29 abril, 2016

a ópera de Rousseau que virou hino cristão

Como uma música de Rousseau virou hino evangélico?

No Hinário Adventista do Sétimo Dia, há uma música chamada “A Escola Sabatina”. Trata-se de uma versão cujo original está no hinário adventista norte-americano (Seventh-Day Adventist Hymnal) com o título “Long Upon the Mountains”. As letras de cada uma dessas versões são bem diferentes, mas a melodia é a mesma, “Greenville”, e o autor da música também: Jean-Jacques Rousseau. O que nos surpreende é que Rousseau foi um filósofo iluminista, sem associação com igrejas cristãs. Então, como essa melodia foi parar nos hinários evangélicos?

É preciso voltar a 1752, ano em que Rousseau estreou sua pequena ópera “Le Devin Du Village” na corte francesa do rei Luís XV. Essa ópera fez tamanho sucesso que o próprio rei, que não gostava de música, passou a cantarolar trechos da ópera e teria até oferecido ao autor uma pensão vitalícia. Aliás, prontamente recusada por Rousseau.

A melodia que está no hinário é simplesmente a adaptação de um trecho instrumental dessa ópera. Antes de chegar aos hinários, essa mesma melodia foi intitulada como “O Sonho de Rousseau” em duas coletâneas de música publicadas pelo inglês Thomas Walker em 1819. Se você já está achando essa história extravagante, mais curioso é o fato de que essa adaptação acabou se tornando um sucesso popular infantil no Japão e até hoje é peça frequente em recitais de alunos iniciantes de violino.
A primeira versão cristã da melodia de Rousseau apareceu em 1823 com o título “Sweet Affliction” numa coletânea de música sacra (Collection of Church Music) editada pelo compositor protestante Lowell Mason e financiada pela Sociedade Handel e Haydn da cidade de Boston. Seguindo o costume da época de utilizar uma mesma melodia para hinos diferentes, a melodia de “Sweet Affliction” serviu de base musical para diferentes letras de hinos: “Come, Thou Fount of Every Blessing” (letra de Robert Robinson), “In the Floods of Tribulation” (letra de Samuel Pearce), “Gently Lord, oh Gently Lead us” (de Thomas Hastings). Presente em diversos hinários evangélicos do século 19, essa melodia ainda recebeu títulos diferentes como “The Days of Absence”, “Absence” e “Importunity”.

No hinário editado por Lowell Mason, o título do hino era “Sweet Affliction” e a melodia não era mais chamada de “O Sonho de Rousseau”, mas sim “Greenville”. No atual hinário adventista norte-americano, o título é “Long Upon the Mountains”, mas a melodia é a mesma “Greenville” (imagem ao lado). No hinário adventista brasileiro, o hino é intitulado como “A Escola Sabatina”, e a melodia base é “In Sweet Communion”. Bem, qualquer semelhança com o título “Sweet Affliction” dificilmente é mera coincidência.

Mas, e naquela época, ninguém se incomodou de cantar uma música cujo autor era um filósofo iluminista? Provavelmente, não.

Primeiro, porque havia pouca preocupação dos evangélicos com a origem da música. De acordo com Gilbert Chase (Do salmo ao jazz, p. 143), qualquer música que agradasse ao gosto da época poderia ser adaptada à letra de um hino.

Em segundo lugar, vários compositores protestantes norte-americanos consideravam que a música clássica europeia era o padrão musical a ser imitado pela música cristã daqueles dias. Lowell Mason era membro da Sociedade Handel e Haydn e, não por acaso, o longo subtítulo da sua coletânea sacra de 1823 era: “Uma seleção dos mais aprovados salmos e melodias, junto com muitos belos trechos de obras de Haydn, Mozart e Beethoven, e outros eminentes compositores, ...”. Numa rápida busca pelo índice de compositores do seu hinário, você vai encontrar esses nomes e os de outros músicos eruditos que tiveram maior, menor ou nenhuma associação com o cristianismo, entre eles, Jean-Jacques Rousseau. Aliás, Rousseau era iluminista, mas não era ateu, e sim um deísta. O que dificilmente vai melhorar sua imagem diante dos evangélicos teístas.
  
Em resumo, os editores dos hinários estavam interessados em melodias que todos pudessem aprender facilmente. Adotar uma melodia bastante conhecida facilitava o ensino de um novo hino num período sem o recurso das gravações. Diante disso, a origem da melodia e a vida de seu autor tinham menor importância. Era uma época em que o repertório evangélico estava em formação, sendo pequeno o número de compositores e grande a vontade de louvar a Deus.

Em pleno século 21, a bonita melodia de Rousseau se tornou tão sacra e tradicional quanto “Castelo Forte”. Algumas pessoas podem até achar que ela deve representar o padrão melódico e rítmico a ser imitado pela música cristã de nossos dias. De todo modo, a prática de adaptar conhecidas melodias seculares a letras cristãs foi abandonada.  

A adaptação da melodia de Rousseau se trata de um recurso que foi útil em certo momento histórico. Mas esse recurso estava relacionado a outro contexto, a outra maneira de lidar com a cultura e também tinha outro sentido, bem diferente do contexto e da cultura adventista contemporânea.

As histórias dos hinos nos ajudam a perceber que o hinário, mais que uma coletânea de música sacra, serve também para nos lembrar das tendências musicais e dos recursos encontrados pelos crentes para adorar a Deus em diferentes épocas e lugares. As formas e práticas musicais mudam. Permanece a vontade de louvar a Deus, “porque Ele é bom e a sua misericórdia dura para sempre” (salmos 106,107,118 e 136). 


 * Com informações do artigo de Edward Green, “Reconsidering Rousseau’s Le devin du village”, Ars Lyrica, 16, 2007; e  The New Harp of Columbia.

22 abril, 2016

Prince: testemunha dos sinais dos tempos

Toca a campainha, você vê que é uma Testemunha de Jeová, mas atende assim mesmo porque vê que é o Prince. Isso mesmo, desde 2001 Prince era adepto da igreja dos Testemunhas de Jeová e tinha o hábito de bater de porta em porta como é costume dos fiéis da igreja. Talvez até entregasse às pessoas um exemplar da revista Sentinela.

Prince disse em entrevistas que começou a "estudar a Bíblia" e a sua "vida mudou bastante". "Foi aí que voltei ao meu nome anterior. Um amigo ajudou-me a olhar para a Bíblia de uma maneira muito prática e ignorar todo o dogma. Apenas queria uma simples e clara ligação com Ele". Prince dizia que essa ligação com Deus o ajudava "em todos os aspectos da vida", incluindo a música.

Ele disse também: "Ela [a fé] vai ajudá-lo em todos os aspectos da vida. [...] e então você vai ser capaz de ver as coisas mais claramente".

Muita gente deve ter estranhado o fato de Prince declarar-se Testemunha de Jeová e ao mesmo tempo ser conhecido por condutas curiosas, como usar figurinos extravagantes, exigir ser chamado por nomes esquisitos (devido a uma batalha judicial com a Warner), por reclamar do preconceito contra as mulheres mas exigir que sua banda fosse composta só de mulheres bonitas que estivessem à disposição 24 horas por dia para ensaios surpresa em horários estranhos.

Seus irmãos de fé também podem ter estranhado certas músicas de Prince que faziam referência à cruz (os jeovistas creem que Jesus foi morto numa estaca): "Logo todos os nossos problemas serão levados pela cruz [...] não chore, ele está vindo / não morra sem conhecer a cruz".

Em outra canção, "Sign o' the times" (sinais dos tempos), Prince aborda um mundo envolvido em guerras, bombas, fome, desespero, depressão, ódio. Um caldeirão de desastres individuais e planetários que aponta para sinais do retorno de Cristo - o contraria a crença jeovista de que Cristo já teria voltado em 1914.


O álbum que contém essas referências cristãs é Sign o' the Times, lançado em 1987. Ao se tornar jeovista, Prince pode ter abandonado essas crenças compartilhadas por evangélicos como os adventistas do sétimo dia. Não por coincidência, Prince frequentou a Igreja Adventista na infância (e mais tarde a Igreja Batista).

Uma indicação de que ele adotou preceitos dos jeovistas é que ele não celebrava datas de aniversários e nem votava: "Não voto porque sou uma Testemunha de Jeová e nós nunca votamos. Mas isso não quer dizer que eu não tenha uma opinião...", disse certa vez, antes de elogiar Barack Obama.

[Outros famosos praticantes jeovistas são as irmãs tenistas Serena e Venus Williams e o guitarrista George Benson. Entre os músicos que frequentaram a igreja na infância estão Janet Jackson, e seu falecido irmão Michael]

Por outro lado, no álbum Planet Earth, de 2007, Prince continuou enviando sinais de sua fé (The One U wanna C – “Aquele que você quer ver”) e falando dos sinais dos tempos, como na faixa “Lion of Judah”:

Como o Leão de Judá
Vou abater meus inimigos
Assim como o meu Deus vive
Certamente a trombeta soará

Muitos popstars americanos tiveram forte ensino religioso na infância. Quando adultos e com a carreira consolidada, alguns deles se voltam contra a religião, talvez por traumas, talvez pela percepção da hipocrisia de tantos religiosos. Para outros, a religião da infância lhes é indiferente. Outros popstars tentam retomar de alguma forma a religião. Com todo o aparato de polêmicas, Prince parece ter pertencido a este último grupo.


(Com informações de "Prince, a mais famosa Testemunha de Jeová", Correio da Manhã; e "Prince: balancing faith and stardom, Religio: http://religiomag.com/prince-balancing-faith-and-stardom/).

18 abril, 2016

qual a trilha sonora do Congresso?


Vote na trilha sonora mais adequada para o Congresso:
( ) Nos deram espelhos e vimos um mundo doente
( ) Enquanto os homens exercem seus podres poderes
( ) Eu presto atenção no q eles dizem mas eles não dizem nada
( ) Mas o que eu quero lhe dizer é que a coisa aqui tá preta
( ) Plunct, plact, zum, não vai a lugar nenhum
( ) Se gritar pega ladrão
( ) A gente somos inútil
( ) Bichos, saiam dos lixos
( ) E você ainda acredita que é um doutor, padre ou policial
que está contribuindo com sua parte para nosso belo quadro social
( ) Este é um país que vai pra frente, ôôôôô

( ) O estandarte do sanatório geral VAI PASSAR

Não sei vocês, mas agora vou pegar minha viola, vou deixar você de lado, vou cantar noutro lugar.