30 dezembro, 2010

meninos, eu vi (e você também)

2010: um ano para recordar ou para esquecer? Na dúvida, cometi um pequeno dicionário de termos e eventos do ano. Ora, se o Fiuk pode ser cantor e ator, por que eu não posso ser enciclopedista? Aí vai:

Política
José Serra: É pau? É pedra? É bolinha de papel? Só sei que eleição no Brasil é o fim do caminho.
PAC: Lula foi o PACman e as obras são um PACderme.

Mundo
WikiLeaks: o estraga-prazeres do amigo secreto da diplomacia internacional.
Berlusconi: é olhar pra ele que a gente se conforma com o Lula.

Esporte
Barrichello, Massa: os últimos serão os terceiros (e quartos, quintos...)
Seleção sul-africana: Bafana Bafana
Seleção espanhola: Bacana Bacana
Seleção brasileira: Banana Banana

Saúde
José Alencar: a resiliência encontrou um sinônimo
Oscar Niemeyer: o homem que olha para Chico Anysio e José Sarney no hospital e pensa: "Esses jovens de hoje..."

Celebridade
George Bush lançou um livro, Vera Fischer lançou um livro, Geisy Arruda lançou um livro: e nós passamos o ano lendo blogs no meio do expediente.

Viagem
Web Jet: pague 9, 90 para entrar, reze uma novena para sair.
Internacional: por que um clube de futebol está nesta seção e não na de esportes? É que, devido a congada que o time gaúcho levou do Mazembe, a única lembrança são as parcelas da viagem a pagar no cartão em 2011.

Filmes
Avatar: a montanha-russa mais sem-graça e mais rentável de todos os tempos
Toy Story 3: o filme hollywoodiano mais adulto do ano é uma animação
A origem: um blockbuster com cérebro

Música
Restart: por favor, está na hora de reinicializar a música popular brasileira

Livros
A música desperta o tempo (Daniel Barenboim): um livro que desperta a consciência
O homem eterno (G. K. Chesterton): a defesa da fé pode ser incrivelmente bem escrita

Meninos, eu vi, eu vejo coisas boas que me acompanharão quando estiver olhando para 2011 e além. O CD Avinu Malkenu (Leonardo Gonçalves), a placidez de Nelson Freire tocando os Noturnos de Chopin, a sabedoria do filme Morangos Silvestres, a força moral dos filmes Jornada para a liberdade e Invictus, a releitura 15 anos depois de Orgulho e Preconceito (Jane Austen) e Sagarana (Guimarães Rosa), os desafios espirituais de A visão apocalíptica e a neutralização do adventismo (George Knight) e Elias (Charles Swindoll), as aulas de "Sociologia da arte e da cultura" na Unesp. Essas coisas nem o mau humor destrói. 

Um ótimo 2011 para todos nós. E, como dizia John Cage, happy new "ears".

28 dezembro, 2010

10 artistas em 10 anos: música cristã brasileira

Em dez anos, a música cristã brasileira, ou a música praticada por cristãos no Brasil, diversificou-se bastante: gêneros musicais regionais e estilos globalizados, performances cantadas, gritadas e choradas, refrões simples e intermináveis, letras densas e extensas. O combalido mercado fonográfico secular cresceu o olho e enxergou mais uma alternativa de lucro. Os artistas cristãos aproveitaram o convite e estenderam sua voz e sua mensagem até aonde ninguém ainda havia chegado, às vezes com padrões de atitude que nem todo mundo aceita. Alguns deles mereceram ouvir a música “É proibido pensar”, de João Alexandre, uma franca e corajosa crítica à mercantilização da fé e da canção religiosa.

Essa é uma lista de dez nomes representativos do começo do século.

Aline Barros
Unção, milagre, “apaixonada” por Jesus: sua carreira foi redirecionada das canções já clássicas de Célia Held para as temáticas claramente neopentecostais. Embora os números de vendagem não sejam contabilizados oficialmente, ela é considerada a cantora gospel que mais vendeu discos no Brasil. É pastora e também garota-propaganda de marcas de roupas e equipamentos musicais. Tem músicas e coreografias para o público infantil, solos em estúdio para a novela e “Louvor & Adoração” ao vivo para todos os públicos.

Fábio de Mello
Está na lista porque sucedeu o padre Marcelo Rossi no centro do palco da música católica com um estilo diametralmente oposto. Suas músicas são de pendor mais lento e reflexivo, além de não usar batina quando canta e ter que ouvir gritinhos de “lindo”.

Arautos do Rei
Passou por quatro diretores musicais (e outro tanto de formações) diferentes e ainda se mantém como referência nacional quanto o assunto é quarteto cristão. Um fenômeno histórico que adicionou modernidade sonora sem desagradar (quase) ninguém.

Oficina G3
Está na lista por freqüentar a lista de grupo respeitado inclusive por roqueiros não-cristãos. Com baladas suaves ou hard rock, o Oficina G3 alcançou ouvidos pouco afeitos à música cristã tradicional.

Apocalipse 16
O hip hop nasceu como música de protesto. O APC 16 e o Pregador Luo fazem hip hop para protestar contra a violência urbana, o consumismo e o comportamento permissivo de rappers idolatrados pela juventude, mas suas canções anunciam que a verdadeira mudança é espiritual. E mais: o rap se revelou também uma maneira de contar o evangelho a marginais e marginalizados.

Soraya Moraes
Levou o prêmio de melhor canção nacional no Grammy Latino 2008, superando Vanessa da Matta, Djavan e Jorge Vercilo. Uma reportagem do jornal O Globo, porém, mostrou que os cantores seculares pouco participam da votação e que a indústria fonográfica gospel votou em massa num criticado lance de corporativismo.

Paulo César Baruk
Combinando letras tocantes e melodias suaves com estilos pop mais acelerados, PC Baruk está na lista representando os artistas gospel que se consolidaram sem apelar para técnicas polêmicas de divulgação e sem aderir a performances extravagantes e extasiadas. 

Leonardo Gonçalves
Chega ao fim da década como cantor, compositor e produtor musical com ótimo tráfego entre a juventude cristã interdenominacional. O CD Avinu Malkenu, gravado inteiramente com músicas cantadas em hebraico, está sendo capaz de abrir diálogo inclusive com a mídia secular.

Raiz Coral
Passar 10 anos fazendo black music em português (mesmo com algumas performances controversas) é uma insistência que levou o coral e seu líder, Sergio Saas, a ganhar um prêmio nacional de talentos no SBT.

 Diante do Trono
Unção, milagres, “apaixonado por Jesus”: os grupos de ministério de louvor que tomaram conta das igrejas evangélicas são devedores do sucesso do Diante do Trono, goste-se ou não do estilo emocionado da cantora Ana Paula Valadão. Aliás, a família Valadão (pais, filhos e parentes) tornou-se ela mesma uma produtora de enorme sucesso voltada à pregação do evangelho.

*****
Termino essa lista pretensiosa e incompleta falando do mesmo estilo musical com que iniciei. O estilo “Louvor & Adoração”, com seus refrões multirrepetíveis, é defendido às vezes como a tábua de salvação para o fervor da adoração contemporânea. Mas tem o mérito de levar o povo a cantar com gosto nas igrejas (e estádios, clubes e avenidas) Brasil afora.

Outro:
10 filmes com a cara dos últimos 10 anos

24 dezembro, 2010

o natal dos trópicos

Leonardo Martinelli conta o natal musical:

Apesar de todo aspecto invernal associado à imagem mundial do Natal – neve, pinheirinhos, trenós e toda uma sorte de objetos que ganham conotação alienígena aqui na região dos trópicos austrais – a tradição natalina encontrou no Brasil um terreno fértil em manifestações musicais, associadas aos mais diferentes contextos culturais.

As primeiras manifestações musicais natalinas ocorridas no Brasil datam entre os séculos XVI e XVI, devido à colonização portuguesa e ao trabalho evangelizador da Companhia de Jesus. Os primeiros exemplos de música natalina tiveram como base hábitos e tradições presentes na cultura européia. 

Entretanto, os “autos” organizados pelos jesuítas (peças teatrais sacras apresentadas ao ar livre) tinham por costume misturar elementos europeus com indígenas, preservando a linguagem musical do Velho Mundo em textos cantados num dado idioma local. É possivelmente deste encontro que provém os primeiros exemplos musicais natalinos criados em terra brasilis.

Com a consolidação do cristianismo no Brasil, muitas das culturas regionalizadas - caracterizadas pelo sincretismo entre tradições africanas, indígenas e cristãs - incorporaram temas ligados ao nascimento de Jesus Cristo (a folia-de-reis é um exemplo)

Mesmo na música clássica houve tentativas de se abrasileirar o Natal com elementos regionais, tal como o álbum infantil “Aconteceu no Natal”. Composto por Hekel Tavares (1896-1969) em colaboração com o letrista e dramaturgo Joraci Camargo (1898-1973), trata-se de uma obra singular na qual surge a curiosa figura de um Papai-Noel negro, já totalmente livre das influências nórdicas (ao menos na cor de sua pele).

Por vezes, o músico brasileiro se sentiu tão à vontade com o Natal que esta temática é freqüentemente relembrada nos bailes de carnaval pela marchinha “Boas festas”, de Assis Valente (1911-1958) que, ao contrário da regra, fala de um Natal dos miseráveis e sem presentes, no qual Papai-Noel “com certeza já morreu, ou então felicidade é brinquedo que não tem”.

Hoje em dia, em uma sociedade de consumo musical amplamente globalizada, muitas são as formas do brasileiro cantarolar o Natal. Desde algum hit internacional, até uma canção natalina interpretada por alguma apresentadora de TV, tudo pode fazer parte desta festa que sempre pendeu entre o sacro e secular.

Entretanto, deste imenso caldeirão, é notável a força com a qual o movimento de canto coral se revela nos abafados ares de dezembro. Desde o famigerado "coral da firma" até os poucos grupos profissionais em atividade no país, todos - em maior ou menor medida - despendem boas horas de ensaios em músicas sobre o nascimento de Jesus.

Se nas lojas e shopping centers o Natal aquece as coisas, na música ele ainda mostra que, apesar dos pesares, o Natal é ainda chama e labareda para muita lareira. Mesmo nos calores dos trópicos.

23 dezembro, 2010

como você percebe a música

Um dos melhores livros que pude ler nesse ano tem 167 páginas e se chama "A Música Desperta o Tempo", do maestro e pianista Daniel Barenboim. Mais do que falar de música, ele fala da nossa vida com música:

"Infelizmente, o ser humano tem a tendência de impregnar objetos com autoridade moral, de modo a não assumir responsabilidades para si mesmo. A faca é um objeto com o qual se pode cometer um assassinato - sendo, por isso, imoral - ou é um objeto que pode cortar o pão que alimentará alguém - sendo, por isso, um instrumento da generosidade humana? É o uso destinado a ela pelo homem que determina suas qualidades morais" (p.44).

"Um ouvido educado desenvolve a capacidade de separar o conteúdo da música das sensações que se aprende a associar a ela (p. 109)".

"Na verdade, não há nenhuma justificativa para privar as pessoas que afortunadamente não sofrem dessas terríveis associações da possibilidade de ouvir a sua música" (p. 113).

"Numa sociedade democrática, a decisão de permitir ou proibir a execução de determinada música deve ser individual, e não ditada pela lei, ou, ainda pior, ser resultado de um tabu. A lei ao menos resulta de indagações racionais, ao passo que um tabu é resultado do senso comum, de um sentimento subconsciente cuja origem é, muitas vezes, a ignorância ou o medo" (p. 113-4)

Importante: duvido que o maestro Barenboim vá concordar com todas as relações entre música, gosto, cultura e mídia que nós leitores ficamos dispostos a fazer depois de ler esses trechos do livro.

20 dezembro, 2010

música ruim é sempre a dos outros

Você pode ter dúvidas existenciais hamletianas ou não saber diferenciar um triângulo isósceles de um escaleno. Mas de uma coisa você tem plena ciência: todo mundo sabe o que é uma música boa e o que é uma música ruim.

Sem citar nomes nem canções, para não incorrer em injustiças, música boa é aquela que você e eu escutamos. Música ruim é aquela que toca na festa do vizinho ou aquela que o mancebo do carro com o porta-malas aberto escuta.

Pior do que uma música ruim é uma música chata. Provavelmente o que define o grau de chatice de uma música é a sua repetição ad infinitum. Nesse caso, mesmo sua obra-prima predileta fica insuportável e aí pode ser Pixinguinha (alguém ainda aguenta os versos "Meu coração não sei por que...") ou Beethoven (viu no que transformaram a Pour Elise?). Agora imagine uma música ruim repetida mil vezes em mil celulares no ônibus. A repetição se torna ad nauseam.

O site Retrocrush fez uma pesquisa com cerca de 4 mil pessoas nos Estados Unidos para saber quais as canções mais chatas de todos os tempos. Entre as vencedores, se podemos chamá-las assim, estão a abertura de um programa infantil (é a de nº 2 e não faço ideia de como ela entrou nesse indigno rol. Eu a substituiria tranquilamente pelo tema de ano novo da Globo); a canção (nº 4) que tornou conhecida uma coreografia cuja noção do ridículo só encontraria equivalência na tal dança do quadrado; e a canção romântica do Titanic (nº 5), para afundar com qualquer paixão. 

1 – Who let the dogs out, de Baha Men 
2 – I love you, do programa infantil Barney 
3 – You’re beautiful, de James Blunt 
4 – Macarena, de Los del Rio 
5 – My heart will go on, de Celine Dion 

Não posso sair por aí chamando de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto. Não fica bem pra um pesquisador imparcial. Mas a canção mais insuportável de uma lista que eu não suportaria fazer tem o refrão "And I e I-I-I e I-I-I-I-I will always love you-u-u-u-u-u-u" no xarope de Whitney Houston. Certamente você também não comprou os cds com essas desgraças sonoras. Então, como é que a gente sabe que elas são chatas? É que a música é traiçoeira e se aproveita do fato de que ninguém consegue fechar as orelhas. Ou como diz Millôr, a música é a única forma de arte que nos ataca pelas costas.

17 dezembro, 2010

O Deus vivo e o Deus não-existente

Deus existe? A maioria das pessoas acredita que sim. Mas dentro dessa maioria há grupos que pouco se importam com os fundamentos bíblicos do cristianismo e outros que se importam tanto com os dogmas que se esquecem de ser cristãos; há aqueles que invocam Jeová para praticar atrocidades e outros que invocam a Deus para que os defenda de tamanhas atrocidades.

Deus não existe? Alguns ateus são denominados “brights”(brilhantes), e de fato, muitos deles possuem uma trajetória intelectual brilhante. Eles renegam qualquer pensamento de explicação sobrenatural da história do universo e do homem: Daniel C. Dennett considera inviável o convívio entre ciência e religião, como se o indivíduo não pudesse conciliar ambas. Christopher Hitchens chegou a apregoar a irrelevância do cristianismo na tradição cultural da humanidade. Bem se vê que na luta para suprimir a fé e eleger exclusivamente a Razão, pode-se perder a razão.

Sobre um personagem de um conto em Ficções, Jorge Luis Borges diz que “Buckley não acredita em Deus, mas quer demonstrar ao Deus não-existente que os homens mortais são capazes de conceber um mundo”. Talvez essa frase foi dirigida aos  que duvidam da existência de Deus porque prefeririam que Ele não existisse, pois seria um "obstáculo" aos seus planos de vida.

Por isso, cresce o número de páginas para falar da não-existência de Deus ou que as coisas não são bem assim como Moisés, Lucas e João contaram. Como escreve João Pereira Coutinho: “Acho estranho que um ateu se preocupe com aquilo que, para ele, não existe. Nada é mais estranho do que um ateu convicto que não acredita em Deus e abomina Deus”.

Nem todos os ateus nos apontam o dedo no rosto, como muitos religiosos costumam fazer. Nem todos os cristãos ficam enervados quando alguém não concorda com o que dizem, como alguns ateus que perdem a razão. Se Deus existe, porém, tenho que considerar dois argumentos: Ele existe e eu rejeito lucidamente; Ele existe e eu aceito lucidamente. Você encontrará mais e melhores argumentos para rejeitar ou aceitar, mas todos, em algum momento de suas existências, se vêem diante da oportunidade de escolha entre o Deus vivo de Pedro e Paulo e o Deus não-existente de Marx e Nietzsche.

14 dezembro, 2010

10 anos em 10 filmes

Nem DVD nem Blu-Ray. Nos últimos dez anos, o cinema enfrentou a pior das concorrências: a vida como ela é. Ataque às Torres Gêmeas, terremotos e vulcões, eleição do Obama, replays esportivos em câmera lenta, a tomada do Complexo do Alemão. A realidade virou reality show e ficou mais interessante do que a ficção.

O cinema, como sempre, tem duas saídas para manter o poder de atração: 1) O cinema tecnológico que cria uma realidade virtual espetacular; 2) O cinema pedagógico que revela a dureza espetacular da realidade. 

Ecologia, terrorismo, misticismo e quadrinhos: os filmes a seguir não são os melhores da década (pelo menos, não são para mim. Metade deles, inclusive, nem assisti). Mas eles são o rosto real/ficcional dos últimos dez anos:

Farenheit 9/11
O que é: O que estaria por trás do ataque terrorista do fatídico 11 de setembro. O diretor Michael Moore foi criticado por manipular imagens e fatos. Em suma: É uma espécie de Globo Repórter dirigido por Nelson Rubens: Michael Moore aumenta, mas não inventa.

Uma verdade inconveniente
O que é: O ex-vice-presidente Al Gore dá uma palestra mostrando como o planeta está a dois passos do inferno ecológico. Em suma: é o primeiro Power Point a ganhar um Oscar.

Avatar
O que é: você não sabe o que é? Por onde você andou? Em Pandora? Em suma: James Cameron ficou alguns milhões mais rico ao combinar uma receita quase infalível: religião pré-moderna (espiritualismo mágico), tema moderno (ecologia), tecnologia pós-moderna (3-D). O resto é marketing.

Crepúsculo
O que é: quase todo adolescente passou pelas mesmas situações. A diferença é que os personagens são vegetarianos e castos.  Em suma: adolescentes sorumbáticos em uma historinha sangue-com-açúcar.

Wall-e
O que é: a preocupação com o meio ambiente contada com ternura e sem ecoterrorismo. Em suma: as animações da Pixar são um reduto de inteligência e nobreza de sentimentos em relação à indigência mental em que Roliúdi adora chafurdar.

2012
O que é: o fim do mundo com data, hora e local pra acontecer. Em suma: todo ano o cinema marca uma data apocalíptica. É uma espécie de turnê do fim do mundo.

Chico Xavier
O que é: junto com Nosso Lar, representa o sucesso do espiritualismo à moda da casa. Em suma: como nos filmes bíblicos, a fé moveu montanhas de espectadores.
Batman - o cavaleiro das trevas 
O que é: um super-herói não é nada sem o senso de justiça da população. Em suma: parece que Batman quer ser Macbeth. Why so serious? Por que nem só de "socs" e "pows" vive um super-herói.

Paradise now
O que é: dois jovens palestinos cooptados pelo terrorismo estão indecisos em dar a vida por uma briga que não é deles. Em suma: enfim alguém mostrou palestinos como gente e não como alvo militar.

Tropa de elite
O que é: você nem precisa ver. Já os bandidos do tráfico veem e tremem (será?). Em suma: o sucesso foi tanto que a recente subida dos militares nos morros do Rio foi filmada pelas TVs como um reality Bope show.

E pra você, quais filmes são o retrato desses tempos?

10 dezembro, 2010

Deus não precisa de espectadores

Estou rodeado de imagens. Para onde olho há uma tela onde aparece alguém que não me conhece, que não faz a menor ideia de quem sou, que não paga minha conta de luz, a luz que pago para assistí-lo numa tela.

Estou rodeado de sons. Para onde olho há alguém que talvez não me conheça bem, mas eu conheço sua música, eu o ouço sem que ele me peça "me ouça, por favor".

Vejo imagens numa tela na minha sala. Ouço música numa igreja. Nos dois casos, eu não passo de um espectador. É mais fácil. É só apertar o play e relaxar. É só sentar no banco da igreja e assistir. Mas as pessoas devem ir à igreja para assistir um culto ou prestar um culto?

Deus não está precisando de espectadores. A Bíblia diz (em João 4:23) que Deus procura verdadeiros adoradores, que O adorem em espírito e em verdade. Ele não procura espectadores que assistem um culto. Ele quer adoradores que participem ativamente de um culto.

Que situação: Deus à procura de verdadeiros adoradores mas encontrando espectadores de mentirinha.

Não deixe que nada, nem assuntos pendentes da semana nem música que não faz seu gosto, nem pregador empolgado nem liturgia preguiçosa, não deixe que nada o faça esquecer seu desejo de prestar um culto ao seu Deus.

07 dezembro, 2010

no planeta dos ronaldos

Três Ronaldos há.

O primeiro que chegou, chegou como um fenômeno pela própria natureza. Assombrosamente rápido, partia na direção do gol como se as redes fossem um ímã irresistível. Mas o maior feito de Ronaldo Fenômeno não são seus gols. É seu desafio à lei da resiliência. Estava culpado demais depois do fiasco da final da Copa do Mundo de 98. Estava operado demais antes da Copa do Mundo de 2002. Estava gordo demais ao chegar ao Corinthians. Por três vezes lhe juraram um final infeliz. Por três vezes ele respondeu do único jeito que sabe: com triunfos. É famoso, todo mundo reconhece aqueles dentes e aquela cabeça raspada, e embalado em controvérsias, mas raramente se encontra alguém que torça contra ele. É um meninão mimado por uma torcida mundial.

O segundo Ronaldo chegou como um acrobata, um malabarista. Uma pirueta, duas piruetas, bravo, bravooo! Era um encantador de adversários. Juntos, ele e a bola pareciam dois apaixonados que só se desgrudavam na hora do gol. Ilusão. A noite, para ele, tinha mais atrativos que a bola. Com o passar do tempo, ela, enciumada, foi procurar carinho nos pés de outros craques menos dentuços e simpáticos. E ele desapaixonou-se. Passou a vagar em campo como um fantasma do gênio que fora um dia. Até que, um dia desses, ele e a bola estavam de novo a trocar juras de amor. Só que um dos dois não esqueceu as mágoas do passado e o casamento já não parece o mesmo.

O último Ronaldo é um gajo que não admira a própria carreira de gols impossíveis e títulos imponentes. Não se encanta com a bola. Ele está maravilhado consigo mesmo. Enquanto o Fenômeno raspava a cabeça e o Gaúcho enfaixava as melenas, Ronaldo, o Cristiano, lambuza o cabelo com um gel indestrutível. Na Copa da África, passava o jogo de olho no telão: porque Narciso acha feio tudo que não é espelho e replay. Ronaldo, o Cristiano, não tem nada de cristiano/cristão. Num dia está ostentando carrões tunados em Londres, noutro está fazendo a ronda noturna com a doidivanas Paris Hilton, e noutro desnuda o torso num outdoor. Sempre com o penteado crista-de-galo intacto. Quando sobra tempo, vai ao estádio fazer jogadas estonteantes e mais e melhores gols.

Fenômenos do jogo, das massas, das mídias. Manhosos e mimados. Demasiadamente ronaldos.

03 dezembro, 2010

do Haja luz ao Haja money

No estado do Kentucky, Estados Unidos, planeja-se a construção de um parque temático do Criacionismo. Ao custo de 150 milhões de dólares, o complexo vai abrigar uma réplica da Arca de Noé (com animais vivos dentro da arca), uma réplica da Torre de Babel, um cinema com efeitos especiais e outras atrações.

Uma coisa é o estudo, a coleta e a exposição de utensílios e outros vestígios relacionados ao povo hebreu que viveu no Oriente Médio antes de Cristo. Outra bem diferente é erguer uma espécie de Disneylândia sagrada. Isso é como usar o "Haja luz" para promover o "Haja money".

Saindo do Gênesis para o Apocalipse, já ouvimos falar de pessoas que tem a estranha mania de agendar uma data para o segundo advento de Cristo à Terra. Embora a Bíblia afirme que ninguém, a não ser o próprio Deus, conhece o dia da volta de Jesus, sempre aparece alguém portando cálculos aritméticos e hermenêutica bíblica bem pessoal iludindo, se possível for, os muitos incautos. A garantia é que mesmo os falsos profetas foram preditos na Bíblia. 

Larry Falter não acredita em datas marcadas por homens. Ele apenas crê que a volta de Cristo é iminente. O problema é que, com isso em mente, sua empresa, a Joalheria LTD (em Superior, Wisconsin), lançou um anúncio comercial na TV chamado "Liquidação da Segunda Vinda". 

No vídeo da propaganda, o próprio Larry apresenta a campanha dizendo que o dia do retorno de Jesus está próximo e, enquanto o dia não chega, você pode comprar jóias, relógios e ouro com 50% de desconto. 

Sinais dos tempos: Estão capitalizando até o Armagedon.

No início, a igreja era um grupo de homens centrados no Cristo vivo.
Então, a igreja chegou à Grécia e tornou-se uma filosofia.
Depois, chegou à Roma e tornou-se uma instituição.
Em seguida, à Europa e tornou-se uma cultura.
E, finalmente, chegou à América e tornou-se um negócio (Richard Halverson)

Palavras duras. Mas servem para que fiquemos atentos aos mercadores do evangelho que fazem da religião a alma de negócios. Liquidação do Apocalipse, parque temático do Gênesis: falta ética protestante, mas sobra espírito do capitalismo.

Mais:

01 dezembro, 2010

uma entrevista sobre o gospel no Brasil


O jornal O Estado de S. Paulo publicou (30/11/10) uma matéria sobre minha dissertação de mestrado. A reportagem é de Larissa Linder, especial para o Estadão:  

Uma gravadora de música gospel brasileira conseguiu faturar R$ 18 milhões em 2008. No mesmo ano, uma cantora  evangélica emplacou seu hit na trilha sonora em novela do horário nobre da TV Globo. Foram fatos como esses que fizeram Joêzer Mendonça buscar os motivos do  sucesso da música religiosa. “Quis entender o que a levou a ser esse fenômeno de público e de vendas”, conta o professor e pianista de música sacra.

Para investigar a popularidade da música evangélica durante o preparo de sua dissertação de mestrado – "O Gospel é Pop: Música e Religião na Cultura Pós-Moderna", apresentada no núcleo de Musicologia do Instituto de Artes da Unesp no ano passado –, o professor passou a ouvir muitas canções.

“Tem de tudo, desde rock até funk evangélico; os artistas se apropriam desses ritmos populares para alcançar um público maior.” Mendonça afirma que essa apropriação dos ritmos populares é um dos fatores que mais contribuem para a vendagem dos discos.
“A música serve para dar sentido para as pessoas que não conhecem a religião. Cada gênero serve a um nicho de mercado ou de pessoas a serem evangelizadas.” De acordo com o professor, a canção gospel moderna é elemento primordial das novas práticas litúrgicas – e tem demonstrado atender não somente às demandas espirituais e emocionais, como também às exigências do mercado.

O mercado, aliás, caminha junto com o sagrado, explica o autor da dissertação. “Vivemos numa era de intenso incentivo ao consumo e inclusive há o processo de sacralização do consumo: consumir é como levar o sagrado para casa”, diz. “Então, comprar um CD evangélico é como ser cristão.”

Outro motivo para que a música gospel seja um sucesso de vendas, segundo o autor, foi uma mudança de percepção. Antes, quem definia como ser cristão era o pastor, o padre, enfim. Hoje, o fiel é mais autônomo. “Pode interpretar a Bíblia de várias formas, assim como pode escolher o que considera ser cristão. Se ele acha que comprar um CD de pagode gospel é ser temente a Deus, ele se sente livre para fazê-lo”, avalia.

O autor faz uma ressalva. “Questiono se esse processo de transformar música religiosa em música pop não dilui a mensagem do Evangelho.”


*****
Nota na pauta: durante a pesquisa, além de ouvir canções, li outras pesquisas a respeito do novo comportamento evangélico, fui atrás de livros de sociologia da cultura e da religião e visitei os sites de muitos cantores gospel. Defendi a dissertação em 2009. Fico feliz quando algumas menções começam a aparecer. 
Nesse semestre, revisei a dissertação, cortei aqui, acrescentei dados novos ali, enxuguei o jargão acadêmico, enfim, acho que ficou melhor para ler. Agora é sair atrás de uma boa editora que se interesse em publicá-la como livro.

29 novembro, 2010

cem palavras: a infantilização da vida



"Eu não quero crescer. Quero ser para sempre um menino e me divertir".
Peter Pan, fugindo para a Terra do Nunca

"A adolescência começa antes da puberdade e, para alguns, dura para sempre [...] a negação da idade está em toda parte".
Robert J. Samuelson (Adventures in Agelessness, Newsweek)

"Na indústria da moda, os vendedores visam a mãe que tenta parecer que tem 15 anos, ao mesmo tempo que a criança é enfeitada para parecer que tem 40 anos".
Ginia Bellafante (Dressing up, New York Times)

"Leitores adultos debandando para Harry Potter (quando não estão abandonando completamente o hábito da leitura); filmes inspirados em quadrinhos e videogames dominando o mercado do entretenimento" [...]
"As marcas da infância perpétua são impressas em adultos que são atraídos por: roupas sem formalidade, sexo sem reprodução, trabalho sem disciplina, aquisição sem propósito, certeza sem dúvida e narcisismo até a idade avançada [...] Na época em que vivemos, a civilização não é um ideal nem uma inspiração, é um videogame".
Benjamin Barber (Consumido, p. 16,17)

26 novembro, 2010

como Davi ou como Michael Jackson?

Michael Jackson foi um artista extraordinário. Voz inimitável, coreografias surpreendentes, canções marcantes, produções tecnicamente impecáveis. Além disso, apesar das polêmicas e controvérsias de sua vida fora dos palcos, não me lembro de que ele tenha misturado religião e passos do "moonwalk" (o famoso andar deslizando para trás).

O Raiz Coral, ligado à música gospel, venceu a semifinal do concurso "Qual é o Seu Talento?" (QST), do SBT. Nessa etapa do programa, o coral cantou e dançou uma música em que alguns trechos da letra dizem "Se o espírito de Deus habita em mim, eu danço como Davi/eu salto como Davi". A canção original diz "Eu canto como o rei Davi". Mas a dança apresentou os passos do "moonwalk". 

O que o Raiz Coral queria dizer é: Se o espírito de Deus se move em mim, eu canto como Davi e danço como Michael Jackson?

A comparação é muito forte? Então, olha o que disse um dos jurados do programa, Carlos Eduardo Miranda com sua maneira particular de ser franco: "Se falar em termos cristãos, vocês beiraram a presepada. Coisa pra enganar os outros. Vocês vieram [na etapa anterior] com jeito mais sutil e agora "louquearam" [enlouqueceram] tudo. Ficaram gritando como vendedor de geladeira, de liquidificador... Não precisa disso. Deus chega mais maciozinho".

Outro jurado, Thomas Roth, discordou de Miranda e disse: "Faz isso quem pode. Não é pra qualquer um".

Já que a habilidade e a competência do Raiz Coral são inegáveis, a crítica do Miranda foi para a mistura musical e coreográfica de Davi com Michael Jackson. Talvez se o coral tivesse cantado e coreografado uma música secular, como fez o concorrente com a clássica "Yesterday", o jurado teria outra opinião.

Sem querer, os dois jurados representaram duas vozes dissonantes quando o assunto é música cristã. Miranda preocupou-se com as referências que podem vir junto com a música. Ele viu a música como um todo (música, letra, voz, gestos) e não como um mero acessório da performance.
Roth deu atenção às habilidades e competências para apresentar uma música.

Miranda achou que uma performance tem poder para diluir ou desarticular uma mensagem religiosa.
Roth entendeu que a mensagem deve ser observada à parte do talento para apresentá-la.

Alguns podem dizer, Ah, mas Davi dançou quando trouxe a arca de volta para Jerusalém! Sim, dançou. E tem gente que vai rebater, É, ele dançou mas sua mulher [Mical] o repreendeu! Viu como é fácil polarizar o debate? Começo respondendo que Davi dançou, mas sua esposa não o repreendeu porque ele estava imitando passos de um popstar sensacional. Até porque o conceito de popularidade não era esse nos tempos do antigo Israel.

Alguns comentaristas bíblicos dizem que Davi tirou suas roupas de líder real/militar/sacerdotal e se uniu ao povo como um simples adorador. De acordo com esse argumento, naquele momento ele estava dançando, mas não era um dançarino. Ele estava tendo uma atitude de adorador e não fazendo pose. 

Não é possível atender completamente às expectativas e entendimentos da noção distinta que as pessoas têm do que é sagrado ou adequadamente cristão. Além disso, muita gente acha que certas críticas ao mundo gospel não trazem benefício algum ao evangelho. Mas o produtor musical Carlos Eduardo Miranda fez uma crítica direta, sem meias palavras. Faríamos bem em dar ouvidos ao clamor das pedras de vez em quando.


Nesse vídeo, a participação do coral e os comentários dos jurados.
 

23 novembro, 2010

as quatro leis do som alto

Em São Paulo, há um projeto de lei que prevê multa de R$ 1 mil quem usar aparelho portátil com som acima de 45 decibéis em áreas residenciais. Isso também se aplicará a quem ouve funk no celular sem fone de ouvido. Na verdade não precisa ser funk. O caso nem é a música. É a intensidade do som. Esse tipo de ouvinte não se contenta em ouvir só para ele e sai batendo de ouvido em ouvido o seu sertanejo de universitário baladeiro, sua lady gaguejante, seu pop-emo lacrimejante, seu pancadão sacolejante.

Mas não se entusiasme. Ouvir Justin Bieber ou Restart não vai virar crime inafiançável. Até porque quem escuta é menor de idade (Se não é de menor, então deve haver algum problema na contagem de parafusos).

45 decibéis equivalem ao barulho de um aparelho de ar-condicionado ligado. Agora você entende porque decibel é uma unidade de medida do som. Se um Bel (o cantor do Chiclete com Banana, por exemplo) incomoda muita gente, 50 deciBéis incomodam muito mais.

 “A tolerância para suportar o barulho é inversamente proporcional ao refinamento do gosto musical”. Se achou essa frase um desplante elitista, não me culpe. Quem disse isso foi Schopenhauer no insuportavelmente barulhento século 19.

Aplicando o teorema de Schopenhauer aos nossos vizinhos e motoristas de hoje, identifiquei as quatro leis do som alto:

 1) Quanto pior a música, mais alto será o volume do som.
  2) Amarás mais o som do que o ouvido do próximo.
 3) Quanto mais alto o som, mais espelhados serão os óculos escuros do motorista e mais ele dirigirá apoiando o braço esquerdo na janela do carro. 
  4) Odiarás o silêncio com toda a força de teus megawatts.


21 novembro, 2010

você não vai à igreja por causa disso?

Algumas razões pelas quais as pessoas não querem ir à igreja (e algumas respostas com graça):

17 novembro, 2010

a ética e a estética de Avinu Malkenu


Quando ouvi o CD Avinu Malkenu pela primeira vez, estranhei do jeito que se estranha uma novidade. Apesar da beleza do propósito, tudo me pareceu fora de lugar. Dias depois, ouvi o cd outra vez, e me vieram à mente apenas duas palavras: diálogo e origem.

A intenção dos produtores do CD (Leonardo Gonçalves e Edson Nunes Jr) é a busca de diálogo com outras culturas, com outras pessoas, ligadas ou não a uma religião. Mas esse diálogo é estabelecido com um profundo arraigamento à própria identidade religiosa. A busca de diálogo é feita a partir da raiz. Não por acaso, a capa do CD é uma raiz. E uma raiz cresce, vira planta, vira árvore, aparece junto com outras árvores, forma floresta, mas seu tronco, suas folhas e seus frutos são só as partes visíveis da raiz que deu origem a tudo o mais.

Algumas das músicas de Avinu Malkenu estão enraizadas na tradição litúrgica do judaísmo. Ao mesmo tempo, algumas de suas letras enfatizam aspectos do cristianismo, particularmente do adventismo. Alguns arranjos reverberam a música tradicional ibérica e a música clássica européia. A menção à Páscoa, uma festa judaica milenar, está ao lado da ênfase moderna ao “Temei a Deus e dai-Lhe glória / pois é chegada a hora do Seu juízo”. O Êxodo vai desaguar no Apocalipse.

Letras de grande sugestão poética (“o ar das montanhas, límpido como vinho e o perfume dos pinheiros / é carregado pela brisa do crepúsculo em meio aos sons de sinos / e na sonolência de árvore e pedra se acha cativa em sonho / a cidade que se assenta solitária”) são seguidas de uma canção de uma frase apenas (“ano que vem em Jerusalém”).

Diálogo e raiz permeiam cada música desse CD. Isso está na regravação de canções de músicos nascidos em Israel e na composição de canções inéditas ao estilo judaico por músicos cristãos brasileiros. Está no arranjo de piano e cordas para “Nachamu Nachamu” com alusão ao Prelúdio em Dó Sustenido menor, opus 3, nº 2, de Rachmaninoff, e no arranjo de populares toques mouros/ibéricos para “L’shana habaa”. Está na voz falada quase monocórdica na abertura de “Osse Shalom” em contraste com as vozes harmoniosas do canto a capella em “L’cha Dodi”.

Costuma-se dizer que o Brasil foi formado por três raças tristes: o português exilado da metrópole, o índio retirado da aldeia e o negro desterrado da África. O judeu é a quarta “raça triste”. O povo judeu é um povo que se espalhou e foi espalhado. Longe de casa, suas canções ficaram carregadas de saudade. Mas seu larguíssimo histórico de diáspora, de preconceitos, de expulsões e boas-vindas, de tragédias coletivas, não se traduz em melancolia. Na música tradicional judaica, a tristeza não é sem fim. À frente, há felicidade, sim.

Isso faz com que as canções, que começam plenas de contrição, como se o cantor estivesse coberto por um saco de cinzas, mudem pouco a pouco para um andamento mais rápido, mais alegre, como se o cantor visse o céu aberto diante de si. Uma coisa é reconhecer o pecado e ter o senso da radical diferença entre a impureza do homem e a santidade de Deus. Outra coisa é saber-se perdoado e ter a certeza do cumprimento das promessas de Deus.

A canção judaica sai da tristeza para a alegria, da contrição para a salvação, do pecado para o perdão, da terra finita para a vida eterna.

Para o judeu, Jerusalém não é uma cidade, é um estado de espírito. Na canção “Yerushalayim shel zahav” o cantor diz: “Jerusalém de ouro, e de bronze, e de luz / para todas as tuas canções eu serei um violino”. A distância aumenta a saudade, mas não diminui a esperança: “Ainda se ouvirá nas ruas de Jerusalém a voz de júbilo e a voz de alegria da noiva e do noivo” (na canção “Od yishama”). Mesmo presente na cidade, mal encerrada uma festa (a Páscoa), já se canta “ano que vem em Jerusalém”.

A primeira música chama-se “Avinu Malkenu” (em português: “nosso Pai e nosso Rei”). Alguns cristãos falam apenas da soberania do Rei e não enxergam a Deus como Pai amoroso. Outros fazem exatamente o inverso e só vêem a graça do Pai. A primeira música do CD já introduz o conceito bíblico de Deus, um Ser que é Rei da justiça e Pai da bondade.

A segunda música, “Adon olam”, parece extensão da primeira. O tema da soberania transcendente de Deus é reiterado (“Mestre do universo”, “Ele é Um e não há outro”) em conjunto com a imanente misericórdia divina (“Rocha das minhas dores no momento da angústia”).

Leonardo Gonçalves capturou não apenas o virtuosismo da voz judaica cantada: seus melismas  se integram à paisagem natural da música. Ele também compôs duas músicas que poderiam ter sido feitas por alguém nascido e criado na tradição musical judaica: “Avinu shebashamayim”, a oração do Pai-Nosso, e a comovente “Nachamu Nachamu” (Consolai, consolai), palavras de conforto aos filhos de Deus extraídas de Isaías 40:1-3.

Enquanto o Pai-Nosso é a invocação de Deus feita pelo homem, “Nachamu” é a voz de Deus aos homens. Uma apresenta as dívidas impagáveis, a outra outorga o crédito imerecido. Uma pede, a outra consola. 

“Nachamu nachamu” tem um formidável arranjo de cordas de Ronnye Dias e um piano (de Wendel Mattos) de cortar o coração. Ouvir a música sabendo a tradução da letra – “voz que clama no deserto, preparai o caminho do Senhor, endireitai no ermo vereda a nosso Deus” - transmite a sensação de estar no meio do povo ouvindo um antigo profeta advertir Israel com lágrimas nos olhos.

*****
Continua lendo: A ética e a estética de Avinu Malkenu - parte 2

a ética e a estética de Avinu Malkenu - parte 2

Nenhuma cultura está pronta e acabada para sempre. As expressões culturais são dinâmicas, se renovam ao agregar influências de outras culturas. A música judaica influenciou a música ibérica de 10 séculos atrás, fazendo surgir a tradição musical moura. Por outro lado, músicos judeus longe de Israel absorveram a cultura local para renovar a tradição. Assim, ouvindo a festiva canção “L’shana habaa” percebe-se a raiz da música moura/ibérica e como sua percussão está a um passo da música caribenha.

Nesse contexto de interação cultural, ouvimos o shofar e o alaúde e também o piano elétrico. Ouvimos a tradição no estilo de Uzi Hitman, compositor de “Adon olam”, e também a modernidade de Nurit Hirsh, regente e também compositora de mais de mil canções, autora de “Osse shalom”, originalmente composta para um festival de Música Chadíssica, de 1969, que se tornou parte da liturgia em sinagogas e comunidades judaicas no mundo inteiro.

A simplicidade melódica das canções esconde a sofisticação dos arranjos. André Gonçalves (irmão de Leonardo), Ronnye Dias, Wendel Mattos, David Maia, Samuel Krahenbühl e César Marques trabalham como artífices a serviço da carpintaria musical. 

Na quarta canção do CD, há um belo arranjo orquestral em que as cordas vão se sobrepondo e dialogando com a voz principal da música. Já a música “L’cha dodi” abre o diálogo com o modo clássico-erudito de compor para vozes. Ao final, a canção é cantada a capella e a melodia recebe uma harmonização vocal requintada.

“L’cha dodi” é uma música tradicional que, num CD gravado por um adventista do sétimo dia, revitaliza as raízes e constrói pontes. É uma canção que antecede o shabat, fazendo parte do serviço religioso chamado “Cabalat Shabat” (Recebimento do sábado). No início, a canção diz: “A ordem ‘lembra-te e observa’ foi pronunciada de uma só vez / o D-s único no-la fez ouvir”. E mais adiante: “Vamos ao encontro do shabat, pois ele é a fonte da benção / estabelecido desde o princípio / foi a conclusão da criação / mas, no planejamento, o início”.

Quantas músicas são tão assertivas assim em relação ao sábado? Como esta canção é cantada em hebraico e faz parte da tradição judaica, ela parece comum. Mas no contexto da apologia sabática, me arrisco a dizer que ela é singular.

O diálogo com o adventismo corresponde a uma volta às origens bíblicas também na questão fundamental da lei de Deus. A oitava música do CD transcreve os versos de Apocalipse 14:7 e 12. E aí está a mais perfeita tradução da ética desse CD: o diálogo interreligioso que não perde a identidade original. O adventismo de Leonardo Gonçalves não foi diluído na música judaica. Ao contrário, a cultura musical está a serviço da identidade religiosa de missão.

Juízo, reconhecimento de um Criador literal (“adorai aquele que fez”, isto é, o Criador), e a citação “aqui está a perseverança dos santos, os que guardam os mandamentos de Deus e a fé de Yeshua”: a coragem de afirmar tais distinções doutrinárias só pode vir de uma honesta convicção pessoal.

E por que obedecer aos mandamentos? A canção “V’haer enemu” responde: “apega nosso coração aos Teus mandamentos / a fim de não nos envergonharmos e sermos humilhados / e não virmos a fracassar para todo o sempre”.

Na penúltima música do CD, composta por André R. S. Gonçalves, os trechos selecionados de cada estrofe ressaltam quatro pontos importantes:
- a graça divina: “a Tua ira se retirou e Tu me consolas”;
- a salvação: “eis que D-s se tornou a minha salvação”
- a missão de levar a mensagem ao mundo: “fazei notório Seus feitos entre os povos / contai quão excelso é Seu nome”
- a adoração como resposta aos atos de Deus: “cantai ao Senhor porque fez coisas grandiosas”.

Um dos versos da canção diz: “porque o Senhor é a minha força e o meu cântico”. Isso é como dizer: o Senhor é meu mandamento e minha música, a minha ética e a minha estética.
   
A estética é finita, limitada. A ética bíblica é eterna. A melodia (a estética do homem) muda enquanto a Palavra (a ética de Deus) não muda. Os músicos cristãos costumam unir a estética das culturas humanas à ética bíblica. A diferença em “Avinu Malkenu” é que sua ética está na busca de diálogo sem perder as raízes ao passo que sua estética reforça uma volta às origens sem temer o diálogo. Que cresça e dê frutos.

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P.S. para um músico: Wendel Mattos faleceu há poucos dias. Um trecho de “Adon olam” diz: “Nas Suas mãos eu depositarei o meu espírito no momento do sono, e então despertarei”. Não o conheci pessoalmente, mas posso dizer que para nós, que o perdemos, parece que uma longa e desafinada estrada ainda nos separa do reencontro. Mas para Wendel, seu descanso em Deus é apenas uma brevíssima e silenciosa pausa antes dos acordes sinfônicos da ressurreição que virá um dia para os que dormem no Senhor.

11 novembro, 2010

Os Estados Unidos e a saída pela direita


Você já ouviu falar do Tea Party mas não sabe muito bem o que é? Te explico sem meias palavras: é um movimento de extrema-direita que conjuga fundamentalismo evangélico com racismo e ao mesmo tempo prega um neoliberalismo radical em que o Estado deixaria de atuar em setores como educação, saúde e regulamentação dos bancos e se preocupasse só com a segurança pública.

Misturando xenofobia com ufanismo raivoso, muitos deles criticam as leis que proíbem empresas privadas de discriminar clientes por raça ou religião e se declaram contrários à concessão de cidadania para filhos de emigrantes nascidos nos EUA.

Era esse pensamento fascitóide que pretendia cassar a cidadania de Barack Obama durante a campanha eleitoral de 2008. E até hoje, os militantes do Tea Party vão às ruas com faixas chamando Obama de radical islâmico, anticristo, marxista e nazista. Tudo no mesmo ato.

Nascido e criado nos grotões mais conservadores dos EUA, o Tea Party põe no mesmo caldo grosseiro e maldoso religião e política temperados com teorias conspiratórias. Muitos dos seus militantes veem a ONU como a agência do Anticristo onde são mancomunados os planos malévolos de uma conspiração fascista, islâmica e comunista em parceria com os “liberais” e Wall Street, que visa estabelecer um regime totalitário mundial. Esses agentes da Nova Ordem Mundial já teriam cunhado até uma nova moeda para substituir o dólar: o “amero”.

Nas eleições deste ano aqui no Brasil, valores religiosos evangélicos foram atrelados ao discurso político de ambos os candidatos. Não que esses valores não merecessem a atenção dos candidatos, mas a campanha de José Serra nitidamente se inspirou na campanha republicana ao utilizar a forte presença de líderes pentecostais.

Quando Barack Obama foi eleito presidente, dizia-se em alguns setores evangélicos que aquele era o homem que iria unir o mundo sob seu carisma. Contudo, a menos que haja uma virada na atual situação, a atual situação econômica do país e sua baixa popularidade não lhe reelegeriam. 

Como já era visível em sua retórica na campanha (e que a cegueira conspiratória de alguns não via), seu discurso é demasiado conciliador e multiculturalista. Já a extrema-direita norte-americana se pauta pela hegemonia política e pelo exclusivismo religioso. Enquanto Obama é visto como alguém que respeita as lideranças de outros países (até onde é possível) e as variações religiosas, o Tea Party prefere posar como xerife do planeta e é exclusivamente evangélico. 

Fique atento, pois tão ruim quanto um governo que rejeita todas as religiões é um governo que advoga uma religião exatamente contrária a sua.

Mais sobre o Tea Party e algumas implicações religiosas, aqui.
Sobre o projeto político do Tea Party, aqui.

08 novembro, 2010

Seis cegos e um elefante, ou, nossa mania de juiz


Era uma vez seis cegos à beira de uma estrada. Um dia, lá do fundo de sua escuridão, eles ouviram um alvoroço e perguntaram o que era. Era um elefante passando e a multidão tumultuada atrás dele. Os cegos não sabiam o que era um elefante e quiseram conhecê-lo.
Então o guia parou o animal e os cegos começaram a examiná-lo:
Apalparam, apalparam...Terminado o exame, os cegos começaram a conversar:
— Puxa! Que animal esquisito! Parece uma coluna coberta de pêlos!                                                         — Você está doido? Coluna que nada! Elefante é um enorme abano, isto sim!                                            — Qual abano, colega! Você parece cego! Elefante é uma espada que quase me feriu!                               — Nada de espada e nem de abano, nem de coluna. Elefante é uma corda, eu até puxei.                            — De jeito nenhum! Elefante é uma enorme serpente que se enrola.                                                            — Mas quanta invencionice! Então eu não vi bem? Elefante é uma grande montanha que se mexe.

E lá ficaram os seis cegos, à beira da estrada, discutindo partes do elefante. O tom da discussão foi crescendo, até que começaram a brigar, com tanta eficiência quanto quem não enxerga pode brigar, cada um querendo convencer os outros que sua percepção era a correta. Bem, um não participou da briga, porque estava imaginando se podia registrar os direitos da descoberta e calculando quanto podia ganhar com aquilo.

A certa altura, um dos cegos levou uma pancada na cabeça, a lente dos seus óculos escuros se quebrou ferindo seu olho esquerdo e, por algum desses mistérios da vida, ele recuperou a visão daquele olho. E vendo, olhou, e olhando, viu o elefante, compreendendo imediatamente  tudo.

Dirigiu-se então aos outros para explicar que estavam errados, ele estava vendo e sabia como era o elefante. Buscou as melhores palavras que pudessem descrever o que vira, mas eles não acreditaram, e  acabaram unidos para debochar e rir dele.

Morais da história:
Em terra de cego, quem tem um olho anda vendo coisas.                                                                    Quando algo é tido como verdade, o que é diferente parece mentira.                                               Problemas comuns unem.                                                                                                                           Se você for falar sobre um bicho para uma pessoa que nunca viu um, melhor fazer com que ela o veja primeiro.

Virgílio Vasconcelos Vilela (Possibilidades)

*****
Nota na pauta: seis cristãos (eu sou o primeiro) julgam um elefante-cantor. Cada um tem uma interpretação. Eu gostaria de ser o cego que voltou a ver e tenta explicar como é o elefante, mas terei que concorrer com aqueles juízes que já tem a vista perfeita e verdadeira, então volto ao ensaio de minha cegueira. Nossa mania de juiz é tão irresistível quanto caolha. O que levará alguns web-transeuntes a dizer que quem está errado mesmo é o autor dessa história.

05 novembro, 2010

a música do bom samaritano

Assistir uma senhora chamada Rute falando sobre seu serviço de visitação nos presídios impressiona a gente. Ela e uma anciã cujo cristianismo não fica na prédica, mas avança para a prática. Sua história me lembrou de versos bíblicos que ouvi na infância: “estive preso e Me visitaste...”

Conhecida pelos presidiários como "Irmã Rute", ela se dedica há muitos anos a esse serviço absolutamente voluntário. Foi assim que conheceu o casal Milton e Nair. Ele, fichado como um dos 10 criminosos mais perigosos do Paraná. Ela, sua companheira. Por razões que só consigo caracterizar como um milagre de transformação pessoal, o casal se tornou cristão.

Quem de nós apostaria na conversão do casal? Rápidos em rotular, diríamos que aquele homem era a escória da sociedade, um dejeto social merecedor de coisas piores que a prisão. Mas Milton da Silva cumpriu sua pena e saiu para uma vida completamente diferente.

Eu estava ali assistindo aquela senhora falar por uma coincidência. Eu estava ali para tocar para o Curitiba Coral. De repente, ela chama Nair à frente. E eu surpreso fico sabendo que Nair agora é diretora da ADRA e do ministério da mulher de sua igreja local. Fico boquiaberto quando Rute chama Milton da Silva. Seu rosto na página policial de um jornal (mostrado antes numa tela) contrasta com sua expressão de contentamento e serenidade. Milton, de camisa e fala humildes, hoje constrói igrejas.

A canção do vídeo abaixo talvez não seja seu tipo preferido de música (não é o meu). Mas sua letra retrata sem rodeios a vida de alguém que estava afundando no pântano social e, através da visita de alguém como Rute na prisão, encontrou uma nova maneira de enxergar os outros, como se uma nova luz abrisse seus olhos para as maravilhas do amor e do perdão.

Há tragédias sociais e espirituais diárias, mas que muito cristão finge não ver porque lacrou-se numa igreja lustrada e perfumada. 

Não estou prognosticando um estilo de música para as igrejas. Estou mostrando que aqueles que estão na periferia do "bom-gosto" usam o idioma musical que compreendem para expressar seu novo modo de vida e como nosso elitismo religioso e cultural não passa de uma máscara sacerdotal que se afasta dos caídos e feridos enquanto os samaritanos em sua simplicidade vestem o nu, alimentam o faminto e confortam os presos.




04 novembro, 2010

o twitter é o gatilho mais rápido da internet


Meses atrás, o cantor gospel André Valadão escreveu "evangelizar" com "s" no twitter. Não demorou para que o erro de gramática provocasse o súbito aparecimento de um exército de tuiteiros armados de "z" até os dentes. E não há bicho mais belicoso que um internauta ferido em sua honra gramatical. No twitter, não existe margem nem para as margens de erro. O espaço é para 140 caracteres, mas a tolerância é zero.

Quando digitou "cinismo" com "s", a apresentadora Glenda Koslowski também amargou a fúria dos templários que vigiam o jardim da última flor do Lácio. Não apareceu um cavalheiro para defendê-la com um clichê do tipo "quem nunca errou no twiter que atire o primeiro teclado". Muita gente acredita que seu programa Hipertensão, trash no último, foi um castigo que a Globo lhe impôs pelo crime de lesa-idioma.

Se a violência do tuiteiro ficasse só na esfera da palmatória virtual com fins educacionais, isso já seria classificado como bullying. Mas a coisa não para por aí. Ao contrário do provérbio do sábio contemporâneo Sua Excelência Tiririca, tudo sempre pode ficar pior. Aí estão alguns eleitores paulistanos de José Serra achincalhando os eleitores nordestinos de Dilma Rousseff, embora os números das eleições provem que Dilma seria eleita, com menor folga, mesmo sem os votos da região Nordeste. 

Mayara Petruso, uma moçoila mais avexada, apregoava no twitter: "Faça um favor a SP. Mate um nordestino afogado". Mal se declarava o resultado das eleições e rapidamente se começava a pedir a cabeça alheia. O twitter é o gatilho mais rápido da internet.  Infelizmente, não há banda larga suficiente para a vasta ignorância dessa gente.

Mesmo a reação dos nordestinos com a tag #orgulhodesernordestino foi criticada como autovitimização e preconceito ao avesso. Veja só: esse grupo, uma minoria paulista, promove a discórdia e a xenofobia e ainda se defende dizendo que o pobre é o culpado da própria pobreza e que a vítima é a culpada do preconceito que sofre. Por certo, o nordestino não tem orgulho da pobreza, culpa da histórica má distribuição de renda e dos "coronés" favorecidos, mas tem orgulho da sua vastíssima contribuição à arte e à cultura nacionais, tem orgulho da força com que supera as tragédias naturais.

Esses internautas cheios de ressentimento e soberba só certificam duas coisas: 1) A arrogância paulistana é tão míope que deixa de enxergar que seus cidadãos passaram a vida elegendo o Maluf, o Enéas e agora passam o cetro ao Tiririca; 2) O twitter é o divã dos ressentidos.