26 junho, 2008

O Google emburrece a gente?


Já escrevi por aqui que há quem, no decorrer de um (im)produtivo dia de trabalho, sempre tem cinco minutos para passar três horas no msn. Mas há um outro grupo: aqueles que abrem quantas páginas da internet puderem e dedicam-se à leitura rápida e indolor de sites à granel, de blogs à roldão. A linguagem da internet raramente é prolixa e já agregou os maus modos de se escrever em outra gramática - e já tem intelequitual celebrando o gramaticídio; não existe pecado ao sul do Equador nem erros de português na cyberdemocracia. Não pense o amigo que sou algum neoludista que declarará guerra às máquinas. Que nada; amo muito tudo isso. Não faço o tipo que preferiria viver no milênio passado, sem fax, sem elevador, sem chuveiro, sem liquidificador, sem vasos e descargas, sem freezer, sem lâmpadas, enfim, nas trevas de uma Sibéria total.

Porém, a cada site visitado estamos mais semelhantes às criaturas que inventamos. Estamos cada vez mais optando por livros menores e telas maiores, frases ligeiras e resumos velozes, muita informação, pouco conhecimento e nenhuma sabedoria. A geração fast-food também prefere fast-leitura.

Leia o "testemunho" abaixo, examine cada um a sua consciência e depois vejamos se não estamos perdendo os benefícios da reflexão e do pensamento profundo para a ditadura da velocidade e da leitura supostamente dinâmica.

"A avalanche de informações da internet impede leitura e pensamento em profundidade. Nos últimos anos tenho tido um sentimento desagradável de que alguém, ou algo, tem brincado com meu cérebro, remapeando meu circuito neural, reprogramando minha memória. Não estou perdendo a cabeça, mas ela está mudando. Mergulhar em um livro ou longo artigo costumava ser fácil. Agora minha concentração começa a se dissipar depois de duas ou três páginas.

Acho que sei o que está acontecendo. Tenho passado longas horas online. Como escritor, a internet é um presente dos deuses. Para mim, como para outros, a web está se tornando um meio de comunicação universal, o conduíte para a maioria das informações que passam por meus olhos, meus ouvidos, até minha mente. Mas essa bênção tem um preço. Os meios de comunicação não são apenas canais passivos de informação, disse Marshall McLuhan na década de 1960. Eles fornecem o material para o pensamento, mas também modelam o processo de pensamento. E ao que parece a internet está estilhaçando minha capacidade de concentração e contemplação.

Para Maryanne Wolf, psicóloga do desenvolvimento da Universidade Tufts, "não somos somente o que lemos. Somos como lemos." A leitura profunda não se distingue do pensar em profundidade. O estilo promovido pela internet, de eficácia e imediatismo acima de tudo, pode estar enfraquecendo nossa capacidade de leitura profunda. A internet agrupa a maioria das tecnologias intelectuais. É mapa e relógio, impressora e máquina de escrever, calculadora, telefone, rádio e televisão. Quando absorve uma mídia, essa mídia é recriada à sua imagem. E sua influência não termina na tela do computador. Quando a mente das pessoas se sintoniza com a louca colcha de retalhos da internet, a mídia tradicional tem de se adaptar às novas expectativas do público.

Como nas fábricas, a internet é uma máquina projetada para coleta, transmissão e manipulação da informação de forma eficiente e automatizada. O Google procura sistematizar tudo que faz. Coleta todos os dias dados comportamentais em sua máquina de busca e os usa para refinar os algoritmos que controlam cada vez mais como as pessoas encontram informação e extraem sentido dela. Para a empresa a informação é uma commodity que pode ser obtida e processada com eficiência industrial. Tenta até "construir inteligência artificial e fazer isso em escala industrial", diz Larry Page, um de seus fundadores. Ele assume que todos estaríamos em melhor situação se nosso cérebro fosse complementado, ou mesmo substituído, por inteligência artificial, o que é perturbador. Isso sugere que a inteligência é resultado de um processo mecânico, uma série de passos que podem ser isolados, medidos e otimizados.

No mundo Google há pouco espaço para contemplação. Ambigüidade não é uma abertura para a o insight, mas um vírus a ser consertado. Quanto mais rápido surfarmos – quanto mais links e páginas acessarmos –, mais oportunidades o Google e as outras empresas têm para coletar informação e nos alimentar com publicidade. A última coisa que elas querem é encorajar a leitura prazerosa ou o pensamento lento e concentrado. Está em seu interesse econômico nos levar à distração.

O surgimento de novas tecnologias sempre tende a levantar suspeitas. Platão criticou a palavra escrita. Havia quem acreditasse que a disponibilidade de livros, depois de Gutenberg, levasse à preguiça intelectual. Portanto, deve-se ser cético quanto a meu ceticismo em relação à internet. Talvez brote das mentes abarrotadas de dados uma era de ouro de descobertas e sabedoria universal. Mas sou assombrado pela negra profecia de Stanley Kubrick no filme 2001- Uma Odisséia no Espaço: quando passamos a depender dos computadores para mediar nossa compreensão do mundo, é nossa própria inteligência que se achata ao nível da inteligência artificial".

Aqui, o artigo original em inglês (ilustrado acima) de Nicholas Carr publicado na Atlantic (tradução: Revista da Semana).


17 junho, 2008

Nos embalos da Cristoteca


A reportagem de Janaína Linhares no Jornal do Brasil de 15 de junho revela que o funk caiu também nas graças da Igreja Católica. Segundo a repórter, “numa tentativa de reverter a perda de fiéis, [...] algumas paróquias da cidade decidiram colocar em prática uma espécie de Plano B para lá de excêntrico: transformar as missas em uma grande festa e, assim, aumentar o rebanho jovem. E foi assim, ao som do funk, do hip hop e da música eletrônica, que a comemoração católica batizada de Cristoteca se tornou uma mania”.

A jornalista notou que o público era predominantemente jovem e, apesar da ausência bebidas alcoólicas e cigarros, ela comparou o evento a “uma noitada carioca” embalada por “palmas e coreografias ao som da celebração à palavra de Deus”.

O padre Jorge Bispo considera a Cristoteca “um trabalho de resgate com a juventude”, motivo da utilização das “músicas que eles gostam, só que com letras católicas”.

Ainda segundo a reportagem, “apesar da animação, nem tudo no evento se resume à música. A festa, que começa às 22h e se estende até as 5h, pára por volta da meia-noite para que seja realizada a missa. Depois da celebração, os DJs de Cristo retomam o comando das carrepetas e, enquanto a música volta a agitar a pista, em tendas brancas espalhadas pelo local acontecem orações, intercessão com Santíssimo exposto, aconselhamentos espirituais e confissões com vários sacerdotes convidados”.

Alessandro Gomes, que vai à Cristoteca desde a sua criação, diz que o clima liberal da celebração não tira o foco religioso do evento. “Gosto muito de beber cerveja”, diz o entrevistado, “mas nesse caso não tenho vontade e acho que é por respeito mesmo, [e na] Cristoteca não é legal ficar bêbado”. Outro freqüentador conta que “a missa se renovou e hoje é muito diferente. As pessoas deixaram de lado a vergonha e assumiram que é legal ser cristão”.
* * *

A questão não é discutir se há honestidade espiritual ou não nas estratégias formuladas pelos líderes religiosos ou se o público-alvo é de fato atingido pelas mensagens musicalizadas. Porém, há alguns pontos a ponderar em tais propostas, pontos estes que são logo atacados com frases do tipo “é melhor isso do que a balada secular”, ou “as igrejas estão atraindo os jovens”, e ainda, “o jovem religioso precisa se divertir”.

Se colocarmos uma interrogação ao final das frases mencionadas, pode-se ter uma pausa para reflexão antes que se entre no clima do “batidão”. Primeira: é melhor isso do que a balada secular? O “isso” nada mais seria que a reprodução dos festejos dos baladeiros noturnos, com a simples retirada do álcool e do fumo. Faz-se uma missa à meia-noite e mexe-se as cadeiras até o galo cantar três vezes, para então sair dali com a sensação de que ser cristão é “legal”, é “massa”, é “da hora”?

Segunda interrogação: as igrejas estão atraindo os jovens? No processo de pesquisa para a minha dissertação, li, ouvi e estudei os novos padrões de atração de fiéis, e a palavra-chave é mesmo “atração”. Se está escrito que “Eu [Cristo], quando for levantado da Terra, atrairei todos a Mim”, é fato que, hoje, quando o funk levanta poeira, atrai muita gente. Assiste-se atualmente a um modelo de conservação e atração de público jovem para reuniões em que há muita religiosidade, mas pouca religião; há versos bíblicos lidos a esmo, mas pouco “examinai as Escrituras”. Cantores de grande vendagem, músicas pop-religiosas, luzes estrobocópicas fascinam o jovem público que encontra nas grandes concentrações religiosas em logradouros públicos ou em salões particulares um genérico das baladas e shows populares.

Denomino de “genérico” porque o princípio ativo é o mesmo. Isto é, aquilo que desencadeia as reações psicossomáticas (em português, as reações mentais e corporais) do público não são as letras, mas a intensidade sonora e a capacidade dinamogênica do ritmo e da canção.

Palavras como funk e gospel, axé e gospel ou dance e gospel deixaram de ser termos inconciliáveis e passaram a ditar o índice de maior ou menor atratividade jovem. Os cantores, auto-denominados ‘levitas’, dão autógrafos, têm comunidades concorrentes no orkut (com pesquisas tipo ‘quem canta melhor’), e reproduzem acriticamente o modelo de comunicação dos astros pop por meio de sua postura no palco, seus comandos de voz (‘tira o pé do chão’) e seus figurinos. Além disso, são recebidos nos shows com estridência por um público que também reproduz o comportamento de fãs histéricos do mundo musical pop.

As letras religiosas seriam o diferencial? As letras podem até ajudar a derreter corações de pedra, mas elas submergem na atmosfera de rave criada para entreter e divertir. Numa perspectiva a ser mais estudada, as letras se parecem mais com mensagens subliminares, tal sua irrelevância diante do ritmo, do volume sonoro e do ambiente. Numa perspectiva mais evidente, embora as letras apresentem temas da vida evangélica, a embalagem melódica e de arranjo reproduz os estilos musicais da moda e a indústria gospel imita o caráter de atração jovem e promoção musical da indústria fonográfica pop, estimulando o comportamento de baladeiro e fã por parte do jovem fiel.

Por último: o jovem religioso precisa se divertir. Ora, isso é elementar. Afinal, sem um pouco de lazer, recreação e leve entretenimento não há cristão que suporte o rojão contemporâneo. Contudo, quando a diversão deixa de ser um momento da semana para se tornar o estilo de vida, algo está se perdendo na caminhada, e este algo pode ser um sentido mais profundo do que é conversão. Se conversão significa mudança de direção, como ainda repetir os maneirismos de interpretação, a histeria fanática, as caras e bocas, os adereços e figurino dos artistas, as melodias e arranjos da música pop mais descartável da mídia?

“Haja entretenimento” – o mandamento da nossa sociedade do espetáculo passou a ser a palavra de ordem para a sobrevivência das igrejas na modernidade.
A foto acima é do evento "Balada Santa" do Point Católico realizado em 10/05 (Osasco-SP)
A reportagem completa do Jornal do Brasil está aqui.

12 junho, 2008

O amor nos tempos da canção

Cada um tem a trilha sonora de seu amor. A donzela apaixonada, o mancebo arrebatado e os eternos-enquanto-dure namorados não resistem a uma canção romântica. Porque quando um homem ama uma mulher (ou when a man loves a woman, o amor é estranhamente poliglota) e vice-versa é possível inclusive gostar de canções que antes viviam sozinhas e desprezadas.

Pode ser como Julie Andrews como ex-noviça rebelde revelando seu amor com a belíssima Something Good, de Richard Rodgers, ou como os personagens cantando sua paixão em Todos dizem eu te amo. Pode ser que seus momentos sejam como o encontro em Notting Hill de Hugh Grant e Julia Roberts ao som de She, na voz de Elvis Costello (não me lembro de nenhum equivalente romântico no cinema nacional. E apelar pra Marina Elali aí já é forçar demais o romance).

A cena de Ewan McGregor e Nicole Kidman cantando o amor que sentem um pelo outro em Moulin Rouge dá o tom dos enamorados: os versos mais desabridos de paixão das canções mais desbragadas de amor é o que vem à cabeça. Não dá pra ser muito original quanto se está apaixonado, mesmo porque estar apaixonado não é nenhuma novidade debaixo do sol. Pensando bem, amar só é original pra quem acabou de descobrir que ama. Continuar amando é que está se tornando uma novidade.

Há uns meses recebi um e-mail que atravessou incólume as barreiras anti-spam. Em homenagem ao web-autor desconhecido e resistente, li a mensagem e, para o dia de hoje, fiz algumas modificações. A seguir, uma trajetória musical do amor através dos tempos em versão brasileira:

Nos anos 10 - Ele de terno, colete e cravo na lapela, embaixo da janela dela, canta:

"Tão longe, de mim distante, onde irá, onde irá teu pensamento? Quisera saber agora se esqueceste, se esqueceste o juramento. Quem sabe se és constante, se ainda é meu teu pensamento. E minh'alma toda de fora, da saudade, agro tormento!"

Na década de 20 - Ele de terno branco e chapéu de palha embaixo do sobrado em que ela mora, canta:

"Ó linda imagem, de mulher que me seduz! Ah, se eu pudesse tu estarias num altar! És a rainha dos meus sonhos és a luz. És malandrinha, não precisas trabalhar."

Nos anos 30 - Ele de terno cinza e chapéu panamá, em frente à vila onde ela mora, canta:

"Tu és divina e graciosa, estátua majestosa! Do amor por Deus esculturada. És formada com o ardor da alma da mais linda flor de mais ativo olor, que na vida és preferida pelo beija-flor."

Nos anos 40 - Ele ajeita o relógio Pateck Philip na algibeira, escreve para a Rádio Nacional e manda oferecer a ela uma linda música:

"A deusa da minha rua tem os olhos onde a lua costuma se embriagar. Nos seus olhos, eu suponho, que o sol num dourado sonho, vai claridade buscar."

No fim dos anos 50 - Ele pede ao cantor da boate que ofereça a ela a interpretação de uma bela bossa:

“Eu sei que vou te amar, por toda a minha vida eu vou te amar. Em cada despedida eu vou te amar, desesperadamente, eu sei que vou te amar. E cada verso meu será pra te dizer que eu sei que vou te amar por toda minha vida”.

Nos anos 60 - Ele aparece na casa dela com um compacto simples embaixo do braço, ajeita a calça Lee e coloca na vitrola uma música "papo firme":

"Nem mesmo o céu, nem as estrelas, nem mesmo o mar e o infinito não é maior que o meu amor nem mais bonito. Me desespero a procurar alguma forma de lhe falar como é grande o meu amor por você."

Nos anos 70 - Ele chega em seu fusca, com tala larga, sacode o cabelão, abre a porta e bota uma "melô jóia" no toca-fitas:

"Foi assim, como ver o mar. A primeira vez que os meus olhos se viram no teu olhar. Quando eu mergulhei no azul do mar, sabia que era amor e vinha pra ficar..."

Nos anos 80 - Ele telefona pra ela e deixa "rolar um som":

"No Abaeté, areias e estrelas não são mais belas do que você... Você é linda, mais que demais. Você é linda, sim. Onda do mar do amor que bateu em mim”.

Nos anos 90 - Ele liga pra ela e deixa gravada uma música na secretária eletrônica:

“Você é minha doce amada, minha alegria, meu conto de fada, minha fantasia, a paz que eu preciso pra sobreviver. É o amor, que veio como um tiro certo no meu coração, que derrubou a base forte da minha paixão, que fez eu entender que a vida é nada sem você”.

No ano 2000 - Ele captura na internet um "batidão legal" e põe um scrap na página dela no orkut:

"Tchutchuca! Vem aqui com o teu Tigrão. Vou te jogar na cama e te dar muita pressão!Eu vou passar cerol na mão, vou sim, vou sim! Eu vou te cortar na mão! Vou sim, vou sim! Vou aparar pela rabiola! Vou sim!"

09 junho, 2008

O que é música mesmo?

Definir o que é música tem sido uma tarefa bem movimentada para os enciclopedistas. O conceito é renovado periodicamente toda vez que um especialista vem a público ressemantizar a palavra. Na era dos blogs então...

Lisa Hirsch define: música é som organizado se movendo no tempo. Para Scott Spiegelberg, autor do blog Musical Perceptions , este é um conceito muito estrito, pois criaria problemas para as músicas de John Cage e toda a música aleatória.

Ele sugere que música é som considerado como arte. Esta definição permite considerar a canção dos pássaros e outros sons naturais como música, mesmo que não tenham sido “organizados”. Permite que o som da estática seja música, desde que alguém o perceba de um modo artístico (podem até chamar de música ruim caso suas conexões artísticas sejam demasiado tênues). Essa definição também remove o problema a respeito do criador musical, realocando a questão de definir música para o espectador.

O problema dessa definição, creio eu, está na classificação do conceito de arte. Primeiro, o conceito do que pode ser considerado arte está sempre em mutação, basta lembrar que aquilo que não era tido como arte pelos críticos parisienses do fim do século XIX, hoje é admirado por muitos como Impressionismo. Atualmente, o conceito de arte está tão dissolvido que qualquer curadorzinho “pós-pós-muderrrno” inflaciona o valor artístico de uma sala vazia – dirão que é um protesto contra o esvaziamento da arte no contexto da contemporaneidade enquanto locus viabilizante de elaborações refletidoras do humano e blábláblá. Que depois não reclamem que os museus estão servindo de abrigo para moscas.

Segundo, se toda a autoridade foi dada ao espectador para definir o que é arte, teremos então cada indivíduo como um hermeneuta pessoal dos atributos artísticos. Assim, qual seria o papel da crítica? Resenhar a programação do fim-de-semana do cidadão entediado, pois se o espectador vai ele mesmo apontar o que tem ou não valor artístico, sua interpretação é auto-suficiente e não precisará de nenhum especialista para indicar os modos de percepção da arte.

Se o espectador julga determinada obra com seu senso comum ou a partir de seu arquivo sonoro especializado, isso já não parece ser relevante. Se o espectador diz que tal música não pode ser chamada de música (tipo as reinações de John Cage ou Stockhausen), quem poderá contestar? Mas se o espectador diz não gostar dessa ou daquela música e pronto, estaria ele-nós, segundo o poeta Drummond, ao nível do gato que não gosta do sabor daquele leite e pronto?

Mesmo assim, nada como um concerto após o outro para que o conceito de arte dado pelo espectador se modifique. Em 1913, a Sagração da Primavera de Stravinski foi vaiada e nem chegou ao final da exibição. Isso é arte? Isso é música?, discutiam os atônitos espectadores. Foi só baixar a poeira dos assentos do teatro e a peça já estava sendo considerada uma obra-prima, o marco zero da música do breve século XX. Mas, e o juvenil espectador desprovido do contexto histórico da Sagração? E a gentil senhora acostumada a suspirar com a brancura do piano e do paletó de Richard Clayderman?

Por último, se o criador disser que sua obra é arte, quem poderá lhe contestar? Mas também, quem poderá nos defender?

To be continued...

05 junho, 2008

Penalidade máxima para Edmundo


Edmundo, vulgo Animal, perdeu a senha quando estava na fila dos predestinados à glória dos estádios lotados. Como penalidade, não poderia pisar jamais o gramado prometido dos heróis do futebol. Relembremos sua trajetória de proezas tão espetaculares quanto funestas.

Após a conquista de um bicampeonato brasileiro e no auge da fama, a apaixonada torcida do Palmeiras via tudo e a tudo perdoava: o Animal era um insensato dentro e fora do campo, mas resolvia todas as duras paradas da equipe. Porém, Edmundo é seduzido por times italianos, resolve trocar as aventuras tupis do Maracanã pelos triunfos eternos do Coliseu e deixa a torcida gritando à toa: “Fica Edmundo / Você vai ser campeão do mundo”. Ingênuo Animal. Chega à terra dos Césares e nem late nem morde. Uma frustração só.

Em 1997, ninguém jogou mais do que Edmundo. Um dia, ele tem a chance de bater o recorde de gols numa mesma partida do campeonato. Só há um problema: esta chance é um pênalti. Como aluno formado na Academia Roberto Baggio de pênaltis decisivos, Edmundo não decepciona e perde o pênalti. Mesmo assim, é campeão e, como prêmio, convocação para a seleção canarinho que chega à final da Copa do Mundo de 98. Ronaldo desmaia e Edmundo é escalado contra a França de Zidane. Na hora de entrar em campo, Zagallo opta por um Ronaldo alquebrado e Edmundo, mais uma vez, sofre a penalidade máxima de quase poder mudar a história.

Dois anos depois, o animal renegado está na final do primeiro Mundial de Clubes da FIFA. Hora do pênalti. Como em outras vezes, o animal se desconcentra, se apequena, vê onze goleiros debaixo da trave, cada um com o rosto daqueles em que deu uma cotovelada, parece possuído por um chutador de futebol americano e deixa escapar a vitória. Condenado a carregar o peso de todos os pênaltis perdidos, ele é o único ser humano a ser atingido pelo bug do milênio. No ano 2000, ele veste as brancas túnicas do Santos e nem assim está longe das trevas: erra dois pênaltis contra o Vasco. Na mesma partida. Se os santos não ajudam, ele vai para o Cruzeiro e perde outro pênalti. Contra o Vasco.

Depois de cometer todas as barbaridades possíveis fora do campo, de atropelamento à empréstimo pro Luxemburgo, e dentro do campo, perdendo de novo aquilo que ele quer esquecer em decisões contra o Flamengo e o Sport, o animal está cansado, injuriado, abatido. Raspa a cabeça como que para não ter que olhar no espelho e encarar um anti-herói, um perdedor que tem o drible de manés, o chute de pelés, o fôlego de cafus e a cabeça dos edmundos. Ao ser perguntado se confirma a aposentadoria, ele responde, resignado: “Se Deus quiser”.

Mas deus, digo, Eurico, não quis: “Não aceito. E quando digo que não aceito, não se fala mais nisso”, vocifera sem um pingo de espiritualidade, a não ser aquela com a qual comanda o Clube de Regatas Vasco Miranda.
* * *

Pobre Animal. Nem direito a um deus de verdade ele tem. Já é tarde, ele dorme, ele sonha. Sonha que Zagallo tira Ronaldo na final da Copa da França. Sonha que ele entra e com três lances geniais, chamados pela imprensa francesa de “le carnaval des animaux”, empata a peleja. E se a final está empatada, a decisão só pode ser com cobrança de... Na cama, Edmundo prende a respiração, o animal agoniza, mas por misericórdia, agora sim, divina, ele acorda antes de ser relacionado para a marca do pênalti.

02 junho, 2008

Alex Klein: música para viver

Em 1998, Alex Klein consolidava uma brilhante carreira como o primeiro oboísta da Sinfônica de Chicago. Junto com o pianista Nelson Freire e o violoncelista Antonio Meneses, forma uma tríade de músicos brasileiros com livre trânsito nas grandes salas de música do mundo. Mas também foi há 10 anos, que ele percebeu os primeiros sinais da distonia, doença que viria a mudar por completo seus planos musicais.

A distonia focal é uma doença neurológica que provoca contrações involuntárias dos músculos, ocasionando deformações na postura e nos movimentos musculares. Segundo o próprio Klein, "para tocar oboé surgiu uma dificuldade que não existia antes. Danificou-se a linha de conhecimento que montei durante 30 anos para tocar de forma precisa e afinada, para soprar da maneira correta. Já a linha de conhecimento para tocar corne inglês não foi afetada. Parece misterioso, mas a neurologia explica".

Klein revela que "quando o diagnóstico se confirmou, comecei a pensar em outras opções, como ir para a Finlândia estudar regência. Ao mesmo tempo, recebi o convite para dirigir a Oficina de Música de Curitiba e comecei lá em janeiro de 2002". O músico também diz que entre 2003 e 2004 chegou "ao fundo do poço", enfrentado um divórcio, sofrendo com tendinite, depressão e altos custos do tratamento. Ele conta que, "sem emprego, tive que voltar para o Brasil. Estava gastando 3.500 dólares por mês em tratamentos médicos. Voltei para a casa dos meus pais. Em 2004, no que seria o ponto alto da minha carreira, eu estava no fundo do poço. Fiquei no sofá da sala três meses vendo televisão. Tentava estudar, mas logo vinha a tendinite. Eu ainda conseguia tocar alguma coisa de oboé e precisava fazer a transição de carreira para a regência".

Alex Klein começou a participar de um festival no Panamá e de outro na China. Este último chama-se "Festival de Oboé Alex Klein" e reúne estudantes que chegam a viajar três dias de trem para conhecê-lo, como diz em outra reportagem. Como regente, apresenta-se no Festival de Música Saint Barts, no Caribe, além de ser o principal regente convidado do Festival Sunflower no Kansas (EUA), que reúne músicos das grandes orquestra americanas. Desde 2006, está a frente do Festival de Música de Santa Catarina e em 2007 tornou-se professor de oboé do Conservatório Oberlin, em Ohio (EUA), onde ele mesmo se graduou nos anos 1980.

Como João Carlos Martins, Klein precisou redirecionar sua carreira musical, lutando para manter-se ativo no mundo da música. Se seus planos eram de aposentar-se após 30 ou 40 anos como oboísta, paradoxalmente alguns sonhos viraram realidade após sua dolorosa saída de Chicago. Ele não é mais um instrumentista. O também grande detentor de prêmios com o oboé(como os Grammys na categoria erudita) agora está tendo chances de realizar projetos acalentados anteriormente, como dar aulas para jovens músicos e reger orquestras. "Quanto à distonia", diz ele, "as coisas estão melhorando. Lancei recentemente um CD de [música de]câmara" .

Lições de vida nem sempre são bem-vindas em nosso mundinho da crítica da razão cínica, mas Alex Klein tem superado o que poderia ter sido o fim de uma carreira com o surgimento de outra: inesperada, traumática, mas extremamente recompensadora depois que se chega al otro lado del río. Agora, de um novo ponto de vista, ele já pode dizer: "aprendi que para ultrapassar problemas precisamos saber quem somos e para que somos. São poucas as coisas que importam. A vida, na verdade, é bem simples".

Leia aqui a entrevista completa que Alex Klein concedeu à revista VivaMúsica!