30 dezembro, 2010

meninos, eu vi (e você também)

2010: um ano para recordar ou para esquecer? Na dúvida, cometi um pequeno dicionário de termos e eventos do ano. Ora, se o Fiuk pode ser cantor e ator, por que eu não posso ser enciclopedista? Aí vai:

Política
José Serra: É pau? É pedra? É bolinha de papel? Só sei que eleição no Brasil é o fim do caminho.
PAC: Lula foi o PACman e as obras são um PACderme.

Mundo
WikiLeaks: o estraga-prazeres do amigo secreto da diplomacia internacional.
Berlusconi: é olhar pra ele que a gente se conforma com o Lula.

Esporte
Barrichello, Massa: os últimos serão os terceiros (e quartos, quintos...)
Seleção sul-africana: Bafana Bafana
Seleção espanhola: Bacana Bacana
Seleção brasileira: Banana Banana

Saúde
José Alencar: a resiliência encontrou um sinônimo
Oscar Niemeyer: o homem que olha para Chico Anysio e José Sarney no hospital e pensa: "Esses jovens de hoje..."

Celebridade
George Bush lançou um livro, Vera Fischer lançou um livro, Geisy Arruda lançou um livro: e nós passamos o ano lendo blogs no meio do expediente.

Viagem
Web Jet: pague 9, 90 para entrar, reze uma novena para sair.
Internacional: por que um clube de futebol está nesta seção e não na de esportes? É que, devido a congada que o time gaúcho levou do Mazembe, a única lembrança são as parcelas da viagem a pagar no cartão em 2011.

Filmes
Avatar: a montanha-russa mais sem-graça e mais rentável de todos os tempos
Toy Story 3: o filme hollywoodiano mais adulto do ano é uma animação
A origem: um blockbuster com cérebro

Música
Restart: por favor, está na hora de reinicializar a música popular brasileira

Livros
A música desperta o tempo (Daniel Barenboim): um livro que desperta a consciência
O homem eterno (G. K. Chesterton): a defesa da fé pode ser incrivelmente bem escrita

Meninos, eu vi, eu vejo coisas boas que me acompanharão quando estiver olhando para 2011 e além. O CD Avinu Malkenu (Leonardo Gonçalves), a placidez de Nelson Freire tocando os Noturnos de Chopin, a sabedoria do filme Morangos Silvestres, a força moral dos filmes Jornada para a liberdade e Invictus, a releitura 15 anos depois de Orgulho e Preconceito (Jane Austen) e Sagarana (Guimarães Rosa), os desafios espirituais de A visão apocalíptica e a neutralização do adventismo (George Knight) e Elias (Charles Swindoll), as aulas de "Sociologia da arte e da cultura" na Unesp. Essas coisas nem o mau humor destrói. 

Um ótimo 2011 para todos nós. E, como dizia John Cage, happy new "ears".

28 dezembro, 2010

10 artistas em 10 anos: música cristã brasileira

Em dez anos, a música cristã brasileira, ou a música praticada por cristãos no Brasil, diversificou-se bastante: gêneros musicais regionais e estilos globalizados, performances cantadas, gritadas e choradas, refrões simples e intermináveis, letras densas e extensas. O combalido mercado fonográfico secular cresceu o olho e enxergou mais uma alternativa de lucro. Os artistas cristãos aproveitaram o convite e estenderam sua voz e sua mensagem até aonde ninguém ainda havia chegado, às vezes com padrões de atitude que nem todo mundo aceita. Alguns deles mereceram ouvir a música “É proibido pensar”, de João Alexandre, uma franca e corajosa crítica à mercantilização da fé e da canção religiosa.

Essa é uma lista de dez nomes representativos do começo do século.

Aline Barros
Unção, milagre, “apaixonada” por Jesus: sua carreira foi redirecionada das canções já clássicas de Célia Held para as temáticas claramente neopentecostais. Embora os números de vendagem não sejam contabilizados oficialmente, ela é considerada a cantora gospel que mais vendeu discos no Brasil. É pastora e também garota-propaganda de marcas de roupas e equipamentos musicais. Tem músicas e coreografias para o público infantil, solos em estúdio para a novela e “Louvor & Adoração” ao vivo para todos os públicos.

Fábio de Mello
Está na lista porque sucedeu o padre Marcelo Rossi no centro do palco da música católica com um estilo diametralmente oposto. Suas músicas são de pendor mais lento e reflexivo, além de não usar batina quando canta e ter que ouvir gritinhos de “lindo”.

Arautos do Rei
Passou por quatro diretores musicais (e outro tanto de formações) diferentes e ainda se mantém como referência nacional quanto o assunto é quarteto cristão. Um fenômeno histórico que adicionou modernidade sonora sem desagradar (quase) ninguém.

Oficina G3
Está na lista por freqüentar a lista de grupo respeitado inclusive por roqueiros não-cristãos. Com baladas suaves ou hard rock, o Oficina G3 alcançou ouvidos pouco afeitos à música cristã tradicional.

Apocalipse 16
O hip hop nasceu como música de protesto. O APC 16 e o Pregador Luo fazem hip hop para protestar contra a violência urbana, o consumismo e o comportamento permissivo de rappers idolatrados pela juventude, mas suas canções anunciam que a verdadeira mudança é espiritual. E mais: o rap se revelou também uma maneira de contar o evangelho a marginais e marginalizados.

Soraya Moraes
Levou o prêmio de melhor canção nacional no Grammy Latino 2008, superando Vanessa da Matta, Djavan e Jorge Vercilo. Uma reportagem do jornal O Globo, porém, mostrou que os cantores seculares pouco participam da votação e que a indústria fonográfica gospel votou em massa num criticado lance de corporativismo.

Paulo César Baruk
Combinando letras tocantes e melodias suaves com estilos pop mais acelerados, PC Baruk está na lista representando os artistas gospel que se consolidaram sem apelar para técnicas polêmicas de divulgação e sem aderir a performances extravagantes e extasiadas. 

Leonardo Gonçalves
Chega ao fim da década como cantor, compositor e produtor musical com ótimo tráfego entre a juventude cristã interdenominacional. O CD Avinu Malkenu, gravado inteiramente com músicas cantadas em hebraico, está sendo capaz de abrir diálogo inclusive com a mídia secular.

Raiz Coral
Passar 10 anos fazendo black music em português (mesmo com algumas performances controversas) é uma insistência que levou o coral e seu líder, Sergio Saas, a ganhar um prêmio nacional de talentos no SBT.

 Diante do Trono
Unção, milagres, “apaixonado por Jesus”: os grupos de ministério de louvor que tomaram conta das igrejas evangélicas são devedores do sucesso do Diante do Trono, goste-se ou não do estilo emocionado da cantora Ana Paula Valadão. Aliás, a família Valadão (pais, filhos e parentes) tornou-se ela mesma uma produtora de enorme sucesso voltada à pregação do evangelho.

*****
Termino essa lista pretensiosa e incompleta falando do mesmo estilo musical com que iniciei. O estilo “Louvor & Adoração”, com seus refrões multirrepetíveis, é defendido às vezes como a tábua de salvação para o fervor da adoração contemporânea. Mas tem o mérito de levar o povo a cantar com gosto nas igrejas (e estádios, clubes e avenidas) Brasil afora.

Outro:
10 filmes com a cara dos últimos 10 anos

24 dezembro, 2010

o natal dos trópicos

Leonardo Martinelli conta o natal musical:

Apesar de todo aspecto invernal associado à imagem mundial do Natal – neve, pinheirinhos, trenós e toda uma sorte de objetos que ganham conotação alienígena aqui na região dos trópicos austrais – a tradição natalina encontrou no Brasil um terreno fértil em manifestações musicais, associadas aos mais diferentes contextos culturais.

As primeiras manifestações musicais natalinas ocorridas no Brasil datam entre os séculos XVI e XVI, devido à colonização portuguesa e ao trabalho evangelizador da Companhia de Jesus. Os primeiros exemplos de música natalina tiveram como base hábitos e tradições presentes na cultura européia. 

Entretanto, os “autos” organizados pelos jesuítas (peças teatrais sacras apresentadas ao ar livre) tinham por costume misturar elementos europeus com indígenas, preservando a linguagem musical do Velho Mundo em textos cantados num dado idioma local. É possivelmente deste encontro que provém os primeiros exemplos musicais natalinos criados em terra brasilis.

Com a consolidação do cristianismo no Brasil, muitas das culturas regionalizadas - caracterizadas pelo sincretismo entre tradições africanas, indígenas e cristãs - incorporaram temas ligados ao nascimento de Jesus Cristo (a folia-de-reis é um exemplo)

Mesmo na música clássica houve tentativas de se abrasileirar o Natal com elementos regionais, tal como o álbum infantil “Aconteceu no Natal”. Composto por Hekel Tavares (1896-1969) em colaboração com o letrista e dramaturgo Joraci Camargo (1898-1973), trata-se de uma obra singular na qual surge a curiosa figura de um Papai-Noel negro, já totalmente livre das influências nórdicas (ao menos na cor de sua pele).

Por vezes, o músico brasileiro se sentiu tão à vontade com o Natal que esta temática é freqüentemente relembrada nos bailes de carnaval pela marchinha “Boas festas”, de Assis Valente (1911-1958) que, ao contrário da regra, fala de um Natal dos miseráveis e sem presentes, no qual Papai-Noel “com certeza já morreu, ou então felicidade é brinquedo que não tem”.

Hoje em dia, em uma sociedade de consumo musical amplamente globalizada, muitas são as formas do brasileiro cantarolar o Natal. Desde algum hit internacional, até uma canção natalina interpretada por alguma apresentadora de TV, tudo pode fazer parte desta festa que sempre pendeu entre o sacro e secular.

Entretanto, deste imenso caldeirão, é notável a força com a qual o movimento de canto coral se revela nos abafados ares de dezembro. Desde o famigerado "coral da firma" até os poucos grupos profissionais em atividade no país, todos - em maior ou menor medida - despendem boas horas de ensaios em músicas sobre o nascimento de Jesus.

Se nas lojas e shopping centers o Natal aquece as coisas, na música ele ainda mostra que, apesar dos pesares, o Natal é ainda chama e labareda para muita lareira. Mesmo nos calores dos trópicos.

23 dezembro, 2010

como você percebe a música

Um dos melhores livros que pude ler nesse ano tem 167 páginas e se chama "A Música Desperta o Tempo", do maestro e pianista Daniel Barenboim. Mais do que falar de música, ele fala da nossa vida com música:

"Infelizmente, o ser humano tem a tendência de impregnar objetos com autoridade moral, de modo a não assumir responsabilidades para si mesmo. A faca é um objeto com o qual se pode cometer um assassinato - sendo, por isso, imoral - ou é um objeto que pode cortar o pão que alimentará alguém - sendo, por isso, um instrumento da generosidade humana? É o uso destinado a ela pelo homem que determina suas qualidades morais" (p.44).

"Um ouvido educado desenvolve a capacidade de separar o conteúdo da música das sensações que se aprende a associar a ela (p. 109)".

"Na verdade, não há nenhuma justificativa para privar as pessoas que afortunadamente não sofrem dessas terríveis associações da possibilidade de ouvir a sua música" (p. 113).

"Numa sociedade democrática, a decisão de permitir ou proibir a execução de determinada música deve ser individual, e não ditada pela lei, ou, ainda pior, ser resultado de um tabu. A lei ao menos resulta de indagações racionais, ao passo que um tabu é resultado do senso comum, de um sentimento subconsciente cuja origem é, muitas vezes, a ignorância ou o medo" (p. 113-4)

Importante: duvido que o maestro Barenboim vá concordar com todas as relações entre música, gosto, cultura e mídia que nós leitores ficamos dispostos a fazer depois de ler esses trechos do livro.

20 dezembro, 2010

música ruim é sempre a dos outros

Você pode ter dúvidas existenciais hamletianas ou não saber diferenciar um triângulo isósceles de um escaleno. Mas de uma coisa você tem plena ciência: todo mundo sabe o que é uma música boa e o que é uma música ruim.

Sem citar nomes nem canções, para não incorrer em injustiças, música boa é aquela que você e eu escutamos. Música ruim é aquela que toca na festa do vizinho ou aquela que o mancebo do carro com o porta-malas aberto escuta.

Pior do que uma música ruim é uma música chata. Provavelmente o que define o grau de chatice de uma música é a sua repetição ad infinitum. Nesse caso, mesmo sua obra-prima predileta fica insuportável e aí pode ser Pixinguinha (alguém ainda aguenta os versos "Meu coração não sei por que...") ou Beethoven (viu no que transformaram a Pour Elise?). Agora imagine uma música ruim repetida mil vezes em mil celulares no ônibus. A repetição se torna ad nauseam.

O site Retrocrush fez uma pesquisa com cerca de 4 mil pessoas nos Estados Unidos para saber quais as canções mais chatas de todos os tempos. Entre as vencedores, se podemos chamá-las assim, estão a abertura de um programa infantil (é a de nº 2 e não faço ideia de como ela entrou nesse indigno rol. Eu a substituiria tranquilamente pelo tema de ano novo da Globo); a canção (nº 4) que tornou conhecida uma coreografia cuja noção do ridículo só encontraria equivalência na tal dança do quadrado; e a canção romântica do Titanic (nº 5), para afundar com qualquer paixão. 

1 – Who let the dogs out, de Baha Men 
2 – I love you, do programa infantil Barney 
3 – You’re beautiful, de James Blunt 
4 – Macarena, de Los del Rio 
5 – My heart will go on, de Celine Dion 

Não posso sair por aí chamando de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto. Não fica bem pra um pesquisador imparcial. Mas a canção mais insuportável de uma lista que eu não suportaria fazer tem o refrão "And I e I-I-I e I-I-I-I-I will always love you-u-u-u-u-u-u" no xarope de Whitney Houston. Certamente você também não comprou os cds com essas desgraças sonoras. Então, como é que a gente sabe que elas são chatas? É que a música é traiçoeira e se aproveita do fato de que ninguém consegue fechar as orelhas. Ou como diz Millôr, a música é a única forma de arte que nos ataca pelas costas.

17 dezembro, 2010

O Deus vivo e o Deus não-existente

Deus existe? A maioria das pessoas acredita que sim. Mas dentro dessa maioria há grupos que pouco se importam com os fundamentos bíblicos do cristianismo e outros que se importam tanto com os dogmas que se esquecem de ser cristãos; há aqueles que invocam Jeová para praticar atrocidades e outros que invocam a Deus para que os defenda de tamanhas atrocidades.

Deus não existe? Alguns ateus são denominados “brights”(brilhantes), e de fato, muitos deles possuem uma trajetória intelectual brilhante. Eles renegam qualquer pensamento de explicação sobrenatural da história do universo e do homem: Daniel C. Dennett considera inviável o convívio entre ciência e religião, como se o indivíduo não pudesse conciliar ambas. Christopher Hitchens chegou a apregoar a irrelevância do cristianismo na tradição cultural da humanidade. Bem se vê que na luta para suprimir a fé e eleger exclusivamente a Razão, pode-se perder a razão.

Sobre um personagem de um conto em Ficções, Jorge Luis Borges diz que “Buckley não acredita em Deus, mas quer demonstrar ao Deus não-existente que os homens mortais são capazes de conceber um mundo”. Talvez essa frase foi dirigida aos  que duvidam da existência de Deus porque prefeririam que Ele não existisse, pois seria um "obstáculo" aos seus planos de vida.

Por isso, cresce o número de páginas para falar da não-existência de Deus ou que as coisas não são bem assim como Moisés, Lucas e João contaram. Como escreve João Pereira Coutinho: “Acho estranho que um ateu se preocupe com aquilo que, para ele, não existe. Nada é mais estranho do que um ateu convicto que não acredita em Deus e abomina Deus”.

Nem todos os ateus nos apontam o dedo no rosto, como muitos religiosos costumam fazer. Nem todos os cristãos ficam enervados quando alguém não concorda com o que dizem, como alguns ateus que perdem a razão. Se Deus existe, porém, tenho que considerar dois argumentos: Ele existe e eu rejeito lucidamente; Ele existe e eu aceito lucidamente. Você encontrará mais e melhores argumentos para rejeitar ou aceitar, mas todos, em algum momento de suas existências, se vêem diante da oportunidade de escolha entre o Deus vivo de Pedro e Paulo e o Deus não-existente de Marx e Nietzsche.

14 dezembro, 2010

10 anos em 10 filmes

Nem DVD nem Blu-Ray. Nos últimos dez anos, o cinema enfrentou a pior das concorrências: a vida como ela é. Ataque às Torres Gêmeas, terremotos e vulcões, eleição do Obama, replays esportivos em câmera lenta, a tomada do Complexo do Alemão. A realidade virou reality show e ficou mais interessante do que a ficção.

O cinema, como sempre, tem duas saídas para manter o poder de atração: 1) O cinema tecnológico que cria uma realidade virtual espetacular; 2) O cinema pedagógico que revela a dureza espetacular da realidade. 

Ecologia, terrorismo, misticismo e quadrinhos: os filmes a seguir não são os melhores da década (pelo menos, não são para mim. Metade deles, inclusive, nem assisti). Mas eles são o rosto real/ficcional dos últimos dez anos:

Farenheit 9/11
O que é: O que estaria por trás do ataque terrorista do fatídico 11 de setembro. O diretor Michael Moore foi criticado por manipular imagens e fatos. Em suma: É uma espécie de Globo Repórter dirigido por Nelson Rubens: Michael Moore aumenta, mas não inventa.

Uma verdade inconveniente
O que é: O ex-vice-presidente Al Gore dá uma palestra mostrando como o planeta está a dois passos do inferno ecológico. Em suma: é o primeiro Power Point a ganhar um Oscar.

Avatar
O que é: você não sabe o que é? Por onde você andou? Em Pandora? Em suma: James Cameron ficou alguns milhões mais rico ao combinar uma receita quase infalível: religião pré-moderna (espiritualismo mágico), tema moderno (ecologia), tecnologia pós-moderna (3-D). O resto é marketing.

Crepúsculo
O que é: quase todo adolescente passou pelas mesmas situações. A diferença é que os personagens são vegetarianos e castos.  Em suma: adolescentes sorumbáticos em uma historinha sangue-com-açúcar.

Wall-e
O que é: a preocupação com o meio ambiente contada com ternura e sem ecoterrorismo. Em suma: as animações da Pixar são um reduto de inteligência e nobreza de sentimentos em relação à indigência mental em que Roliúdi adora chafurdar.

2012
O que é: o fim do mundo com data, hora e local pra acontecer. Em suma: todo ano o cinema marca uma data apocalíptica. É uma espécie de turnê do fim do mundo.

Chico Xavier
O que é: junto com Nosso Lar, representa o sucesso do espiritualismo à moda da casa. Em suma: como nos filmes bíblicos, a fé moveu montanhas de espectadores.
Batman - o cavaleiro das trevas 
O que é: um super-herói não é nada sem o senso de justiça da população. Em suma: parece que Batman quer ser Macbeth. Why so serious? Por que nem só de "socs" e "pows" vive um super-herói.

Paradise now
O que é: dois jovens palestinos cooptados pelo terrorismo estão indecisos em dar a vida por uma briga que não é deles. Em suma: enfim alguém mostrou palestinos como gente e não como alvo militar.

Tropa de elite
O que é: você nem precisa ver. Já os bandidos do tráfico veem e tremem (será?). Em suma: o sucesso foi tanto que a recente subida dos militares nos morros do Rio foi filmada pelas TVs como um reality Bope show.

E pra você, quais filmes são o retrato desses tempos?

10 dezembro, 2010

Deus não precisa de espectadores

Estou rodeado de imagens. Para onde olho há uma tela onde aparece alguém que não me conhece, que não faz a menor ideia de quem sou, que não paga minha conta de luz, a luz que pago para assistí-lo numa tela.

Estou rodeado de sons. Para onde olho há alguém que talvez não me conheça bem, mas eu conheço sua música, eu o ouço sem que ele me peça "me ouça, por favor".

Vejo imagens numa tela na minha sala. Ouço música numa igreja. Nos dois casos, eu não passo de um espectador. É mais fácil. É só apertar o play e relaxar. É só sentar no banco da igreja e assistir. Mas as pessoas devem ir à igreja para assistir um culto ou prestar um culto?

Deus não está precisando de espectadores. A Bíblia diz (em João 4:23) que Deus procura verdadeiros adoradores, que O adorem em espírito e em verdade. Ele não procura espectadores que assistem um culto. Ele quer adoradores que participem ativamente de um culto.

Que situação: Deus à procura de verdadeiros adoradores mas encontrando espectadores de mentirinha.

Não deixe que nada, nem assuntos pendentes da semana nem música que não faz seu gosto, nem pregador empolgado nem liturgia preguiçosa, não deixe que nada o faça esquecer seu desejo de prestar um culto ao seu Deus.

07 dezembro, 2010

no planeta dos ronaldos

Três Ronaldos há.

O primeiro que chegou, chegou como um fenômeno pela própria natureza. Assombrosamente rápido, partia na direção do gol como se as redes fossem um ímã irresistível. Mas o maior feito de Ronaldo Fenômeno não são seus gols. É seu desafio à lei da resiliência. Estava culpado demais depois do fiasco da final da Copa do Mundo de 98. Estava operado demais antes da Copa do Mundo de 2002. Estava gordo demais ao chegar ao Corinthians. Por três vezes lhe juraram um final infeliz. Por três vezes ele respondeu do único jeito que sabe: com triunfos. É famoso, todo mundo reconhece aqueles dentes e aquela cabeça raspada, e embalado em controvérsias, mas raramente se encontra alguém que torça contra ele. É um meninão mimado por uma torcida mundial.

O segundo Ronaldo chegou como um acrobata, um malabarista. Uma pirueta, duas piruetas, bravo, bravooo! Era um encantador de adversários. Juntos, ele e a bola pareciam dois apaixonados que só se desgrudavam na hora do gol. Ilusão. A noite, para ele, tinha mais atrativos que a bola. Com o passar do tempo, ela, enciumada, foi procurar carinho nos pés de outros craques menos dentuços e simpáticos. E ele desapaixonou-se. Passou a vagar em campo como um fantasma do gênio que fora um dia. Até que, um dia desses, ele e a bola estavam de novo a trocar juras de amor. Só que um dos dois não esqueceu as mágoas do passado e o casamento já não parece o mesmo.

O último Ronaldo é um gajo que não admira a própria carreira de gols impossíveis e títulos imponentes. Não se encanta com a bola. Ele está maravilhado consigo mesmo. Enquanto o Fenômeno raspava a cabeça e o Gaúcho enfaixava as melenas, Ronaldo, o Cristiano, lambuza o cabelo com um gel indestrutível. Na Copa da África, passava o jogo de olho no telão: porque Narciso acha feio tudo que não é espelho e replay. Ronaldo, o Cristiano, não tem nada de cristiano/cristão. Num dia está ostentando carrões tunados em Londres, noutro está fazendo a ronda noturna com a doidivanas Paris Hilton, e noutro desnuda o torso num outdoor. Sempre com o penteado crista-de-galo intacto. Quando sobra tempo, vai ao estádio fazer jogadas estonteantes e mais e melhores gols.

Fenômenos do jogo, das massas, das mídias. Manhosos e mimados. Demasiadamente ronaldos.

03 dezembro, 2010

do Haja luz ao Haja money

No estado do Kentucky, Estados Unidos, planeja-se a construção de um parque temático do Criacionismo. Ao custo de 150 milhões de dólares, o complexo vai abrigar uma réplica da Arca de Noé (com animais vivos dentro da arca), uma réplica da Torre de Babel, um cinema com efeitos especiais e outras atrações.

Uma coisa é o estudo, a coleta e a exposição de utensílios e outros vestígios relacionados ao povo hebreu que viveu no Oriente Médio antes de Cristo. Outra bem diferente é erguer uma espécie de Disneylândia sagrada. Isso é como usar o "Haja luz" para promover o "Haja money".

Saindo do Gênesis para o Apocalipse, já ouvimos falar de pessoas que tem a estranha mania de agendar uma data para o segundo advento de Cristo à Terra. Embora a Bíblia afirme que ninguém, a não ser o próprio Deus, conhece o dia da volta de Jesus, sempre aparece alguém portando cálculos aritméticos e hermenêutica bíblica bem pessoal iludindo, se possível for, os muitos incautos. A garantia é que mesmo os falsos profetas foram preditos na Bíblia. 

Larry Falter não acredita em datas marcadas por homens. Ele apenas crê que a volta de Cristo é iminente. O problema é que, com isso em mente, sua empresa, a Joalheria LTD (em Superior, Wisconsin), lançou um anúncio comercial na TV chamado "Liquidação da Segunda Vinda". 

No vídeo da propaganda, o próprio Larry apresenta a campanha dizendo que o dia do retorno de Jesus está próximo e, enquanto o dia não chega, você pode comprar jóias, relógios e ouro com 50% de desconto. 

Sinais dos tempos: Estão capitalizando até o Armagedon.

No início, a igreja era um grupo de homens centrados no Cristo vivo.
Então, a igreja chegou à Grécia e tornou-se uma filosofia.
Depois, chegou à Roma e tornou-se uma instituição.
Em seguida, à Europa e tornou-se uma cultura.
E, finalmente, chegou à América e tornou-se um negócio (Richard Halverson)

Palavras duras. Mas servem para que fiquemos atentos aos mercadores do evangelho que fazem da religião a alma de negócios. Liquidação do Apocalipse, parque temático do Gênesis: falta ética protestante, mas sobra espírito do capitalismo.

Mais:

01 dezembro, 2010

uma entrevista sobre o gospel no Brasil


O jornal O Estado de S. Paulo publicou (30/11/10) uma matéria sobre minha dissertação de mestrado. A reportagem é de Larissa Linder, especial para o Estadão:  

Uma gravadora de música gospel brasileira conseguiu faturar R$ 18 milhões em 2008. No mesmo ano, uma cantora  evangélica emplacou seu hit na trilha sonora em novela do horário nobre da TV Globo. Foram fatos como esses que fizeram Joêzer Mendonça buscar os motivos do  sucesso da música religiosa. “Quis entender o que a levou a ser esse fenômeno de público e de vendas”, conta o professor e pianista de música sacra.

Para investigar a popularidade da música evangélica durante o preparo de sua dissertação de mestrado – "O Gospel é Pop: Música e Religião na Cultura Pós-Moderna", apresentada no núcleo de Musicologia do Instituto de Artes da Unesp no ano passado –, o professor passou a ouvir muitas canções.

“Tem de tudo, desde rock até funk evangélico; os artistas se apropriam desses ritmos populares para alcançar um público maior.” Mendonça afirma que essa apropriação dos ritmos populares é um dos fatores que mais contribuem para a vendagem dos discos.
“A música serve para dar sentido para as pessoas que não conhecem a religião. Cada gênero serve a um nicho de mercado ou de pessoas a serem evangelizadas.” De acordo com o professor, a canção gospel moderna é elemento primordial das novas práticas litúrgicas – e tem demonstrado atender não somente às demandas espirituais e emocionais, como também às exigências do mercado.

O mercado, aliás, caminha junto com o sagrado, explica o autor da dissertação. “Vivemos numa era de intenso incentivo ao consumo e inclusive há o processo de sacralização do consumo: consumir é como levar o sagrado para casa”, diz. “Então, comprar um CD evangélico é como ser cristão.”

Outro motivo para que a música gospel seja um sucesso de vendas, segundo o autor, foi uma mudança de percepção. Antes, quem definia como ser cristão era o pastor, o padre, enfim. Hoje, o fiel é mais autônomo. “Pode interpretar a Bíblia de várias formas, assim como pode escolher o que considera ser cristão. Se ele acha que comprar um CD de pagode gospel é ser temente a Deus, ele se sente livre para fazê-lo”, avalia.

O autor faz uma ressalva. “Questiono se esse processo de transformar música religiosa em música pop não dilui a mensagem do Evangelho.”


*****
Nota na pauta: durante a pesquisa, além de ouvir canções, li outras pesquisas a respeito do novo comportamento evangélico, fui atrás de livros de sociologia da cultura e da religião e visitei os sites de muitos cantores gospel. Defendi a dissertação em 2009. Fico feliz quando algumas menções começam a aparecer. 
Nesse semestre, revisei a dissertação, cortei aqui, acrescentei dados novos ali, enxuguei o jargão acadêmico, enfim, acho que ficou melhor para ler. Agora é sair atrás de uma boa editora que se interesse em publicá-la como livro.