20 dezembro, 2006

O TODO-PODEROSO

Há algum tempo me contaram uma história sobre um homem dos tempos do Velho Testamento que era tido como fiel e temente ao Deus Jeová. Certo dia, esse homem recebeu em sua tenda um viajante cansado e idoso, como são descritos alguns homens do Livro do Gênesis. Mas, como um desses homens do Gênesis, o viajor era também um homem de fibra e vigor, o que ficou claramente demonstrado quando, numa conversa com o anfitrião, contestou a existência de Deus, o Deus ao qual o senhor da tenda era leal. Irritado com a recusa daquele ancião em acreditar no Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, o anfitrião, também um homem de fibra, demonstrou claramente o seu vigor expulsando o hóspede de sua tenda e rogando-lhe uma dezena de pragas.

À noite, Deus veio em sonho até o homem que acreditava nEle e lhe disse: "Meu filho, você julgou e condenou aquele ancião em uma noite. Durante 80 anos aquele homem tem Me negado, Me vilipendiado com seus atos e palavras, mas Eu não tirei o seu direito à vida."

Após assistir o filme Todo-Poderoso, essa história me veio à mente. Durante 100 anos, os cineastas têm criado as mais diversas imagens do Deus dos cristãos, e Hollywood, por enquanto, segue intacta. O conceito que o cinema faz de Deus assume todas as formas e os mais variados propósitos. Ora evangelístico em Rei dos Reis e A Maior História de Todos os Tempos, ora kitsch em Os 10 Mandamentos, irônico em O Céu Pode Esperar, emocionalista em A Paixão de Cristo. Ou ainda ser atacado como o próprio anticristo, como foi o caso de A Última Tentação de Cristo (embora eu creia que anticristo e anticinema tenha sido Alanis Morrissette como Jeová em Dogma).

Todo-Poderoso assume um conteúdo inédito até então: Deus fazendo compreender Sua onisciência e divina providência através do arrependimento de um pecador. No caso, o pecador contumaz é vivido por Jim Carrey, um comediante segundo o coração de Hollywood, ora transgredindo em Debi e Lóide ora redimindo-se em O Show de Truman.

Roteiristas não são os melhores estudantes da Bíblia, e isso transparece no incômodo tom de paródia do início do filme. Mas essa impressão vai se desfazendo ao longo da história, seja porque os personagens abrem o coração em sinceras orações e não por meio de rezas e vãs repetições, seja porque há reconhecimento dos erros, arrependimento e mudança de atitude do personagem principal, seja porque grandes verdades podem ser reveladas também em certas alegorias cinematográficas.

O filme toca numa tentação recorrente na história do homem: a pretensão humana de achar que faria tudo melhor do que Deus. Assim, ele distribuiria em doses fartas e eqüitativas a riqueza e a saúde, pondo um fim à fome e à violência. Como se os problemas da humanidade fossem apenas de ordem econômica, esquecendo-se da falência moral dos habitantes desse planeta. No conto O santo que não acreditava em Deus, há uma frase desconcertante que diz que o ser humano sempre acha que ser Deus é fácil, “mas não acerta fazer nem uma tabela de campeonato”. E assim segue a velha toada humana: largamos tudo por conta de Deus, e O culpamos por não resolver as coisas ao nosso modo, ou tomamos Seu lugar e tentamos criar um mundo a nossa imagem e semelhança.

Quando o personagem de Jim Carrey se desespera e diz que não tem poder para solucionar os problemas, ele ouve de Deus (na voz de Morgan Freeman): “Sim, você tem poder”. A frase é dita sem afetação, sem o vozeirão tonitruante de Cid Moreira, mas com um afeto e um olhar que transmitem segurança. Quanta miséria e dor poderiam ser evitadas se as pessoas tomassem consciência de que têm nas mãos oportunidades diárias de mudar a sociedade, começando a mudança por si mesmas. Há muita gente que acredita que não tem capacidade de resolver problemas e se afunda na auto-comiseração ou no desperdício. Quando pararmos de amesquinhar nosso tempo, nosso talento e nosso tesouro e aliarmos a capacidade humana ao poder divino, veremos o quanto podemos fazer nAquele nos fortalece.

Por fim, fico com a imagem de Morgan Freeman em Todo-Poderoso: nunca o cinema conseguiu reunir em uma mesma pessoa a sabedoria clara, a soberania humilde, a simplicidade nobre, a bondade sem condescendência. É uma imagem de Deus que eu também tenho comigo.

15 dezembro, 2006

ADEUS, SIVUCA SEVERINO


E mais um Severino se foi. Aos 76 anos, Sivuca, nascido Severino Dias de Oliveira, deixou os bailes e palcos da vida. O nordestino Sivuca, que trazia na sanfona as marcas das vidas secas e severinas, encantou o mundo com choros e baiões, misturando Bach com Pixinguinha, levando a feira de mangaio pra sala de concertos, dando o privilégio de sua albina companhia tanto à Harry Belafonte e Toots Thielemans quanto à Chico Buarque e a Orquestra Petrobrás Pró-Música.

'Adeus Maria Fulô', Adeus Severino, Adeus Sivuca.

SAÍDA PELA DIREITA

O homem não toma jeito, não muda mesmo. Parece que não há menor chance de variação ou sombra de mudança. A última foi a saída pela direita do tenor Roberto Alagna em pleno La Scala de Milão, templo da ópera mundial, quando foi vaiado em cena pelo público extremamente exigente. No dia seguinte, o cantor deu a desculpa esfarrapadíssima de que estava com a garganta seca de emoção por estar no papel de Radamés, da ópera "Aída", de Verdi. É claro que a emoção não o impediu de abandonar a parceira de cena, que ao ver o tenor saindo das luzes da ribalta deveria ter cantado, se conhecesse, o "Não se vá" de Jane e Erodin, ou o "Vá com Deus", de Roberta Miranda.

Quando confrontado com a exigência do público, que estava insatisfeito com algumas declarações de Alagna dadas à imprensa na véspera do espetáculo, o primo signore, versão minha para a prima donna, nem sempre agüenta o tranco e a saída é a de sempre: sutilmente à francesa ou explicitamente pela direita. Alguns reagem vigorosamente, como Sérgio Ricardo, que nos anos 60 atirou o violão numa platéia que o apupava (segundo consta, o instrumento atingiu um espectador que estava aplaudindo o cantor). Ou aproveitam para sermonizar, como Caetano, que nos mesmos anos 60 foi vaiado junto com Gil e fez um discurso atacando as mentezinhas universitárias encharcadas de Mao.

Não é de hoje que o mundo do espetáculo atiça os humores mais primitivos do público. Em 1913, a radical obra de Stravinski, "A Sagração da Primavera", não chegou a bom termo em sua estréia na Paris dos espetáculos transgressores de Satie, Picasso e Duchamp. Às vezes, os próprios cantores tornam-se protagonistas de espetáculos constragedoramente engraçados, como a briga em pleno palco das divas Francesca Cuzzoni e Faustina Bordoni nas cenas de "Astianatte", de Buonocini, na Londres de 1727: na incrível batalha pela supremacia junto ao gosto da platéia uma arrancou a peruca da outra!

O homem e a mulher não mudam mesmo.

12 dezembro, 2006

NO PAÍS DOS FRANCISCOS


Você conhece alguém que não gosta do Chico Buarque? Porque do Caetano... Se este possui todos os predicados para ser odiado na mesma medida em que é amado, o autor de "A Banda" foi bafejado ao nascer pela soma de todas as qualidades. Senão, vejamos:

O homem nasce neto de general e filho de sociólogo, aliás, não somente um sociólogo, mas "o" sociólogo Sérgio Buarque de Hollanda, pioneiro no estudo dos Brasis do homem cordial. Estudante de Arquitetura no Rio, mal sabia tocar violão e aquele imitador barato de João Gilberto vence um Festival cantando e vendo A Banda passar.

Eleito a única unanimidade brasileira da época, passaria de herói a vilão em pouco tempo, o que, tendo por inimigo os generais golpistas só pode mesmo enriquecer um currículo. O moço é imcompreendido pela massa leninista-trotskista-guevarista quando se junta à Tom Jobim e escrevem "Sabiá". E, blasfêmia das blasfêmias, vencem o refrão "quem sabe faz a hora não espera acontecer" de Geraldo Vandré. Júri de festival até quando acerta, erra. Era só eleger a convocação de Vandré que se evitava toda aquela vaia ao maior músico que esse país já teve (você escolhe se é Chico ou Tom).

Depois, casou com Marieta, ficou amigo de Vinícius, andava com Gil e Caetano, escreveu peça censurada, peça infantil de sucesso, romances e letras e canções do quilate de "Apesar de Você", "Construção", O que será", "Vai passar", "Paratodos", "A ostra e o vento","Mulheres de Atenas", ...

Pra completar tem olhos verdes, é tímido, inteligente, enfim, o genro que a sogra quer ter sempre por perto (bem perto, diga-se) e de quem todo homem quer ser amigo (nem que seja pra vigiá-lo).

Por último, no país dos franciscos (Chiquinha Gonzaga, Francisco Alves, Chico César, Chico Science,...), Francisco Buarque de Hollanda da alta roda tornou-se Chico e foi ser o gauche mais certinho do mundo.

04 dezembro, 2006

QUEM COM MENUDO FERE, COM RBD SERÁ FERIDO


A invenção da adolescência: um tema propício para encontros de pais e mestres.
Talvez pior que uma sonífera palestra sobre a invenção da adolescência seja a invenção dos filmes para adolescentes. Foi a sensação que eu tive ao final do filme High School Musical, ou melhor, Rebeldes Americanos com Roupas Mais Comportadas.
Na máquina de videopôker que é a TV e o cinema americanos, a aposta deu certo e eis que surge mais uma franquia. Série que vira cd que vira dvd que vira roupa que vira acessório que vira eterna rolagem da dívida dos pais. Os roteiristas e produtores de um seriado desses ou são adolescentes que desconhecem o termo "orçamento doméstico" ou são pais adultos que precisam inventar um seriado que lhes aumente a receita para que eles possam quitar as despesas que seus filhos fazem ao assistir alguma série adolescente por aí.

Mas não perca os cabelos, pai muquirana! Calma, mãe descabelada! Como vocês ouviram muito Pluct-Plact-Zum e Menudo, agora estão sendo punidos até a quinta geração com Rouge, Rebeldes (o RBD da foto ao lado) e outros congêneres amexicanizados.

O piloto da série High School Musical encerra em seu glorioso roteiro tudo o que um adolescente sempre quer ser na escola mas nunca será por que sua vida não tem uma trilha sonora tão kistch. É claro que ninguém vai levar muito a sério estes enredos com meninos e meninas que descobrem uma voz especial, um talento especial, ao tempo em que desabrocham para as dores dos amores escolares. Quando digo "ninguém" quero dizer nosotros adultos, um bando de zé-ninguéns e vilões no mundo encantado dos teens.

Em relação à história do piloto da série, é óbvio que o casal central vai se desentender, é óbvio que na hora de cantar no teste ela vai amarelar, é evidente que ele vai dar aquela força dizendo "olhe pra mim e cante", é lógico que no palco só tem uma pianista acompanhando a música deles e de repente o playback surge do nada com toda sorte de instrumentos, é claro que o casal coadjuvante que vai perder o duelo musical é bem melhor que o par central, mas na hora que o par central começar a cantar vai lotar o auditório, vão enquadrar rostinhos zero km com aquele ar surpreso e encantado, a vetusta professora vai se entusiasmar em plena sessão de teste e ele, o garoto loirinho e mocinho, vai fazer o último ponto no último minuto na última partida do campeonato de basquete.

O filme é tão enjoativo quanto o último parágrafo aí em cima. Mas não tão enjoativo quanto qualquer filme da Xuxa (que história é essa de anunciar os Xuxa Pictures com um tal de "a nossa rainha"?). Estes filmes, sim, são tão ruins, que devem até engordar.