29 setembro, 2009

o livro didático dos insultos

A escola está desesperada. Como o aluno parece mais interessado em atualizar suas fotos no Orkut, os pedagogos acreditam que a escola precisa falar o idioma natural infantojuvenil para fazer o estudante de muito MSN e poucos engenhos se interessar pelo idioma natural acadêmico. A novidade é simples: se “todos” falam palavrão, então que os livros didáticos também falem palavrões.

Apesar do que sugerem expressões fortes como “os catetos da hipotenusa” ou “ácido desoxirribonucleico” ou, tirem as crianças do blog, “oração coordenada sindética aditiva”, os palavrões nesses livros são mais prosaicos.

Também ainda não foi o caso de Tiradentes aparecer xingando a mãe do delator Silvério dos Reis ou Zumbi mandando a corte imperial tomar banho num afluente do Rio Amazonas, mas o nível de recentes livros didáticos lançados em Minas e em São Paulo periga receber o carimbo censor pelo uso de “linguagem chula e imagens impróprias”.

O ensino escolar dos nossos pais e avós é acusado de ter sido baseado no autoritarismo e na repressão. A equação do sistema era: tabuada + decoreba = nota dez. Qualquer falha de memória ou desajuste de comportamento levava imperiosamente à palmatória ou à antigamente temível sala da diretoria.

As novas pedagogias libertaram os alunos da tirania da “tia” e da leitura em voz alta de Camões. Porém, só trocamos de ditadura. Em vez da leitura de Manuel Bandeira, temos a poetisa Pitty. Em vez de Fernando Pessoa, temos o pessoal do Pânico na TV. Agora, toda autoridade é concedida a Sua Excelência, o Aluno. A aula precisa ser divertida, senão as entediadas criaturas vão jogar no celular; o professor tem que entrar na sala personificando uma caricatura, senão os enjoados seres vão começar a retocar a maquiagem; o assunto tem que tratar do universo cultural adolescente, se bem que os entojados estudantes vão conversar sobre esse fascinante universo de qualquer jeito.

Estudar deve ser uma atividade interessante e ter seus momentos divertidos, mas a escola não é praça de alimentação de shopping.

Alguns nostálgicos que devem ter estudado nas “ótimas” escolas do Brasil-Império adoram dizer que no tempo deles era diferente – se sádicos ou masoquistas, são todos saudosos do argumento da chibata e da lição com resumo e questionário no final.

A escola não pode usar as mesmas estratégias didáticas dos tempos de Deodoro da Fonseca. Mas precisava, em repúdio ao antigo sistema, se orientar pela cabeça da geração Playstation? Concordo que boa parte dos professores de Português/Literatura estão mais preocupados em fazer o aluno saber quais as características do Arcadismo que em fazê-lo se apaixonar pela leitura. Concordo que muitos professores de Artes querem que o aluno decore a lista de pintores impressionistas. Se o ensino for só isso, conheço uma professora melhor: a Sra. Wikipédia.

As desculpas rotas e esfarrapadas para a inclusão de palavrões nos livros didáticos: “todo mundo” xinga nos estádios, “todo mundo” fala palavrão no trânsito. O erro já está nessa inclusão generalizante: todo mundo fala. Entendo que a pornografia está ao alcance do controle remoto da TV e penso até que há mais pornofonia nos discursos políticos do que na boca do torcedor e que é um palavrão é menos imoral do que o desvio de verbas destinadas às escolas.

No entanto, a escola não deve ser a legitimadora da linguagem vulgar, mesmo que a educação no Brasil seja tratada como uma senhora de baixo calão. Como se vê, decisões tomadas por burocratas do ensino nem sempre espelham as necessidades ou reforçam as potencialidades da escola.

Não se trata de preconceito ou de hipocrisia. A questão é: a escola deve proporcionar o mesmo jargão eufórico dos estádios ou da programação da MTV? Ou a escola deve ajudar o aluno a perceber a diferença de postura que os diferentes espaços sociais requerem? A escola serve como campo de reforço da ofensa banalizada ou deve oferecer oportunidades para o aluno transcender seu mundo idiomático e cultural?

Os polêmicos palavrões não foram aceitos de boa vontade por quem está no labor diário da sala de aula, incluindo alunos. Tempos estranhos esses em que vivemos: agora são os alunos que mandam os pedagogos lavarem a boca.

27 setembro, 2009

cem palavras: viver a vida

Não, caríssimo antinoveleiro, não vou falar das velhas peripécias noturnas globais, ou recordais, sbtais. Vou citar uma entrevista de um professor que li recentemente na Gazeta do Povo, jornal paranaense. Trata simplesmente de qual é nossa postura e atitude diante da vida.

Serei eu herói da minha própria vida?
- David Copperfield (by Charles Dickens).

Eu digo o seguinte: a maioria das pessoas é náufraga na própria vida.
– Newton Carneiro Affonso da Costa, matemático e filósofo.

25 setembro, 2009

black christian is beautiful

No domingo à noite, dia 20, fui convidado para acompanhar ao piano um grupo musical que me deixou com uma santa comoção, se posso dizer assim. Não apenas a qualidade das vozes chamou a atenção da congregação. Certamente, não poderia passar despercebida uma outra qualidade: todos os componentes eram negros. Reunido em pouco menos de duas semanas, os cantores não formavam um grupo oficial. Era apenas um “coral black” para aquela ocasião especial.

De pré-adolescentes até um casal de idosos, passando por jovens brasileiros e angolanos, o grupo cantou músicas tradicionais e contemporâneas com o empolgante estilo de cantar a que nos acostumamos. Eu estava embevecido pela qualidade musical e agradecido por estar participando de um momento no qual eu voltei a compreender o que significa “alegre reverência”. Ninguém rodopiou, nem fez gestos extravagantes nem palreou línguas incompreensíveis. Somente música apropriadamente feliz que nos deixou felizes. Vale dizer que a banda (com metais, baixo e percussão feita no teclado) contribuiu muito para o alto nível de festa espiritual.

Isso me fez lembrar de duas questões que nunca se calam: como se pode ter “alegre reverência” com uma banda? E, por que nossa experiência sacro-musical aceita a influência dos negros norte-americanos mas rejeita os estilos afro-brasileiros?

Vamos à primeira pergunta. Se há uma polêmica na qual não gosto de entrar é na velha questão da bateria na igreja. Prefiro falar de formas de adoração, e naquela noite de domingo aconteceu algo sublime, mas sem clima musical fúnebre, ocorreu algo festivo, mas sem frenesi. Houve palmas, não para acompanhar o ritmo da música, mas após algumas daquelas canções. Não tinha como não aplaudir uma anciã cantando o hino “Ao meu redor”, acompanhada de um backing vocal feito pela sua família.

Ah, mas e como fica o “culto racional”? Digo que a racionalidade estava ali controlando a emotividade. Senão fosse assim, iríamos saltar, rolar e gritar. O que não podemos é confundir emoção, do que também somos feitos, com ênfase permanente no emocionalismo, nem devemos achar que culto racional é ritual intelectualista.

À segunda questão: por que, para o louvor cristão, preferimos os estilos afro-americanos aos gêneros de raiz afro-brasileira? Traduzindo, por que aceitamos a black music cristã e recusamos o samba e o pagode?

Por conta da conversão em massa dos negros americanos ao protestantismo, ainda que muitos preferissem a liberdade cúltica do pentecostalismo, os temas da religiosidade de raiz africana não chegaram à música popular dos Estados Unidos. Os lugares, os deuses, os ritos, tudo isso foi suplantado no processo de conversão de escravos e ex-escravos. Por exemplo, os spirituals que falam de liberdade usam as histórias e personagens bíblicos, mas não clamam a nenhum deus das religiões africanas. Mesmo a música secular americana, seja o jazz, o soul ou o rythm and blues, se refere ao Deus cristão.

Já no Brasil, a religiosidade dos escravos foi assimilada tanto pelo culto oficial católico quanto pela música popular brasileira. Os símbolos e as entidades de matriz africana (Oxóssim, Iemanjá, Iansã) são descritos em muitas canções populares do mesmo modo que possuem paralelos com os santos do catolicismo romano. Além disso, o samba está vinculado ao Carnaval assim como o pagode está associado às festas regadas ao sensualismo e à cerveja, dois itens rechaçados pela virtude protestante, digamos assim.

No culto evangélico americano, as canções não possuem originalmente uma percussão sincopada como a do samba, por exemplo. Os ritmos afro-brasileiros têm acentuada animogenia (que é a capacidade que uma música tem de ser “dançável”), e a dança, principalmente a dança associada à axé-music ou ao carnaval, é outro elemento banido das igrejas.

O protestantismo e suas variantes tradicionais se opõem aos cultos considerados pagãos. Sendo assim, eventuais referências diretas ou indiretas (letras, estilos e modos de cantar) à cultura popular brasileira vão encontrar resistências no espaço da liturgia da igreja.

Não posso omitir um dos maiores crimes da humanidade, o preconceito. Pessoas de sangue e carne como qualquer outro, os negros foram submetidos aos flagelos da escravidão, humilhados e destituídos por muito tempo de sua dignidade humana, tendo sua cultura reprimida. De outro lado, o eurocentrismo, essa ideologia que concede à cultura europeia a exclusividade e superioridade musical.

Por fim, embora se diga com propriedade que a black music religiosa foi incorporada pela música pop (Ray Charles transformou um estilo gospel na soul music) e a música pop tenha influenciado as produções do black gospel (já nos anos 40 se dizia que o repertório gospel estava assimilando os modos de performance os estilos de arranjo da música secular), há que se considerar uma questão sociogeográfica: os grupos religiosos protestantes brasileiros estavam bem distantes das fronteiras onde aconteciam mudanças, renovações e interinfluências musicais americanas.

Assim, desconhecia-se a origem de uma música ou o que estava sendo feito de determinado estilo e importava mais o que os brasileiros estavam fazendo com ele. Algo semelhante aconteceu em relação ao repertório sacro de origem europeia, do qual as congregações só conheciam as histórias mais elegantes e honrosas dos compositores eruditos.

Essas são algumas respostas às perguntas que às vezes fazemos. Não há como esgotar o assunto ou esclarecer tudo nesse espaço. Mas garanto que se, como dizem, black is beautiful, black christian é mais beautiful. Pelo menos naquela noite de domingo.

22 setembro, 2009

fábulas menores - opus 6

Das notícias que correm o mundo, há aquelas que nos surpreendem. Jornalistas iraquianos, desportistas brasileiros, cantores de volta à fama via YouTube. Nossa seção "fábulas menores de moral mínima" pega carona no noticiário-mentira e humor-verdade, afinal, certas notícias parecem fábulas. E se não são, nos encarregamos de torná-las fábulas. Mas a moral mínima é por conta dos protagonistas reais dessas histórias.

O santo sapateiro

Lembra quando Bush ganhou (mas não levou) duas sapatadas de um jornalista iraquiano? O atirador ruim de mira acabou de sair da prisão e foi presenteado com uma casa maior para morar, um carro novo, uma homenagem da cidade natal em forma de sapato-estátua, mais plano de saúde, mais uma bela quantia enviada por admiradores, mais propostas de casamento. Sinais dos tempos: já vão longe os dias em que as celebridades iraquianas eram mortíferos homens-bomba que não sobreviviam para ajuntar tesouros que a traça corrói.

Nelsinho Piquet, o kamikase

Depois de Nelsinho Piquet revelar que agiu como um bravo piloto no cumprimento do desonroso dever ao obedecer ordens da Renault para bater o carro na pista, o que, coincidentemente, levou o companheiro de equipe Fernando Alonso a ganhar o Grande Prêmio de Cingapura no ano passado; depois do chefe acusado, Flavio Briatore, duvidar da masculinidade de Nelsinho Piquet; depois da Renault demitir Briatore mas não contestar as acusações de armação, agora todo mundo vai entender o que queriam dizer com “o circo da Fórmula 1”.

Eles são os caras!

Dunga no comando vitorioso da seleção, Barrichello no volante vitorioso de seu carro: falta quanto tempo para aprontarem um comercial de cerveja com esses brasileiros guerreiros ou para ouvirmos o Lula dizer que o brasileiro é como o Dunga e o Rubinho que não desistem nunca? Em alta na cotação da torcida, Dunga cogita até voltar a vestir aquelas camisas Sidney Magal de seus primeiros meses como técnico. No caso de Rubinho, que corre (sim, agora corre) o sério risco de ser campeão, já tem humorista preocupado com a falta de assunto em 2010.

Biafra encontra Ícaro

Quando Byafra gravou seu maior sucesso, “Sonho de Ícaro”, dos inesquecíveis versos “Voar, voar, subir, subir / Ir por onde for”, não imaginava que a parte da letra que diz “Descer até o céu cair” iria se cumprir profeticamente pela graça de um saltador de parapente que despencou sobre ele como um Ícaro desgovernado. O reaparecimento de cantores na mídia por obra de uma videocacetada ainda vai tirar do ostracismo velhos ídolos: se Byafra foi atingido pela própria metáfora, se Vanusa remixou o Hino Nacional, não quero nem imaginar como será o retorno de Gretchen?

A volta dos que não foram

Depois da busca, apreensão e entrevista do cantor Belchior, desaparecido há dois anos pelas contas do Fantástico, desaparecido há mais de vinte pelas contas dos brasileiros, a Globo já inicia os contatos para ir atrás de Baltazar, o "artilheiro de Deus" e do campeonato brasileiro nos anos 80. Se encontrarem Gasparzinho, a festa natalina desse ano promete ser a maior de todos os tempos. Afinal, não é em todo milênio que se pode contar com os três reis magos da tradição católica: Gaspar, Baltazar e Belchior.

18 setembro, 2009

música sacra: novas ações para um novo tempo

De quantos prêmios se precisa para fazer um gênio? De nenhum. Gigantes da arte cinematográfica como Charles Chaplin, Alfred Hitchcock e Orson Welles nunca ganharam o Oscar, considerado a premiação máxima do cinema de língua inglesa. Eles ganharam Oscars pelo conjunto da obra que, por pouco se tornaram póstumos, soaram mais como um pedido de desculpas. Eles precisaram do Oscar para cultivar sua arte e entregar produtos estéticos imperecíveis? Não.

Um prêmio como o Oscar, ou o Grammy, de música, tem a capacidade de alavancar as bilheterias de um filme ou um disco premiado. Entretanto, mesmo sabendo que grandes artistas, filmes ou canções também foram justamente galardoados, não se pode esquecer que tanto o Oscar quanto o Grammy são premiações da indústria cinematográfica e fonográfica. Os votos são secretos, a auditoria da Price-Waterhouse é insuspeita, há boas obras concorrendo, mas um prêmio do mercado tende a favorecer as produções de sucesso no mercado.

Os produtores da música evangélica contemporânea entenderam que a indústria precisa anualmente dar um afago em si mesma e, como um gato que lambe o próprio pelo, seleciona cantores, compositores e canções consideradas “as melhores do ano” na premiação chamada Troféu Talento. Deixando de lado a questão óbvia da real necessidade de uma premiação do “melhor cantor cristão”, que criaria uma “amigável” competição entre os evangélicos, há uma outra questão que pode ser levantada sem medo de errar.

A questão é: o quanto de ética cristã está presente quando uma gravadora divulga em impressos publicitários, em cartazes nas lojas do ramo e na internet que seus produtos foram premiados com o Troféu Talento?

Se já é discutível haver uma premiação do “melhor artista cristão”, o que dizer então da propaganda do artista que usa a premiação para alavancar os negócios?

Cada gravadora de cada denominação cristã acredita francamente que seu CD nas lojas não é uma luta pela sobrevivência na vitrine das religiões, mas é um pão lançado às águas para atrair novos conversos e conservar os fiéis. Em uma sentença: é uma obra evangelística.

Não há dúvida de que é preciso lançar o pão às águas da lógica do capital a fim de garantir a sobrevivência das crianças (o que é muito justo, é justíssimo) e disseminar a palavra de Deus (além de justo, necessário). Onde está o problema, então?

Não precisa ninguém ter estudado as teorias do alemão Theodor Adorno para notar que há uma confusão estabelecida entre fé e mercado que está no centro do debate sobre as estratégias de evangelismo do cristianismo contemporâneo. Adorno afirmava, na década de 1930, que a massificação da música pelo mercado transformava a música num bem de consumo, numa mercadoria transitória que atendia às modas fabricadas. Dizia, ainda, que tal mercantilização da música fazia com que a música fosse apreciada conforme a medida do seu próprio sucesso.
Os prêmios dos especialistas (os críticos) são vistos como fruto de uma visão elitista e não corresponderiam ao gosto do público. Sem desvalorizar a audição dos ouvintes, penso que o voto do público tem um aspecto demagógico e populista. Do autoritarismo da crítica passamos para a ditadura do ouvinte. Uma boa parte das pessoas legitima as músicas de maior sucesso, de maior veiculação, a música que mais toca, como a melhor. Em suma, quantidade confunde-se com qualidade.

O Troféu Talento é a confirmação desse pensamento. Uma das categorias dispostas ao voto do espectador é “O Melhor Cantor”. Entre os atributos que o ouvinte deve avaliar estão: sucesso na mídia, simpatia e número de vendas. Está no site da premiação para quem queira assustar-se pessoalmente.

Ora, quando igrejas cristãs tradicionais passam a fazer uso dos prêmios que recebem ao divulgar seus produtos com o slogan “premiado n vezes pelo Troféu Talento” está nítido e cristalino que a intenção evangelística está justificando o acordo com a lógica mais filistéia de mercado.

Se houver uma pausa para a reflexão entre uma contabilização e outra, protestantes ou pentecostais históricos (batistas, assembleianos, adventistas, presbiterianos, luteranos etc) poderão perceber o beco sem saída em que estão se metendo.

Se eles não levam esses prêmios tão a sério, então é possível que se esteja caminhando nos beirais da hipocrisia. Pois, se não consideram o premio necessário, porque divulgam depois nos seus encartes promocionais?

Se eles crêem na necessidade de compartilhar a noite da premiação como uma festa ecumênica da irmandade musical cristã, então não há porque tentar seduzir o consumidor com slogans de sucesso enfeitando seus CDs e DVDs.

Se eles acreditam que uma premiação de melhor do ano auxiliará na divulgação de sua mensagem de verdade e salvação, então o pragmatismo evangelístico venceu o debate, embrulhem suas Bíblias, fechem a conta e passem a régua. Daqui a pouco vão dizer que a tal mão invisível do mercado está ferida por cravos.
Vivemos novos tempos. Tempos que demandam novas estratégias de ação e entendimento do lugar na igreja no mundo. Se passarmos a crer que um prêmio da indústria fonográfica vai atrair novos fiéis, estaremos apenas usando das mesmas táticas pelas quais a indústria evangélica tem sido criticada. Todos anunciam que divulgam a verdade. A diferença é que alguns pensarão realmente estar fazendo o que é certo, pois julgarão que sua verdade é mais verdadeira que a verdade do cristão ao lado.

15 setembro, 2009

é fantástico: as entrevistas didáticas de patrícia poeta

Cada país tem a entrevista do Fantástico que merece. Primeiro, foi a mãe da menina Isabela, Ana Carolina Oliveira, uma mãe cuja postura serena diante da tragédia do assassinato da filha (os acusados eram o próprio pai, Alexandre Nardoni, e a madrasta) era vista como frieza. As pessoas esperam que uma mãe chore desbragadamente, e se ela não chora, chamem as fantásticas e manipuladoras entrevistas para conseguir o feito. A coincidente data da entrevista? O dia das mães. A entrevistadora? A jornalista Patrícia Poeta.

Quando Ana Carolina começava a embargar a voz, a câmera avançava até os olhos lacrimejantes da mãe a fim de compartilharmos sua dor mais de perto. Ao mesmo tempo, a entrevistadora não deixava a entrevista acabar e dizia, em off, “Respira fundo”, ou tocava os joelhos da mãe. Apoio emocional de mãe para mãe? Recurso profissional para que a entrevistada não desistisse de falar? O close numa girafinha de brinquedo, lembrança da filha vitimada, a câmera que filma a entrevistadora refletida num espelho, os flashbacks com imagens da noite do crime: fatores que demonstram que o programa global não está interessado em conforto emocional. Trata-se de televisão, não de consultório psicológico.

A serenidade da mãe da menina Isabela não resistiria até Patrícia fazer perguntas do tipo “Que boas lembranças você guarda da sua filha?” ou “Como é passar pela primeira vez o Dia das Mães sem a sua filha?” Isso não é coisa que se pergunte a uma mãe numa hora dessas, a menos que se entenda que a vida real é muito chata e não levanta a audiência.
Lição fantástica número 1: há perguntas que só a TV pode fazer sem constrangimentos.

A seguir, a assessoria de Ronaldo viu o Fenômeno sair imaculado da entrevista após o satirizado episódio com três travestis. Depois, veio a entrevista com Ronaldinho Gaúcho: a intenção era levantar o astral do jogador que andava muito bola murcha pelos gramados mundo afora. Mas nada animava o (ex?) craque. Resultado: pela cara de tristeza do jogador, parecia que quem estava arrependido de alguma coisa era esse Ronaldo, e não o primeiro.

Ronaldo não tinha motivos para lágrimas. Ele estava certo, como se pode ver pelo seu estágio atual de ídolo. Ele pode entrar e sair de casamentos com a mesma rapidez com pedala diante dos zagueiros ou posar de biriteiro (sinônimo de brahmeiro) num comercial em plena luz do dia: a imagem dele mal sofre arranhões.
Lição fantástica número 2: se cair, que ninguém descubra; mas se descobrirem, nada que uma entrevista sóbria não levante a gente.

O mais recente entrevistado foi o ator Fábio Assunção. Saído de uma internação por uso grave de drogas, Fábio encarou com extrema dignidade uma entrevista que poderia ter sido um show de melodrama. Logo no começo, ele responde sobre sua saída repentina de uma novela (Negócio da China) em andamento. Ele começa a falar, mas para, hesita, será que vão brotar algumas lágrimas? A câmera, que não pode ver ninguém ameaçando chorar, já inicia o habitual processo de zoom no rosto do ator. Em vão: Fábio Assunção retoma sua fala com tranqüilidade.

A entrevistadora perguntava sobre o apoio que o ator recebeu nos momentos difíceis, pois lembrar de amigos e parentes nessa hora é um convite às lágrimas: nada; perguntava sobre qual o momento mais difícil, pois lembrar da luta pessoal contra a tragédia das drogas faz qualquer artista chorar: nada. Pedir para ele dar uma mensagem para as pessoas que querem sair do inferno das drogas: Fábio, com o semblante tranquilo, disse que, se a entrevista servisse como um incentivo para alguém abandonar o vício, ele se sentiria satisfeito. Não tinha musiquinha, nem close, nem pergunta íntima que fizesse o ator se derreter. Os produtores do programa devem ter pensado: "Que cara durão! Será que ele chora só em novela?"
Lição fantástica número 3: quando o crime e o castigo são públicos, o arrependimento e a coragem de dar a volta por cima podem ser mostrados publicamente como exemplo.

Na época em que Isabela Nardoni foi morta, outro crime semelhante ocorreu na periferia de uma grande capital. Onde estavam os pais, quem era a criança assassinada? Não houve entrevista. O drama telefilmado parece reservado às famílias das classes econômicas mais abastecidas: abastecidas com entrevistas, repórteres e lições. Para eles, a companhia de Patrícia Poeta. Aos pobres, restam os rugidos ameaçadores de José Luiz Datena.

Todos os dias, muitos têm suas vidas assoladas pela morte ou pelas desastrosas consequências do envolvimento com drogas. Mas esses são anônimos, não têm rosto, são invisíveis; e não há nenhuma mão de jornalista para os amparar, não são um caso exemplar, não foram convidados para a festa midiática armada pra nos convencer. Para outros, quase sempre ricos, bem-sucedidos e famosos, há sempre o close de uma câmera nos olhos marejados por muitas e sinceras lágrimas.

11 setembro, 2009

a voz na música sacra

Há um tipo de voz conhecido como “voz pequena” que define tanto a incapacidade de cantar em alto volume quanto a atitude consciente de cantar com economia de recursos vocais. Vou tratar aqui do segundo quesito.

Desde a bossa nova, o canto sussurrado de João Gilberto tornou-se um paradigma de interpretação para a música popular brasileira. Tirando os descendentes diretos dessa maneira de cantar, como Chico Buarque, Caetano Veloso e Nara Leão, outros cantores foram profundamente influenciados pelo modo bossanovístico de emissão vocal. Roberto Carlos, por exemplo, é um dos raros cantores românticos que não se esgoelam. Mesmo nos tempos do rock da Jovem Guarda, ele cantava e dirigia “nas curvas da estrada de Santos” com a maior calma.

Esse jeito mais despojado de cantar era característica de intérpretes estangeiros do naipe de Mel Tormé, Billie Holliday e Julie London. Nos últimos anos, essa tradição da voz pequena, como nota o jornalista Sérgio Martins (Veja, 2/9/09), se ouve no canto da brasileira Fernanda Takai e da americana Madeleine Peyroux. Essas cantoras dão uma interpretação contida às canções. Em seu canto não há excessos: como um bom editor (ou produtor), elas cortam as arestas e deixam apenas o que é necessário para que melodia e letra revelem seu sentido mais preciso.

O que esse retrospecto simplificado da performance vocal secular tem a ver com a música cristã contemporânea? Tudo. Os cantores evangélicos não inventaram nenhum modo de cantar. Ao mesmo tempo em que suas interpretações estão fundamentadas em sua própria concepção do que seria a voz ideal para determinado estilo musical, essas interpretações também estão calcadas quase inevitavelmente nas performances dos cantores seculares.

No Brasil, quais são os modos de performance que influenciam os cantores evangélicos?

Desde os anos 90, a forte penetração da música pop no meio evangélico diversificou tanto os gêneros musicais quanto os estilos de performance.

Para melhor explicação, voltemos à música popular. A cantora Elis Regina tornou-se também um paradigma vocal. Entretanto, apesar da alta qualidade de muitas de suas interpretações, Elis não raro enveredava pelo caminho do canto expansivo, colocando a lágrima e o riso na voz , teatralizando a canção, pois tudo convinha ao seu modo interpretativo quase sempre transbordante. Seria o oposto da interpretação límpida de cantoras como Gal Costa e, pra citar um exemplo recente, Roberta Sá.

Não é difícil notar que o estilo Elis de interpretação tinha muito da “entrega” performática dos artistas da soul music, do rythm and blues. A cultura gospel americana repercutiria profundamente na figura de intérpretes americanos como Aretha Franklin, Elvis, James Brown ou Whitney Houston, e alguns intérpretes brasileiros assimilariam essa influência na forma do canto expansivo, na teatralização do canto, no “cantar vivendo a letra da música”.

As igrejas cristãs brasileiras não abdicaram dessa maneira de cantar. Para citar exemplos: Alessandra Samadello e Leonardo Gonçalves são cantores cujas performances revelam altos indícios da forma expansiva de cantar. Regina Mota, em seus CDs solos, representaria, de outro lado, a contenção da performance vocal. Intérpretes ligados a igrejas protestantes históricas, como João Alexandre e Gérson Borges, preferem a voz contida das performances da MPB (Os intérpretes do rock ou do rap gospel ficarão para um segundo texto sobre o assunto).

Fique entendido também que os cantores que apresentam forte contraste de performance vocal entre si não são superiores uns aos outros, embora possamos ter preferência pessoal por este ou aquele. A personalidade de cada cantor, a percepção das exigências de cada canção e gênero musical, os registros de extensão de cada voz (se soprano, mezzo ou contralto, se tenor ou barítono), tudo isso faz parte da diversidade natural dos grupos religiosos.

Por outro lado, é difícil negar que há momentos (nos cultos, por exemplo) que demandam uma forma mais contida de cantar e que o canto excessivamente teatral sobrecarrega a canção, a qual, geralmente, já apresenta elementos dramáticos na letra e na melodia. A atenção da congregação acaba sendo dirigida ao gestual, às expressões faciais exageradas, ao maneirismo vocal. Há cantores que precisam aprender que, também na adoração, menos é mais.

Uma referência de muitos admiradores da voz são as cantoras norte-americanas. Não as cantoras do jazz, mas as estrelas do pop radiofônico. As musas do momento são Mariah Carey e seus hiperagudos, Celine Dion e seus gorjeios melodramáticos, Beyoncé e seus melismas apaixonados. Essas três cantoras, donas de um talento vocal insuspeito, são os rouxinóis inspiradores da filosofia American Idol: grito, logo existo. As divas do american brega motivam os e as concorrentes dos programas televisivos de cantoria de anônimos.

Por mais divertidos que possam ser tais programas, e até mesmo reveladores de talentos genuínos, a insistência na fórmula agudo-melismático-meloso gera clones que satisfazem a audiência, mas produzem o mal do novo século: o maneirismo melodramático. As novas gerações de espectadores acostumaram-se a tal ponto com esse modo de cantar que chegam a renegar os cantores que apresentam uma forma contida de interpretar.

Como já ressaltei, não quero dizer que só exista uma forma de cantar. No entanto, quando os fãs de música gospel assoviam e entram em histeria coletiva na hora em que seus cantores prediletos dão seus gritinhos apaixonados-por-Jesus, não seria hora de repensar o quanto a interpretação excessivamente teatralizada tem contribuído para estimular um comportamento cada vez mais semelhante ao das plateias de espetáculos pop? Ou estariam as novas congregações criando expectativas de performance sacra com base em sua escuta de ídolos da música pop?

09 setembro, 2009

II guerra mundial: 70 anos em 7 filmes

Quem tem mais de 30 anos aprendeu na escola que a II Guerra Mundial (1939-1945) foi uma guerra necessária que uniu as nações democráticas contra o nazi-fascismo, uma guerra cujos veteranos desfilam orgulhosamente nos dias cívicos, enfim, uma guerra justa do Bem contra o Mal. Claro que não foi só isso.

Na época, o cinema foi convocado a alistar-se como soldado-propaganda dos países aliados. Ao relembrar que a II Guerra teve seu início há 70 anos, relembro também 7 filmes, mesmo sabendo que essa guerra inspirou um número de filmes igual a setenta vezes sete. A seguir, um recorte temático com os filmes escolhidos:

A propaganda de guerra

Rosa da Esperança (1942) é um melodrama elegante sobre uma família inglesa aprendendo a conviver com a guerra. Seus personagens, em especial a matriarca, Sra. Miniver, enfrentam suas perdas com altiva perseverança, comovendo o público e levando-o a encampar o esforço de guerra. Até o presidente Franklin Roosevelt, percebendo a força da propaganda, pediu para o que lançamento do filme fosse antecipado. Filme correlato: Sargento York (1941), embora biografasse um herói da I Guerra, a combinação de virtudes morais e conflito bélico atendia aos anseios de defesa da liberdade.

A contrapropaganda

Os Melhores Anos de Nossas Vidas (1946): um ano após o fim da guerra, Roliúdi contabilizava os ganhos – filmes de guerra eram sucesso garantido -, mas já relacionava os danos. Enquanto os EUA oficialmente comemoravam o triunfo militar, esse filme retratava um período conturbado da vida dos recém-chegados da guerra: o reajustamento à vida comum - oficiais que têm comandar uma casa e não mais um exército, soldados vitimados pela amputação. Com honestidade e maturidade, o filme toca em seqüelas psicológicas e sociais que a sociedade ufanista teimava em esconder. Pra completar, esse filme é do mesmo diretor de Rosa da Esperança, o grande William Wyler, capaz de variar a mensagem com o toque certo.

As mentiras da guerra

Katyn (2007) também é o nome da floresta onde quinze mil oficiais poloneses foram enterrados quando a guerra mal começara. Durante décadas, o governo da extinta União Soviética, que dominou a Polônia até os anos 80, creditou a autoria dessa chacina aos nazistas. No entanto, a verdade assombrosa era que os soviéticos tinham sido os reais autores do crime. O diretor Andrzej Wajda, cujo pai foi assassinado naquela floresta, reconstitui a história com sobriedade e rigor técnico desde o início das tragédias familiares até o final devastador. Aqui, imagens do massacre.

As verdades da guerra

A Conquista da Honra (2006): O confronto mundial tinha estratégias heróicas e retiradas fragorosas. Mas tinha também muita encenação. Se todas as mídias foram alistadas no esforço de guerra, a imprensa era peça-chave para manter bem alto a moral das tropas. O cineasta Clint Eastwood desmistifica uma imagem publicitária que por muito tempo incentivou o ufanismo bélico: a bandeira norte-americana erguida por soldados no topo de uma montanha. A bandeira, querido símbolo da terra, é vista como uma idealização falsificada que serve a propósitos comerciais e políticos, que vende jornais e garante cargos. Uma cena: a reconstituição fake do levantamento heróico da bandeira encenada num estádio para milhares de pessoas.

O homem que começou tudo

A Queda – Os últimos dias de Hitler (2004): na verdade, Hitler foi o estopim de uma situação sociopolítica humilhante criada pelos vencedores da I Guerra Mundial (1914-1918) que deixou a Alemanha subjugada nos campos econômico, político e militar. Nesse cenário propício para o aparecimento de um ditador investido de promessas tão radicais quanto messiânicas, Hitler ascendeu ao poder com imenso apoio público. O próprio cinema alemão encarregou-se de corporificá-lo com doses de realismo que incomodou a muita gente por retratar Hitler como um homem, e não como o demônio racista e imperialista como sempre disseram. Filme correlato: O Grande Ditador (1940), em que Chaplin satiriza todos os ridículos tiranos, mais especialmente Hitler.

A resistência

Roma Cidade Aberta (1945) mostra uma cidade lutando contra o exército inimigo com as únicas armas que lhe restam: a solidariedade e a abnegação em prol da liberdade. Representada por uma mãe coragem, um padre defensor dos direitos e um jovem grupo de resistentes, a cidade italiana é pano de fundo também para uma revolução estética. Com parcos recursos, atores não-profissionais e uma câmera movimentada, o filme inaugurou o neorrealismo, em que a simplicidade técnica estava a serviço da denúncia das mazelas sociais. Filme correlato: Ladrões de Bicicleta (1949) é o lado mais sentimental da revolução neorrealista.

De quem é a culpa?

O documentário francês Noite e Neblina (1955) foi o primeiro filme a enfocar o Holocausto. Utilizando imagens de arquivo que registraram as atrocidades nazistas contra os judeus, o diretor Alain Resnais alterna essas cenas absurdamente cruéis com imagens dos crematórios e campos de concentração, alterna o preto-e-branco de corpos jogados em covas coletivas com imagens coloridas das câmaras de gás vazias. O diretor procura os oficiais nazistas que perpetraram tamanho horror e ouve a mesma resposta deles: “Não sou o responsável”. Mas então, de quem é a culpa? Com apenas 32 minutos de duração, sem fotografia edulcorada, sem música lacrimogênea, esse filme deixa na mente a indignação e, principalmente, a avaliação de que um grupo social pode ser vitimado por meio do poder político e com a cumplicidade da maioria da população.

04 setembro, 2009

para ler descansando

Bravos leitores do Nota na Pauta: feriado de Independência chegando, espírito de descanso 10, espírito cívico 0. Deixemos nossos labores por um tempo e espreguicemo-nos à sombra - alguns vão preferir o sol, eu sei. O blogueiro do lá de cá volta às postagens na quarta-feira, dia 9. Até lá!

Aproveito para indicar textos anteriores:

Para o sábado, uma reflexão: Por falar em música e religião

Para o domingo, uma questão: Everybody loves iPod

Para a segunda-feira pátria, só rindo: Notas semínima noção

01 setembro, 2009

José Saramago, sentimental e hormonauta

Não digo que Saramago é um mau escritor. Mas na maioria das vezes ele é ilegível. Sua prosa encharcada de ironia, suas frases prenhes de sabedoria universal, suas descrições entrelaçadas de mordacidade e desilusão são, assim como os adjetivos que alinhei, bastante cansativas por que ele mantém o estilo da primeira à última página. Tirando As Intermitências da Morte, mal consegui ultrapassar a página 100 de outro livro do escritor português.

De livro em livro, o estilo se repete. Não há travessões nem aspas para separar os diálogos - a ele lhe basta a fluidez da vírgula, dirão seus admiradores-sem-fim; suas histórias reencenam moralidades que, se ditas por um homem de religião, seriam escanteadas como coisas de uma mente canhestra e conservadora. Claro que deve haver livros interessantes e certamente geniais na obra do escritor fora aquele que já citei. Mas não é sempre que me deixo iludir.

José Saramago, o escriba das páginas sem ponto final, o escrevinhador de prosopopeias e fábulas premiadas, é um sentimental. Como é que é, indagará seu fã calouro de Sociologia, isso não é possível, dirá sua fã matriculada nas oficinas vespertinas de antroposofia no casarão histórico. Sim, e não é pelo seu choro desabrido ao final da projeção de Ensaio sobre a Cegueira ao lado do cineasta Fernando Meirelles. A razão de ser sentimental tem a ver com sua incansável diatribe contra Deus.

Em seu livro mais recente (será lançado em outubro), Caim, Saramago encontra uma justificativa teologicamente incorreta para redimir o assassino de Abel. Posando de advogado de Caim, Saramago distorce o contexto da história bíblica e denuncia a Deus como o mentor intelectual do crime por ter desprezado o sacrifício de Caim.

Mas não é um sentimental, esse Saramago? Que escritor de bom coração! Ele diz também que a Bíblia é um livro forjado, que Deus é uma divindade inventada, que o bem e o mal são coisas da nossa cabeça, que os religiosos são gente escrava de suas invenções e necessidades espirituais. Continua sentimental. Veja como no meio desse povo que pesquisa as culturas, que observa os partidos políticos, que analisa a História, há gente que fragmenta seu objeto de estudo para não confundir as diferenças (ótimo), há gente que põe todo texto no seu devido contexto (maravilha), mas na hora de falar de Deus e religião perde as estribeiras e desanda a descontextualizar, a confundir, a generalizar, a dizer que Deus é invenção de César.

Há algum tempo, li um comentário que passava a régua na religião e afirmava que os cristãos são uns nazistas por que separam entre salvos e perdidos, justos e injustos. Na Bíblia, está escrito que esse julgamento quem fará é Deus, o Justo Juiz, e que há um Mediador entre Ele e os seres humanos que viveu na pele a humanidade, Jesus. Felizmente, não serão nem os ateus nem os cristãos que julgarão o caráter e a fé do homem. Porém, a raiva sentimental obscurece a mente que deixa de interpretar corretamente a Bíblia e não vê que eram os nazistas que segregavam os judeus, os ciganos, os não-arianos, enfim. E não tinha essa de judeu bom ou judeu malvado. Bastava ser oposição e pronto, extermínio nele. Ressalto que o comentarista mais tarde reconheceu o exagero.

Em dezembro de 2008, Saramago disse que seu comunismo era uma "condição hormonal". Estão aí os registros do passado de destempero "hormonal" na Rússia, na China, no Leste Europeu. Lembra da fábula do escorpião que convenceu o sapo a levá-lo ao outro lado do rio? Apesar de ter prometido que não usaria seu ferrão traiçoeiro, eis que no meio do rio, o sapo, vítima da peçonha, ainda pergunta, no estilo sem-aspas, Por que você fez isso se vamos morrer afogados os dois, e o escorpião responde, Não pude evitar, é minha natureza.

Ser comunista por opção política é uma coisa, mas ter o comunismo inscrito nos hormônios é a escravidão de verdade. Depois dizem por aí que a religião é resultado de ignorância e que o ateísmo é uma escolha natural dos mais inteligentes. Isso não é obra de Marx, mas sim de um Mad Marx.

Saramago, com suas respeitáveis cãs, navega nas inquietas águas dos seus hormônios, é um sentimental hormonauta. Alguém escreveu que o crente em Deus está na infância do pensamento humano. Claro que os esclarecidos adultos seriam os ateus, né? Se for para generalizar, cá pra mim, penso que o descrente na existência de Deus, na verdade, é como aquele adolescente que se revolta contra regras e autoridades e acha que já sabe tudo, embora viva repetindo orgulhosamente que só sabe que nada sabe.

C. S. Lewis escreveu que, em termos de religião, a humanidade se divide em duas categorias: aqueles que dizem, Senhor, seja feita Tua vontade, e aqueles para quem Deus se vê obrigado a dizer, Está bem, faça do seu jeito, então. Sei que há muitos que, por se acharem os porta-vozes da vontade de Deus, desprezam, odeiam e até matam. Mas estes também estão agindo segundo a própria vontade. Por outro lado, quem escolhe consciente e deliberadamente agir como Caim, poderá sempre, mas não para sempre, recorrer aos auspícios do advogado Saramago ou então dizer simplesmente, Foi culpa dos meus hormônios.