30 dezembro, 2013

os melhores livros em 2013

Meninos, eu li. E reli. Tentando acabar a tese enquanto ela não acaba comigo, esse ano ainda foi de muita leitura acadêmica. Deu pra respirar de vez em quando:

Delas é o reino do céu (Karina Bellotti; Editora Annablume) – um estudo minucioso sobre a produção evangélica para crianças (os produtos Smilingüido e a revista Nosso Amiguinho). A autora, professora do departamento de História da UFPR, demonstra como os valores religiosos e sociais são processados e organizados para o consumo infantil.

Uma noite no palácio da razão (James R. Gaines; Editora Record) – a história do encontro de Johann Sebastian Bach com o rei Frederico, o Grande. Com uma narrativa prazerosa, o livro conta minúcias da vida dos dois grandes personagens e vai avançando para o encontro do músico de fé com o monarca iluminista.

Sociologia da religião: enfoques teóricos (Faustino Teixeira, organizador; Editora Vozes) – reunião de diversos artigos sobre estudiosos da religião (Max Weber, Durkheim, Levi-Strauss, Geertz, Bourdieu, Peter Berger) que funciona como uma introdução às principais teorias sociológicas da religião. Em geral, as pessoas preferem leitura endógena, produzida por seus pares religiosos, e descartam qualquer outra abordagem. Mas vale a pena compreender que religião pode ser revelação, mas não deixa de ser um empreendimento das sociedades humanas.

Samba e identidade nacional (Magno Siqueira; Editora UNESP) – partindo da matriz religiosa e lúdica do samba, este livro mostra como o samba foi deixando de ser elemento marginal para figurar um símbolo da identidade brasileira. Se antes os ritmos de origem africana serviam à religião e ao entretenimento dos negros escravos, no século XX o samba foi apropriado pela nascente indústria do rádio e do disco e ainda foi “embranquecido” e cooptado para apoiar à ideologia do Estado.

Music and its social meanings (Christopher Ballantine) – não pude ler este livro inteiro, mas os capítulos 1 (sobre a esquecida relação entre música e sociedade), 2 (uma leitura sobre a relação entre a obra de Beethoven e o pensamento de Hegel e Marx) e 3 (uma visão filosófica e social das óperas de Mozart) são fascinantes.

Religiosidade no Brasil (João Baptista Borges, editor; EDUSP) – compilação de textos escritos por reconhecidos acadêmicos brasileiros. Do fenômeno neopentecostal ao Santo Daime, do luteranismo ao candomblé, do judaísmo ao presbiterianismo e à religião islâmica, análises bem fundamentadas sobre o estado atual da religiosidade no Brasil.

O duplo (Fiódor Dostoiévski; Editora 34) – um funcionário público russo se vê oprimido entre a imagem que tem de si mesmo e a realidade. Em seguida, passa a ser acossado por alguém que nada mais é que seu próprio duplo. Em poucas páginas, Dostoievski mostra a pequenez humana, a tolice da autoprojeção social e as malhas da loucura. Rápido, mas não indolor.

26 dezembro, 2013

os melhores filmes em 2013

Meninos, eu vi. E pra mim, os melhores filmes que vi neste ano foram estes:

INCÊNDIOS (2010) – qual o preço de escavar o passado para descobrir quem você é? Nesse filme, esse trajeto pode ser dolorido, mas assisti-lo é uma experiência enriquecedora.


AMOR – um dilacerante conto moderno sobre o envelhecimento, sobre a morte e os limites do amor. Aqui não existe nada de fantasia da melhor idade.

A HORA MAIS ESCURA – o filme sobre a caçada americana a Osama Bin Laden não é ufanista, não hasteia bandeira. Nem faz apologia da tortura para obter informações. A tortura é mostrada, mas o que está em questão são os métodos utilizados para revidar o ataque terrorista. É sobre uma obsessão e suas consequências na mentalidade americana.



AS AVENTURAS DE PI – um filme francamente espiritual com imagens maravilhosas e uma consciência de que Deus se importa e age de formas inesperadas na vida das pessoas.


ANNA KARENINA – nessa adaptação do clássico de Tolstoi, o diretor Joe Wright (de Orgulho e Preconceito) criou um mundo novo onde cabem religião, romance e olhar social e põe tudo dentro de um teatro. Enquanto os dramas burgueses no palco nos mostram que na vida estamos sempre representando um papel em público, por outro lado, a vida simples e a fidelidade são vividas nos espaços abertos do campo.

HANNAH ARENDT – às vezes morno, às vezes didático, mas não importa. O filme levanta questões muito importantes sobre a questão judaica e a ação dos nazistas e tem uma atuação fascinante de Barbara Sukowa como a filósofa que acirrou o debate sobre a atitude moral dos sujeitos levados na correnteza da história.

STAR TREK: ALÉM DA ESCURIDÃO – não é tão bom quanto o primeiro da nova série, mas tem um Spock mais humano que nunca. E quem foi fã da antiga série vai amolecer o coração com citações de situações e personagens de outros tempos.


GRAVIDADE – um blockbuster com cérebro. No espaço, onde não há peso como na terra, uma astronauta experimenta a solidão, a iminência da morte, o sentido da oração, o peso do passado enquanto luta para sobreviver. Um feito técnico extraordinário, considerando que não há batalhas espaciais, nem aliens, nem romance. Só um ser humano e suas contradições entre a vida e a morte.

that's all, folks!

19 dezembro, 2013

a ditadura do look


Ninguém protesta contra a ditadura do look, aquela em que você é punido não pela aparência do mal, mas pela má aparência.

Na ditadura do look, não basta ser legal, tem que ter style; você pode ser chato, desde que seja fashion.

11 dezembro, 2013

flasmob de canção pop em terreno cristão. pode isso?





Grupo vocal adventista faz flashmob da música "Somebody to Love", clássico da banda Queen, no refeitório do Centro Universitário Adventista (UNASP-EC).

Para muita gente, a música cantada profanou o território santo do instituto e é um sinal da grave interação do jovem cristão com a demoníaca cultura popular. Outros já predisseram a disseminação de flashmobs juvenis pelo adventismo afora. 

Para outros, tratou-se simplesmente de uma agradável performance de uma bonita música, com uma bonita letra, muito bem executada no espaço do refeitório dos alunos. 

Ah, mas a música é do Queen, uma banda de rock, e o rock está no índex dos estilos desqualificados para a escuta musical do cristão. Para piorar, Freddie Mercury era homossexual, e provavelmente, agora os alunos vão se interessar por bandas de rock e pela orientação sexual de Freddie Mercury. 

1) Não sou roqueiro, nem fã de rock. Gosto de música boa, sem vulgaridade, bem-feita, e que não contradiga meus valores. A partir daí, eu ouço a música. Se eu fosse deixar de ouvir música por causa do pecado do compositor ou do cantor, eu não poderia mais entoar nem os hinos e canções cristãs, a começar pelas minhas próprias composições (que podem ser desqualificadas pela sua mediocridade inerente e não só por causa dos erros cometidos por mim). 

2) Assista o vídeo e confira se algum princípio foi quebrado, se algum valor indigno foi transmitido. Observe que tudo foi feito com bastante parcimônia e moderação. 

3) A canção apresentada não é frívola, nem se refere a Deus de maneira banal. Ao contrário, é um pedido a Deus para que se encontre alguém para amar. A música não estaria usando o nome de Deus em vão, mais do que eu e você usamos quando falamos "meu Deus" em reação a qualquer coisa. Alguém poderia até se queixar se a letra e o estilo musical motivassem a blasfêmia ou a zombaria contra a santidade atribuída a Deus. Mas não é o caso nem da música original nem da performance no restaurante do colégio.

4) Stevie Wonder  fez uma canção ("Isn't she lovely") agradecendo a Deus pela perfeição de sua filha recém-nascida. Bono Vox ("Still haven't Found What I'm Looking For") canta que só encontrará o que tem procurado quando o Reino chegar. Freddie Mercury pede a ajuda de Deus para encontrar um amor de verdade. Eles não podem usar o nome de Deus? Talvez pelo uso cotidiano ou por entenderem que possuem maior afinidade (quando não exclusividade) com o conteúdo das coisas sagradas, alguns cristãos inadvertidamente pensam deter o monopólio na utilização do nome santo de Jeová. 

5) Tchaikovski era homossexual. Se a orquestra do Unasp tocasse "O Lago dos Cisnes" estaria havendo essa repercussão? 

6) Há alguns anos, Leonardo Gonçalves cantou "Isn't she lovely" e foi outro alvoroço porque ele participara de um show do Ed Motta e ficou brincando com melismas. Naquela época, o violinista Paulo Torres tocou no Domingão do Faustão com Andrea Boccelli algumas árias populares. Só elogios. Então, tá combinado: Se dois pianistas ou flautistas brincarem de virtuosismo instrumental, é talento puro. Se dois cantores brincam de virtusiosismo vocal, é exibicionismo gratuito.

7) A canção apresentada no flashmob no Unasp-EC é "Somebody to Love". Ela tem ritmo ternário, o que não favorece movimentos corporais típicos do rock. Sua melodia está mais próxima de árias de ópera do que do pop comum. Quem quiser associar o rock só com sexo irresponsável e drogas, que o faça. Mas não reclame de quem só associa padres a pedófilos ou evangélicos a pregadores de má-fé. 

8) Não sou melhor do que os críticos zelosos nem do que os roqueiros que levam publicamente um estilo de vida que depreciamos. Só acho meio farisaico essa tendência de apregoar anátemas contra a música popular porque não se quer sustentar os cantores de "má fama" e depois ir sustentar o lucro dos empresários dos shoppings e restaurantes. Aliás, todos eles muito queridos, sãos e sadios, não é mesmo? 

9) É tão inadequada a postura de total descarte e censura da cultura pop quanto o é uma postura de celebração acrítica dos seus produtos. 

10) "Há pessoas [...] para quem a religião é um tirano [...] Consideram toda recreação ou diversão um pecado, e pensam que a mente deve estar constantemente trabalhando no mesmo grau de severa tensão. Isso é extremismo" (Minha Consagração Hoje, p. 19).

05 dezembro, 2013

essa é a voz

Essa é a música, andai por ela.
Depois de ouvir Lillie McCloud, você achar que uma deusa se fez carne e cantou entre nós.