30 outubro, 2009

para ler e ver

Fim de semana esticado até segunda. Troca de provedor de internet. Viagem com o Curitiba Coral por Blumenau e Floripa. Desculpas eu tenho para não postar um novo texto no blog. Mas posso indicar uns textos mais antiguinhos, mas não arcaicos, agarantcho-lhes:

Para o sábado, uma reflexão: o compositor cristão no tempo.

Para o domingo, uma dica para assistir: o ano em que meus pais saíram de férias.

Para a segunda, assista o filme, jogue bola, converse, leia um livro, ou coisa sempre melhor que o blog deste web-escriba. Bom descanso a todos!

28 outubro, 2009

a religião ecológica

A causa ecológica, sempre preocupada com hábitos do velho homem, assegura que nosso planeta não passa de 2030. Resta somente repetir os versos de uma canção dos anos 80: É o fim da aventura humana na Terra. Uma das razões é o aquecimento gradual do sol, ex-amigo dos seres viventes. Banho de sol, nem pensar, mocinha. Resta aquela outra canção sobre um banho de lua para ficar branca como a neve!

Tirem as crianças do sol, deixem as crianças na sala! O sol agora pode causar doenças terríveis como alegria, prazer e vitamina D, coisas opostas a esse mundo que mergulha em depressão e neurose ecológica.

Não vá sair agora para o sol do meio-dia, melhor evitá-lo entre 10 da manhã e 3 da tarde. Claro que tomar sol em excesso pode causar câncer. Mas, diga aí, o que nesse mundo já não causa câncer? Veja também as estatísticas de morte no trânsito e pergunte quantos andam pensando seriamente em largar o volante. É completamente cabível abdicar de refrigerante e de certos programas de TV que também engordam e matam como colesterol ruim. Mas é descabido querer fugir do sol como se fôssemos dráculas.

Uma coisa é cuidar da saúde física e mental, buscar uma alimentação balanceada e diminuir o uso de impressão em papel quando possível. Outra bem diferente é não usar spray de cabelo porque isso contribui para o aumento do buraco nas camadas atmosféricas ou evitar o sol em qualquer hora, quesitos que adotei involuntariamente já que não tenho cabelos e moro sob o céu nublado de Curitiba.

Tem gente que fica à procura de uma paranóia pra viver, como aquela dos maçons-empresários que controlam o mundo como titereiros ou a dos capitalistas que enviam mensagens subliminares irresistíveis para dominar as mentes. Isso tudo é raia miúda perto do surto que conquista cada vez mais adeptos, a psicose da saúde do homem e da Terra.

O cinema também encampou essa ideia: documentários e documentiras anunciam ao mundo que nosso lar está se acabando e é bom aproveitar as belas imagens de savanas povoadas de zebras e leões antes que o tempo se vá. Personalidades, como Al Gore e Leonardo di Caprio, e filmes, como Home e Earth, repetem que o oceano está subindo, a temperatura mundial está subindo, a fumaça está sempre subindo. Alguém duvida de que a bilheteria de filmes do tipo também está subindo?

Por falta de uma ideologia melhorzinha, essa turma aderiu à causa ECOmênica, uma bandeira interreligiosa e suprapartidária. Bandeira não, um guarda-chuva ou guarda-sol que agrega gregos e baianos, antigos comunistas devoradores de criancinhas e novos capitalistas devoradores de almas, padres, pastores e presidentes, BBBs e budistas. Não duvide se Osama rimar com Obama para ser a solução da boa vontade entre os homens filhos de Gaia. Todos culpando a feia fumaça que apaga as estrelas e os flatos bovinos, equinos e muares.

Quando vejo uma multidão tão diversificada agindo de forma tão unânime por uma causa tão mundial, desconfio. Gente muito unânime só aprova credos e partidos que juntam seus trapinhos de diferença ideológica por uma causa salvacionista. Se você pensou em religião ecológica, acertou. De manifestantes que se atiram feito mártires na frente de tratores e navios a notícias sobre um apocalipse ambiental, a religião ECOmênica ganha predominância no altar das causas planetárias. O ECOmenismo ganha adeptos de todas as cores ideológicas e religiosas, pois converter-se a essa causa equivale à luta apaixonante pela sobrevivência da humanidade.

Afinal, quem em sã consciência pode renunciar à defesa da vida? Nada contra defender a vida e cuidar da natureza. É necessário sempre esclarecer sobre o ciclo da vida natural da qual fazemos parte. Reciclar, reutilizar, preservar são itens importantes que devem estar na nossa agenda. Não questiono também as evidências do aquecimento global, só desconfio da "verdade científica" que cerca o debate que um dia foi ambiental e hoje é item da agenda do poder político.

O problema é que a questão climática ganhou um selo de autoridade "científico" inquestionável. A mídia pouco dada a investigações chancela a questão ecológica. Surgem ainda informações manipuladas a fim de criar uma consciência global, que resultam na criação dos dias mundiais sem isso ou sem aquilo (sem carro, sem TV, sem luz elétrica por uma hora).

Curioso como esses tais dias mundiais exercem um fascínio nos países mais desenvolvidos. Principalmente na Europa, que fecha a cara para os imigrantes mas acena alegre para ursos e pinguins.

23 outubro, 2009

cristianismo: letra e música

O que tem mais impacto sobre uma pessoa? A música ou a letra da música?

Essa é uma pergunta de difícil resposta e não raro vemos gente defendendo a supremacia da música sobre a letra ou vice-versa. Vamos àqueles que acreditam que a letra é predominante na recepção musical.

A letra, é claro, não é algo desimportante. As letras das canções de protesto de Chico Buarque e Geraldo Vandré miravam as injustiças e desmandos da ditadura , sendo que seus autores e intérpretes eram, no mínimo, frequentemente intimados a dar explicações sobre uma frase ou outra de uma música.

Tom Jobim foi inacreditavelmente vaiado no III Festival Internacional da Canção (1968), quando sua música "Sabiá", de harmonia sofisticada e letra lírica, venceu a simples e direta "Pra não dizer que não falei das flores", dos versos Caminhando e cantando e seguindo a canção...

A letra, para a plateia que estava na final do festival, parecia o elemento principal da estética musical. Apesar de não ser uma disputa da "canção mais politizada", os apupadores desqualificavam a melodia, o arranjo e a poesia de "Sabiá", mesmo que esta trouxesse, nas suas entrelinhas, o lamento de um sujeito forçado ao exílio. O contexto social "requeria" uma música que explicitasse os anseios políticos da plateia. No entanto, o júri não deu ouvidos à voz rouca dos festivais e premiou a canção de Jobim e Chico, considerada estruturalmente mais apurada.

Na música cristã, o debate é semelhante. Alguns defendem que a escolha do estilo musical é de ordem primordial para a adoração, sendo que os temas da cristandade devem ser tratados por meio de uma música alegre ou reverente ou alegremente reverente. Para esses, a letra religiosa merece estilos musicais que inspirem religiosidade ou que estejam tradicionalmente relacionados à alegria tranquila ou à solenidade sem artifícios.

Outros creem que a letra, ao tratar de temas cristãos, "sacraliza" de antemão qualquer estilo musical, pois a força literária prevalece sobre o impacto estritamente musical. O gênero musical estaria à serviço de um bem maior, a evangelização contextualizada, capaz de atingir diferentes nichos culturais. Além disso, chega-se a afirmar que a música não teria moralidade inerente.

Começando: nem todo estilo musical pode servir adequadamente às intenções do compositor. No caso da música secular, Carlos Lyra, ao ligar-se aos movimentos de resistência política universitária nos anos 60, renunciou à bossa nova, pois acreditava que esse estilo, referencialmente rebuscado, com influências jazzísticas e letras que versavam sobre "o amor, o sorriso e a flor", não servia como música de confronto e de protesto. A rusticidade do baião e do samba, além de associados a uma suposta raiz nacional (hoje discutível) e ao homem do povo, serviria melhor aos propósitos políticos dos movimentos da época.

Na música sacra, não é incorreto supor que nem todo estilo musical seja próprio para o louvor e a adoração. Se a bossa nova seria um elemento refinado e doce demais para as durezas da confrontação política, não seria o caso de perguntar se o pagode ou o heavy metal, por conta de suas referências, são realmente adequados para expressar os temas cristãos? Bastaria enunciar uma letra religiosa para cristianizar esses estilos?

Nossa recepção a uma canção é afetada pelas referências que ela traz. Quanto a isso, não é possível ficar imune. O teórico da música Leonard Meyer e o semioticista Umberto Eco afirmam que a música denota sentidos e referenciais inscritos culturalmente. Numa época de saturação de signos audiovisuais como a nossa, é difícil negar a referencialidade presente numa obra musical. Talvez o cantor ou o compositor cristãos não queiram que alguém se obrigue a fazer associações estilísticas ao ouvir determinada canção, mas eles também não podem evitar que alguém venha a fazê-las.

Edward Said dizia que é preciso uma mente madura para entender que o compositor erudito Richard Wagner foi um gênio musical e também um crápula. Confesso que dificilmente consigo separar o homem antissemita do gênio da ópera; então vai ver que eu não sou maduro mesmo.

No âmbito da música sacra, para muita gente é difícil deletar a referencialidade moral de boa parte do pop/rock quando esse estilo é adotado por professos cristãos. Por isso, dão preferência a estilos mais tradicionais de música sacra, o que talvez possa ser explicado pela evidência de que a música é entendida como uma questão de gosto. Assim, é possível que as pessoas se fixem em seus gostos culturais e relacionem esses gostos a uma noção de reverência e santidade que desenvolveram em sua vida cristã.

A evangelização contextualizada, aquela que procura "ser grega para os gregos e romana para os romanos" a fim de alcançar alguns dentre todos, não é facilmente criticável. Há resultados válidos, mas também vale alertar para o perigo do pragmatismo inquestionável, o evangelismo vale-tudo. Será uma analogia esdrúxula certamente, mas vejamos assim: se o boxe, mesmo em sua reconhecida violência, ainda conservava regras e pudores, as lutas de vale-tudo radicalizam a proposta de um combate e abrem espaço para quase todo tipo de golpe que seria considerado desonroso no boxe.

Por sua vez, o vale-tudo evangelístico abre espaço para toda forma musical pop e usa efeitos, performances, letras e estilos que, nem sempre injustamente, são considerados desonrosos para a mensagem cristã.

Finalizando: a escala musical ocidental não tem uma moral inerente. Mas como a música sempre está dentro de um contexto sonoro, social e sempre é produzida pelo homem, um ser moral, então é evidente que uma música cantada pode contradizer ou afirmar valores cristãos.

Não se discute aqui a qualidade da produção musical ou a intenção evangelística de um estilo gospel contemporâneo. Mas não posso concordar com a vã separação que se tenta fazer entre música e letra de uma canção. Ora, uma canção é exatamente a conjunção de letra e música. Os teóricos musicais já perceberam que nem sempre é válido analisar uma letra à parte de sua melodia, de seu arranjo e, por vezes, até da interpretação vocal.

Essa pretensa separação entre estilo musical e letra que compositores gospel andam a fazer, como se a letra fosse mais importante que a forma musical, revela não apenas um modo desavisado de pensar a música, mas também um modo pouco teológico de pensar o cristianismo.

21 outubro, 2009

notícia para quem precisa de notícia

Lembra das sereias cujas vozes aveludadas vozes atraíam irresistivelmente os combatentes de Ulisses, o herói com algum caráter? As musas irresistíveis de hoje são a fama midiática e o desejo de ser celebridade. Quando a fama chama, não há decência, palavrinha ultrapassada, hein?, que resista.

Recentemente, um casal (e mais um sócio) aprontou uma típica jogada de marketing para divulgar um projeto de série para TV fazendo voar um balão que estaria carregando por descuido um de seus filhos. O alarme foi disparado, as imagens se espalharam, o serviço de emergência foi mobilizado, mas poucos dias depois a farsa foi descoberta. Esse golpe publicitário aparentemente inspirado nas aventuras da animação Up, em que uma criança e um ancião voam desastradamente numa casa-balão, virou caso de polícia porque envolveu, além da mentira descarada, uma criança. E criança perdida no espaço só pode nas ficções da TV.

Se Ulisses amarrou o próprio corpo no mastro da jangada para não se atirar no mar das sereias de voz maviosa voz, o sócio-pai, amarrando (metaforicamente) seu filho a um balão, demonstrava não ter resistido ao doce canto da sereia-fama e da sereia-grana (e nem sempre eventualmente, da sereia-cama). Agora responderá a processo judicial, coisa que não existe nas odisséias gregas de Ulisses.

As peripécias dos anônimos em busca da fama não merecem uma Ilíada, mas têm dimensões homéricas. Basta ver a quantidade de gente que se inscreve nas edições de reality shows que tomaram conta da TV mundial. Ou ainda a empolgação que muita gente mostra quando passa por trás de alguém sendo entrevistado na rua, ou as horas dedicadas a criar perfis e postar imagens pessoais no Orkut ou no Facebook.

O marketing pode ser planejado numa mesa, como fizeram os sócios da “farsa do balão”, ou ser completamente involuntário, como no caso da cantora Vanusa, cuja interpretação "remixada" do Hino Nacional andou lhe valendo novos convites para shows. Com premeditação ou não, importa dizer que esses eventos são, na verdade, pseudoeventos. São eventos fabricados para ter o significado de um evento que mereça a cobertura da mídia.

Assim, pouco interessa o fato; interessa a cobertura midiática do fato. A primeira-dama brincando de bambolê, o engarrafamento infinito, os estudantes sonolentos nas aulas do início do horário de verão, o craque de futebol flagrado numa boate, o cantor na praia, a ex-BBB no shopping: se o jornal noturno transmitiu é porque o fato era digno de nota, se os vespertinos sensacionalistas mostraram é porque o evento é urgente, se o portal de um grande conglomerado noticiou então o acontecido é importante .

Verdade ou ilusão também pouco interessariam, o que importa é a versão do fato que cada jornal, rádio ou TV apresenta. Sarney discursa no plenário: para qualquer jornal do país esse discurso não terá respondido às questões mais candentes, exceto para o jornal O Estado do Maranhão, que logrará a notícia de que Sarney fez uma contundente defesa de sua “ilibada conduta política”. O MST ocupa uma fazenda: para qualquer periódico do país esse ato representará o caráter hostil e vândalo dos movimentos sociais, exceto para uns parcos blogueiros, que acusarão a adulteração midiática dos reais motivos das mobilizações coletivas.

Ocorre, aqui, uma transubstanciação do evento: de pseudoevento ou fato relevante, a notícia, quando veiculada pelos canais de comunicação hegemônicos, converte-se em verdade senhorial, sendo que os muxoxos dos apresentadores após a divulgação das imagens do evento equivalem ao polegar dos césares no coliseu. Assim, quando os periódicos mais vendidos estão certos, eles sempre estiveram certos. Quando estão equivocados, eles ainda estão certos, até porque, na era da ausência fabricada de Deus, vox media, vox dei, a voz da mídia é a voz onipresente e onisciente.

Enquanto a voz do povo seria a famigerada opinião pública, a voz da mídia é a indispensável opinião publicada. A voz afônica das ruas será apenas pública, porque publicada mesmo é a opinião do pensamento ideológico do editor, que não raro é a expressão dos investimentos financeiros do sócio majoritário.

E quanto às notícias do jogador na boate, do cantor na praia e da ex-BBB no shopping, bem, me acordem quando eles forem flagrados numa biblioteca.

19 outubro, 2009

cem palavras: fama para todos

Este "cem palavras" de hoje será o mais twitter, digo, o mais curto de todos o que já postei. Com menos de 140 caracteres, dois aforismos separados por 30 anos que apontam os rumos da democratização da fama:


No futuro, todo mundo será famoso por quinze minutos.
Na internet, todo mundo será famoso para quinze pessoas.

16 outubro, 2009

outra leitura: cristãos no mundo pós-moderno

É bom ler um texto que não sai espancando a pós-modernidade sem maiores explicações, mas em vez disso, aponta suas deficiências e potencialidades e ainda nos diz para reformularmos nossas ações para melhor espelhar o cristianismo nesses tempos.

Não podemos querer viver como se vivia há cem anos. Eu não sou do grupo que adoraria viver sem telefone, internet, água encanada e cartão de débito. Como dar relevância e sentido hoje à mensagem cristã? É necessário repensar estratégias de aproximação com pessoas que desconhecem ou desqualificam o cristianismo da Bíblia. O mundo virtual, a música, os livros (e sobretudo uma vida honesta e digna) podem fazer muito. Em um texto sucinto, mas não superficial, Michelson Borges delineia alguns aspectos da pós-modernidade e sugere uma mudança de atitude, mas não de princípios e valores, no "ide ao mundo e levai as boas novas".

Uma frase do texto: Mas não podemos ser nostálgicos a ponto de querer retornar à modernidade. Temos que pregar o evangelho no contexto em que estamos inseridos, e esse é o pós-moderno. A apologética ainda tem o seu lugar, tendo em vista que os que desafiam as bases racionais da fé (os herdeiros do Iluminismo) continuam por aí. Por isso, os cristãos devem se valer de todos os meios possíveis para divulgar a superioridade da Bíblia Sagrada, aproveitando-se dos poderosos recursos da era da informação. Mas nunca é demais lembrar que isso não basta para o pós-moderno.

Vale a pena ler o texto na íntegra no site Outra Leitura:

A imagem acima é do poema "Pós-Tudo", de Augusto de Campos, citado aqui

09 outubro, 2009

razão adulta, fé infantil

O cristianismo bíblico descreve o ser humano como filho de Deus, o Pai. Considerando que Deus é amor, não poderia haver filiação mais desejada do que esta, certo? Quase certo, se todos enxergassem a relação homem-Deus como filho-Pai. Considerando que muita gente possui um histórico de relações com Deus em que repressões, más interpretações, autossuficiência e abusos podem ter levado a traumas espirituais quase irreparáveis, insisto aqui na compreensão de Deus como um Pai amorável que deseja o melhor para cada criatura Sua.

A letra de "O meu louvor é ser feliz", de autoria de Valdecir Lima (a música é de Lineu Soares), tem uma simplicidade aparente cuja superfície não esconde a profundidade da abordagem. É como se a letra fosse um regato de água translúcida a ponto de enxergarmos o leito, sendo esse córrego cristalino tão belo em sua pequenez quanto qualquer imensidão amazônica.

Quero depender de Deus
nEle crer e nEle confiar

O pensamento moderno sobre Deus é que, se Ele não existe, isso não interfere no meu caráter, e que, se Ele existe, Ele não interfere na minha vida. A primeira linha é elementar: se não existe Deus nem lei moral, isso não deve me tornar um mau-caráter, pois o amor pelos meus semelhantes deve me salvaguardar de praticar o mal contra eles (não lhe parece algo bem religioso?). A segunda linha não é melhor: não há dependência de Deus nem mesmo que Ele exista. Como escreveu Chesterton: “O homem é marxista num dia, nietzcheano no outro, super-homem (provavelmente) no dia seguinte e escravo todos os dias”.

Na contramão da autossuficiência (ou abandono) do homem, os versos de Valdecir expressam o desejo de depender de Deus. A conjugação verbal “quero” revela que depender de Deus, e crer e confiar em Deus, é uma escolha humana. O homem também é livre para não querer depender. Dependência relaciona-se à humildade, o que é confundido com humilhação. Humilhar-se diante de Deus e dEle depender não é rastejar e lamber o chão, não é imolar-se numa escadaria nem ferir as mãos numa corda. Depender de Deus é reconhecer que somos miseráveis demais para garantir nossa respiração no próximo segundo, mas também é saber que somos especiais demais porque fomos vestidos com mais glória do que os lírios do campo.

E ao sentir que sou um filho Seu
Em gratidão Seu nome irei louvar
Agradeço a Deus por minha vida
Pela alegria de viver em paz
Por receber tantas coisas lindas
Que Sua mão a cada dia traz

A percepção de que a paternidade divina é uma benção inigualável produz no ser humano a vontade irreprimível de adorá-Lo. O louvor é uma consequência natural de quem se sente amparado, de quem vê a misericórdia do Pai renovar-se a cada manhã. Deus nos amou primeiro. A gratidão vem na forma transbordante da música.

Pra Deus eu sou como criança
Com sonhos e alma de aprendiz

A criança é uma invenção com menos de 500 anos. Tratada milenarmente como um adulto em miniatura, a criança tinha pouco tempo para brincar e ser criança, pois sua existência servia aos afazeres domésticos e aos labores para o sustento da família. Segundo Philipe Ariès, na sociedade medieval, a criança era vista como um animalzinho, fonte de diversão para os pais e habitantes do local. Assim que crescia, passava a participar da vida em condições semelhantes às dos servos.

Eram comuns os casamentos com crianças (raramente o noivo era da faixa etária da noiva); os meninos dotados de talento musical eram entregues aos cuidados da igreja e os mais talentosos eram disputados pelas cortes (quando criança, o músico Orlando de Lassus foi raptado várias vezes de uma corte para outra); a escola não possuía estratégias de ensino voltadas para as competências infantis; os adultos não tinham pudores perto das crianças, que assistiam a conversas e atos que estarreceriam a Vara da Infância e da Juventude.

A Bíblia compreende a natureza diferenciada da criança, tratando-a como um ser que requer cuidados especiais pela sua compleição física e psicológica em tenra formação, mas também atribuindo-lhe deveres espirituais, como foi o caso de Samuel, chamado desde cedo para servir a Deus.

Apesar da tradição de manter as crianças longe dos assuntos “mais adultos” da religião, Jesus permitia que elas se aproximasse dEle sem medo e ainda recomendava a todos a converterem-se em crianças. É claro que existe a maldade infantil, muitas vezes estimulada por modelos adultos negativos. Não é baseado nesse modelo que Cristo nos orienta. O alto padrão do cristianismo estabelecido por Jesus referenda a fé e a confiança em Deus da mesma maneira que um menino não se preocupa com o almoço de amanhã nem com o que vai vestir de noite nem como vai pagar os livros escolares. O cristão é aquele que entende a Bíblia com a razão adulta e confia em Deus com a fé da criança.

Por isso louvo com minha vida
O meu louvor é ser feliz

Enquanto da boca dos pequenos brota um perfeito louvor, não há louvor maior a Deus do que uma vida dedicada a Ele. Mais do que altares e ofertas, mais do que belos poemas e inestimáveis canções, nosso louvor é ser feliz. E procurar ser feliz nesse planeta parece uma missão impossível. Mas posso começar a viver feliz pela esperança de um lugar real onde a felicidade não tem fim, tristeza sim.

06 outubro, 2009

everybody loves rio

Everybody loves Rio. É difícil não olhar para a capital carioca como se ela fosse nada mais que uma paisagem abençoada por Deus e bonita por natureza, que beleza! Os séculos passam e o povo continua na toada de que o Rio de Janeiro continua lindo, apesar da fumaça, apesar da desgraça, apesar do tráfico de drogas e de influências. Costumamos dividir a cidade em pessoas e cartão-postal. Depois separamos os habitantes em civis e governantes, sendo os primeiros a galera carnavalesca e hospitaleira e os segundos uma corja corrupta no ativo e no passivo.

Foi assim, com a memória embevecida pelas belezas naturais e artificiais que o comitê olímpico escolheu o Rio de Janeiro como sede dos jogos de 2016. Havia outros argumentos, até porque o Rio já tinha batido na trave três vezes nas escolhas de sedes olímpicas passadas: o Brasil nunca sediou uma Olimpíada, a América do Sul nunca sediou uma Olimpíada, o comitê não costuma escolher o mesmo continente duas vezes seguidas (os jogos de 2012 serão em Londres), e outras justificativas politicamente corretas.

O que ganhamos com uma Olimpíada? Nós, não cariocas, nada além de um orgulhozinho cívico. Não sei se haveria essa euforia toda se a cidade ganhadora fosse Campo Grande, Natal ou Vitória. Afinal, nosso ridículo ufanismo tem limites, certo?

Ah, mas essas outras capitais não têm dinheiro para sediar os jogos! Ahã! E o Rio tem, né?

Três perguntas básicas:
1) Preocupados com a violência? É só lembrar da calmaria suíça que foi o Pan-Americano/2007 do Rio.

2) O transporte é um entrave aos jogos? Segundo o G1, 40% do orçamento de 29 bilhões será aplicado em trens, ônibus e metrôs.

3) Essa dinheirama não poderia ser investida para melhorar o sistema de transportes da cidade sem precisar de Olimpíada? Sim, mas sem um prazo (2016) duvido que um projeto desse porte fosse finalizado.

Analistas se dividem a respeito dos reais benefícios de uma cidade ser anfitriã olímpica. Alguns apontam para Montreal/1976, que ficou pagando a dívida até 2005, e Atenas/2004, cujo orçamento saltou de 1,6 bilhões para 16 bilhões e depois do evento mal utiliza a gigantesca infraestrutura esportiva que ergueu.

Outros apontam para Barcelona/1992, que entrou no mapa das rotas turísticas mundiais, e Atlanta/1996, que fez a cidade renascer.

O orçamento vai inchar, nosso rico dinheirinho vai ser cooptado para cobrir os gastos. Mas está certificado que há um clima generalizado de felicidade durante um evento esportivo de primeira grandeza. Os locais de provas correm o risco de virar mausoléus depois dos jogos, a Olimpíada servirá de palco para disputas políticas. Mas haverá maiores investimentos para atletas e modalidades que não o futebol e o vôlei.

Lula chorou, Pelé chorou, os olhinhos do povo estavam cheios de ternura e lágrimas, até os jornalistas se davam aquele abraço. Alô, alô, torcida brasileira, agora verás com quantos reais se faz uma cidade maravilhosa.

P.S.: esse texto foi escrito com total ausência de dores no cotovelo. Aliás, até fiquei contentinho com a escolha do Rio de Janeiro.
Leia também: Everybody loves Ricardo Teixeira (sobre a Copa do Mundo do Brasil/2014).

02 outubro, 2009

meus heróis NÃO morreram de overdose

Leio que Julie Andrews completou 74 anos em 01 de outubro. Dá pra acreditar? A Maria de A Noviça Rebelde tornou-se uma septuagenária. Podem chamar de sentimental e convencional, mas é difícil resistir à Julie Andrews surgindo numa colina verdejante e girando com os braços abertos e cantando a bela “The sound of music”. Tudo bem que depois tem aquelas sete notas musicais ou sete crianças, o que dá no mesmo. Mas logo aparece uma Julie enamorada cantando “Something” e o resto é Oscar, história e lágrimas.

O cantor Cazuza dizia numa música que seus heróis morreram de overdose. Ele próprio escolheu viver e morrer como seus heróis. As mídias fingem odiar esse tipo de herói, mas são elas que cobrem cada nova celebridade com sua cota televisiva de vaidade (quando tudo vai bem), falso moralismo (quando tudo vai mal) e confete post-mortem. Todo astro recém-falecido por overdose é coroado com um mito: o melhor é morrer jovem e famoso. Essa é a maior falácia da cultura pop, um engodo que tem levado muita gente a achar que aproveitar a vida é experimentar tudo, todos e todas ao som de muito rock’n’roll, yeah!

Como escreve Robert Pirsig, “a degeneração é prazerosa, mas não sustenta uma vida inteira”. Mas quem é que está se lixando pra expectativa de vida, quando dizem que não há nem céu nem inferno, nem Deus, nem deus, nem juízo. Lembra do trinômio revolucionário “liberdade, igualdade, fraternidade”? Pode parecer apocalíptico, mas alguém discorda de que esse ideal foi substituído pelo também trinômio “sexo, drogas e rock’n’roll”?

Antes que os filisteus virtuais ataquem este web-escriba, já adianto que o problema dessa geração pode até não ser a música (que espelha as vontades dessa geração). O problema é esse estilo de vida “morra jovem e drogado” sendo vendido como a quintessência do pensamento rebelde e antiautoritário, um modelo insuperável de ser artista e porta-voz da geração, quando no fundo é apenas suicídio juvenil glamourizado. Roqueiros e atores, principalmente, são elevados à categoria de ícones da juventude transviada que estabeleceu suas próprias regras de sucesso, vida e morte. Porém, se solos de guitarra não vão me conquistar, esse overdose way of life também não me convence.

Meus heróis não morreram de overdose: Dostoievski, Jane Austen, Guimarães Rosa, John Steinbeck, Tolstoi; Beethoven, Bach, Bernard Herrmann, Debussy, Stravinski, Duke Ellington; Kurosawa, Jean Renoir; Lincoln, Luther King. Eles representam um tipo de herói: aqueles que escaparam da mediocridade reinante na cultura e nas relações sociais. São heróis pela excelência artística e de pensamento.

Alguém dirá: e Lutero, Paulo, Isaías, Daniel, Pedro e João não seriam heróis maiores e melhores? Estes são um outro tipo de herói: gente que nos serve de inspiração para viver. Eles são muito mais que heróis das artes e do pensamento.

Meus heróis não morreram de overdose. Talvez nem sejam heróis apenas; uns preferem chamá-los de mártires. Eles morreram decapitados, queimados, crucificados e temo não estar à altura de mártires assim, que não morrem por uma ideologia, morrem pelo Amor que excede todo entendimento. Meus heróis não pegaram em armas e venceram exércitos. Eles viveram não por força nem por violência, mas pelo poder do Espírito. Meus heróis não foram seres perfeitos. Eles tiveram falhas e espinhos na carne, mas negaram-se a si mesmos e decidiram que, não eles, mas Cristo viveria neles.

Há heróis e super-heróis para todos os gostos. Contudo, se em vez de adotarmos heróis pelo nosso gosto pessoal nós levarmos nossa vida ao pé da cruz, sairemos dali com um novo sentido do que é de fato um herói. Eu preciso de heróis que vivem pelo que ainda não se vê, que vivem por uma esperança estranha para quem não acredita, mas tremendamente perfeita e elevada para quem aceita.