30 julho, 2010

Por que Deus não prova que existe operando milagres hoje?

Richard Dawkins disse certa vez que se encontrasse Deus diria a ele: "Desculpe por não ter acreditado antes. Não havia evidência suficiente". Muitos que não acreditam em Deus exigem provas factuais e evidências palpáveis de Sua existência. Alguns perguntam: se Deus realmente existe, por que ele não faz milagres espetaculares hoje como fazia antigamente?

Mas eu perguntaria de volta: após ver um milagre espetacular ou após Deus revelar-se no céu, as pessoas iriam reconhecer Sua glória, aceitar Seu amor e buscar compreender Seu plano de salvação? Parece que só o fato de Deus revelar-Se não muda muito as coisas. Lembremos do povo de Israel no deserto, que mal tinham passado por um mar miraculosamente aberto, começou a agir como se Deus não existisse. No vídeo, está uma pergunta e o argumento de resposta de William Lane Craig:


27 julho, 2010

brasileiro é tão bonzinho...

Nos tempos da TV à lenha havia um programa humorístico em que uma personagem gringa suspirava e repetia um bordão aos abobalhados admiradores: “Brasileiro é tão bonzinho...”

O piloto Fernando Alonso e o pessoal da Ferrari devem ter pensado algo assim na hora em que Felipe Massa “deixou-se” ultrapassar pelo companheiro de equipe. Aliás, a Ferrari já se valeu do vergonhoso expediente de “pedir” que um piloto que esteja à frente na pista mas atrás nos pontos permita que o colega de equipe o ultrapasse. Foi assim com Michael Schumacher e Rubens Barrichello, lembra? Brasileiro é tão bonzinho...

Jean Charles foi confundido com um terrorista e foi morto a tiros pela polícia londrina numa estação de metrô. Investigações iniciadas, indenizações concedidas, e mais nada. Fosse um súdito da coroa inglesa, fosse um cidadão norte-americano, fosse um turista do G-7 e o negócio não tinha ficado na base do incidente diplomático. Mas apesar do nome francês, Jean Charles era brasileiro, e brasileiro é tão bonzinho!

Apesar de também sermos a terra de Guimarães Rosa, Joaquim Nabuco e Tom Jobim, somos famosos mesmo é pelo futebol e pelo carnaval. Ou seja, tudo é um caso de pelada.

Noves fora as maldades contra turistas estrangeiros, somos bem dóceis com os gringos. Mas eles não nos levam a sério a não ser num estádio ou numa roda de samba. Ou seja, quando não se exige a menor seriedade. Hoje o cenário apresenta mudanças, mas nossas relações comerciais já foram marcadas por informalidade e corrupção com muito mais cara-de-pau. Numa dessas, o presidente francês Charles de Gaulle teria dito que “O Brasil não é um país sério”.

Norte-americanos pelo seu poderio e europeus pela sua civilização nos consideram uma República das Bananas. Argentinos também costumam nos menosprezar, mas é porque muitos deles ainda não perceberam que não têm nem o cetro americano nem a cultura europeia.

A última humilhação pública veio do astro Sylvester Stallone. Sabíamos que o homem era o Cobra. Mas língua de Cobra? Ele pediu desculpas pela ofensa por ter comparado a brava gente brasileira aos macacos. Mas olha que nem os darwinistas gostaram. Também o que esperar de um ator cuja frase lapidar ainda é “Adrian! Adrian!”, dita por um Rocky choroso no distante 1976.

E aí voltamos ao tempo da TV à lenha. E veja que tem gente cujos pensamentos e comportamentos ainda estão no tempo da pedra lascada.


23 julho, 2010

o evangelho no photoshop

Há mais gente querendo ser entretida do que ser edificada dentro das igrejas. Um programinha light, pedem. Uma musiquinha gostosa, gente bonita passando, conversa agradável. Parece praça de alimentação de shopping, mas é nisso que alguns estão transformando o cristianismo. Como aquele sujeito comum que aparece na TV e ganha uma transformação visual completa, o cristianismo está passando por um total makeover. Antes, um Jesus amigo. Depois, um Jesus-é-o-cara. Antes, a cruz me salvou. Depois, sou 100% Jesus. Antes, “Eu Te Amo, meu Mestre”. Depois, “Sou Apaixonado por Jesus”.

É essa perspectiva moderna de alteração da imagem de Jesus que é abordada no livro “Sexy Jesus – Exchanging a beautiful Saviour for an attractive God” (Jesus sexy – trocando um belo Salvador por um Deus atraente).

A resenha editorial do livro diz:
“Sexy Quem?! (...) Deixe-me falar diretamente sobre o mundo cristão do século 21 em que vivemos A verdade é que sem perceber, muitas pessoas fizeram Jesus Cristo um pouco sexy. Em nosso desejo sincero de mostrar um Deus que apela para as massas (e às vezes, até mesmo para nós), temos trocado um belo Salvador por um Deus atraente. Queremos uma religião com o brilho, o glamour, e todos os modismos extras. Queremos um Jesus sexy, fashion. Inconscientemente, queremos que todos os benefícios de um relacionamento com Cristo, sem as etiquetas de preço bíblicas. E o resultado? Encontramo-nos secretamente descontentes com o cristianismo que estamos vivendo. Muitas vezes nos perguntamos, isso é tudo que há num relacionamento real com Cristo?”

Cada época necessita que o evangelho seja adaptado aos meios de comunicação e à linguagem do contexto social. Caso contrário, estaremos falando num idioma ininteligível. A mensagem cristã precisa ser relevante para as novas gerações, precisa fazer sentido. Contextualização é a palavra de ordem. E isso está absolutamente certo.

No entanto, alguns líderes religiosos estão levando essa contextualização ao extremo. Achando que estão facilitando a compreensão da mensagem muitas vezes acabam diluindo o teor da mensagem. Fazem o extremo avesso daqueles pregadores ferozes e fundamentalistas que despejam veredictos e regras a cada culto.

Numa sociedade que faz da beleza exterior a medida de todos os ibopes, passaram um photoshop no cristianismo. Cortamos mandamentos “difíceis”, aparamos as pontas da doutrina. Mas ficou a graça. Aliás, se me permitem, Jesus ficou uma graça. E só.

O evangelho precisa ser atrativo não por causa de uma relação custo-benefício. Ou porque precisa manter a audiência. Entre outras coisas, precisa ser atrativo para ganhar a confiança de nossa geração que desconfia do autoritarismo, dos milagreiros, da monotonia.

Mas não convém alguém querer ser personal stylist de Deus. Torná-Lo pop e atraente pode resultar numa atração imediata que corre o risco de assemelhá-Lo a um ícone do entretenimento. E isso não é tudo que há num relacionamento com Deus.

Mais:

21 julho, 2010

o gospel genérico

Vamos fazer um exercício de honestidade intelectual e espiritual? Selecione 100 das mais populares músicas, “gospel” ou “não-gospel”, cantadas nas igrejas das mais diversas denominações protestantes. As mais populares pérolas da nossa Corinhologia.
Fez a Lista? Muito bem! Agora observe quantas delas um muçulmano não teria problema em cantá-las. Achou várias, não é? Agora veja quantas um judeu se sentiria à vontade entoando. São muitas, não é verdade? Continue com os espíritas kardecistas. Se o eixo das musicas é uma ode à Divindade (Deus, Pai, Senhor, Javé) e a recepção de bênçãos para quem canta, há muito de teísmo, de unitarismo, e os seguidores daquelas religiões não-cristãs não veriam problemas em seu canto, na realidade pan-religioso, mas que transmite muita “energia”, “luz”, “paz”.
Continue com a lista na mão, e procure aqueles em que há a palavra Jesus. Agora pense em nossos “parentes distantes” religiosos, das seitas para-cristãs: Mórmons, Testemunhas de Jeová, os da Ciência Cristã, ou os sincréticos como os do Santo Daime. Eles ficariam à vontade cantando essas músicas de um “Cristo genérico”? Numa boa. Ou seja, como o negócio é alimentar o subjetivo com sentimentos positivos, promover catarse e, até, transe, não há conteúdo doutrinário, com os pilares conceituais do Cristianismo bíblico, apostólico, ortodoxo.
Por outro lado, aquelas músicas que falam de Jesus Cristo, cantadas nas igrejas protestantes, são adotadas, tranquilamente, por católicos romanos ou orientais, porque nelas não há nada de especificamente reformado.
Se não há musicas específicas para o Calendário Cristão (Advento, Natal, Quaresma, etc.), fica difícil harmonizá-las com os temas dos sermões, exatamente porque elas se destinam ao sentir e não ao pensar.
A rejeição aos Hinos históricos não se dá porque eles têm melodias “antiquadas”, mas porque eles são teologia cantada, o que é uma chatice… Ninguém está a fim de refletir, mas de curtir! Como uma igreja é a sua teologia, e é o que ela canta, estamos numa pior.
Mas, os pastores não estão nem aí, pois não querem contrariar a freguesia, nem atingir o que traz resultados. Enquanto isso, uma música recente, que fala em Zaqueu, era tocada em radiolade ficha no “Bar do Zé”, alternada com clássicos de Reginaldo Rossi, enquanto a galera prosseguia em seus exercícios lúdico-erótico-etílicos.
Canta meu povo!

Por Robinson Cavalcanti, publicado originalmente com o título Das heresias no “louvor”.

16 julho, 2010

ide e pregai x ficai e debatei

Como contar a velha e feliz história de um Salvador para um mundo radicalmente diferente do contexto original da história?

Vivemos numa sociedade de valorização das identidades culturais e de defesa dos direitos individuais. Surgem comunidades ou subgrupos que se formam por questões de gostos, interesses ou outras afinidades eletivas. Em nossos círculos estudantis e profissionais convivemos com pessoas de crenças diversas ou de descrença quase total. Alguns deles, nunca tiveram acesso ao conhecimento da Bíblia. Só conhecem a religião pela forma deturpada de evangélicos ajuntando fortunas ilegais, de católicos esfolando o joelho em romarias, de espíritas de novela da TV.

Como atingir pessoas bem-educadas e que argumentam contra a necessidade da religião em nosso tempo? Como alcançar indivíduos que vivem na mais abjeta miséria econômica? Como chegar até uma gente que passa os dias pressionada pelas cargas profissionais, sitiada pelas grades dos condomínios, assaltada pelas ofertas de felicidade da propaganda?

A seara está madura, os ceifeiros estão no campo, e nós aqui discutindo se esse ou aquele versículo condena os instrumentos de percussão, se esse ou aquele trecho corrobora minha interpretação sobre a Trindade, se esse ou aquele corte de cabelo rebaixa a consagração de desconfortáveis bancos de capelas e igrejas. Qual é o nosso chamado mesmo? Ide e pregai ou Ficai e debatei?

Não pense que estou desprezando a importância da pesquisa de temas doutrinários ou de assuntos relativos ao comportamento cristão. Ao contrário, creio piamente que perecemos se não buscamos o conhecimento. Eu mesmo, em meu contrariado anonimato, faço palestras e fico e debato questões de interesse da comunidade cristã.

Examinar estilos musicais e formas de arranjo e composição é válido: o “vale-tudo adoracionista” tende a criar dissensões quando imposto a uma congregação tradicionalmente distinta daquela para a qual foi previamente elaborada. Aprender a discernir a qualidade e a temática dos filmes a que se assiste é válido: ninguém precisa provar de tudo só para reter o que é bom. Estudar a revelação de Deus é sempre válido: é preciso conhecer a fundo a religião a qual se dedica a vida.

A mensagem cristã ainda é a mesma, o cerne da mensagem ainda é o mesmo, mas as estratégias do “ide e levai a mensagem” não poderão ser sempre as mesmas. Há cristãos que precisam gastar mais tempo elaborando novos métodos a fim de que a velha mensagem alcance novas pessoas. Há gente que precisa perceber que certos métodos que arrebanham um enxame acabam trazendo vexame ao evangelho. Outros de nós talvez nem precisemos de um novo método, mas de uma nova, genuína e diária conversão.

14 julho, 2010

volta ao mundo da Copa em 11 notas

Foi uma Copa estranha. Craques consagrados refugaram (Cristiano Ronaldo, Messi, Rooney) e novos craques prevaleceram. A Alemanha jogou como artista, o Uruguai jogou como guerreiro e o Brasil como brahmeiro. A Itália foi embora sem ganhar e a Nova Zelândia foi embora sem perder. Foi uma Copa estranha e eis uma seleção de 11 motivos:

1 – Concerto para Vuvuzela: a tolerância para o ruído é diretamente proporcional à sofisticação do gosto musical. Se a Copa fosse na Dinamarca, a vuvuzela seria declarada como um bem cultural ou como uma máquina de fazer surdo? Quando ouço que o som da vuvuzela é “politicamente correto”, eu saco meus tampões de ouvido.

2 – A vingança é um empate que se come frio: 44 anos depois de ganhar da Alemanha com um gol ilegítimo que só o juiz viu, a Inglaterra perde para a Alemanha com um legítimo gol que só o juiz não viu. A justiça ludopédica falha, mas não tarda.

3 – O locutor que não quer calar: a ira tupiniquim contra o locutor mais famoso do Brasil criou uma tag campeã no twitter, o maldoso #calabocaGalvão, que durou o tempo das passageiras empolgações dos tuiteiros. Rouco como estava, o locutor e fumante inveterado precisava é de #compraumapastilhaGalvão ou #paradefumarGalvão.

4 – Um dia de Fúria: o esplendoroso toque de bola da Espanha deixou os adversários na roda, aliás, a chamada Fúria foi a seleção responsável pela roda de bobinho mais longa da história. No carrossel de Xavi, Iniesta e cia., o gol parece só um detalhe.

5 – Um técnico à beira de um ataque de nervos: Dunga gritando, batendo no chão e mordendo o banco foi a imagem de uma seleção com os nervos em frangalhos. O Brasil fez dois jogos na Copa: bestial no primeiro tempo vencendo a Holanda, uma besta no segundo tempo perdendo da Holanda.

6 – Kaká bad boy: conhecido pela tranqüilidade, o craque evangélico xingou (dizem que, na verdade, falava em línguas estranhas), irritou-se com a marcação dura dos adversários e foi até expulso de campo. Tem colega seu que jura que chegou a ouvir Kaká cantarolando o “rebolation” no chuveiro.

7 – Fraternidade zero: com um técnico mal-humorado que convocava os jogadores baseando-se em mapa astral, os jogadores franceses vagavam sem rumo pelos gramados sul-africanos. Então amotinaram-se. Virou caso de Estado. Mas fraternidade não dá jeito em mediocridade e a França foi eliminada na primeira fase. Saíram da Copa assim como entraram: pela porta dos fundos.

8 – A “voz” do polvo...: o polvo paranormal participou profetizando as partidas. Em conversa de fruto de mar, andam dizendo que a diferença entre a Copa e o Brasil é que o polvo acerta tudo e o lula não acerta nada.

9 – Jabulani, a bola que os homens rejeitaram: Forlán, Xavi, Iniesta, Villa, Muller, Özil e Sneijder demonstravam tanta intimidade com a Jabulani que os outros jogadores ficavam enciumados. No começo, muito jogador odiou a bola. No final, estava claro que, em certos casos, a recíproca era verdadeira.

10 – A mão que balança as redes: se os pés dos jogadores não conseguiam domar a Jabulani, o jeito era apelar para as malícias da mão. Henry levou a França à Copa na mão grande, Luis Fabiano, ajeitando a bola no braço, fez o gol ilegal mais bonito das Copas, e o atacante Luis Suarez fez a maior defesa da Copa ao meter a mão na bola e impedir o gol certo de Gana no último minuto da prorrogação.

11 – Novíssimo Dicionário do Futebol: seleção sul-africana: Bafana Bafana; juiz ladrão: Afana Afana; seleção campeã: Bacana Bacana; seleção que perde os nervos: Banana Banana.

12 julho, 2010

quarteto de um homem só: john williams a capella

Os temas musicais de John Williams cantados a capella por uma só pessoa. É o quarteto de um homem só. Audioveja:


09 julho, 2010

o peregrino na terra no futebol


No sábado, dia 03/6, participei de uma mesa-redonda no programa jovem da IASD Central de Curitiba. O tema: “O futebol e o cristão”. O que falei durante o debate, o que poderia ter falado e outras considerações minhas, resumo a seguir:

Por que o futebol movimenta as massas

Nos anos 1930, o programa nacionalista de Getúlio Vargas legitimava oficialmente práticas populares como vértices da identidade brasileira, como o samba e o futebol. A facilidade de praticar e a identificação nacionalista somaram-se à maciça cobertura das mídias. Tem mais: a rivalidade clubística dos primeiros anos do futebol vinha das origens sociais de cada clube, instalados em bairros social e economicamente distintos.

A prática do futebol exige pré-requisitos mínimos: o tamanho do campo depende do número de jogadores (onde houver 2 ou 22 reunidos ali rolará uma partida), um par de chinelos é suficiente para se fazer uma trave e basta uma esfera não satisfatoriamente esférica, mas plenamente chutável. Como era um esporte pronto para ser praticado por quem não podia frequentar os locais onde a turma burguesa de Charles Muller jogava sua bolinha, o futebol logo se tornou o favorito das multidões.

Futebol e política

Alguém sugeriu durante o debate que um dos problemas do futebol é que ele distrai as pessoas dos problemas sociais do país. Sim, o futebol entretém mesmo. Durante a Copa de 1970, a festa pelo triunfo do Brasil camuflou as ações violentas da ditadura. Mas as pessoas não se afastam dos problemas vitais. Aliás, são os políticos e muitos professos educadores que afastam as pessoas das discussões, não lhes oportunizando meios intelectuais de debater os problemas.

É certo que os anos de João Havelange na presidência da FIFA e de seu cunhado Ricardo Teixeira na CBF enredaram o futebol numa escalada de corrupção sem precedentes. Denúncias são feitas, mas tamanha é a troca de favores entre os tubarões do futebol e da política que todas as denúncias não dão em nada. A Copa de 2014 servirá para o entretenimento de muitos e enriquecimento de poucos.

Futebol é vício?

O futebol seria a versão esportiva do “ópio do povo”? Sim, quando se vende os bens por um ingresso. Não, pois não somos um bando de autômatos passivos e não-reagentes. Nossa população, em sua maioria, encontra difícil acesso aos tratamentos de saúde, à moradia, está exposta à insegurança no emprego e à violência, conta com poucas escolas realmente boas, enfim, trata-se de uma nação economicamente retalhada entre muito ricos e muito pobres, com uma classe média fazendo malabarismos para fazer o salário chegar até o fim do mês. E ainda chamamos sua diversão preferida de vício.

Futebol como religião

Em vez de vício, muitos torcedores vivem o futebol como se fosse uma religião. Todavia, o futebol funciona como um culto, um “culto pagão”: tem seus ídolos, seus hinos, sua comunidade, seus torcedores prometem autossuplícios, clamam por intercessão agora e na hora do nosso pênalti, apelam para sortilégios e dão suas ofertas em troca de acessórios e badulaques do seu time.

Quem assiste futebol financia a corrupção

Essa é uma ideia que serve a qualquer opinião contra determinada prática. Por exemplo, quem assiste filmes financia o cinema e a degeneração dos atores; quem vai ao shopping financia o consumismo; quem compra carros financia a indústria do petróleo, e assim por diante até chegar ao niilismo total de uma volta às cavernas. A maioria dos torcedores tem consciência das maracutaias dos dirigentes. Mas eles dizem que os cartolas não representam a grandeza do clube. Eles também veem jogadores defendendo seu clube só pelo dinheiro, mas ele mesmo, o torcedor, também troca de emprego quando a proposta é melhor. O jogador passa, mas o clube fica.

Se levarmos a ferro e fogo a consideração de que quem assiste futebol financia a corrupção, logo alguém dirá que quem frequenta igrejas financia o enriquecimento dos seus líderes. Corrupção, em graus diferenciados, há em qualquer instituição, assim como também são diferentes os graus de punição dos envolvidos. Mas o sentido da religião e da igreja está acima dos fiéis (e dos infiéis).

A paixão no futebol

Há torcedor que chora pelo time eliminado como se tivesse perdido a mãe e há aquele que só assiste ao jogo e vai dormir sem transtorno algum. No estádio, o torcedor, garantindo-se na segurança de um grande grupo, dá vazão a expressões e sentimentos reprimidos. Faz coisas que sozinho não teria a insensatez de fazer. Mas um torcedor fanático é capaz de transformar sua casa num estádio, seu sofá numa arquibancada: ele se deixa torturar quando seu time está jogando mal, grita com os jogadores, com o técnico, manda o locutor calar a boca, vai da disforia à euforia (e vice-versa) em poucos minutos. Jogado aos pés da TV, o torcedor é mesmo um exagerado.

O cristão e o futebol

Há quem diga que um jogo de futebol entre cristãos pode ser uma porta de entrada para para pessoas que não conhecem a igreja. Desculpe, não recomendo esse ambiente. No calor da disputa, já vi mau testemunho de todo tipo: diáconos aos berros, pastores tosqueando a perna das suas ovelhas. Alguns logo se perdoam, outros viram inimigos. Como ser um mensageiro da esperança se vendo minha fé em troca de um prato destemperado de 90 minutos de contendas?

O cristianismo deve perpassar as atividades esportivas também, senão seremos engolfados pela maneira de torcer de filisteus e pelo modo de jogar de amalequitas. Os cristãos precisam aprender a ganhar sem soberba e perder com mansidão.

Leia também:

A pátria evangélica de chuteiras

O futebol é uma caixinha de cerveja

Kaká e a religião do futebol

02 julho, 2010

Leonardo Gonçalves e a Sony Gospel Music


A Sony Music, plugada nas novas configurações do mercado fonográfico, abriu uma linha de produção de música gospel. A Sony quer pregar o evangelho do reino a todo o mundo? Claro que não. A Sony quer mais gente comprando os CDs que produz. Isso tem pouco de ética protestante, mas bastante do espírito do capitalismo.

Em entrevista à revista Rolling Stone Brasil (ed. 42), Alexandre Schiavo, presidente da Sony, disse: “Em 12 meses, estaremos entre as 3 maiores gravadoras do segmento [gospel] e espero que alcancemos a liderança em pouco mais de 2 anos”. É uma frase que poderia ser dita como aposta na produção de qualquer produto, de sapato a sabonete. Mas só a Sony tem a ganhar com essa empreitada?

A caixa registradora da Sony está interessada no potencial de lucro que determinado cantor tem dentro de um nicho de mercado. Por isso, além de contratar um experiente produtor do ramo gospel, Maurício Soares, investiu na diversidade musical gospel – Aline Barros, Marcelo Aguiar (sertanejo), DJ Alpiste (rap), Banda Resgate (rock). O ramo gospel será também uma forma de manter-se no combalido setor fonográfico.

A Sony contratou também o cantor adventista Leonardo Gonçalves, cujos dois primeiros trabalhos, os CDs “Poemas e Canções” e “Viver e Cantar”, primam pela excelência das letras e dos arranjos instrumentais.
Claro que a Sony não contratou Leonardo por causa de sua idoneidade teológica. A empresa apenas percebeu o potencial de lucro que pode auferir com o talento vocal do cantor. Por isso, duas perguntas não querem calar:
1) Leonardo conseguirá manter a densidade teológica dentro de um mercado notório por sua superficialidade bíblica e penúria poética?
2) O cantor terá suficiente autonomia artística para não ser obrigado a relativizar seus posicionamentos doutrinários a fim de atender um público mais amplo?

Embora uma gravadora multinacional não deixe de interferir nas produções em que investe suas finanças, segundo Leonardo Gonçalves, há uma cláusula em seu contrato que lhe concede liberdade artística individual. A subvenção econômica não significará submissão criativa.

Não há respostas prontas para as duas questões acima. Apesar de muita gente achar que tem. Uns dizem que Leonardo está vendendo sua fé a uma marca comercial, como se ele fosse um mercador barato da religião. Calma, não podemos demonizar as práticas comerciais, pois delas dependem as vendas de Bíblias, hinários, livros denominacionais, suco e marca-páginas.

Outros creem que o contrato de Leonardo Gonçalves será uma trombeta escatológica anunciando a boa nova a toda língua, tribo e nação. Calma, vale lembrar que a maioria dos consumidores de produtos gospel são os próprios evangélicos.

Leonardo Gonçalves, um cantor de técnica vocal apurada, demonstra bom gosto na escolha do repertório, não pula nem se sacode “em nome de Jesus”, não manda o crente “tirar o pé do chão”, não faz "unção" de acessórios como bonés, bottons e agendas, enfim, é um cantor cujas atitudes não endossam o culto à personalidade que grassa no mercadão gospel. Por isso, espera-se que permaneça fiel aos seus princípios musicais e também aos princípios bíblicos que professa.

A Sony pretende distribuir mundialmente seu aguardado CD de músicas judaicas e lançar seus CDs em versão hispânica. Leonardo pode se tornar o nome adventista mais conhecido em nosso tempo. E o cantor tem demonstrado ser alguém consciente do aumento de sua responsabilidade.

Se um escritor adventista recebesse uma proposta de publicação de seus livros por uma editora secular multinacional, haveria nisso contradição? Personagens bíblicos e figuras modernas atuaram com nobreza de propósitos e firmeza de princípios em altas posições políticas e em diferentes círculos culturais. Penso que devemos ter em mente que Leonardo Gonçalves recebeu a mesma missão dos apóstolos, “ide e pregai”. Os métodos é que são outros.

O cantor tornou conhecida uma canção chamada "Brilhar por Ti". Cristãos e não-cristãos estarão vendo esse brilho. Que ele possa atuar como uma "luz do mundo" refletindo uma mensagem de esperança e que ele continue permitindo que a verdadeira Luz possa modelar sua arte.