29 dezembro, 2011

as músicas de 2011


Alguns dos álbuns que ouvi esse ano, e que considero importantes e bons, eu já gostei na primeira audição, como, entre outros, os trabalhos de Fernando Iglesias, Daniel Lüdtke e Athus (este, por se tratar de músicas já consagradas e ainda com aquelas pequenas joias musicais infantis). E alguns precisaram de mais audições. Faltou escutar outras músicas e cantores, mas aí está minha lista do que consegui ouvir quando meus filhos deixam eu mudar de cd em casa ou no carro:
Um CD que celebra o encontro entre a musicalidade popular e a sofisticação orquestral: Peças de Francis Hime e Nelson Ayres, gravadas pela OSESP (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo)

Dois gigantes da música instrumental brasileira na interpretação de dois grandes músicos: GismontiPascoal – A música de Egberto e Hermeto, de André Mehmari e Hamilton de Hollanda

Um CD com obras de um gênio do Romantismo interpretadas por um gênio do recato do sentimento: Chopin – The Nocturnes, de Nelson Freire

Um DVD que vale a pena ouvir de novo e que agrada todas as faixas etárias aqui de casa: Vai Começar, do Quarteto Athus

Um CD calmo, sereno e tranquilo; e inspirador: Madrugada, de Fernando Iglesias

Um CD que entende que a música pop contemporânea pode estar a serviço do evangelho se houver integridade e refinamento artístico: Daniela Araújo 

Um CD que é um bem-vindo sopro de novidade para as melodias de louvor congregacional acompanhado de um DVD que motiva a adoração reverente e alegre: Salmos, de Daniel Lüdtke

Quando voz, poesia e estilo se equilibram em um CD sem medo de ser feliz e cristão: Multiforme, de Paulo César Baruk

Um CD menos preocupado com modernidade sonora e mais centrado numa poesia que foca o amor perdoador e a comunhão: Quem Imaginou, de Vagner Dida

Não é um CD, mas é um testemunho de vida que tem muito mais a dizer que todo um catálogo de extravagância gospel: Rodolfo Abrantes no programa Altas Horas (veja aqui)

os filmes de 2011

Mais lentos e reflexivos, mais ágeis e divertidos, mais recentes, mais antigos, que comovem com sinceridade, que fazem sorrir sem vulgaridade: esses são os melhores filmes que assisti em 2011. 


Meia Noite em Paris, de Woody Allen – Uma fábula sobre o tempo, sobre o modo como idealizamos o passado, sobre o consumismo alienante contra a contemplação da beleza da arte e da vida. E ainda é romântico e engraçado onde as novas comédias americanas só são vulgares.

O Palhaço, de Selton Mello – Que palhaços escondem sua melancolia todos sabemos. Que essa melancolia vá aos poucos dando lugar à ternura, ao amor entre pai e filho, à reconciliação consigo mesmo, tudo isso sem perder a piada (e sem deixar de ser “censura livre”) é uma proeza.

Homens e Deuses, de Xavier Beauvois – A história dos monges ameaçados por terroristas islâmicos na Argélia não é contada como um filme de ação, mas de reflexão. Apesar da morte anunciada, aqueles homens não perdem a fé em Deus, buscam a fraternidade entre os homens e enxergam a beleza divina numa paisagem, numa ceia simples, numa música de Tchaikovski.

Inverno da Alma, de Debra Granik – Numa América miserável cuja face é pouco vista no cinema, uma adolescente terá que virar adulta bem cedo ao lidar com a pobreza extrema, com a ameaça de perder a casa, com o cuidado dos irmãos mais novos, com as tentações da corrupção. Uma jóia de espírito nobre e raro.

A Árvore da Vida, de Terrence Mallick – O que é o homem diminuto diante do universo infinito? Por que ser bom, se Deus nem sempre parece bondoso? Devemos viver a vida pela carne ou pela graça? Sem a menor pressa, este filme nos faz essas perguntas ao mostrar cenas da criação do mundo e cenas da criação dos filhos, momentos de busca pelo detalhe e de encontro com o transcendente.

Passagem para a Índia (1984), de David Lean – Uma viagem ao interior da Índia colonizada pelos ingleses é capaz de revelar o preconceito atrás da fachada de civilidade. Uma história de bondade e humildade contada por um gigante da narrativa como David Lean é imperdível.

O Veredito (1982), de Sidney Lumet – O grande Paul Newman interpreta um advogado decadente que precisa vencer uma batalha jurídica e a batalha contra seu alcoolismo. É ótimo assistir Paul Newman no tribunal e é fascinante ver um homem erguendo-se do seu vício.

Luz de Inverno (1962), de Ingmar Bergman – Um pastor não consegue confortar sua igreja porque está perdendo sua fé e ainda é rude com quem lhe dá afeto. Quando encontra alguém que não questiona a existência de Deus e nem lamenta a própria deficiência física, mas lhe diz que Cristo sofreu muito mais por causa da solidão da cruz, o pastor volta a sua fé. Lento, austero, mas repleto de descobertas e revelações espirituais.

Ladrões de Bicicletas (1949), de Vittorio de Sica – Na Itália empobrecida do pós-guerra, pai e filho percorrem as ruas em busca do homem que roubou sua bicicleta, sem a qual perderá seu emprego. Um dos filmes mais tocantes que já vi em sua simplicidade de narrativa e grandeza de sentimentos.

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Mais:
As músicas de 2011
Os livros de 2011

28 dezembro, 2011

os livros de 2011

Tem hora que meus estudos exigem tanta bibliografia, que já não sei se estou lendo para estudar ou se estou estudando para ler. Na hora de peneirar o trigo e o joio, separei abaixo dez livros lidos em 2011:


Um livro de fácil leitura de um biofísico e teólogo que desmonta um a um os argumentos de outro livro (Deus, um delírio): O delírio de Dawkins, de Alister McGrath.

Um livro de um ateu que mostra como os bestsellers ateístas promovem uma caricatura da realidade religiosa e como a ciência e a religião têm traído seus ideais: O debate sobre Deus: razão, fé e revolução, de Terry Eagleton.

Um livro que abandona a história da música contada em linha reta e une estética e politicamente blues e Bach, ópera e Bob Dylan, John Cage e Kurt Cobain: Escuta Só: do clássico ao pop, de Alex Ross 

Um livro que descortina uma percepção sábia da música e nos apresenta uma ideia rica e inclusiva da prática musical: A Música Desperta o Tempo, de Daniel Barenboim

Um livro que apresenta os diversos estilos de louvor e culto e não se furta a dar conclusões: Adoração ou Show: críticas e defesas de seis estilos de culto, de Paul Basden (org.)


Uma pequena obra-prima sobre a fragilidade da inocência e da virtude numa sociedade corrompida: Billy Budd, o Marinheiro, de Herman Melville

Um livro que mostra 13 pessoas, entre eles, Tolstoi, Dostoievski, Martin Luther King, Chesterton e até Gandhi, cuja vida e fé cristã são alento e inspiração: O título não é “13 pessoas e um segredo de fé”, mas  Alma Sobrevivente, de Philip Yancey

Um livro que analisa o relativismo e o ceticismo que têm paralisado a vida espiritual do cristão contemporâneo: Marcados pelo Futuro, de Douglas Reis

Um estudo imparcial de um período em que as dificuldades culturais e geográficas do trabalho de evangelismo eram acompanhadas de exclusivismo religioso e sectarismo social: O Celeste Porvir: a inserção do protestantismo no Brasil, de Antonio Gouveia Mendonça

Um livro que mostra as divergências e convergências entre as práticas musicais populares e eruditas e ainda desmistifica a origem e o uso da síncope na canção brasileira: História e Música no Brasil, de José Geraldo Vinci de Moraes e Elias Thomé Saliba (orgs.)



22 dezembro, 2011

Charlie Brown e o verdadeiro sentido do natal

Em 1965, foi ao ar um dos programas especiais mais amados de todos os natais televisivos, "A Charlie Brown Christmas" (O Natal do Charlie Brown). O produtor do especial, Lee Mendelson, conta que Charles Schulz, o criador dos Peanuts (a turma do Charlie Brown), insistiu que o programa deveria ser sobre o verdadeiro significado do Natal. De outro modo, "por que se importar em fazer um especial de Natal", Schulz teria dito a Mendelson.

Quando os produtores lhe perguntaram se ele realmente queria incluir um texto bíblico na animação de Natal, Schulz respondeu: "Se nós não fizermos, quem fará?" E assim ficou a marcante cena em que Charlie Brown pergunta se alguém pode lhe explicar qual o verdadeiro sentido do Natal e Linus responde entrando num palco e recitando com inocência cativante a passagem de Lucas 2:8-14. Lee Mendelson considera que esses são "os dois minutos mais encantadores da história da animação na TV".

Ao escrever sobre os Peanuts no especial "Manhood for Amateurs", Michael Chabon, que se descreve como um "judeu liberal agnóstico empirista", disse ainda: "Eu ainda sei de cor aquele capítulo e versículo do Evangelho de Lucas. E não importa a quantidade de desilusão posterior com o comportamento de confessos cristãos, ou com a comercialização progressiva que em 1965 já havia partido o coração de Charlie Brown, nada disso roubou do milagre central do cristianismo o seu poder de me comover de um modo como nenhuma outra história verdadeiramente grande é capaz".

A resposta à pergunta de Charlie Brown está no vídeo. E eu fico com a pureza da resposta das crianças:



A tradução está em Lucas 2:8-14:
Havia pastores que estavam nos campos próximos e durante a noite tomavam conta dos seus rebanhos.
E aconteceu que um anjo do Senhor apareceu-lhes e a glória do Senhor resplandeceu ao redor deles; e ficaram aterrorizados.
Mas o anjo lhes disse: "Não tenham medo. Estou lhes trazendo boas novas de grande alegria, que são para todo o povo:
Hoje, na cidade de Davi, lhes nasceu o Salvador que é Cristo, o Senhor.
Isto lhes servirá de sinal: encontrarão o bebê envolto em panos e deitado numa manjedoura".
De repente, uma grande multidão do exército celestial apareceu com o anjo, louvando a Deus e dizendo: "Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens". 

Um feliz você nesse Natal!

Matéria completa no Washington Post

19 dezembro, 2011

quando a esmola da Globo é demais, o crente desconfia


A música gospel se tornou a espinha dorsal de uma indústria cujos altos cifrões de vendagem e baixos números de pirataria chamaram a atenção da indústria musical secular. 

O potencial consumidor do mercado musical evangélico chamou a atenção da Rede Globo, a partir do seu braço musical, a Som Livre. O resultado foi a produção e exibição do Festival Promessas, que contou com os nomes mais conhecidos do gospel nacional.

Então, as desavenças históricas entre a Globo e os evangélicos (leia-se “entre Globo e Edir Macedo”, leia-se, Globo e Record) são coisa do passado? Não se engane. Nessa diplomacia religiosa há muito de disputa comercial. As TVs vivem de audiência e nada mais natural que a Globo veja os evangélicos não como um campo missionário, mas como seara pronta para a ceifa de lucros e dividendos.

E o que faz o cristão quando se vê como um componente do jogo de mercado? Dá as costas e vai procurar sua turma? Dá uma lição nas víboras capitalistas e vai vender geleia Real de porta em porta? Aproveita a chance de apresentar sua mensagem na maior rede de TV do país?

Mas, qual a mensagem apresentada pelo gospel na Globo? Pergunto isso porque, apesar de Ana Paula Valadão recitar João 3:16, falar da cruz e cantar do Apocalipse como algo a não temer, o que se assistiu antes em boa parte do programa foram alguns cantores falando “derrama, derrama”, “tira o pé do chão, igreja!”, “declare para o Brasil inteiro ouvir”, “levante as mãos que o helicóptero está filmando”.

Para a Globo é bom: o povo adora, ela explora e ainda tira aquela pecha de “emissora do capeta” que algumas igrejas lhe davam. Para o gospel é bom: o cantor vende e ora, o fiel compra e chora; mas nunca é demais lembrar que há vozes honestas e corações sinceros.

E para o evangelho? Há o cristão que vê a mão bem visível do mercado do entretenimento tomando para si a música destinada ao louvor e adoração a Deus. Talvez porque, quando a esmola da Globo é demais, o crente desconfia. E há o cristão que acredita que o evangelho está abrindo portas para chegar ao conhecimento de muito mais gente.

Mas, qual evangelho? O do pula-pula e do oba-oba ou o do chamado à reflexão? O do evangelho de mercado ou o do evangelho apesar do mercado? O do culto à canção ou o do culto com pregação? O do sucesso ou o do serviço? São duas faces da mesma moeda, ou do mesmo evangelho?

A Globo quer audiência e uma fatia do lucrativo mercado musical evangélico. Ponto. Então, caro cantor gospel, vá lá, cante e dê sua mensagem. Só não dá pra dizer, caro cantor, que agora o Brasil é de Jesus, porque não é bem assim que as coisas acontecem.

"Gospel" quer dizer também "evangelho". Os mais empolgados cantaram uma importante vitória desse "gospel" evangelizador. Gospel afirmou-se também como sinônimo de uma produção musical industrial em série. Como embalagem, os mais cautelosos desconfiam que Globo e gospel tem tudo a ver; enquanto mensagem, eles creem que Globo e evangelho não tem nada a ver.

Enfim, a suma de tudo o que ouviste pela voz do gospel na Globo é esta: quem é evangélico e gosta do estilo, assistiu e se emocionou; quem não é evangélico, deve ter mudado de canal; e quem é evangélico e não gosta do estilo, ficou constrangido. Mas, gostando ou não do estilo, deixemos o povo cantar. “Se for de Deus, prosperará; se não for de Deus, ...”

*****
Estão dizendo que o idealizador do programa foi o pastor Silas Malafaia, que teria “profetizado” que um dia estaria falando na TV Globo. Essa informação levou  o pastor Vicente Sabbatino a declarar: “O profeta de nossa geração disse que um dia estaríamos na Globo. O Festival Promessas é apenas o primeiro ato de uma sinfonia de vitória”. Cada geração tem o profeta que merece? Bem, parece que alguns estão bem seguros de que só Jeová é Deus e Malafaia é seu profeta. 

14 dezembro, 2011

eu odeio música clássica

"Eu odeio música clássica: não a coisa, mas o nome. Há pelo menos um século, a música tem sido escrava de um culto elitista medíocre que tenta fabricar autoestima agarrando-se a fórmulas vazias de superioridade intelectual. Pensem nos outros nomes que lhe dão: música "erudita", música "séria", "grande" música, "boa" música. 

"Os compositores foram traídos por uma gente bem-intencionada que acredita que a música deveria ser comercializada como um bem de luxo, que substitui um produto popular inferior. Esses guardiões dizem: "A música que você adora é lixo. Em vez disso, ouça nossa grande música erudita". Mas a música é um meio pessoal demais para sustentar uma hierarquia absoluta de valores.

"Ao ouvir a palavra "clássica", muita gente só pensa em "morta". A música é descrita em termos de sua distância do presente, sua diferença da massa".

Esse foi um resumo canhestro das primeiras duas páginas do ótimo "Escuta Só: do clássico ao pop", livro de Alex Ross (Cia. das Letras). Concordo com ele sem tirar nem por.  

E eu também odeio a música clássica quando alguém me diz que:

1) A música de Mozart me deixa mais inteligente [curioso que não fez do próprio Mozart alguém sensato! Fora que o genial Mozart estava mais para um roqueiro irreverente ou um sambista boêmio].

2) A música clássica faz bem para a saúde [ah, claro, Beethoven virou mingau de aveia. No máximo, a música de Haydn é boa para a digestão. Aliás, uma enorme parte de sua obra era composta para ser tocada após as refeições do príncipe Ezterhàza que o sustentava financeiramente]

3) A música clássica eleva a alma [só que tem música que eleva a alma, mas torra a paciência. Tem gente que diz adorar música clássica, mas em casa só aguenta ouvir cinco minutos de cada sinfonia].

4) A música clássica ilumina o espírito [deve iluminar só o espírito, porque o corpo apaga devido ao ataque de bocejos generalizado. Pior só o ataque de tosse que acomete a plateia entre um movimento e outro de uma peça]

5) A música clássica é dos homens de bem [que o digam dois ilustres amantes da música erudita, Hitler e Stalin]

Para mim, a música de Chopin, Bach, Shostakovich, Beethoven e cia. está bem viva e não tem nada a ver com esse museu [ou cemitério] que criaram para ela. Amo a música clássica, mas não espalho por aí que ela é a única música que merece a posteridade. Muitas vezes ela é vista como a panaceia da educação musical, como a redentora do gosto cultural. Só que acabam fazendo dela uma ditadura tão agressora quanto a tirania absolutista do hit parade popular.

08 dezembro, 2011

perdoa-me por não consumir


Logo após a II Guerra Mundial, o mundo estava falido, faminto e sem crédito. Mesmo o vigoroso parque industrial dos Estados Unidos via seu futuro ameaçado. Quem compraria os produtos fabricados pelos EUA? E onde os milhares de soldados que voltavam pra casa iriam trabalhar?

A solução veio de Victor Lebow, um consultor norte-americano especializado em varejo. A saída era a aceleração do ciclo de produção e consumo: “Nossa economia enormemente produtiva requer que façamos do consumo o nosso modo de vida, que convertamos a compra e o uso de mercadorias em rituais, que busquemos a nossa satisfação espiritual ou do nosso ego no consumo. Nós precisamos de coisas consumidas, destruídas, gastas, substituídas e descartadas numa taxa continuamente crescente” (Carta Capital, ed. 675).

E assim se fez. Houve tardes e manhãs e substituiu-se a “economia de abastecimento” pela “economia de consumo”. E o parque industrial “curtiu” muito tudo isso.

A média de durabilidade de 99% dos produtos comercializados nos EUA é de seis meses. Antigamente, as pessoas compravam bens duradouros. Hoje, precisamos retornar constantemente às lojas. Não para reclamar de defeitos do produto, mas para adquirir o mesmo produto agora com outra cor, outro tamanho, outro acessório. O tempo de fossilização de um telemóvel (o celular) ou de um automóvel se conta em lapse-time, o lapso de tempo das imagens aceleradas.

A esse processo de rápido envelhecimento dos produtos chamamos de obsolescência planejada. Parece teoria da conspiração, mas na verdade, foi uma solução bem prática para o mercado. A questão não era mais só abastecer/vender para pessoas que não tinham determinado produto. O negócio do século XX foi vender o mesmo produto várias vezes para as mesmas pessoas.

Nossa economia está organizada para vender produtos para a porcentagem da humanidade que é capaz de comprar. Claro que sempre vai ter gente que faz como fazem os países falidos do Euro: tomam empréstimos para pagar dívidas. Ou seja, são cidadãos e governos que vivem de acordo com suas posses, ainda que tenham que se endividar para fazê-lo!

O círculo produção-consumo viciou a população: o povo para de comprar, o setor industrial para de produzir, o governo diz “sim” ao lobby dos eletrodomésticos e das montadoras e lá vem de novo a gritaria dos comerciais de carro, fogão e TV. Quer pagar quanto?

Mas eu já tenho! Mas o seu não faz isso, nem isso, nem é assim! Mas eu não posso! Mas nós parcelamos em suaves prestações! E aí, mesmo sabendo que “suaves prestações” são duas palavras tão inconciliáveis quanto “puxe/empurre”, você leva o produto.

Já nos deram espelhos e vimos um mundo doente. Agora, nos dão cartões de plástico. E isso divide a doença em 24 vezes.

Mas se eu paro de ir às compras, a loja despede funcionários, e é mais gente que não irá mais ao shopping, e então as indústrias pedem um corte de juros ao governo, que corta os juros, o que me levará ao shopping, o que aumenta minha dívida no cartão, o que me fará parar de ir às compras, fará a loja demitir...

Parece até que a culpa pela falência mundial do capitalismo é minha. Endividado, vou lá quitar a honra do planeta. Digo ao atendente: “Perdoa-me por não consumir”. E pago. O gerente olha o débito quitado e me diz “Perdoadas estão tuas dívidas”. E saio. Uma voz difícil de atender me diz “Vai e não consumas mais”. E volto pra casa contrariado, mas aliviado. 

05 dezembro, 2011

a ética de Sócrates e o calcanhar de Aquiles


Sócrates, o filósofo grego, morreu envenenado por uma bebida feita de cicuta. Sócrates, o genial jogador, faleceu envenenado pela bebida alcoólica. Nessa óbvia e trágica conexão greco-tupiniquim, o nosso Sócrates, rei do calcanhar no futebol, tinha também seu calcanhar de Aquiles. Como ele mesmo viria a admitir nos últimos meses, ele abusou do álcool e seu corpo começou a cobrar essa dívida que, em geral, se paga com a vida.

É claro que nenhuma cervejaria convidou Sócrates para protagonizar seus comerciais. Até porque em propaganda de bebida alcoólica só tem povo sarado e “guerreiro”. E Sócrates não era um guerreiro de futilidades: assim como lutou pela participação dos jogadores nas decisões importantes do clube (criou a chamada Democracia Corintiana), ele lutou também pela participação popular no processo democrático brasileiro. As Diretas Já não vieram a tempo, em 1985, mas foi só uma questão de tempo.

Assim como Antonio Carlos Brasileiro Jobim, Sócrates também tinha o Brasileiro no nome. Os dois tinham uma profunda ligação com o Brasil, com a arte musical brasileira, com o futebol-arte brasileiro. As melodias simples e assobiáveis de Tom camuflavam a invenção genial. O simples toque de calcanhar de Sócrates era um desafio à lógica. As invenções mais geniais são as mais óbvias.

Jogador de poucos e essenciais toques na bola, Sócrates fez da simplicidade a sua marca. Não era um malabarista. Às vezes parecia até desengonçado, talvez porque fosse difícil para um homem de 1,90 m equilibrar-se em pés tamanho 37.

Mas resolvia as dificuldades em campo com uma tranquilidade desconcertante. Mesmo seu célebre toque de calcanhar não era um enfeite; era refinado e prático, utilizado para desmontar a razão pura dos zagueiros. Por isso, os adversários não lhe roubavam a bola facilmente. Achavam que Sócrates iria recuar ou perder a bola, quando na verdade o Magrão estava preparando com uma falsa lentidão seu bote final.

Antes de tomar o cálice de cicuta e morrer, Sócrates, o filósofo grego, disse ao amigo Críton: “Devemos um galo a Asclépio; não te esqueças de pagar essa dívida”. A ética do filósofo não morria com ele. 

Após a conquista do bicampeonato paulista em 1983, um repórter perguntou a Sócrates Brasileiro qual o jogador determinante para aquele triunfo. Sócrates disse que foi o artilheiro Casagrande, o incansável Biro-Biro, o organizador Zenon? Nenhum deles. Sócrates cravou: “Foi Émerson Leão. Sem ele, acho que não chegaríamos ao título”. Só que o goleiro Leão era o maior opositor de Sócrates na Democracia Corintiana. A voz honesta e a ética de Sócrates, o Brasileiro, eram ainda maiores que seu extraordinário futebol. Valeu, Doutor!

30 novembro, 2011

e se Toy Story acontesse num escritório?

Vi no Almir de Freitas. Tom Jenkins emprestou imagens do Google Street View, casou com animação stop-motion e fez essa pequena joia:




22 novembro, 2011

por favor, não atirem no pianista


Dia do músico. Podia até ser feriado santo dado o caráter de santo remédio atribuído à música. 

O pianista geralmente é visto como um agraciado, um privilegiado que lê hieróglifos e fala pelos dedos. Ou como um chato que martela o piano e o ouvido alheio, que é obrigado ao exercício de escalas musicais enquanto os outros são obrigados ao exercício da tolerância. Aos 13 anos, eu mesmo torturava as ajudantes domésticas tascando-lhes na escuta as escalas de Hanon às duas da tarde. Quando o almoço não tinha sobremesa, aí o castigo infligido era meia hora do terrível "Microkosmos" do Bartók.

À noite, após o jantar e a sagrada reunião familiar, meu pai me pedia: "Filhão, toque aquela música". Era a deixa para eu dedilhar o Pour Elise de Beethoven. Quando recebíamos visitas ilustres, pelo menos ilustres para os meus pais, eu ouvia o indefectível pedido: "Toque aquela música!". 

Mas um dia minha ridícula rebeldia pré-adolescente viria à tona. Visitantes na sala, satisfeitos, inclusive com sobremesa, agora era a hora do Beethoven Apaixonado começar a tocar.

Mas que nada. Saí, exibido, dedilhando outra música, acho que era alguma intitulada Gallop du Diable. A música exigia muita técnica, velocidade e força, ou seja, eu parecia um mozartinho embevecido. Após o finale, olhei pra trás esperando aplausos mas só ouvi alguns muxoxos tipo "bom, hein?", "ah, legal". Aí meu pai não resiste e sussurra:"Não, filhão! Toque aquela!". Ok, ao vencedor, Pour Elise. Agora com palmas e mais palmas.

Um músico de personalidade intrigante está no filme O Pianista (2002), de Roman Polanski. O pianista Szpilmann, interpretado por Adrian Brody, é o retrato de um homem que só ressalta sua humanidade através da sua arte, da sua música.

Szpilmann teme a guerra, é um filho teu que foge à luta. Ele é um artista que não entende porque os homens preferem atirar uns nos outros em vez de fruir um pouco de Chopin em paz. Chopin, o polonês delicado e irascível, mais amigo das artes que dos homens, cuja música é ponto central de um filme que parece falar de guerra e intolerância, quando na verdade fala de atitudes humanas diante da tragédia. 

Comova-me ou devoro-te! A cena do pianista judeu-polonês, famélico, em farrapos, recebendo a Esfinge em forma de oficial nazista em meio a ruínas é significativa. O alemão acabou de tocar o Beethoven da Sonata ao Luar e, ao descobrir a triste figura de Szpilmann, exige dele: se você é mesmo pianista, toque! O fugitivo poderia tocar a Apassionata ou até mesmo, de forma colaboracionista, tocar um arranjo para piano do 2º movimento do Quarteto op. 76, de Haydn, também conhecido como o hino nacional alemão.

Porém, Szpilman, que nunca foi nem delacionista nem revolucionário, que só quis agradar a arte, que mal amava a própria vida, a ponto de insistir em tocar piano enquanto o restaurante em que trabalha é bombardeado; esse mesmo Szpilmann dedilha o piano calorosamente, como se nunca tivesse passado pelas privações que vivia (ou exatamente porque passava por privações), e toca a Balada n. 1 em Sol menor, de Chopin, claro. 

Nos recitais de alunos de piano, costumava-se brincar dizendo "Não atirem no pianista. Ele está fazendo o melhor que pode". O recital de Szpilmann só tem um espectador, que vai julgar se sua performance merece a vida ou a morte. Ele se salvará se for um bom pianista? Ele não viverá por ser um fugitivo do horror, mas por ser um sobrevivente da música? Os dois homens parecem unidos pela música. Então, o que a arte uniu, que não separe a guerra do homem.

O ser humano belicoso se repete nas guerras e não aprende com a arte. Mas, por cima das atrocidades das guerras atuais, está a música de Chopin. Um Prelúdio em meio aos escombros do Iraque, por favor!


17 novembro, 2011

vida de ateu é uma dureza. ou não?

A colunista da revista Época Eliane Brum publicou uma história em que uma ateia entra no táxi de um evangélico. O leitor percebe que a passageira é muito bem-informada, em contraste com o taxista que é devidamente um "ignorante fundamentalista". Enquanto a passageira reflete sobre o caráter mercantil do neopentecostalismo, algo que é bastante estudado nos círculos acadêmicos, e com o que muito protestante concorda, o taxista apresenta uma fala bem simplória.

Não se trata de uma história surreal. Mesmo os chavões proselitistas do taxista são costumeiramente ouvidos por aí. Os diálogos poderiam acontecer numa rua perto de você. Mas nesse texto, vejo que Eliane Brum dá a entender que ser ateu num Brasil evangélico é uma dureza.

Ser ateu no Brasil é mesmo difícil? Só se para o ateu é difícil conviver com pessoas com visões de mundo diferentes. Talvez seja mais difícil para um cristão moderado conviver com este Brasil de um evangelicalismo cada vez mais estridente. Mas ser um ateu é praticamente uma moleza. É o que diz Gravataí Merengue. Para ele, a história de Eliane Brum é de um queixume que representa um ateísmo que não saiu da adolescência. E olha que o Gravataí Merengue também é ateu.

Nessa toada de mal-explicar Deus numa corrida de táxi, aproveito também para sugerir alguns enredos para histórias ateias edificantes que denunciam a selvageria da militância religiosa e o cambalacho evangélico. Por exemplo, Richard Dawkins entra num ônibus lotado com um grupo de crentes cantando "1, 2, 3, Jesus é nosso rei". Ou: o ateísta Christopher Hitchens está num navio naufragando e disputa o único colete salva-vidas que resta com Edir Macedo.

Acho que o texto de Eliane Brum já deve ter recebido comentários nada cristãos de confessos evangélicos. Mas experimente a jornalista descrever a nada mole vida de um jornalista tucano inteligente num país de taxistas petistas e verá o que é bom pra fundamentalismo.  

Então, que tal uma história em que uma jornalista cristã muito bem-informada entra no táxi de um ateu de argumentos simplistas? O jornalista Michelson Borges se deu ao trabalho e contou uma história assim. Pode não ser fácil encontrar uma cristã com domínio de tantas referências apologéticas e científicas, mas para mim a história ilustra bem duas coisas: a falácia das oposições simplistas do tipo ateu esclarecido vs. crente ignorante que vigora na grande mídia; como os cristãos precisam estar sempre bem preparados para dar o testemunho de sua fé, se assim lhe pedirem.

Leia as histórias, confira os argumentos e chegue às suas conclusões:
A dura vida dos ateus no Brasil evangélico, de Eliane Brum
A vida fácil dos ateus,  por Gravataí Merengue
A dura vida de uma cristã "fundamentalista", por Michelson Borges

11 novembro, 2011

UFC: Ultraje Feroz do Corpo


Dois homens em uma arena chutam cabeças e esmurram fígados, e isso rende o delírio da galera. Um quer a deformação do corpo do outro, e isso rende fama e fortuna. UFC (Ultimate Fighting Championship) quer dizer mesmo é Ultraje Feroz do Corpo. Mas para que ninguém fique a pensar na degradação física e espiritual do momento, é preciso fazer dessa rinha de galos um espetáculo televisivo.

A TV Globo, que se recusava a cobrir as lutas do MMA (as artes marciais mistas), gasta sua semana esportiva explicando que agora, com novas regras, as lutas são “um pouco menos violentas do que o vale-tudo”, como disse o apresentador Luís Ernesto Lacombe. A sinceridade foi logo corrigida na fala seguinte: “Mas é bem bacana”.

É bem bacana, então, ver a brutalidade elevada à categoria de esporte “civilizado”. É bem bacana, então, assistir a violência de socos, pontapés e sufocamentos. É bacana ver o público se extasiar quando um homem é espancado no chão (mas agora o juiz intervém mais rápido. Antes que um assassine o outro ao vivo e em HD, né?).

(A Globo escalou Galvão Bueno para narrar o combate. Quem assistir, ouvirá um "É teeeeee...trico?!". Os fãs do UFC não queriam o Galvão de locutor das lutas. Mas o que eles queriam? Galvão de calção e Anderson Silva na narração?)

As lutas de vale-tudo eram só um pouco piores do que as do UFC. Só paravam quando um dos lutadores estava desfigurado. No UFC, ao que parece, há que se ter não só a destreza e o domínio de artes marciais conjugadas, mas também estratégia e inteligência para vencer o combate.

No entanto, assim como a filosofia espiritual que cerca a tradição das artes marciais orientais foi banida dos filmes de “kung-fu”, nas lutas do MMA também não restou um traço da espiritualidade de antigos guerreiros. Sobram apenas chutes no rosto e cheiro de sangue.

Homero descreveu assim o feroz e mítico combate entre Epêo e Euríalo: “Rangem as mandíbulas ao receberem os golpes [...] e o divino Epêo, lançando-se sobre o adversário, aplica-lhe tão tremendo golpe, que Euríalo cai inerme, vomitando negros coágulos de sangue”. Os nomes gregos saíram, mas os apelidos conservam o apelo mitológico: Minotauro, Cigano, Spider, The Beast. Mas outros chamam a fúria pelo nome: Demolition Man e African Assassin, que dispensam traduções.   

O UFC está de acordo com as regras de entretenimento de uma civilização doente. É a nossa civilização que produz filmes que consagram a velocidade e a ferocidade, filmes feitos com muita adrenalina e pouco neurônio, filmes que glorificam machões que falam uma piadinha após decepar outros machões.

Espetáculo da meia-noite, o Ultraje Feroz do Corpo aplaca nossa primitiva sede de sangue por alguns minutos. Depois, cada um faz suas orações e vai dormir. 

04 novembro, 2011

da imperfeição da música moderna

"Muitas composições modernas são muito bonitas e chamativas no papel, mas pobres cantores! Colocam alterações onde querem, [...] Os atuais compositores só nos trazem mais confusão e grandes imperfeições, não de pouca importância, em vez de enriquecer, aumentar e enobrecer a música com recursos variados como fizeram tantos outros, querem transformar a música de modo que o belo não se distinguirá do bárbaro".

Quem disse isso foi o italiano Giovanni Artusi, compositor e pesquisador musical. Você concorda com ele, certo? Você está pensando na decadência da música brasileira, no declínio da música sacra, em como as pessoas hoje estão colocando o feio no lugar do belo, etc? 

O detalhe é que Giovanni Maria Artusi viveu de 1540 a 1613. Ele se envolveu numa discussão quando seu professor Zarlino, defensor do estilo tradicional, foi criticado por Vicenzo Galilei, teórico musical e pai de Galileu. 

Artusi criticou as inovações do compositor Claudio Monteverdi, considerado há bastante tempo uma figura central na história da música. Monteverdi respondeu publicando um livro de madrigais em 1605 em que dizia haver duas práticas musicais: a prima pratica, a prática antiga de usar a polifonia e entretecer vozes utilizando o processo do contraponto, o que dava independência a cada voz; e a seconda pratica, a prática moderna de músicas acompanhadas por instrumento que também dava maior importância ao soprano. 

Artusi foi mais um a tentar deter a marcha do desenvolvimento da música. Ele chamava de bárbaro (no velho sentido de "mal-feito") o que muitos ouvidos da época já chamavam de belo. Não estou dizendo que a forma de fazer música do passado  é ruim e tudo o que é novo é bom pela própria natureza. O quero dizer é que quando o apego à tradição é exagerado, vira reacionarismo cego. 

Nota: Artusi, que nem pode se defender dos web-escribas, é o homem da figura acima.
O título desta postagem é uma referência ao título de um antigo livro retratado na figura mais acima ("Delle imperfezioni della moderna musica"). 

31 outubro, 2011

a música mais relaxante do mundo

Ela desacelera sua respiração e reduz sua atividade cerebral. Esse é o efeito da música Weightless (tradução: sem peso), da banda inglesa Marconi Union, já considerada a "música mais relaxante do mundo". A trilha de oito minutos seria tão eficaz em induzir ao sono que os motoristas são advertidos a não ouvi-la enquanto dirigem.

Segundo o jornal Daily Mail, a banda buscou a orientação de terapeutas do som (os musicoterapeutas) para saber quais harmonias, ritmos e linhas de baixo seriam as mais eficientes. "O efeito nos ouvintes é uma desaceleração do ritmo cardíaco, redução da pressão sanguínea e diminuição dos níveis de cortisol (o hormônio do stress).

A música do Marconi Union incorpora elementos de eletrônica, ambient, jazz e dub (informações que constam no vídeo no YouTube).

Agora, relaxe. Se puder.




Cientistas fizeram testes com 40 mulheres e disseram que esta música é mais eficiente para relaxar do que Enya ou Mozart. Outro estudo, encomendado pela Radox Spa, afirma que essa música é mais relaxante do que uma massagem ou uma caminhada. 

No teste, as mulheres, conectadas a sensores, tinham que montar um quebra-cabeça em determinado tempo a fim de ser verificado o nível de stress. A música Weightless teria reduzido em 65% a taxa de ansiedade (Nota na pauta: atenção! Essa música não vai funcionar quando você, marido, deixa a toalha molhada em cima da cama. Ou esqueceu de estender a roupa num dia de sol. Oh wait... já volto!).

Lyz Cooper, fundadora da British Academy of Sound Therapy, diz que a música Weightless apresenta muitos princípios musicais que possibilitam o efeito relaxante. Seu ritmo começa com 60 beats (batidas) por minuto e gradualmente passa para 50 beats por minuto. Isso leva o batimento cardíaco a se ajustar ao andamento. O que também leva a uma queda na pressão sanguínea. 

A música não tem repetição melódica, o que, segundo Lyz Cooper, ajuda o cérebro a "desligar-se" de tentar prever o percurso da melodia. Ela também diz que os efeitos sonoros induziriam a um estado semelhante ao transe. 

Nota na Pauta: há uma boa distância entre a sugestão de um estado de transe e a predisposição pessoal de ser, ou deixar-se ser, induzido ao transe. Não subestime o poder da música, mas também não atribua à música um poder intrínseco que, na verdade, depende mais de hábitos culturais do que de elementos especificamente musicais.

A matéria do Daily Mail fez um Top Ten das músicas mais relaxantes:
1 - Weightless - Marconi Union
2 - Electra - Airstream
3 - Mellomaniac - DJ Shah
4 - Watermark - Enya (pra variar)
5 - Strawberry Swing - Coldplay (eles vão gostar de saber que são inofensivos?)
6 - Please Don't Go - Barcelona
7 - Pure Shores - All Saints
8 - Someone Like You - Adele (o que está na moda também relaxa)
9 - Canzonetta Sull'aria - Mozart (o menino Amadeus serve para tudo, não?)
10 - We Can Fly - Cafe del Mar

Aqui, a matéria completa (em inglês).

26 outubro, 2011

o falso profeta e o sangue negro

Uma paulada no falso profeta que se mete em negociatas e outra no negociante que prediz falsamente que a riqueza do petróleo será de todos. Isto é Sangue Negro, a história de um homem movendo montanhas pra encontrar petróleo e de um religioso atrás de almas e dólares.

O império do automóvel, do petróleo e dos computadores foi construído por empreendedores que, sem eira nem beira, e por seus próprios méritos espalharam a riqueza mundo afora. Eles seriam os self-made-men, um mito do capitalismo norte-americano. O mito está menos na impressionante persistência do empreendedorismo e mais na distribuição da riqueza. As megaempresas foram erguidas à custa de muita exploração de mão-de-obra, de chantagens, subornos e acordos espúrios entre governos e indústrias. Um enriquece muito, alguns enriquecem bastante e muitos não enriquecem nada.

Como eu disse, trata-se de um mito, mas não tem nada de conto de fadas. Muito sangue correu. Aliás, o título original do filme Sangue Negro é There Will Be Blood (“Haverá sangue”, em bom português, “vai ter sangue”).

O grande embate na história se dá entre o caçador de petróleo Daniel Plainview e um caçador de almas, o pastor Eli Sunday.
Daniel Plainview, visionário e perfeccionista como todo mítico empreendedor, compra a baixo custo a terra (onde há petróleo não explorado) de pequenos proprietários com falsas promessas de prosperidade. Eli Sunday, manipulador como todo falso profeta, mantém sua congregação à base de encenações de milagres e exorcismos.

Plainview precisa da confiança da congregação do pastor; o pastor negocia porcentagens e comissões em troca do batismo do empreendedor. O perfurador Plainview tem na indústria a sua religião, sua transcendência perdida. O pregador Eli Sunday  faz da religião a sua indústria. O capitalismo “social” passa longe da visão de Plainview. O cristianismo “puro e simples” não faz parte do trabalho de Sunday.

O pacto simbólico entre capital e religião tem como consequência o derramamento de sangue. Mas nesse caso, o sangue não serve como remissão de crimes e pecados. De fato, o sangue é negro como o petróleo cobiçado. Por causa de falsos profetas, mais interessados em comissões do que em conversões, a religião é a maior perdedora.

19 outubro, 2011

o guia musical do louvor errado




As músicas desse vídeo, produzido por músicos da Primeira Igreja Batista de Orlando/EUA, são conhecidas melodias. Essas versões vão no nervo do problema. Pior que uma música esteticamente inadequada é um adorador espiritualmente hipócrita.

10 outubro, 2011

música sacra, controle religioso e fetiche musical


Nos debates sobre música cristã, são convocados argumentos bíblicos, históricos, culturais, evangelísticos, comportamentais e até argumentos biológicos, psicofísicos e acústicos. Sem contar as lendas evangélicas urbanas como mensagens subliminares, vegetais que só gostam de Mozart etc.

Eu gostaria de entrar no debate com dois argumentos: o da estabilidade sociorreligiosa e o da fetichização musical.

O argumento da estabilidade: em uma prática musical comunitária, costuma-se observar, de um lado, uma comunidade que exerce um poder de controle sobre sua música considerada sagrada. Qualquer inovação musical é vista, a princípio, como um fator desestabilizador ou desviante da sacralidade de sua música. O controle é necessário para manter a estabilidade do sagrado atribuído a um dado repertório musical. Sem essa estabilidade sociorreligiosa, a comunidade pode entrar em conflito religioso e cultural. 

De outro lado, observa-se o poder dessa música sagrada sobre a comunidade que a preserva. Devido aos supostos efeitos de tal música ou prática musical, procura-se manter o grandioso repertório musical dos ancestrais fundadores como um legado. Como diz o etnomusicólogo José Jorge de Carvalho (UNB), “ali se manifesta o poder da própria música sobre a comunidade em que é praticada”.

O argumento do fetiche musical: há alguns anos, o cantor Paul Simon veio ao Brasil gravar uma canção com os músicos do Olodum. Michael Jackson também veio gravar com músicos brasileiros numa favela.  Mas qual o interesse dos dois popstars na música afro-brasileira, já que os tambores e os ritmos do Olodum aparecem no clipe, mas quase sumiram na mixagem da canção? Os artistas e produtores estrangeiros costumam enxergar a música afro não em sua totalidade de função e contexto, mas somente como um símbolo de sensualidade e corporalidade, como um fetiche cultural. 

O que esse argumento tem a ver com o atual estágio da música cristã no Brasil? Explico. As igrejas do evangelicalismo contemporâneo adotaram a integralidade dos estilos musicais veiculados nas rádios e TVs. Rock e pagode, funk e sertanejo, reggae e forró, estilos internacionais e nacionais foram apropriados pelos métodos de evangelismo e pelas propostas litúrgicas mais recentes. 

A música de “raiz” brasileira (como o baião e o samba) ainda é vista como um símbolo de afirmação de identidade nacional e, por isso, deveria ser incluída como base musical do repertório cristão. Assim, a música popular nacional é enxergada como representação de brasilidade e autenticidade cultural. A música pop internacional é tida como o idioma da juventude urbana e, sendo assim, é apropriada como um emblema de contemporaneidade, de atração jovem. De um lado, resiste um ufanismo nacional-religioso que justifica o “abrasileiramento” da música cristã, e de outro, vigora um padrão de evangelismo jovem que justifica a “modernização” da música cristã.  

Enquanto isso, as igrejas católicas e protestantes buscam no repertório neopentecostal um modelo para estimular a intensidade da adoração coletiva. Muitos líderes de louvor enxergam na música dos ministérios de louvor um componente de comunhão e intimidade relacional com Deus que eles já não encontram na tradição musical de suas próprias igrejas. Desse modo, a intensidade da adoração é creditada à força dessa música. 

A discussão sobre música cristã passa pela adequação litúrgica dos estilos e pelo pragmatismo de mercado, mas também é preciso verificar se uma determinada comunidade religiosa com diferentes grupos etários e culturais reunida num templo se sente à vontade com mudanças litúrgicas mais radicais e “emergentes”. Se o debate não cessa, que ao menos fique livre de tradicionalismos obscurantistas e inovações irrefletidas.

06 outubro, 2011

a volta ao mundo em três gritos

Nos Estados Unidos, estão gritando por emprego e reforma do sistema financeiro...


No Chile, estão gritando por melhorias no sistema universitário...



No Brasil, gritos mesmo só de fãs histéricas.


03 outubro, 2011

inventores, mestres, diluidores


O escritor Ezra Pound, em ABC da Literatura (Ed. Cultrix), propôs a existência de três classes de criadores:
1. Inventores: os que descobrem um novo processo ou cuja obra nos dá o primeiro exemplo conhecido de um processo;
2. Mestres: os que fazem várias combinações do processo inicial e se saem tão bem ou melhor do que os inventores;
3. Diluidores: aqueles que vieram depois e não foram capazes de realizar tão bem o trabalho.

Ezra Pound falava de literatura. Mas a gente pode usar seus argumentos pra falar de música. Tomando como exemplo o baião nordestino, nos anos 1940 Luiz Gonzaga desenvolveu uma maneira particular de tocar o baião. Ele não era bem um compositor ou um letrista (poesia mesmo quem fazia eram os seus parceiros Humberto Teixeira e Zé Dantas), mas Gonzagão acabou sendo respeitado como um autêntico inventor.

Um estilo musical nem sempre nasce pelas mãos de um homem só. Uma pessoa pode criar um modo diferente de tocar um ritmo (como João Gilberto e seu violão "bossa nova"), mas quase sempre há um conjunto de outras pessoas (arranjador, letrista, intérprete) que contribuem para que a “invenção” tome sua forma final.

Mozart foi um mestre que não inventou a ópera, mas suas óperas são de uma excelência que seus predecessores não tinham alcançado. Assim, a fronteira entre inventor e mestre me parece pequena, pois na medida em que um músico usa um estilo pré-existente e insere nele novas combinações harmônicas, rítmicas e estruturais, há um componente de invenção e originalidade que não se pode subestimar.

Voltando ao baião, se Luiz Gonzaga pode ser chamado de inventor (ou pioneiro de um novo processo musical), Jackson do Pandeiro e João do Vale seriam os mestres. E quando Ezra Pound fala em diluidores, as pessoas que não foram capazes de realizar tão bem o trabalho, isso é só um eufemismo para dizer que sempre aparece alguém pra degradar um estilo.

Olha a trajetória da música sertaneja: primeiro, vieram as duplas caipiras (como Tonico e Tinoco), depois os mestres Almir Sater e Renato Teixeira, em seguida, os neocaipiras Chitãozinho e Xororó, e agora, o sertanejo “universitário” que virou epidemia nacional. Como dizem pela internet afora: nem para o sertanejo universitário se formar logo e ir embora fazer pós-graduação no exterior!

No dicionário, “diluir” é misturar uma substância com algum líquido, desfazer. Diluir um estilo musical no Brasil é o ato de misturar qualquer gênero ou ritmo em água de pagode. Exclusivamente de pagode mauricinho dos anos 90, com todas aquelas bandas com um marmanjo de gola da camisa por cima da gola  do blazer cantando na frente com oito marmanjos vestidos iguaizinhos saracoteando atrás. A diferença é que agora são dois marmanjos de calça apertada. O sertanejo é a última vítima da pagodização da música brasileira.

27 setembro, 2011

to buy or not to buy: eis a questão da ExpoCristã


Todo ano surge o mesmo conflito sobre a ExpoCristã. É mercantilização dos bens religiosos simbólicos? Ou é simples comercialização de bens religiosos de consumo? Entre Deus e o mercado, entre a cruz e o chaveirinho evangélico, entre a Bíblia e a capa zebra-style de Bíblia, os evangélicos se perguntam: to buy or not to buy? (comprar ou não comprar, Hamlet perguntaria se, em vez de dinamarquês e com um crânio na mão, fosse um crente com cartão de crédito estourado).

    1. A ExpoCristã é mercantilização da religião?
A expansão do mercado gospel é acompanhada do aumento do poder de consumo das classes populares no Brasil e, claro, pelo grande número de igrejas neopentecostais. Há uma demanda dos consumidores religiosos por produtos que não apenas tragam conforto ou conhecimento espiritual, mas também por produtos que afirmem sua identidade evangélica (camisetas, sandálias, acessórios, todos com slogans evangélicos).

O professor Leonildo Campos, em Templo, Teatro, Mercado (Editora da Universidade Metodista/SP), avalia que a ética protestante de poupança foi substituída pela ética (neo)pentecostal de consumo. Para os puritanos de 200 anos atrás, o lucro não era pecado; para o cristão de hoje, consumir também não é um anátema.

Assim, ao contrário da ética de lucro e poupança que caracterizava a vida econômica ascética dos protestantes americanos dos séculos 18 e 19, e que estaria, segundo Max Weber, ligada à consolidação do capitalismo, hoje presenciamos uma ética do consumo que caracteriza a vida do evangélico. Leonard Orr e Sandra Ray anunciavam a seu público: “Deus é grande; as compras podem ser ilimitadas”. Sai Max Weber e entra Edir Macedo.

Por esse ângulo, e respondendo a pergunta acima, sim, a ExpoCristã pode mercantilizar símbolos religiosos, confundir o necessário com o supérfluo, ceder espaço aos vendilhões do templo, estimular tendências de moda e de música com base em números de venda, enfim, pode expor o cristianismo à sociedade como se este fosse um shopping da fé.

  2. A ExpoCristã é um bom e legítimo comércio de bens religiosos?
O cristão come, se veste, lê, ouve música, passeia, compra e vende. É alguém cujo cotidiano é muito semelhante ao de qualquer brasileiro. Qual é o problema se ele prefere vestir uma roupa comprada na loja de um irmão evangélico, ou ouvir músicas que falam da mesma mensagem cristã que o conforta e o alegra, ou ver o produto do seu trabalho ser adquirido por outros cristãos? Nenhum problema.

Há importantes músicos cristãos que não vão à ExpoCristã. De fato, a ExpoCristã dá preferência a cantores do circuito gospel. Não sei se outros cantores foram convidados e preferiram não ir até lá. Penso que, se um cantor defende uma postura estética e temática em sua música e tem chance de ir à ExpoCristã, ele deveria ir e mostrar sem ar de superioridade que há outras formas de fazer música e divulgar as boas novas.

É preciso reavaliar o pensamento de que mercado é blasfêmia e de que os consumidores são "manipulados" e incapazes de fazer boas escolhas. O comportamento humano é mais complexo do que pensam certos críticos do mercado gospel. Onde estão os comentários sobre pessoas que foram até a ExpoCristã e ouviram sua música favorita, adquiriram por um preço atraente um bom produto e foram para suas casas em paz? As pessoas vivem na inescapável lógica do capital, por isso, lucram (ou têm prejuízo) e poupam e consomem naturalmente. Portanto, do ponto de vista da simples aquisição de bens religiosos de consumo, sim, a ExpoCristã é legítima e deve ter seu espaço.

O comercialismo, a ganância, a má-fé, e até o mau gosto das capas de Bíblia com estampa de zebrinha e suporte para celular, são consequências de um evangelismo industrial, que opera segundo a teologia da prosperidade (prosperidade para os líderes) e segundo a lei de oferta e procura religiosa.  

O estímulo ao consumo chega a ser tão notório que alguns têm a impressão de que a diferença entre o Rock in Rio e a ExpoCristã é que, no Rock in Rio, você paga pra entrar e reza pra sair, e na ExpoCristã, você primeiro reza pra entrar e depois paga pra sair. O evangelismo vira marketing, a congregação se torna clientela, o fiel é transformado em fã e o cristianismo vira um slogan arrogante num adesivo de carro. 

Não se pode omitir essas coisas, ainda que este aspecto consumista venha a ser o mais visado pela mídia e por vários bons autores cristãos. Mas o questionamento das atividades do mercado gospel deve vir acompanhado da observação sem preconceito do consumidor cristão, senão corre-se o risco de generalizar e simplificar o diversificado comportamento evangélico, tudo temperado pela demonização do mercado e pelo exclusivismo religioso. 

23 setembro, 2011

ministérios de música em ação

As recentes observações, e também conversas informais, sobre a música dos adventistas no Brasil, objeto de minha pesquisa na UNESP, me levam a perceber uma crescente preocupação quanto à qualidade do louvor congregacional durante os momentos litúrgicos. Como diz o música Ronnye Dias, entrevistado pela Revista Adventista (set/2011), há uma necessidade de maior qualidade na ministração do louvor nas igrejas.

Ronnye Dias tem passagem por várias instituições adventistas, e foi contratado pela sede administrativa paulistana da Igreja Adventista do Sétimo Dia (IASD), no fim do ano passado, para trabalhar no Ministério da Música da Associação e como ministro de louvor da IASD Nova Semente. Recentemente, Ronnye Dias colaborou com o projeto Vida e Louvor, dirigido aos líderes e músicos da IASD na Região Centro-Oeste. O projeto visa ajudar os responsáveis pela adoração musical nas igrejas locais. Entre os pontos estudados, os participantes aprenderam sobre liturgia, funcionamento do ministério da música, percepção musical, música instrumental, e canto congregacional. Leia a entrevista a seguir:  

Revista Adventista: No que o curso da região centro-Oeste difere do que tem sido oferecido pela igreja?
Ronnye Dias: Basicamente em dois pontos: na formação e na seleção dos candidatos. O curso de uma semana, apesar de também não formar nenhum músico, ajuda muito no amadurecimento dos conceitos e favorece a ênfase prática das aulas. Os alunos, por sua vez, são poucos, em torno de 30 e são indicados pela igreja local, que subsidia parte dos custos.

RA: Alguns dizem que a Igreja Adventista tradicionalmente valorizou sua produção musical, mas não o canto congregacional. Por quê?
RD: Nas últimas décadas, o espaço de atuação que os músicos adventistas brasileiros encontraram disponível foi mais no campo da produção. Nesse aspecto, de modo geral, alcançamos um patamar respeitável. Mas nos últimos anos, o que se tem visto é a necessidade gritante de crescimento qualitativo na composição, organização e ministração do louvor congregacional. Ouso dizer que esse é o grande desafio da música adventista para este século.

RAComo reverter esse quadro?
RD: Resgatando o princípio bíblico do louvor como importante ferramenta de invocação e adoração a Deus (Sl 22:3). O momento de louvor não pode ser tratado como formalidade ou passatempo. Isso exige oração, comprometimento, planejamento e ensaio.

RA: Quais são as ênfases do curso?
RD: Enfatizamos três pontos básicos: relacionamento com Deus, serviço e treinamento. Em primeiro lugar, a adoração a Deus se baseia na busca de intimidade com Ele e na submissão à Sua vontade (Jo 4:23). O segundo ponto é que louvor é serviço. Devemos servir a Deus colocando as necessidades da igreja acima do nosso gosto pessoal e satisfação. Por fim, é importante que os músicos façam música com qualidade (Sl 33:3; 1 Sm 16:18). A semana que passamos juntos não é suficiente para formar um músico, isso leva anos. Mas nesse período é possível vivenciar experiências que despertam o gosto pelo estudo. Esta ano, por exemplo, os participantes formaram uma orquestra.

*****
Nota na Pauta: A recente demanda por qualidade no louvor congregacional nas igrejas adventistas vem de um duplo interesse: a vontade, por parte de alguns líderes de louvor, de aumentar a intensidade emocional dos momentos de adoração coletiva; a preocupação, por parte da liderança da instituição adventista, com a origem e o tipo de manifestação religiosa que pode resultar da influência da música de louvor neopentecostal.

É visível que essa necessidade de renovar a música litúrgica vem do desejo de emular o "entusiasmo" e a "entrega" que caracterizam os momentos de adoração coletiva dos shows e cultos neopentecostais. Por certo, a observação contínua dos ministérios de louvor, estrangeiros ou nacionais, induz à percepção de que os pentecostais possuem um comportamento espontâneo na adoração e os protestantes são um grupo formal e rígido. E isso teria a ver com a música (embora se reconheça que a predisposição pessoal para determinados comportamentos e as formas de regência dessa música sejam bastante importantes para o aspecto geral).

Por isso, surgem sugestões de repertório para o canto congregacional, publicam-se livros falando de determinados passos para a adoração que seriam capazes de orientar a subida e descida dos picos emocionais da congregação. A escolha e a alternância de estilos diferentes de música durante o louvor congregacional é importante, mas até que ponto não se está jogando com as emoções das pessoas? Que músicas seriam mais adequadas, então? Aquelas do hit parade das rádios gospel? As da tradição do hinário adventista? As músicas dos ministérios de louvor de qualquer denominação evangélica? As mais antigas em conjunto com aquelas mais recentes?

São perguntas que os círculos musicais e teológicos adventistas estão tentando responder. Não sei quantos estão discutindo se essa necessidade de aperfeiçoar os momentos de louvor é uma necessidade real do adventismo histórico (com sua particularidade de interpretação bíblica e de missão) ou se é também uma necessidade motivada pela observação contínua dos padrões da adoração neopentecostal.

De toda forma, a necessidade de estudo musical e teológico é de grande valia, assim como a presença de músicos competentes e experimentados, como Ronnye Dias, no auxílio direto aos departamentos de música das associações administrativas e das igrejas locais. 
    

19 setembro, 2011

inverno da alma


Durante um ano e meio, trabalhei como arte-educador no Programa Atitude, um projeto que atuava em áreas urbanas de risco social, como o bairro Independência, em São José dos Pinhais (área metropolitana de Curitiba), local dos mais altos índices de miséria e violência.

Percorrer as vielas entre os barracos e casas degradadas, convidar as crianças para as aulas de música, convencer os adolescentes seduzidos pelo dinheiro rápido do tráfico de drogas a abraçar os projetos de ensino e emprego, visitar escolas públicas de sala em sala divulgando o programa, tudo isso foi um mergulho numa realidade tremendamente complexa.

Lembro de um adolescente que agarrou sua chance de dar aulas de violão para os colegas de sua comunidade. Ele decidiu dar a si uma nova chance e me dizia que agora queria algo melhor para sua vida. Ser íntegro quando os colegas não compartilhavam de sua integridade: uma escolha nada fácil.

O que estou escrevendo tem a ver com Inverno da Alma (2010), filme que conta a história de Ree, uma adolescente que vive em situação de muita pobreza, cuida de dois irmãos menores e de uma mãe doente, e ainda luta para encontrar o pai, um foragido da polícia provavelmente morto por gangues que moram no mesmo local que ela. Esse tipo de tragédia, contada por mães, filhos ou avós, era algo comum de se ouvir onde eu trabalhava.

A jovem Ree (uma estupenda atuação da atriz Jennifer Lawrence) é capaz de acariciar os cabelos da irmã e logo em seguida confrontar o homem que vem cobrar as dívidas do pai desaparecido. Ela vai até a casa onde mora o chefe do tráfico e não teme enfrentá-lo; ela rejeita as ofertas de entrar para o tráfico ou de escapar das dificuldades extremas por meio das drogas. Embora algumas de suas reações sejam um fruto quase natural do contexto de violência e abandono, a integridade de suas atitudes transcende qualquer fronteira.

Nobreza de alma não tem que ver com miséria ou riqueza, mas com caráter.

É o tipo de história que você não vai ver passando na Tela Quente. Aqui não tem fortões que explodem tudo furiosamente nem garotas sem-noção que tiram tudo velozmente.

Histórias como essa costumam degringolar para um vale de pieguice ou para uma escalada de violência grotesca. Mas não é o caso de Inverno da Alma, um filme que se mantém tão lúcido e íntegro em sua maneira de contar uma história emocionante quanto sua protagonista é capaz de sobreviver com dignidade.

16 setembro, 2011

pés descalços, olhos no céu


O compositor Heitor Villa-Lobos regeu um grupo de instrumentistas durante a famosa Semana de Arte Moderna, em 1922. Naqueles dias, um punhado de poetas, artistas plásticos e intelectuais se reuniu para manifestar sua desaprovação à tradição artística clássica que restringia sua liberdade de expressão. E mais ainda: demonstrar seu total repúdio a quem buscava imitar e macaquear a cultura estrangeira, em vez de deglutir antropofagicamente o estrangeiro e criar uma versão tupiniquim, com as caras do Brasil. Eles ansiavam por uma arte de características tipicamente nacionais. Tupi or not tupi?, bradava Oswald de Andrade.

Villa-Lobos se apresentou descalço durante um dos concertos. Foi o sinal para ninguém prestar atenção na obra, na regência, na música. Talvez só se falasse do maestro regendo descalço. Os tradicionais acharam um desrespeito. Os modernistas vibraram com o ato. Posso até imitar a prosa exaltada e hiperbólica dos modernistas e supor que eles reagissem assim: “Villa-Lobos desafia as convenções reacionárias e afigura-se qual nativo brasiliensis apropriando-se do código europeizado e regendo à moda tupiniquim, desancando a burguesia hipócrita que escamoteia a Terra Brasilis ao copiar trejeitos forasteiros”.

Mas que nada. Villa-Lobos estava mesmo era sofrendo com uma inflamação no pé e tirou os sapatos na hora de reger. Como de hábito, teve intelectual que deu um jeito de fazer que um problema físico se tornasse um ato de irreverência cultural.

Quando o lugar em questão é uma igreja, se um pianista/violonista/flautista não está de “sapato social fino preto”, talvez ele tenha esquecido, ou está com um calo ou só não tenha um bom sapato como você. Não olhe para os pés dele, caso o calçado não lhe deixe ouvir sua música. Trata-se de um instrumentista: olhe para as mãos dele!

No entanto, se esse mesmo instrumentista nunca se apresenta vestido de acordo com os códigos culturais socialmente construídos para determinado local, das duas, uma: ou ele ainda não passou da fase adole-modernista de desafiar códigos culturais ou é um joselito sem-noção que acha que seu “estilo” serve para qualquer ambiente. Oremos.

09 setembro, 2011

seis previsões para o futuro da música

Marshall MacLuhan escreveu que o surgimento de novas tecnologias é capaz de gerar novas sociedades. E o fato é que estamos presenciando o acelerado aparecimento de aparelhos e acessórios, gadgets musicais que proporcionam mudanças no comportamento individual e social. Não por acaso, a Revista Auditório publicou uma recente palestra feita pelo professor e escritor Jacques Attali, especialista em economia da cultura, em que falava sobre o futuro da música. Elaborei subtítulos para o resumo de suas previsões, que você lê a seguir:


A democratização da atividade artística: "Em pouco tempo, todo mundo sonhará em ser artista, e cada um poderá sentir prazer em tornar-se um. Os lucros serão obtidos sobre os objetos que possibilitam esse consumo. Dos iPods que permitem escutar seleções musicais personalizadas, passar-se-á a objetos capazes de compor misturas criativas, para depois compor a própria música. A venda de meios para tornar-se um artista irá constituir a maior parte do comércio de arte. O artista reconhecido terá então a função de ajudar os outros a virarem artistas. É sobre esse aspecto que se concentraram, por exemplo, os criadores de Soundtracking, um novo aplicativo de celular: esse aplicativo permite compartilhar e comentar com os amigos a música que estamos escutando".

Os novos instrumentos musicais: "Longe de desaparecer, os instrumentos musicais serão acessados bem mais facilmente com o digital, serão mais completos e integrarão uma dimensão participativa. A touch guitar substitui as cordas por uma tela táctil sobre a qual figuram teclas virtuais. Um clique permitirá passar de 6 para 12 cordas. A eigenharp, ou harpa eletrônica, é uma nova interface instrumental que tem a forma de um braço de guitarra com 120 sensores elétricos terminados em uma embocadura. Esse instrumento do futuro permite reproduzir ao mesmo tempo os sons da guitarra, do baixo, do teclado e do saxofone.

Criada em Barcelona, a Reactable é um instrumento um instrumento de música eletroacústica que permite a criação coletiva da música ao vivo.  Esse instrumento totalmente intuitivo está disponível como aplicativo para telefone celular. Ele está ao alcance das crianças assim como do público não especializado. No momento em que sua prática é compartilhada, a Reactable é também altamente colaborativa e comporta uma dimensão quase religiosa. Essa inovação anuncia o desenvolvimento de uma música mais democrática, participativa e, em alguma medida, espiritual".

Tecle Ctrl+C para compor: "Novos formatos de áudio ou sistemas como o MXP4 e Musicmyne conduziram até mesmo à democratização das tecnologias do estúdio de mixagem. Graças a softwares que permitirão compor, o telefone celular será o principal instrumento de amanhã. A composição está ao alcance de todos. Há já alguns anos é possível conduzir uma orquestra sozinho em um quarto com um teclado midi e um sequenciador. Graças a essas evoluções, em breve poderemos personalizar qualquer faixa e mixar, assim como fazer mash-ups – que consistem na associação de vários títulos existentes".

Música audiovisual: "Para além da audição e do tato, os novos instrumentos também serão visuais. No Japão, numerosos instrumentos exprimem essa ideia de completude fazendo com que surjam ao mesmo tempo sons e imagens, como o tenori-on. Trata-se de uma espécie de matriz que possui 256 botões com uma tela que difunde imagens luminosas. A duração da pressão sobre os diferente botões e a combinação de teclas permitem modular som e luz, combinando arte sonora e visual. O prazer do instrumento poderá também ser ainda mais participativo. Dois tocadores podem conectar entre eles seus tenori-on e tocar com uma matriz dupla, produzindo um único som e uma única imagem. Esse instrumento mistura duas características portadoras de futuro: a interação dos sentidos e a das pessoas".

A era do efêmero: "No mundo da música no século 21, os artistas mais conhecidos não permanecem mais no centro das atenções durante dez, 20, 30 anos, como foi o caso dos Rolling Stones ou dos Beatles. Num dia estouram, no outro são esquecidos – cada nova estrela apagando a anterior. Esse fenômeno anuncia um mundo da velocidade, uma sociedade que faz a apologia do instante, e da amnésia também, pois não há desejo do novo sem amnésia. Enfim, uma sociedade da precariedade, onde o efêmero se estende a todas as formas da vida: às relações entre as pessoas, à casa, ao trabalho, até mesmo às ideias, às convicções, às religiões".

A música do amanhã: "Hoje, a biblioteca musical do mundo está ao alcance de um clique. Desmaterializada. Reconstituída em nuvens. Se os canais pelos quais a criação musical chega aos nossos ouvidos foram profundamente modificados, a música não muda, nem aquilo que ela transmite: a emoção. [...] Nessa nova era anunciada pela música, cada indivíduo não será mais espectador, mas sim, progressivamente, um ator exigente da própria vida, buscando ser dono de seu tempo. Amanhã, a música também desempenhará plenamente o seu papel, oferecendo-nos, mais do que nunca, a partilha e a comunhão".

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Nota na Pauta: Em alguns pontos, a visão de Jacques Attali é otimista quanto às relações do ser humano com as novas mídias digitais e com o futuro da música. Nesse caso, é ouvir pra crer.

NNP2: Seja lá qual for a música do futuro, tomara que venha acompanhada de itens de uso obrigatório, como fones de ouvido ou um controle remoto com uma única opção: "off".