Quando a forma é espetacularizada ou invasiva, o conteúdo é invariavelmente distorcido seja por quem transmite seja por quem recebe a mensagem.

14 julho, 2009

sigam-me os bons

Amigo leitor, amiga leitora: os números têm força, acabei de comprovar. Semanas atrás decidi inserir o link "amigos do blog" na coluna ao lado. É uma ferramenta nova e mal sei como usá-la. Acontece que, hoje, ao abrir esta página, me deparei com um número que seria natural se não fosse incômodo. O número é o 12. Se esta fosse a quantidade de leitores desse blog, eu não me incomodaria. Hum, me incomodaria, sim. Deixemos de modéstias incoerentes.

No entanto, quando doze é o número de "seguidores" inscritos no blog, aí eu tenho medo. O que vão dizer por aí? Que eu tenho doze seguidores? Veja que esse número é forte demais. Não sou o Zagallo, mas se chegar a treze, cai melhor do que doze. Ou não?

Agradeço aos bravos que me acompanham até aqui. Uma página virtual em branco pode assustar tanto quanto a página de papel em branco. Começar é o mais difícil, porque assuntos há aos montes. Que valham a pena repartir com os amigos, aí é outra história.

Aproveito para indicar o link com o meu texto publicado na Revista do Conservatório da UFPEL: "O Evangelho segundo o gospel". Aqui, a página inicial da revista. Aqui, o link direto para o texto.

10 julho, 2009

cem palavras: a fé e a esperança

A fé, no sentido em que estou usando a palavra, é a arte de se aferrar, apesar das mudanças de humor, àquilo que a razão já aceitou. Pois o humor sempre há de mudar, qualquer que seja o ponto de vista da razão. Agora que sou cristão, há dias em que tudo na religião parece muito improvável. Quando eu era ateu, porém, passava por fases em que o cristianismo parecia probabilíssimo. A rebelião dos humores contra o nosso eu verdadeiro virá de um jeito ou de outro. E por isso que a fé é uma virtude tão necessária: se não colocar os humores em seu devido lugar, você não poderá jamais ser um cristão firme ou mesmo um ateu firme; será apenas uma criatura hesitante, cujas crenças dependem, na verdade, da qualidade do clima ou da sua digestão naquele dia. Conseqüentemente, temos de formar o hábito da fé.


A esperança é uma das virtudes teológicas. Isso quer dizer que (ao contrário do que o homem moderno pensa) o anseio contínuo pelo mundo eterno não é uma forma de escapismo ou de auto-ilusão, mas uma das coisas que se espera do cristão. Não significa que se deve deixar o mundo presente tal como está. Se você estudar a história, verá que os cristãos que mais trabalharam por este mundo eram exatamente os que mais pensavam no outro mundo. Os apóstolos, que desencadearam a conversão do Império Romano, os grandes homens que erigiram a Idade Média, os protestantes ingleses que aboliram o tráfico de escravos - todos deixaram sua marca sobre a Terra precisamente porque suas mentes estavam ocupadas com o Paraíso. Foi quando os cristãos deixaram de pensar no outro mundo que se tornaram tão incompetentes neste aqui.
C. S. Lewis, Cristianismo Puro e Simples, pp. 49 e 51

08 julho, 2009

música e adoração: experiência e obediência

Não é difícil perceber que o debate em torno da música sacra tem tomado duas vertentes bem dicotômicas: ou é isso ou é aquilo, esse instrumento pode vs. aquele não pode, o gosto “jovem” vs. o gosto “maduro”, o clássico vs. o contemporâneo.

Insisto em dizer, todavia, que o problema não é a música nem o instrumento nem a dinâmica mutante da cultura musical. A discussão não deveria estar situada na oposição entre os pólos. Aliás, essa é uma oposição em que as opiniões pré-formadas de ambos os lados tem somente eclipsado o que deveria estar no centro do debate: o referencial bíblico que estabelece a adoração. Eu disse, referenciais de adoração, e não princípios musicais. Não há regras de elaboração musical da Antiguidade que devam ser obedecidas hoje. Há, de fato, princípios centrais teológicos que podem orientar o modo de adoração.

Sem um modelo biblicamente referenciado, corremos o risco de produzir uma música de louvor desarticulada e orientada por tendências culturais, pela última moda musical das mídias ou por algum artista popular. Note o que disse Harold Best, presidente emérito da Associação Nacional das Escolas de Música (EUA): “A música de igreja por excelência [...] deve estar embasada, não primordialmente na natureza da música e em estilos musicais, modelos de práticas ou perfeição acadêmica, mas em uma bem fundamentada perspectiva teológica”.

Traduzindo, a música de adoração é guiada por princípios teológicos e não pelo gosto dos mais tradicionais ou dos mais liberais.

A música pode ser vista como um ato de experiência humana. Coletiva ou individual, sua prática é geralmente dependente a) da cultura local, b) da finalidade, e c) da subjetividade do praticante. A essência da prática musical estaria relacionada, portanto, aos moldes culturais, funcionais e idiossincráticos de determinado grupo social e de sua música. Sacra ou secular, a música é sempre um ato de experiência.

Por outro lado, a adoração não se reduz a uma experiência sensível. Adoração é, antes da experiência, um ato de obediência. Coletivo ou individual, o ato de adorar é geralmente dependente a) da natureza da igreja, b) da natureza da missão, e c) da cultura do adorador. A essência da adoração estaria relacionada, portanto, aos modelos de interpretação bíblico-doutrinária. A natureza da música, por sua vez, depende da igreja e da sua missão.

A igreja que apresenta um culto bíblico entende que a adoração é uma resposta da criatura humana aos atos de Deus. Ou seja, ao contrário de cultos que buscam o favor de Deus por meio de rituais e músicas, a igreja não louva a Deus para garantir a salvação. Louva-se o Deus cujos atos salvíficos redimem o ser humano. Na Bíblia, são relatados diversos atos de adoração feitos logo em seguida a uma promessa revelada ou a uma intervenção salvadora de Deus. A adoração também não se restringe à participação no culto, mas é estendida ao cotidiano do adorador, que demonstra uma vida de adoração ou uma vida em adoração. Desse modo, a adoração é um ato de obediência.

Uma sugestão de referencial bíblico para a adoração é encontrada em Atos 2: 42: “Eles eram devotados ao ensino dos apóstolos e à comunhão, ao partir do pão e às orações”.

n Ensino: proclamação do evangelho para a conversão e a mudança (KERYGMA)

n Comunhão, Partilha: participação, fraternidade, exercício dos dons para a edificação da comunidade (KOINONIA)

n Orações: culto, adoração (LEITOURGIA)

O texto bíblico citado não relaciona instrumentos ou estilos para a igreja. Alguns registros históricos indicam o predomínio do canto a capella e a ausência de instrumentos musicais no espaço cúltico apostólico, seja porque estes despertavam associações culturais indesejáveis seja porque poderiam ser ouvidos pelos perseguidores dos cristãos ou por causa de outro motivo. Se tomássemos o texto e o contexto daquela época e daquele lugar e o transplantássemos sem adaptações, tal ação seria apenas um pretexto para a exclusão autoritária dos instrumentos da prática musical religiosa.

A igreja que reflete em sua adoração os três modos/atitudes de sua missão deve procurar fazê-lo de forma regular, criativa, sistemática e cuidadosa. Quando isto não ocorre, há um desequilíbrio que tende a sobrepor um dos três modos sobre o outro. A fraternidade sem a doutrina faz da igreja um mero clube social. Onde a liturgia é sobreposta à comunhão dos leigos e ao ensino haverá um culto baseado na intenção subjetiva e na emoção do relacionamento pessoal com Cristo, e não na explanação objetiva e na pregação do evangelho.

Algumas comunidades religiosas têm empregado a música para estimular experiências sensíveis e emocionalistas por parte do adorador. A cruz e a graça de Cristo são pontos que certamente merecem a contrição e as lágrimas de gratidão. Entretanto, a adoração contemporânea referenda duas horas de louvor e quinze minutos de edificação doutrinária, concedendo à “liturgia gospel” o papel central em um culto que favorece o extravasar das emoções reprimidas e que, supostamente, permitiria ao adorador uma satisfação pessoal e uma transcendência espiritual inquestionáveis.

Em sua bem-sucedida operação espiritual-musical, o louvor contemporâneo está atento às últimas tendências musicais da mídia secular, o que pode estar na adoção de uma forma sensacionalista de cantar ou de um novo ritmo do verão. Porém, como escreve Ralph Martin, o ser humano adora “não simplesmente para satisfazer suas necessidades ou para sentir-se melhor, mas para expressar a dignidade de Deus” (The Worship of God, p. 27).

O adorador precisa, sim, de hinos e canções modernas que tornem o ato de cantar uma atividade agradável e prazerosa, balanceando o uso da linguagem do relacionamento pessoal com a linguagem que se dirige à soberania e à majestade divinas. Apesar de não haver nenhum referencial doutrinário ou institucional que assinale o uso exclusivo do hinário para o louvor congregacional, penso que a música escolhida deve representar a identidade litúrgico-musical da igreja, buscando equilibrar formas históricas e recursos musicais da modernidade.

Por outro lado, nota-se que os ministérios de louvor que abdicam da tradição musical de sua igreja estão muitas vezes transplantando não somente o estilo musical, mas também as estratégias de adoração dos grupos neopentecostais, em que o louvor tem mais importância que a doutrina e qualquer forma musical é valorizada pelo seu impacto emocional e utilitário.

Este texto é um resumo da primeira parte da palestra "Música no Culto: doxologia, adoração, mensagem" proferida no Encontro de Músicos da ASP. Citações e referências indiretas extraídas do sexto capítulo do livro The Message in the Music (Woods & Walrath, eds).

04 julho, 2009

ocupado em palestras

Nesse fim de semana, estarei no Encontro de Músicos da Associação Sul-Paranaense (ASP) realizando duas palestras (o que tem me impedido de atualizar o blog nos dois ultimos dias):

Música no Culto: doxologia, adoração, mensagem - sobre elementos musicais apropriados para as atividades musicais que fazem parte da programação do culto. Os tópicos relacionados são: o processo inicial antes da pregação pastoral que inclui música para a entrada das pessoas que comporão a plataforma, música para o ofertório e para o louvor congregacional; foi me pedido especialmente para falar sobre a música para os momentos finais do sermão.

O Uso dos Instrumentos na História do Cristianismo - vou apontar os registros históricos que falam da música no culto cristão primitivo, na Reforma Protestante, nos movimentos avivalistas norte-americanos e na igreja adventista do sétimo dia. Claro que metade da palestra será dedicada aos instrumentos de percussão nas igrejas. Nesse item, vou destacar alguns mitos que têm eclipsado uma compreensão mais abrangente e aprofundada sobre os instrumentos de percussão, como as experiências pseudocientíficas e as falas que atribuem "maldade inerente" a instrumentos musicais.

Minha participação será no domingo, dia 05, de manhã e de tarde. Para quem está em Curitiba, o evento será no Colégio Adventista do Portão, a partir das 9 da manhã.

Na semana que vem comento aqui o teor das palestras e a resposta dos participantes.

01 julho, 2009

os reis da música e o cristianismo

O cristianismo é um dos fundamentos mais visíveis da construção da sociedade norte-americana. Desde os “Pais Fundadores” até os apelos de Bush II e Barack Obama à mentalidade religiosa da maioria da população, as políticas públicas ali têm sido implementadas tendo em vista determinados valores cristãos. A música pop não estaria totalmente alheia a algumas formas bem heterodoxas do pensamento dito cristão.

Religião e cultura pop no mesmo caldo? Pois, no caso da música popular, mais que todas as outras variantes doutrinárias do cristianismo, o pentecostalismo repercutiu na carreira de muito astro pop antes, durante e depois da fama.

E por que justo o pentecostalismo? De forma bem resumida, pode-se dizer que fatores como a maior liberdade de expressões físicas e espirituais na adoração e a característica de ritual catártico manifesto nos cultos pentecostais favoreceram tanto a consolidação do gospel na religião (entre 1920-1940) quanto na indústria pop (entre 1950-1970). Ou seja, se por um lado, artistas seculares entravam para igrejas pentecostais, como Tommy Dorsey, o formatador do gospel no início do século XX, por outro lado, artistas pop, como Ray Charles, apropriavam-se de modelos da canção gospel para dar novo fôlego a sua música.

De Elvis Presley já são bem conhecidas as gravações de standards da música gospel – "How Great Thou Art" (Quão Grande és Tu) e "He Touched Me" (Cristo tocou-me). Ele também admirava ícones da música gospel, como Jake Hess, de quem Elvis dizia ser um imitador vocal, e o grupo Jordanaires, que fazia backing vocal para o chamado rei do rock. No final dos anos 50, Jerry Lee Lewis era um cantor-pianista de formidável talento, cujas origens pentecostais se apagaram diante do enorme sucesso e também após uma infindável lista de polêmicas: envolvimento com drogas, disparos acidentais de arma de fogo, prisões, casamento com a prima menor de idade. Jerry Lee também é primo do telepastor Jimmy Swaggart. Quem conhece a vida e obra de Swaggart sabe que não se pode dizer que Jerry Lee Lewis deveria ter imitado os passos do primo evangelista.

Little Richard, outro astro do rock dos anos 50, chegou a abandonar a carreira musical e foi estudar num colégio adventista na Austrália, mas logo voltaria à estrada roqueira. Por sua vez, James Brown disse que suas performances atlético-ensandecidas no palco eram influência das frenéticas performances de pastores pentecostais a que assistiu na infância. O animadíssimo show de James Brown era uma cópia da pregação catártica dos pregadores que falavam em línguas incompreensíveis, pulavam, rolavam, cantavam, choravam e gritavam, sendo que a reação tanto da platéia de fãs e quanto da congregação religiosa era sempre no nível da euforia extremada.

Nos anos 60, o cantor Johnny Cash foi também um artista pop cuja conversão religiosa foi marcada por avanços e recuos. Preso algumas vezes, mas sem cumprir pena na cadeia, e com a carreira sendo destruída pelo vício em anfetaminas e barbitúricos, Cash conseguiria reabilitar-se com a ajuda da esposa June Carter e a decisão pessoal de converter-se ao cristianismo. O filme Johnny e June retrata a vida de Cash até esse ponto, num típico final feliz.

No entanto, o cantor voltaria ao vício devido ao abuso de drogas em sua busca por aliviar as dores que sofria em conseqüência de um ferimento no estômago. As contradições que pontuam a carreira de Johnny Cash podem ser observadas numa apresentação ao vivo pela TV em que se recusou a alterar a letra de uma canção com referência ao uso de drogas ("On the Sunday sidewalks / Wishin’, Lord, that I am stoned") e também em sua amizade com Billy Graham. Essa amizade o levaria a ser co-autor e narrador de um filme religioso, The Gospel Road. Nos anos 80, Cash lançaria um livro sobre a conversão de Paulo cujo título (The Man in White – O Homem de Branco) era uma paráfrase de seu próprio apelido, The Man in Black (“O Homem de Preto”, referência ao seu figurino nos shows).

Marvin Gaye foi um cantor que no início dos anos 70, com o álbum What’s Going On, permeado de questionamento crítico-social, chegou a ser um fenomenal sucesso de crítica e público. Filho de um pastor da House of God (Casa de Deus), uma igreja dissidente da Igreja Adventista do Sétimo Dia que mesclava ortodoxia judaica com doutrinas pentecostais. Nos anos 80, quando o artista recuperava o prestígio que tinha na década anterior e voltava a morar com os pais, foi morto a tiros pelo próprio pai, que na época sofria com um tumor cerebral.

O último artista que quero citar aqui é Bob Dylan, considerado um dos maiores letristas da música popular americana. Na década de 60, foi celebrado por suas canções folk, sua voz sem apelos de estrelismo e por suas letras de forte cunho social, longas e poéticas, que narravam a vida do americano comum ora em meio a convulsões sociais e políticas ora às voltas com amores partidos. Na década seguinte, o divórcio após 12 anos de casamento levou Dylan a uma grave crise pessoal e artística, o que teria motivado sua conversão ao cristianismo.

Essa nova fase de Dylan, em que ele se aproximou de músicos gospel e compunha música de temática cristã, foi bem pouco aceita por fãs e críticos. Vale relembrar que, no começo dos anos 80, Bob Dylan mudou o curso e foi em busca de suas raízes judaicas, o que se refletiria nos novos trabalhos, que retomavam o formato da narrativa pessoal e introspectiva dos seus álbuns de maior sucesso.

É interessante perceber a reação dos fãs e admiradores de um artista que passa pela conversão. Quando um cantor de sucesso está em sua turbulenta busca espiritual, ele é tido como um catalisador das questões existenciais do ser humano. Quando esse mesmo cantor encontra o que aparentemente buscava, seus ouvintes perdem o alto interesse que tinham antes. No mundo da música popular, parece que o sucesso é só para aqueles que cantam como Bono Vox, da banda U2: I still haven’t found what I’m looking for / eu ainda não encontrei o que estou procurando.