10 maio, 2016

a teologia em Batman vs. Superman


Alguns críticos têm apontado que os super-heróis estão substituindo Deus na mentalidade contemporânea. Esse pessoal ainda crê piamente que, depois de um filme do Superman, os espectadores sairão mais descrentes na Bíblia, mais crentes no super-herói, e com uma louca vontade de comprar pipoca e coca-cola.

O Superman não está substituindo Deus. Nem se trata de substituição, mas de metáfora. Sim, uma metáfora como as crônicas de C. S. Lewis e a Terra Média de Tolkien. Nem toda metáfora do cristianismo é coerente ou convincente, mas é fato inegável que as pessoas gostam de narrativas, símbolos, parábolas, metáforas, enfim, de boas histórias que recontem suas histórias preferidas.

Outros críticos disseram que os novos heróis são os antigos deuses gregos repaginados. No entanto, um ateniense - ou um romano - não aceitaria um deus que habita entre os humanos e que ainda dá a vida por eles. O filósofo Lucien Jerphagnon ressaltou a constatação do apóstolo Paulo de que Cristo era loucura para os gregos: “Então [diriam os gregos], nas ruas de Jerusalém topava-se com um deus, quando se ia às compras? Um mago, até que era possível. Mas um deus e, além disso, que morreu crucificado?” (A tentação do cristianismo, p. 23).

Para gregos e romanos, a presença de um Superman caminhando por Metropolis e se sacrificando pelas pessoas também seria um completo absurdo. 

O que chamou minha atenção no filme Batman vs. Superman: a origem da justiça foi a exploração teológica da figura do super-herói, pois tenho interesse em observar como os temas sagrados são mediados pela cultura, e não apenas pela religião. 

Batman vs. Superman levanta questões éticas e religiosas, como os direitos e o raio de ação de um super-herói (ele não está circunscrito às leis e deveres dos cidadãos comuns?) e a onipotência e a bondade de Deus. Mas a frase que incomodou algumas pessoas foi esta: “Se o homem não matou Deus, então o diabo vai matá-lo”. Elas interpretaram essa fala como a presunção pós-moderna de eliminar Deus. Mas por que a perplexidade? Nietzsche já filosofara que “Deus está morto, nós o matamos”. E os próprios cristãos acreditam num conflito cósmico em que o diabo está empenhado em destruir Deus – ou no mínimo, a imagem de amor associada à Ele.

No filme, porém, quem quer matar “Deus” é Lex Luthor, o vilão. Não seria muito mais coerente, então, interpretar que o Mal representado em Luthor é que pretende exterminar Deus?


O filme não perde oportunidade de criar uma interessante iconografia de Superman como um tipo de Cristo. Não com cenas de demonstração de força e poder, mas com quadros de salvamento [como a imagem acima]. Mais uma vez, isso não é substituição, mas uma representação do sagrado cristão mediada pela cultura da mídia. É evidente que essas representações estão sujeitas a críticas, porém, dizer que elas usurpam o lugar de Deus na mentalidade humana é querer dar à religião a exclusividade no manuseio dos temas sacros.

Outros viram um engodo no fato de que o último adversário a ser derrotado pelos super-heróis se chama Doomsday ou Apocalipse. Para vencê-lo, Superman precisará fazer um sacrifício impossível de ser feito por um ser humano ou por qualquer outro super-herói. Aí vem a queixa: “Isto é uma contrafação, pois Cristo não é derrotado no Apocalipse...” Amiguinho, qual a parte que você não entendeu quando falei em metáfora?!

Em relação às questões éticas do filme, Superman também vive no mesmo contexto midiático e de conturbações geopolíticas que os humanos. Suas ações públicas agora são questionadas em programas de TV. Alguns dizem: “Ele está entre nós, devemos viver sob esse novo paradigma”. E outros o rejeitam: “Volte pro seu mundo, não precisamos de você”.

A angústia de ser rejeitado transforma o Superman otimista em um super-homem de dores. Ele até tenta se afastar das pessoas, mas seu cuidado desinteressado e sobre-humano aflora no seu amor pela mãe, por Lois Lane e pelas frágeis criaturas humanas. E então o vemos cumprir sua missão. É quando ele dá um beijo em Lois como quem beija o mundo e se despede dizendo “Este é o meu mundo” como quem diz “Essa é a minha missão”.


Uma crença que fundamenta a fé cristã é o túmulo sem corpo, a tumba vazia que anuncia que Cristo não está ali. Diferente da narrativa bíblica, no filme há túmulo e homenagens após a morte do Superman. Mas há também um caixão vazio: “Se quiser ver o seu monumento, olhe ao redor”, diz o letreiro. A teologia da morte substitutiva de Cristo pelos humanos poucas vezes foi tão explícita como aqui.

Essa é a suma do que realmente importou para mim nessa história: o Superman veio do espaço, foi criado por um casal de humanos e ao crescer saiu de casa para cumprir sua missão. Fecha a metáfora: já que os atuais filmes baseados em histórias bíblicas fazem um Deus à imagem e semelhança do homem, as HQs constroem super-homens à semelhança de Deus.

Hollywood funciona segundo a lógica do entretenimento e do capital. E às vezes, a religião que não se pode conter, a história que não se pode deixar de contar, parece escapar do controle dos técnicos e executivos e a vida do Cristo é apresentada em milhares de salas multiplex mundo afora pelas vias tortas de um filme de super-herói.