27 setembro, 2010

Raiz Coral: qual é o seu idioma?


O Raiz Coral cantou no "Qual é o Seu Talento?", do SBT, e foi aprovado pelos jurados do programa. Esses jurados costumam ficar encantados com cantores gospel. Talvez porque no meio gospel ainda se valorize a qualidade do timbre e da performance vocal.

Certa vez me perguntaram por que o Raiz Coral, sendo um grupo brasileiro, faz música de tradição tão americanizada.

Uma das respostas para esse paradoxo está no fato de que, no Brasil, as músicas de cultos de raiz africana estão nas origens do samba. E de samba, como se sabe, só não gosta quem é ruim da cabeça ou doente do pé. Ou então evangélico, já que o samba, entre outros motivos, por sua intensa relação com os festejos seculares, não foi integrado aos cultos protestantes. 

Nos Estados Unidos, as religiões de matriz africana não têm representatividade nas músicas seculares. Nem na black music se ouvem nomes de divindades de cultos africanos. Assim, se a música afro-brasileira é "mundana" demais, a saída é a música afro-americana com origens no gospel.


O Raiz Coral também representa um dilema: para uns, é um coral gospel que usa o idioma musical que o mundo entende; para outros, é um coral mundano que usa o idioma gospel

Esse dilema não é novo. No século 19, o compositor brasileiro Carlos Gomes pedia que Deus o livrasse de usar a linguagem da ópera para cantar temas cristãos. Já Giuseppe Verdi, seu colega de profissão italiano, dizia que para falar de Deus era preciso usar a língua musical dos homens.

Acontece que muita gente está dando cada vez mais valor à performance vocal e gestual dos cantores. Letra, melodia e harmonia recebem menor atenção. Importa a sensação causada pela interpretação. A apresentação no Raiz Coral no programa "Qual é Seu Talento?"(QST) é sintomática: a canção (Eu deixo a tristeza para me alegrar) era bem simples, os arranjos vocais nada tinham de excepcionais e sua letra se refere mais à sensação de pular, dançar e gritar em nome da "glória do Senhor neste lugar".

Não quero dizer que seja errado prestar atenção no modo de cantar de alguém. Nós vamos a concertos exatamente porque queremos ver e ouvir os cantores cristãos de nossa preferência, senão ficaríamos em casa  escutando só os CDs deles. Não estou dizendo que canções e arranjos não podem ser simples ou que o calor da emoção deve ser banido. Na verdade, grande parte da música protestante é memorável justamente por sua simplicidade e pelo grau de emocionalidade. Além disso, o Raiz Coral participava de um concurso que valoriza justamente a performance cênica e vocal. 

Também não pretendo discutir se a apresentação do Raiz Coral "foi o testemunho da nossa salvação", como disse um fã. Deixo isso para os admiradores e críticos mais exaltados (os comentários dos vídeos no YouTube e no Twitter falam por si).

O que quero dizer é que o Raiz Coral, e qualquer outro grupo ligado à música cristã, precisa sempre fazer a pergunta: quando o talento é inegável, qual deve ser o idioma musical? Quando se participa de um concurso, qual é a linguagem mais adequada?

A participação do coral, segundo estão dizendo na internet, foi editada. O coral cantou uma música a capella (Eu avistei) que teria impressionado os jurados do programa. Como estão classificados para a próxima etapa, os cantores terão uma segunda oportunidade para mostrar o idioma que dominam.

A apresentação do coral no QST você assiste aqui.

23 setembro, 2010

quem quer ser presidente

Com o devido respeito às campanhas de Plínio Sampaio, uma legítima quarta força na disputa, e dos outros candidatos à Presidência da República, optei por escrever um pouco sobre os candidatos Marina Silva, Dilma Rousseff e José Serra, tentando o distanciamento possível de um escriba que também é eleitor. Não é tudo o que se sabe por aí, mas é bastante do que penso cá por mim. Os links vão lhe direcionar ao site Outra Leitura, mas você pode deixar seu comentário por aqui mesmo.

Marina Silva e a renovação do pensamento

Dilma Rousseff e o time que está ganhando

José Serra e o jogo dos sete erros

20 setembro, 2010

segura o Neymar que eu quero ver

De um jogo pra outro, todo brasileiro resolveu pegar o Neymar pra neto. No começo, tal como os avós de antigamente (os avós de hoje só querem saber de caminhada e cruzeiro pelo litoral), tudo o que menino fazia era um mimo. Neymar dava um chapéu abusado no Chicão, é coisa de guri! Neymar entortava zagueiros como o Green Morton entortava colheres, é a magia da adolescência! Neymar apanhava dos adversários em campo, não mexam com meu garoto! O moleque tripudiava na grande área, humilhava zagueiros, caçoava do Rogério Ceni, enfim, era o capeta em forma de guri bom de bola.

Não demorou e o brasileiro passou a exigir a convocação de Neymar para a seleção. Olha aí, Dunga, ele pula, ele roda, ele faz requebradinha! Com um jogador maluquinho desses, o Brasil ganha fácil, fácil. Já dava pra escutar um Galvão aos berros: “Neymar neles! Seguuuura que eu quero ver!” Mas o Dunga segurou.

Só que a adolescência do Neymar mal começou. E aí os “problemas” apareceram. E de uma hora pra outra, todo mundo resolveu ser padrasto do menino. Agora ele reclama, esse menino é mal-educado. “Estão criando um monstro”, advertiu o técnico Renê Simões. Até o Mano Menezes, que fez o lançamento mundial das molecagens de Neymar na seleção, veio a público passar um pito no garoto. Logo logo, quando ele driblar de novo, vão dizer que ele não tem modos.

Os tios e avós postiços de Neymar já deram para os pais de verdade do menino um receituário de corretivos e soluções: “Deixem ele sem PlayStation por um mês”, “São as más influências do Twitter”, “É aquele penteado”, “Passem pimenta no brinco”, “É falta de umas boas palmadas”.

Não adianta psicologia barata (nem cara) numa hora dessas. Neymar é um projeto de craque, cheio de amor e chapéu pra dar, que precisa abrir o olho pra não virar um “Neymala”. Não é o caso de passar a mão no cabelo moicano toda vez que ele cometer uma bobagem. Mas não vamos fingir que, se fosse nosso filho, a gente faria melhor.

13 setembro, 2010

cem palavras: nosso lar, o filme


O filme Nosso Lar está sendo visto por multidões. Filmes com temática religiosa fazem milagres na bilheteria dos cinemas. Como não vi esse filme, invoco, quer dizer, convoco a pena virtual de críticos vivos e bem vivos. Como disse um escriba do site Omelete, já é difícil criticar um filme que tem fãs, imagine então os que tem devotos.

Luiz Zanin: Vê-lo [o filme Nosso Lar], em sessão de imprensa hoje de manhã, foi das experiências mais desagradáveis de um ano marcado pelos lançamentos espíritas por causa do centenário de Chico Xavier. O visual kitsch, os diálogos declamados, a falta de qualquer noção cinematográfica – tudo isso que parecia abolido do cinema brasileiro ressurge na tela como assombração.

Não vai aqui qualquer reparo à religião dos outros. Não tenho nada a ver com a crença alheia e eu, que não tenho nenhuma, respeito a todas. Essa consideração é apenas cinematográfica. Não conheço o livro, supostamente psicografado por Chico Xavier e, parece, um dos maiores sucessos da literatura espírita. Mas tenho certeza de que, como qualquer história, poderia ter sido objeto de uma adaptação cinematográfica interessante.
Inácio Araújo: o mundo de Nosso Lar é um mundo futurista que ora lembra construções de Niemeyer, ora as do [filme] Metrópolis de Fritz Lang e deixam sempre a impressão muito fortes de maquetes. Mas como estamos em outra dimensão não há mal nesse tipo de representação meio primária.

Tudo que existe é uma falação sem fim sobre como é ou deixa de ser o além, suas práticas, sua culinária, as mudanças em relação ao mundo dos vivos. Pode-se discutir tudo, inclusive a aparência dos espíritos, cujos trajes a mim, não raro, lembravam os de personagens de filmes tipo "Star Trek". Mas são arbitrariedades. Tratando-se de um mundo que ninguém conhece (a rigor), a representação é naturalmente arbitrária.
*****
Nota na pauta: filmes religiosos são alvo fácil de ridicularização porque são produções em que há mais preocupação com a mensagem que com a forma. Nosso Lar teve todo o apoio da Federação Espírita Brasileira, o que certamente contribui para o caráter proselitista do filme. O espiritismo segue ganhando força nas telas e na vida e parece que a crítica está interessada apenas no apelo cinematográfico.

10 setembro, 2010

novo tom: pode cair o mundo

A proposta musical do grupo vocal adventista Novo Tom pegou a corrente do pragmatismo musical do cristianismo moderno? O grupo teria cedido ao "vale-tudo" a fim de falar do evangelho para a juventude atual? Com as mal-traçadas a seguir, argumento que esse tal pragmatismo é uma falácia sem tamanho, ao menos quando se trata do grupo Novo Tom.

Uma das correntes do pragmatismo religioso pós-moderno é a apresentação de mensagens de teor ético: os direitos humanos, a defesa do ecossistema, a paz no mundo. O grupo Novo Tom também aborda o tema da paz. Porém, não fala da paz como uma espécie de fraternidade demagógica.

O título do CD já introduz sua idéia de paz: Pode Cair o Mundo, Estou em Paz. Assim,a paz não é a unificação do pensamento global, mas um sentido de segurança exterior e placidez interior, só inteiramente adquirido pela confiança em Deus. Como exemplo, metade das doze canções do CD menciona a palavra “paz” relacionando-a a ações e atributos divinos: a frase-título (na canção "Estou em paz"),o autor da eterna paz (em "Nosso lar não é aqui"), na oração encontro paz e em seu perdão encontro paz(em "Falar com Deus"), só em Teus braços encontro paz (em "Descansar"), frutos de paz Ele quer nos doar (em "Deus tudo pode"), este nome traz a paz e Príncipe da Paz (em "Cristo").

Alguém vai argumentar que essas frases são quase obrigatórias nas canções cristãs. Mas talvez a palavra "paz" não seja casual nesse álbum do Novo Tom. Duas prováveis razões: 1) o letrista principal é Valdecir Lima, o que é uma certidão de propósito literário e teológico; 2) a “paz divina” é uma ideia recorrente ao longo das canções desse CD.

Nos anos 70, uma canção jocosa chamada “Pare o Mundo, Eu Quero Descer”, fez sucesso no Brasil. Mas a música “Estou em Paz” não pede para sair do mundo, nem por brincadeira. Certificada pela oração de Jesus (João 17:15), que pediu ao Pai que não nos tire do mundo, mas que nos livre do mal, a canção declara o “estar no mundo, mas em Deus confiar”. Seu refrão,

(...) Não temo o futuro, pois tenho Deus comigo / Pode cair o mundo, estou em paz

é cantado no final com bastante força em “(pode) cair o mundo”. Nesse trecho se faz um contraste sonoro: ofortissimo vocal e orquestral em “cair” é subitamente interrompido pelo pianissimo em “mundo”. O verso final “estou em paz” completa a frase e encerra a música de forma serena, com um vocal em uníssono.

Há outro tipo de contraste que pode ser visualizado nas fotos do CD antes mesmo de tirá-lo do invólucro - que como todas as demais embalagens de CDs do planeta, exige um conjunto de técnica e paciência para abrí-lo civilizadamente. Na capa frontal, há uma criança sentada numa escadaria com a típica placidez infantil de quem está entretida com um brinquedo. A parte de trás do CD traz a habitual ordem das músicas e também uma foto ao estilo do artista futurista Marinetti, que traduzia com traços velozes o movimento urbano. Os veículos passando velozmente no ruído caótico das cidades faz um significativo contraponto com a calma confiante de uma criança em paz.

O homem pode espalhar a paz no mundo, mas isso só é possível com a efetivação da paz de Deus em cada indivíduo. Na canção do Novo Tom, sai a narrativa grandiloquente de paz global, como se as diferenças pudessem ser resolvidas por discurso ou decreto, e entra em cena a vivência individual da comunhão com Deus como propiciadora de uma verdadeira fraternidade, endossando os versos daquele hino, “haja paz na Terra, a começar em mim”.

As canções “Nosso Lar Não é Aqui” (também de Lineu e Valdecir) e“Cenas” (Daniel Salles) também se valem da alternância entre potência e serenidade musicais. Na primeira, ouvimos um coro infantil breve em baixo volume seguido de introdução instrumental estrondosa com bateria, metais e guitarra. Essa introdução é contrastada subitamente pela leveza da voz de Joyce Carnassale acompanhada apenas de violão e alguma percussão. Durante a música, a simplicidade do coro infantil contrasta com os acordes sofisticados e a quebra de acentuação rítmica.

A música “Cenas”, que começa sobrepondo vozes recitando versos bíblicos, descreve as imagens da paixão de Cristo com a característica dramaticidade evangélica. O martírio é amplificado em versos (com Seu corpo a sangrar; não podia respirar; as feridas abertas; açoites tão cruéis) que visam a comoção. As imagens descritas detêm a força das palavras emocionalmente necessárias para o propósito espiritual da música, que alcança seu clímax com um vocal de grande potência.

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OBS: Esse é o texto revisado de uma postagem publicada em 2007, nos primeiros meses de vida desse blog. Se for o caso, volte e deixe seu comentário nesse texto atualizado e não no texto antigo, ok? Gracias.

Leia a parte 2

07 setembro, 2010

os homens que tinham medo de música

Para o historiador Eric Hobsbawn, a contestação também é uma forma de patriotismo. Patriotas seriam aqueles que mostram seu amor pelo país desejando renová-lo pela reforma ou pela revolução (Nações e nacionalismos desde 1780).

Mas para a ditadura militar no Brasil, ser patriota significava ficar caladinho diante do regime opressor que não gostava de ser criticado. Era a época do lema “Brasil: Ame-o ou Deixe-o”. Muitos músicos denunciavam a repressão da liberdade. Os pitbulls da Abril, Reinaldo Azevedo e Diogo Mainardi, chamam o partido do governo de Petralhas e Lula de anta com todo o afeto que se encerra. Há 40 anos, eles não diriam isso nem em pensamento. Talvez fizessem uma canção.

Em 1966, A Banda, de Chico Buarque, dividiu o primeiro prêmio no Festival de Música Popular da Record (na era pré-Edir Macedo) com Disparada, de Geraldo Vandré. Esta última dizia a que viera logo nos primeiros versos. Os generais, claro, vestiram a carapuça:

Prepare o seu coração pras coisas que eu vou contar/ eu venho lá do sertão e posso não lhe agradar.

O recado da música não camuflava a crítica: Porque gado a gente marca / Tange, ferra, engorda e mata / Mas com gente é diferente.

Dois anos depois, Vandré seria mais explícito e o resto é história e canção: Vem, vamos embora que esperar não é saber / Quem sabe faz a hora não espera acontecer.

Nas escolas, nas ruas, campos, nas construções / Somos todos soldados armados ou não.

A canção tem um verso que fala das flores vencendo os canhões. A ditadura não gostou dessa contrarrevoluçãozinha "paz e amor" e o desconforto na caserna foi publicado na revista Veja ( 9/10/1968): “Essa música é atentadora à soberania do País, um achincalhe às Forças Armadas e não deveria nem mesmo ser inscrita" [no festival de música].

O regime militar preferia (e encomendava) canções “patrióticas” parecidas com Eu te amo, meu Brasil, cantada pela dupla Dom & Ravel:

As praias do Brasil ensolaradas / O chão onde o país se elevou / A mão de Deus abençoou / Mulher que nasce aqui tem muito mais amor.

O céu do meu Brasil tem mais estrelas / O sol do meu país, mais esplendor..

O ufanismo é de uma ignorância sem tamanho: Mulher aqui tem mais amor do que na Espanha? O sol brilha mais aqui do que no Egito? Fortalecia-se o mito do Brasil que “vai pra frente”, de uma gente “guerreira”, de uma natureza abençoada. E ainda obrigavam a gente inocente cantar isso na escola. Aliás, o colégio era um criadouro de ufanistinhas.

O cantor Luiz Ayrão foi censurado porque aproveitou o 13º aniversário do golpe militar (chamado de “Revolução de 64” nos livros didáticos da época) para prestar uma “homenagem”. Teve de dizer que a música era sobre um casal em crise:

Treze anos eu te aturo e não agüento mais / Não há Cristo que suporte e eu não suporto mais / Treze anos me seguro e agora não dá mais / Se treze é minha sorte, vai, me deixa em paz

A mão de ferro da censura mandava alterar letras, suprimir partes, recolher discos e proibir a execução de certas músicas nas rádios. O compositor vivia de metáfora. Ou então não sobrevivia.

Canções de protesto podem contribuir para a politização, mas não mudam o mundo nem revolucionam o sistema político-econômico de um país. Mas parece que os governantes não pensam assim. E tremem de ódio e medo de uma canção.

O homem brandindo o violão na foto é o cantor Sérgio Ricardo nos anos 60.

03 setembro, 2010

as três criações de Deus


Não fui criacionista a minha vida inteira. Não se surpreenda. Aquele que nunca chegou a pensar (nem digo acreditar) que o mundo pode ter vindo a existir de uma forma, digamos, não bíblica não é desse planeta. Quem nunca duvidou que atire a primeira banana!

A dúvida não é um problema. Ficar paralisado pela dúvida, sim; passar a vida indeciso repetindo para si a mãe hamletiana de todas as dúvidas: ser ou não ser. Duvidar, questionar, perguntar, tudo isso é humano. Nossos ossos são dúvida, nossa carne é dúvida, nosso pensamento é pergunta. E como perguntar não ofende...

Mas há algo nessa breve história da dúvida que precisa ser contada. Minhas dúvidas vão se apagando na medida em que acende a certeza da centelha divina da criação que há em mim. Quando eu vejo um bebê sendo gestado no mar amniótico da tranquilidade, eu penso: há um Criador. Quando eu olho para a rotina da Terra a girar feito bailarina incansável, eu acredito: há um Criador. Quando eu contemplo a tapeçaria celeste disposta como teto sobre mim, eu não tenho dúvidas: há um Criador.

Alguns cristãos procuram conciliar a teoria da evolução e o Gênesis. No entanto, aceitar o evolucionismo teísta, que dispõe Deus como supervisor do processo evolutivo e não como o Criador da natureza e do ser humano, derruba algumas colunas inegociáveis do Cristianismo. Como? É que alguns pressupostos caros ao cristianismo, como pecado, expiação, redenção, perdem o sentido sem a literalidade ou, no mínimo, sem a veracidade do Gênesis.

O Gênesis, o livro dos começos, nos conta que a criação do homem e do mundo ocorreu em sete dias literais. Houve tarde e manhã e aquela foi a primeira criação de Deus. E Ele viu que tudo era bom.

Depois, a perfeita natureza foi desmantelada pela foice afiada do pecado nas mãos do pecador cego. Mas se os animais não se atacavam e se devoravam, como eles passaram a saber que um era mais forte do que outro, que este devia fugir daquele? O equilíbrio edênico da criação teve, suponho, que ser reequilibrado. Um novo ecossistema que não degenerasse no caos no primeiro dia precisou ser desenhado. Se assim foi, esta teria sido a segunda criação de Deus.

Todo o estudo criacionista, porém, cairia por terra se não fosse por um último e importante detalhe: a restauração do ser humano e da sua casa-mundo. Por isso a Bíblia não acaba no Gênesis nem nos quatro evangelhos. O Apocalipse parece o livro dos finais, mas na verdade é o livro dos recomeços. Nesse livro, aprendi que a existência de um Deus criador também faz sentido na recriação de tudo. E essa será a terceira criação de Deus.


John Baldwin escreveu melhor no artigo "Deus, o pardal e a jiboia esmeraldina"