30 abril, 2009

existe o "melhor" cantor cristão?

O Troféu Talento é uma premiação anual concedida pelo meio evangélico (músicos, produtores, ouvintes) aos "melhores do ano" na música gospel brasileira. Algo semelhante ao Dove Awards (prêmio evangélico americano), que já é inspirado no Grammy (prêmio da indústria fonográfica dos EUA). Estabelecer uma competição entre os cantores e aficionados seria algo "religiosamente" correto? Ou, no mínimo, seria realmente necessário um prêmio aos "melhores"? Isso tem a ver com a urgência do evangelho ou com as premências do mercado?

Criado em 1996, pela Rede Aleluia, o prêmio conta com a interatividade por meio da participação votante do público por telefone e pela internet. Para Samuel Modesto, coordenador do Troféu Talento 2008, a premiação dos melhores da música gospel é uma forma de reconhecer “o talento que Deus dá aos adoradores e cantores; é um reconhecimento ministerial e profissional” (Backstage, ed. 164).

Esse entrelaçamento da atividade musical religiosa com a atuação do mercado deixou de ser um modo de operação comum e, sim, necessário (os cristãos precisam adquirir bens religiosos), e se tornou uma estratégia de consolidação comercial que se justifica pelo "reconhecimento do talento". Como exemplo, a ficha de votação do Troféu Talento descreve a categoria Cantor do Ano como o “prêmio concedido ao cantor que alcançou grande destaque na mídia e com a execução de sucessos no ano de 2008”.

Quanto às categorias Intérprete Masculino e Feminino, o eleitor deve considerar "os quesitos qualidade vocal, postura corporal, presença de palco e simpatia". Há também a categoria "Destaque", em que "devem ser avaliados os critérios de resultados em vendas, execução musical e destaque na mídia".

Alguns poderiam apontar o cumprimento das palavras do filósofo alemão Theodor Adorno, que há mais 50 anos escreveu que o processo de industrialização da música levava o público a confundir qualidade musical com sucesso comercial. Claro que se pode questionar o que seria essa qualidade e o quanto o público é realmente passivo na escolha de suas preferências musicais. Mas a conversa vai além.

No final dos anos 90, até o bispo Edir Macedo ganhou o troféu. Foi com a coletânea "As preferidas do Bispo Macedo". Dá pra levar a sério essa premiação? Dá, sim. No sentido de que ela envolve quem terá mais suporte da gravadora, que estilo está sendo aprovado pelo público, compromete altas cifras.

As categorias específicas para a música gospel criadas pelo Grammy Latino são comemoradas pelo segmento evangélico. Segundo Yakima Damasceno, uma das representantes do Brasil na Academia Internacional de Músicos e Adoradores de Deus (ACIMAD), são patrocinadas viagens de artistas e produtores ao evento e acompanha-se todos os estágios da premiação. Os prêmios são vistos, também, como uma demonstração da “fidelidade de Deus” ao empenho e obediência dos cantores cristãos, como diz Aline Barros, premiada três vezes, à revista Backstage (ed. 164).

Na edição do Troféu Talento 2009, o quarteto Arautos do Rei receberam o prêmio de melhor grupo vocal pelo segundo ano consecutivo. Para a gravadora Novo Tempo, este prêmio é uma oportunidade para falar do amor de Deus (aqui). Marcos Witt, ícone internacional do gênero "louvor e adoração", disse uma vez que os prêmios são uma porta de entrada dos cristãos para testemunhar no mundo fonográfico secular.

Porém, alguns músicos, como João Barone (Paralamas do Sucesso), acham que a criação de certas categorias diminui o valor do Grammy Latino, por exemplo. Muitos músicos não-cristãos não apreciam a música evangélica. Principalmente quando essa música se cerca de ferramentas de divulgação típicas da mídia pop e luta para cristianizar/sacralizar esses modelos (marketing agressivo, tardes de autógrafos, propaganda de marcas, premiações).

Se alguém é cristão e um dia ganhar o Oscar, o Grammy, o Jabuti, seja o que for, que ele experimente falar do evangelho para uma plateia, cristã ou não. Todos já sabem que ele é evangélico, que sua música fala de Deus e seu amor, etc etc. Muita gente estará conversando, se levantando, outros contrariados por acharem o premio injusto. Ou seja, parece claro que o proselitismo é apenas uma justificativa educada para ganhar prêmios.

Onde estaria a diferença? Vejamos: há sites de gravadoras evangélicas - MK, Line Records - em que leio frases do tipo: este é o CD premiado em 2007; a cantora vencedora de dois Troféus Talento; a gravadora com mais premiações; e assim vai. Na questão marketing, é difícil haver gravadoras que não se utilizam dos prêmios para alavancar a venda de seus produtos. Talvez esteja aí a diferença. Uma postura é considerar um prêmio uma benção divina. Outra bem diferente é usar a "benção" para aumentar a vendagem do CD e do DVD.

Vídeo do quarteto recebendo o Troféu Talento

27 abril, 2009

o pior cego é aquele que quer veja

O Scienceblogs publicou o e-mail que Ricardo Vêncio, do Laboratório de Processamento de Informação Biológica da USP Ribeirão, enviou à redação da revista Veja a respeito de um infográfico incluído na reportagem "Um gene, várias doenças" (22/04/09) . Se biologia não era sua matéria preferida na escola, não tem problema. Pior do que as falhas no infográfico foi a resposta arrogante da revista ao leitor.
Primeiro, o e-mail de Ricardo Venâncio à revista:

Caros da Veja,
Apesar do texto da reportagem sobre Genética da última edição estar muito bom, incluindo até conceitos da emergente Biologia Sistêmica, a figura que mostra a sequência: "célula - DNA - gene" induz o leitor a erros conceituais graves:

1) A interação entre as duas fitas da hélice de DNA está ilustrada como algumas bolinhas em seqüencia, dando a impressão que são átomos, partículas ou coisa que o valha. Essas ligações são chamadas "pontes de hidrogênio" e, na verdade, são atrações entre átomos que estão nas duas fitas. Uma linha tracejada ou algo do tipo seria uma ilustração adequada enquanto que bolinhas induzindo o leitor a imaginar uma cordinha ou corrente ou algo assim, definitivamente não. Uma boa ilustração pode ser encontrada, por exemplo, aqui.
2) A figura induz o leitor a imaginar que os genes estão nas "pontes de hidrogênio", o que está completamente errado. Uma ilustração melhor pode ser encontrada, por exemplo, aqui. Acho importante que uma errata seja publicada na próxima edição, uma vez que não são errinhos sem importância, mas sim falhas conceituais graves, principalmente se lembrarmos que esta edição foi publicada logo depois daquele sobre Vestibulares. Obrigado.
Esse e-mail educado recebeu uma resposta inacreditável da revista:

21 abril, 2009

entre os muros da escola

A maioria dos filmes sobre a questão escolar sempre amarra as pontas no final da história. A diretora vilã é humilhada, os alunos incorrigíveis se tornam grandes amantes de literatura e música, o professor que supera todos os desafios ou é transferido ou demitido ou tem sua vida pessoal abalada… Ponha no mesmo pacote: Ao mestre com carinho, Sociedade dos poetas mortos, Conrack, Mr. Holland - adorável professor, Escritores da liberdade etc. Estes filmes têm suas qualidades e defeitos em graus variados mas todos incorrem na romantização da vida escolar.

Entre os Muros da Escola reabre a discussão em outro patamar: sem lágrimas, sem musiquinha para emocionar, sem sonhos realizados no final. Afinal, o diretor não é o Augusto Cury.
Pode parecer pessimista ou até niilista. Mas o filme não nos entretém com uma historinha idealizada da relação professor-aluno, não nos tenta convencer da existência de um professor que tudo espera e suporta, não nos dá respostas prontas, não força nossa adesão sentimental, não nos diz olha como é lindo um professor que se entrega de coração à licenciatura.

François Bégaudeau (professor e autor do livro que inspirou o filme) interpreta um professor humano, com suas dúvidas, falhas e acertos na sala de aula. Aliás, o filme é quase inteiramente filmado numa sala de aula, com alunos reais e professores reais que dão nuances à relação professor-aluno raramente vistas no cinema.

A história aponta para a falência de um sistema educacional que não entende a multiculturalidade atual e as novas demandas de afirmação social da juventude. Numa visão macro, aquela sala de aula representa uma França (e uma Europa) repentinamente multiétnica, tendo que exercer seus ditos valores humanistas/cristãos de fraternidade e igualdade, mas às voltas com a intolerância e a xenofobia. De outro lado, Entre os Muros também funciona como um microcosmo de uma sociedade que deu corda ao adolescente e não sabe como fazê-lo se interessar pelo saber escolar e pelas formas clássicas de cultura.

Um filme com jeitão de documentário como esse pode parecer desanimador para muita gente. Isso mostra uma sociedade tão acostumada ao entretenimento que passar a desejar o tratamento meloso de um tema espinhoso e a preferir uma sessão imediatista de catarse a um filme como Entre os Muros, que se propõe a narrar uma história sem velhos artifícios de conquista do espectador.

Sociedade dos poetas… ou Escritores da Liberdade são filmes inspiradores mas, como um bom produto americano, centralizam-se na luta de um indivíduo persistente contra um sistema cruel. Enquanto o também francês Quando Tudo Começa (1999) mostrava com realismo o cotidiano de um professor, Entre os Muros da Escola flagra o convívio diário das relações professor-aluno, aluno-aluno, professor-professor, pais-escola, retratando sessões de confronto e compreensão, preconceito e companheirismo, alargando o campo de visão no entendimento das estratégias educacionais e das perspectivas do estudante adolescente. Nisso reside a força desse grande filme.

17 abril, 2009

o mundo e a fé

"Mundo" não são pessoas. São ações e valores imorais, amorais e egoístas. Cristãos, dos mais simples aos mais eruditos, convivem diariamente com pessoas não-cristãs (no trabalho, na rua, em casa, veem na tv) e sabem que, entre estas, existem pessoas de grande caráter e nobreza de alma. Isso vem desde muito tempo. Não por acaso, Jesus curava pessoas tidas como pagãs por muitos judeus e ainda acrescentava: "Nem em Israel vi tamanha fé".

Se alguém perguntar "não existem pessoas boas fora da igreja?" para um pastor ou para a vovó Maria, é provável que ambos digam que pessoas boas e más existem em todo lugar. Minha vó acrescentará, com sua fé simples e sem maiores digressões metafísicas, que é bem capaz que existam mais pessoas realmente boas fora da igreja do que dentro (mas de forma alguma recomendará para que alguém abandone a fé, a igreja, por causa disso).

Claro que alguns não sabem externar um pensamento mais equilibrado e acabam criando um apartheid espiritual mesmo. Lutar contra essa forma de segregação tem sido um engajamento de muito bom cristão. Quantas vezes ouvi sermões que apontavam para si e para os próprios membros da igreja, convocando-nos a sair da letargia, da falsa moral, do absurdo senso de exclusivismo de salvação. Em diversos blogs de cristãos que leio também percebo esse chamamento à vida cristã mais sincera e respeitosa.

Mas isso não é de hoje. Chesterton, C. S. Lewis, Moody, Billy Graham, Lutero (posso juntar Roberto Rabelo a esse grupo?), cada a um seu modo, e sem autoproclamar-se santos, chamavam os cristãos de suas épocas a viverem um vida de santidade diante de Deus e dos homens. O apóstolo Paulo, o maior teólogo de todos, identificava sérios problemas na igreja primitiva - e não apenas de ordem doutrinária, mas sobretudo de ordem espiritual e moral. Embora entendesse que havia sido chamado para corrigir e orientar, declarava-se "o menor dos santos" e admitia uma luta contra "um espinho na carne".

O ódio, a intolerância e o autoritarismo notados no meio religioso sem dúvida contribuíram para que os não-cristãos vejam a igreja cristã como uma organização dinheirista, hipócrita, moralista e desprovida de soluções para o mundo moderno. Isso também leva pessoas a generalizar (não sem razão) a atitude excludente e a soberba como marcas do cristianismo.

Lembro que há políticos corruptos escandalosamente, e se bate nessa tecla. Mas não se pensa (é, alguns pensam) em fechar o Congresso ou extinguir o sistema democrático. O melhor, optamos, seria mudar as pessoas que usam o sistema, reformá-lo judiciosamente e fiscalizá-lo com atenção.

Há líderes religiosos falsos e uma membresia preconceituosa (ignorância, desconhecimento do outro, farisaísmo, tudo isso?), fato. Há líderes que procuram promover o pensamento justo e membros que vivem o cristianismo de forma sã, embora passíveis de incorrer em erros que atribuem ao que chamam de "mundo".

A vontade de escrever é mais longa que o dia, tenho que ganhar o pão com o suor do meu rosto (ok, onde trabalho não suo tanto assim). Espero que eu tenha sido hábil em falar sobre isso que chamamos de mundo. Se não consegui, fique com o que disse Jesus em sua oração ao Pai pelos seus seguidores (enquanto orava, os três discípulos que o acompanharam, dormiam. Não seria um retrato da igreja?): "Pai, não peço que os tire do MUNDO, mas que os livre do MAL".

14 abril, 2009

outra leitura

O site Outra Leitura, recém chegado à rede, reúne vinte pessoas que escrevem semanalmente sobre áreas bem diversas: de razões para crer à questões de confiança, de gramática à saúde, de notícias comentadas à papo psicológico, de mídia à teologia, assim por diante (estou lá com a coluna Cultura Afinada - por enquanto com textos já cometidos por aqui). A seguir, um texto de Douglas Reis sobre os contrastes entre a ética dos 10 mandamentos bíblicos e a ideologia relativista do pensamento pós-moderno. Boa outra leitura!

1º Mandamento: "Não terás outros deuses diante de mim": cada qual pode ter quantos deuses quiser, desde que respeite os deuses alheios, e que a divindade eleita seja inserida em seu contexto comunitário; nenhum deus será imposto a outrem, porque a tolerância é um valor preponderante, a tal ponto de impedir que se faça julgamentos morais. No fim das contas, cada indivíduo acaba servindo não a um deus, mas fazendo uso das divindades disponíveis no mercado religioso para que elas a sirvam, auxiliando em suas necessidades.

2º Mandamento: "Não farás para ti imagem de escultura": lagos já serviram de espelho; depois, as pessoas se penteavam em frente a metais polidos. Daí vieram os espelhos de vidro. Hoje, com a popularização da câmera digital, é possível registrar, difundir e editar a própria imagem. A imagem precede o valor na pós-modernidade. Aliás, a imagem é geradora e gestora de valores, criando aspirações individuais e coletivas. A iconografia tornou-se iconolatria.

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Comentários podem ser enviados ao próprio autor no site.

12 abril, 2009

a Paixão segundo mel gibson

Desde seu lançamento, em 2004, A Paixão de Cristo, é um dos filmes que mais tem emocionado o público cristão e dividido a plateia. Teria o diretor, o católico Mel Gibson, exagerado nas cenas de violência impostas a Jesus ou o realismo sanguinolento do filme contribui para comover a sensibilidade moderna? A estilização promovida pelo jogo de iluminação e enquadramento está a serviço do antissemitismo ou está contando uma velha e tocante história com a linguagem de hoje?

As cenas filmadas que desfiguram o corpo de Jesus são brutais e incômodas. A plateia atual, espremida entre a violência crua dos telejornais e a barbárie dos filmes de ação, se mostra cada vez menos sensível à brutalidade, o que gera um aumento de violência nas encenações cinematográficas, que por sua vez dessensibiliza ainda mais as plateias, o que leva os cineastas a aumentar o teor de crueldade nos filmes. Não é um círculo. É uma progressão escalar.

Se os filmes clássicos sobre a vida de Jesus ofereciam um retrato respeitoso e distanciado da Paixão, a hiperviolência é o método empregado por Mel Gibson para suscetibilizar o público de hoje. Porém, pode-se questionar a validade ética de uma pregação violenta para uma plateia acostumada a violência.

Para alguns, o antissemitismo do filme estaria nas cenas da multidão de judeus que grita e assume a autoria da morte de Cristo. Mas o filme também dá importância a outros judeus, como os discípulos, Simão Cirineu, Maria Madalena e a mãe de Jesus, Maria. Devido à leitura católica de Mel Gibson, Maria recebe tratamento diferenciado.

Foram as convicções católicas de Gibson que o levaram até o livro "A Dolorosa Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo", publicado em 1833 por Clemens Brentano a partir de visões da mística alemã Anna Catharina Emmerich. Republicado em 2009 pela Editora Paulus com o título "A Paixão de Jesus Cristo", o livro traz os relatos que "descrevem ainda mais pormenorizadamente os sofrimentos e os passos do Salvador na dolorosa paixão". Anna Emmerich (1774-1824), cujo processo de canonização está envolto em polêmicas, caiu enferma aos 16 anos e, desde então, teria passado a relatar visões e revelações da vida de Jesus.

O próprio Mel Gibson acrescenta detalhes pessoais ao seu relato da Paixão: a representação de demônios interpretados por crianças, encenando a humanidade que não se portava como filhos de Deus, mas como filhos de Satanás; o diabo com feições andróginas; o corvo que arranca os olhos do ladrão que zomba de Cristo na cruz; os instrumentos de tortura que arrepiam as plateias. Vale lembrar que não se pode jamais entregar uma história real ao espectador. Mesmo um documentário será somente a visão (editada) de seus realizadores. A Paixão de Cristo é uma representação de um fato, nunca o fato em si, e os acréscimos de Mel Gibson são uma forma simbólica de falar a linguagem do público.

O aparato técnico do filme é de grande qualidade, como a iluminação expressionista, de cores sombrias e fortes contrastes. A fotografia é do craque Caleb Deschanel, cujos enquadramentos inspiram-se nos quadros do renascentista Caravaggio. A trilha sonora de John Debney, com percussão étnica apurada e vocais emocionantes, aumenta a sensação de opressão e solenidade.
Enfim, o propósito do diretor era certamente fortalecer a fé dos cristãos, sendo a hiperviolência e os detalhes não-bíblicos os meios questionáveis da Paixão segundo Mel Gibson.

Atualização:
Um blog não tem tempo nem espaço para aprofundar questões. Se puder fazer as perguntas certas e mostrar outras leituras já está ótimo. Quem vai fundo na discussão das controvérsias sobre o filme acima são os autores de Paixão de Cristo: Mel Gibson e a Filosofia (org. William Irwin).

08 abril, 2009

o ataque dos sapatos risíveis

No momento em que o mundo atravessa grandes dificuldades, sempre surge um engraçadinho pra tirar a gente do sério. As bolsas de valores vivendo numa gangorra, o Evo Morales prendendo nosso gás, o MEC querendo mudar a forma do vestibular e, de repente, vem a notícia de mais um franco-atirador de sapatos. Dessa vez, o arremessador é um jornalista da Índia e o alvo era o ministro do Interior daquele país. Não faz tempo o ex-presidente dos EUA, George W. Bush, e o primeiro-ministro do Japão, Wen Jiabao já tinham sido alvejados.

Atirar sapatos em alguém é um insulto tanto no Iraque quanto na Índia. Mas errar o alvo de tão perto é um insulto à habilidade motora do ser humano. Ainda piora porque o quase-atingido fica todo pimpão ao escapar se contorcendo no estilo Matrix e soltar uma piadinha tipo Mel Gibson depois do perigo.

Das duas, uma: ou os políticos têm um sentido apurado digno dos X-Men – pressentem o perigo e desviam-se de objetos voadores – ou os jornalistas precisam treinar mais a fim de lançar sapatos, bolsas ou celulares com maior grau de precisão.

Caro free-lancer (tradução atual: livre-lançador), atente para algumas dicas:
- Se for dirigir um ataque de sapatos, não beba. Está mais do que provado que sua coordenação viso-motora será afetada e, depois, ridicularizada por toda a nação youtube;
- Não avise o destinatário da sapatada. Na Índia, o jornalista deve ter anunciado: “Ô Palaniappan Chidambaram, ó aqui procê!”. Antes da décima-oitava sílaba o ministro já tinha bolado duas novas desculpas, reclamado dos personagens indianos da Glória Perez e cantado o refrão de “Jai Ho”. Então, no Brasil não vá dizer “Ô Collor, segura essa!”. Ainda mais que este tem um histórico de atletismo, como corrida de processos e esconde-esconde de poupança.

No começo, era a pedra. Lascada ou não, a pedra atingia seus alvos com maior capacidade de provocar danos irreversíveis. Mas o amor cristão e a civilidade amansaram os indignados e ressentidos que, de século em século, foram trocando a pedra pelo tomate podre, o tomate pelos ovos, os ovos pela torta na cara e, quando o povo percebeu a nulidade do custo-benefício que era o ato de esvaziar a dispensa só para xingar ministros e empresários, substituiu-se a agressão hortifrutigranjeira pela proverbial vaia.

O problema é que uma vaia sozinha não faz verão. Mil bocas apupando é outra história. Uma vaia desse porte é capaz até de tirar o mandato do Sarney no Senado. Ops, me empolguei com a força vocal do povo. Ali em Brasília, vaias não fazem corar nem síndico. Melhor ir descalçando os sapatos.

06 abril, 2009

cem palavras: os homens menos sábios

Não é de hoje que nossa geração é intitulada "a menos sábia de todas as épocas". O novo século ainda nem completou uma década mas parecemos nos orgulhar de termos cada vez mais informação, menos conhecimento e nenhuma sabedoria.

Escalamos um Himalaia de assuntos e novidades enquanto nem subimos uma colina de reflexão sobre o que estamos aprendendo. Aliás, estamos de fato aprendendo ou só estamos acumulando símbolos, sons e imagens ininterruptas que são facilmente trocáveis? Será que, de tanto vagarmos como metamorfoses ambulantes, arrastados como caniços por qualquer brisa de doutrina insana, não estamos desacreditando as velhas opiniões formadas sobre tudo? Essas velhas opiniões não poderiam servir às vezes de peneira a fim de coar, de joeirar o caldo grosso de tudo que lemos, vemos, ouvimos e procuramos?

“[No início dos tempos] era a fome que trazia a morte; agora, ao contrário, é a abundância que nos destrói. Naquela época, os homens muitas vezes ingeriam veneno por ignorância; hoje em dia, mais bem instruídos, eles se envenenam uns aos outros.” (Lucrécio, século I A.C.)

“Nós deveremos ser lembrados na história como a mais cruel, e portanto a menos sábia, geração de homens que jamais agitou a Terra: a mais cruel em proporção à sua sensibilidade, a menos sábia em proporção à sua ciência. Nenhum povo, entendendo a dor, tanto a infligiu; nenhum povo, entendendo os fatos, tão pouco agiu com base neles.” (John Ruskin, 1872).

03 abril, 2009

das tradições na música sacra

Em 2003, o coral jovem do qual eu era o regente foi cantar em uma igreja evangélica. Chegamos cedo, passamos o som e ficamos à espera do início da programação. Nos avisaram que, antes de cantarmos, haveria um momento de louvor com uma banda daquela igreja.

Um a um, os jovens músicos começaram a passar seus instrumentos. O sonoplasta pediu: “Faz uma levada aí”. O baterista se aprumou, fez uma virada espetacular e começou sua levada: um axé-pop incansável. Em seguida, o baixista executou todas as lições de slap que aprendeu na vídeo-aula do Arthur Maia.

Alguns membros da igreja, os de mais idade, já estavam ali e me olharam para ver minha reação. Fiz aquela cara de quem encontrou Jesus de “um jeito diferente que é tão normal” e sorri como quem acredita que o importante é que “esses moços pobres moços” estão tocando na igreja e falando a sua própria língua.

Durante os momentos de louvor fui percebendo o quanto as letras das canções jovens (de pentecostais, protestantes e católicos) foram acometidas de uma palidez geral. É nítido que a densidade teológica não é uma preocupação dos letristas. O importante agora é fazer a congregação sentir, experimentar a sensação de que o Espírito está Se movendo, tocando os corações dos levitas, impulsionando às doces lágrimas da adoração. Letra? É só repetir sete versos onze vezes enquanto estão todos de olhos fechados, mãos levantadas acenando durante dez, quinze minutos.

Se a cultura musical gospel tem gerado uma nova tradição, um novo modo de ser evangélico, a assim chamada “revolução gospel” tem acarretado o aparecimento de novas zonas de segregação e tradicionalismo.

Segregação da hinódia clássica, haja vista o isolamento concedido às músicas que marcam a trajetória cristã. Essa ação reflete a ausência de senso de pertença ao passado e desliga-se dos modelos protestantes institucionais e doutrinários. O conteúdo de um hinário tradicional aborda uma grande variedade de temas, cobre séculos de linhagem poética e musical e confirma as doutrinas com adequado senso hermenêutico. E mais: alguns daqueles mais de 600 hinos apresentam a linearidade teleológica bíblica de criação, queda, sacrifício de Jesus e esperança de vida eterna ou segunda vinda em suas 3 ou 4 estrofes (ver Quão Grande és Tu, Porque Ele vive, Sou Feliz).

O antigo tradicionalismo, aquele que não compreende a dinâmica de mudanças e adaptações da música sacra, cede espaço ao apego às novas tradições, que só admitem as composições mais recentes e os novíssimos modos de evangelização da juventude. O antigo se torna rígido e excludente; os novos buscam o sensacional e acabam sendo também excludentes.

A igreja estaria se transformando em mais um lugar “onde os velhos não têm vez”? O que fazer se ao se criar uma nova liturgia ao gosto jovem exclui-se a liturgia histórica. O que penso como algumas sugestões: é possível dar características indispensáveis ao novo repertório, como a teologização mais profunda dos temas, utilizar canções que não incentivem o emocionalismo autocomplacente (tão inadequado quanto o racionalismo estéril), evitar a longa duração de uma mesma música (mesmo que seja uma adaptação de uma canção de outra denominação) e, acima de tudo, perceber que a música para a igreja não é uma questão musical ou cultural apenas. É uma questão de foro espiritual. Tem a ver com comunhão, entrega e estudo.

01 abril, 2009

maurice jarre: compositor do épico étnico

Maurice Jarre (1924-2009) talvez não tenha sido em vida o melhor compositor francês de música para cinema. Michel Legrand e George Delerue foram mais inventivos, mas Maurice Jarre certamente compôs temas mais inesquecíveis. Ajuda também o fato de que Jarre trabalhou muito em filmes ingleses e americanos, em épicos de ação e romance, o que deixa seu legado musical bem mais notório do que as intimistas produções de seus compatriotas músicos.

Ainda na França, nos anos 50, Maurice Jarre se dedicou a estudar a música considerada étnica, ou seja, aquela que, por não ser europeia nem norte-americana, as academias relegam para o limbo das matérias opcionais. Esses estudos devem ter auxiliado o músico francês durante a elaboração das partituras dos filmes em que trabalhou. Principalmente naqueles em que foi parceiro do cineasta David Lean.

Sua trilha mais famosa é a que gerou mais controvérsia. Por Doutor Jivago (1965), o último épico romântico em que adultos formam o par central, Jarre foi criticado por ter diluído temas do folclore russo e criar uma trilha sonora mais “francesa” do que “russa”. Para piorar as coisas, Ray Conniff, um dos magos do kitsch romântico-exótico (o outro era Paul Mauriat), gravou um arranjo do "Tema de Lara" e chegou ao Top Ten das paradas americanas. O que alguns críticos não quiseram perceber é que, assim como o genial David Lean transformou o romance de Boris Pasternak em uma espécie de ...E o Vento Levou na neve, a música de Jarre usou temas russos para fazer temas desbragadamente românticos.

A trilha de Lawrence da Arábia (1962), pela qual ganhou seu primeiro Oscar, é magnífica. A música tem um sabor ocidental demais? Ora, o filme é sobre um aventureiro inglês na Arábia, não é um manifesto muçulmano contra os ataques em Gaza. Há uma lenda roliudiana que conta que Steven Spielberg, ainda universitário, teria se decidido pela carreira de cineasta depois que assistiu a esse absolutamente grandioso filme de David Lean. O terceiro Oscar veio por mais uma trilha étnica; no caso, outra parceria com Lean, Passagem para a Índia (1984).

Maurice Jarre parecia talhado para épicos em “terras distantes”, pois ainda aceitaria fazer a música para outro ótimo filme, O Homem que Queria Ser Rei (1975). Embora este fosse menos ação e mais humor sardônico; para quem conhece, basta dizer que a dupla de aventureiros é feita por Sean Connery e Michael Caine. Nos anos 80, suas trilhas se tornaram mais discretas, mas não menos precisas, como em A Testemunha (1985) e Sociedade dos Poetas Mortos (1989). Aos 65 anos, ainda encarou um ectoplasma apaixonado e fez a trilha de Ghost (1990). Bem, pelo menos não é dele aquela chatíssima canção (uôôôô, mááái looove...) que apavorava rádios, restaurantes e recepções de casamento.
Neste link, uma seleção de trechos de trilhas de Maurice Jarre. Abaixo, o próprio compositor regendo o tema de abertura de Lawrence da Arábia: