23 dezembro, 2007

Djingo béus pra você também!

Entre as mais bizarras adoções culturais brasileiras certamente está o Natal com pinheirinhos, renas, trenó, meia na lareira, e claro, a esdrúxula e escalafobética figura de um velhinho obeso e rosado e risonho vestido de vermelho e branco e calçando botinha Carla Perez. Nessa altura, a criançada já não tem mais tanta empatia com o bom velhinho e sabe de sua origem pelas mãos lucro-criativas da Coca-Cola. O que, a bem da verdade, fez perder um bocado da graça que o Santa Claus tinha por essas bandas. Este mesmo escriba hyperlinkado que lhe atazana o fim-de-ano possui uma foto de infância com figurino e barba noelinas, sabe-se lá a peso de que chantagens...

Ex-habitante da Lapônia, eis que a indústria da publicidade natalina espalhou o rechonchudo presenteador por quase todos os rincões do planeta (se alguém souber de um Noel palestino, me avise), o que faz a gente pensar como será o Natal e o Papai Noel na Etiópia, no Pantanal, etc. Na Venezuela, o único adulto com gorro vermelho ainda deve ser o Chávez.

Se o seu Natal será à base daquele disco de harpa tocando canções natalinas, console-se sabendo que, dependendo da idade que você tem, a vida do homem possui 4 fases: na primeira, ele acredita em Papai Noel; na segunda, ele não acredita em Papai Noel; depois, ele é o Papai Noel; por último, ele se parece com o Papai Noel.

Fazendo arcaicos e sinceros votos de um feliz você nesse Natal, confira texto de Leonardo Martinelli sobre o estranho Natal musical nos Trópicos aqui.

20 dezembro, 2007

Troféu MAXIGOIABINHA de 2007

Do troféu MaxiGoiabinha: dá pra levar a sério uma companhia aérea que rende 1 bilhão de dólares a cada irmão Constantino e cujo cardápio dos passageiros é uma barra de MaxiGoiabinha? A TAM e a GOL poderiam fazer melhor, todos sabem. Mas ao distribuírem aquela rala barrinha de cereais, estavam sinalizando o tratamento que dariam aos passageiros durante o ano.

O MaxiGoiabinha também representa o ridículo da situação para uns (comer aquela barra grudenta sem Corega Taps é um risco) e o sinal dos novos tempos para outros (todos os passageiros podem exercer democraticamente sua cidadania e partilharem juntos da ceia aérea com resignado bom-humor).
Desde já, não ofenda quem lhe injuriou nesse ano, não lhe jogue uma torta no rosto. Só lhe dê gentilmente um MaxiGoiabinha. Veja algumas categorias do Troféu MaxiGoiabinha e depois participe da nossa enquete:

Música: quando o último disco lançado não vende mais como antes, é hora de usar a seguinte tática: a banda pode anunciar que já é tempo de separar os trapinhos e fazer como Sandy e Junior, que passaram o ano fazendo lucrativos shows de despedida; ou anunciar a volta dos que não foram, quer dizer, reunir os antigos companheiros sessentões, reforçar o plano geriátrico da banda e ver até onde vai a fidelidade dos fãs. Como Michael Jackson, cuja gravadora já dá como certa a volta do Jackson Five. Michael Jackson já até iniciou tratamento para voltar a ser negro.

Moda: a maior prova de que a seleção brasileira reencontrou seu melhor futebol é que ninguém mais presta atenção na roupa do Dunga à beira do campo. Nem quando ele vai ao gramado trajando o uniforme do Corpo de Bombeiros (à direita, em passo de ganso). Agora, a seleção pode ser vaiada, mas seu figurino passa ileso.

Lula também ganhou uma trégua das vaias populares. Seja ao receber a presidente da Argentina, Cristina Kirchner e seu figurino tragicômico (só faltou um poodle pra combinar com o sapato e a bolsa) ou ao desfilar na parada de 7 de setembro ao lado de Dona Marisa e seu vestido.
Pode acreditar: é impossível vaiar e ficar boquiaberto ao mesmo tempo.

Os últimos durões: a Europa não tem feito bem a Felipão. O Centro de Tradições Gaúchas identificou uma clara delicadeza de movimentos na tentativa do técnico de agredir aquele jogador sérvio.
A globalização não poupa nem mesmo o empoeirado terrorista. No último vídeo que enviou ao Ocidente, qualquer um pode notar que Bin Laden tingiu as madeixas com a loção Grecin 5. Isso é que é contra-propaganda!

Onde está a honestidade?: era o que perguntava a canção de Noel Rosa nos anos 30. Em 2007, a honestidade foi artigo raro na vida pública do país (não que a honestidade seja um bem particular de todo brasileiro) e a fraude esteve na ordem do dia. Farsa do leite longa vida, do anticoncepcional, do exame anti-doping, do gado milionário, do brinquedo da Mattel. O governo está cuidando para que a população não fique alarmada com uma possível epidemia de fraudes.

Eu vou tirar você desse lugar: como dizia o refrão de Odair José nos anos 70, as esposas e amantes (ambas oficiais) nunca se esforçaram tanto pra tirar os políticos de seus postos. Que o digam Don Renan e suas duas mulheres.
As ex-mulheres, no melhor estilo Nicéa Pitta, também não deixaram por menos. A última é Rosane Collor. Atenção, ex-maridões sovinas! Quando ex-mulher começa a dar entrevista é que a pensão tá pouca.

Você não tem esportiva: como Galvão Bueno anda sem motivação pra narrar a Fórmula 1 (pois quando o carro de Felipe Massa enguiça, francamente, não tem a mesma graça do Barrichello), o locutor se põe a melhorar os verbetes do Aurélio. “Queijo cremoso numa caixa de madeira: isso é o cérebro”, definiu o enciclopedista global.
Por sua vez, os chefões resolveram assumir a definição “o circo da Fórmula 1” e puniram levemente a MacLaren da farsa (mais uma) da espionagem industrial, mas absolveram os pilotos, como se pode ver na foto.

Mensagem de fim de ano: quando teu adversário levantar a voz contra ti, se te sentires ofendido em teus princípios por causa da voz de quem te calunia, não temas. Sê audaz e ergue tua voz, dizendo, então: “Por que no te callas?”

E você? Quem você acha que merece o Troféu MaxiGoiabinha do ano?

A ANAC e as companhias aéreas?
Marta Suplicy, porque só pensa naquilo?
Renan Calheiros, mesmo sem a loção contra calvície de Romário?
Mônica Veloso, porque é dos carecas que ela gosta mais?
Hugo Chávez e Evo Morales, dupla-sensação do mau-humor latino?
O Senado, pelo conjunto da obra?
O Corinthians, que jogava na 1ª divisão quando a TV era analógica?
Casal Hernández, protagonistas de Por um Punhado de Dólares?
Outro?

07 dezembro, 2007

American Brega


Apesar dos avisos da crítica, tive que assistir a Dreamgirls por uma razão acadêmica. Após o “the end” do filme, fiquei pensando porque raios me recomendaram vê-lo. Talvez eu tenha me confundido e quem me receitou esse filme era um sádico querendo que eu experimentasse uma sessão (da tarde) de tortura, ou um dos doutores da alegria tratando meus humores com essa comédia involuntária, ou era apenas uma prova de paciência que me ensinasse a suportar biblicamente a leva de canções ruins do filme.

Torturado pela chatice do enredo, rindo dos sérios intérpretes musicais e suportando a monotonia das canções. Explico.

Quando o filme começa, somos pegos pela fotografia de cores fortes e pelo enquadramento do show mostrado. Porém, a seguir, percebemos que quase todas as cenas cantadas têm a mesma obsessão por cores berrantes (principalmente com aquela luz azul sobre o intérprete). A história, bem, que história? Os eventos se sucedem com elipses mal-feitas que tentam explicar as decisões dos personagens, os quais têm a profundidade psicológica de um prato de restaurante self-service.

Mas o pior não é a história contada como um enredo de escola de samba. É certo que o filme parece um carro alegórico desajeitado num daqueles desfiles que só vejo nas reportagens pós-carnaval dos telejornais. Não é o samba do crioulo doido, na expressão politicamente incorreta de Stanislaw Ponte Preta. É a black music do crioulo doido. E aqui está a razão pela qual me recomendaram o filme e também a razão pela qual eu não posso recomendá-lo: as canções.

Em geral, o musical americano sempre foi uma adaptação cinematográfica dos musicais de sucesso da Broadway. Os compositores eram do quilate de Jerome Kern, Richard Rodgers, Cole Porter e até Leonard Berstein (Amor Sublime Amor – 1961). Muitas das melodias sabiam acompanhar as emoções do filme e, mesmo quando o personagem apaixonado de repente sapateava na chuva, ou uma governanta ensinava a escala musical aos sete filhos de um ricaço, percebia-se a exuberância melódica, a harmonização inteligente. As letras, que perdiam a qualidade nas legendas em português, eram criativas, com uso de aliterações, rimas surpreendentes e adequação à melodia. Loerenz Hart, Oscar Hammerstein II, Stephen Sondheim, eram alguns dos letristas geniais. Pode-se não gostar da ingenuidade de A Noviça Rebelde (1965), mas as músicas são inegavelmente belas (verifique a poesia da canção “Sound of Music” ou a delicadeza afetiva de “Something Good”).

O musical esteve adormecido durante os anos 80 e 90 para ressurgir no século XXI. Porém, Dreamgirls não tem nem as doloridas canções de Björk em Dançando no Escuro (2000) nem a inventividade de Moulin Rouge (2001). Também não possui a qualidade musical dos anos 50 (e olha que tem por base uma das mais fecundas criações musicais, o soul e o som da Motown) e as letras são de um primarismo constrangedor. Animações da Disney, como A Bela e a Fera e Aladdin, têm letras muito melhores.

As interpretações seguem o modelo filosófico American Idol: grito, logo existo. Isto é, quanto mais berros melismáticos, mais a audiência sobe. Jennifer Hudson, uma participante desse reality show que é uma encarniçada disputa pelo gogó de ouro, ganhou o Oscar de interpretação (?!), o que já nos revela o “nível” de seu trabalho. Assim, vence o padrão Beyoncé Knowles: aquele de muita potência vocal e nenhuma qualidade musical. Se bem que isso vem desde a escola Mariah Carey, aquela escola onde a miniatura artística é simetricamente proporcional ao tamanho das peças do vestuário.

Beyoncé, que, umpf, atua no filme, tem sua oportunidade de estar nesse veículo que também pode ser o eternizador do tosco que é o cinema e não desperdiçou a sua vez de entrar no hall do American Brega (voltarei ao tema noutro dia). Fazendo o papel da cantora de voz apagada que é elevada a condição de musa pop por causa do rostinho e do corpinho, a ironia é que esse é o papel que a própria Beyoncé desempenha na realidade como representante de uma música chata e pasteurizada, exclusiva para o estímulo de hormônios e não de neurônios.

São tantas as canções e poucas as emoções que não consigo me lembrar de uma sequer pra servir de exemplo didático. Só lembro que são uma tentativa de reviver a black music da Motown, aquela gravadora que ficou famosa nos anos 60 por revelar o talento de Diana Ross, Marvin Gaye, Stevie Wonder e os Jackson 5. Não posso dizer que a tentativa foi bem-sucedida. Os personagens, talvez por medo da indústria americana do processo judicial, foram elaborados, ops, rascunhados levemente nas figuras musicais reais da gravadora. Mas, assim como as canções, mal chegam a ser clones de uma época.

Dessa forma, pelo extremo mau gosto e por sua incapacidade de oferecer um mínimo de força visual ou narrativa, o filme perde a chance de retratar um período histórico e também de rememorar com qualidade artística o estilo de sucesso da Motown. Em suma, é um musical que perdeu a chance de ficar calado.

02 dezembro, 2007

Kaká e a religião do futebol


Se a guerra, segundo Clausewitz, é a continuação da política por outros meios, o futebol seria o prosseguimento da religião em nosso meio. Noves fora a politicagem contumaz que assola a organização desse esporte no Brasil, o futebol pode ser explicado como a religião com o maior número de fiéis no país.

Se o futebol é a religião, os times são as múltiplas denominações. Com a diferença de que o crente vai de uma denominação a outra, enquanto não se conhece quem troque de time com a mesma facilidade. Aliás, diz-se que o torcedor pode trocar de religião, de cônjuge e até de sexo, mas nunca trocará de time.

Assim como a maioria dos religiosos pouco se dá ao trabalho de conhecer a história de sua igreja ou estudar a fundo suas doutrinas, o torcedor (e boa parte dos jogadores também) mal conhece a história do esporte, suas regras ou seus direitos. No máximo, sabe de cor a escalação de um grande time do passado. Em geral, o torcedor fanático age como um fundamentalista religioso: ele logo esquece os erros do passado do seu time em prol das ações de sua equipe no presente, exibe sua paixão usando camisas, bonés e acessórios da equipe, seu time sempre está com a razão e, além de exigir vitórias o tempo todo, quer mais que o adversário se dê mal.

Esse último ponto é a marca do fiel torcedor (e secador): não basta ganhar do adversário. É preciso humilhá-lo, arrasá-lo, quase exterminá-lo. Digo quase, porque, no fundo, o torcedor de um time precisa do rival para que as partidas sejam épicas. É costume um time em baixa levantar-se justamente com uma vitória sobre o rival. Nesse caso, até o anoréxico 1 X 0 se torna um triunfo acachapante.

Se há religiosos que procuram acomodar equilibradamente sua cosmovisão religiosa, há aqueles que, em nome de não importa o deus ou deuses, subjugam violentamente qualquer um que não torça para a mesma fé, ou que não reze para o mesmo time. Esses costumam digladiar-se furiosamente na defesa de suas paixões clubísticas/doutrinárias, com saldo negativo para ambos os lados.

Mas será por causa dos fundamentalistas, dos criminosos eclesiásticos, dos pastores lobistas no Congresso, das ovelhas aliciadas pelo marketing religioso, por causa disso, a religião (ou o futebol) em si mesma é um erro, uma anomalia ultrapassada? Ora, não é esse um dos arrozoados de sempre do ateísmo e que hoje faz a fama de Richard Dawkins e Christopher Hitchens, apóstolos do proselitismo ateísta, o qual defendem, bem, religiosamente?

E o que Kaká tem a ver com tudo isso? É que o jovem craque eleito melhor jogador do ano é religioso e futebolista, e o é de uma forma pouco celebrada pela mídia. Kaká, no futebol, não é de cair na balada, não faz declarações de auto-promoção, não troca de namorada a cada estação, não teve uma infância pobre como a maioria, não é “maloqueiro”. Tem opiniões firmes sem ser agressivo. Em suma, mais parece um jogador europeu do que um típico boleiro brasileiro. Além disso, é boa-pinta – Maradona dizia de Beckham, “como alguém pode ser craque com essa carinha?” – e disciplinado.

Como religioso, Kaká é membro de uma denominação evangélica. Ou seja, num país de maioria católica, o craque veste a camisa de outra fé. E como a mídia põe num mesmo caldeirão toda igreja evangélica, em geral apresentada como um bando de fanáticos fundamentalistas em transe que grita nas ruas e nos templos-armazéns, Kaká também é visto com desconfiança.

Nesse aspecto, Kaká também parece diferente. Em certa entrevista, revelou sem grito que seu livro preferido é a Bíblia, lendo inclusive sua passagem preferida. Casou virgem, mas não fez disso um palanque promocional. Quer ser pastor quando encerrar a carreira de jogador, mas já adiantou que deve estudar teologia para conhecer os dogmas e doutrinas. Ele não se parece com aquele típico atleta de Cristo que se envolve em confusões dentro e fora do campo ou com aquele evangélico que só tem um assunto. Como já declarou, tem consciência do quanto é difícil ser fiel hoje em relação a princípios escritos há milênios.

Assim, como Kaká faz o estilo que os cínicos apelidam de “certinho”, o jogador não tem o perfil que as páginas sociais adoram e que muitos colunistas esportivos exaltam. Exemplos podem às vezes desapontar; talvez seja melhor seguir bons valores. Mas não seria ruim se o estilo Kaká fosse mais celebrado pela mídia.