20 dezembro, 2006

O TODO-PODEROSO

Há algum tempo me contaram uma história sobre um homem dos tempos do Velho Testamento que era tido como fiel e temente ao Deus Jeová. Certo dia, esse homem recebeu em sua tenda um viajante cansado e idoso, como são descritos alguns homens do Livro do Gênesis. Mas, como um desses homens do Gênesis, o viajor era também um homem de fibra e vigor, o que ficou claramente demonstrado quando, numa conversa com o anfitrião, contestou a existência de Deus, o Deus ao qual o senhor da tenda era leal. Irritado com a recusa daquele ancião em acreditar no Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, o anfitrião, também um homem de fibra, demonstrou claramente o seu vigor expulsando o hóspede de sua tenda e rogando-lhe uma dezena de pragas.

À noite, Deus veio em sonho até o homem que acreditava nEle e lhe disse: "Meu filho, você julgou e condenou aquele ancião em uma noite. Durante 80 anos aquele homem tem Me negado, Me vilipendiado com seus atos e palavras, mas Eu não tirei o seu direito à vida."

Após assistir o filme Todo-Poderoso, essa história me veio à mente. Durante 100 anos, os cineastas têm criado as mais diversas imagens do Deus dos cristãos, e Hollywood, por enquanto, segue intacta. O conceito que o cinema faz de Deus assume todas as formas e os mais variados propósitos. Ora evangelístico em Rei dos Reis e A Maior História de Todos os Tempos, ora kitsch em Os 10 Mandamentos, irônico em O Céu Pode Esperar, emocionalista em A Paixão de Cristo. Ou ainda ser atacado como o próprio anticristo, como foi o caso de A Última Tentação de Cristo (embora eu creia que anticristo e anticinema tenha sido Alanis Morrissette como Jeová em Dogma).

Todo-Poderoso assume um conteúdo inédito até então: Deus fazendo compreender Sua onisciência e divina providência através do arrependimento de um pecador. No caso, o pecador contumaz é vivido por Jim Carrey, um comediante segundo o coração de Hollywood, ora transgredindo em Debi e Lóide ora redimindo-se em O Show de Truman.

Roteiristas não são os melhores estudantes da Bíblia, e isso transparece no incômodo tom de paródia do início do filme. Mas essa impressão vai se desfazendo ao longo da história, seja porque os personagens abrem o coração em sinceras orações e não por meio de rezas e vãs repetições, seja porque há reconhecimento dos erros, arrependimento e mudança de atitude do personagem principal, seja porque grandes verdades podem ser reveladas também em certas alegorias cinematográficas.

O filme toca numa tentação recorrente na história do homem: a pretensão humana de achar que faria tudo melhor do que Deus. Assim, ele distribuiria em doses fartas e eqüitativas a riqueza e a saúde, pondo um fim à fome e à violência. Como se os problemas da humanidade fossem apenas de ordem econômica, esquecendo-se da falência moral dos habitantes desse planeta. No conto O santo que não acreditava em Deus, há uma frase desconcertante que diz que o ser humano sempre acha que ser Deus é fácil, “mas não acerta fazer nem uma tabela de campeonato”. E assim segue a velha toada humana: largamos tudo por conta de Deus, e O culpamos por não resolver as coisas ao nosso modo, ou tomamos Seu lugar e tentamos criar um mundo a nossa imagem e semelhança.

Quando o personagem de Jim Carrey se desespera e diz que não tem poder para solucionar os problemas, ele ouve de Deus (na voz de Morgan Freeman): “Sim, você tem poder”. A frase é dita sem afetação, sem o vozeirão tonitruante de Cid Moreira, mas com um afeto e um olhar que transmitem segurança. Quanta miséria e dor poderiam ser evitadas se as pessoas tomassem consciência de que têm nas mãos oportunidades diárias de mudar a sociedade, começando a mudança por si mesmas. Há muita gente que acredita que não tem capacidade de resolver problemas e se afunda na auto-comiseração ou no desperdício. Quando pararmos de amesquinhar nosso tempo, nosso talento e nosso tesouro e aliarmos a capacidade humana ao poder divino, veremos o quanto podemos fazer nAquele nos fortalece.

Por fim, fico com a imagem de Morgan Freeman em Todo-Poderoso: nunca o cinema conseguiu reunir em uma mesma pessoa a sabedoria clara, a soberania humilde, a simplicidade nobre, a bondade sem condescendência. É uma imagem de Deus que eu também tenho comigo.

15 dezembro, 2006

ADEUS, SIVUCA SEVERINO


E mais um Severino se foi. Aos 76 anos, Sivuca, nascido Severino Dias de Oliveira, deixou os bailes e palcos da vida. O nordestino Sivuca, que trazia na sanfona as marcas das vidas secas e severinas, encantou o mundo com choros e baiões, misturando Bach com Pixinguinha, levando a feira de mangaio pra sala de concertos, dando o privilégio de sua albina companhia tanto à Harry Belafonte e Toots Thielemans quanto à Chico Buarque e a Orquestra Petrobrás Pró-Música.

'Adeus Maria Fulô', Adeus Severino, Adeus Sivuca.

SAÍDA PELA DIREITA

O homem não toma jeito, não muda mesmo. Parece que não há menor chance de variação ou sombra de mudança. A última foi a saída pela direita do tenor Roberto Alagna em pleno La Scala de Milão, templo da ópera mundial, quando foi vaiado em cena pelo público extremamente exigente. No dia seguinte, o cantor deu a desculpa esfarrapadíssima de que estava com a garganta seca de emoção por estar no papel de Radamés, da ópera "Aída", de Verdi. É claro que a emoção não o impediu de abandonar a parceira de cena, que ao ver o tenor saindo das luzes da ribalta deveria ter cantado, se conhecesse, o "Não se vá" de Jane e Erodin, ou o "Vá com Deus", de Roberta Miranda.

Quando confrontado com a exigência do público, que estava insatisfeito com algumas declarações de Alagna dadas à imprensa na véspera do espetáculo, o primo signore, versão minha para a prima donna, nem sempre agüenta o tranco e a saída é a de sempre: sutilmente à francesa ou explicitamente pela direita. Alguns reagem vigorosamente, como Sérgio Ricardo, que nos anos 60 atirou o violão numa platéia que o apupava (segundo consta, o instrumento atingiu um espectador que estava aplaudindo o cantor). Ou aproveitam para sermonizar, como Caetano, que nos mesmos anos 60 foi vaiado junto com Gil e fez um discurso atacando as mentezinhas universitárias encharcadas de Mao.

Não é de hoje que o mundo do espetáculo atiça os humores mais primitivos do público. Em 1913, a radical obra de Stravinski, "A Sagração da Primavera", não chegou a bom termo em sua estréia na Paris dos espetáculos transgressores de Satie, Picasso e Duchamp. Às vezes, os próprios cantores tornam-se protagonistas de espetáculos constragedoramente engraçados, como a briga em pleno palco das divas Francesca Cuzzoni e Faustina Bordoni nas cenas de "Astianatte", de Buonocini, na Londres de 1727: na incrível batalha pela supremacia junto ao gosto da platéia uma arrancou a peruca da outra!

O homem e a mulher não mudam mesmo.

12 dezembro, 2006

NO PAÍS DOS FRANCISCOS


Você conhece alguém que não gosta do Chico Buarque? Porque do Caetano... Se este possui todos os predicados para ser odiado na mesma medida em que é amado, o autor de "A Banda" foi bafejado ao nascer pela soma de todas as qualidades. Senão, vejamos:

O homem nasce neto de general e filho de sociólogo, aliás, não somente um sociólogo, mas "o" sociólogo Sérgio Buarque de Hollanda, pioneiro no estudo dos Brasis do homem cordial. Estudante de Arquitetura no Rio, mal sabia tocar violão e aquele imitador barato de João Gilberto vence um Festival cantando e vendo A Banda passar.

Eleito a única unanimidade brasileira da época, passaria de herói a vilão em pouco tempo, o que, tendo por inimigo os generais golpistas só pode mesmo enriquecer um currículo. O moço é imcompreendido pela massa leninista-trotskista-guevarista quando se junta à Tom Jobim e escrevem "Sabiá". E, blasfêmia das blasfêmias, vencem o refrão "quem sabe faz a hora não espera acontecer" de Geraldo Vandré. Júri de festival até quando acerta, erra. Era só eleger a convocação de Vandré que se evitava toda aquela vaia ao maior músico que esse país já teve (você escolhe se é Chico ou Tom).

Depois, casou com Marieta, ficou amigo de Vinícius, andava com Gil e Caetano, escreveu peça censurada, peça infantil de sucesso, romances e letras e canções do quilate de "Apesar de Você", "Construção", O que será", "Vai passar", "Paratodos", "A ostra e o vento","Mulheres de Atenas", ...

Pra completar tem olhos verdes, é tímido, inteligente, enfim, o genro que a sogra quer ter sempre por perto (bem perto, diga-se) e de quem todo homem quer ser amigo (nem que seja pra vigiá-lo).

Por último, no país dos franciscos (Chiquinha Gonzaga, Francisco Alves, Chico César, Chico Science,...), Francisco Buarque de Hollanda da alta roda tornou-se Chico e foi ser o gauche mais certinho do mundo.

04 dezembro, 2006

QUEM COM MENUDO FERE, COM RBD SERÁ FERIDO


A invenção da adolescência: um tema propício para encontros de pais e mestres.
Talvez pior que uma sonífera palestra sobre a invenção da adolescência seja a invenção dos filmes para adolescentes. Foi a sensação que eu tive ao final do filme High School Musical, ou melhor, Rebeldes Americanos com Roupas Mais Comportadas.
Na máquina de videopôker que é a TV e o cinema americanos, a aposta deu certo e eis que surge mais uma franquia. Série que vira cd que vira dvd que vira roupa que vira acessório que vira eterna rolagem da dívida dos pais. Os roteiristas e produtores de um seriado desses ou são adolescentes que desconhecem o termo "orçamento doméstico" ou são pais adultos que precisam inventar um seriado que lhes aumente a receita para que eles possam quitar as despesas que seus filhos fazem ao assistir alguma série adolescente por aí.

Mas não perca os cabelos, pai muquirana! Calma, mãe descabelada! Como vocês ouviram muito Pluct-Plact-Zum e Menudo, agora estão sendo punidos até a quinta geração com Rouge, Rebeldes (o RBD da foto ao lado) e outros congêneres amexicanizados.

O piloto da série High School Musical encerra em seu glorioso roteiro tudo o que um adolescente sempre quer ser na escola mas nunca será por que sua vida não tem uma trilha sonora tão kistch. É claro que ninguém vai levar muito a sério estes enredos com meninos e meninas que descobrem uma voz especial, um talento especial, ao tempo em que desabrocham para as dores dos amores escolares. Quando digo "ninguém" quero dizer nosotros adultos, um bando de zé-ninguéns e vilões no mundo encantado dos teens.

Em relação à história do piloto da série, é óbvio que o casal central vai se desentender, é óbvio que na hora de cantar no teste ela vai amarelar, é evidente que ele vai dar aquela força dizendo "olhe pra mim e cante", é lógico que no palco só tem uma pianista acompanhando a música deles e de repente o playback surge do nada com toda sorte de instrumentos, é claro que o casal coadjuvante que vai perder o duelo musical é bem melhor que o par central, mas na hora que o par central começar a cantar vai lotar o auditório, vão enquadrar rostinhos zero km com aquele ar surpreso e encantado, a vetusta professora vai se entusiasmar em plena sessão de teste e ele, o garoto loirinho e mocinho, vai fazer o último ponto no último minuto na última partida do campeonato de basquete.

O filme é tão enjoativo quanto o último parágrafo aí em cima. Mas não tão enjoativo quanto qualquer filme da Xuxa (que história é essa de anunciar os Xuxa Pictures com um tal de "a nossa rainha"?). Estes filmes, sim, são tão ruins, que devem até engordar.

23 novembro, 2006

SELEÇÃO BRASILEIRA DE MÚSICA

Há alguns anos li um artigo que escalava os imortais da literatura numa seleção de futebol. Muito boa a idéia. Mas como é difícil imaginar Machado e Graciliano, de estilos contrastantes mas necessários, dividindo a meia cancha brasileira, eis aqui um selecionado cujo talento nas artes do ludopédio também é difícil de engolir. Mas, se até Zagallo já foi deglutido, abram as cortinas que começa o espetáculo:

Goleiro - o ditado não falha: pra ser goleiro, só louco. E o louco de sempre só pode ser Tom Zé. A torcida brasileira, que prefere um guarda-metas que transmita tranqüilidade à defesa, não entende como ele complica o simples e simplifica o difícil. É mais admirado quando joga fora de casa.

Ala direita - Quando Dorival Caymmi cruza a bola na cabeça dos goleadores ou ele mesmo marca um gol, a torcida canta alto: " o que é que esse baiano tem?". Sem correria, é um lateral que só apoia quando bem lhe apetece. E com o risco de voltar no mesmo vagar com que subiu ao ataque. A torcida desconfia que ele força algumas suspensões para não jogar algumas partidas e passar o fim de semana em Marancagalha.

Zagueiro-Central - Beque não pode ter medo de cara feia. A vida de um atacante fica que nem jiló ou pior, se tiver de encarar o zagueiro Luiz Gonzaga. Apelidado Gonzagão, (devido ao filho Gonzaguinha, cujo estilo é tão próximo ao do pai quanto um bandeirinha o é de outro), põe logo o fole pra chiar quando a temperatura do jogo esquenta. E tome forróbodó.

Quarto-Zagueiro - Noel Rosa é o contraponto de seu companheiro de zaga. De aparência (e saúde) frágil, recusa-se terminantemente a dar bicões para onde o nariz estiver apontado. É tão refinado e inteligente que chega a ter seu estilo de jogo imitado pelosjogadores do meio-campo dessa seleção.

Ala Esquerda - Ninguém chama Pixinguinha de lateral. Um jogador que apóia e marca tão bem quanto passa ou chuta a gol também merece atender por "Enciclopédia", um epíteto para os gênios da posição. Carinhoso no trato da bola, com ele um simples 1x 0 é uma acachapante goleada.

Volante - Gilberto Gil faz de uma partida um domingo no parque. Talvez sofisticado demais para a posição, o termo cabeça-de-área não lhe cai bem. Pelo menos não com a conotação Dunga de ser. Mas pode ser duro...pero sem perder a ternura.

Meia-Esquerda – Roberto Carlos. Seus críticos o acusam de praticar um futebol demasiadamente romântico e sem lances de ousadia. Às vezes, parece sempre estar jogando mais para a torcida que para o time, o que faz com que invariavelmente seja substituído pelo volante rompedor Tim Maia, mais raçudo e até brigão (reclama até do sonoplasta do estádio).

Meia-Armador – Nunca se soube se o craque Tom Jobim atuava mais pela direita ou pela esquerda. Começou fazendo tabelas perfeitas com o meia Vinícius ( mas a preferência deste por bares e praias o levou à reserva). Pela maneira como conduz o time a magníficas vitórias, brilhando em campos cariocas ou estrangeiros, recebeu o epíteto de maestro soberano. Ao contrário do que dizem, Tom nunca foi craque de uma jogada só.

Ponta-de-lança – Chico Buarque. Iniciou sua carreira fazendo golaços em diversos torneios. Costuma fazer tabelas inesquecíveis com Tom, Gil e outros caros amigos, deixando o adversário numa roda viva. Quando ele não está em campo a torcida começa a cantar "e agora como é que eu fico / sem Chico, sem Chico".

Atacante – Jorge Benjor. Rápido, de dribles desconcertantes, seu ritmo de jogo é inimitável. Como um Garrincha, faz sempre a mesma jogada irresponsavelmente eficiente, sem maiores preocupações cerebrais.

Centroavante – Caetano Veloso. Como de praxe, todo goleador tem que ser polêmico em suas declarações. Inclusive quando não pretende sê-lo. Seu estilo de jogar inclui todo e qualquer estilo, o que o leva a transfigurar um estilo de jogo tipicamente bretão em gols de placa com sabor de autêntico futebol-arte tropicalista.

Técnico – Radamés Gnatalli, por sua ambivalência tática, ora clássica, ora mais popular, conforme o ritmo da partida. Cada um dos 180 milhões de ouvintes, digo, torcedores, têm uma outra seleção com outros craques. Só não há discussão para autor do hino desta seleção: Lamartine Babo.

POR FAVOR, NÃO ATIREM NO PIANISTA!


Dia do músico. Podia até ser feriado santo dado o caráter profilático com que se costuma recomendar obras de Mozart. Mas o músico teria que trabalhar para os ouvidos alheios do mesmo jeito e aí deixemos como está.
O título "Por favor, não atirem no pianista" lembra aquele do filme do François Truffaut (Atirem no pianista, 1960), mas também vem daquela velha frase de consolação desde velhos recitais: "Não atire no pianista. ele está fazendo o melhor que pode". Lembro também do filme do Roman Polanski, O Pianista, que nos oferece um quadro pouco convencional de um músico.

Aproveito o espaço para "recordar e viver" a arte juvenil (ainda não tinham inventado a pré-adolescência) deste escriba virtual e inexperiente, cujas mal traçadas abaixo podem aborrecer muita (se tanta) gente.

O pianista geralmente é visto como um agraciado, um privilegiado que lê hieróglifos e fala pelos dedos. Um suprachato que martela o instrumento e o ouvido alheio, exercitando a tolerância de qualquer cristão com suas escalas e exercícios. Eu mesmo costumava torturar as domésticas de casa tascando-lhes na escuta um Hanon às duas da tarde. Quando o almoço não tinha sobremesa, aí o castigo infligido era uma hora do Microkosmos do Bartók.

À noite, após o jantar e a sagrada reunião familiar, meu pai me pedia: "Filhão, toque aquela música". Era a deixa pra dedilhar o Pour Elise de Beethoven. Quando recebíamos visitas ilustres, pelo menos para os meus pais, eu ouvia o indefectível pedido: "Toque aquela música!". Parecia uma Ingrid Bergman carente solicitando, em Casablanca, ao pianista Sam: "Play it again" . Mas um dia minha rebeldia, assumo, pré-adolescente viria à tona e do pior modo possível (murphyanamente contra mim).

Visitantes na sala, satisfeitos, inclusive com sobremesa, agora era a hora do Beethoven Apaixonado começar a tocar.

Mas que nada. Saí, exibido, dedilhando outra música, acho que era alguma intitulada Gallop du Diable. A música exigia muita técnica, velocidade e força, ou seja, eu parecia um mozartinho embevecido. Após o finale, olhei pra trás esperando aplausos mas só ouvi alguns muxoxos tipo "bom, hein?", "ah, legal". Aí meu pai não resiste e sussurra:"Não, filhão! É aquela!". Ok, ao vencedor, Pour Elise. Claro, com palmas e mais palmas.

E o filme? Polanski fez o filme até agora definitivo sobre os judeus e o nazismo. Se você só ouviu o filme, trate de vê-lo na próxima vez. O colaboracionismo de alguns judeus está ali, bem como o heroísmo sortudo de outros. O pianista Szpilmann, interpretado por Adrian Brody, é o retrato mais próximo de um homem que só ressalta sua humanidade através da sua arte, da sua música.

Szpilmann é fraco, pusilânime, um filho teu que foge à luta. Um artista que não entende porque os homens preferem atirar uns nos outros do que fruir um pouco de Chopin em paz. Aliás, Chopin é a alma deste filme. Chopin, o polonês delicado e irascível, mais amigo das artes que dos homens, cuja música é ponto central de uma narrativa que parece falar de guerra e intolerância, quando na verdade fala de atitudes humanas diante da tragédia. Aliás, da atitude de dois homens diante da tragédia.

A cena do pianista judeu-polonês, famélico, em farrapos, recebendo a Esfinge em forma de oficial nazista em meio aos escombros é reveladora. O alemão acabou de tocar o Beethoven da Sonata ao Luar e exige: se você é mesmo pianista, toque! O fugitivo poderia tocar a Apassionata ou até mesmo, de forma colaboracionista, diriam alguns, tocar um arranjo para piano do 2º movimento do Quarteto op. 76, de Haydn, também conhecido como o hino nacional alemão.

Porém, Szpilman, que nunca foi nem delacionista nem revolucionário, ou jamais desempenhou um papel em prol da boa-vontade entre os homens, que só quis agradar ao senso artístico, que mal amava a própria vida, a ponto de insistir em tocar piano enquanto o restaurante em que trabalha é bombardeado; esse mesmo Szpilmann dedilha o piano calorosamente, como se nunca tivesse passado pelas privações que vivia (ou exatamente porque passava por privações), e toca a Balada n. 1, de Chopin, claro.

O crítico Alex Antunes perguntou e respondeu: ele foi salvo por que era um bom pianista? Os maus pianistas devem ser mortos, então? Nazisticamente, o oficial não atira no pianista porque as guerras não são de raça ou de classe, mas de castas, como assegura Jean Renoir no filme A Grande Ilusão (1937). A casta dos pianistas, mas principalmente daquela elite que julga entender sua arte, tem licença para viver.

No fim, o que resta até parece esperança. Mas, olhando as atrocidades das guerras atuais, se percebe que o que ficou foi a música de Chopin. Um Noturno em meio aos escombros do Iraque, por favor!

22 novembro, 2006

O primeiro texto deste blog é uma homenagem às pessoas desta cidade, a nossa Ludicapólis, São Luís, que me acolheram com tanta generosidade e ainda maior paciência.
O texto foi escrito em maio deste ano, por ocasião do Encontro de Cordas anual da Escola de Música (EMEM), e enviado para um jornal desta cidade.
Aproveito o espaço pra abrir o baú das novidades de ontem, das boas-novas de anteontem e das alvíssaras do passado.
Também vou aproveitar o hiperespaço pra justificar a arte feita com dignidade e, desde já, firmo o nobre pacto de falar de cinco áreas somente (o blog se chamaria pentagrama, mas alguém com mais iniciativa já possui este título): 1 - música, 2- literatura, 3 - futebol, 4 - filmes, e 5 - o que der na carcomida telha deste que vos fustiga a paciência.

M DE MOZART E MARACATU NO MARANHÃO

M DE MOZART E MARACATU NO MARANHÃO

Antonio Rayol respirava ansioso no camarim do Teatro São Luís. Eleito vice-diretor da Academia de Música do Rio de Janeiro, o maranhense voltava à cidade natal para uma série de concertos. Não bastasse ter de estar à altura do sofisticado público ludovicense, lembrar que uma de suas peças escolhidas, a Serenata Brasileira, não seria apresentada devido à gripe contraída pela soprano, só não o deixava estressado porque stress era uma palavra desconhecida na época. Mas, entre um compositor barroco e um Mozart, afinal, era o ano de 1891 e lembrava-se naquela noite o centenário da morte do gênio de Salzburgo, a platéia aplaudiu freneticamente a polka Pastorinhas, obra do agora mais calmo Rayol.
A história acima pode ter acontecido ou não na São Luís novecentista, cujos espectadores do século XXI reviveram noites gloriosas da música de concerto, comum no outrora chamado Teatro São Luís, ainda esporádico no Arthur Azevedo. Na noite de quarta-feira passada, 24 de maio, a platéia foi inebriada pelo arranjo secular de Max Bruch sobre a melodia tradicional judaica Kol Nidrei. A orquestra, regida por Antonio Del Claro, construía uma via dolorosa em que o violoncelista maranhense Joel Costa fazia a melodia caminhar trágica, dilacerante.
Infelizmente, não foi possível ouvir a Serenata Brasileira, de Antonio Rayol (a história da gripe, neste caso, é real), mas a polka Pastorinhas foi apresentada, inclusive no bis final. Foi bom ser reapresentado ao tenor e compositor Rayol, que não era um nacionalista fervoroso, daí esta
peça não ter o mencionado "sabor da terra", a não ser o da pátria dos Strauss e dos von Trapp.
No filme Amadeus, de 1984, um Salieri já senil toca algumas de suas composições, sucessos em sua juventude, para um único ouvinte num sanatório. Este, entretanto, não reconhece uma obra sequer. Porém, quando ouve os compassos iniciais da Pequena Serenata Noturna, se põe a cantarolar e pergunta, maravilhado: "É sua?". Não, foi a resposta; é de Mozart, rival de Salieri mais no roteiro de Peter Schaeffer do que na própria realeza austríaca. A platéia do Arthur Azevedo, comungando com a orquestra na celebração dos 250 anos de nascimento de W. Amadeus Mozart, ouviu a obra citada com um sorriso encantado nos lábios.
A orquestra, reunida durante a semana do IV Encontro de Cordas da Escola de Música do Estado do Maranhão, também tocou com incrível vivacidade a peça do contemporâneo Ernani Aguiar, 4 Momentos para Orquestra de Cordas. O 1º movimento, Maracatu, lúdico, uma brincadeira de rua. O 3º, Canto, uma vereda de lamentações dos retirantes de secas vidas. Por último, uma marcha polirrítmica difícil e empolgante. Muito prazer, Mozart, música brasileira!
Que venham mais concertos. O público aguarda ansioso.
PS., sem ofensas: para evitar a distração de músicos e espectadores, bem que poderiam instalar bloqueadores de celular nos teatros. E a distribuição na entrada de xaropes anti-tosse seria bem-vinda.