27 outubro, 2015

a redação do ENEM e o complexo de Nazareno


Há uma classe de pessoas que ainda padecem de um mal que em pleno século 21 deveria estar tão extinto quanto os dinossauros e as fitas cassete: são os espécimes que se espantam com mulher falando em público por seus direitos. Eles sofrem do complexo de Nazareno, aquele personagem da TV que, ao menor sinal de reclamação da mulher, dizia: “Calada!”

Queremos votar. Calada!
Quero respeito, cantava Aretha Franklin. Calada!
Salários iguais em cargos profissionais iguais. Calada!
A persistência da violência contra a mulher. Calada!

As reclamações de que o tema da redação do ENEM era obra do progressismo, feminazismo, doutrinação liberal e conspiração petista para tornar os machos reféns das empoderadas mulheres são de uma imbecilidade atroz. Acreditar que não se deve discutir em público a violência milenar contra as mulheres de um modo geral revela uma faceta de ignorância que também merece ser tema de redação nos próximos vestibulares: “A persistência da intolerância em questões de convivência entre seres humanos”.

Não vou entrar no mérito de que há excessos (e há mesmo) nos novos discursos sobre direitos, que algumas correntes mais radicais possuem um fervor exclusivista e proselitista arrogante e que tendem a atuar silenciando os oponentes. Existem pessoas com esse perfil em questões de esporte e religião e alguns tendem a ter mais respeito por religiosos ultraconservadores do que por feministas ultraliberais.

Além disso, o combate à violência em qualquer âmbito e dirigida a qualquer gênero não é propriedade nem do crente nem do ateu, nem da esquerda nem da direita nem de quem senta em cima do muro.

Passando adiante.

O que os marmanjos reclamões gostariam que fosse o tema da redação? “A imposição do progressismo nas escolas?” “Cada um no seu quadrado”? "Mulher já manda em casa, pra quê mandar em público"? Meu candidato à presidente é menos corrupto"? “Meu pastor é mais rico que o teu?”

Talvez quisessem um tema bem genérico, que não mexesse em vespeiro, bem sopa de hospital: “Eu quero ver onde essa zorra vai parar”. Esse foi o tema da redação do vestibular que fiz em 1989. Era título de uma canção da Simone e favorecia todos os debates e ao mesmo tempo nenhum. Comparada aos temas de hoje, acho que só os marmanjos reclamões não vão notar uma evolução nas discussões públicas.

Alguns indivíduos dão mostras de que estão na era do macho lascado, aquele que não admite ver seu discurso sendo relativizado, discutido, pesado na balança, desmontado. Outros veem as novas discussões atingirem diretamente o discurso ultrapassado, mas persistente, que prefere ver “tudo no seu lugar”: esse preto não se põe no lugar, essa mulher não se põe no lugar, esse velhote não se põe no lugar, esse índio não se põe no lugar, esse estrangeiro não volta pro seu lugar...

Às vezes, isso invade nossa conduta cotidiana e nem percebemos. Naturalizamos os preconceitos e a violência de tal forma que há espanto quando quem era tratado como coadjuvante social começa a agir como protagonista. Quando vamos praticar o ensinamento de nos colocarmos no lugar dos outros, e não de por os outros no seu “devido lugar”?

Também me deixa perplexo como alguns seguidores do Nazareno da Bíblia ainda sofrem do complexo do Nazareno da TV. Eles reclamam dos temas humanísticos do ENEM como provavelmente reclamariam de Jesus conversando com a samaritana: “Olha lá aquele progressista conversando com a estrangeira?” Ou: “Olha lá o doutrinador liberal que não joga pedra na Geni adúltera?”

Não pretendo dizer que Cristo foi um progressista nos moldes de nossa época atual. Quero dizer é que não era por acaso que o Nazareno da Bíblia era amado pela gente oprimida e marginalizada de sua época. Ele não dizia “Calada!”. Ele perguntava “O que queres que eu te faça?” (Marcos 10:51).

15 outubro, 2015

discurso do professor inconformado

O apóstolo Paulo, em uma de suas cartas às primeiras igrejas cristãs, disse: “Não vos conformeis com este século”. Caros músicos e educadores musicais, não vos conformeis com a música deste século, não vos conformeis com a educação deste século.
Conformar-se é resignar-se à impossibilidade de mudança, é contentar-se com o pão dormido da mesmice, é estacionar no vento frio que congela o movimento. Sem movimento não há educação bem-sucedida.
Mas um educador que não se conforma é como a viola que tange o retrocesso pra lá, é como o ritmo do tambor que move a canção irresistivelmente para diante, é como a música que, uma vez iniciados seus primeiros compassos, não olha mais para trás, a não ser para repetir a melhor parte.
Me deem professores inconformados e eu moverei o mundo.


“Eu ainda não encontrei o que estou procurando”, cantava a banda U2. Esse refrão é um símbolo do professor inconformado, do educador que está sempre procurando as melhores maneiras de facilitar e compartilhar a tarefa de ensinar, de aprender, de conhecer.
Então, meus colegas de trabalho, não vos conformeis com a música deste século. Não vos conformeis com a educação deste século. Porque professores inconformados ainda não encontraram o que estão procurando.

01 outubro, 2015

o papa e o planeta: ecologia virou ecorreligião?


O ambientalismo está seguramente entre os atuais projetos mobilizadores do mundo. Por meio do seu discurso de defesa da Terra, o ambientalismo é capaz de congregar religiosos e ateístas. Até porque este planeta é a nossa casa e, como convém aos tempos de partilhamento de tarefas domésticas, todos são responsáveis por levar o lixo pra fora. 

É assim que, ao contrário do comunismo, do capitalismo de livre mercado e do fundamentalismo islâmico, que desagregam o mundo social, geográfica e economicamente, o ambientalismo reúne indivíduos de todas as faixas de renda e escolaridade.

Muitas vezes, o ambientalista é alguém que não reciclava lixo ("era cego") e então passou a lutar contra qualquer torneira aberta ("agora vê"). Alguns deles são capazes de cruzar cercas elétricas para resgatar poodles em cativeiro nos laboratórios ou arriscar a vida nos mares defendendo baleias. Se o ambientalista pode ser um mártir, por outro lado, por ser tão decidido a converter outras pessoas a sua nobre causa, ele é visto às vezes como um ecochato, como se fosse um representante da Herbalife ou, então, um crente.

Não por acaso, o ambientalismo carrega caracteres de transcendência, pois é tomado como resolução última para a manutenção da vida, um bem sagrado, ocupando, assim, a cátedra que um dia já teria sido do cristianismo, visto que sua pregação enuncia componentes missiológicos (conversão e proselitismo) e soteriológicos (trata-se de um discurso salvacionista) e até escatológicos, com direito a profecia condicional (prenuncia o fim do mundo se não mudarmos nossas condutas).



Em alguns arraiais, viceja a noção de ECOmenismo, espécie de mutirão ambientalista global que desembocaria em assinatura de acordo pelo descanso semanal da Terra aos domingos, com consequente punição aos indivíduos que obstinadamente não aceitarem o tratado ecorreligioso planetário.

O que alguns analistas deixam escapar, porém, é o fato de que há vozes dissonantes no cenário. Embora o pontífice romano, por meio de seu discurso humanista, venha reforçando a defesa do sistema ecológico e tenha condenado publicamente as ações industriais antiecológicas das grandes potestades, os maiores empreendedores do  mundo se comportam como filisteus poluidores e desafiam a ONU e o Vaticano.

O papa e o secretário-geral da ONU acabam sendo mais reconhecidos pela boa vontade do que propriamente pelo poder político. É como se fossem um tipo de rainha da Inglaterra. No caso dos papas, às vezes sem a discrição política e midiática da rainha da Inglaterra. Os líderes mundiais respeitam o papa e a ONU, mas sua participação na arena das decisões globais reduz-se ao plano discursivo.

As encíclicas papais são recebidas no Ocidente com o mesmo peso que as propostas da ONU para a paz no Oriente Médio. Os EUA, a Rússia, o Reino Unido e a região do Euro, assim como China, Irã e Israel, deixam de cumprir várias propostas e acordos. Alguns países nem assinam acordos supervisionados pela ONU: Estados Unidos, assim como Rússia, Japão e Canadá, não participaram de acordos favoráveis à diminuição de emissão de poluentes.

E mais: a reação de industriais e políticos contra os projetos ecológicos, incluindo o mais forte concorrente a candidato republicano à presidência dos EUA, Jeb Bush, ele mesmo um católico fervoroso, mostra que um discurso de paz pode atrair os homens de boa vontade, mas o problema é que os homens de má vontade ainda estão no poder.

Num mundo de crises econômicas globais, onde a receita para sair da estagnação é o aumento de produção e consumo, parece não haver espaço para a criação de um dia de repouso da Terra, visto que o risco dessa operação ecorreligiosa poderia levar países emergentes e mais desenvolvidos à perda de outro bem sagrado: a estabilidade econômica.

Num país de tantos feriados como o Brasil, perder 52 domingos por ano seria desastroso para donos de butique no shopping e vendedores ambulantes. Nesse caso, para o mercado ficar vazio e o trabalho terminar aos domingos, será preciso uma outra potestade, uma que não seja deste mundo do capital?