30 agosto, 2011

a fábula de Sir Ney

Trabalhei em São Luís por alguns anos e vi de perto o sentimento de “gratidão” que os ludovicenses têm pelos governantes que deram continuidade aos índices mais baixos de desenvolvimento do país (e olha que o Estado do Maranhão era a 4ª potência econômica no Brasil Império). Depois do recente caso do senador que utilizou helicóptero da Polícia Militar para passear com a família, depois "de tanto ver prosperar a injustiça", resta-nos contar mais uma fábula menor de moral mínima.

As fabulosas façanhas do fidalgo Sir Ney

Em tempos imemoriais, vivia o fidalgo Sir Ney, barão das províncias de Big Maranha, lorde de MacApah. Sir Ney jamais foi visto com o péssimo hábito de criticar a realeza. Tal cousa espantosa se dava pelo simples fato de que Sir Ney sempre estava ao lado de quem detinha o cetro, amparando os monarcas, ele que monarca já havia sido, com suas academicamente imortais palavras de philantropia e lealdade.

O apreço de Sir Ney era tido em alto preço entre os membros da nobreza, cada qual desejando auxiliá-lo desinteressadamente em suas necessidades de locomoção, às vezes por meio do empréstimo de uma singela carruagem movida à hélice.

Com o nobre dever de assegurar a sobrevivência de sua nobre casta, Sir Ney tinha o nobiliárquico costume de partilhar cargos e terras. Um castelo para o mais moço, uma ilha para a princesa herdeira, uma corte para o genro mais chegado que um irmão.

Por causa disso, alguns de seus detratores dizem que vem daí o termo nepotismo, do original “neypotismo”.

Entretanto, estimado webleitor, não caia em tais artimanhas que ensejam apenas e tão-somente o opróbrio de tão rico homem. Pois veja que, em louvor às incontáveis benfeitorias à população, os logradouros públicos receberam o privilégio de ostentar o brasão e o nome da casa de Sir Ney. Em muitas terras cristãs, mantêm-se a tradição de rezar em nome do Pai, do Filho e do Espírito. Nas terras de Sir Ney, porém, reza-se em nome do pai, do filho, da filha, do irmão, do genro...

Mas isso não passa de ironias afônicas dessas deturpadas invenções modernas, como a internet e a imprensa, que andam a espalhar que Sir Ney fez muito para a pobreza, mas pouco pelo pobre.

Moral mínima: ouviste que os antigos falavam em “dar a César o que é de César”. Pois desde os antigos já se fala em “toma lá o que não é meu, dá cá o que é de César”.

23 agosto, 2011

retromania e a depreciação da música

"O passado não só não morreu, como ainda não passou", teria dito o escritor James Joyce. A moda de reviver os estilos musicais e performances do passado, o famoso "revival", confirma o que disse o autor irlandês. 

No Brasil, posso citar o atual revival da música sertaneja, que agora experimenta o sucesso popular que teve na virada dos anos 80 para os 90. Nos EUA, tem a Jennifer Lopez regravando uma antiga lambada do grupo Kaoma (Chorando se foi...) em ritmo de dance music. Só falta a Beyoncé gravar Pense em mim, chore por mim pra consolidar a globalização do brega!  

Por que temos a impressão de que um sucesso novo se parece com um sucesso antigo? O crítico de música Simon Reynolds acredita que todo movimento musical foi na fonte do passado buscar inspiração. Só que agora estaríamos num momento em que a inspiração é buscada num passado cada vez mais próximo. 

Reynolds também se mostra preocupado com a cultura digital, no sentido em que essa cultura facilita o acesso à música de graça. E o problema com a música grátis é que, na medida em que não há uma disposição física e financeira para conseguir ouvi-la, o ouvinte teria menos preocupação com o valor cultural da música.

Essas questões são levantadas no livro Retromania - Pop Culture's addiction to its own past, lançado recentemente por Simon Reynolds nos EUA, em que o autor examina o museu de grandes novidades da cultura pop, e vê essa cultura obcecada com seu passado. Reynolds comentou o assunto na entrevista concedida à Folha de S. Paulo (20/08/11, no caderno Ilustrada, por André Barcinski):

A escuta desatenta do público: "O problema de ouvir música via computador ou iPhone conectado à Internet é que o mesmo portal que está conectando você à música é também capaz de, simultaneamente, conectá-lo a milhões de outras coisas. Então, há uma tentação irresistível a clicar em outra coisa e fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo – checar e-mails, baixar mais música, etc. Então você raramente está imerso apenas na música.

Publicações na web são criadas para desestimular o leitor a terminar de ler qualquer artigo, porque elas têm uma série de links coloridos e que chamam a atenção. As publicações não querem que você termine o artigo, porque querem o maior número possível de cliques. Quanto mais você pular de uma parte a outra, melhor para eles".

A depreciação da música: "A equação é simples: se você gastou dinheiro num bem cultural, seja um livro, revista, disco, etc., você vai gastar tempo tentando extrair o máximo dele. Se você gasta dinheiro com um CD, vai prestar atenção nele quando tocá-lo, e vai tocá-lo mais vezes. Se você obtém um CD de graça, na forma de downloads, você fica mais propenso a ouvir poucas vezes e de uma forma mais distraída. Você vai ouvir a música enquanto faz outras coisas no computador (chamam a isso de “síndrome de atenção parcial”), e você muitas vezes nem vai ouvir o disco todo.

Além disso, se você vive baixando muita música, como as pessoas tendem a fazer quando conseguem música de graça, é matematicamente mais provável que você ouça cada canção menos vezes. E muitos discos só começam a se revelar totalmente depois de repetidas audições.

[...] eu diria que a cultura digital se fundamenta na facilidade, e que a facilidade de acesso e o custo mínimo de aquisição têm levado a uma depreciação no valor da música e à degradação da experiência audiófila".

17 agosto, 2011

se eu quiser falar com Deus: MPB e canção cristã

A religião também está presente na música popular brasileira. Em suas músicas, os compositores revelam seu modo de entender os assuntos sagrados. Nos anos 90, Gilberto Gil escreveu a canção "Se eu quiser falar com Deus" e entregou ao cantor Roberto Carlos. Este se recusou a gravá-la alegando que não concordava com a maneira de se relacionar com Deus descrita na letra.  

Anos depois, Mário Jorge Lima, compositor e teólogo adventista, compôs "Se eu quiser falar com Deus", uma espécie de explicação doutrinária sobre a oração, sobre a comunicação com Deus, que também funciona como resposta elegante no campo musical e hermenêutico à canção de Gil. A diferença entre as canções está menos na parte estritamente melódica do que na parte teológica, isto é, na compreensão de cada compositor sobre a relação entre o homem e Deus. 

Enquanto a inegável força poética da canção de Gilberto Gil deixa entrever a dúvida e a ambiguidade e, ainda, uma visão de abandono e autossuplício como parte da caminhada para se chegar a Deus, Mário Jorge Lima utiliza versos de uma forma didática para explicitar uma maneira mais acolhedora e simples de relacionar-se com Deus. Ora, vejam: um compositor de excelência como Gil complica a relação do homem com Deus de um jeito que só certos teólogos eruditos conseguem; e o erudito Mário Jorge Lima simplifica esse relacionamento de um jeito que só certos compositores populares são capazes.

A revista de teologia Kerygma, do Unasp - campus 2 (Centro Universitário Adventista de São Paulo), publicou um artigo de minha autoria em que descrevo as distinções de pensamento e interpretação teológica dos dois compositores, Gilberto Gil e Mário Jorge Lima. Para entender melhor, você pode acessar o artigo nesse link da revista: 

Nota: no começo do artigo falo sobre a teomusicologia, tema e método da minha pesquisa no doutorado. Se quiser conhecer esse ramo de estudos, vá em frente. Se não, você pode saltar essa parte de justificativa metodológica e ler partes seguintes sem nenhum prejuízo ao entendimento geral do texto.


12 agosto, 2011

o dia em que Hollywood entendeu a Bíblia

Houve um tempo em Hollywood em que os produtores descobriram que a Bíblia podia lhes render um bom lucro. A fórmula era fortão se apaixona por mulher ideal e detona um império. O ator podia ser podia ser um gladiador, um rei, um escravo, um romano, um hebreu como Sansão; a atriz podia ser uma escrava, uma cristã, uma plebeia, às vezes uma pagã fatal como Dalila; o império derrotado ou era o filisteu ou era preferencialmente o romano.

Claro que não basta ter a receita na mão. Sem o cozinheiro certo, tudo podia virar um tremendo fiasco ou, no mínimo, perder a noção do ridículo. De todos aqueles filmes, a única obra-prima é Ben-Hur (1959), que tem a vantagem de ter como diretor o genial William Wyler, capaz de equilibrar as cenas grandiosas e épicas com o drama intimista.  

Ben-Hur dura pouco mais de três horas que passam voando. A edição é uma aula para esses filmes monstrengos de hoje que pegam um naco de enredo e o enchem de barulho pra ver se passa rápido. Ben-Hur conta uma história de vingança e arrependimento, tem um casto romance, batalha naval, revolta de judeus contra o despotismo de Roma, corrida de bigas contra o romano Messala, seu ex-amigo de infância, e passagens da vida de Jesus. E não se sente o tempo passar.

Se o personagem principal é Judá Ben-Hur, o coadjuvante é simplesmente Jesus, que dá água a Ben-Hur, lhe vê passar ao longe enquanto fala a uma multidão nas colinas, ou carrega a cruz rumo ao Gólgota. Judá vê a Cristo, Cristo sempre dá atenção a Judá, mas o rosto de Cristo nunca é mostrado no filme. É como se o filme dissesse que o povo judeu, embora tivesse a Cristo ali perto, não Lhe retribuísse a atenção devida.

Uma cena extraordinária é aquela em que muita gente começa a se assentar aos pés de Jesus, mas Ben-Hur O olha de longe e decide continuar andando. A imagem corta para Jesus sendo mostrado de costas, mas Sua cabeça se movimenta acompanhando os passos de Ben-Hur ao largo. Essa cena me tocou bastante pela sugestão de que Cristo se importa com os que se achegam a Ele, mas não deixa de demonstrar interesse pelos que se distanciam.

No regresso de Ben-Hur a sua terra natal, ele encontra um árabe alegre com seus convidados e inflexível quanto ao tratamento mais humano de seus belíssimos cavalos de corrida. Entre esses convidados recebidos num dia de calor, está alguém que conta a Ben-Hur que presenciou o nascimento de Jesus e que Ele já teria a idade de Ben-Hur. O ancião acredita que Jesus é o Filho de Deus, e diz que Ele é Alguém que naquele dia quente “também viu o sol se por”.

Pouco a pouco vai se configurando o grande inimigo de Ben-Hur: ele mesmo, e não  Roma, não Messala. Sua esposa lhe diz que esse Cristo, ao qual ele não dá crédito, ensina que se deve amar os inimigos e orar pelos que lhe perseguem. Esse é um ensinamento radical demais para seu coração ainda cheio de ódio. Afinal, ele não só esteve preso por mais de três anos nas galés, como também sua mãe sua irmã ficaram confinadas nos subterrâneos de uma imunda prisão onde contraíram da grave doença da época: a lepra.

A mudança de atitude de Ben-Hur começa quando ele passar a acreditar que Cristo pode curar sua família. Mas ele aparentemente chega tarde, pois Jesus está naquele momento carregando uma cruz. Ben-Hur passa a acompanhar com renovado interesse aquela caminhada dramática. Olhando para a cruz, ao lado do ancião que lhe falou do Filho do Homem, ele tem seu ponto de impacto, percebendo o abismo entre a alienação pecaminosa do ser humano e o sentido da salvação divina.

O teólogo da arte Paul Tillich dizia que a revelação é “a resposta às perguntas implícitas nos conflitos existenciais da razão”. Os conflitos de Ben-Hur não têm resolução na vingança. Ele ainda tem sede, como ele diz. Na cena da cruz, não apenas há revelação, mas sobretudo reconciliação, um momento em que ele sente acolhimento, perdão, amor e um novo propósito e sentido de vida.

Quantos filmes hoje têm os conteúdos cristãos trabalhados de forma tão simples e profunda? Ben-Hur é o filme mais cristão de todos os tempos porque, além de apresentar excelência técnica e estética em todos os detalhes, valoriza a mensagem cristã do chamado à transformação individual por meio da reconciliação espiritual. “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo" (2 Coríntios 5:19). 


09 agosto, 2011

Zagallo não é o Forrest Gump


Não lembro qual foi o jornalista que há alguns anos fez uma comparação irônica entre Zagallo e Forrest Gump. Para quem não lembra desse filme com o Tom Hanks, Forrest Gump era um rapaz de limitada inteligência que vira celebridade do esporte, herói de guerra e encontra presidentes. Tudo meio sem querer querendo. Sempre estando no lugar certo, na época certa.

Zagallo foi um jogador de alguns recursos técnicos que venceu quatro Copas do Mundo, mas nunca foi considerado “o cara” das conquistas. Copa de 1958: Brasil campeão pela primeira vez. Zagallo foi decisivo? Não. Aquela foi a Copa de Didi, laureado como craque do torneio, e de um certo novato chamado Pelé. 

Copa de 62: tá lá o Zagallo na área. Mas os gols e jogadas de Garrincha é que  levaram a seleção ao bicampeonato. Copa de 70: agora sim, Zagallo era o técnico, o homem que escalou Gérson, Rivelino, Pelé, Tostão e Jairzinho. Ninguém reconhece. Afinal, com jogadores dessa estirpe, um técnico teria mais é que sentar no banco e esperar pelo tricampeonato. 

Copa de 94: Zagallo é só o coordenador técnico da seleção, cargo que perde em importância pra médico e preparador físico. Pior: ele simplesmente era contra a ideia de levar o Romário para o tetra.

Até o título de tri-campeão carioca com o Flamengo, em 2001, não poem na conta do "Velho Lobo": o sérvio Petkovic, com seu gol em cobrança de falta no finalzinho do jogo, é o grande autor da façanha.

Em 1974, ele era o técnico. Sem Pelé, a seleção dançou no carrossel holandês de Cruyff e cia. Em 1998, ele assumiu a vaga de Parreira: a seleção dançou no balé de Zidane e cia.

Resultado: Zagallo seria o Forrest Gump do futebol. Um homem no time certo, na hora certa e com os jogadores certos.

Mas no dia em que Mário Jorge Lobo Zagallo faz 80 anos seria não só uma deselegância, mas também uma grande mentira dizer que as conquistas vieram por coincidência. Tanto em 58 quanto em 62, ele “inventou” uma função pela zona esquerda do campo em que jogava mais recuado, permitindo os avanços formidáveis dos atacantes brasileiros. E ainda fez lá seus golzinhos.

Em 70, caiu no seu colo uma seleção na última hora. Mas foi audacioso o suficiente para escalar e distribuir em campo cinco excepcionais jogadores que em seus clubes atuavam como camisas 10. Telê Santana tentaria algo semelhante 1982 com Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico, o que encantou o mundo mas não ganhou a Copa do Mundo.

Zagallo encarna o tipo de técnico que treina o time e é um tremendo motivador. De uns tempos para cá, os técnicos se engravataram, ficaram tão preocupados com o próprio visual à beira do campo quanto com o desempenho do time, passaram a se enxergar como craques indispensáveis de um time.

Zagallo não tinha nada dessa soberba. Sofria e vibrava como um torcedor apaixonado. Se exagerou na veemência foi por causa da intensidade da crítica. Com o tempo, resiste a humildade de um bom jogador que foi carregar piano para os virtuoses brilharem. Permanece a imagem de um ancião de cabelos desalinhados incentivando um por um os cobradores de pênalti e o goleiro Taffarel na partida contra a Holanda na Copa de 98.

Alguns o veem como um grande coadjuvante e esportista sortudo. É que faltam explicações para falar sobre alguém que foi vitorioso tantas vezes. O que não podemos é negar sua paixão pelo Brasil, sua dedicação ao esporte, sua fibra moral. Está velho, mas não velhaco. Parabéns, Zagallo, velho de entusiasmo infantil.

04 agosto, 2011

cantai um cântico novo

O salmo 33, o salmo 40 e o salmo 96 nos conclamam a cantar “um cântico novo”. Mas a Bíblia está falando de uma nova música ou de um novo espírito para cantar uma música?

No salmo 40, Davi diz que o Senhor o tirou de um pântano de perdição, o colocou numa rocha firme e segura e lhe “pôs nos lábios um novo cântico, um hino de louvor a Deus”. Então Deus não lhe teria dado uma música para cantar nos tempos da amargura? De modo algum. Davi também compôs salmos quando estava sendo perseguido por seus inimigos. E certamente não lhe faltou inspiração divina.

Davi escreveu uma música nova após confessar diante de Deus seu adultério com Bate-Seba: o salmo 51, no qual confessava o pecado, buscava o perdão e pedia de volta a alegria da salvação. O que Davi disse poeticamente é que a segurança da salvação lhe motiva a louvar ao seu Senhor.  Onde está a ênfase divina? Na música ou na vida? Lendo os salmos, vemos que uma nova vida produz um novo espírito de louvor. 
Uma vida renovada é, ela mesma, um hino de louvor a Deus.

Excluindo os exageros e deturpações que há em tantos estilos, uma nova canção não necessariamente tem que seguir os preceitos musicais e culturais de todos os indivíduos de uma mesma comunidade religiosa. O que para alguém pode soar simplista e pobre, para outro é a música que lhe dá sentido do poder e do amor divinos. O que para uma pessoa pode soar solene, para outro transmite formalismo vazio. Há quem prefira Arautos do Rei, outros o Novo Tom, uns Ron Kennoly e alguns Amy Grant.  

No entanto, essas diferenças de atitude quanto ao que faz sentido musical e religioso são de ordem bastante individual. Quanto toda a congregação está reunida e louvando coletivamente, essas diferenças mais atrapalham que ajudam, mais dividem que congregam.


Novos estilos de música fazem parte da dinâmica histórica da música sacra. Se inovações de estilo e música devessem ser proibidas completamente, a igreja deveria voltar ao canto judaico cheio de melismas e entoado apenas por homens no templo. De outro lado, se toda inovação de estilo e música for abraçada irrefletidamente, estaremos dando mais ênfase à diversidade musical do que à unidade congregacional.

Estamos rodeados de música por todos os lados. Peneirar as influências é o difícil trabalho do adorador. Mas ele não está sem um guia. Filipenses 4:8 orienta nosso pensamento para os valores do reino de Deus: tudo o que é verdadeiro, nobre, correto, puro deve ocupar sua mente. 

Alguns podem pensar que esse conselho de Paulo se refere à estética de um objeto. No entanto, fazendo uma distinção um tanto resumida, palavras como verdade, dignidade e pureza têm mais a ver com ética do que com estética. Algumas apreciadas óperas de Mozart têm muito de beleza e excelência estética, mas pouco de nobreza bíblica. E tem canção de Stevie Wonder (como Have a Talk with God) que apresenta uma verdade cristã. 

Por isso, outra boa orientação está em I Coríntios 10:23: "Todas as coisas são lícitas, mas nem todas  convêm. Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas edificam".

A escolha apropriada das formas musicais da adoração depende do que se escuta e também do que eu uso e descarto daquilo que eu venha a escutar. Depende ainda da função que se dá às músicas (liturgia, louvor congregacional, evangelismo). Surgem problemas bem visíveis e audíveis quando as referências culturais seculares são transplantadas para a música cristã sem uma reorganização dos elementos musicais (arranjo, mixagem, interpretação vocal) e extramusicais (postura, roupa, formas de divulgação).

Novas canções podem sensibilizar alguém para buscar uma nova vida. Uma nova vida tem poder para criar e recriar canções. Canções entoadas com um novo espírito.

* A frase da imagem acima diz: "Ele sempre está ali por mim e por isso sou sempre grato".

03 agosto, 2011

o ministro de louvor segundo o coração de Deus

De 1910 a 1930, Homer Rodeheaver era o diretor musical do pregador itinerante Billy Sunday. Trinta minutos de música antes do sermão, músicas animadas e de fácil aprendizado, grupo de cantores junto com o regente de louvor: Rodeheaver cunhou um formato litúrgico-musical que não perdeu fôlego até hoje. Ele também foi pioneiro na gravação de música cristã. 

O ministério de música foi criado bem antes de Homer Rodeheaver. E o rei Davi foi um ministro de música. Ele era compositor, poeta, harpista e ainda recebeu a missão divina de organizar a música do templo que viria a ser construído por seu filho Salomão.

Imagine alguém que possa comandar um exército em batalhas campais e também dedicar-se a escrever versos de beleza perene. Pois esse era Davi, um guerreiro-poeta. Sem se descuidar das ovelhas que guardava na juventude, ele também passava horas com sua harpa. Quem sabe fabricando suas primeiras canções. Não sobrou nenhuma canção sua para ouvirmos hoje. Mesmo assim, elas deviam ser boas e agradáveis, pois chamaram a atenção dos assessores do rei Saul.

Quando Saul precisou de um músico que lhe acalmasse os ânimos, Davi foi recomendado sem restrições. Veja que antes de ser guerreiro e rei, Davi foi também o primeiro musicoterapeuta de que se tem notícia. Mas não foram só as qualidades musicais de Davi que o recomendaram. Até porque Davi era só um jovem iniciante, um músico do campo, sem intimidade com os corredores de palácios.

Em I Samuel 16:17, Saul pede apenas que lhe tragam “um homem que saiba tocar bem” uma harpa. No versículo seguinte, há uma descrição das características do futuro ministro de música de Israel: “Conheço um filho de Jessé que sabe tocar, é forte e valente, homem de guerra, sisudo em palavras e de boa aparência; e o Senhor é com ele”.

Houve um tempo em que ser o solista ou o pianista não era suficiente. Tinha que ter coração valente e ser senhor das armas. Se bem que, considerando o “boa aparência” do currículo, nem tudo mudou.

Davi era visto como um jovem sensato no falar, alguém que usava as palavras com prudência. Isso pode se referir a sua fala comum, mas também poderia se referir ao trato judicioso e sábio com as letras e versos que colocava em suas canções. Além de poemas e canções, o ministério musical requer canções e poemas sensatos.

Por fim, o mais importante: o Senhor era com ele. Como sabiam que Deus era com Davi? Por sua música, pelos atos de Deus na sua vida, por seu caráter? As pessoas reconhecem essa característica em nós que lidamos com a música nos cultos? Para que as pessoas de sua comunidade religiosa não venham apenas a elogiar sua habilidade musical (“ele/a toca/canta bem”), nem somente sua competência poética (“ele/a escreve bem”), os dirigentes de louvor e músicos cristãos precisam andar em humildade com Deus. Precisam pedir, como na canção de Lineu Soares e Mário Jorge Lima: “usa-me conforme o Teu querer, meu Deus  (...) dá-me a tempo e a hora o que deverei dizer / vem limpar o meu coração”.

Ministrar a Palavra é para os pastores, ministrar a Palavra cantada é para os ministros de louvor. Para ser de fato um ministro, não basta entender da teoria musical e da organização da liturgia, mas sobretudo é preciso coragem e sensatez para ministrar músicas de ânimo e de reflexão, canções de alegria e de contrição, hinos que quebrantem o espírito, lembrem da salvação e nos motivem a seguir a jornada cristã.

Isso tudo pode ser feito por qualquer pessoa bem-intencionada e educada musicalmente. Mas só de um ministro de louvor segundo o coração de Deus poderão dizer o que realmente importa ao céu: “o Senhor é com ele”.

02 agosto, 2011

os Estados Unidos e o "sanduíche do diabo"

Um deputado americano referiu-se ao pacote econômico aprovado pelo Congresso como "Devil sandwich (sanduíche do diabo)". Ele não quis dizer que Satã em pessoa amassou mais esse pão. Na verdade, "sanduíche do diabo" é uma expressão que se usa quando o lanche ou refeição de um casal é inadvertidamente preparado por uma ex-namorada ou ex-noiva (por exemplo, se ela trabalha numa lanchonete ou restaurante onde o casal foi jantar).

Mesmo tendo outro significado, essa expressão serve como trocadilho apropriado para descrever a atual situação do governo de Barack Obama. Pressionado pela ala mais liberal dos democratas, que gostaria de ver o governo mais empenhado no avanço de seus projetos sociais, e acuado pela ala mais conservadora dos republicanos, que só vota com o governo se seus projetos neoliberais forem atendidos, o presidente Obama está comendo as migalhas do sanduíche do diabo.

O atoleiro econômico em que os Estados Unidos se meteram (e para onde vão levando junto o resto do mundo) não é cria de Obama, mas uma consequência da farra do crédito e da desregulamentação do mercado que vêm de longe. Mesmo sem subestimar a capacidade dos EUA de sair fortalecidos de cada crise econômica, o problema agora é ordem interna. A ferrenha oposição preparou um jantar com boas doses de maldade.

A barganha política em Washington é de arrepiar um lobista de Brasília. Até as listras da bandeira americana sabem que, em situações de grave endividamento, só há duas saídas: ou aumentar a receita ou cortar as despesas. As duas saídas juntas funcionam ainda melhor. Na visão de alguns analistas, a saída que o governo propõe, ou está sendo obrigado a propor, enfatiza o corte de gastos sem prever maior arrecadação fiscal.

No projeto original, as medidas pretendiam taxar as grandes fortunas. Com a pressão da direita republicana, os cortes vão atingir os programas sociais. O custo com a saúde é alto para o governo, principalmente por causa do monopólio das indústrias farmacêuticas. Aliás, estes laboratórios têm tanto poder político quanto a indústria bélica. Em vez de reformar amplamente a área da saúde e da seguridade social, o governo cede aos republicanos interessados "em desmantelar os últimos vestígios do estado de bem-estar social nos Estados Unidos", como diz Alejandro Nadal.

Outra boa economia está na prometida volta das tropas militares para casa, já que os gastos nessa área só aumentaram no governo Obama.

O pacote econômico foi aprovado na última volta do ponteiro do relógio. Republicanos e democratas estão brincando de "fim do mundo". Como naquela fatídica frase, eles estão "operando no limite da irresponsabilidade". No meio disso tudo, os olhos do mundo estão ansiosos como nos tempos em que uma crise dos mísseis gelava a espinha dos países na Guerra Fria.

Essa medida alivia (ou adia?) a força da crise, mas não esconde a iminência de um colapso. Moral falidos e economicamente falidos, restam aos Estados Unidos o seu gigantesco poder político. E um império é capaz de fazer qualquer acordo, talvez até com o custo de rasgar sua Constituição, a fim de se manter no topo.