26 junho, 2015

adeus a James Horner, o compositor dos filmes épicos

O compositor James Horner morreu na segunda-feira, 22/6, quando pilotava sua aeronave na Califórnia. Tinha 61 anos e um respeitável currículo de trilhas sonoras para o cinema. Sua parceria mais famosa foi com o cineasta James Cameron: Aliens, o resgate (1986), Titanic (1997) e Avatar (2009) têm música de James Horner.

Música de sonoridade ruidosa para o terror espacial de Aliens, percussão e música épica para Avatar e todo o melodramatismo musical para Titanic. Por esta última trilha, Horner ganhou os Oscars de Melhor Trilha Sonora (sim, é dele aquela flauta insistente que toca direto para Jack e Rose) e de Melhor Canção (sim, ele tem parte com “My Heart Will Go On”).

James Horner também é o autor da trilha sonora dos filmes Campo dos Sonhos, Coração Valente e Apollo 13 (as três indicadas ao Oscar de melhor trilha).

Sua música para Jornada nas Estrelas II: a Ira de Khan (1982) traz uma orquestração de metais fantástica, com um tema principal épico e nostálgico.



Minha trilha preferida de James Horner é a do filme Tempo de Glória (1989), um filmaço com Denzel Washington e Morgan Freeman sobre o primeiro regimento militar formado exclusivamente por soldados negros durante a Guerra Civil Americana.

James Horner utiliza um coro, cordas, metais e percussão marcial nos temas principais. Não se trata de um filme de glorificação da guerra, mas sim um filme sobre a revolta e a coragem de um batalhão destinado a uma vitória heroica, porém, com perdas humanas devastadoras. A música de Horner capta esse sentimento misto que advém de triunfos sem humanidade.



Valeu, James!

24 junho, 2015

CD Renascido: a solidez da doutrina na voz da fluidez musical - parte 1

Quando um compositor cristão faz uma música, ele atravessa o mesmo processo que um compositor de qualquer outra crença ou descrença: escolher a letra, a rima, a palavra certa; selecionar o som, a altura, o acorde.

O que distingue a composição de um músico para outro não é o processo, mas o paradigma. Explico. Se o processo é semelhante, o paradigma de composição é diferente porque os compositores têm pelo menos dois modos de perceber o ato de compor: ou o músico se alinha às premissas musicais e poéticas mais convencionais ou ele busca os ingredientes musicais e poéticos mais inovadores. É com essa segunda percepção que o compositor, cantor e maestro Daniel Salles vê a prática musical.

No CD Renascido, ele apresenta uma paleta variada de estilos e formas musicais que contêm o germe da invenção. Paradoxalmente, o que Renascido tem de inovação poética e musical, tem também de preservação da doutrina tradicional.

Enquanto a doutrina é inflexível, pois se trata de declarar princípios teológicos que raramente são alterados, a forma de cantar a doutrina não é imutável, pois se trata de usar códigos musicais que constantemente são modificados. O material de que é feito a doutrina tem um núcleo mais rígido, sólido. O material de que consiste a música é mais fluido, dinâmico. Renascido é um trabalho de solidez doutrinária na voz da fluidez musical.

Os exemplos musicais povoam o cd inteiro. Na canção “Quando o vento do espírito soprar” (ouça aqui), a transição de acordes alterados (cheios de sextas, sétimas e nonas), associados à tradição da MPB mais sofisticada, vai embelezando a canção que faz uma inquietante pergunta aos cristãos que não veem sua igreja crescer solidamente na obediência e na missão: “Por que será, por que razão, temos tudo nas mãos, mas não há fogo no altar?”

O compositor não se refere a milagres, curandeirismos ou manifestações extáticas como suposta prova do fogo da presença do Espírito Santo. Ele constata a falta de comunhão, de devoção e de amor mútuo entre os próprios cristãos, o que afastaria um maior poder de atuação celeste na vida da igreja. Mas a música não estaciona na constatação de paralisia e mornidão da igreja e recorre a citações de trechos bíblicos (Joel 2:13; Atos 2:17: nos últimos dias, vossos filhos profetizarão...):

“Quando a comunhão for a arma principal
E a rotina dos nossos dias sair do seu normal
Descerá sobre nós o fogo do Espírito
Viveremos o evangelho
E Jesus Cristo vai voltar”

No trecho acima, o arranjo musical apresenta acordes mais simples e timbres mais pesados (guitarras), enquanto a voz do cantor está mais firme e forte, o que revela a intenção de introduzir os (auto)questionamentos de maneira musicalmente reflexiva e chegar ao posicionamento final de esperança de maneira mais afirmativa.

Outras duas canções reforçam a combinação de manutenção da doutrina tradicional com exploração musical criativa: “Imutável” e “Sábado”. Na primeira, uma melodia cheia de curvas:

“Deus não muda, e a Palavra não se anula
Não é inflexível, [...] sempre permite mudar e mudar em função de uma escolha
[...] Por ser imutável, Deus continua me mudando”

Já a canção “Sábado” dá a esse ponto doutrinário um tratamento mais ameno. Em geral, somente as canções infantis adventistas têm tonalidades de leveza quando abordam o sábado. O que Daniel Salles faz é colorir o sábado de um modo menos rígido ou severo como às vezes esse dia é interpretado mesmo por pessoas que observam o sábado como o dia de descanso semanal.

“O sábado é o dia do sim, e não do não
Sábado faz parte da minha existência
Símbolo da alegria e da salvação”

A letra mostra tanto a alegria de guardar o sábado quanto o contraste entre o sábado e os outros dias. A interpretação vocal de Daniel Salles e Dirley Menegusso estampa felicidade. E toda essa demonstração de alegria e leveza encontra correspondência na escolha do estilo musical: o samba.

Evidentemente, é uma escolha musical pouco ortodoxa. Mas o arranjo musical não soa agressivo nem borra a mensagem doutrinária. A percussão é suave, sem batida forte de bumbo ou surdo, e a melodia em nada lembra rodas de samba ou desfiles de carnaval. O estilo musical pouco usual para falar do sábado funciona como indício de alegria e leveza e símbolo de musicalidade brasileira.

Seria como se o disco perguntasse: Por que é aceitável falar da volta de Cristo com marchas militares norte-americanas e não se poderia falar de sábado com a música de caráter mais brasileiro?

Uma resposta possível está no modo de evangelização protestante no Brasil, o qual trouxe consigo uma larga cultura musical popular norte-americana e descartou as expressões de musicalidade brasileira. Mas isso é assunto para outra postagem. O que se deduz dessa canção é que a doutrina é teologicamente preservada enquanto a forma de transmiti-la é musicalmente renovada.


CD Renascido: a solidez da doutrina na voz da fluidez musical - parte 2

*pequeno estudo sobre o CD Renascido, de Daniel Salles (parte 1 aqui).

No CD Renascido, ainda há outros vestígios de suavidade no tratamento de temas mais sérios. Na música “Cardiomegalia”, por exemplo:

no meio da noite veio uma vontade de acordar
 volume no peito que crescia feito bolo de maracujá,
sintomas de uma alegria que não cabia em mim [...]

Por que usar nessa canção um estilo rítmico mais animogênico/movimentado? Segundo a letra dessa canção,

“Na bíblia eu li que um homem coxo foi curado e se pôs a dançar
E quase explodindo de alegria sua cura teve de contar
Um tipo de cardiomegalia santa inflando o coração”

No cristianismo, não somente a cura física, mas também o aceitar das boas novas da salvação estimula a alegria que não se pode conter:

Não fica parado nem calado quem foi salvo da condenação
[...]”
“Quem recebeu a graça só consegue amar
Pois sente o calor da chama viva a queimar
O coração que cresce agora quer compartilhar
Pois sente que é nascido em Deus pra doar amor”


Na música “Pronto pra Amar”, o cantor diz que “só estarei pronto para amar alguém” quando deixar de olhar para si e mirar o exemplo de Cristo:

“Apenas quando eu esquecer de mim”, “me diminuir”, quando “eu olhar pra cruz”, “imitar Jesus”. Só então será possível “viver para espalhar a benção da graça”.

Estas duas últimas canções têm estilo e performance vocal que tendem ao black gospel norte-americano. Mas na verdade, ambas as canções têm um pé na rica herança do gospel negro estrangeiro e outro pé na rica musicalidade afro-brasileira.

Quando ouvem a expressão “afro-brasileira”, muitos cristãos já visualizam imagens de rituais de possessão e sons de tambores. No artigo "Música, religião e cor", a antropóloga Márcia Pinheiro percebeu que essa noção é muito presente no meio evangélico e que, por essa razão, os compositores evangélicos tendem a utilizar as expressões da música popular afro-norte-americana, como o soul e o rap.

Mas ao inserir, de forma bastante atenuada, as expressões musicais afro-brasileiras, como em “Sábado”, e afro-norte-americanas, como em “Cardiomegalia”, Daniel Salles mostra que é possível manifestar sem recalques e com tato a identidade musical negra, vista por alguns setores cristãos ainda como algo musicalmente inferior e teologicamente incorreto.

Entretanto, essa aparente subversão da forma tradicional de cantar os temas cristãos está somente nesses exemplos musicais citados acima. No restante do repertório, volta-se à musicalidade sem sobressaltos (para alguns ouvintes, claro).

Na canção “O efeito da graça”, a letra sofisticada de Mário Jorge Lima descreve o contraste entre a compreensão correta da graça divina e os pensamentos obtusos humanos sobre a graça:

“A graça e a sensação de culpa, a graça e a estúpida arrogância, a graça e a falta de transformação: são coisas mutuamente exclusivas”. A letra acrescenta: “A graça e o medo da condenação, a graça e o espaço dado ao erro, a graça e a alma sem submissão são coisas mutuamente exclusivas”.

A solução apresentada é:

“Mas quando a graça invade a nossa vida
Expulsa as trevas [...]
Traz liberdade e paz [...]”

O CD Renascido tem um forte componente autobiográfico. Poucos meses antes de produzir o CD, Daniel havia passado pelo tênue fio que separa a vida da morte. Após sua recuperação de uma doença gravíssima, cuja repercussão mobilizou seus irmãos de fé Brasil afora, ele só poderia incluir no repertório do CD uma experiência tão aguda. Daí várias canções repassarem o sentimento de dor, perda, cura, gratidão e recomeço.

Esse olhar em retrospecto para aqueles momentos não resultou em simples relato de cura física e agradecimento. Daniel Salles reconta sua experiência individual e a associa à vivência espiritual coletiva de sua igreja e dos cristãos de forma geral.

“Quem saiu de um leito frio, em quarto triste, de sons distantes,
saberá amar a vida tão resumida, abençoada e tão sofrida
Lágrimas a romper em dia de alegria, quando vier o sol”
[Renascido]

“Quanto mais escura for a noite
Mais e mais eu ponho a fé em Cristo
Quanto mais a dor aumentar
Mais e mais eu creio na promessa, o meu Senhor virá
Vou sorrir quando o sol chegar”
[Quando o sol chegar]

Para quem enumera relatos de dificuldade de sobrevivência e sociabilidade (em bom português, fome e preconceito racial), o componente autobiográfico mais dolorido comparece nas canções “Só eu sei” e “Se acostume comigo”. Mais uma vez, o autorretrato repassa a dor pelo filtro da superação alegre.

Por fim, três canções que, ouvidas consecutivamente, são um painel de três tempos de uma relação amorosa.

Na primeira, “Você me surpreendeu”, o começo de tudo, quando o amor desperta inesperadamente ou bate à porta quando se desdenha sua existência:

“Você reacendeu uma chama dormida,
outrora apagada por outros planos da vida”
ou
“Você me surpreendeu quando ao telefone
Percebeu que seu sonho era exatamente o meu”

Das coincidências e sonhos comuns dos estágios iniciais de uma relação, chega-se ao tempo em que se olha retrospectivamente. A canção seguinte se chama “Primeiro Amor” (ouça aqui), mas poderia intitular-se “o meio do amor”. Alguns trechos de sua letra podem ser interpretados assim:

“Não sei como caminhar sem ouvir o som da sua voz”: isso é a relação na perspectiva do agora.

“Eu não cruzei muitos caminhos pra te encontrar,
Eu não vivi outras história de amor assim”: isso é a retrospectiva.

“Você estava no começo e também vai estar no fim”: isso é a expectativa.

Por último, na canção “Vows Renewal” (renovação dos votos) estão as promessas de manutenção do amor nos momentos futuros. Não está aqui o fim, mas o sem-fim do amor. O amor que se renova, que se pereniza, o entendimento de que o amor não é só uma comédia romântica.

No dueto, Daniel e Rosane, esposa do compositor, cantam o amor na maturidade, na velhice. A canção diz que nas dificuldades da velhice “eu estarei lá”. E em outros versos, reaparece o estilo de Daniel de dizer as coisas mais sérias com tons de leveza:

“Quando o baby à noite acordar” e “quando a louça se acumular, eu estarei lá”.

Ao escutar o CD com outros ouvidos, menos dado a purismos teimosos, tem-se um trabalho musical que não fala apenas dos princípios da fé, da esperança, da salvação, da lei e da graça. Renascido fala das miudezas do cotidiano, das relações amorosas, da alegria de viver ou de reviver.


É assim que o mandamento do sábado é visto na perspectiva da graça, e por isso não é um peso para o compositor. É assim que a relação amorosa (o cotidiano) é vislumbrada na perspectiva do plano de Deus (o transcendente). É assim que quem esteve às portas da morte compartilha musicalmente a graça do renascimento.