10 março, 2007

AOS PÉS DO SÁBIO LULA

Na Academia Grega de Letras e Filosofia, os jovens estudantes assentavam-se aos pés de um mestre qualquer, tipo Platão, Sócrates e Zico, quer dizer, Demócrito, e ali saíam da caverna do senso comum para a república da práxis filosófica. Que fique claro que mesmo no berço dórico da democracia, o indivíduo que recomendasse o estudo de si mesmo ("conhece-te a ti mesmo")antes de discursar aos outros, principalmente para elementos lépidos no acusar mas lerdos no refletir, corria o risco de sair da vida e entrar para a História com gosto de cicuta na boca. Nessa Academia, onde Sarney e Paulo Coelho não passaram na peneira e rumaram para os trópicos, até o apóstolo Paulo sentou-se aos pés do sábio Gamaliel.

Pois, Nossa Excelência Presidencial, o sábio Lula, o Nosso Guia, na alcunha de Elio Gaspari, já pode contratar seu exu-writer (ghost-writer é para romances abolerados do tipo Zélia e Bernardo Cabral) para compor suas memórias a partir do seu inventário, ou anedotário, de frases e sentenças quando no pleno exercício de suas faculdades discursivas. Já adianto o título: "Lula: um microfone na mão e um improviso na cabeça". Ou um simples: "Assim Disse Lula".

A Marcha da História do nosso self-made-president poderia começar com a constatação tardia mas emocionante porque mãe é mãe: "eu sou filho de uma mulher que nasceu analfabeta" (sim, ele disse mesmo essa frase).

Mesmo que Nosso Sábio não tenha tido lá grandes oportunidades escolares e, assim como Ronaldinho, Tiazinha e bigbrothers, tenha conquistado a fama com dotes não-acadêmicos, ele ressalta: "Não é mérito, mas, pela primeira vez na história da República, a República tem um presidente e um vice-presidente que não têm diploma universitário. Possivelmente, se nós tivéssemos, poderíamos fazer muito mais." Talvez por esse reconhecimento aos dias letivos, o seu governo ande contratando jogadores de futebol e cantores de axé pra incentivar a garotada na trilha do saber (diz a cantora com um livro na mão: "leia, menino; e vire um anônimo sem grana").

Se Lula leu, não sei. Mas que Lula voa, ah, isso voa. Nessas viagens, ele aproveita para exibir, envaidecido, seu conhecimento histórico-geográfico: "O Brasil só não faz fronteira com Chile, Equador e Bolívia." (talvez por isso a falta de vigilância nos 3.000 km de fronteira com o país de Evo Morales)

"O continente sul-americano e o continente árabe(??) não podem mais, no século XXI, ficar à espera de serem descobertos." (e era uma vez Cabral)

"Conheço o Panamá só de dormir. Até recentemente, sempre que eu ia a Cuba, tinha que dormir uma noite lá". (elogio para o embaixador do Panamá, durante encontro em Brasília)

"O Atlântico é apenas 'um rio caudaloso, de praias de areias brancas', que une nossos dois países" ( Lula encharcado de poesia no Gabão)

"Estou surpreso porque, quem chega a Windhoek, não parece que está num país africano" (nem adiantou o presidente da Namíbia puxar Lula pelo braço)

"Quando Napoleão foi à China" (é verdade. O general francês devia estar na comitiva de Marco Polo e foi de lá que importou o costume confuciano de posar com a mão pra dentro da jaqueta!).

As memórias operário-presidenciais não deixariam de fora sua sensibilidade quando encontrou-se com atletas paraolímpicos: "Todos vocês vão competir a uma vaga para Antenas (sic)? E quem é que acha que vai ganhar? Levante a mão aí para ver".

Claro que seu cavalheirismo cabra-macho não seria esquecido :"... a galega (a primeira-dama Marisa Letícia Lula da Silva) engravidou logo no primeiro dia, porque pernambucano não deixa por menos". Lula disse esta delicadeza em Pelotas, onde ele teria colocado em xeque a insuspeitável virilidade da cidade gaúcha anos antes, digo, tempos antes.

A última de Lula, última no sentido "até agora", foi declarar que, em matéria de combate à AIDS, não se deve levar em conta "o que a Igreja diz, o que a família diz". Ouviram, meninos e meninas? Em relação ao sexo, "preservativo tem que ser doado e ensinado como usar. Sexo tem que ser feito e ensinado como fazer. Somente assim, nós seremos um país livre da Aids e de outras doenças infecciosas." Minha vó diria que se pega doença é com sem-vergonhice. Mas tudo bem. Minha vó não estudou, mas também não conseguiu ser presidente.

Então, deixemos ao governo sábio a tarefa de ensinar ao brasileiro as delícias do sexo plastificado e casual. Relacionamento sensato, responsabilidade sexual, essas coisas ultrapassadas o governo também pode ensinar, ou deixar pra depois. Há hipocrisia em famílias e igrejas? Sem dúvida. Mas uma instituição tão corrompida e sem credibilidade moral querer educar os filhos da pátria aí já é algo pra se refletir com mais seriedade.

Lula, o sábio, acredita que o preservativo é a panacéia sexual. Como se fosse simples assim. Mas pra alguém que já andou filosofando que " o governo tenta fazer o simples, porque o difícil é difícil", está revelando o seu pensamento. E o pensamento é a sala de ginástica da ação.

06 março, 2007

BABEL ou O terrorista, o japa e o cucaracha


Continuando nossa incansável busca pelo filmaço perdido que disseram que é Babel, podemos traçar um rabisco de pensamento. Digo rabisco, pra não falar no fiapo que é a trama costurada com agulha de veterinário pelo diretor mexicano Alejandro Inárritu e seu ex-fiel roteirista Guillermo Arriaga, a fim de dar conta da miséria humana, desse pântano de horrores que é a vida nesse "asteróide pequeno que todos chamam de Terra". A dupla encerra o que poderia ser uma "trilogia da tragédia humana", iniciada com vigor em Amores Brutos (2000), ou a miséria mexicana editada e repetida em 21 Gramas (2003), ou a miséria americana fotogênica. Babel seria todo esse miserê em escala planetária.

Em Babel, os personagens de continentes distintos acabam muito próximos por causa de uma arma. Ah, entendi: a violência nos torna co-irmãos e deixa em risco a fraternidade universal. Isso é bem claro na cena em que as crianças marroquinas atiram no ônibus cheio de turistas brancos. A primeira lição de Babel é de uma leviandade chocante: na primeira chance que o muçulmano tem de atirar, ele vai escolher preferencialmente uma vítima americana.

2ª lição: a aversão à violência que a criança americana sente é diametralmente oposta à violência que o mexicano tende a produzir. E os dois autores mexicanos não têm o menor remorso em colocar seus conterrâneos na tela como irresponsáveis (a babá dos americaninhos que os leva ao casamento), naturalmente violentos (o sobrinho da empregada que celebra o casamento com tiros pro alto, na melhor tradição do morro carioca) e as crianças loirinhas dos EUA como inocentes (o olhar de espanto delas ao ver uma galinha com a cabeça decepada, por um mexicano, claro).

3ª lição: todas as diferenças étnicas são diluídas por meio da dor e do sofrimento. A esposa americana, que no começo do filme nem bebe a água do restaurante africano, é tratada por uma curandeira local. E o cicerone africano, que já teve contato com o branco, recusa a gorgeta porque ele fez tudo aquilo por amor. Ou seja, os africanos são feios, sujos e malvados, mas não exploram a miséria alheia. Pelo menos não da maneira com que Inárritu e Arriaga o fazem em seus filmes.

Última lição: só o amor constrói. As cenas em que a adolescente japonesa surda-muda está descobrindo sua condição de ser, sua sexualidade, sua deficiência, são as mais bem construídas do filme. Mesmo assim, por sua situação de silêncio, embora seja alguém cujos olhos falam muito alto, termina sua participação agarrada à figura paterna, que a protege das drogas, das amigas e do fantasma do suicídio da mãe. Já a esposa americana reencontra a felicidade de receber amor de um Brad Pitt enrugado e disposto a discutir a relação em meio a sangue e urina.

Assim caminha a humanidade: o marroquino é terrorista desde criancinha, a japonesinha vive no silêncio oriental, o mexicano cucaracha é um animal brega e irracional. O americano sofre, leva bala, fica perdido, sangra, mas encontra a paz, o perdão e o amor e termina feliz reunido no home sweet home. Ah, o americano tudo crê, tudo espera, tudo suporta. Agora, pois, permanecem os três: o terrorista, o japa e o cucaracha. E o maior de todos é o americano.

03 março, 2007

BABEL: A TORRE ANTES DO FILME


O livro bíblico do Gênesis conta a história de um povo que, na tentativa de escapar de um novo dilúvio, começa a construir um edifício tão alto que arranharia o céu. Jeová, porém, provoca o desentendimento geral naquele canteiro de obras ao instaurar os falsos cognatos na linguagem humana: Pedro pedreiro pedia tijolo, o ajudante de pedreiro trazia água; o mestre de obras mandava buscar tubos Tigre e lhe traziam conexões Mico; a cozinha pedia alhos e o cameloboy comprava bugalhos.
Os executivos, que eram nominados CEO, já que o céu era o limite ali, anotaram em seus palm-papiros que os engenheiros não se haviam mais com o súbito aparecimento de diferentes sistemas de pesos e medidas, e as placas que informavam o recorde de dias sem acidentes
de trabalho eram retiradas tal era a sucessão de acidentes fatais e pedidos de demissões (devido à total incomunicabilidade linguística, o demissionário revelava sua intenção ao superior com uma simples deserção do local da obra, passando incontinenti pelo RH).

Os sindicatos, que já não se entendiam no monoglotismo, viram o mundo inteiro transformar-se numa de suas exasperantes plenárias. Só os religiosos adeptos da glossolalia regozijaram-se achando que aquele falar ininteligível era o derramamento do Espírito em escala mundial. Assim, o que seria a primeira maravilha do mundo ganhou logo o título irônico de "obra faraônica". É claro que o desconhecimento de faraós e a ausência de ironia (lembre-se que os hebreus da linhagem Seinfeld-Woody Allen ainda estava por nascer) fez com que o apelido não pegasse e o que ficou pra história foi outro: Babel, que significa confusão e deu origem à Babilônia, a metaconfusão.

Ninrode, o arquiteto principal, e a holding responsável pela torre incorreram em três erros: o primeiro, de engenharia: Que profundidade teriam as fundações de tamanho edifício? Já que temiam outro dilúvio não seria mais prático o investimento na engenharia naval?
O segundo erro, de cunho sociológico: na ausência de elevadores, quem seriam os explorados pra carregar as compras até o último andar? E qual o valor de uma cobertura? Prevendo também uma especulação imobiliária de níveis realmente estratosféricos, Deus evitava, causando a ruína da torre, a construção de condomínios verticais na planície de Sinear, de um shopping babilônico nos pastos verdejantes junto ao rio Eufrates e de mais andaimes pingentes que a gente teria que cair.
O terceiro, teológico: Se Deus tinha prometido antes que iria chover, quando não se conhecia a chuva, e de fato choveu, custava acreditar na nova promessa de que a humanidade não seria novamente destruída pelas águas?

Assim nasceram os idiomas e além do mais, sem Babel não haveria no Oscar a categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira, ou Não-Inglesa, o que para os americanos é a mesma coisa.
PS: a reprodução acima é do quadro A Torre de Babel, de Peter Brughel, o Velho, pintada no século XVI. O pintor imaginou arcos na torre, mas os arcos eram elementos arquitetônicos da época do pintor, e não da torres ou zigurates babilônicos.