28 janeiro, 2009

o cristianismo positivo


Sobre o texto “ateístas, graças a Deus”, um leitor atento comentou que me preocupei mais em rascunhar as ações negativas ligadas à expressão “aproveitar a vida” (uma frase que constava naquele cartaz que anda de ônibus em Londres). Parece que descambei para a crítica de atividades mundanas que os sóbrios humanistas também rejeitaram. Percebendo, então, que a bebedeira, a micareta e a Britney Spears são também pedra de escândalo para agnósticos e ateus, vou rabiscar o que seriam algumas das ações positivas desse mundo velho com porteira e câmera de vigilância.

Vou tratar apenas do mundo da arte e da literatura. Mas antes é preciso saber de que cristão vou falar. Sim, porque há quem se diga cristão não-praticante (infelizmente, o censo aponta que sua maioria é composta de católicos. E veja que ninguém se diz pentecostal não-praticante ou espírita não-praticante). O católico não-praticante é algo como o torcedor de um time de futebol do interior que só vai ao estádio quando vem um time da capital.

De outro lado, há o cristão que pensa praticar o cristianismo, mas na verdade ele pratica o "igrejismo". O adepto do igrejismo é como aquela criatura que assiste a dez telenovelas diárias, ri, chora e dá ordens aos personagens e nunca se interessa por outro tipo de emoção. O adepto do igrejismo não vive como quem espera novos céus e nova terra; ele vive como se não houvesse nem a velha terra onde pisa.

Há o cristão da urgência. Ele tem boas-novas a anunciar e não tem tempo a perder com jogos de futebol, filmes e livros não-denominacionais. A música não tem outra função exceto a de servir de atração evangelística ou acessório para os intervalos em que ele não está falando. Os únicos livros não-denominacionais que ele aprecia são aqueles de desconhecidos autores que falam de uma teoria conspiratória empresarial para dominar o mundo.

Há o cristão da displicência. Ele tem boas-novas a anunciar mas sempre tem um programa imperdível para ver ou fazer no mesmo horário. Esse tipo se divide em fãs de futebol (criticam quem assiste novela enquanto se desesperam diante da TV),
cinemaníacos (a diferença entre o cinéfilo e o cinemaníaco é que o primeiro já distingue temperos e cardápios enquanto o segundo no máximo saliva diante de um prato gorduroso),
e estetas ecléticos (esse esteta dá um boi para entrar numa discussão sobre estética e uma boiada para não falar de doutrinas religiosas).

O problema desse meu grosseiro rascunho é que mal cobre uma dúzia de pessoas, que dirá milhões. Assim, prefiro dizer que somos cristãos tanto da urgência quanto da negligência em várias oportunidades. Não sei se algum leitor se sentirá a vontade para analisar-se como apenas um desses tipos. Se for, congratulações pelo nível de autocrítica.

O cristão moderno tornou-se um bom samaritano que vive a decidir se ajuda os semelhantes ou vai à exposição. Ele ainda não aprendeu que há tempo para tudo debaixo do sol. Inclusive para ser uma pessoa melhor. Na tentativa de adaptar-se à igreja, vira um ermitão. Querendo relacionar-se com a modernidade, ele negocia princípios.

Quero dizer que o cristianismo não é a religião do equilíbrio. Não é o Tao. Ao contrário, o cristianismo é a religião da tensão. Não a tensão da culpa, do remorso sem fim e da ira. Mas a tensão que tem que conviver com virtudes e defeitos, mas não busca conciliar vícios e benefícios. Tal cristão pode ler Dostoievski e o livro de Daniel, Melville e Chesterton. Um cristão assim pode se maravilhar ouvindo uma sonata de Beethoven e se emocionar ao ouvir o Gaither Vocal Band cantando "It is Finished" (são só exemplos).

Alguns dos cristãos, diligentes trabalhadores, não puderam ou não quiseram desenvolver o pensamento crítico em relação a filmes e músicas. Como escreve Frank Gaebelein: “Eles ...são devotos da visão televisiva de shows, cujos gostos de leitura são dominados por uma piedade sentimental, e que não podem distinguir um tipo de arte religiosa da verdadeira arte. Para eles, padrões estéticos superiores são considerados apenas teoria e espiritualmente suspeitos” (The Christian, the Arts and the Truth).

Há pessoas que, por falta de acesso a uma educação da arte e da literatura, rejeitam a totalidade das expressões artísticas humanas. Sobre estas despejam rancor e preconceito. Sem tempo e oportunidade para distinguir o joio do trigo, põem fogo em ambos.

Acima, O Bom Samaritano, de Van Gogh.

26 janeiro, 2009

o concerto e o concerto de obama

A música para cerimônias oficiais de celebração costuma ser aquela que confere muita pompa para determinada circunstância. Geralmente bombástica, com o retumbar de tímpanos e uma fanfarra de metais que alardeiam uma nova era, uma sinfonia grandiloquente para a majestade que toma posse.

Mas o que se ouviu na posse de Barack Obama esteve bem distante do tom festivo, cumprindo-se já a intenção do novo presidente. Foi assim o poema recitado por Elizabeth Alexander, Praise Song for the Day, sem versos laudatórios da personalidade de um homem, mas de estilo terno e reflexivo. Talvez até demais para o momento.

Poderia ser diferente no concerto musical para o dia em que Obama começaria a selar um concerto político entre as nações, como muitos gostam de acreditar. O responsável pela música era John Williams, reconhecido compositor de trilhas sonoras. Dele se podia esperar o imprevisível. Da música triunfal, como em Guerra nas Estrelas, ao lúdico à la Henry Mancici, como em Prenda-me se for Capaz; das cordas emotivas de E.T. ao vocalise lacrimoso de Império do Sol.

John Williams compôs uma breve peça que emanava simbolismo tanto das notas musicais quanto dos músicos selecionados para tocar. Intitulada Air and Simple Gifts e escrita para violino, violoncelo, piano e clarinete, a peça não tem um final apoteótico e retumbante – as homenagens musicais ao estilo de Reais Fogos de Artifício, de Haendel, nem passaram perto.



Mas algumas mensagens me pareceram bem claras: a ausência de pompa na música para o concerto lembra que, primeiro, Obama precisa traçar o conserto da nação que o elegeu - e a empolgação do casamento é logo anuviada quando as primeiras contas começam a chegar; os músicos eram o violinista israelense Itzhak Perlman, o celista sino-americano Yo-Yo Ma, a pianista venezuelana Gabriela Montero e o clarinetista afro-americano Anthony McGill. A própria diversidade em carne, osso e melodia (Perlman e Yo-Yo Ma já haviam colaborado com John Williams na trilha de A Lista de Schindler).

O início da peça é original de John Williams. Mas, a seguir, há uma citação de Simple Gifts, uma famosa melodia shaker também utilizada pelo compositor Aaron Copland na obra Appalachian Spring. Na reciclagem da tradicional melodia e na citação a Copland, um compositor identificado com os valores culturais e morais americanos, evoca-se a visão idílica de um país construído com liberdade, tolerância e trabalho.

Anne Midgette lembra que Abraham Lincoln, em quem Obama procura modelar-se, era fã de música clássica e incluiu a montagem da ópera Martha, de Flotow, em sua segunda posse como presidente.

Obama já demonstrou apreciar diversos estilos de música (a música clássica está entre suas preferências ecléticas), o que dá uma pequena dimensão de que ele é alguém que prefere dialogar com várias culturas e fazer a ponte de entendimento entre elas. De sua intenção, ainda que em discursos iniciais, de promover a tolerância e o respeito entre os diversos povos, não há porque discordar. Ao contrário, tratam-se de valores fundamentais que todos devem defender, inspirados ou não em princípios religiosos.

Só discordarei de Obama se a promoção de almejada unidade sobrepujar-se à liberdade de diversidade. Ponto.

Para quem procura razões apocalípticas para rejeitar Barack Obama, dou uma dica. Sabe que outra peça foi escrita especialmente para a formação instrumental de violino, cello, piano e clarinete? Isso mesmo, o Quarteto para o Fim dos Tempos, de Olivier Messiaen.

Alguém dirá, calma, é coincidência. Outros dirão, quem lê (ou quem ouve), entenda.

Para entender melhor, leia meu artigo “Quarteto para o Fim dos Tempos” , escrito bem antes da eleição de Obama.

23 janeiro, 2009

ateístas, graças a Deus

Pode ser qualquer dia, porque todo dia é dia de sair e irradiar a verdade. Eles vêm de dois em dois, irmanados num só ideal: o de falar do que descobriram. Eles batem na minha porta e me desejam bons dias e entregam panfletos e me perguntam da verdade e me dizem até mais ver e me deixam perdido em meus pensamentos.


Não sou profeta nem filho de profeta, mas não vai tardar e os ateístas protagonizarão essas cenas. Tal e qual um evangelista que apregoa de porta em porta, eles irão até sua casa lhe anunciar as novas da inexistência de Deus. O IDE deles já circula nos ônibus londrinos (foto): “Provavelmente não há Deus. Agora pare de se preocupar e aproveite a vida”.

Faltou colocar que “agora seus problemas acabaram”. O avivamento ateísta já não dispensa nem as táticas evangelísticas de publicidade nos veículos e logradouros públicos. Mas o “provavelmente” da frase deixa o destinatário da mensagem um tanto confuso. Afinal, o transeunte pode parar na rua para elocubrar sobre a função desse "provavelmente". Se provavelmente Deus não existe é porque estão lhe dizendo ao mesmo tempo que provavelmente Deus existe. E, sendo a rua o local onde circulam carros, motos e até ônibus com propagandas ateístas, o pensante se arrisca a sofrer um acidente e ainda culpar os organizadores do anúncio.

O mote ateísta inscrito nos ônibus generaliza os grupos religiosos como um bloco monolítico de infelizes que não aproveitariam a vida (enjoy the life). O que seria esse aproveitar a vida? Festas sem fim, baladas intermináveis, sexo casual, falar palavrões, assinar a Playboy, ir comprar pão usando o abadá do Chiclete com Banana, trespassar o nariz com piercing, se vestir como a Mulher-Melancia, gabar-se de dirigir alcoolizado na madrugada, gritar uhuuu por qualquer coisa?

Se isso for aproveitar a vida, obrigado, não.

Mas, para alguns, é muito conveniente que Deus não exista. Os hedonistas não teriam prestar contas de suas obras e de seu caráter e os humanistas não teriam a intromissão de um Deus pessoal em suas confortáveis vidas. No fundo, os ateus até aceitariam a existência de Deus, desde que Ele não lhes desse a carga do livre-arbítrio, mas somente paz e um cadinho de sofismas sobre os quais conversar.

Às vezes, os descrentes (e os crentes também) se assemelham àqueles adolescentes que fingem que seus pais não existem e se envergonham de apresentá-los aos amigos. Por isso, se diz que o adolescente é a vingança de Deus sobre as criaturas: "Farei um ser à imagem e semelhança do homem e que mais tarde negará a existência dele".
Atualização:
Alguns comentários abaixo expandem o pensamento contido nessa postagem, inclusive contestando alguns pontos do texto. Recomendo.

21 janeiro, 2009

casa de vidro, vida de ficção

Dentro, eles vão de um lado para outro, fazem gracinhas, se exibem por todos os cantos. Fora, uma platéia acena, sorri das brincadeiras, se diverte e fotografa, mas não pode dar comida a quem está dentro.

Cena de um domingo no zoológico? Na verdade, são 4 candidatos disputando uma vaga no concurso mais concorrido do início de cada ano: o de entrar na casa do Big Brother Brasil. Embora, se bem comparando, qual seria mesmo a diferença entre os gorilas do zoo e os concorrentes do BBB? Maíra, uma das duas distintas moçoilas disputantes diz, meio constragida: “É, me sinto como um macaquinho”. O constrangimento é menor do que a frase e ela logo volta ao seu papel de... bem, ela que disse!

A jaula lhes permite ver quem está de fora, quem está fora acena pedindo uma gracinha, os de dentro respondem tirando parte da roupa, a malta se agita querendo ver o espetáculo dos homens ocos e das alegres comadres da casa de vidro. Tudo por um milhão? Ajuda, mas para eles basta a glória de aparecer, mãe, eu tô na Globo!

Hoje, se promete mundos e fundos para sair do anonimato, para deixar de ser um invisível social. O anônimo parece necessitar do reconhecimento nacional para ser alguém, pois a invisibilidade o perturba, o entedia, ele se sente um ninguém. A platéia, em rede nacional, não deixa de ser esse invisível que quer se tornar visível também, seja quando vai levar pipoca aos macacos, digo, aos nobres concorrentes, ou quando liga para escolher qual o bichinho de estimação que mais aprecia.

Alguém dirá que tudo é apenas brincadeira (e que foi crescendo, crescendo e absorvendo milhares de fãs). Mas um teórico de cenho franzido vai dizer que vivemos na era do simulacro, da vida representada como se fosse real e da vida real contada como se fosse ficção. Descontando o cenho franzido, ele está certo. O espécime BBB entra na casinha de bonecas do Bial para representar um papel e no fim já não sabe se ele está atuando para viver ou se sua vida já é uma atuação, um ato teatral sem the end. Do lado de cá da telinha, o público, cansado das novelas da vida, quer assistir agora a vida como se fosse uma novela.

No grande O Show de Truman, o Truman do título vive numa cidade de vidro filmada 24 horas por dia. Truman não sabe, mas já nasceu célebre e sua vida é uma representação diária. Todos que interagem com ele são coadjuvantes e figurantes. Como o ser humano vive de pão, liberdade e curiosidade, Truman vai tentar sair da redoma que chama de casa, não sem antes perceber que está enjaulado, embora não se sinta num zoológico simplesmente porque não sabe que existe uma ávida plateia que acompanha sua odisseia.

Truman é alguém fora de sintonia em relação ao seu lugar (de ficção) e tempo (a era do simulacro). Seu nome, algo como “homem verdadeiro”, diz muito sobre a época da aparência em que vivemos: Truman é o homem de verdade cuja vida é mentira. Ele quer sair para a vida real como ela existia antes da ficcionalização virtual da vida. Ao contrário dos bigbrothers, que anseiam viver uma vida em eterna representação da vida.

Truman não quer mais aparecer como se fosse Truman, ele apenas quer ser Truman sem mentiras aparentes. Ele quer deixar de ser o célebre visível e misturar-se aos simples anônimos; já os bigbrothers e congêneres desejam sair da invisibilidade social e alcançar a fama perene enquanto dure.

O fã que hoje beija, mais tarde apedreja com o esquecimento. Restará ao ex-big e esquecido brother cantar que a casa que tu me deste era vidro e se quebrou e o amor que tu me tinhas...

Na foto acima, há uma inscrição numa camisa que fala por si: professional vagabond. Carece tradução?

Leia também "a casinha de bonecas do Bial".

16 janeiro, 2009

assim na fé como na vida

Os problemas da África não podem ser resovidos só com ajudas financeiras, mas os africanos precisam conhecer a Deus, diz Matthew Parris, jornalista que se declara ateu no jornal britânico The Times. Ele afirma estar "convicto da enorme contribuição que o evangelismo cristão faz na África: bastante distinta do trabalho das ONGs seculares, projectos governamentais e esforços de ajuda internacional”.

Nascido em Johannesburgo, África do Sul, e atualmente residindo na Inglaterra, Parris diz que “na África, o cristianismo muda o coração das pessoas. Ele produz uma transformação espiritual. O renascimento é real. A mudança é boa.”

Quando esteve no Malawi, ele impressionou-se com o cristianismo de alguns membros da Pump Aid, uma instituição inglesa secular que trabalha com o saneamento da água dos poços das aldeias. “Estaria de acordo com os meus desejos, acreditar que a sua honestidade, diligência e optimismo no seu trabalho não tinham relação com a sua fé pessoal”, admite Parris. “O seu trabalho era secular, mas certamente afetado por aquilo que eles eram, (…) influenciado por uma concepção do lugar do homem no universo que o cristianismo tem ensinado.”

Aquilo o fez recordar-se do trabalho de missionários cristãos e da forma como os africanos convertidos que ele conheceu quando era menino “eram sempre diferentes.” Parris assegura que a sua nova religião não os confinava, mas parecia libertá-los e relaxá-los.
Ele acrescenta que o cristianismo pós-Reforma ensina uma “relação direta, pessoal e nos dois sentidos entre o indivíduo e Deus”, que elimina a mediação pelo grupo, ou por qualquer outro ser humano, oferecendo uma organização de vida social para aqueles que querem “abandonar uma mentalidade tribal asfixiante”.

O jornalista vê no cristianismo algo que só se passa nos sonhos mais fervorosos dos combalidos marxistas ou sociais-democratas: a capacidade de libertar os africanos da mentalidade comunal e supersticiosa que reprime a individualidade. Parris critica a “mentalidade rural tradicional” por alimentar “‘manda-chuvas’ e gangsters políticos” em cidades africanas que ensinam “um respeito exagerado” por um “líder presunçoso” que não deixa espaço para a oposição.

Antepondo-se a um relativismo falso e pernóstico, ele encerra o texto dizendo que somente os bens materiais e conhecimento não são capazes de propiciar o desenvolvimento e a mudança de que a África necessita: “Todo um sistema de crenças tem primeiro de ser suplantado”. Sabedor de que qualquer cultura será afetada pelo conhecimento de novos códigos morais, ele adverte que retirar o evangelismo cristão da “equação africana” poderá “deixar o continente à mercê de uma fusão maligna da Nike, do feiticeiro, do celular e da catana [um tipo de espada].”

Adaptação de reportagem de Ethan Cole (Christian Post)

*****

Pedras não apenas rolam. As pedras falam, clamam e gritam pelo verdadeiro cristianismo: a religião do amor em prol da liberdade intelectual, moral e espiritual. Matthew Parris é um ateu tocado pelo testemunho pessoal de vidas que espelhavam o Cristo genuíno. Costumamos separar estranhamente a fé da vida. Reservamos a fé para os momentos de comunhão e a vida para tudo o mais, quando deveríamos, em tudo, pôr a nossa fé. Nós proclamamos a liberdade quando, na verdade, aprisionamos a fé numa cela devocional e saímos para uma vida que não reflete a fé que outorgamos. Aliás, uma vida assim não expressa o tamanho da fé, mas a negligência com que a consideramos.

O cristianismo não nos liberta para o pecado, não nos liberta para a comercialização da fé. O cristianismo nos liberta para a transcendência do ambiente cultural, para a superação das hostilidades regionais e para a realização da obra divina que restaura a dignidade em cada ser humano. Liberta-nos, até mesmo, do "ismo" do cristianismo.

O cristão declara sua fé não pela força dos mísseis, não pelo fogo inquisitório, não pelos decibéis gospel. Mas pela fé gentil e consciente, pelo caráter de retidão moral e de justeza e pela compreensão do elevado papel daqueles que aceitam ser discípulos de Cristo na Terra e herdeiros da eternidade.

14 janeiro, 2009

das preferências musicais e escolhas morais


Felicity Baker e William Bor publicaram alguns resultados de pesquisa sobre música e comportamento humano na revista Australasian Psychiatry (Agosto/2008, pp. 284-288). Os pesquisadores buscaram estabelecer uma série de correlações entre escuta musical e atitudes ou práticas dos ouvintes, como:

Os fãs de música pop teriam uma tendência à dúvida sexual, quem ouve dance music aumenta as chances de consumir drogas, os ouvintes de jazz tendem à solidão e teriam dificuldade de aceitação social. Pior ficou para os metaleiros, os ouvintes e “praticantes” de heavy metal e variações, que tendem a roubar, fazer sexo sem proteção, dirigir alcoolizado e sofrer de depressão que pode levar ao suicídio.

Só faltou dizerem que as plantinhas crescem viçosas e felizes porque escutam música clássica.

O objetivo da pesquisa, descrito no artigo, é perguntar se a música induz à ações sugeridas nas letras das canções ou se a preferência musical representa tendências de comportamento já existentes no indivíduo.

A música induz à ações sugeridas nas letras? Depende do grau de inserção individual em certos grupos subculturais (subculturas do hip hop, do pagode, da música barroca, evangélica, etc). Atenção: Subcultura não quer dizer uma cultura inferior, mas uma parte da totalidade de gêneros, estilos e expressões que representam o que chamamos de cultura.

Escutar música é muitas vezes um ato coletivo, em que o senso de pertencer a uma comunidade afeta diretamente a construção do gosto. Porém, a letra da canção não é um agente dominante de orientação das ações. Ela, a letra, não está sozinha. Nem o ouvinte está só. Consideremos os fatores extramusicais.

Uma música é um produto social e, como tal, pode expressar conteúdos que refletem os desejos e anseios de um grupo. Enquanto as músicas cristãs comunicam as esperanças e convicções dos cristãos, as canções do funk expressam as vontades e perspectivas de outro grupo social.

O funk carioca apresenta canções altamente erotizadas, outras contêm a temática de violência e de enfrentamento da polícia e algumas denunciam o abuso e o preconceito a que os moradores das periferias são submetidos. Pesquisadores de outras áreas que não a etnomusicologia ou a sociologia costumam dar pouca importância às experiências sociais do indivíduo e privilegiam a ação do som sobre neurônios e células. Para eles, a reação psicológica do sujeito é resultado mais da fisiologia individual que da vivência cultural.

No entanto, a pergunta deveria ser: como fatores extramusicais afetam a escuta e a produção musical dos indivíduos? Qual o impacto de problemas sociais, como a pobreza, a falta de perspectivas profissionais lícitas, a presença de modelos de liderança do tráfico, a ausência da família e a carência de itens básicos para a dignidade humana – educação de qualidade, saneamento e moradia – sobre o ouvir o fazer musicais?

Por outro lado, o ouvinte de funk ou axé não é apenas o morador da periferia ou da favela. Juntaram-se a estes os abonados das classes sociais urbanas. Historicamente, sempre foi assim. No século XIX, enquanto a polícia invadia quintais e terreiros e prendia quem transitasse pelas ruas com um pandeiro ou um violão, a elite convidava alguns daqueles músicos perseguidos para animar suas festas exclusivas.

As classes média e alta, hoje, apropriaram-se das criações musicais populares e inventam bailes e festejos que excluem as classes baixas por meio de ingressos, blocos de trios elétricos e figurinos (os tais abadás) caríssimos. Pior: boa parte dos festeiros e baladeiros é formada por universitários ou já graduados de diversas áreas (medicina, psicologia, direito, arquitetura, farmácia e até serviço social – um curso que costumava apresentar estudantes de elevado senso crítico e cultural).

Entra em cena outro fator: o hedonismo, que é a busca de prazer imediato e contínuo acima de tudo o mais. A esmagadora maioria das canções pop das mídias oferece em suas letras um convite a autogratificação tão instantânea quanto passageira. Por isso, talvez, a música popular já não consegue (e nem quer) oferecer canções duradouras, mas apenas canções sazonais, feitas para durar uma estação, uma semana, uma festa.

Vale dizer que pessoas de todas as esferas sociais e econômicas estão se sujeitando ao descontrole moral e à irresponsabilidade das ações. O ambiente em que se realizam baladas e outros carnavais bem como as referências morais que o indivíduo valoriza podem determinar a vulgaridade das letras e das danças, porém não será música a causadora dos atos de agressão nem o induzirá ao uso de drogas, embora estas práticas sejam notadas nos circuitos das festas.

Não podemos descartar inteiramente os estudos que apontam a vulnerabilidade emocional do ouvinte como fator relevante nas escolhas e preferências musicais, mas também não é possível afirmar definitivamente que as letras induzem o ouvinte a uma ação. Se fosse assim, os cristãos seriam um grupo de pessoas extraordinárias que só fariam o bem o tempo todo.

No entanto, é a fé, e não a prática da fé, que vem pelo ouvir. Para imprimir sua fé em suas ações e atitudes, é preciso ao crente uma mente convertida de fato. A escuta de canções religiosas ou de sermões semanais faz mais sentido, provoca a mudança e confirma as convicções quando acompanhada da leitura de livros religiosos e de reflexão sobre estes conteúdos.

Não confie demais nos ouvidos. Apesar de abertos o tempo todo, eles podem ser traiçoeiros. A música é a única forma de arte que nos ataca pelas costas.

12 janeiro, 2009

cem palavras: Gandhi e a questão judaico-palestina


A seção Cem Palavras, além de tosco trocadilho, é uma desculpa para transcrever as palavras de quem realmente sabe usá-las. Passo a vez para o Manifesto de Mahatma Gandhi (1869-1948) sobre a questão judaico-palestina:

Harijan, em 26 de novembro de 1938.
“Recebi muitas cartas solicitando a minha opinião sobre a questão judaico-palestina e sobre a perseguição aos judeus na Alemanha. Não é sem hesitação que ouso expor o meu ponto-de-vista.

Na Alemanha as minhas simpatias estão todas com os judeus. Eu os conheci intimamente na África do Sul. Alguns deles se tornaram grandes amigos. Através destes amigos aprendi muito sobre as perseguições que sofreram. Eles têm sido os “intocáveis” do cristianismo; há um paralelo entre eles, e os “intocáveis” dos hindus. Sanções religiosas foram invocadas nos dois casos para justificar o tratamento dispensado a eles. Afora as amizades, há a mais universal razão para a minha simpatia pelos judeus. No entanto, a minha simpatia não me cega para a necessidade de Justiça.

O pedido por um lar nacional para os judeus não me convence.
Por quê eles não fazem, como qualquer outro dos povos do planeta, que vivem no país onde nasceram e fizeram dele o seu lar?

A Palestina pertence aos palestinos, da mesma forma que a Inglaterra pertence aos ingleses, ou a França aos franceses.

É errado e desumano impor os judeus aos árabes. O que está acontecendo na Palestina não é justificável por nenhuma moralidade ou código de ética. Os mandatos não têm valor. Certamente, seria um crime contra a humanidade reduzir o orgulho árabe para que a Palestina fosse entregue aos judeus parcialmente ou totalmente como o lar nacional judaico.

O caminho mais nobre seria insistir num tratamento justo para os judeus em qualquer parte do mundo em que eles nascessem ou vivessem. Os judeus nascidos na França são franceses, da mesma forma que os cristãos nascidos na França são franceses.

Se os judeus não têm um lar senão a Palestina, eles apreciariam a idéia de serem forçados a deixar as outras partes do mundo onde estão assentados? Ou eles querem um lar duplo onde possam ficar à vontade?

Este pedido por um lar nacional oferece várias justificativas para a expulsão dos judeus da Alemanha. Mas a perseguição dos alemães aos judeus parece não ter paralelo na História. Os antigos tiranos nunca foram tão loucos quanto Hitler parece ser.

E ele está fazendo isso com zelo religioso. Ele está propondo uma nova religião de exclusivo e militante nacionalismo em nome do qual, qualquer atrocidade se transforma em um ato de humanidade a ser recompensado aqui e no futuro. Os crimes de um homem desorientado e intrépido, estão sendo observados sob o olhar da sua raça, com uma ferocidade inacreditável.

Se houver sempre uma guerra justificável em nome da humanidade, a guerra contra a Alemanha para prevenir a perseguição desumana contra uma raça inteira seria totalmente justificável. Mas eu não acredito em guerra nenhuma. A discussão sobre a conveniência ou inconveniência de uma guerra está, portanto, fora do meu horizonte. Mas se não pode haver guerra contra a Alemanha, mesmo por crimes que estão sendo cometidos contra os judeus, certamente não pode haver aliança com a Alemanha. Como pode haver aliança entre duas nações que clamam por justiça e democracia e uma se declara inimiga da outra? Ou a Inglaterra está se inclinando para uma ditadura armada, e o que isso significa?

A Alemanha está mostrando ao mundo como a violência pode ser eficientemente trabalhada quando não é dissimulada por nenhuma hipocrisia ou fraqueza mascarada de humanitarismo; está mostrando como é hediondo, terrível e assustador quando isso aparece às claras, sem disfarces. Os judeus podem resistir a esta organizada e desavergonhada perseguição? Existe uma maneira de preservar a sua auto-estima e não se sentirem indefesos, abandonados e infelizes? Eu acredito que sim. Ninguém que tenha fé em Deus precisa se sentir indefeso, ou infeliz. O Jeová dos judeus é um Deus mais pessoal que o Deus dos cristãos, muçulmanos ou hindus, embora realmente, em sua essência, Ele seja comum a todos. Mas como os judeus atribuem personalidade a Deus e acreditam que Ele regula cada ação deles, estes não se sentiriam desamparados.

Se eu fosse judeu e tivesse nascido na Alemanha e merecido a minha subsistência lá, eu reivindicaria a Alemanha como o meu lar, do mesmo modo que um “genuíno” alemão o faria, e desafiaria qualquer um a me jogar na masmorra; eu me recusaria a ser expulso ou a sofrer discriminação. E fazendo isso, não deveria esperar por outros judeus me seguindo em uma resistência civil, mas teria confiança que no final estariam compelidos a seguir o meu exemplo.

E agora uma palavra aos judeus na Palestina:

Não tenho dúvidas de que os judeus estão indo pelo caminho errado. A Palestina, na concepção bíblica, não é um tratado geográfico. Ela está em seus corações. Mas se eles devem olhar a Palestina pela geografia como sua pátria mãe, está errado aceitá-la sob a sombra do belicismo britânico. Um ato religioso não pode acontecer com a ajuda da baioneta ou da bomba. Eles poderiam estabelecer-se na Palestina somente pela boa vontade dos palestinos. Eles deveriam procurar convencer o coração palestino. O mesmo Deus que rege o coração árabe, rege o coração judeu. Só assim eles teriam a opinião mundial favorável às suas aspirações religiosas. Há centenas de caminhos para uma solução com os árabes, se descartarem a ajuda da baioneta britânica.

Como está acontecendo, os judeus são responsáveis e cúmplices com outros países, em arruinar um povo que não fez nada de errado com eles.

Eu não estou defendendo as reações dos palestinos. Eu desejaria que tivessem escolhido o caminho da não-violência a resistir ao que eles, corretamente, consideraram como invasão de seu país por estrangeiros. Porém, de acordo com os cânones aceitos de certo e errado, nada pode ser dito contra a resistência árabe face aos esmagadores acontecimentos.

Deixemos os judeus, que clamam serem os Escolhidos por Deus, provar o seu título escolhendo o caminho da não-violência para reclamar a sua posição na Terra. Todos os países são o lar deles, incluindo a Palestina, não por agressão mas por culto ao amor.

Um amigo judeu me mandou um livro chamado A contribuição judaica para a civilização, de Cecil Roth. O livro nos dá uma idéia do que os judeus fizeram para enriquecer a literatura, a arte, a música, o drama, a ciência, a medicina, a agricultura etc., no mundo. Determinada a vontade, os judeus podem se recusar a serem tratados como os párias do Ocidente, de serem desprezados ou tratados com condescendência.

Eles podiam chamar a atenção e o respeito do mundo por serem a criação escolhida de Deus, em vez de se afundarem naquela brutalidade sem limites. Eles podiam somar às suas várias contribuições, a contribuição da ação da não-violência.”

Manifesto publicado em My Non-Violence, editado por Sailesh K. Bandopadhaya, Navajivan Publishing House, Ahmedabad, 1960. Lido em Milton Ribeiro.

09 janeiro, 2009

o gospel e o melhor de dois mundos

Uma das frases mais conhecidas nas igrejas diz que o cristão “ESTÁ no mundo, mas não É do mundo”. O que para os críticos soa como esquizofrenia – o cristão seria alguém que vive numa quinta dimensão ou num mundo paralelo – e para alguns teóricos é uma anomalia – o que é isso que chamam de “mundo”, perguntam –, para os cristãos é uma convicção simples.

“Mundo” não é entendido como local físico de habitação, onde eu leio jornal, assisto televisão e converso com o vizinho. “Mundo” são as práticas anti-cristãs da sociedade. Essa dicotomia separa o mundo que se degrada moralmente do restaurador reino de Deus. O que intelectuais conseguem complicar as mentes mais simples distinguem claramente. Enquanto os pensadores não entendem ou fingem não entender esse paradoxo, os cristãos fazem essa clivagem sem perplexidades. Ou pelo menos faziam.

O que tem causado certo espanto no meio evangélico é a passagem de artistas gospel por dois mundos: o secular e o cristão. Em 2008, o grupo Artpella foi o vencedor de uma das finais do programa Astros, do SBT. Por sua vez, a cantora evangélica Soraya Moraes, além de receber prêmios nas categorias gospel, ganhou o Grammy Latino de “Melhor Canção Brasileira”, concorrendo com Vanessa da Matta & Sérgio Mendes, Jorge Vercilo e Djavan.

No caso do Artpella, questionou-se a presença de um grupo adventista num programa de competição musical secular. De Soraya Moraes, levantou-se dúvidas sobre a integridade da premiação.

Os defensores do Artpella argumentam que o triunfo do grupo representa um aumento da visibilidade social da Igreja Adventista do Sétimo Dia (IASD), reconhecida pelo trabalho hospitalar e educacional, mas sem maior penetração midiática (a IASD ainda é uma das poucas igrejas protestantes históricas ou tradicionais que mantém constante crescimento).

Circulam dois vídeos do Artpella no programa Astros. No primeiro, salta aos olhos o quanto os jurados do programa parecem tocados. Tocados artisticamente (espiritualmente, só eles poderão dizer). O próprio Carlos Eduardo Miranda, produtor musical tarimbado e o mais debochado da banca, não se conteve e disse que pediria “o grupo emprestado a Deus” para a música pop, diante da qualidade do que ouviu. E ele conhece bem o nível da atual safra musical pop brasileira.

Voltando aos vídeos do Artpella, é nítida a mudança entre eles. Se no primeiro vídeo eles cantam uma música calma, de letra e harmonia vocal até comuns, no segundo, quando são declarados vencedores, o grupo parece outro. A transformação visual, talvez obra das mãos dos produtores do programa, segue o figurino de astros da black music americana. A indumentária do primeiro vídeo é mais natural e despojada. No segundo, eles estão produzidos e uniformizados como se fossem um grupo fabricado pelo departamento de marketing de gravadoras (lembrando que a natureza do programa é descobrir talentos e, a seguir, moldá-los segundo fórmulas fáceis do mercadão musical).

A submissão a estereótipos atinge também a música que cantaram. O ambiente não favorece a alegria ou animação da música, a qual parece apenas feita pra pular “em nome de Jesus”. Os jurados põem os pés sobre a mesa, a postura do público é de claque induzida à falsa histeria, ficou soando um tanto artificial. Perguntas que eu faria aos irmãos do Astros: O que ficou, então? A primeira ou a última impressão?

Já o triunfo de Soraya Moraes (foto) no Grammy Latino – a cantora ganhou os troféus de Álbum de Música Cristã tanto em Língua Espanhola (com “Tengo sed de Ti”) quanto em Língua Portuguesa (com “Som da Chuva”), e de Canção Brasileira (por “Som da Chuva”) - tem a ver com a forma de votação da premiação, restrita aos membros da Academia Latina de Gravação (LARAS, na sigla em inglês).

Segundo reportagem de O Globo (30/11), nos últimos anos, muitos artistas e produtores brasileiros de música evangélica se inscreveram na Laras, conseguindo assim não só uma categoria própria (Álbum de Música Cristã em Língua Portuguesa) como peso de voto para emplacar agora uma indicada (e vencedora) na de Canção Brasileira, que, nas edições anteriores do prêmio, era exclusiva de artistas da MPB.

E assim, voltamos a dicotomia sacro x secular. Os evangélicos se propõem a participar de competições musicais com a música que fazem. Essa participação revela um duplo sentido: o proselitismo cristão – o conteúdo de sua música divulga mensagens de sua fé; a auto-afirmação social – a forma de sua música nivela-se aos estilos musicais em voga e o cristão não é mais considerado um estranho sectário.

Perguntas que eu faria aos irmãos do Grammy: qual a validade de um prêmio quando ele está vinculado aos interesses corporativistas de músicos evangélicos? O fato de ser cristão impede que se reconheça a qualidade artística de músicos não-convertidos?

A resposta da própria Soraya Moraes, também pastora da Igreja do Evangelho Quadrangular em Alphaville (SP), explica: “O grande diferencial da música cristã e gospel é a letra, inspirada por Deus”. Logo, a concorrência é automaticamente eliminada.

Cada geração comunicará sua fé religiosa por meio das expressões culturais relevantes em sua época, em geral, emprestadas da sociedade secular e cristianizadas ou sacralizadas. Porém, quando as estratégias de promoção do cristianismo geram submissão à indiferenciação de estilo ou produzem corporativismo e partidarização, é de se pensar se essa busca por aceitação e respeitabilidade não borra os traços de distinção e passa a imitar aquilo que chamam de “mundo”.

artpella - vídeo 1
artpella - vídeo 2
soraya moraes - som da chuva

07 janeiro, 2009

a terra santa e os homens de má vontade

Imagine que sua família esteja morando num condomínio há três gerações. Imagine que, embora o espaço seja pequeno, sua família tenha que, de uma hora para outra, dividir o condomínio com um grupo de famílias que morava em outra cidade. Imagine, então, que as novas famílias recebam um grosso financiamento do governo. E que agora você e sua família tenham que sair de onde moram porque vocês não são dignos de habitar no condomínio dos ancestrais das novas famílias. Imagine que na parte do condomínio em que você mora não entra comida, remédios e roupas. Multiplique sua família por 1,5 milhões de pessoas. Esse é o número de pessoas enjauladas em Gaza, a maior prisão a céu aberto do mundo.

Desde sua fundação arbitrária em 1948, o Estado de Israel jamais trabalhou pela paz ou teve boa vontade para com os palestinos. Ao contrário, acusa-se Israel de usar os meios mais vis para exterminar uma população inteira, para levar adiante um projeto que não pode ter outro nome a não ser o da limpeza étnica (?!). Parece inacreditável que o governo israelense venha atacando os palestinos da Faixa de Gaza quando, não faz muito, o povo judeu foi cruelmente atacado pelos nazistas. Construção de muro de segregação, bombardeio de escolas e universidades, impedimento da entrada de imprensa e até de ajuda humanitária.

Se fosse o contrário, palestinos cometendo uma chacina em Belém, o clamor internacional ressoaria por todas as rádios e TVs do mundo. Mas, infelizmente, o que se vê até agora é uma imprensa silenciosa, coadunada com a opinião calcificada de que qualquer crítica a Israel é mostra de anti-semitismo.

Os palestinos do Hamas decerto cometeram e cometem assassinatos, são adeptos do vil terrorismo e não se pode concordar jamais com o lançamento de mísseis sobre cidades israelenses. O Hamas nem sequer reconhece a existência do Estado de Israel. Porém, o governo de Israel (reforço que não se trata de medidas do povo judeu, mas de uma orientação oficial histórica do seu governo) já expulsou 750 mil palestinos, convertendo-os em refugiados e impedindo o retorno deles, apesar das resoluções da ONU.

No artigo “Israel e suas bombas nunca quiseram a paz”, Haim Bresheet, professor da Universidade de East London, afirma que “desde 1967, Israel fez tudo que algum Estado poderia fazer para tornar impossível qualquer solução política: colonizou por vias ilegais territórios ocupados por via ilegal e recusou-se a acatar os limites de antes das invasões de 1967; construiu um muro de apartheid; e tornou a vida impossível para a maioria dos palestinos. Nada, aí, faz pensar em esforço de paz. Antes, é operação continuada e sistemática para a limpeza étnica dos territórios palestinos ocupados ilegalmente”.

Para o veterano jornalista israelense Uri Avnery, autor de uma carta aberta a Barack Obama, o governo de Israel rejeitou a negociação da paz e prefere agir militarmente porque se tornou um Estado militarista, dotado de uma arrogância típica de uma potência ocupante.

A Bíblia conta a história de Sansão, líder hebreu que esqueceu as atribuições de liderança outorgadas por Deus e foi fazer intriga com os filisteus que habitavam em Gaza. Suas peripécias contra seus inimigos retratam a imagem de um homem distante de Deus: táticas terroristas como queimar plantações e demonstrações de força como arrancar o portão de uma cidade revelaram a ineficácia das ações do homem mais forte do mundo.

Prepotência, auto-suficiência e sujeição aos instintos eram os males de Sansão. Arrogância, preconceito e inimizade são os males do Israel contemporâneo.

E nós, os ocidentais, cujos líderes exigem o cessar-fogo em Gaza como quem pede um favor ou uma pizza? Nós, cujos presidentes fecham os olhos para o genocídio em nações sem petróleo e sem filosofia judaico-cristã, como Ruanda, Somália e Palestina? Nós, que nos emocionamos com os filmes sobre o terrível Holocausto perpetrado contra os judeus e não nos comovemos quando se trata do massacre israelense contra os palestinos? Nós que esquecemos rapidamente dos terríveis ataques palestinos aos judeus?

Há ainda aqueles que utilizam a Bíblia como um documento cartorial que concede sesmarias aos donatários judeus, fazendo com que a outrora terra prometida se torne uma terra pró-sionista. Enquanto a tragédia for encoberta com o véu da grande e da pequena mídia, enquanto os líderes de um lado e de outro estiverem cegos pelo olho por olho, enquanto ambos os povos não trocarem a guerra santa pelo santo diálogo, enquanto as outras nações ficarem paralisadas assistindo a morte de crianças, não haverá possibilidade de coexistência pacífica.

Só haverá a imagem de uma terra santa sem paz e a aterradora presença de homens de má vontade.

Acima, foto tirada por celular. Enviada pelo prof. Said Abdelwahed, de Gaza, Palestina para o blog Moments of Gaza .

05 janeiro, 2009

Meninos, eu ouvi


Meu apreço pela arte musical (desde a infância) e pela sétima arte (desde a pós-adolescência) é do tipo que leva a ler a respeito. Conhecer a história de músicos e suas músicos, como elaboravam suas obras, como a sociedade as recebia, tudo isso me levava a um outro patamar de conhecimento. Não superior, apenas mais abrangente. Com o cinema foi a mesma coisa. Eu queria entender o funcionamento de tudo aquilo, do roteiro à edição, da fotografia à cronologia. E claro, entender a música e sua função nos filmes.

Por isso, não entendia como alguns colegas de faculdade ou professores de artes ou de música apreciavam a música brasileira ou americana mais sofisticada ao mesmo tempo em que preferiam os filmes de entretenimento mais simplório. Em poucas palavras, eles diziam apreciar as canções de Chico Buarque, Tom Jobim ou João Bosco, e revelavam preferência pela série Rocky e não gostavam de filmes em preto e branco.

Compreendi que se tratava de uma simples questão de acesso. Eles desenvolveram uma apreciação crítica em relação à música popular, mas nunca tiveram uma educação – formal ou informal – sobre cinema. Não tenho bases empíricas para o que contei. Foi uma experiência que se deu com colegas ou pessoas mais próximas na profissão.

Pode ser uma falha do conteúdo das aulas de educação artística ainda no colégio (a coordenação escolar os vê como animadores e decoradores de eventos). Eu tive sorte e curiosidade. Aí vai uma lista não de melhores, mas de sons e imagens que ofereceram a oportunidade da elevação do espírito e da reflexão – não importa se temperada com narrativa simples ou metáforas complexas.

Meninos, eu vi

Sangue Negro (2007), de Paul Thomas Anderson – o embate e a sociedade entre mercado e religião nos Estados Unidos mostrados com um trabalho de fotografia único e uma trilha sonora fabulosa. Os primeiros vinte minutos não têm um diálogo sequer e são grande metáfora da civilização construída com o domínio da natureza e, infelizmente, com o uso da violência.

Ratatouille (2007), de Brad Bird – poucos filmes possuem um monólogo final tão precioso, aquele em que a soberba se rende à simplicidade (não ao simplório e mal-feito) e se aprende a olhar além das aparências.

O Grande Ditador (1940), de Charles Chaplin – eu já conhecia, mas meus filhos ainda não tinham sido apresentados a um dos grandes criadores da humanidade em qualquer tempo.

A Maçã (1998), de Samira Makhmalbaf – não sou fã do cinema iraniano, mas este é um exemplar que apreciei bastante.

Tempo de Glória (1989), de Edward Zwick – a nobreza de caráter e a firmeza de propósitos não têm cor e nem etnia. A história do primeiro batalhão formado por negros durante a Guerra Civil americana é contada com eficiência, emoção e ótima trilha sonora.

Nashville (1975), de Robert Altman – uma sátira devastadora do culto à celebridade, da vida artificial das estrelas da música e da falta de interesse político dos americanos em plenos anos 70.

Meninos, eu ouvi

Novo Tom ao vivo – arranjos, canções e vozes num sopro de excelência artística.

Cantata Herói da Fé – uma cantata que mereceria aplausos dos espectadores da Sala São Paulo acostumados à erudição musical das obras sacras.

É Proibido Pensar, de João Alexandre – referências pouco sutis à mercantilização da religião e pensamentos de paz e devoção envolvidos por arranjos sóbrios e delicados.

Lida, de Yamandú Costa – com a companhia do violino de Nicholas Krassik e do baixo erudito de Guto Wirtti, o excepcional violonista Yamandú confere virtuosismo às tradições musicais gaúchas.

O site medici.tv oferece concertos gratuitamente por trinta dias (depois, só comprando) . Pude ver a magnificência da lenda viva Pierre Boulez regendo a Orquestra Nacional da França em O Pássaro de Fogo, de Stravinski; assisti também a Sinfônica de Berlim, sob a regência de Simon Rattle tocando a Sinfonia nº 3, de Brahms – não vou esquecer o terceiro movimento, lento e belíssimo, tocado pelas cordas enquanto os outros instrumentistas da orquestra o ouvem com solene comoção.
Abertura Concertante e Sinfonias 2 & 3 de Camargo Guarnieri – álbum prodigioso da OSESP. a qual teve a honra de entrar para o quadro das 20 melhores orquestras do mundo em lista elaborada pela revista especializada Gramophone em fins de 2008.

Sinfonia nº 15, Shostakovich – da irônica citação à abertura da ópera Guilherme Tell ao final fantástico, esta sinfonia é Shostakovich em altíssimo nível (como se ele não operasse sempre em nível alto).

Sinfonia dos Salmos – ao fazer as pazes com o cristianismo, Igor Stravinski entregou uma obra nem sempre fácil de ouvir, mas que certamente expressa sua profissão de fé musical e religiosa.

Happy new year, happy new ‘ears’!

Acima, O celista, de Robert Doisneau