31 janeiro, 2010

os mitos do rock in africa


Durante muitos anos, a comunidade evangélica ouviu sermões e palestras anti-rock que argumentavam que:


- o diabo é o pai do rock;
- o rock mata plantas;
- o rock leva os ouvintes ao frenesi sexual.


Esses itens, originários de declarações de roqueiros (Raul Seixas dizia que satã gerou o rock) e de experimentos científicos ainda controversos, fazem parte das objeções moralistas em relação ao rock. Mas o que há de verdade nisso tudo?

Sou dos que concordam que o rock e suas tantas variações não cabem no louvor congregacional dos templos, mas acredito que são necessários melhores argumentos para criticar seu uso como ferramenta evangelística ou até como entretenimento evangélico.

Começo com a primeira objeção, a demonização do rock.

Os detratores do rock continuam a contar uma historinha que já virou mais uma lenda urbana evangélica. Se você ainda não conhece: “Em alguma região da África, o filho de um missionário estava certo dia escutando um disco de rock. Um nativo daquela tribo, visivelmente aterrorizado, correu a perguntar ao pastor como ele permitia que seus filhos ouvissem uma música usada para invocar demônios em rituais de vodu”.

Segundo descobriu Al Menconi (citado por Steve Miller em Christian Music Debate), a gravação era “uma produção do início dos anos 1970 que incluía canções como ‘He’s everything to me’ e ‘When the roll is called up yonder’” – este último é o hino “Quando for chamado”. Menconi concluiu que, se essas músicas são demoníacas, “ou os nativos se confundiram ou milhões de cristãos estão adorando com música de possessão satânica – o que não é possível” (Today’s music, p. 40).

Apesar dos diversos furos no roteiro, esse conto folclórico é tido como “a prova” de que o rock é coisa do capeta, sendo um meio inviável de transmitir o evangelho. “Rock gospel” seria, então, uma contradição,  um oxímoro, isto é, uma junção de termos inconciliáveis tipo “suaves prestações”.

Noutra história, um missionário fez uma experiência musical numa "incivilizada" região da África. Quando seu aparelho de som tocava música clássica, os homens da tribo sorriam e indicavam em seu idioma que o som era agradável para eles. Mas quando ouviram rock, os nativos reagiram empunhando suas lanças como se fossem lutar e pegaram pedras para destruir o aparelho.

Não demorou para que os contadores dessas histórias fossem acusados de preconceito racial. Sua rejeição ao rock incluiria também, além das objeções morais, o odioso racismo. Eles consideravam a música dos povos africanos (geralmente enxergados como uma massa continental única e sem variações étnicas e culturais) como primitiva, selvagem, pagã, demoníaca, inspirada pelo vodu.

Fato: em várias culturas africanas tradicionais, os tambores também são usados em outras atividades como o trabalho ou o lazer. Pergunta: por que o cristão ocidental associou os tambores unicamente aos cultos religiosos africanos? 

Acostumados à sofisticação harmônica e contrapontística da música clássica europeia, os oponentes do rock opunham-se por tabela à música de raiz africana, demonstrando ignorar que a complexidade dessa música era de outra ordem. No caso, de ordem rítmica. Fingiam ignorar ainda a bonita simplicidade melódica daquela música, cuja base frequentemente serviu às apreciadas melodias de black spirituals e canções gospel do final do século XIX.

Os povos africanos também reagem, segundo essas histórias, somente de acordo com um estágio primário de comportamento musical. Ouvem uma música e reagem gostando. Ouvem outra e reagem brigando. Assim, se até os “pagãos incivilizados” reconhecem o suposto mal inerente do rock, como os civilizados cristãos ocidentais poderiam negá-lo? Essa conclusão soa como música para os ouvidos dos religiosos apreciadores da música erudita europeia.

Se somarmos a questão de que a batida quadrada do rock nada tem a ver com a intricada teia percussiva do vodu, aí é que fica mais difícil saber o que é fictício nessas histórias: se as conclusões ou as próprias histórias.

Então, num exercício ficcional, vou tentar adivinhar quais as músicas que o missionário usou no experimento:

Ele pode ter tocado um disco dos Beatles. Mas que música? "Hey Jude"? "Yesterday"? Não, ou os nativos poderiam sair apaixonados direto para suas tendas. "Eleanor Rigby" ou "A day in the life"? Não, elas têm orquestração muito sofisticada, iria parecer música clássica e os nativos poderiam ficar elogiando o arranjo para o naipe de cordas. Bem, certamente aqueles não eram nativos que amavam os Beatles e os Rolling Stones.

Será que eles condenariam os deuses do mau-gosto ao ouvir o "aê-aê-ô-ô" do axé? Também não creio que a vitrola desse experimento tocou "I will survive", hit da disco music; seria muita irresponsabilidade científica!

Mas o missionário pode ter tocado a 5ª Sinfonia de Beethoven ou o "Dies Irae" do Réquiem de Verdi. Hum, não, as notas iniciais espantariam os pobres ouvintes selvagens. Melhor tocar um concerto de Mozart, dos mais calmos. Talvez a tapeçaria orquestral de alguma música de Debussy – seus delicados mas dissonantes acordes levariam os nativos às lágrimas ou às armas? (clique nos exemplos sublinhados para ouvi-los).

E se depois ele tocou um punk do Sex Pistols ou um metal do endiabrado Ozzy Osbourne? Penso que só a menção desses nomes já faz desmaiar de horror muita gente, incluindo este escriba. Nesse caso, quase dá para acreditar que as tribos-cobaias do experimento iriam ficar em pé de guerra. A menos que algum nativo engraçadinho gritasse “Toca Raul!”.

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26 janeiro, 2010

o sensacionalismo nosso de cada manchete

Quando algo de extraordinário acontece é porque sempre há um editor de manchetes por perto. Todo ano, milhares de pessoas morrem por obra de motoristas bêbados, mas a manchete mais destacada será para o motorista que ocupa um posto público ou para quem é celebridade. O anônimo terá que estar envolvido em acidente gravíssimo, logo, extraordinário, para ser manchete. Dessa forma, ele se torna um anônimo que virou exceção.

Milhares de pessoas assistiram ao filme Avatar e voltaram para casa, jantaram, dormiram e foram trabalhar nas manhãs seguintes, talvez comentando com um e com outro sobre os efeitos visuais do filme mais espetacular de todos os tempos da semana.

Mas, eis que, como demorou tanto?, o noticiário avisa: Homem morre depois de assistir Avatar em 3-D. O caso, acontecido na China, é triste e trágico para o homem e para a família, acreditamos. De outro lado, sites (eu soube pelo Yahoo! Notícias), blogs, jornais, revistas se fartarão de leitores que se espantarão com o fato. Os mais precipitados julgarão o feito técnico do diretor-produtor James Cameron como um caso típico de assassinato culposo. O Extra! Extra! correrá o globo. Mas esse corre-corre não passa de lero-lero.

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24 janeiro, 2010

o melhor pianista do mundo

Fazer rir exige ensaio e muita competência, especialmente para dublar sonatas de Beethoven. Audioveja toda a técnica e habilidade do melhor (e mais hilário) pianista do mundo:


21 janeiro, 2010

a religião de todos os dias

Noutro dia vi o seguinte slogan: Mais Deus e menos religião.

Talvez quisessem dizer que:

1) A religião tem um currículo de perseguições e intolerância, o que permitiria às pessoas atacarem-na como o pior dos males que afligem o homem. Deus, ao contrário, não estaria presente na religião, pois sendo Deus amor, e a religião o oposto do amor, logo Deus é melhor que religião.

2) A religião estaria reduzida ao ritualismo formal, o que obstrui a aproximação do indivíduo desejoso de ser mais amigo de Deus. O formalismo impede o contato mais íntimo, mais caloroso, mais emocional com a divindade e, sendo Deus o Pai de todos, o ritual só apresenta Deus em símbolo abstrato, nunca como o Pai que abraça o filho.

A toada queixosa contra a religião pode ocupar todos os megabytes do Gúgol e ainda vai faltar espaço. Acontece que a noção de religião passou a ser confundida com a noção de igreja. Acontece que os lobos e lobistas em pele de cordeiro andam aos bandos iludindo quem quer e quem não quer ser iludido com falsos milagres e promessas de prosperidade. A religião passou a receber os epítetos de “vã, falsa, ilusória, autoritária, cega, antiquada, enganadora, covil de ladrões, castradora, repressora, raiz de todos os males”.

Ora dizem que a religião é manca, ora dizem que ela é uma muleta. Quando lhe pespegam dois predicados excludentes como esses é que algo está errado ou com a religião ou com seus críticos (ou pelo menos com a formulação de suas frases). Se a religião é manca, ela não pode ser a muleta. Ela na verdade precisa é de uma. Se ela é muleta, então ela é própria para nós, coxos pecadores.

Nem Javé escapou, aliás, nunca escapou, dos reclamos e acusações de autoritarismo e logo atribuíram a Ele mesmo a culpa pelo pecado do lado de baixo e do lado de cima do Equador. Daí para atacá-lO é só uma vírgula. E atacam-nO como se acreditassem que Deus existe. Vestem o Criador com as podres carapaças da criatura caída, veem maldade onde há um plano misterioso e belo de redenção.

Para tirar Deus dessa “enrascada”, então os próprios religiosos passam a pregar menos religião e mais Deus. Eu, porém, nos recomendo outro slogan: Mais Deus NA religião.

Cristo, e não a religião, é o caminho, a verdade e a vida. Não se chega ao Pai por meio da religião, mas por Cristo. No entanto, não devo mandar o cristianismo para o purgatório de Dante. Não é necessário recriminar a religião por causa dos maus cristãos, muito embora sempre tenhamos o conveniente hábito de elogiar o cristianismo quando vemos as boas aparências de um bom cristão na sã doutrina.

Insisto: Mais Deus na religião. Mais Deus no cristianismo. Não preciso abandonar a igreja porque dou de cara com hipócritas na saída do templo. Preciso primeiro enxergá-los quando me olho no espelho antes de sair de casa para o templo.

Necessitamos urgentemente praticar a única religião pura e sem mácula para com Deus: confortar os órfãos e as viúvas em suas tribulações e guardar-se incontaminado do mundo (Tiago 1: 27 – aproveite e experimente ler desde o versículo 19, com o título de “a prática da palavra de Deus).

Hoje, quinta-feira 21, é o de Dia da Religião. Praticar a palavra de Deus é a religião de todos os dias. Confortar os necessitados e manter-se incontaminado da corrupção do mundo é a religião que traduz um Deus que é amor.


18 janeiro, 2010

avatar e a espiritualização da natureza

O filme mais caro da história. A segunda maior bilheteria de todos os tempos. Marco tecnológico. De todos os ângulos, Avatar é um superlativo.

Mas o que tanto atraiu a atenção das pessoas?

A história? Duvido. Vejamos num resumo: um soldado semi-inválido e cansado de combates acaba indo para um mundo distante e lá ele descobre a harmonia de um povo em contato com a natureza, se apaixona por uma nativa e enfrenta preconceitos e tensão bélica. Isso faz de Avatar uma versão em 3-D de Dança com Lobos, como estão dizendo.

Para o crítico Renato Silveira, Avatar é “a vanguarda da tecnologia oposta ao lugar-comum de um modelo narrativo típico de filmes de fantasia”. Assim, todo mundo sabe de antemão que o herói ficará encantado com uma nova cultura pura, encontrará um amor puro, uma forma de vida pura em contraste com a ganância dos terráqueos e com o vilão que ele mesmo terá que enfrentar. O enredo é, digamos, puro lugar-comum.

O que não é comum é a inovação tecnológica desenvolvida para esse filme, que teria avançado na criação de softwares para a tecnologia do efeito tridimensional no cinema.

O senão de Avatar me parece ser de outra ordem. Não está na tecnologia nem no roteiro. Está no subtexto ideológico-religioso do filme. Para o professor de cinema Rodrigo Carreiro, “Cameron se certificou de incluir uma boa dose de preocupações ambientalistas (um tanto rasteiras, aliás), para dotar o filme de atualidade e fazê-lo politicamente relevante”.

Até aí, nada de mais. A ecologia faz parte da agenda política e social de países e organizações e tem agregado um componente de religiosidade à ideologia ambientalista. Vou dividir essa questão em duas partes:

A romantização da natureza: o filme transcorre no planeta Pandora, onde os seres nativos (os Na'vi) são gigantes de 4 metros de altura que habitam numa espécie de Éden e vivem em plena comunhão com a natureza. Eles se relacionam com o meio ambiente em um mundo idealizado, o que pode significar uma utopia inatingível para uns ou uma realidade por vir para outros, como para os que acreditam nas promessas bíblicas sobre o céu, "onde o lobo e o cordeiro pastarão juntos".

Nunca houve, porém, na história das sociedades humanas, um povo que tenha vivido em “harmonia” com a natureza. Avatar recicla o mito do “bom selvagem”, com o adicional ecorromântico de que o homem serve à natureza. Claro que é preciso analisar com cuidado a lógica do capital disfarçada de progresso que ergue e destrói coisas belas, mas não é a natureza que existe para servir ao homem?

A espiritualização da natureza: os cientistas do filme descobrem que a natureza, em Pandora, é uma força viva e atuante. Os Na’vi invocam a natureza para ajudar na luta contra a invasão dos seres humanos. Como uma entidade autônoma, a natureza assume poderes próprios para controlar as ações dos animais, por exemplo. Aqui, a natureza não é a criação e suas criaturas, o que denota uma deificação da natureza.

A espiritualização da natureza é uma faceta das religiões da chamada Nova Era, uma reelaboração de práticas místicas antigas que têm fascinado as multidões contemporâneas que desgostam dos monoteísmos organizados e apreciam o pacifismo ambientalista. A mãe Gaia, como denominam a Terra, está representada pela atividade e interatividade de Pandora.

Em meio a tudo isso, há outro aspecto que toca os espectadores: a colonização de um povo imposta por outro. Os humanos, como vilões principais no filme, seriam os mesmos humanos que devastaram civilizações para fazer andar a roda do progresso. Tanto em Pandora como em tempos distantes e terras próximas de nós, a ganância humana aterrorizou, escravizou, assassinou e atirou uns contra os outros, sem distinção de credo, cor e lugar.

15 janeiro, 2010

dos que semeiam canções


Dia do compositor. Como faço parte da numerosa família dos compositores menores me resta aprender a compor melhor e falar dos compositores maiores. Foi estudando partituras de Villa-Lobos e Stravinski (vi numa foto) que Tom Jobim foi cada vez mais se tornando o maestro soberano. Se o Tom fez isso, que dirá nosotros, cheios de boa vontade e escasso talento.
Muita gente pergunta: “Como é que se compõe?” ou “De onde vem sua inspiração?” Os mais honestos responderão Não sei, só sei que é assim, para a primeira questão. Já a segunda pergunta tem uma resposta simples: a necessidade. Quando o credor bate à porta, o talento flui que é uma maravilha!
A inspiração não é uma ilha. E se for, é uma ilha com várias pontes para outras ilhas. A inspiração não surge do nada. Ninguém senta ao piano ou pega o violão e fica esperando uma voz soprar uma sequência melódica. A inspiração é precedida pelo estudo e, principalmente, pela escuta.
Em qualquer caso, nenhum compositor cria ex nihilo, do nada. Alguma influência ele deve ter. Como no título daquele livro do Harold Bloom, os criadores padecem (ou não) da Angústia da Influência.
Armand Machabey: Toda inovação está contida numa fórmula germinal pré-existente.
Jacques Chailly teoriza sobre o procedimento dos inovadores em composição musical: “Primeiro, assimilando a teoria dos seus predecessores e escrevendo com maior ou menor submissão, do mesmo jeito. Depois, enquanto cresciam em experiência, começaram a abandonar a teoria, e pouco a pouco, sua intuição ditava o que deveria ser descartado e o que deveria ser modificado ou acrescentado. Foi como Beethoven desenvolveu-se de Haydn, Wagner de Meyerbeer, Debussy de Massenet”.
Em outras palavras, compositores, seja Bill Gaither ou Jader Santos, procederam segundo a forma descrita acima. Após um período inicial em que assimilam os métodos dos compositores de sua preferência, os músicos passam a seguir seus próprios padrões de composição, modificando, reorganizando, renovando suas influências.
Asim, não existiria a voz pequena de João Gilberto sem o estilo vocal de Mário Reis e Anísio Silva. Chico Buarque é descendente de Noel Rosa. O compositor de trilhas sonoras John Williams bebeu na fonte de Erich Von Korngold.
Tomando a linha histórica do quarteto Arautos do Rei, nota-se que eles começaram com um estilo que repete o modelo inicial, os King’s Heralds. Nos anos 90, o quarteto assimila uma feição menos Wayne Hooper e mais Bill Gaither. Nos anos 2000, o padrão Jader Santos se consolida.
A linhagem da música adventista brasileira tem em Williams Costa Jr, nos anos 70, o ponto de diferenciação em relação ao passado de versões da hinódia norte-americana. Anos depois, Jader Santos renovaria o repertório de canções adventistas.
Flávio Santos, Lineu Soares e Valdecir Lima (este, letrista) elevariam a música cristã a um novo patamar tanto na inovação estilística (arranjo instrumental e harmonização vocal) como no conteúdo poético e teológico da letra. Sem falar em Ariney Oliveira e Silmar Correia, compositores dotados do recurso de fazer canções simples que escondem sofisticação.
Não posso omitir nesse dia, além dos que já esqueci até aqui, a nova geração de compositores. Daniel Salles, que une a riqueza da poesia à beleza da melodia e já pertence à fina estirpe dos compositores mencionados; Cândido Gomes, que foi meu coralista em priscas eras e hoje é um compositor em vistoso processo de maturação, mas já uma realidade musical; Suzane Hirle, uma das poucas mulheres reconhecidas na área da composição cristã; Cleverson Pedro e Felipe Tonasso, capazes de compor em diferentes estilos com vigor musical; e ainda, Fernando Rochael, Ricardo Martins (com um inesperado, para mim, letrista Fernando Iglesias), Wendel Matos,...
Para profetas maiores e compositores menores, cometi os seguintes versos:
Abençoado seja o poeta que não teme a pauta em branco
Bem-aventurado o músico que tece um acalanto
Quem semeia vento colhe temporal
Quem espalha canção, ajunta pessoas
Quem compõe com Deus, traz Deus pra mais perto da gente




14 janeiro, 2010

a vida que faz diferença

Hospital Nossa Senhora do Pilar, Curitiba, 14:30. Eu, ao teclado, e o maestro Paulo Torres, spalla da Sinfônica do Paraná, começamos a tocar pelos quartos e corredores do hospital. Alguns, presos em leitos da UTI, talvez não escutem, enquanto outros reagem de uma forma que me impressiona.

Uma senhora, enquanto tocávamos o hino “Lindo País”, abre os braços e permanece assim durante toda a música. O que ela estaria pensando? Estaria reagindo apenas à sonoridade, ou aquela música lhe traz recordações e lhe dá esperança, talvez não de cura, mas de vida eterna?

Em outro andar, um jovem marido coloca um sofá à porta do quarto para que sua esposa se sente. Ambos ouvem nitidamente emocionados ao hino “Sou Feliz”. Alguns visitantes saem dos quartos para ouvir e agradecer. Tocamos ainda “Falar com Deus” e “Maior que Tudo”. Também tocamos “Traumerei”, de Schumann, e “Eu sei que vou te amar”, de Tom Jobim. No último andar, uma senhora coloca o celular bem perto do violino para que alguém ouça a música que tocamos. Funcionários passam apressados, ocupados; um outro pergunta se podemos tocar algo de Beethoven. Muitos agradecem.

Na semana em que a médica Zilda Arns morre na tragédia do Haiti, eu me pergunto sobre o que estou fazendo. E o que estou fazendo é tão infinitamente pequeno perto do que ela fez em vida!

Perguntas que insistimos em deixar pros outros, como Zilda Arns, responderem: Como meus vizinhos me veem? Como sou no trabalho: gentil e atencioso, ou sou apenas o tímido do trabalho que sai mais cedo na sexta-feira? Sou aquele que gasta os tubos para ficar na moda ou sou daqueles que doam tempo para quem tem necessidades básicas não atendidas?

Não digo que devemos mudar nossas carreiras. Mas há tantos, principalmente aqueles que atuam em áreas da saúde, da educação e da assistência social (eu disse assistência e não assistencialismo), que podem ser a cabeça e não a cauda em suas atuações na sociedade.

Onde estão nossos Martin Luther Kings? Nossas Zilda Arns? Homenagens, discursos, artigos, muito se falará de Zilda Arns, alguém que dedicou a vida em favor da erradicação da pobreza, em favor da saúde da mulher, em prol de crianças sem amparo.

Às vezes, penso que estamos tão ocupados na defesa doutrinária, o que é importante e necessário, que acabamos por desestimular involuntariamente os envolvidos em ações sociais e políticas que fazem diferença na vida de pessoas. O último discurso de Zilda Arns (leia aqui) conjuga o amor de Cristo e o amor ao próximo. Até quando seremos coadjuvantes, quando não, figurantes?

Não se deve renunciar à proclamação do evangelho eterno e da restauração das verdades bíblicas. Nem se pode deixar de reparar as brechas sociais e atar as fraturas da miséria. Cristo faz diferença na vida das pessoas. Zilda Arns fez diferença. E nós, que diferença fazemos na vida dos nossos semelhantes?

12 janeiro, 2010

a casinha de bonecas do Bial

Janeiro é o tempo das dietas e chuvas de verão. Até que as águas de março rolem por baixo da ponte, muito big brother vai despontar para o anonimato, como o cro-magnon Kleber Bambam, ou alterar o nome de guerra, como Grazi Massafera, agora Grazzi com dois "Z", de zapear de canal, de zero talent ou de zzzz. Pra mim tanto fazz como tanto fezz.

Eles e elas suportarão vergonhas e vexames estoicamente. Mesmo porque vexame, inibição e senso de ridículo são vocábulos ausentes do idioma dos moradores da casinha de bonecas do Bial.

Pedro Bial, que trocou as acelaradas reportagens internacionais pelo piloto automático de mestre de cerimônias da encenação da realidade (esta é a tradução certa de reality show), revelou-se o anfitrião da casa de bonecas perfeito para narrar as fantásticas peripécias de acasalamento de anônimos, para alcovitar as estrepolias eróticas de desocupados, para realizar-se como Guia deste inferno dantesco que assola o verão. E paro por aqui, que estes adjetivos já estão parecendo com, sei lá, umas crônicas do Bial, e já estou até ofendendo a memória de Alighieri e sua comédia divina.

Mas, afinal? O que querem esses jovens belos sarados brincando de casinha na TV? Um milhão de reais? Duvido. Dê 10 reais por dia e peça troco que, ainda assim, estes mancebos e donzelas são capazes de ficar zanzando pela telinha por mais tempo que o Chaves. Eles só querem fama; dinheiro não traz felicidade. Pergunte à multidão de ex-BBBs: eles só queriam a aprovação do respeitável público.

Os concorrentes do venerável programa são atraídos pelo canto mavioso da sereia-fama, ainda mais se esta vier acompanhada da sereia-grana e, oh yes, da sereia-cama. Lembrando que a ordem das sereias não altera o produto: ou ele viverá a insuportável rotina de quem-é-esse-cara-mesmo?, ou eles animarão baile de debutantes ou ela aumentará a coleção de cartazes da borracharia.

Mas não se irrite! Os habitantes da casinha do Bial são meros mortais exibicionistas. O problema é que pra cada exibicionista há 1000 voyeurs. À certa altura, os geniais produtores do programa fazem o BBBexibicionista, com todo o afeto que se encerra, olhar nos olhos do voyeur-diante-da-TV, despir-se dos pecados cometidos e implorar o perdão salvador do telespectador.

É assim que os anônimos desocupados dos dois lados da tela ganham reconhecimento. A futura ex-BBB, que nem tendo nem sendo, vira celebridade porque parece "ser", e o "interativo espectador", que se sente reconhecido por ter escolhido e votado no exibido que lhe apetece.

republicação de postagem de janeiro de 2007, com leves alterações porque não há de novo debaixo do sol e dentro da tv.

08 janeiro, 2010

(des)encontros entre música brasileira e canção protestante

Em meados dos anos 1960, o debate cultural-ideológico da hora dividia os músicos brasileiros em dois grupos: de um lado, a turma das jovens tardes de domingo cujas canções falavam de romances e aventuras despreocupadas. O trio de destaque era formado por Roberto Carlos, Vanderléia e Erasmo Carlos. De outro lado, estava o grupo que frequentava festivais de música popular cujas canções preferidas criticavam a repressão militar e incentivavam a resistência política. Geraldo Vandré, Edu Lobo e Chico Buarque destacavam-se como a voz rouca dos estudantes politizados.

O primeiro grupo introduzia a guitarra elétrica na música feita no Brasil; o segundo grupo fazia uma “Passeata contra a guitarra elétrica” nas ruas do Rio. Os primeiros não ignoravam o golpe militar (chamado à época de “revolução”), mas preferiam cantar sobre bailinhos e carrões, e se estivessem aquecidos no inverno, então que tudo mais fosse pro inferno.

O segundo grupo protestava contra o regime autoritário imposto ao país e anunciava que quem sabe faz a hora e não espera acontecer. Em conjunto com a forte crítica anti-imperialista, este grupo recusava a cultura anglo-saxã e valorizava a cultura popular nacional. Declaravam-se engajados, em oposição ao primeiro grupo, tachado de alienados.

Os “alienados” bebiam na fonte do rock’n’roll norte-americano mais comportado (comportado para os cantores e a crítica, pois para os pais, avós e xerifes qualquer guitarra e cabelo comprido era uma afronta). Os “engajados” empunhavam violões e pandeiros e adotavam o baião e o samba.

As igrejas cristãs mais intelectualizadas transferiram esse debate para o domínio da música sacra. Começou-se a compor em língua nativa, isto é, no idioma musical brasileiro. Cristãos mais politizados passavam a combater o bom combate em duas frentes: a política e o evangelismo. Sua música, ao mesmo tempo em que protestava contra a passividade política também criticava a letargia espiritual. Queixavam-se, ainda, da ênfase num repertório baseado em hinos e canções de origem estrangeira, o que configurava, para aqueles compositores, um indício do imperialismo econômico e cultural.

Os grupos tradicionais das igrejas protestantes, que já se opunham às guitarras e baterias trazidas pela nova geração de músicos, confrontavam agora as canções religiosas socialmente engajadas. Como fruto da politização dos estudantes, e também do envolvimento com a Teologia da Libertação, surgiu o movimento denominado MPBR, Música Popular Religiosa Brasileira, composto por Jaci Maraschin, Laan Mendes de Barros, Simei Monteiro, entre outros.

Os debates sobre a introdução de estilos nacionais na liturgia geraram hinários como A canção do Senhor na terra brasileira e O novo canto da terra, ambos reunindo canções que reagiam contra a “alienação social dos hinos importados”.

Trechos de algumas canções nos ajudam a compreender melhor a influência do nacionalismo musical e da teologia da libertação:

Benção da Mesa (Jaci Maraschin)

Senhor, Te damos graças porque em volta desta mesa
Renova-nos a força de lutar contra a pobreza
...Senhor, que os nossos pratos, numa terra dividida
Um dia se dividam numa terra reunida

Saudade da pátria (Valdomiro P. de Oliveira)

E o nosso louvor não é nossa canção:
Não é um samba, uma modinha, um chorinho nem baião
Elevamos ao Senhor o cântico impingido pelos opressores:
No seu ritmo, na sua instrumentação

...Se não preferirmos a canção brotada
Desse chão menino, brasileiro, latino,
Que a nossa língua apegue-se ao paladar
E que não possamos mais cantar

A poética dos versos não esconde certa xenofobia que recusa a cultura estrangeira em favor da cultura nacional, caracterizando sentimentos de ufanismo (como diz a última estrofe, seria melhor ficar mudo que cantar hinos não-brasileiros). Se doutrinas bíblicas fossem cantadas desse modo, seriam acusadas de fundamentalismo na hora.

No entanto, as músicas protestantes socialmente engajadas encontraram forte resistência:

1- O público mais afeito a inovações, os jovens, preferia rocks e baladas norte-americanas em vez da música brasileira, secular ou cristã.

2- As lideranças mais tradicionais rejeitavam os estilos nacionais como uma pedra de escândalo. O samba e o baião remetiam a fortes conotações de “mundanismo” e não serviam aos propósitos litúrgicos determinados.

3- As letras daquelas canções apresentavam um alto teor de denúncia social e politização, o que assustava as mentes politicamente mais conservadoras e, também, poderia associar a igreja aos movimentos estudantis que radicalizavam a resistência política.

4- Nascida no meio católico, a teologia da libertação misturava Bíblia e marxismo e visava à libertação política e espiritual das camadas populares marginalizadas. Enquanto o Vaticano bania padres ligados ao movimento, os setores protestantes não apoiavam a aproximação do grupo de compositores da MPBR com a teologia da libertação, o que trouxe prejuízos à disseminação do novo estilo litúrgico.

Assim, a música brasileira religiosa era culta demais para os mais jovens, mundana demais para os tradicionalistas, comunista demais para os conservadores e católica demais para o protestantismo. O único estilo nacional relativamente aceito continuou a ser a canção sertaneja, adotada pelos pentecostais desde os anos 50. Neste novo século, mesmo com a formação de uma sólida indústria fonográfica gospel, os gêneros ditos brasileiros ainda encontram oposição nas igrejas de origem protestante histórica/tradicional. Mas isso já é assunto para uma outra semana.

05 janeiro, 2010

matrix, o escolhido e as escolhas


As referências para a criação da série Matrix provêm de fontes tão díspares como o kung fu, os quadrinhos, a teoria do simulacro e a salvação messiânica.
Do kung fu, a coreografia das lutas. As HQs (histórias em quadrinhos) inspiram a posição das câmeras, a fotografia e os superpoderes do herói.


A teoria do simulacro é mais complicada, mas resumindo grosseiramente seria assim: o filósofo francês Jean Baudrillard, falecido em 2007, criticava a transformação da vida humana em “realidade virtual”, em um jogo de simulações em que a realidade dos objetos é substituída pela hiperrealidade dos signos bombardeados pelos meios de comunicação de massa. Baudrillard era complicado como um filósofo francês deve ser, mas acho que ele queria dizer que o ser humano se tornara mais perdido que um cego existencial num tiroteio midiático.


Baudrillard era assim mesmo, um autor apocalíptico que poucos entendiam, e quem achava que tinha entendido, o próprio autor se encarregava de dizer que não tinha entendido patavina nenhuma, como os irmãos Warchovski, diretores da trilogia Matrix, e o ator Keanu Reeves, cujas citações públicas de Baudrillard receberam o veto do francês. Ô homem difícil, sô!


Se você já esqueceu, o personagem principal de Matrix se chama Neo, que pode ser tanto a palavra grega para “novo” (a pronúncia inglesa do termo é a mesma empregada em “new” ) como também um anagrama de “one”, o número um. No filme, Neo é chamado de “the one”, um tipo de Cristo bíblico que representa o novo, as boas novas, “Aquele” que veio salvar o mundo.


Neo será o responsável por abrir os olhos das pessoas para uma realidade que não veem. Para Baudrillard, os indivíduos estariam tão submersos na ficção da publicidade, da moda e da tecnologia geradas pelas mídias que não perceberiam que suas vidas não passam de um simulacro, uma falsa realidade vivida como se fosse real.


No cristianismo, o contraste entre a vida que se tinha no passado e a aceitação de uma nova realidade ao aceitar a salvação é tamanha que os conversos costumam dizer que eram cegos, mas agora realmente veem. Por isso, reiteram que Cristo é a “verdade que liberta” (João 8: 32). Dessa forma, o passado é visto como uma ilusão vivida como se fosse real e o presente com Cristo equivale à verdadeira realidade imprescindível.
No filme, há também a personagem Trinity (“Trindade”). Logo se vê que não foi só Renato Russo que, na canção Índios, se perguntava como um Deus ao mesmo tempo é três. Trinity é retratada como uma pessoa só. Isso pode revelar que os irmãos Warchowski estivessem mais interessados em embalar sua produção com a superfície conceitual das religiões em vez de escavar a verdade mais a fundo.


Do mesmo modo que Matrix bebe e regurgita a teoria da hiperrealidade e não foi visto com bons olhos pelo autor da teoria, o filme também toma emprestado temas do cristianismo, adiciona pitadas de budismo e hinduísmo e não fala nem uma coisa nem outra. A doutrina de Matrix é, na verdade, o niilismo: viveríamos numa ilusão criada por um programa de computadores e não haveria saída dessa jaula metafísica.


Jean Baudrillard, que preferia o filme Show de Truman à série Matrix (eu aqui também), não aceitou ser uma espécie de consultor filosófico para o filme por achar que os diretores distorceram seus escritos no primeiro filme. Ele achava também que a discussão filosófica merecia um espaço mais adequado do que a correria cinematográfica.

Ao usar termos como Nabucodonosor, Trindade ou Sião, Matrix não está reforçando o cristianismo bíblico. Sua utilização distorce pontos focais e rearranja a narrativa bíblica nos moldes do gnosticismo. Tenta nos convencer que é preciso negar a realidade aparente ("pense que a colher não existe", lhe diz um budista mirim), como na visita de Neo ao oráculo que entremeia frases esotéricas e supõe levar ao conhecimento da verdade interior e da falsificação do exterior.


Matrix pode dizer tudo e ser sobre o nada. É um filme que dá essa opção. Aliás, é um filme sobre escolhas e prefiro falar sobre o incontornável momento em que todos temos de fazer escolhas que afetam de forma mais impactante os nossos destinos.


Podemos escolher rejeitar o esclarecimento (a pílula azul do filme) ou aceitar a verdade (a pílula vermelha). Depois disso, nossos atos serão modificados pelo entendimento que temos do que é verdade.


Ninguém também pode fazer as escolhas por nós. Ou fechamos os olhos ou abrimos a visão. Ou escolhemos aceitar que o sentido da vida é que ela não teria sentido (sem origem ou destino final) ou escolhemos ver que a vida faz sentido quando a verdade de Cristo é entendida e praticada em seu aspecto mais amplo e cósmico, que há significado transcendente e não ilusório na vida no único Cristo ressurreto e real, e não nos Cristos pendurados em paredes, empoeirados em bíblias e mal representados em nossas ações.

entrevista de jean baudrillard em que ele fala do filme, aqui.
sobre matrix e o gnosticismo, aqui.