29 março, 2010

a justiça nos tempos da cólera

Fiz de propósito. Recusei-me terminantemente, como se isso fizesse diferença, a ler qualquer notícia sobre o julgamento do casal Nardoni. Mas foi impossível ficar imune a tamanho bombardeio midiático. Aliás, foi uma retomada da cobertura do caso. O clamor do povo encolerizado, os repórteres sentimentais, os teleapresentadores raivosos espumando indignação, as teleapresentadoras comportadas fazendo carinha de santa compadecida, tudo igual posto que só existe retweet de notícia velha debaixo do sol.

Mas não escapei ileso. Vi uma repórter referindo-se ao momento em que a mãe da menina Isabela, Ana Carolina Oliveira, falou ao júri mais ou menos assim: “Foi um depoimento emocionado, a mãe chorou várias vezes e até uma jurada derramou uma lágrima”. E ainda é preciso ter diploma de jornalista pra falar uma pieguice deslavada como essa!

Não questiono o teor emocional do caso. Afinal, trata-se de uma mãe chorando a perda de uma filha, talvez a maior dor que possa existir.

Mas o que faziam aqueles desocupados em frente ao tribunal? Que imbecilidade foi aquela de levar cartazes (só faltou um dizendo “Galvão, filma nóis”), que sandice era aquilo de tentar bater no advogado de defesa (quero ver quando precisarem de um que os defenda diante da sanha do Estado)?

E ainda: qual é o sentido de comemorar uma sentença de prisão como se fosse um gol de placa da justiça brasileira?

Com todo respeito à memória da menina Isabella, quantas outras crianças são brutalizadas, violentadas, assassinadas diariamente e não se ouve essa “voz rouca das ruas”?

Ninguém queria realmente justiça. Desejava-se vingança. Posamos de pátria de toga e martelo do mesmo jeito que viramos uma pátria de chuteiras na Copa do Mundo. Assim como muitos se descontrolam nos estádios e diante da TV pelo time de paixão, muitos torciam no julgamento como se fosse uma decisão de campeonato. Foi o Gre-Nal da justiça, foi o Fla-Flu da vingança.

Sites de notícia lhe convidam a rever fotos do processo, a TV reprisa a condenação como um recorde olímpico. Ao invés de silêncio e reflexão, o que houve foi muito barulho num julgamento tratado como a festa da menina morta.

Não estou pedindo revisão do processo. O que ainda me espanta é o interesse de uma mídia que faz de um julgamento um show.

Declarado culpado ao fim do julgamento, o casal Nardoni passou por um linchamento público durante todo o processo. Atenção à capa da Veja (ao lado) há dois anos, quando a revista promulgava um veredito por sua conta – apesar da certeza das conclusões, a foto do casal Nardoni foi escolhida e trabalhada para dar aos acusados um rosto “criminoso”. Sêneca (4 a.C.- 65 d.C.) estava certo quando dizia que “a razão quer decidir o que é justo; a cólera quer que se ache justo o que ela já decidiu”.


26 março, 2010

nesse culto (não) se improvisa

- Um número?

- 12.

- 70.

- 230.

- 333.

- 425.

Não, não é um leilão para ver quem dá mais por um objeto valioso. É só um regente democrático que concede à congregação a decisão de escolher uma música do hinário para ser cantada.

Ele olha para trás como se olhasse para as coxias de um teatro por onde entrarão os membros da igreja acompanhando o pregador do culto. Alguém acena de lá e o regente entende que deve enrolar, digo, cantar mais uma música com a igreja enquanto seu pastor não vem. O regente aproveita para sem a menor cerimônia avisar que “enquanto a plataforma não entra, cantemos mais um hino em honra em louvor ao nosso Deus”. Isso é o que ele fala, mas o que a congregação entende é: “Estão nos enrolando com essa música tapa-buraco para atrasos eclesiásticos”. Subitamente, ele é avisado de que a “plataforma” vai entrar, ele corta o hino pela metade e já puxa o famoso intróito.

Que bonito, que beleza que é o senso de improviso do adorador brasileiro! Se a Reforma tivesse começado com esse tipo de improviso na liturgia, eu não daria quarenta dias para o povo voltar para a ordem da missa.

O improviso no culto já começa pela roupa dos músicos. Por que o instrumentista acha que é só o regente que tem que estar com o vestuário adequado? E não estou falando de terno e gravata. Os pianistas, talvez acostumados ao figurino formal dos concertos, dificilmente erram. Mas o guitarrista e, quando há um, o baterista acham o máximo seguir o manual Joselito de reverência que diz que, se há uma solenidade, vá com uma roupa que grite que você é jovem e não está nem aí para as formalidades.

Todos prontos, cada um no seu lugar, é hora de cantar e tocar. Há uma introdução instrumental e... o regente improvisa as falas, o pianista baixa a cabeça e faz o que bem entende com o andamento, o guitarrista toca acordes diferentes do pianista e o saxofonista faz improvisos durante as três estrofes.

Dificilmente há ensaio e costuma-se jogar a responsabilidade para o Espírito Santo, que além de Consolador terá que soprar a letra no ouvido dos cantores e lembrar as notas para os músicos.

Nem sempre se poderá ensaiar com todo mundo, mas um breve ensaio de acertos meia hora antes do culto já previne muitos problemas.

É isso que acontece nos momentos de louvor de sua igreja? Quer fazer diferente?

Escolha as músicas antecipadamente. Providencie uma ligação temática entre as músicas. Compartilhe sugestões com seus colegas músicos e cantores da igreja. Perceba o que é adequado cantar e falar para a sua igreja. E nunca desconsidere a comunhão e o preparo.


22 março, 2010

em viagem

Estou em viagem de terça à quinta. O blog volta na sexta. A viagem é para a primeira aula da disciplina do doutorado "Sociologia da arte e da cultura", na Unesp. Great expectations!

21 março, 2010

cem palavras: revoluções

Revolução costumava ser uma palavra doce como mel que logo amargava como fel. Não custa lembrar que até o golpe militar tupiniquim de 1964 exibia-se vistosamente aos 31 de março de cada ano com o lustroso nome de Dia da Revolução. Os oficiais de caserna apropriaram-se do termo para, em nome da liberdade, tolher liberdades.

Assim, ninguém era livre para falar em liberdade. Se ainda hoje vigorasse oficialmente a ditadura, aquela canção que diz “O que é que eu vou fazer com essa tal liberdade...” seria censurada ainda no berçário das composições bregomânticas.

Havendo revolução, logo há contrarrevolução. E os contrarrevolucionários não queriam outra coisa que não fosse outra tal liberdade. Eles queriam instaurar seu reino marxista de paz e amor do mesmo jeito que os militares chegaram ao governo: na base da força.

No governo dos “revolucionários de direita”, a oposição era reprimida e todos eram ensinados a cantar os versos “esse é um país que vai pra frente”. No país do contragolpe dos “revolucionários de esquerda”, a oposição é sempre reprimida e todos seriam ensinados a cantar “somos 90 milhões em ação, pra frente Brasil, salve a seleção comunista". Seleção essa com Fidel no gol, trancando tudo, Stalin no meio de campo prendendo a bola e vários jogadores e, na vanguarda, o atacante matador Che.

Que outros falem:

O entusiasmo inicia as revoluções, o delírio as acompanha e o arrependimento as segue (Nicholas Chamfort).

As três frases abaixo são de Nelson Rodrigues:

Eu amo a juventude como tal. O que eu abomino é o jovem idiota, o jovem inepto, que escreve nas paredes "É proibido proibir" e carrega cartazes de Lenin, Mao, Guevara e Fidel, autores de proibições mais brutais.

Ah, os nossos libertários! Bem os conheço, bem os conheço. Querem a própria liberdade! A dos outros, não. Que se dane a liberdade alheia. Berram contra todos os regimes de força, mas cada qual tem no bolso a sua ditadura.

Quando os amigos deixam de jantar com os amigos [por causa da ideologia], é porque o país está maduro para a carnificina.



18 março, 2010

perdido no bosque da ciência do bem e do mal

Em entrevista ao programa Fantástico, o jogador Adriano, disse que seus erros na vida particular se devem a sua insistência em dar ouvidos a uma voz, que chamou de "diabinho", que lhe sopra coisas agradáveis e erradas, em vez de escutar um "anjinho" que lhe recomenda o certo. Sem culpar o tal diabinho, ele admitiu publicamente que não aprova as coisas prazerosas e ruins que acaba fazendo.

Adriano, meu caro, você não é o único a viver nessa polarização consciente entre o bem e o mal. Somos eu, você, a torcida do Flamengo e toda a humanidade. Inclua a Patrícia Poeta, que abre as portas do Fantástico para as celebridades apanhadas em pecado expiarem sua culpa e abrirem o coração como a um jornalista.

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12 março, 2010

o som e a dança dos vegetais

Plantas gostam de Beatles ou Beethoven? Alguns estudiosos têm feito essa pergunta diretamente às plantas e, segundo os experimentos, elas têm respondido de diversas formas. Umas murcham de tristeza com o 1º movimento da Sonata ao Luar (do compositor alemão), outras se assustam com os violinos arrepiantes do final de A Day in the Life (do grupo inglês). Algumas florescem ao som do risonho scherzo da 7ª Sinfonia e outras desabrocham ouvindo a delicada melodia de Yesterday...

Na verdade, esse experimento nunca aconteceu. Eu inventei essa historinha para falar dos mitos que cercam as pesquisas sobre a reação das plantas ao som e à música. Mas quantas vezes você já não leu ou ouviu algo parecido [embora com elogios a Beethoven e nunca aos Beatles]?

Agora veja que até Charles Darwin procurou saber se a música influenciava o crescimento das plantas. Conta-se que ele sentou diante de um exemplar de "Mimosa L." e tocou seu fagote para estimular o movimento das folhas dessa planta. A experiência foi um fiasco, mas despertaria o interesse de cientistas do futuro. 100 anos depois de Darwin, pesquisadores da Universidade de Madras submeteram a "Mimosa L." a 25 minutos diários de música Karnática (estilo do sul da Índia) tocada ao violino. Os autores relataram o aumento considerável do número de brotos, da produção de galhos e do número de folhas.

Os pesquisadores R. Klein e P. Edsall analisaram seis grupos de "Tagetes erecta L." expostos a canto gregoriano, uma sinfonia de Mozart, jazz de Dave Brubeck, Beatles e uma big band. [Peraí, mas isso é experimento científico ou é uma happy hour?]. As plantas recebiam a sonorização duas vezes ao dia e eram mantidas em ambiente com temperatura, umidade e fotoperíodo controlados. A experiência não apresentou resultados significativos entre os grupos.

Não há problema com uma pesquisa dessa ordem. Aliás, como diz Umberto Eco no indispensável Como fazer uma tese, não existe objeto de pesquisa que não seja digno de estudo, o que há são metodologias de pesquisa pouco nobres. Aí reside o problema. Quando avaliamos o impacto acústico, como a influência das frequências sonoras sobre as plantas, temos um objeto de pesquisa. Quando, porém, as respostas biológicas dos vegetais ao fenômeno sonoro são transferidas para a área da recepção humana ao fenômeno musical, então temos um sério equívoco metodológico.

Há quem acredite que estilos musicais podem auxiliar ou corromper o desenvolvimento de uma planta. A notória experiência de Dorothy Retallack nos anos 1970 é usada para atestar que os gêneros musicais afetam o crescimento dos vegetais, embora nenhuma outra experiência posterior obtivesse resultado semelhante. Naquele experimento, algumas plantas teriam crescido em direção às caixas de som que tocavam música clássica europeia e outras plantas teriam crescido em direção oposta à fonte sonora que tocava rock. Assim, se até as plantinhas queriam escapar do rock, então os seres humanos deviam evitar o rock a todo custo. Sabe-se lá a que tipo de pauleira musical os pobres vegetais foram expostos, tadinhos.

Quando dizem que o rock mata as plantas, de que tipo de rock estão falando: da Jovem Guarda, do Sepultura, de que faixas dos LPs do Pink Floyd? E quando é música erudita: são os acordes retumbantes de obras de Stravinski ou as notas melancólicas de certas peças de Chopin? 

Não podemos descartar a agressividade de muitas músicas a nossa fisiologia. Nem se pode negar que outras tantas músicas são capazes de tranquilizar nossos nervos urbanos estressados.

No entanto, uma recente pesquisa do Instituto de Biociências da UNESP avalia que é “grande a dificuldade de se comprovar a possível influência de estilos ou composições musicais sobre um organismo vegetal” (p. 71).

Essa pesquisa relata que uma planta pode responder de maneira diferente a um mesmo estímulo sonoro. Vai depender se a frequência e a intensidade estão adequadas. Observou-se ainda que mesmo um ligeiro estresse pode ser benéfico ao desenvolvimento das plantas. Desse modo, uma maior amplitude sonora, se não for prolongada demais, contribui para uma melhor germinação.

As plantas não dependem de estilos musicais para sua germinação, mas da interação das ondas sonoras. Quando os resultados obtidos com plantas são usados para aplicação em seres humanos, há quem diga que  certos sons e ritmos "mataram" os vegetais enquanto outros estilos fizeram as plantas crescer fortes e viçosas. Contudo, o argumento unicamente biológico ou fisiológico não corresponde à totalidade da experiência humana, que é afetada social e culturalmente.

Plantas não são capazes de julgamento estético, não têm arquivo sonoro interior, não fazem escolhas musicais, não dirigem o carro ouvindo música, não cantam para os seus raminhos dormirem nem assobiam um hino quando estão felizes.

Além disso, seria preciso submeter os indivíduos às mesmas condições de controle das plantas dos experimentos. Somente sob padrões específicos e adequados de temperatura, luz e sonorização os vegetais apresentaram certas reações. As pessoas teriam que experimentar ambientes semelhantes, o que não corresponderia à realidade acústica e musical vivida do nosso cotidiano.

Muitos dizem que certos estilos de música popular aceleram os batimentos cardíacos e transtornam os indivíduos. Entretanto, práticas esportivas ou um encontro entusiasmado entre amigos causam efeitos semelhantes. O problema com as músicas não será de ordem fisiológica (ou não apenas, se as pesquisas fossem conclusivas), mas de ordem cultural, intelectual e espiritual.

O estudo conclui dizendo que “todos os seres humanos têm um aparato sensório, neurológico, psicológico e cognitivo, que os permite responder a partir da interação que a percepção tem com seu histórico musical e mesmo estado emocional” (p. 78).

Como criaturas emocionais e intelectuais, ao contrário das plantas, podemos selecionar nossa escuta a partir do que faz bem para nossa estabilidade racional, inteligência e recreação. Além disso, se também somos criaturas quem buscam o melhor alimento espiritual, podemos selecionar músicas que nos aproximem do Criador e mantenham nossa mente voltada para valores morais dignos.


Citações da dissertação de "Estudos sobre a ação de vibrações acústicas e música em organismos vegetais", de Marcelo Silveira Petraglia (UNESP - Biologia Geral e Aplicada) - PDF da pesquisa disponível aqui ou aqui.

10 março, 2010

o futebol é uma caixinha de cerveja

A propaganda vive de seduzir o espectador. As táticas são variadas: gritos e frases aceleradas para vender guarda-roupas e televisores, vozes sussurrantes em slow motion para vender carros de luxo. Os publicitários parecem entender que o cliente das Casas Bahia, além de ser um sujeito que paga um sofá em 24 parcelas, também é surdo.

A propaganda trabalha à luz dos estereótipos. Cerveja virou rima de praia, sol, sensualidade, descontração. As companhias publicitárias julgam que a advertência “beba com moderação”, aliás, “APRECIE com moderação”, cumpre sua responsabilidade social. Os casos de cirrose hepática, assassinatos e acidentes no trânsito não podem ser postos na sua conta. Afinal, elas foram gente boa e avisaram, né?

Ok, carro também mata, mas nada disso aparece nos reclames. É porque carro e cerveja têm efeito semelhante no consumidor. Senão, vejamos:

- Comercial de carro tem mulher de cabelo esvoaçante y otras cositas más. O comercial de cerveja tem mulher com otras cositas à mostra;

- O carro altera a personalidade do sujeito. A cerveja também;

- A imprudência ao dirigir pode matar. Se o caso é cerveja, nem se fala.

Em fevereiro, a propaganda da bem intitulada cerveja Devassa foi censurada devido ao alto teor de sensualidade da “atuação” da celebridade-mor Paris Hilton. Noves fora a ideia elementar de juntar uma bebida de nome Devassa com a doidivanas Paris Hilton, se era para barrar o sensualismo cervejeiro então tinha que banir todas as propagandas de bebida.

E francamente, o que seria mais imoral? O comercial com uma loira importada fazendo tipo ou a propaganda de Ronaldo Brameiro Fenômeno ao meio-dia?

No entanto, há algo ainda mais sério. No programa Globo Esporte exibido em 09 de março/2010, abordou-se o problema do jogador Adriano com a bebida. Um especialista em saúde foi convidado a mostrar a gravidade da ingestão de álcool a curto e a longo prazo. Jogadores e ex-jogadores deram seu testemunho. Sim, o caso é grave.

Mas vindo da Globo, seria trágico, se não fosse cínico. Quem é mesmo uma das financiadoras da transmissão do Campeonato Brasileiro? Acertou, aquela indústria cervejeira mesmo. Quem anda se gabando de ser a primeira cervejaria a patrocinar uma Copa do Mundo? Assinale a mesma alternativa.

A TV passa horas associando esporte com bebida e depois vem dizer Olha, gente, o álcool é danoso à saúde. Exigir um mea culpa da TV é utopia, mas bem que podiam dizer logo Viu, meninos? Façam o que eu digo – álcool não tem nada a ver com esporte – mas não façam o que eu mostro!

Na lógica dos comentaristas esportivos, "o futebol é uma caixinha de surpresas". Na lógica do capital, não há grandes preocupações com o que é melhor para as crianças assistirem ou comerem. Importa que as vendas cresçam e a ética diminua. Por isso, no comercial da televisão, o futebol é uma caixinha de cerveja.

Pode ser que num futuro próximo não haja publicidade de cerveja na TV como não há mais publicidade de cigarros. Num mundo ideal, Ronaldo Fenômeno, com tantas crianças e adolescentes entre seus fãs, não faria comercial de cerveja. Mas no mundo real e na hora de todos os drinques não aparece um juiz para ordenar que se retire do ar a propaganda.

Outros textos sobre propaganda e celebridades:

"Everybody loves Zeca Pagodinho"

"De patricinha à Parisinha"


08 março, 2010

davi, golias, seis oscars e uma mulher

E Avatar ganhou, mas não levou. Qual a explicação para os seis Oscars de Guerra ao Terror, uma pequena produção que passou quase incógnita nos EUA e superou o megasucesso Avatar, de 2 bilhões de dólares arrecadados, visto como a salvação da lavoura do cinema na batalha contra a praga do home theater e da pirataria?

Estaria Roliúdi desprezando a dinheirama em prol dos baixos custos de produção? Seria a vontade de muitos em ver um Davi cinematográfico derrubando o Golias-Avatar? Ou seria o apelo de premiar uma mulher como diretora pela primeira vez, ou vê-la derrotando o ex-marido, justamente o James Cameron produtor-diretor de Avatar?

Nada disso. Primeiro que Roliúdi é doida mas não rasga dinheiro. Os investimentos vão continuar em megafilmes, ainda que de pífias histórias.

A questão, me parece, é o medo do “filme do futuro” que Avatar representa. Nesse futuro, atores e atrizes (votantes no Oscar) são pouco necessários, valendo muito mais a tecnologia de ponta para fisgar os espectadores já dessensibilizados pelo cotidiano espetacularizado. O espectador comum já não se espanta facilmente, e só as epopeias à imagem e semelhança de Avatar podem impressioná-lo.

De fato, o baixo orçamento de Guerra ao Terror, um filme que encena a tensão vivida por desativadores de bombas do exército americano no Iraque, lhe dá uma cara de filme “real”, com atores de verdade e situações realistas. Isto é, sangue, suor e lágrimas.

Por isso, penso eu, a Academia preteriu o gigantismo computadorizado em favor dos combatentes de cara suja das areias iraquianas. De outro lado, pode estar o temor de executivos já não tão dispostos a bancar o alto risco dos filhotes de Avatar. Ou, numa perspectiva menos condescendente e sem sustos, votaram em Guerra ao Terror porque acharam que era o melhor filme e pronto. Ou todas as alternativas acima.

Mas que ninguém duvide de que a fantástica inovação visual e tecnológica de Avatar será copiada, imitada, diluída. O resto é conversa mole das comadres de blogs e jornais que vivem de fofoca e sentimentalismo.

Na véspera do Dia Internacional da Mulher, uma mulher ganhou o Oscar de melhor direção. Melhor: por um filme muito bom, segundo a crítica. Melhor ainda: uma mulher bem-educada que no discurso de agradecimento não mostrou revanchismo, feminismo, triunfalismo; só agradeceu e ressaltou a importância da equipe de filmagem.


05 março, 2010

no embalo gospel de sábado à noite

"Eu e minha noiva nos divertimos muito, dançamos, cantamos e saímos de lá às 3 horas da manhã com a alma purificada", diz o publicitário Fábio Faroni. O casal estava num show da Ivete Sangalo ou de Ed Motta? Não. Eles estavam na Balada LoCAL da Comunidade Apostólica Livre, a qual, segundo matéria da revista Up!Gospel (nº 8, ano 2), "agitou mais de 400 pessoas com ritmos como eletrônico, black e forró".
Na Cristoteca, há uma missa à meia-noite e depois o som segue rolando até a alvorada. Tem ainda: Gospel Night - a festa, Pré-Reveillon Gospel, Gospel Night Fantasy, Festa Jesuína, Cristoteca,... Os sons são diferentes, mas a linguagem é a mesma para agitar o esqueleto evangelizado, mexer o corpitcho batizado, curtir a vida transformada que Jesus-me-deu!
A questão não é discutir se há honestidade espiritual ou não nas estratégias formuladas pelos líderes religiosos ou se o público-alvo é de fato atingido pelas mensagens musicalizadas. Mas há alguns pontos a ponderar nas propostas de eventos como a balada gospel, pontos estes que são logo atacados com frases do tipo “é melhor isso do que a balada secular”, ou “as igrejas estão atraindo os jovens”, e ainda, “o jovem evangélico precisa se divertir”.

Se colocarmos uma interrogação ao final das frases em negrito, pode-se ter uma pausa para reflexão antes que se entre no clima do “batidão”. Primeira: É
melhor isso do que a balada secular? O “isso” nada mais seria que a reprodução dos festejos dos baladeiros noturnos, com a simples retirada do álcool e do fumo. Faz-se uma missa à meia-noite e mexe-se as cadeiras até o galo cantar três vezes, para então sair dali com a sensação de que ser cristão é “legal”, é “massa”, é “da hora”?

Segunda interrogação: A
s igrejas estão atraindo os jovens? A palavra-chave é mesmo “atração”. Se está escrito que “Eu [Cristo], quando for levantado da Terra, atrairei todos a Mim”, é fato que, hoje, quando o funk levanta poeira, atrai muita gente. Assiste-se atualmente a um modelo de atração de público jovem para reuniões em que há muita religiosidade, mas pouca religião. Cantores de grande vendagem, músicas pop-religiosas, luzes estrobocópicas: isso tudo fascina o jovem público que encontra nas grandes concentrações religiosas, em logradouros públicos ou em salões particulares, um genérico das baladas e shows populares.

Denomino de “genérico” porque o princípio ativo é o mesmo. Isto é, aquilo que desencadeia as reações psicossomáticas (em português, as reações mentais e corporais) do público não são as letras, mas a intensidade sonora e a capacidade dinamogênica do ritmo e da canção.
Se o gospel pudesse ser reduzido a um esquema seria assim: a estilos como funk, axé, dance e balada acrescenta-se o termo "gospel". Essa junção de palavras, que parece não ser nenhum anátema, passa a ditar o índice de maior ou menor atratividade jovem. Os cantores, auto-denominados ‘levitas’, dão autógrafos, têm comunidades concorrentes no orkut (com pesquisas tipo ‘quem canta melhor’), e reproduzem o modelo de comunicação dos astros pop por meio de sua postura no palco, seus figurinos e seus comandos de voz (‘tira o pé do chão!’). Além disso, são recebidos nos shows com estridência por um público que também reproduz o comportamento de fãs histéricos do mundo musical pop.

As letras religiosas seriam o diferencial? As letras podem até ajudar a derreter corações de pedra, mas elas submergem na atmosfera de rave criada para entreter e divertir. Embora as letras apresentem temas da vida evangélica, a embalagem melódica e de arranjo reproduz os estilos musicais da moda e a indústria gospel imita o caráter de atração jovem e divulgação musical da indústria fonográfica pop, estimulando o comportamento de baladeiro e fã por parte do jovem fiel.

Por último: O jovem religioso precisa se divertir? Ora, isso é elementar. Afinal, sem um pouco de lazer, recreação e leve entretenimento não há cristão que suporte o rojão contemporâneo. Contudo, quando a diversão deixa de ser um momento da semana para se tornar o estilo de vida, algo está se perdendo na caminhada, e este algo pode ser um sentido mais profundo do que é conversão. Se conversão significa mudança de direção, como ainda repetir os maneirismos de interpretação, a histeria fanática, as caras e bocas, os adereços e os figurinos dos artistas, as melodias e arranjos da música pop mais descartável da mídia?

“Haja entretenimento” - o mandamento da nossa sociedade do espetáculo passou a ser a palavra de ordem para a sobrevivência das igrejas na modernidade.

03 março, 2010

Haiti : um caso de esperança e profecia?

O Time.com noticia uma história sobre Junon Brutus, uma mulher haitiana adventista do sétimo dia, que teria avisado o presidente do Haiti sobre tragédia iminente. A seguir um resumo da reportagem [Os trechos entre aspas e em itálico são tradução direta]:

“Pessoas em Port-au-Prince chamam Junon Brutus de Soeur Junon (Irmã Junon), e descrevem-na como profetisa e mensageira de Deus”. Hoje com 42 anos de idade, Junon Brutus deixou o Haiti aos 11 anos e mora atualmente em Orlando, na Flórida, onde trabalha como corretora especializada em investimentos em imóveis comerciais.

“Ela disse que retornou ao Haiti para entregar a mensagem de Deus. Em janeiro de 2007, ela disse que ouviu a voz de Deus revelar-lhe que um desastre atingiria o Haiti”, (...). Ela tentou falar com o presidente haitiano René Préval, mas não foi recebida. “Ele não ia me ver, diz Junon, Ninguém acreditou em mim, e eles pensaram que eu era uma maluca”.

Após a tragédia, “o governo e o povo do Haiti estão lhe tratando mais seriamente. Para marcar o aniversário do terremoto de um mês, ela pediu três dias de jejum, dizendo que Deus queria que os haitianos encerrassem esse período com uma oferta de arrependimento. O governo haitiano aceitou o pedido e decidiu acrescentar um dia extra de férias durante uma época [o Carnaval] cheia da típica música Kompa”.

Junon Brutus participou de cerimônia oficial ao lado do presidente Préval, em que o discurso “de Préval para o povo foi seguido por uma oração de Brutus. É o tipo de bênção que o presidente precisa durante um tempo em que pequenos protestos contra o governo estão brotando nas ruas com gritos de ‘Abaixo Préval’”.

“Mas a política não é o que interessa a Brutus, casada e mãe de três filhos. Ela (...) espera que desta vez o governo ouça o que ela chama de ‘plano de Deus para o Haiti’. Ela tem um caderno cheio de planos e desenhos do novo Haiti, todos criados através do que ela chama de ‘design inteligente’”. Diz a irmã Junon: “O Haiti será uma luz no mundo. O que precisa ser feito, nenhum ser humano pode fazer. Haverá sete anos de abundância e o Haiti será uma maravilha do mundo”.

“Claro, há céticos que dizem que Brutus é uma fraude. Mas ela nega ter ambições mundanas, insistindo que não está associada a uma determinada organização ou partido político, mas é apenas uma serva de Deus. A julgar pelo crescente reconhecimento do seu nome nas ruas de Port-au-Prince, as massas haitianas estão sendo atraídas para a sua mensagem. ‘Irmã Junon é uma profeta. Quando ela diz alguma coisa, você sente’, diz Damis Yves, 28 anos”.

Junon continua no Haiti “realizando sua ronda diária de confortar os sobreviventes”. Para o pastor evangélico Enesse Joseph, apresentador de um programa religioso na Rádio Lumiere, a irmã Junon oferece esperança: “Ela está trazendo uma mensagem que eu não tenho que verificar”, diz Joseph. Ela veio com a palavra de Deus. Então, por que eu não deveria acreditar?”

“Mesmo autoproclamados não-religiosos como Wudeluene Voltaire, 25 anos, tem demonstrado fervor. Voltaire diz que decidiu participar nos três dias de jejum porque queria o perdão de Deus. Ela conta: ‘Eu acredito que Deus lhe enviou em missão. O Haiti vai ficar melhor com o seu plano’”.

* * * * *

Meus comentários: A história tem elementos dúbios: apresenta sobrenomes de duplo sentido (“Brutus” para uma vidente prestativa, “Voltaire” para uma suposta ex-cética), menciona que os novos planos para o Haiti teriam sido traçados por meio do “design inteligente” (parece deboche da grande mídia a essa teoria), e fala em “sete anos de abundância” (sete anos de fartura?) para o país.

No entanto, a colaboração de Junon Brutus em trabalhos sociais já foi citada em reportagens (de 25/02/2008), como se lê no site WPTV.com. Nunca foi fácil acreditar em predições e profetas. Por isso, cumpre-nos examinar os frutos, cuidar com o engano: deveres de qualquer pessoa, cristã ou não.

De acordo com o site da igreja adventista no Haiti (www.haitiansda.com), "líderes adventistas não têm tanta certeza se Junon Brutus merece crédito público por dom profético. Alguns se sentem desconfortáveis com sua publicidade e com as demonstrações sobre como Deus lhe deu instruções para que o "povo haitiano cumprisse três dias de jejum". O site afirma ainda:

“Enquanto o resto do país é receptivo à inspiração divina de Junon, alguns líderes adventistas declaram-na inapta para ser um mensageiro de Deus (...). Por outro lado, enquanto os sacerdotes da religião vodu também estão receptivos à iniciativa de Junon, pois querem desempenhar um papel no programa. O fato de que os sacerdotes vodu querem uma parte da ação é compreensível. Eles querem que o país os reconheça como uma religião legítima.

O que é preocupante é a reação negativa de alguns líderes da igreja. Pede-se a esses líderes que recuem e deixem que Deus faça o seu trabalho em um país que foi devastado por malfeitores. O fato de que os líderes de todas as religiões podem se unir e reconhecer Deus é em si um milagre sem precedentes no Haiti”.

Veja também:

Matéria (em inglês) do site Time.com, aqui.

Declaração completa do site Haitiansda.com (em inglês) sobre as implicações das ações de Junon Brutus, aqui [desça a página até a seção "New Updates 02/11/10". O site pode apresentar instabilidade].

A foto acima mostra Junon Brutus em encontro de oração em Champ Mars (em 12/02/10).

01 março, 2010

um homem invictus



Nelson Mandela é um homem que não foi derrotado; é um homem invicto. Após quase 30 anos na prisão sob a linha segregacionista do regime apartheid, Mandela saiu da cela prisional para o salão presidencial.

Com o poder nas mãos, ele tinha tudo para encarnar os temores de uma grande parcela dos brancos da sociedade sul-africana: vingança, revanchismo, ajuste de contas. Com o poder nas mãos, ele tinha tudo para incorporar as expectativas de uma grande parcela dos negros sul-africanos: idem, idem, idem.

Mandela, porém, superou os preconceitos e medos de todos os lados ao propor a construção de uma nova sociedade baseada na reconciliação. Para tanto, duas decisões foram significativas. Primeiro, a realização da chamada “Comissão da Verdade e da Reconciliação”. Em vez de estimular uma caça aos promotores sanguinolentos do apartheid ou conduzir uma anistia ampla e irrestrita apenas como forma de esquecimento dos horrores da segregação racial, aquele tribunal colocou cara a cara ofensores e ofendidos. Como uma espécie de tribunal moral, ali começava o processo de pacificação sem o qual o país mergulharia na retaliação sem fim.


A outra forma de reagregar o país dividido está representada pela decisão de Mandela de incentivar a conquista da Copa do Mundo de rugby pela seleção sul-africana, no ano em que a sede do evento seria a África do Sul. A divisão racial tinha levado os negros a identificar a seleção nacional como um símbolo da supremacia branca, o que os fazia torcer sempre pelo adversário em campo.


Uma história dessas não poderia deixar de virar filme. E no filme Invictus, de Clint Eastwood, conta-se como Mandela planejou a nova sociedade sul-africana, dentre outras formas, usando o esporte como elemento unificador. Numa cena marcante, os jogadores da seleção sul-africana visitam o lugar onde Mandela esteve preso. Ali, o capitão da equipe se pergunta, Como alguém passa tanto tempo na prisão e ainda sai disposto a perdoar todo mundo?

A reconciliação foi uma escolha racional de Mandela. Na cela apertada, seu espírito voava. E ali, ele decidia ser o senhor do seu destino. Costumamos desresponsabilizar o indivíduo e criminalizar a sociedade. Claro que as estruturas sociais deixam poucas opções ao sujeito discriminado e marginalizado social e economicamente. Mas ainda há chances de escolhas e a conseqüência delas não pode ser creditada unicamente ao presidente, ao delegado, ao pastor, aos amigos, ao diabo.

Na prisão, Mandela, representado com a dignidade principesca do ator Morgan Freeman, recitava para si versos do poema Invictus, de William E. Henley: “Eu sou o senhor do meu destino, eu sou o capitão da minha alma”.

Embora tivesse defendido o enfrentamento armado durante parte de sua vida de luta contra o regime opressor, ele não foi derrotado pelas algemas do apartheid nem pelo revanchismo nos tempos da cólera racial. Por isso, tornou-se um homem invicto.

Respondendo à pergunta: Como alguém passa 27 anos na prisão e sai disposto a perdoar?
É que, em tempos de ódio e intolerância, não há gesto mais revolucionário que o perdão.

Invictus (EUA, 2009). Direção: Clint Eastwood. Com Morgan Freeman, Matt Damon.

O poema completo.