29 novembro, 2009

3 anos de blog

Neste mês de novembro, o Nota na Pauta faz 3 anos de vida internética. Eu gostaria de dizer como aqueles megasites de venda que anunciam seus aniversários com slogans como “Nós fazemos 3 anos e quem ganha o presente é você!”. Mas como eu sou apenas um blogueiro pobre-de-má-ré-desci, esqueçamos isso de presente, ok?

Nesses três anos (com links):
o mensalão inspirou meus instintos mais primitivos e comecei a série inacabada “fábulas menores de moral mínima”;
Bush filho deu lugar à Pai Obama e a esperança venceu o medo nos EUA;
Ronaldo encheu a boca dos críticos com suas peripécias carnais e depois calou a boca dos críticos com o desconcertante drible da superação;
a Veja afirmou-se como a revista nacional mais tendenciosa quando o assunto é falar mal governo Lula e elogiar as teorias evolucionistas;
o Dunga largou o figurino da filha estilista e o Brasil passou a ganhar tudo o que disputava;
o papa foi à China e Madonna encontrou Jesus;
a música gospel tornou-se a mercadoria mais vendida porque é diversificada (ou mais diversificada porque é vendida);
os participantes dos reality shows, com ingratas exceções que confirmam a regra, despontaram para o anonimato;
as patricinhas viraram parisinhas (Hilton);
as companhias aéreas dispensaram a seus passageiros um tratamento só digno mesmo de quem oferece MaxiGoiabinha nos vôos;
as tramóias da Fórmula 1 mostraram o por quê do cognome “o grande circo da fórmula 1”;
a cantora Sandy Junior seguiu a indisfarçável carreira-solo que sempre teve, Michael Jackson morreu deixando-nos a imagem de pobre-gênio-rico;
o festival de asneiras musicais que assola o Brasil (só o Brasil, não, mas até a Bahia!) se consolidou no breganejo pseudouniversitário e no ritmo do axé-funk-pagode-gospel.

Nesses três anos:
Kaká mostrou como manter a integridade no meio religioso-midiático e no meio esportivo-midiático;
a senadora Marina Silva fortaleceu-se como faceta da dignidade no cenário político;
a necessária consciência ecológica se tornou a peça indispensável no circuito ecumênico e ECOmênico mundial;
o projeto de lei que insere a música na matriz curricular das escolas foi aprovado;
o quarteto Arautos do Rei ensinou como o básico pode ser elegante e sofisticado;
o grupo Novo Tom demonstrou como a inovação e a variedade podem ser elegantes e sofisticadas.

Em julho de 2007, eu estava atazanado com o início do mestrado e pensando em largar mão de atazanar os outros com meus textos. Foi quando o Michelson Borges reproduziu um texto meu sobre o Pan-2007 e aí resolvi insistir no labor virtual (de suor real, agarantcho-lhes). Um “muchas gracias” especial para ti, Michelson, pelo convite para fazer parte do time de colunistas do site Outra Leitura e mais recentemente pela cortesia de enviar um banner decente para o Nota na Pauta.

Dei meus primeiros passos para fora do museu do blogueiro desconhecido e fiz amigos virtuais como André Gonçalves, cujos comentários melhoram o blog, André Reis, que estimula nosso dever de pesquisar coerentemente o que se escreve, Matheus Siqueira, que me colocou na equipe do site Éoqhá, Douglas Reis, web-escriba de confiança, Levi Tavares, que faz um trabalho dedicado no Música e Adoração, Ingrid Oliveira. Agradeço à turma que critica, sugere e elogia na caixa de comentários, à quem reproduz textos com os devidos créditos (pra mim, um privilégio!), aos que somente leem e acompanham (outro privilégio), aos seguidores amigos do blog e do twitter do blog.

Em tempo: esta é a postagem de número 260. Faltam 740 para o milésimo post.
em tempo 2: valeu vivi, leitora atenta do blog que me corrige: o termo é 'pobre-de-má-ré-desci' (o certo) e não 'pobre-de-marré-de-si' (como escrevi).

27 novembro, 2009

verdades e mitos: mensagem subliminar na música

O que é a verdade? Essa pergunta ressoa há muito tempo, inclusive sendo feita pelo hesitante Pôncio Pilatos a Jesus. A filósofa Marilena Chauí apresenta uma perspectiva tríplice do que compreendemos hoje como "verdade":

a) Em grego, verdade é aletheia, que seria algo evidente e plenamente visível para a razão. Essa concepção de verdade está embasada no demonstrável hoje, no presente.
b) Em latim, verdade é veritas, e tem a ver com o rigor e a precisão de um relato. Essa noção está relacionada à fidedignidade no relato de um acontecimento passado.
c) Em hebraico, verdade é emunah, que significa uma crença fundada na confiança e na esperança. A palavra "amém", que quer dizer "assim seja", tem raiz no termo emunah. Quando dizemos amém, o dizemos baseados na confiança presente, mas também firmados na esperança para o futuro.

Nossa concepção de "verdade" tem a ver com o verificável, com o fidedigno, com a confiança.

E o mito, o que é? Mito é uma forma que apresenta uma solução imaginária para compreender e justificar os fenômenos. Os conflitos e contradições havidos num fato histórico são diluídos em prol de uma visão apaziguadora e falsamente real. As causas do falso e do erro são as opiniões preconcebidas, as falhas de percepção, os enganos da memória, mas, ainda segundo Marilena Chauí, as causas do erro encontram-se na vontade.

Nas discussões sobre música sacra, os mitos são notórios. E mitos não possuem precisão histórica, sociológica e até teológica. Portanto, precisamos compreender a diferença entre o parecer e o ser das coisas a fim de não ser levados por qualquer vento de doutrina ou tradição de homens, pois muitos não passam de mitos propagados como verdade.

As mensagens subliminares foram até uns tempos atrás o motivo de atração de palestras sobre música. Pregadores, pastores e palestrantes agitavam as congregações e platéias com as demonstrações de que, por baixo de camadas de som, estava ali uma mensagem satânica para manobrar os incautos.

Porém, o que era uma moda pseudocientífica nos anos de 1970, hoje não passa de uma lenda urbana. Sabe-se que a maioria das supostas mensagens subliminares da música era preparada propositalmente para:
1 – vender mais discos;
2 – fazer troça com a onda da mensagem subliminar

Além disso, se tem uma coisa que o rock não precisa é de mensagem oculta. As mensagens (positivas ou negativas) do rock estão bem explicitadas nas letras, nas performances e na vida de vários de seus astros.

Pergunta: as mensagens invertidas na música existem?

Existem, sim. Na cabeça poluída de quem ouve frases claras em meio a um zumbido ininteligível. Experimente ouvir uma música que tenha uma “clara mensagem subliminar” sem ninguém lhe dizer antes o que você irá ouvir.

“Se você tocar um hino em rotação invertida, e por muito tempo em várias velocidades, ele dirá qualquer coisa que você queira escutar” – James Walker.

E o que disse Evan Olcott à revista Music and Technology?: “Você provavelmente não ouvirá mensagens [invertidas] até primeiro alguém apontá-las para você. Percepção é influenciada pela expectativa e a expectativa é afetada pelo que os outros falaram para você”.

E tecnicamente é possível esconder uma mensagem na gravação de uma música?

O mesmo Evan Olcott me socorre quando o assunto é engenharia de som: “De fato, planejar um reverso fonético é algo próximo do impossível, e mais difícil ainda quando se tenta fazê-lo com palavras que caibam numa canção”.

Vemos, então, que os propalados efeitos das mensagens subliminares na música são, na verdade, um MITO. Sem mais perguntas, meretíssimo.

Leia também aqui no blog: "as mensagens nada subliminares do rock"

24 novembro, 2009

segura na mão do henry e vai


Em vez de converter-se com o tempo em um senhor centenário respeitável, o futebol está na verdade perdendo os últimos fios brancos de respeito e dignidade que ainda tinha. O último escândalo veio a ter lugar logo na civilizada Paris; e o relato que se segue ruborizaria até as damas suspeitas de suspeitas esquinas parisienses. O que lhes passo a contar envergonha a peruca de Voltaire e a calvície de Bonaparte, mas a verdade tem que ser dita ainda que tentem abafá-la tocando a Marselhesa em dez mil alto-falantes.

Conto-vos, pois: a aguerrida disputa entre França e Irlanda para garantir uma vaga na Copa de 2010 na África do Sul estava empatada em pleno Stade de France, onde onze anos atrás a seleção francesa tinha conquistado a Copa pela primeira vez na sua história.

Se essas duas nações quisessem mesmo demonstrar que vieram do berço da civilização ocidental, esses países convocariam seus homens para batalhas em outras arenas que não o simplório campo de futebol. O embate poderia usar armas letais como a leitura e explanação da obra Ulisses, do dublinense James Joyce, ou então obrigar o inimigo irlandês a assistir uma mesa-redonda sobre o Ser e o Nada.

A querela futebolística se resolve sem maiores intelectualidades, mas não sem a vontade dos gauleses de mandar os irlandeses de volta para os pubs da Grã-Bretanha. Os irlandeses, terra das altercações costumeiras entre católicos e protestantes, querem liquidar a França ateia. Atentai bem, que essa questão da religião ainda volta a aparecer por aqui.

Sendo que o empate em 1x1 não fede nem cheira à queijo Camembert, segue-se a peleja na prorrogação. É então que o jocoso Henry, atacante de bons pés e muita máscara que já tinha eliminado o Brasil em outro certame mundial, recebe uma bola em profundidade. Mas esta se lhe escapa do domínio lícito e, mais rápido do que alguém possa dizer “Athos, Porthos e Aramis”, o jogador dá um toque na bola com o braço, outra ajeitadinha com a mão e passa (com o pé, enfim) a bola para um companheiro marcar o gol da vitória e da classificação da França.

A jogada de Henry foi tão irregular que em qualquer outro esporte com bola seria ilegal também. No vôlei, seria marcado dois toques; no basquete, condução.

Com um tapinha indolor, Henry derruba o espírito olímpico do Barão de Coubertin e os ideais de fraternidade esportiva de Jules Rimet. Num ato impensado, a mão boba de Henry faz cair o pano envergonhado da Deusa da Razão.

Mas, peraí, e os jogadores irlandeses não reagem, não fazem parar a partida, não catimbam até que o Bono Vox sopre no ouvido do quarto árbitro que o gol foi ilegal, que a regra é clara, que nem uma legião de Carla Brunis pode fazer um irlandês aceitar esse engodo?

Qual o quê! Os irlandeses são um povo culto demais para um estardalhaço do tipo. Reclamam baixinho, correm atrás do árbitro, mas não insistem muito, não. É isso que dá ter uma população com altíssimo índice de leitura anual per capita. Fossem os jogadores brasileiros que se sentissem roubados na mão grande e duvido que nossos guerreiros com o ensino fundamental incompleto e meio livro lido do Paulo Coelho desistissem tão facilmente. Na hora de reclamar no futebol, verás que um filho teu não foge à luta!

Para Henry, se Deus não existe, então tudo é permitido, inclusive gol de mão e citação fora do contexto. Mas se fosse a Irlanda que tivesse marcado um gol ilegalmente, pode ter certeza, leitor mon ami, que o próprio Zidane desceria da tribuna e daria uma cabeçada no juiz.

As pessoas têm levado o futebol muito a sério. Daí as animosidades entre torcidas, daí a satisfação de ganhar mesmo com um gol de mão, daí que a França segura na mão do Henry e vai à Copa. Mas se existiu um momento para inserir a tecnologia do simples replay para diminuir as injustiças e punir os mandriões da bola, o momento é esse.

No entanto, desde que Maradona fez um gol ilegal com a mão na Copa do México de 1986 e matreiramente atribuiu o tento à “mão de Deus”, resta aos craques e também aos pernas-de-pau o cada vez mais cotidiano expediente de usar a santa mão de Deus em vão.

20 novembro, 2009

Indiana Jones e a religião

A série Indiana Jones, além de ser a mais cara e lucrativa brincadeira de caça ao tesouro, também estabelece a religião como ponto convergente dos quatro filmes. Em Os Caçadores da Arca Perdida (1981), a Arca da Aliança é o objeto disputado por mocinhos e vilões. Em O Templo da Perdição (1984), a religião hindu funciona como cenário para as peripécias do herói. Em ambos, as religiões são estereotipadas até o último fotograma. Mas considere que todo o cenário político e arqueológico da série também repete clichês e preconceitos (não vi o quarto filme da série para comentar aqui).

No terceiro filme, Indiana Jones e a Última Cruzada (1989), o diretor Steven Spielberg e o roteirista Jeffrey Boam conseguem equilibrar os temas religiosos com o clima de ação e suspense. É onde também encontram tempo para o bom humor, graças ao ator Sean Connery, mas agora não vem ao caso.

No início do filme, o dublê de professor de arqueologia e caçador de raridades Indiana Jones, luta contra um inimigo dentro de um bote até que ambos se veem na iminência de ser trucidados pela hélice gigante de um navio. Indiana Jones o ameaça com o perigo de os dois morrerem ali, mas seu adversário reage com tranquilidade face à morte dizendo: "A minha alma está preparada para a morte. E a sua, Mr. Jones?"

O filme começa a transmitir, então, a ideia do conflito espiritual que Indiana Jones tem atravessado. Ele não está em paz nem com sua família - tem uma relação mal-resolvida com o pai - nem consigo mesmo - sabe que explora os bens culturais de outros povos. Enfim, Indiana não está preparado para a morte.

Somente no clímax do filmes, quando seu pai é feito refém, Indiana Jones não vai mais querer salvar o mundo nem adquirir um troféu. Seu motivo será menos espetacular. Só quer salvar seu pai. O herói mudará sua atitude que, mesmo com o pretexto de salvaguardar os tesouros da humanidade da mão de gente inescrupulosa, vinha sendo tão gananciosa quanto a de seus inimigos.

Obrigado pelos inimigos e pela situação do pai a arriscar a vida para buscar o famoso Santo Graal dentro de uma caverna cheia de armadilhas, o herói precisará transpor três obstáculos que podem nos dizer muito sobre a relação do homem com Deus.

O primeiro obstáculo é traduzido como "o sopro do Senhor": o herói precisará abaixar-se para escapar da morte: "só o homem penitente passará", ele diz. Em mais um dos maravilhosos paradoxos bíblicos, quando o ser humano busca a humildade, quando reconhece a soberania e a dependência de Deus, é que ele supera desafios. De joelhos, o homem se torna um gigante.

O segundo é relatado como "a palavra do Senhor". Indiana precisa seguir os passos certos que registram as letras do impronunciável nome de Deus. Essa palavra, que está no início das orações humanas, não volta vazia.

O terceiro obstáculo que Indiana Jones precisa superar está relacionado ao "caminho do Senhor": é um obstáculo de fé e Indiana precisa encontrar o grão de fé, mesmo na dúvida. Na caminhada cristã, aprendemos que sem fé é impossível agradar a Deus. Às vezes, apenas crer ou basta confiar parecem atitudes simples, porém nossa resistência em crer faz com que a fé se torne um passo mais difícil. O herói do filme dá o passo no vazio, o salto no escuro, e encontra uma ponte sobre o abismo. Ponte que se torna visível após a experiência da fé. Pode haver dúvidas e até negação no caminho da fé, mas o passo confiante leva Àquele que se tem procurado.

Por fim, Indiana Jones chega ao local em que está o cálice, o Santo Graal. Porém, ele acaba de notar que não sabe como é o Santo Graal: pequeno, grande, refinado, tosco? Ele só tem uma chance para pegar o cálice e sair dali. O guardião do tesouro lhe avisa: "Escolha sabiamente". A primeira opção de Indiana é apanhar a taça mais incrustada de pérolas, a mais bela para os seus olhos. Isso, pensa ele, representaria a majestade divina.

No entanto, aquilo que o homem escolhe como se fosse Deus, nada mais é do que sua própria vontade do que ele gostaria que Deus fosse: a aparência externa mais bonita e decorada. Na verdade, o cálice aparentemente rude é que teria sido usado por um Homem que ceava com pescadores. Isso revela que a aparência externa não diz nada sobre as pessoas, pois foi o próprio Cristo que disse que muitos homens eram como sepulcros caiados, cadáveres morais tingidos com a tintura da aparência de piedade.

A última ceia de Cristo com os discípulos não foi um banquete gastronômico nem uma festa de despedida extravagante. Só mais tarde, os discípulos compreenderiam o valor espiritual das palavras de Jesus. A última ceia representa também o momento em que o Deus feito homem torna-se servo e cumpre a missão maior: servir ao homem. Servir de cordeiro que tira o pecado do mundo, servir de loucura para quem não entende ou prefere não entender o ato da cruz, servir de esperança para quem O procura com humildade, mesmo que com dúvidas.

* * *
Alguém pode perguntar por que estou rascunhando pensamentos a partir de supostos gravetos como consideram as fábulas do cinema em vez de subir na árvore das parábolas bíblicas. Na verdade, subir, eu subo. Embora, cair, infelizmente eu também caia para um galho mais baixo. Mas garanto: não quero descer. Além disso, se eu sempre começar meus textos com referência bíblica, haverá uma boa gente que deixará de lado este blog já na segunda linha.

17 novembro, 2009

o hino da república dos homens ocos

O Brasil republicano fez 120 anos neste domingo dia 15, mas até os paralelepípedos de Brasília sabem que não se passou um dia desde a hora em que Deodoro da Fonseca empunhava a derrubada da monarquia.

Um dos princípios básicos do republicanismo, a ética no tratamento da res pública, da coisa pública, do dinheiro público, ainda está para ser consolidada no Brasil. Nessa terra de Vera Cruz, ainda vigora o apadrinhamento colonial e a distribuição de cargos como se estes fossem capitanias hereditárias.

De república velha para república nova, do Rio para Brasília, os personagens políticos mudam apenas de nome; nem a mudança de sobrenome pode ser celebrada. Houve mais mudança na passagem da bossa nova para a tropicália do que na mudança de réis para reais ou de reis para republicanos. Há menos pleonasmo no “coqueiro que dá côco” do que nos discursos políticos; há mais farra com as verbas públicas do que entre as carnes públicas no carnaval.

O Hino da Proclamação da República ilustra com raro fervor a causa nativa. Suas estrofes têm tantas orações indiretas que no fim de cada uma já não se sabe do que a letra fala mesmo. É preciso cantá-lo com tradução simultânea dado o alto número de palavras nada cotidianas como “torpes labéus”, “pálio de luz desdobrado”, “brilha ovante” e “louçãos”.

Este blog, no cumprimento do seu dever cívico, lhe concede, pátrio leitor, a chance áurea, se não de decorar o Hino da República, ao menos de vir a conhecer seu inefável significado.

Seja um pálio de luz desdobrado / Sob a larga amplidão destes céus
Este canto rebel que o passado / Vem remir dos mais torpes labéus!
Seja um hino de glória que fale / De esperança, de um novo porvir!
Com visões de triunfos embale / Quem por ele lutando surgir!

O que o letrista Medeiros e Albuquerque (1867/1934) queria dizer é algo mais ou menos assim: Esse hino rebelde cantado debaixo do céu infinito purifica o passado de manchas desonrosas. A estrofe pede que esse hino glorioso transmita a esperança de um novo futuro e o penúltimo verso diz que o hino possa embalar (cantar para criança dormir) com sonhos de vitória quem lutar pelo novo futuro. Essa é a metáfora que balança o berço esplêndido em que dorme o guerreiro brasileiro.

O tal “pálio” não é propaganda subliminar da Fiat, mas um sobrecéu portátil, com varas, usado em procissões para cobrir o sacerdote que leva a custódia. Com uma definição dessas não há quem não acredite que uma imagem fala mais que mil traduções.

Nós nem cremos que escravos outrora / Tenha havido em tão nobre País...
Hoje o rubro lampejo da aurora / Acha irmãos, não tiranos hostis.

Mal expulsaram D. Pedro II and family e já estavam com ganas de apagar a história. Já nem acreditavam que o Brasil tão nobre adotara o abjeto escravismo. Os raios da aurora só encontrava irmãos fraternos!

Somos todos iguais! Ao futuro / Saberemos, unidos, levar
Nosso augusto estandarte que, puro, / Brilha, ovante, da Pátria no altar!

Como somos todos iguais podemos conduzir nosso estandarte que brilha triunfante no altar da república. Olha a confusão de religião com nacionalismo aí, geeeente!

Se é mister que de peitos valentes / Haja sangue em nosso pendão,
Sangue vivo do herói Tiradentes / Batizou este audaz pavilhão!
Mensageiros de paz, paz queremos, / É de amor nossa força e poder
Mas da guerra nos transes supremos / Hei de ver-nos lutar e vencer!

Toda revolução é assim. Primeiro, pedem nosso amor à pátria. Depois, vêm logo pedir nosso sangue. A estrofe até menciona a paz que excede todo ufanismo, mas vai o reservista dizer que é mensageiro de paz...

Do Ipiranga é preciso que o brado / Seja um grito soberbo de fé!
O Brasil já surgiu libertado, / Sobre as púrpuras régias de pé.
Eia, pois, brasileiros avante! / Verdes louros colhamos louçãos!
Seja o nosso País triunfante, / Livre terra de livres irmãos!

Na última estrofe, há um apelo à memória do Ipiranga. No entanto, nessas paragens tropicais, é mais fácil ouvir um sabiá na palmeira que a voz do povo na rua. Assim foi no grito surdo da Independência, quando D. Pedro I fazia pose para o famoso quadro de Pedro Américo e a população analfabetizada só saía à rua para dançar a chula e vender o peixe. Foi assim na proclamação muda da República, uma quartelada acontecida às primeiras horas da manhã de 15 de novembro de 1889 que fez pouco mais que uma troca de grupos de poder. Homens ocos de justiça foram substituídos por homens ocos de senso do dever.

Mas as gentes ouvem coisas como “púrpuras régias de pé” e quedam encantados. A retórica dos homens ocos nos pede para colhermos os verdes e louçãos louros da vitória. Louçãos quer dizer viçosos, graciosos, garridos (agora sabemos o que queriam dizer com “nossa terra mais garrida”). "Novo porvir", "livre terra de livres irmãos": a classe republicana vai ao paraíso.

Liberdade! Liberdade! Abre as asas sobre nós!
Das lutas na tempestade Dá que ouçamos tua voz!

Nossa proclamação da república teve salva de tiros, hino, missa e desfile; só não teve a participação do povo. Como em 1500 e em 1822, a população era apenas um detalhe no espetáculo encenado do poder. Houve reforma do gabinete e reforma do nome dos logradouros públicos, mas reforma da consciência social, universalização de direitos, impessoalidade na administração, isso talvez seja coisa pra outros 120 anos.

13 novembro, 2009

por que tanto debate sobre música sacra?

Entre as palestras que realizei nesse semestre, talvez as mais marcantes foram as duas que fiz no Campori de Jovens da Associação Sul-Paranaense. Meu assunto? A música cristã contemporânea. Pude, então, falar a respeito de verdades e mitos que cercam a música sacra. É um tema muito perpassado por questões de ordem pessoal: gosto individual, interpretações descontextualizadas, falta de noção sobre a missão da igreja e, principalmente, excessiva preocupação com estilos e instrumentos musicais.

A seção que não pode faltar, a de perguntas ao palestrante, centrava-se mais no uso de inovações musicais introduzidas nas igrejas. Eram as famosas "por que pode isso?", "por que não pode aquilo?", enfim, estávamos todos na fase dos "por quês".

Por isso, na sexta que vem, vou preparar uma seção no blog para escrever sobre verdades e mitos nas músicas sacra e secular. Não, não serei um oráculo provido das respostas para todos os males que afligem teu pensamento sobre música. Mas passou da hora de esclarecermos a questão. Até quando as pessoas estarão sujeitas a ouvir que "os tambores são malignos", que "as plantinhas morrem ouvindo rock e crescem viçosas ouvindo música erudita", que "a música clássica é a música natural" (!?), ...

De outro lado, há outros mitos como "Lutero disseminou o uso de música secular com letra religiosa" (é mesmo?), ou como "todo estilo musical serve para a adoração" (em qual contexto cultural?), ou ainda "se usaram música secular no século XIX devemos fazer o mesmo hoje".

Isso me faz lembrar de pelo menos duas deficiências nas abordagens do assunto nas igrejas:

1 - O debate musical: creio que o grande problema do qual muitos reclamam não é de ordem musical. É de ordem teológica. As pessoas querem resolver os problemas na música da igreja discutindo musicalmente, quando deveriam estar procurando soluções teológicas. Estão falando de escalas e estilos musicais, estão lançando anátemas na percussão, no melisma e até na pobre da síncope, coitada, quando deveriam estar esclarecendo a missão confiada à igreja.

Quando palestrantes se debruçarem sobre os contextos sociológicos e os estudos musicológicos fidedignos e quando os músicos se dedicarem ao conhecimento teológico e à compreensão da história da igreja, do sentido das boas novas e da missão denominacional, eles (eu incluso, sempre) debaterão menos a música e provavelmente modificarão seus argumentos em prol da pregação do evangelho.

Isso não deve levar a operações insensatas de evangelismo por meio da música. Ao contrário, o conhecimento deve guiar os passos musicais e espirituais sob mais luz. Debater, vá lá, mas sem perder a ternura. E o sentido da missão.

2 - O tempo dedicado à discussão musical: já teve gente que me perguntou por que, se esse blog tem o nome de "nota na pauta", eu não escrevo somente sobre música. Bem, alguém pode não gostar do trocadilho, mas não entender que não me dedico apenas a questões musicais aí já é outra história. Outro dia, me mandaram um longuíssimo e-mail com dezenas de links de videos e falas e versos e textos para que eu lesse e visse e ouvisse. Desculpe, mas não tenho fé suficiente para ser um crente nesse poder da música de que tanto falam.

Deslocam textos, misturam contextos, tudo para um pretexto de auto-de-fé musical-espiritual. Falam da música do céu como se a tivesse escutado; fazem uma apologia eurocêntrica da música anglo-saxã como se fossem colonizadores com um violino na mão e uma ideia civilizadora na cabeça.

De outro lado, os ardorosos defensores das estratégias gospel de evangelismo vêm armados de contemporaneidade e desprovidos de Bíblia. Falam do que é lícito, mas omitem aquilo que convém; defendem o que é amplamente lícito, mas não citam o que edifica a coletividade espiritual. E ambos os lados usam argumentos extraídos da própria Bíblia.

Precisamos abaixar o volume de nossos gostos desenvolvidos ao longo de uma vida para que a voz de Deus se faça ouvir na nossa música.

11 novembro, 2009

cem palavras: o ódio a Deus

Há uns dois anos, em conversa sobre religiões, um dos interlocutores falou sobre Deus assim: "Esse Deus fica exigindo reverência e adoração só pra Ele, quer que todo mundo se humilhe e grita: se ajoelhem!" Houve um silêncio na roda, eu fiquei impressionado com a súbita cólera na fala do amigo e me faltou palavras pra dizer a ele que essa não é a ideia que tenho de Deus. O prazer do cristão deve ser andar humildemente com seu Senhor, como diz a Bíblia. Cristãos genuínos gostam de servir a Deus e, para eles, adorá-lO nada mais é que reconhecer e ser grato pelos atos poderosos de salvação dos quais se consideram não merecedores.
O jornalista português João Pereira Coutinho, na Folha de S. Paulo (4/11/09), identifica que alguns intelectuais são sistematicamente agressivos em relação às religiões (e regularmente acintosos quanto ao cristianismo) não porque descreem simplesmente na existência do Deus bíblico, mas porque desenvolveram um ódio ao Deus bíblico, e acabam falando de Deus como se acreditassem que Ele exista e seja um mal a ser extirpado da vida humana:
O ateísmo de Saramago faz lembrar uma história. Um dia perguntaram a Kingsley Amis por que motivo ele não acreditava em Deus. Amis fez cara de enfado e, razoavelmente sóbrio, explicou: "Não é bem não acreditar em Deus; é mais detestá-lO".

Tal como Amis, Saramago não descrê em Deus; ele simplesmente detesta-O com uma força só comparável à devoção dos verdadeiramente fanáticos. Nos seus livros "heréticos", o Mal não está apenas na religião tradicional e organizada. O Mal está na fonte. Leiam "O Evangelho Segundo Jesus Cristo": Deus é o vilão, não Jesus. Pelo contrário: Jesus só merece a empatia do autor, que descreve o destino daquele homem, condenado a sofrer às mãos do Pai, com verdadeira caridade "cristã". Deus, como sempre, é o supremo criminoso.

A atitude é profundamente religiosa. E Saramago é, ironia, a criatura mais religiosa da literatura contemporânea. Não somos religiosos apenas porque amamos Deus. Somos religiosos até quando O detestamos: o nosso ódio, como Graham Greene mostrou no magistral "Fim de Caso", é também uma forma de afirmação. De afirmação pela negação. "Eu sou o espírito que nega!", exclama Mefistófeles ao dr. Fausto. Saramago também. É por isso que Saramago e os fanáticos religiosos que ele tanto critica falam a mesma linguagem. Ainda que habitem pontos opostos do diálogo.

09 novembro, 2009

a intolerância e o vestidinho indefectível

A moçoila ousada e descolada se arruma em frente ao espelho, experimenta uma, experimenta duas, na terceira roupa ela se decide. Portando apenas um vestidinho vermelho, ela anda pelos corredores da faculdade e transtorna um grupo de universitários. O vestidinho causa furor e uma entidade moralizante “baixa” nos universitários, que veem no curto figurino da moça uma profanação do solo sagrado da academia.

Eles (e elas), movidos pelo zelo escandalizado típico dos jovens universitários tupiniquins, seres pouco afeitos a baladas, raves e que tais, não somente atiram a primeira e a segunda pedra na Madalena suburbana metida em trajes tão sumários, como também expulsam-na do prédio acadêmico. Só faltaram levá-la até a direção e gritar “Eis aqui essa mulher, magnífico reitor. Foi apanhada nos provocando, essa mulher deve morrer!” Teria Geisy Arruda, a dama-estudante de vermelho em questão, transtornado a turba com seu vestidinho vermelho indefectível?

Vejamos. Não, ela não passou pelos tubos de ventilação e deixou as intimidades à mostra como Marilyn Monroe. Não, ela não dançava sobre a mesa e as carteiras como as meninas teúdas e manteúdas dos filmes adolescentes. Não, ela não deixou a calcinha em casa como Britney Spears. Não, ela não descia na boquinha da garrafa como as chacretes modernas do axé. O que fez a moça, então, para disparar os instintos mais primitivos da malta?

Geisy teria faltado com o decoro ao usar um vestidinho vermelhinho tão pequeninho que mal cabia na palma da mão. Mas seria essa roupa mais inapropriada para o ambiente acadêmico do que o chinelão e a bermuda dos mancebos ou do que os tops mínimos das donzelas tropicais? Mais inadequado do que tudo isso é a intolerância e a violência dirigidas à qualquer pessoa, caloura ou veterana.

Para os moralistas espiando da janela, Geisy foi culpada pela agressão que sofreu. É o típico pensamento de quem acha que a vítima estuprada é que atrai a violência sobre si. Esses enxergam a mulher como uma lobinha sexy perturbando as mentes sadias dos homens cujos instintos de macho predador e pegador vêm à tona de forma incontrolável. Não basta à vítima a humilhação física; descarreguem-se nela as mais abjetas acusações: “Ela deu mole”, “vacilou”, “com essa roupa, ela tava pedindo por isso”...

Podem as moças passar a tarde escolhendo e cantando “Com que roupa eu vou?” e ainda que elas não saiam vestidas para arrasar, haverão machos famintos que salivarão olhudos ao menor sinal de exposição de carne feminina.

Tome-se a divulgação de algumas festas universitárias. O convite anuncia que até à meia-noite mulher não paga. Outros bares alardeiam que até à meia-noite mulher não paga bebida, e assim por diante. Apesar das celebradas emancipações femininas, ainda há mulheres que se servem de isca para a diversão masculina. Não que elas não queiram se divertir, afinal nesta terra de estudante de muitas baladas e poucos engenhos o prazer é um mandamento irresistível. E após a meia-noite, cinderelas e abóboras encontram príncipes e sapos ao som de qualquer música sem palavra difícil.

Mesmo que todas as festas de faculdade fossem de uma austeridade puritana, ainda assim os jovens intolerantes não tinham a mais ínfima justificativa para constranger, xingar e malhar aquela estudante como se ela fosse uma judas de minissaia. Até porque ninguém sabe de nenhum movimento universitário contra as peripécias amorosas e BBBices transmitidas ao vivo, não se sabe de manifestação de graduandos em prol da erudição das letras do funk.

De repente, os alunos da UNIBAN, faculdade onde ocorreu a inquisição da semana, foram acometidos de um pudor que arrepiaria até as tradições das ligas de senhoras em defesa da moral e dos bons costumes. Qual a providência tomada pela reitoria? Investigar o caso, punir os culpados pela cena de intolerância e sugerir um enxoval mais circunspecto à moça ousada e descolada, que usou aquele vestidinho porque iria emendar a aula com uma saída noturna, certo?

Qual o quê! A direção da faculdade houve por bem expulsar a moça do quadro de seus respeitáveis e honoráveis alunos. Assim, a vítima foi transformada em vilã e os agressores em juízes e protetores da ordem social. Ai daquele jovem universitário que acende os archotes da intolerância e desmoraliza a própria moral.


Imagem tirei daqui.

04 novembro, 2009

o e-book e o e-leitor

Quando os primeiros livros começaram a ser impressos na gráfica de Gutenberg no remoto ano de 1455, será que houve alguém que continuou preferindo estudar nos pergaminhos? Pois no nosso informatizado século há quem não goste da novidade revolucionária, o e-book. E não é por que a nova engenhoca do saber ainda custa caro.

Não se assuste com a chegada do e-book, o livro eletrônico que comportará toda a sua estante de livros. Vantangens prováveis: os livros que você quer (e conseguir comprar) a um click de distância; não amassa, não pega fungo, não tem mau cheiro nem solta as tiras; dá pra ler de noite; o portador do e-book será visto como alguém antenado - alguns dirão "descolado". Desvantagens possíveis: comprar de novo os livros que você já tem; ver uma estante ficar obsoleta; esbarrar num botão e mudar de página - ou de tela - no meio da leitura; reiniciar, resetar, reinicializar; virar o brontossauro da repartição caso não adquira um e-book.

Não há como negar que ler um e-book na fila do ônibus ou dentro do metrô pode ser uma aventura tão arriscada como exibir um celular de última geração. Não será a mesma coisa que roubar livros de papel, algo que será tão insólito quanto o furto de chinelo velho. Talvez a democratização do produto e o barateamento dos preços faça com que o e-book não seja um objeto tão disputado, mas isso pode levar um bom tempo.

As crianças estão mais espertas, mas o que não mudará é o seu maravilhoso senso de ser inoportunas. Seu sobrinho iPodizado e iPhonizado lhe perguntará sem dó: “Como faz pra acessar essa coisa de papel que você lê?” Sua amiga ecochata: “Sabe quantas árvores se derruba para você ler esse livro?” Até o estagiário recém-contratado: “Deixa que eu encontro rapidinho essa citação do George Soros aqui no meu e-book”.

Nem os concursos bíblicos serão mais os mesmos. Imagine os participantes com seus iPhones e iTudo na mão: “Armas ao alto” (calma, arma é só como se chamava a Bíblia em antigos concursos). “Livro A, capítulo B, verso C”.

Os dedos voam, clicam num ícone, dois ícones, deslizam suave e digitalmente e encontram facilmente a passagem que brotam na tela junto com as personalizadas abas de tela. O hinário completo também estará lá (embora as letras das músicas cantadas nas igrejas já tenham sido teletransportadas para o telão).

Nesses tempos linkados e logados em que vivemos, a ciência que se multiplica está pondo a Bíblia no bolso. A Bíblia virtual no bolso real do indivíduo, que fique bem entendido. A tecnologia pode auxiliar e muito a leitura e a propagação da Palavra. Como parafraseou meu irmão Julison portador de uma Bíblia no Formato de Hoje: “Escondi Tua palavra no meu iPhone para não pecar contra ti”.

Para as gerações acostumadas com o cheiro e a textura do papel, a transição poderá ser mais lenta e gradual que qualquer perestroika. Os traumas poderão gerar indivíduos que não subsistirão ao olhar para uma estante com apenas um fino e hirto e-livro onde antes esparramavam-se centenas de lombadas e capas duras. Haverá aquela espécime mais arredia à tecnologia, que passará os dias em sebos em busca de qualquer traço de celulose. Alguns se contentarão em espirrar alergicamente ao abrir um livro com vestígios de pó e traça. Os mais radicais, aqueles que nunca quiseram nem aprender como se liga um aparelho de DVD, dirão que no tempo deles é que a leitura era um prazer, que o nome de Gutemberg é desonrado a cada download de um novo livro e ainda lamentarão a decadência da humanidade.

Convertei-vos, ó idólatras do vinil e da celulose! Antes que venham os maus dias em que não podereis mais ser nem leitores nem e-leitores.