26 maio, 2008

Música na escola

A votação do projeto de lei 2732/2008 que trata da educação musical na escola foi adiada para o dia 28 de maio, no plenário 10 na Comissão de Educação e Cultura da Câmara.
Apesar do apoio que o projeto tem recebido de vários setores da sociedade, a população não parece bem informada das propostas do projeto que traz a educação musical de volta para a sala de aula. Há pessoas que desconhecem o caráter do projeto em pauta e acabam desvalorizando ou superestimando essa iniciativa pedagógico-musical.

Os que superestimam crêem que a musicalização dos estudantes brasileiros resolverá problemas estéticos, afetivos e psico-motores das crianças e adolescentes, como uma panacéia que sarará a terra brasilis da indigência cultural e falência moral. As notas dos alunos subiriam vertiginosamente devido aos benefícios para a inteligência e para a memória, revelando mozarts e jobins tupiniquins à rodo.

Os que desvalorizam esse projeto chegam ao cúmulo da ignorância, como certo articulista da revista Rolling Stone nacional, o qual, mesmo admitindo não conhecer o teor do projeto, já saiu dizendo que este deveria ser aborrecido, pois os músicos que ele conhece teriam pulado o muro da escola exatamente para formar bandas. Como se a educação musical coletiva e a prática musical extra-escolar excluíssem uma a outra. Esse falso romantismo e desatento anti-intelectualismo diz muito sobre a qualidade de certa crítica musical no Brasil.

Nem tanto ao mar, nem tanto ao rio. Nem a música na escola pode salvar o mundo e nem sua presença na escola inibe ou limita o talento musical do adolescente. A volta da música à sala de aula não prevê a formação de músicos assim como a disciplina de biologia não pretende formar biólogos ou a de educação física quer formar esportistas. As matérias escolares trabalham com a oferta de conhecimento sobre o mundo em que vivemos e a pedagogia musical não poderá nunca limitar-se ao ensino de notas e escalas, mas também terá que auxiliar na contextualização e interpretação do universo musical das sociedades humanas antigas e contemporâneas, daqui ou d'além mar. A educação musical pode contribuir para a sensibilização da criança às sonoridades diversas, ao ritmo e à prática vocal, mas também pode ajudar o adolescente a compreender o mundo musical-midiático em que está inserido e a descobrir outras formas de se fazer música, outras culturas musicais afastadas de seu ouvido.

Conhecer outras práticas musicais, interpretá-las e ter a possibilidade de reproduzí-las no espaço escolar. As músicas indígenas e folclóricas, as músicas de outras nações latino-americanas, africanas e asiáticas colaboram para o reconhecimento e o respeito às práticas culturais diferentes daquelas que o aluno vivencia no seu dia-a-dia. E ainda, desde que não haja uma celebração acrítica dos gêneros populares e dos estilos pop, se o aluno é levado a entender a música das mídias, sua história e seu contexto extra-musical, ele pode aprender a escutar, pode desenvolver um "ouvido pensante".

Para ler mais sobre o projeto, clique aqui.

Para participar do abaixo-assinado "Quero educação musical na escola", aqui.

19 maio, 2008

Everybody loves Zeca Pagodinho

A charge do Amarildo apresenta o que se pode chamar de "armas de destruição em massa". Não adianta as propagandas de cerveja se encerrarem com os dizeres "se dirigir, não beba" ou "se beber, não dirija". Isso é tão inócuo quanto colocar ao final de uma propaganda de carro a frase "não corra, não mate, não morra". Mesmo porque os anúncios de carros são irmãos univitelinos dos comerciais de cerveja. Ambos vinculam seu produto à equação do mundo-macho jovem: prazer de dirigir/prazer de bebericar + uma(s) mulher(es) no banco/à mesa = velocidade/alegria com ou sem moderação. Não vai demorar e vão mostrar um sujeito dirigindo que não sabe se olha pra frente, pra Juliana Paes do lado ou pra latinha de cerveja que o Zeca-Feira Pagodinho lhe oferece do banco de trás.

Nesse ano, o lobby das cervejas fez um escarcéu dizendo que queriam acabar com "a liberdade do consumidor" e com "a liberdade de expressão" pois as cervejarias não poderiam mais anunciar seus produtos. E não é que agora e na hora da sua morte as danadas invocam até a Santa Madre Liberdade de Expressão, ela mesma, que de defensora dos ideais iluministas passou agora para o lado ambev da Força?

Acontece que o projeto de lei pretendia restringir a veiculação de propagandas de bebida alcóolicas no rádio e na TV entre as 6h e as 21 h. Os anunciantes e as emissoras saíram então de braços dados vociferando contra a suposta censura e o cerceamento da escolha do consumidor, este sim, o grande responsável pela (des)ordem nas estradas e pelo progresso do faturamento das cervejarias. Enfim, o lobby funcionou, o projeto de lei foi engavetado e tudo parece que vai acabar em pizza com rodada de cerveja pra todo mundo, êêê!

Coincidência? O investimento dos fabricantes de cerveja em publicidade saltou de 180,4 milhões em 2000 para 961,7 milhões em 2007, segundo o Ibope. Dos 513 parlamentares, 87 têm concessões de rádio e televisão e/ou receberam doações de campanha da indústria de bebidas e de comunicação. 33 deputados eleitos receberam 2.130.120 milhões das fábricas de cerveja em sua campanha eleitoral.

Uma pesquisa apontou que das 16 regras estabelecidas pelo Conar, conselho de auto-regulamentação publicitária, 12 foram desrespeitadas pois "têm apelo imperativo ao consumo, despertam a atenção de crianças e adolescentes, mostram pessoas que aparentam ter menos de 25 anos, exploram o erotismo, não são veiculadas apenas em programas de TV destinados ao público adulto e mostram a cerveja relacionada ao sucesso profissional, social ou sexual".

A saída para alguns fabricantes e publicitários espertos foi relacionar o "brahmeiro" ao brasileiro trabalhador que não desiste nunca. Vide a letrinha do jingle. O brahmeiro é incansável ("acorda cedo, vai trabalhar, ralou para conquistar o que tem"), honra pai e mãe (tudo o que sabe deve aos pais), é honesto (tem nome limpo), é um homem de família (sente-se um rei em casa), celebra a vida e a amizade ("a vida não tem graça sem ter os amigos e o que celebrar"), que lindo, tão lindo e limpo que parece um comercial de banco.

O brahmeiro não é mais do jeitinho brasileiro (é do batente e da luta). Agora pertence à categoria dos guerreiros brasileiros e ninguém segura esse país.

Leia mais sobre a mídia, o lobby e os deputados

13 maio, 2008

A liberdade não é só uma casa grande

13 de maio de 2008: 120 anos da Lei Áurea, que alforriava os escravos mas os lançava no limbo social, onde nem eram livres realmente nem escravos propriamente. Embora houvesse abolicionistas de todas as cores e credos, muitos ainda confundiam (confundem) inteligência, cultura e religião com geografia, outorgando o bom, o belo e o justo somente a uns poucos eleitos estrangeiros.

Em Os Tambores de São Luís, grande romance em que Josué Montello traça um painel da sociedade escravocrata maranhense (por opção, mas brasileira por extensão), o negro Damião é um personagem que percebe a hipocrisia da casa-grande cristã durante uma visita do bispo da capital:

"Por que era escravo? E porque também eram escravos os negros que enchiam a capela? ... Deus estaria de acordo com aquela distinção? Uns livres, outros escravos? Uns sentados, outros de pé? No entanto, ali na fazenda, os brancos constituíam a maioria privilegiada, que oprimia a multidão de negros, sem lhes dar direito a nada, nem mesmo ao banco vazio da capela ...Não seria o caso de perguntar ao bispo o que fazia Deus que não tirava os pretos do cativeiro? Ou o Deus era dos brancos e não dos negros?"

"As chibatas, as palmatórias, o tronco, as gargalheiras, o libambo, as máscaras de flandres, tudo tinha sido escondido, para evitar que sobre esses instrumentos de castigo resvalasse o olhar de Sua Reverendíssima"... "Quando o bispo fosse embora, as chibatas, as palmatórias e o tronco voltariam aos seus lugares, bem visíveis, para que os negros se atemorizassem só em olhá-los."

O papa Bento XVI, sobre o extermínio de judeus pelo nazismo: "onde estava Deus nesses dias? Por que ficou silencioso?". Como é que é? Quer dizer que o bicho-homem comete suas canalhices de cada dia, assola a terra com seus vitupérios milenares, pisa no pescoço do próximo para ser mais admirado e então recorre a Deus para eximir-se da chacina e da culpa? É Deus alguma espécie de vovô pra viver tirando nossa mão da cumbuca, um xerife pra apartar nossas brigas de gentalha? Por que Deus tem que intervir em situações que homens e mulheres podem resolver?

A resposta de um jornalista londrino ao papa - devolvendo a pergunta: "onde estava a Igreja naqueles dias?" - poderia ser uma resposta possível ao clamor de Damião.

Na época da escravidão oficial, Castro Alves alinhavava algo assim: "Quebrem o cetro do papa / Façam dele uma cruz / Sua púrpura lancem ao povo / Para cobrir seus ombros nus".

As páginas de Josué Montello encontram eco nos belos versos do professor e compositor Gladir Cabral, que na canção "Casa Grande" descreve esse cruel oxímoro que é o "cristão escravocrata".

A casa grande é branda como a seda
Acolchoada, fina e nobre como a renda
Mas aqui fora reina a lei da reprimenda
Da palmatória, nossa paga, nossa prenda

Doutores, caros, fortes, ricos e senhores
Que suspirais pela janela dos amores
Olhai por nós, marcados por terríveis dores
De vós vêm nossas esperanças e temores

Os nossos corpos sendo mortos pouco a pouco
Os nossos sonhos já desfeitos, todos loucos
Na casa grande há uma cruz numa parede

Sipaúba, escravo como Damião, diz a este:
"-Nem drumindo a gente é livre. Ontem de noite, sonhei que tava no tronco, apanhando. Acordei gemendo, molhado de suó.
-Também já tive um sonho assim - confessou Damião, de vista baixa, após um silêncio".


No coração de um negro há uma casa nova
Sem palmatória, sem corrente obrigatória
Sem mais senhores, todos são de todo amigos
E nas paredes não há Cristos esquecidos

Nessa fazenda Deus é gente aproximada
É tempo inteiro, tarde, noite e madrugada
Motiva encontro, comunhão e caminhada
Faz liberdade ser bem mais que uma palavra

Os nossos corpos redimidos num momento
Bem mais veloz que a luz de todo pensamento
A nossa casa é muito mais que uma fazenda

Livros e canções apontam o que escraviza a alma dos homens. Muitos, movidos por um hedonismo nunca satisfeito, dizem ser livres em sua busca por matar sua sede de justiça e diversão, de materialidade e imediatismo nas fontes rotas de uma liberdade escravizante. Outros, cuidam de fazer da sua religião um açoite que aterroriza até a si mesmos, fazendo-se não de servos humildes, mas de feitores sem misericórdia. Mas há ainda quem trabalhe e espere pela liberdade redentiva, ainda que tardia ou abandonada nos púlpitos e esquecidas nas paredes.
Clique aqui para ler análise da canção Casa Grande e do cd de Regina Mota.

09 maio, 2008

Os hits e os invasores de ouvidos – parte 2

Escrevi sobre os hits da moda e houve aqui e ali certo queixume. Entendeu-se que o estilo musical mencionado é inapelável e intrinsecamente ruim. Porém, quando escrevi sobre a mistura de pagode com reggae não quis dizer que esse casamento está em jugo desigual, tipo casamento de celebridades – no tocante à duração são semelhantes (ok, você venceu, esses hits duram mais tempo que casamentos de celebridades). Mas nunca diria que um estilo musical pode nascer de uma fonte de água tão amarga que não dê pra fazer um Tang que seja.

Quando Armandinho e congêneres dizem tocar reggae, eu saco do bolso meu sal-de-frutas. Esse pseudo-reggae nada tem a ver com o reggae de Bob Marley nem mesmo com o estilo regueiro da Tribo de Jah. O que andam fazendo é misturar as indigentes melodias e as letras neuro-vegetativas do pagode mauricinho com a batida característica do reggae.

Na virada do século XIX para o XX, pagode era como se chamava um baile pré-carnavalesco surgido num Rio de Janeiro onde as rodas de samba e o partido-alto iam noite adentro nos quintais cobertos (o termo é uma alusão à típica arquitetura oriental de nome “pagode”). As harmonias e melodias são via de regra simples e as letras geralmente abordam as paixões e romances da vida.

Desde os anos 90, pagode quer dizer oito homens vestidos de branco que cantam sua desilusão amorosa em uníssono e com passinhos repetidos. Some-se a isso as caras e bocas na dublagem televisiva de domingo e a veiculação ad nauseam na mídia e o cenário está armado para a consagração de Só Pra Contrariar, Os Travessos, Belo e Vavá. Tem gente que até hoje não sabe se a prisão de Belo foi mesmo por causa de má companhia ou péssimo pagode.

Por sua vez, o reggae é uma música popular (mais para o pop) jamaicana que incorporou instrumentos modernos a suas origens africanas com elementos do rock steady e do ska. O reggae adquiriu força tanto por sua conotação religiosa - está ligado à filosofia rastafari, que pervade os costumes religiosos e culturais da ilha – quanto por seu caráter de resistência política e social.

O Maranhão é o Estado brasileiro em que o reggae encontrou grande acolhida – São Luís é denominada a Jamaica Brasileira. A cidade já teve a alcunha de Atenas Brasileira, devido a sua incrível quantidade de literatos – Gonçalves Dias, Aluísio e Arthur Azevedo, Josué Montello, Nauro Machado e Ferreira Gullar (Sarney não vale), mas isso já é outra discussão.

Embora o reggae em São Luís seja dançado tanto individualmente quanto aos pares – caso único no Brasil -, o estilo herdou não só a oposição cultural e política jamaicana, mas também o gigantismo da aparelhagem de som e o salão de baile enfumaçado pelo consumo de cannabis sativa, e aí qualquer politização ia mesmo pro espaço. É claro que, assim como o samba carioca, o reggae maranhense sofreu crítica das classes dominantes e ofensiva policial. Hoje, o reggae extrapolou a questão meramente musical e adquiriu impacto social chegando a eleger políticos na cidade.

A indigesta mistura de pagode com reggae, mencionada na primeira parte desse texto, abandonou não apenas a tradição de um samba lúdico como também afastou-se do caráter de resistência política e cultural do reggae. Ou seja, o pagode se entristeceu e o reggae virou scrap adolescente. Não que o reggae tenha que manter-se num gueto social, mas a prática musical dos pagodeiros-tristes/regueiros-hedonistas revela sua falta de talento e seu desejo de integração na comunidade das celebridades por meio da diluição das características melódicas e culturais de um gênero musical.

Uma música como "ursinho de dormir" fala por si a respeito do pagode com reggae, mais uma mistureba apropriada para o festival de caldeirões e domingões que assolam o país. Vale emendar aqui um pequeno trecho de uma letra de Gilberto Gil que diz (onde lê-se Michael Jackson, entenda-se Armandinho e transgêneros):

“Bob Marley morreu
Porque além de preto era judeu
Michael Jackson ainda resiste
Porque além de branco ficou triste”.

Leia também: os hits e os invasores de ouvidos - parte 1.

06 maio, 2008

Quem não gosta de berimbau, bom sujeito não é


A Bahia é boa terra / Ela lá, eu aqui, Iaiá

Os versos do samba Quem São Eles, de Sinhô, datam de 1918 e dirigiam-se aos baianos concorrentes das rodas de samba. A essa provocação seguiram-se réplicas e tréplicas em forma de música com a participação do baiano Hilário Jovino Ferreira, um dos pais das escolas de samba cariocas, e dos descendentes de baianos João da Baiana e Donga (autoproclamado autor de Pelo Telefone), e até Pixinguinha.

Noves fora a polêmica entre os compositores populares, a canção popular oriunda dos festejos dos negros era combatida oficialmente e contraditoriamente era celebrada em festas com a presença da elite política que elaborava as leis. Como conta João da Baiana, certa noite seu pandeiro foi tomado pela polícia quando se dirigia a uma festa no palacete do senador Pinheiro Machado, o qual, ao saber do fato, mandou fazer outro pandeiro para o sambista, agora com a seguinte dedicatória, que lhe serviria de salvo-conduto: "A minha admiração, João da Baiana. Pinheiro Machado".

A Bahia era tida como exportadora de mão-de-obra e de folguedos populares, e sua presença na então capital brasileira era descrita por Olavo Bilac numa crônica de 1906 em que se indignava ante a "selvagem presença negra na recém-inaugurada Avenida Central", via a "ressurreição da barbaria" e a "idade selvagem" perturbando a "idade civilizada", e também lamentava que a multidão não se "confinasse na Penha" e fosse "como uma enxurrada vitoriosa para o centro da urbs".

Na crítica de Bilac transparece a condenação das manifestações culturais negras, porém, a despeito das tentativas de expurgo da cultura popular, a Bahia acabou tornando-se ponto de referência elogiosa já nos anos 30. O mineiro Ary Barroso a exaltava em canções como Bahia, No tabuleiro da baiana, Na baixa do sapateiro ou Quando eu penso na Bahia, e Dorival Caymmi louvava a boa terra, seus jangadeiros, seu mar, seus locais encantatórios de Abaeté a Itapoã. Logo, a Bahia, de lugar e povo desprezados, passou ao imaginário brasileiro e mundial como locus de confluência de todos os santos e todos os gostos.

Entretanto, a vida não é uma aquarela brasileira cordial e apaziguadora e o vento do preconceito que bate lá é a ventania da injustiça que bate cá. Apesar da opressão social que sempre marcou as classes populares (entenda-se pobres e/ou negros), seus compositores não deixavam a peteca da auto-estima cair e cantavam sua cultura, sua história e sua geografia. As canções também traduziam sua visão das classes econômicas abastadas, que eram o público e o carrasco daqueles músicos. Assim, as letras traziam crítica social, crítica aos manda-chuvas da política e crítica até a quem desdenhava do samba:

Quem não gosta de samba, bom sujeito não é
É ruim da cabeça ou doente do pé

Estes versos de Dorival Caymmi respondem com moeda musical aos que acusam as danças e os ritmos negros de não terem "estética nem arte" , não possuirem "tom nem som" ou mesmo "espírito e gosto", e que os instrumentos musicais dos negros são "rudes", "bárbaros" e fazem uma "algazarra infernal". Estas acusações, transcritas de declarações dos anos 20 e 30, denotam o preconceito e a distinção etnocêntrica da noção de música. Mas, ora só, eis que da Bahia do século XXI surge uma voz distoante. O coordenador do curso de Medicina da UFBA "diagnosticou" a suposta lerdeza mortis do estudante baiano: a musicalidade que lhe toma o tempo dos estudos. A reação pública foi ligeira: quem não gosta de berimbau, bom sujeito não é.

Aí é que está a questão: é possível NÃO GOSTAR de samba, e por extensão, de música popular e ser um bom sujeito? Ora, isso é fato tão claro como o sol que arde em Itapoã. Os homens de "bom-gosto" e as senhoras de "bom costume" têm na vida outros cuidados que não o de sair atrás do trio elétrico, o que fazem questão de "provar" com as pesquisas que indicam que os ritmos da cultura popular promovem violência, reprovação escolar e rebelião juvenil. Não é preciso fazer apologia nem do Créu nem do Bel (do chiclete com banana) para perceber que pedagogos, psicólogos e moralistas insurgem-se contra os cantores e o público e esquecem das questões sócio-econômicas e culturais ligadas à música.

Por outro lado, há antropólogos "de bom coração" e etnomusicólogos "engajados" que fazem questão de ressaltar que a estética é relativa, que a cultura é relativa, daí o apreciador musical não poder criticar os gêneros musicais populares, pois estaria sendo preconceituoso e, pior das ofensas, elitizado. Vale lembrar que a questão não seria de apreciar estilos, mas de respeitar os sujeitos, o que certamente não o fez o coordenador citado.

É possível GOSTAR de samba e também ser um bom sujeito? A resposta "sim" deveria ser óbvia, mas, para muita gente, é mais fácil o rico e o camelo passarem juntos pelo buraco duma agulha do que um percussionista entrar no paraíso.
Citações do texto foram extraídas desse artigo.