26 setembro, 2012

como tirar um sorriso de Beethoven

Numa sonata clássica para piano, o compositor apresentava um tema no começo da música e em seguida fazia variações, que poderiam ser tocadas em tonalidade menor, quatro tons acima, com floreios, sem floreios, de forma lenta, mais rápida, na região grave do piano, na região aguda e assim por diante, até o final quase sempre empolgante e grandioso.

Isso é o que o comediante Dudley Moore faz com o tema "Colonel Boogey", assobiado no filme A Ponte do Rio Kwai (1957). Só habilidosos e engraçados humoristas são capazes de parodiar os habilidosos e sérios pianistas.



20 setembro, 2012

Strange Fruit: a canção que o racismo não calou


As árvores do Sul dão uma fruta estranha. Folha em sangue se banha. Corpo negro balançando lento. Fruta pendendo de um galho ao vento.

Assim começa a canção Strange Fruit, gravada pela cantora Billie Holliday, em 1939. O poema rascante da canção colocava o dedo na ferida aberta do racismo nos Estados Unidos.
  
O autor de Strange Fruit era um judeu comunista de Nova York chamado Abel Meeropol (1903-1983), que usava o pseudônimo Lewis Allan para compor. Na letra da música, a “estranha fruta” eram os cadáveres de negros linchados e/ou enforcados nos ultrapreconceituosos Estados americanos sulistas, como registrado na foto abaixo, datada de 1930. (O que queria dizer o homem ao centro apontando para os corpos? E o que dizer da naturalidade dos espectadores?)

Essa canção fazia um veemente protesto contra o odioso sistema que, entre 1889 e 1940, já enforcara mais de 2.700 negros no sul dos EUA. Havia, decerto, outras canções de denúncia, mas Strange Fruit foi a primeira canção contra o racismo a alcançar relevância fora do circuito musical.

Se a letra chocava por ser um ataque frontal ao racismo institucionalizado, a música também não era facilmente assimilável. Gravada só com voz e piano, não era jazz nem folk. O autor do livro, o jornalista David Margolick, diz que a canção era “artística demais para ser música folk e politicamente explícita e polêmica demais para ser jazz”.

A canção, os cantores e o contexto histórico são fartamente desenvolvidos nas 144 páginas do recém-lançado livro Strange Fruit: Billie Holliday e a Biografia de uma Canção. Se não puder ler, ouça alguma das várias gravações dessa música disponíveis no YouTube. Seja na voz de Billie Holliday ou de Nina Simone, o impacto é doloroso e pungente.  

Letra original em inglês:
Southern trees bear strange fruit 
Blood on the leaves 
Blood at the root 
Black bodies swinging in the southern breeze 
Strange fruit hanging from the poplar trees 
Pastoral scene of the gallant south 
The bulging eyes and the twisted mouth 
The scent of magnolia sweet and fresh 
Then the sudden smell of burning flesh 
Here is a fruit for the crows to pluck 
for the rain to gather, for the wind to suck 
for the sun to rot, for the tree to drop 
Here is a strange and bitter crop

Tradução feita pelo poeta Carlos Rennó:

Árvores do Sul dão uma fruta estranha 
Folha ou raiz em sangue se banha 
Corpo negro balançando, lento 
Fruta pendendo de um galho ao vento 
Cena pastoril do Sul celebrado 
A boca torta e o olho inchado 
Cheiro de magnólia chega e passa 
De repente o odor de carne em brasa 
Eis uma fruta para que o vento sugue, 
Pra que um corvo puxe, pra que a chuva enrugue, 
Pra que o sol resseque, pra que o chão degluta, 
Eis uma estranha e amarga fruta.

14 setembro, 2012

lirismo rural e romântico na canção cristã

Houve um tempo em que as imagens de um Brasil rural e ingênuo predominavam na música popular: aquela serra num ranchinho beira-chão, o vento nas palhas do coqueiro, o luar do sertão. O sucesso urbano de canções como Menino da Porteira ou de versos como “ter uma casinha branca de varanda e um quintal e uma janela para ver o sol nascer” indicam que a nostalgia rural é compartilhada por muita gente.

A música cristã mais recente também expressa esse desejo de fuga para o campo. A diferença é que, em vez de “um lugar de mato verde pra plantar e pra colher”, o desejo é encontrar Deus no sertão. Não é ter a companhia de Deus durante a pesca ou ao largo da estrada, mas desfrutar momentos de intimidade e consagração. No campo.

Algumas das letras falam em mergulhar nos rios do coração, outras em passear de mãos dadas com Deus. Atualmente, parece que nem todos se contentam em saber que “além do rio existe um lugar pra mim”. Hoje, a vontade é de mergulhar nesse rio.

Outras canções reúnem a natureza e o romance para comunicar a relação Deus-filhos: "o céu se une à terra como um beijo apaixonado". Ou adotam a linguagem típica de um casal enamorado: "Quero te sentir, quero me envolver, quero te beijar, Senhor"

Na história da arte e da literatura, uma das reações do artista face aos processos de industrialização e violência urbana é a fuga da realidade cruel por meio de músicas e poemas que ressaltam a beleza e a tranquilidade da vida campestre. Certas canções cristãs parecem representar essa necessidade de paz e, culturalmente, a vida no campo é um símbolo de calma e paz.

Alguns poderiam dizer que esse é um modelo poético que denota um tratamento mais íntimo da relação entre Deus e Seus filhos. Mas as letras de algumas dessas canções não estão sinalizando um desejo de relação adocicada e sentimental com Deus?   

Não é difícil notar a reprodução de imagens romantizadas e bucólicas na música cristã, com letras que levam o ouvinte a imaginar o coração divino como um rio, a dar beijos em Cristo e a descrever passeios pelo campo com Deus. Essas metáforas podem ser mera demonstração de intimidade no relacionamento entre o ser humano e Deus. Por outro lado, esse tratamento é uma romantização dessa mesma relação e apresenta até mesmo um excesso de açúcar na linguagem.

Dá a impressão de que alguns compositores não encontraram Deus numa cabana, mas sim num sítio. Não estou aqui para condenar tanto bucolismo, mesmo porque todos têm o direito de manifestar seu sentimento religioso, mas é possível que esse lirismo campestre misturado a expressões típicas do relacionamento conjugal esteja resultando em metáforas de gosto duvidoso. 

10 setembro, 2012

o jornalismo esportivo de risos e lágrimas


Foi na década de 1970 que a TV Globo apresentou seu formato campeão de audiência no horário nobre. Um telejornal ensanduichado entre duas novelas. Primeiro, uma novelinha leve e bem-humorada, depois um telejornal de cara séria e, em seguida, um novelão dramático. Das sete às dez da noite, o espectador começava rindo e terminava chorando.

Atualmente, o jornalismo esportivo da TV Globo reproduz o modelo cômico-dramático das novelas. Thiago Leifert, no Globo Esporte, e Tadeu Schmidt, no Fantástico, não perdem nem a audiência nem a piada. O repórter Régis Rösing tem dado preferência a emocionantes e inspiradoras histórias.

Tudo bem que o Globo Esporte sempre foi leve e omisso e que a exibição dos Gols do Fantástico sempre esteve acompanhada de bom humor. Contudo, os gracejos de Thiago Leifert têm alvo fácil (talvez outros alvos sejam censurados pela produção). Ele guarda suas tiradas para atletas sem beleza física ou para a intimidade de celebridades do esporte. Mas não sobra uma farpa para os desmandos dos cartolas do futebol, por exemplo. Só tem piada para gols inacreditavelmente perdidos e quedas. Ele conseguiu o feito de tornar o Globo Esporte num programa do tipo “Os vídeos mais engraçados do mundo”.
 
Enquanto o Esporte Espetacular lançava a ridícula campanha do boneco João Sorrisão, Tadeu Schmidt apresenta a ainda mais ridícula Câmera do Beijo. No intervalo de uma partida de futebol, vários casais no meio da torcida são exibidos no telão do estádio e, ao se verem na tela, eles se beijam. Os comentários engraçadinhos ficam por conta do apresentador. Ah, sim, e também há esbarrões, tropeções e quedas.

Se esses fossem os únicos momentos de deboche e humor, vá lá. O problema é quando um programa esportivo inteiro só quer fazer cócegas no espectador.

Todos sabemos do esforço desmedido de um atleta brasileiro para conseguir chegar a uma medalha ou troféu. Louve-se a persistência desses atletas que superaram enormes barreiras. O repórter Régis Rösing  explora o drama desses atletas até que a matéria vire um novelão, com entrevistas emocionadas da família  e música de fundo. Música dramática, música triunfal. Parece uma reportagem sensacionalista do Gugu.

No entanto, nem a piada de Thiago Leifert nem a câmera indiscreta de Tadeu Schmidt nem o melodrama de Régis Rösing mostram a estrutura corrompida de clubes e federações ou investigam as razões gerenciais e esportivas que levaram o vôlei a ser uma potência olímpica e a seleção de futebol a estar fora do G-10 no ranking mundial. Copa do Mundo? Só alegria. Ricardo Teixeira? Foi embora. Por quê? Se quiser saber, leia os jornais ou veja na ESPN Brasil.

Os programas esportivos da Globo estão parecidos com a VideoCacetada do Faustão, que não é exatamente um programa jornalístico, e com a Zorra Total, que não é exatamente um bom modelo humorístico. Entre o dramalhão e a comédia, seu jornalismo esportivo está uma tragédia.