29 setembro, 2008

Auto-da-fé


Luiz Fernando Veríssimo, no jornal Estado de São Paulo, de 25 de setembro:

"O vocabulário dessa crise do capital financeiro é evocativo: as instituições falidas estão sendo “sanadas”, livradas dos seus ativos “podres”, “purgadas” das suas práticas espúrias, garantidas contra o “contagio” de um mercado doente...

"Poderíamos estar na Veneza do século treze, ouvindo pregações contra o pecado da usura e seus efeitos na higiene social e na alma dos cidadãos, ou na Florença de Savanarola, que também misturava corpo sensual e corpo político e pretendia purgar os dois da ganância e das tentações do dinheiro auto-gerado, claramente uma idéia do Diabo. Os cristãos de então consideravam a cobrança de juros uma comercialização herética do tempo, e vinha de Aristóteles a condenação da usura porque dinheiro não pode procriar como um animal.

"Um contemporâneo de Shakespeare escreveu que o usurário vivia da “lechery”, lascívia, do dinheiro e não era incomum relacionarem a reprodução anti-natural de dinheiro por dinheiro com luxúria e prostituição. O que naquela época era anti-natural com o tempo se tornou natural e a mudança começou na metafísica: para que os cristãos que lucrassem com juros não fossem condenados à danação eterna, inventou-se o Purgatório, de onde os pecadores saem sanados e recuperados para o céu.

"Depois de alterar a cosmogonia cristã não foi difícil para o capitalismo financeiro ganhar o mundo e, nos últimos anos, dominá-lo. Mas, curiosamente, se o dinheiro gerado por dinheiro se tornou respeitável e hoje é a forma mais rentável, portanto mais abençoada, de capitalismo, para expiar os excessos da prática ainda se recorre à linguagem de Savonarola. O Diabo, afinal, tem a última palavra. O pecado acabou mas a culpa continua.

"O americano Tom Wolfe escreveu um romance sobre, entre outras coisas, um Mestre do Universo, que é o nome que se dão os executivos de financeiras que têm ganhos obscenos com o dinheiro dos outros, e seus infortúnios numa Nova York conflagrada em que sua riqueza e seu poder não o protegem da penitência que se aproxima. Fizeram um filme do livro, chamado “A fogueira das vaidades”, o nome da grande fogueira comunitária em que Savonarola mandava os florentinos queimarem suas posses de luxo e recuperarem a virtude perdida com a ganância e o uso anti-cristão do dinheiro.

"O livro eu não li e o filme não é bom, mas Wolfe foi profético: chegou finalmente a conta para os Mestres do Universo pagarem - ou os contribuintes americanos pagarem por eles. Ninguém irá para o Inferno, ou para o Purgatório, ou sequer será queimado, como o próprio Savonarola, pelos seus excessos. A virtude recuperada será a do velho mercado livre, talvez só com um pouco mais de comedimento e controle. Mas por um breve momento voltamos ao passado e assistimos a um educativo auto-da-fé sobre a usura castigada e a ganância penitente".

* * * * *

Lembro da cena final do filme A fogueira das vaidades quando um dos personagens principais, um yuppie que se envolveu em especulações pra lá de gananciosas e escusas na Bolsa, se pergunta e responde: "De que vale ganhar o mundo e perder a alma? Bem, tem suas vantagens". Essas são palavras que falam mais que mil imagens.

23 setembro, 2008

Dize-me do teu gosto musical e direi como és

Há grande correspondência entre gosto musical e características da personalidade. Esta é uma recente conclusão de uma pesquisa realizada com mais de 36 mil pessoas ao redor do mundo. A pesquisa, liderada pelo prof. Adrian North, diretor do departamento de Psicologia Aplicada da Universidade Heriot-Watt, está sendo considerada como a mais abrangente já feita nessa área.

O estudo sugere que fãs de música clássica são introvertidos, enquanto aficionados de heavy metal são afáveis e vivem em paz consigo mesmo; fãs de country trabalham duro e também são sociáveis como os fãs de reggae, que já não seriam chegados na dureza do batente; fãs de “indie” (termo genérico para música independente/alternativa) sofreriam com baixa auto-estima, mas seriam criativos como os apreciadores de música clássica, reggae, pop/rock e jazz. Estes três últimos estilos são do gosto de pessoas com elevada auto-estima.

Segundo o professor North, são surpreendentes “as similaridades entre fãs de música clássica e fãs de heavy metal. Ambos são criativos e vivem em paz consigo, mas são pouco sociáveis”. Isso contradiz a visão do público em geral que conserva “o estereótipo de que fãs de heavy metal são suicidas depressivos e um perigo para si e para a sociedade”.

Sobre o assunto há um oceano de pesquisas. Algumas delas, com clara indisposição em relação aos aficionados da música pop e total rejeição aos apreciadores de heavy metal, reggae e rap. Segundo as pesquisas, os fãs desses estilos musicais são maus alunos, têm péssimo comportamento social, tiram notas baixas, tendem a usar drogas e dirigir alcoolizados, enfim, são uns capetas em forma de fãs. As conclusões desse tipo de pesquisa são um prato cheio para o exercício do pânico moral dos conservadores mais exaltados e inacreditavelmente são usadas por professores universitários para confirmar sua própria predileção pela música erudita (que pra eles termina em Tchaikovski). Além disso, quando falam em rock, de que rock estão falando: o de Elvis ou o de Johnny Cash? O do U2 ou o do Sepultura? Se é dos Beatles, de que fase dessa banda? O mesmo vale para a música clássica: estão falando de música renascentista, das sonatas de Beethoven, das peças de Penderecki?

A pesquisa da Universidade Hariot-Watt, apesar de generalizar as singularidades e diversificações que há dentro de cada estilo musical listado, faz várias perguntas sobre relacionamento e atitudes e oferece 104 alternativas de escolha de gêneros musicais. Entretanto, boa parte dessas pesquisas falha fragorosamente em sua metodologia porque dão pouca ou nenhuma importância ao contexto extra-musical do entrevistado (nem vou falar daquelas pesquisas com ratos e música. Qual seria mesmo o contexto social e intelectual dos ratos?). Qualquer pesquisa que esteja desatenta ao desenvolvimento sonoro-musical do indivíduo e às circunstâncias sócio-culturais em que ele está inserido está fadada a apresentar resultados pouco confiáveis, pois investiga apenas a reação do sujeito ao estímulo sonoro-musical e deixa de lado o por quê da reação desse indivíduo.

Assim, muitos vão concluindo genericamente que o pop/rock e o rap são estilos de pessoas com perturbações psíquicas. Não ocorre a esses pesquisadores que não é porque alguém escuta hip-hop que vai tirar notas baixas na escola, mas é todo o complexo de família-escola-bairro-desemprego-personalidade que pode levar (ou não) um estudante a gostar mais de Eminen do que de Chopin. Eles também não percebem que a acessibilidade a um currículo diversificado e a um professor qualificado passa por questões socialmente mais restritivas para uns do que para outros.

Outro exemplo: uma questão que foi tocada ainda superficialmente é o emprego de funk, reggae, pagode e hard rock por tantos religiosos. Estilos associados comumente à sensualidade e ao uso de drogas e álcool são “convertidos” e usados para alcançar pessoas à margem do evangelho e da sociedade com resultados tão controversos quanto satisfatórios. Os jovens recém-conversos (e que ouvem a versão gospel desses estilos) serão maus estudantes e motoristas, ou trabalhadores irresponsáveis e sexualmente libertinos? Não é o que o apontam outras reportagens e estudos a respeito.

A metodologia inadequada e as conclusões unilaterais de certas pesquisas acabam revelando não apenas ignorância e estreiteza intelectuais, mas também uma orientação ideológica motivada por preconceitos de classe, cor ou religião. Pode haver razões para o alerta acadêmico em relação a estilos musicais, mas não será o cientificismo rasteiro à base de reações de roedores ou observações de boletins escolares que dará as melhores respostas, até porque não faz as melhores perguntas.


Para responder o questionário resumido da pesquisa da Hariot-Watt, clique aqui ou entre no site peopleintomusic.com.

19 setembro, 2008

Quarteto para o fim dos tempos

Os furacões e terremotos de ordem natural e econômica das últimas semanas levaram os arautos do fim do mundo a soarem suas trombetas mais uma vez. Contudo, o que está acontecendo são sinais de tempos apocalípticos sérios e que merecem nossa compreensão? Ou será esta nova crise generalizada apenas mais uma turnê do fim do mundo? Se observarmos os eventos atuais de maneira isolada, compartimentada, obteremos somente uma visão parcial e pouco confiável do que se chama eventos finais. Porém, se tivermos uma perspectiva mais global, se compreendermos a interrelação de fatos concretos, encontraremos evidências de uma crise conjuntural diferenciada. Consideremos, então, alguns acontecimentos utilizando a forma de um "quarteto para o fim dos tempos".

1º movimento - O declínio americano: a invasão do Iraque pelos Estados Unidos acirrou os ânimos anti-americanos de várias partes do mundo; a difusão de uma cultura estética erotizada, violenta e efêmera fez recrudescer o ímpeto ultra-conservador norte-americano; a queda dos mercados, a aguda crise de instituições financeiras centenárias, o declínio da pujança econômica estadunidense arrastando de roldão mercados emergentes. O país do “Estado laico” e do “livre-mercado” é a mesma nação tomada pela dissolução ética, por elevados índices de poluição e pelo clima anti-terror que produziu vigilância inconstitucional, prisões arbitrárias e tortura. Este mesmo país governado pela ultra-direita cristã estende as mãos sobre o Atlântico para o Vaticano em nome da ética global, instaura uma fobia anti-terrorista e converge a opinião da grande mídia em defesa de suas ações e agora “estatiza” organizações financeiras independentes e falidas.

2º movimento - Condenação do materialismo: na reformulação de suas identidades, as religiões universais encontram na ecologia e na ética um referente global. A denúncia do consumismo também faz parte da nova retórica religiosa. O budismo prevê o equilíbrio na produção de bens e de consumo, o islamismo combate o mundo materialista como um anátema demoníaco e a idéia de holismo media a perspectiva do pensamento ecológico integrado. A crítica a uma sociedade esbanjadora e consumista, porém, opõe-se visivelmente à ascese e moderação do protestantismo tradicional e das religiões orientais. Na China, prega-se o budismo econômico para os pobres enquanto o capitalismo mais desenfreado é adotado pelas outras classes sociais. O neopentecostalismo e o novo protestantismo estimulam agressivamente o consumo de bens “sacralizados e ungidos”. E Bento XVI condena o materialismo e ao mesmo tempo usa sapatos Prada, casula com 15 km de fios de prata e anel de ouro 24 quilates.

3º movimento - A defesa da Terra: aumento da poluição, escassez de água, desmatamento irrefreável, aquecimento global, esgotamento dos recursos materiais de sobrevivência. Um cenário apocalíptico de destruição do homem pelo homem causando a agonia lenta e gradual do planeta. Pano de fundo próprio para os defensores do ambiente atenderem o pedido de socorro da Terra, certo? Certo, mas não é só isso. Não apenas os ambientalistas do verde-que-te-quero-verde, não só os xiitas do GreenPeace, mas a Igreja Católica entrou pra valer na ecologia (digite "ecologia" no site zenit.org de informação católica). Leonardo Boff, o padre que lia o evangelho segundo o marxismo, direciona suas boas intenções para o alerta eco-teológico, a olhar para o recente conteúdo de seus livros – Ecologia, mundialização e espiritualidade e Nova Era: a civilização planetária. Sua visão do evangelho agora privilegia a existência de um Deus ecologicamente orientado e de um conhecimento ecocentrado em que o universo divino e o planeta Terra holisticamente se fundiriam no mesmo cosmos, inaugurando um novo modo de ser. A ecologia torna-se um paradigma que reorienta os caminhos da humanidade.

4º movimento - Uma ética global: fome, pobreza, crime organizado, corrupção política, opressão econômica, conflitos raciais e guerras étnicas. Retratando o colapso dos sistemas laicos de governo e regulação social, o Parlamento das Religiões Universais, realizado em Chicago-1993, enfatiza em sua declaração final a necessidade de um consenso global e uma atualização de vínculos morais entre pessoas que dividem o mesmo destino e o mesmo planeta. Caberia, então, às entidades religiosas o papel de administrar, em conjunto com as instituições democráticas legais, a profusão de problemas e sua complexidade de resolução. Assim, o discurso religioso voltaria a ter uma dimensão de atuação planetária ao pressupor uma moral planetária, desta vez sob a justificativa de uma nova ética mundial.

Como num concerto erudito, os “movimentos” quando escutados separadamente proporcionam uma audição incompleta. Contudo, ao escutarmos todas as seções do mesmo concerto, podemos entender a intenção do compositor, o estilo da interpretação do instrumentista, o que o autor e o intérprete estão comunicando. Relacionando os quatro “movimentos” acima é possível situar-se no tempo e na história e compreender de forma mais abrangente tanto os eventos que já se foram quanto aqueles que estão por vir.

O título desse texto é uma referência ao título de uma obra-prima musical de Olivier Messiaen (1908-1992).

16 setembro, 2008

Are you 'shure', Aline Barros?

Depois do radiopastor e da telepastora assistimos a chegada de mais uma modalidade: a popstora. É como popstora que Baby do Brasil (ex-Baby Consuelo, ex-cantora-do-mundo e esquisita) se define. Pelo menos, esta reconhece o fator pop na sua carreira de pastora. Mas no mundo gospel neopentecostal, ninguém se define como popstora, nem mesmo como artistas. São todas “levitas” que “abençoam” as multidões de “fiéis” que participam das “ministrações” e “intercessões”.

A revista Backstage passou a dedicar algumas páginas ao mundo gospel. Na edição 162 (seção Boas Novas), além da agenda dos levitas e resenhas positivas de lançamentos de seus cds e dvds, há uma breve matéria que informa que “as ministrações de Aline passaram a contar com a alta qualidade dos produtos da marca Shure”. Depois, somos informados sobre os modelos que a cantora utilizará com exclusividade. Em propagandas de página inteira (revistas Igreja e UpGospel!) vê-se uma foto da cantora no palco com a legenda: “Aline Barros usa e recomenda os microfones Shure...”.

Preocupados também com o que têm para vestir, os (ad)“ministradores” da carreira da jovem cantora-pastora providenciaram um acordo com a marca Triton. O site oficial de Aline Barros assim informa: "Além do calor do público da cidade de Rio Claro, Aline também se aquece com o casaco, fashion, da loja Triton. O visual descontraído e jovial da loja Triton vestiu Aline Barros no Show que abençoou o povo da cidade”. (foto acima)

A construção da fama passa hoje obrigatoriamente pelos meios de comunicação de massa. É através da veiculação de imagens de um certo indivíduo, exibida constante e positivamente, que se estabelecem relações de afetividade entre o fã e aquele indivíduo, consolidando-o, enfim, como popstar. As estruturas da mídia geram mecanismos de glamourização ou vedetização que permitem personalizar figuras emblemáticas que concentram imaginários de felicidade e projeção de aspirações.

Em sua extensa tese ("Movimentos do Catolicismo Brasileiro"/UNICAMP), a pesquisadora da religião Brenda Carranza avalia que, “se aos mecanismos de projeção e de identificação, de dramaticidade, emotividade e empatia, se soma a promessa de vincular o terreno com o divino, o profano com o sagrado, traços religiosos presentes na representação do portador do sagrado, então, a vedete artística passa a ser uma vedete religiosa. Ao imaginário social que alimenta e sustenta o êxito da personagem 'profana', se soma, qualificando-a, o imaginário religioso, ampliando-se não só as potencialidades mercadológicas, mas, também, as interações culturais expressadas de maneira religiosa”.

Não pretendo discutir o grau de sinceridade da fé dos cantores gospel e suas estratégias de sobrevivência no mercado e de divulgação de mensagens evangélicas. Quero apresentar os formatos de clara acomodação à lógica de mercado relacionada ao tratamento pop-midiático dos conteúdos ditos cristãos. Se na lógica de mercado o que vale é a força da grana que ergue e destrói tradições belas (e também algumas fajutas), na lógica neopentecostal vale tudo para alcançar os não-conversos e manter a membresia; se é que o movimentado fluxo religioso contemporâneo permite ainda a quantificação de leigos membros matriculados e fixos a uma igreja.

Outro fator que não se pode discutir no meio gospel sob o risco de ser acusado de “perseguidor” dos evangélicos é a sacralização dos eventos e produtos. Como no convite de Aline Barros para a gravação ao vivo do dvd Caminhos de Milagres - grifei expressões que nitidamente fazem a clivagem adoração-comércio-show.

"Uma noite de adoração, de cura, milagres, salvação, celebração ao nosso Deus. Assim será a noite da gravação do DVD Caminho de Milagres no dia 7 de junho, no Maracanãzinho (RJ). Garanta já o seu ingresso, pois vai ser uma noite abençoada, e eu quero, junto com você, declarar um novo tempo na sua vida. Um tempo de milagres, um tempo de bênçãos sobrenaturais da parte de Deus pra sua vida e pra toda a sua casa. [...] Te espero lá!" (vídeo disponível no site da cantora).

A diretora artística da gravadora MK, Marina de Oliveira, ao falar sobre a gravação do mesmo DVD, alardeia as proporções tecno-musicais do show: “o palco é altamente high-tech com dois telões de 40 metros quadrados”, “na gravação vai acontecer, o que podemos chamar de 'duelo santo' de baterias, que está muito legal!”. Revelou-se depois que os cantores convidados ficaram “intercedendo” pelo show, em que Aline Barros cantou, “ministrou a Palavra”, “quebrantou-se” (é quando o artista-levita chora, gesticula, repete frases ad infinitum, enfim, mostra-se contrito e compungido) e dançou, que crente não é de ferro.

Por fim, antes de lançar na ExpoCristã a Agenda Aline Barros 2009 e a Bíblia Infantil Aline Barros e Cia, a cantora disse em entrevista no programa Olga Bongiovanni (RedeTV) que o DVD que lançará está “lindo, [pois] a gravadora fez tudo com excelência como manda a Palavra de Deus”. Além disso, ela diz ter “certeza de que vai abençoar multidões e impactar gerações”. Certezas, certezas. Are you shure, Aline Barros? (com trocadilho, por favor).

Seria contraproducente criticar a adoção de modelos de gestão empresariais ou o ambiente de entretenimento dos megaeventos anunciados pelo mercado gospel. Nem também a simples menção do termo “mercado” é um anátema. Afinal, é preciso saber gerir pessoas e produtos dentro de qualquer esfera de atuação econômica ou religiosa. Ademais, o entretenimento leve proporcionado por esses eventos agrega jovens conversos, promove uma identificação evangélica e confirma valores tradicionais.

Contudo, no processo de personalização e sacralização do produto (o DVD ‘abençoa’) e dos eventos (‘garanta seu ingresso pois vai ser uma noite abençoada’, ‘duelo santo’ dos instrumentos), a indústria fonográfica gospel nem de longe opera segundo uma weberiana ética protestante de poupança e segue traçando suas táticas de acordo com a nova ética neopentecostal de consumo, em que os levitas tornam-se celebridades divulgadoras de marcas e portadores inquestionáveis da unção e da benção.

11 setembro, 2008

O cinema, eu e o outro

Logo após o ataque terrorista do 11/9/2001, circulou um e-mail em que visualizava-se o que parecia ser um rosto na formação de nuvens de poeira e fumaça que saía das Torres Gêmeas. O autor anônimo não tinha dúvidas: era "o rosto do diabo".

Quem divulgou o e-mail certamente nunca viu o dono do rosto. Então, isso só tinha um objetivo: demonizar os autores do ataque terrorista. É claro que o atentado de 11/9 foi um ato terrível e nada celestial. Mas não há notícia de imagens que mostrem uma ‘face do mal’ no cogumelo atômico produzido pelas bombas americanas sobre o Japão, ou nas nuvens de napalm sobre o Vietnã, ou nos destroços causados por terremotos e tsunamis.

Hollywood passou décadas representando o “outro”, o estrangeiro, com todos os estereótipos possíveis. O latino sujo e barulhento, o italiano passional e teatral, o francês esnobe e arrogante, o russo espião e conspirador. Mas o pior tratamento foi relegado aos árabes. Apesar de toda a riqueza cultural e diversidade étnica do Oriente Médio, o árabe no filme de ação é o sujeito que mata sem piedade, não tem bons modos, fala uma língua ininteligível e é um fanático religioso e bruto.

Essa caricatura de árabe era o vilão preferencial dos filmes dos anos 1980. Águia de Aço I (1985) e II (1988) retratam os árabes como sádicos e perversos e os americanos como heróis que aniquilam os vilões. Em Comando Delta (1986), Chuck Norris e sua turma partem para libertar americanos e europeus sequestrados por palestinos; Pelotão da Vingança (1987) opõe os “maus” árabes contra os “bons” israelenses e americanos.

Uma marca de alguns desses filmes é expressar temores populistas em relação ao Outro malvado. Sim, o Outro é sempre o vilão. E pior: este Outro não tem rosto, não tem voz, como em Amanhecer Sangrento, Supercomando e Invasion USA. Em Ases Indomáveis (1986), o inimigo não é tão importante quanto o desfile de motos, óculos escuros e baladas românticas. Em Rocky IV (1986) Sylvester Stallone encarna o espírito belicoso da Era Reagan, chegando a trajar calções com a estampa da bandeira norte-americana e enfrentar no ringue um brutamontes soviético. No filme, Stallone ri, chora e sofre ao passo que seu oponente tem gestos mecânicos e não expressa emoções.

Há também filmes que fazem uma crítica ao papel americano de xerife do mundo. Apesar de certo sentimentalismo (com uso meloso da câmera lenta e do Adágio para Cordas, de Samuel Barber), Platoon (1986) mostra as neuroses de um pelotão no Vietnã; Nascido para Matar (1987) desconstrói os mecanismos que estruturam a guerra (preparação, informação e combate); Missing – O Desaparecido (1982) e Salvador (1986) contestam o intervencionismo americano na América Latina.

Para conhecer o outro, é preciso adentrar na sua cultura, saber de seus anseios e necessidades. Portanto, se você quer mais do que diversão cinematográfica e espetaculosa, se você não se importa com o idioma de origem mas com a qualidade do filme, me permita as sugestões:

Paradise Now (foto acima, 2005) – filme palestino sobre dois amigos de infância recrutados para um ataque suicida em Tel-Aviv. Os personagens são humanizados e têm dúvidas, inseguranças e outras vontades.


Munique (2005) - a retaliação infinita entre israelenses e palestinos aponta para o resultado catastrófico da intolerância (a cena final com as Torres Gêmeas ao fundo).


Filhos do Paraíso (1997) – cativante história de duas crianças iranianas às voltas com a perda de um par de sapatos.

Lemon Tree (foto ao lado, 2008) - uma viúva palestina vai à justiça contra o primeiro-ministro israelense (seu novo vizinho) que, por motivos de segurança, pretende derrubar sua plantação de limões.

Lawrence da Arábia (1962) – não se assuste com a idade do filme. Este grande épico não é falado em língua árabe, mas foi um dos primeiros a dar voz e vez aos homens da região. Como em Cruzada (2005), os árabes são seres com inteligência e dignidade.

Alguém pode dizer que os filmes que critiquei são apenas entretenimento passageiro. Ora, isso eles são mesmo. São só diversão de mentirinha. Porém, quando uma mentira é repetida constantemente, ela pouco a pouco passa a ser aceita como verdade. Por isso, é preciso que sejamos apresentados a outros olhares. Porque, ver o outro como um de nós, dotado de sentimentos, temores e esperanças, ajuda a perceber que todos os seres humanos somos muito parecidos, muito mais próximos do que imagina nossa vã ideologia.

09 setembro, 2008

Mulheres, cérebro, música

Acabo de ler que, segundo o Conselho Superior de Pesquisas Científicas da Espanha, o cérebro dos homens têm até 30% a mais de conexões entre neurônios. Calma. O Conselho ainda foi molhar o bico para depois completar dizendo que isso não significa necessariamente que os homens são mais inteligentes que as mulheres. Concordo. E aposto que esses 30% a mais não são conexões Tigre.

Os autores da pesquisa publicada na última edição da revista PNAS argumentam que isso quer dizer que os cérebros de homens e mulheres diferem quanto ao processamento de informações. É uma descoberta e tanto considerando-se que até ontem maldosamente se pensava que a diferença nesse processamento se devia à pigmentação capilar aloirada ou à submissão prolongada à teleprogramas infantis de apresentadoras com elevado índice de pigmentação louro-capilar.

A equipe científica detectou diferenças entre homens e mulheres em uma área do cérebro relacionada com os processos sociais e emocionais e a capacidade humana de atribuir intenções a outras pessoas. Essa área é o neocórtex cerebral. É nesta parte do cérebro que os homens apresentam até 30% a mais de conexões sinápticas (Sinapses são aquelas “janelas” que se fecham de par em par quando envelhecemos ou, melhor descrito, são as junções microscópicas que enviam sinais de um neurônio para outro).

Capacidade de atribuir intenções a outras pessoas: agora se sabe porque os homens sempre jogam a culpa uns nos outros ou habitualmente nas mulheres. Já dá pra ver aquele casal brigando no apartamento recém-financiado e mal-pago. Ela: “você está sempre pondo a culpa em mim”. Ele: “ah, meu bem, são esses malditos 30% a mais de conexões sinápticas”. Experimente dizer isso às 3 da manhã e você, macho alfa, vai precisar de outro neocórtex cerebral. A ciência às vezes complica a vida da gente, né, não?

* * * * *

No livro As Pianistas dos Anos 1920 e a Geração Jet-Lag (Ed. UNB), a autora Jaci Toffano revela que, de 1913 a 1929, 97% dos alunos do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo eram mulheres. Mas havia uma barreira que as impedia de construir uma carreira como pianista: “havia a domesticidade, a aproximação forte com o piano, mas quando chega o limite entre diletantismo e profissionalismo, havia uma barreira”. Daí a ausência de mais e melhores mulheres-pianistas no mundo masculinizado da interpretação pianística.

Alguém já me disse que uma explicação plausível para o número de homens famosos como chefs de restaurantes é: as mulheres crescem obrigadas a cozinhar e os homens crescem e depois vão se divertir cozinhando. O patriarcalismo também é notório no século XX, pois, entre conciliar as viagens de trabalho e os afazeres domésticos, muitas compositoras e instrumentistas tiveram suas carreiras interrompidas (ou nem mesmo iniciadas) por escolherem a segunda opção. Por que a ínfima quantidade de mulheres-pianistas geniais como Martha Argerich? Seriam apenas por causa de formas diferentes de processamento cerebral, fisiológico, emocional entre homens e mulheres? Ou será pela pequena colaboração masculina nos cuidados do lar, o que exigiria mais tempo materno da mulher-pianista?

Em seu livro, Jaci Toffano aborda as carreiras bem-sucedidas das pianistas brasileiras Antonieta Rudge (1885-1974), Magdalena Tagliaferro (1893-1991) e Guiomar Novaes (1896-1979). Por nossa conta, podemos citar também a pioneira Chiquinha Gonzaga, que rompeu barreiras ainda mais rígidas e preconceituosas ao escrever música popular no final do século XIX; Eudóxia de Barros, Maria Teresa Madeira, Esther Scliar; a regente Ligia Amadio; as compositoras Marisa Rezende e Jocy de Oliveira (esta, a mente mais criativa da música brasileira de concerto); e as jazz pianists Tânia Maria e Eliane Elias – ambas radicadas nos Estados Unidos.

Jaci Toffano escreve que as mulheres-pianistas podem equivaler-se aos homens, mas dificilmente estão no topo. Por isso, ela diz que quando vê uma mulher brilhando na música, das duas, uma: “ou ela está pagando um preço alto, ou encontrou um homem que colabora”.

05 setembro, 2008

A volta de Jesus em 4 músicas

Neste sábado, dia 06, mais de 20 milhões de exemplares da revista Viva com Esperança serão distribuídos pela Igreja Adventista em toda a América do Sul. Jornais de grande circulação também vão encartar as revistas e distribuí-las nesse dia: O Globo (285 mil cópias), O Estado de Minas (70 mil) , Super (MG, 145 mil), Diário Catarinense (60 mil) e Tribuna (Vitória, 72 mil).

Como “trilha sonora” para o evento, selecionei quatro músicas que expressam a esperança na segunda vinda de Jesus.


Chegou a hora – Jader Santos

Filho, vai chegou a hora
Filho, vai sem mais demora
(...)
Já preparei a casa, já preparei a mesa
Filho, Me traz de volta
Quem criei, quem perdi
E na cruz resgatei

O refrão dessa música é uma resposta ao desejo revelado no início (já ouvimos tantas vezes sobre a volta de Jesus / nosso coração anseia ver o brilho de Sua luz). Segundo a Bíblia, ninguém, a não ser o Pai, sabe quando será o dia do retorno de Cristo. O compositor imagina o Pai dizendo ao Filho que, enfim, chegou a tão aguardada hora. Embora os salvos só conheçam a Jesus pelos olhos da fé, a vinda de Cristo manifesta um caráter de reencontro.


Ele virá – Leonardo Gonçalves

A letra dessa canção aborda uma ampla esfera de pensamentos que envolvem a Segunda Vinda. Começa com uma declamação de verso-chave da interpretação do tema do Advento (Temei a Deus e dai-Lhe glória, pois é chegada a hora do Seu juízo; e adorai Aquele que fez o céu, a terra, o mar e as fontes das águas – Apocalipse 14:7), segue visualizando sinais que anunciam a volta de Jesus (não apenas menciona a multiplicação das guerras e do medo, mas também fala de como a intriga, a má-fé e a hipocrisia de professos cristãos dão razão à incredulidade de ateus), mas sempre repete que Ele virá.

O eu-lírico da canção expõe dúvidas e angústias (na música há uma alternância de canto e recitação), mas, ao final, se determina a não temer, entregar-se a Deus e desejar ver Sua vinda com um sorriso de confiança.

O Rei vem vindo (The King is coming) – Bill & Gloria Gaither

Ressurreição (eis que se abrem sepulturas a ordem do Senhor / os remidos ressuscitam...), o cenário de destruição (os maus em desespero, em angústia e aflição / já se escondem pelas rochas...), a subida para o céu (todo o céu está se abrindo, há um coro sem igual / como o som de muitas águas / nós ouvimos ecoar Aleluias ao Cordeiro / nós já vamos para o lar).

A versão brasileira utiliza-se de versos da profecia bíblica para descrever as cenas da volta de Cristo e apresenta um estilo de letra e música que segue uma estrutura mais tradicional, mas não menos precisa ou bela. Logo tornou-se um clássico mundial da música protestante.

Vamos para o lar (Midnight Cry) – Greg Day

Ao meu redor, profecias estão se cumprindo
E os grandes sinais aparecem muito mais
Posso quase ver o Pai, ajuntando seus filhinhos
E ao Jesus chamar, vamos para o Lar

Jesus virá em glória pra chamar os seus filhinhos
E os mortos viverão pra encontrá-lo lá no ar
E os vivos mudarão transformados pela glória
E ao Jesus chamar, vamos para o Lar

A expressão “posso quase ver” exemplifica o pensamento que permeia as músicas sobre o tema do Advento. O desejo de ver Jesus voltar inspira os autores a anteciparem cenas descritas pela Bíblia como ainda por vir. Como as outras músicas mencionadas, esta também se pauta pela fidelidade ao texto bíblico. Os quatro últimos versos dos trechos selecionados acima poetizam a passagem de I Tessalonicenses 4:15-17.

Vale observar que no verso seguinte (4:18) consta a seguinte orientação do apóstolo Paulo: “Consolai-vos, pois, uns aos outros com essas palavras”. O compor e o cantar dessas canções é uma forma de revelar ao mundo e assegurar uns aos outros o acontecimento apontado como a “bendita esperança” do cristão: a segunda vinda de Jesus.

E você? Que música escolheria sobre a segunda vinda de Jesus?

Chegou a hora – cd 'Chegou a Hora', quarteto Arautos do Rei
Ele virá – cd 'Viver e Cantar', Leonardo Gonçalves
O Rei vem vindo - gravações com Gaither Vocal Band
Vamos para o lar – cd 'Álbum de Família', Fernando Iglesias; original em inglês com Michael English & The Brooklyn Tabernacle Choir

02 setembro, 2008

Esportistas, graças a Deus

Valdeno Brito tem 34 anos e nasceu em Campina Grande, Paraíba. Estreou na categoria em 2004 e nunca havia vencido uma prova, apesar de já ter conquistado duas poles. Ele é o único nordestino da Stock Car.

- É muito difícil formar pilotos por lá, pois não temos um autódromo – disse o piloto.
- Parei de correr em 2004 por falta de patrocínio. Só voltei em 2004 graças a uma ajuda do governo da Paraíba. Foi um milagre, pois nunca desisti e sempre confiei em Deus.
Ele diz ainda: Todos na Medley [sua equipe] merecem. Sou apenas uma parte da preparação da equipe. Por isso, o prêmio será compartilhado por todos.

Intervenção divina ou não, o fato é que a corrida lhe foi surpreendentemente favorável, mesmo considerando que “surpresa” não é bem uma novidade no mundo do automobilismo. No duelo entre Luciano Burti e Ingo Hoffman pelo terceiro lugar, Valdeno Brito levou a melhor. Hoffman perdeu o controle do carro e Burti foi punido com uma ida ao boxe por encostar em Jorge Neto.
Com a troca de pneus, o piloto ganhou algumas posições, até ficar em segundo lugar, na cola de Cacá Bueno, que liderava a corrida até então. Quando tudo parecia definido em favor de Cacá, uma pane elétrica tirou a chance de vitória do filho de Galvão Bueno.
Foi quando Valdeno assumiu a ponta e conduziu seu carro para sua primeira vitória na categoria e o topo do pódio na Corrida de 1 Milhão de Dólares.

Após a vitória, o piloto disse que o triunfo devia ser partilhado “com o Senhor Jesus Cristo, pois foi Ele quem me tirou das trevas para a luz”. Mais tarde, revelou ter perdido a cabeça no passado, afastando-se da família, da carreira e mergulhando nas drogas. Entende-se, assim, o agradecimento de Valdeno Brito. Milhares vão dizer que se trata de um caso simples de reorientação na vida, esforço humano e sorte. Valdeno Brito tem certeza de que não foi só isso.
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Em entrevista coletiva, o jogador Roberto Brum usou uma típica analogia evangélica: a história da águia que, não conseguindo mais alçar altos vôos, procura um lugar para reanimar-se. Dali, após bicar-se (!?) e renovar as forças, ela parte rumo às alturas outra vez. Parece motivacional de palestra de auto-ajuda, mas foi com essa história que Roberto Brum procurou estabelecer uma analogia entre a situação do seu time, o Santos (caindo pelas tabelas do campeonato), e a águia que sofre para voltar ao topo. Não sei se as águias têm dessas ansiedades e proposições de vida, mas é uma metáfora que deve funcionar no meio futebolístico. Afinal, cada história tem seu público.

Roberto Brum, em outra entrevista, dessa vez falando do momento individual que viveu no clube, começou a cantar uma música de letra e linha melódica pentecostais. No meio da canção, o jogador emocionou-se e quase não completa versos como:

[Deus] Pega a pessoa que não tem mais jeito
Põe uma medalha no seu peito
Porque Deus é maior
Ele é o Deus do impossível
Vira pelo avesso essa situação
Pega a pessoa fracassada e faz virar patrão

Será que se ele cantasse ‘levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima’ iriam apreciar mais? Quando os jogadores reproduzem a mímica do “créu” as TVs não saem exibindo a semana toda? Por que muitos ridicularizaram o jogador?

Parte dessa rejeição ao evangelicalismo atual é uma reação ao comportamento exaltado de um tipo predominante de evangélico. Este não termina uma frase sem repetir um “em nome de Jesus”, com o semblante extasiado, à procura de entretenimento religioso e salvação econômica. Num país de muitos pobres, as denominações neopentecostais oferecem a oportunidade de inclusão e ascensão social. Com o fim de outras tantas restrições comportamentais (quanto à locais de freqüência, vestuário, música) e a recente oferta de uma enorme variedade de produtos gospel (sandálias, camisetas, xampus, cosméticos em geral), o evangélico encontrou na liberalização de costumes e na expansão midiática e econômica seus estandartes para afirmar-se socialmente – embora diga fazê-lo “em nome de Jesus”.

Assim, não é apenas o conteúdo em parte renovado em parte tradicional do neopentecostalismo e seu crescimento que espantam os outros grupos religiosos (e também os não religiosos). É também a forma estridente com que comunica suas mensagens, é o uso emocionalista que faz do encontro religioso, é o emprego de padrões enviesados de marketing, é a má-fé denunciada com que conduz sua mistura de empresa-igreja. Por certo, outras denominações, em menor ou maior grau, possuem essas características. Mas o neopentecostalismo, por atirar-se tão sofregamente a sua proposta de renovação cultural-religiosa acaba por atrair mais atenção e trazer mais opróbrio ao evangelho simples de Cristo.

Voltando ao caso do jogador, se é verdade que nem só de fé vive o futebolista, mas também de todo empenho e desempenho nos treinos e jogos, não cabe a discussão aqui. Quero ressaltar a atitude do atleta na entrevista. Ele apenas relembra alguns fatos tristes de sua situação anterior no clube e, conduzido pelas perguntas dos repórteres, agradece a Quem ele crê que mereça... e canta.

Certo esnobismo musical desprezará o estilo da canção. Certo farisaísmo evangélico tomará por ridícula as desafinações do cantor. Não é porque falei em bossa nova no texto anterior, mas com certeza no peito do desafinado (evangélico) também bate um coração.

Alguém já deve ter expressado de outra maneira, mas não lembro de uma melhor. Por isso, valem os versos de Newton Mendonça:

Se você disser que eu desafino, amor
Saiba que isso em mim provoca imensa dor
Só privilegiados têm ouvido igual ao seu
Eu possuo apenas o que Deus me deu

Aqui, o vídeo de Roberto Brum cantando na entrevista