31 outubro, 2011

a música mais relaxante do mundo

Ela desacelera sua respiração e reduz sua atividade cerebral. Esse é o efeito da música Weightless (tradução: sem peso), da banda inglesa Marconi Union, já considerada a "música mais relaxante do mundo". A trilha de oito minutos seria tão eficaz em induzir ao sono que os motoristas são advertidos a não ouvi-la enquanto dirigem.

Segundo o jornal Daily Mail, a banda buscou a orientação de terapeutas do som (os musicoterapeutas) para saber quais harmonias, ritmos e linhas de baixo seriam as mais eficientes. "O efeito nos ouvintes é uma desaceleração do ritmo cardíaco, redução da pressão sanguínea e diminuição dos níveis de cortisol (o hormônio do stress).

A música do Marconi Union incorpora elementos de eletrônica, ambient, jazz e dub (informações que constam no vídeo no YouTube).

Agora, relaxe. Se puder.




Cientistas fizeram testes com 40 mulheres e disseram que esta música é mais eficiente para relaxar do que Enya ou Mozart. Outro estudo, encomendado pela Radox Spa, afirma que essa música é mais relaxante do que uma massagem ou uma caminhada. 

No teste, as mulheres, conectadas a sensores, tinham que montar um quebra-cabeça em determinado tempo a fim de ser verificado o nível de stress. A música Weightless teria reduzido em 65% a taxa de ansiedade (Nota na pauta: atenção! Essa música não vai funcionar quando você, marido, deixa a toalha molhada em cima da cama. Ou esqueceu de estender a roupa num dia de sol. Oh wait... já volto!).

Lyz Cooper, fundadora da British Academy of Sound Therapy, diz que a música Weightless apresenta muitos princípios musicais que possibilitam o efeito relaxante. Seu ritmo começa com 60 beats (batidas) por minuto e gradualmente passa para 50 beats por minuto. Isso leva o batimento cardíaco a se ajustar ao andamento. O que também leva a uma queda na pressão sanguínea. 

A música não tem repetição melódica, o que, segundo Lyz Cooper, ajuda o cérebro a "desligar-se" de tentar prever o percurso da melodia. Ela também diz que os efeitos sonoros induziriam a um estado semelhante ao transe. 

Nota na Pauta: há uma boa distância entre a sugestão de um estado de transe e a predisposição pessoal de ser, ou deixar-se ser, induzido ao transe. Não subestime o poder da música, mas também não atribua à música um poder intrínseco que, na verdade, depende mais de hábitos culturais do que de elementos especificamente musicais.

A matéria do Daily Mail fez um Top Ten das músicas mais relaxantes:
1 - Weightless - Marconi Union
2 - Electra - Airstream
3 - Mellomaniac - DJ Shah
4 - Watermark - Enya (pra variar)
5 - Strawberry Swing - Coldplay (eles vão gostar de saber que são inofensivos?)
6 - Please Don't Go - Barcelona
7 - Pure Shores - All Saints
8 - Someone Like You - Adele (o que está na moda também relaxa)
9 - Canzonetta Sull'aria - Mozart (o menino Amadeus serve para tudo, não?)
10 - We Can Fly - Cafe del Mar

Aqui, a matéria completa (em inglês).

26 outubro, 2011

o falso profeta e o sangue negro

Uma paulada no falso profeta que se mete em negociatas e outra no negociante que prediz falsamente que a riqueza do petróleo será de todos. Isto é Sangue Negro, a história de um homem movendo montanhas pra encontrar petróleo e de um religioso atrás de almas e dólares.

O império do automóvel, do petróleo e dos computadores foi construído por empreendedores que, sem eira nem beira, e por seus próprios méritos espalharam a riqueza mundo afora. Eles seriam os self-made-men, um mito do capitalismo norte-americano. O mito está menos na impressionante persistência do empreendedorismo e mais na distribuição da riqueza. As megaempresas foram erguidas à custa de muita exploração de mão-de-obra, de chantagens, subornos e acordos espúrios entre governos e indústrias. Um enriquece muito, alguns enriquecem bastante e muitos não enriquecem nada.

Como eu disse, trata-se de um mito, mas não tem nada de conto de fadas. Muito sangue correu. Aliás, o título original do filme Sangue Negro é There Will Be Blood (“Haverá sangue”, em bom português, “vai ter sangue”).

O grande embate na história se dá entre o caçador de petróleo Daniel Plainview e um caçador de almas, o pastor Eli Sunday.
Daniel Plainview, visionário e perfeccionista como todo mítico empreendedor, compra a baixo custo a terra (onde há petróleo não explorado) de pequenos proprietários com falsas promessas de prosperidade. Eli Sunday, manipulador como todo falso profeta, mantém sua congregação à base de encenações de milagres e exorcismos.

Plainview precisa da confiança da congregação do pastor; o pastor negocia porcentagens e comissões em troca do batismo do empreendedor. O perfurador Plainview tem na indústria a sua religião, sua transcendência perdida. O pregador Eli Sunday  faz da religião a sua indústria. O capitalismo “social” passa longe da visão de Plainview. O cristianismo “puro e simples” não faz parte do trabalho de Sunday.

O pacto simbólico entre capital e religião tem como consequência o derramamento de sangue. Mas nesse caso, o sangue não serve como remissão de crimes e pecados. De fato, o sangue é negro como o petróleo cobiçado. Por causa de falsos profetas, mais interessados em comissões do que em conversões, a religião é a maior perdedora.

19 outubro, 2011

o guia musical do louvor errado




As músicas desse vídeo, produzido por músicos da Primeira Igreja Batista de Orlando/EUA, são conhecidas melodias. Essas versões vão no nervo do problema. Pior que uma música esteticamente inadequada é um adorador espiritualmente hipócrita.

10 outubro, 2011

música sacra, controle religioso e fetiche musical


Nos debates sobre música cristã, são convocados argumentos bíblicos, históricos, culturais, evangelísticos, comportamentais e até argumentos biológicos, psicofísicos e acústicos. Sem contar as lendas evangélicas urbanas como mensagens subliminares, vegetais que só gostam de Mozart etc.

Eu gostaria de entrar no debate com dois argumentos: o da estabilidade sociorreligiosa e o da fetichização musical.

O argumento da estabilidade: em uma prática musical comunitária, costuma-se observar, de um lado, uma comunidade que exerce um poder de controle sobre sua música considerada sagrada. Qualquer inovação musical é vista, a princípio, como um fator desestabilizador ou desviante da sacralidade de sua música. O controle é necessário para manter a estabilidade do sagrado atribuído a um dado repertório musical. Sem essa estabilidade sociorreligiosa, a comunidade pode entrar em conflito religioso e cultural. 

De outro lado, observa-se o poder dessa música sagrada sobre a comunidade que a preserva. Devido aos supostos efeitos de tal música ou prática musical, procura-se manter o grandioso repertório musical dos ancestrais fundadores como um legado. Como diz o etnomusicólogo José Jorge de Carvalho (UNB), “ali se manifesta o poder da própria música sobre a comunidade em que é praticada”.

O argumento do fetiche musical: há alguns anos, o cantor Paul Simon veio ao Brasil gravar uma canção com os músicos do Olodum. Michael Jackson também veio gravar com músicos brasileiros numa favela.  Mas qual o interesse dos dois popstars na música afro-brasileira, já que os tambores e os ritmos do Olodum aparecem no clipe, mas quase sumiram na mixagem da canção? Os artistas e produtores estrangeiros costumam enxergar a música afro não em sua totalidade de função e contexto, mas somente como um símbolo de sensualidade e corporalidade, como um fetiche cultural. 

O que esse argumento tem a ver com o atual estágio da música cristã no Brasil? Explico. As igrejas do evangelicalismo contemporâneo adotaram a integralidade dos estilos musicais veiculados nas rádios e TVs. Rock e pagode, funk e sertanejo, reggae e forró, estilos internacionais e nacionais foram apropriados pelos métodos de evangelismo e pelas propostas litúrgicas mais recentes. 

A música de “raiz” brasileira (como o baião e o samba) ainda é vista como um símbolo de afirmação de identidade nacional e, por isso, deveria ser incluída como base musical do repertório cristão. Assim, a música popular nacional é enxergada como representação de brasilidade e autenticidade cultural. A música pop internacional é tida como o idioma da juventude urbana e, sendo assim, é apropriada como um emblema de contemporaneidade, de atração jovem. De um lado, resiste um ufanismo nacional-religioso que justifica o “abrasileiramento” da música cristã, e de outro, vigora um padrão de evangelismo jovem que justifica a “modernização” da música cristã.  

Enquanto isso, as igrejas católicas e protestantes buscam no repertório neopentecostal um modelo para estimular a intensidade da adoração coletiva. Muitos líderes de louvor enxergam na música dos ministérios de louvor um componente de comunhão e intimidade relacional com Deus que eles já não encontram na tradição musical de suas próprias igrejas. Desse modo, a intensidade da adoração é creditada à força dessa música. 

A discussão sobre música cristã passa pela adequação litúrgica dos estilos e pelo pragmatismo de mercado, mas também é preciso verificar se uma determinada comunidade religiosa com diferentes grupos etários e culturais reunida num templo se sente à vontade com mudanças litúrgicas mais radicais e “emergentes”. Se o debate não cessa, que ao menos fique livre de tradicionalismos obscurantistas e inovações irrefletidas.

06 outubro, 2011

a volta ao mundo em três gritos

Nos Estados Unidos, estão gritando por emprego e reforma do sistema financeiro...


No Chile, estão gritando por melhorias no sistema universitário...



No Brasil, gritos mesmo só de fãs histéricas.


03 outubro, 2011

inventores, mestres, diluidores


O escritor Ezra Pound, em ABC da Literatura (Ed. Cultrix), propôs a existência de três classes de criadores:
1. Inventores: os que descobrem um novo processo ou cuja obra nos dá o primeiro exemplo conhecido de um processo;
2. Mestres: os que fazem várias combinações do processo inicial e se saem tão bem ou melhor do que os inventores;
3. Diluidores: aqueles que vieram depois e não foram capazes de realizar tão bem o trabalho.

Ezra Pound falava de literatura. Mas a gente pode usar seus argumentos pra falar de música. Tomando como exemplo o baião nordestino, nos anos 1940 Luiz Gonzaga desenvolveu uma maneira particular de tocar o baião. Ele não era bem um compositor ou um letrista (poesia mesmo quem fazia eram os seus parceiros Humberto Teixeira e Zé Dantas), mas Gonzagão acabou sendo respeitado como um autêntico inventor.

Um estilo musical nem sempre nasce pelas mãos de um homem só. Uma pessoa pode criar um modo diferente de tocar um ritmo (como João Gilberto e seu violão "bossa nova"), mas quase sempre há um conjunto de outras pessoas (arranjador, letrista, intérprete) que contribuem para que a “invenção” tome sua forma final.

Mozart foi um mestre que não inventou a ópera, mas suas óperas são de uma excelência que seus predecessores não tinham alcançado. Assim, a fronteira entre inventor e mestre me parece pequena, pois na medida em que um músico usa um estilo pré-existente e insere nele novas combinações harmônicas, rítmicas e estruturais, há um componente de invenção e originalidade que não se pode subestimar.

Voltando ao baião, se Luiz Gonzaga pode ser chamado de inventor (ou pioneiro de um novo processo musical), Jackson do Pandeiro e João do Vale seriam os mestres. E quando Ezra Pound fala em diluidores, as pessoas que não foram capazes de realizar tão bem o trabalho, isso é só um eufemismo para dizer que sempre aparece alguém pra degradar um estilo.

Olha a trajetória da música sertaneja: primeiro, vieram as duplas caipiras (como Tonico e Tinoco), depois os mestres Almir Sater e Renato Teixeira, em seguida, os neocaipiras Chitãozinho e Xororó, e agora, o sertanejo “universitário” que virou epidemia nacional. Como dizem pela internet afora: nem para o sertanejo universitário se formar logo e ir embora fazer pós-graduação no exterior!

No dicionário, “diluir” é misturar uma substância com algum líquido, desfazer. Diluir um estilo musical no Brasil é o ato de misturar qualquer gênero ou ritmo em água de pagode. Exclusivamente de pagode mauricinho dos anos 90, com todas aquelas bandas com um marmanjo de gola da camisa por cima da gola  do blazer cantando na frente com oito marmanjos vestidos iguaizinhos saracoteando atrás. A diferença é que agora são dois marmanjos de calça apertada. O sertanejo é a última vítima da pagodização da música brasileira.