13 agosto, 2018

a malandragem de por a culpa na raça


Essa foto antiga de um elegante ancião negro é provavelmente a última fotografia em vida do maior dos escritores brasileiros: Machado de Assis. Na época, ele era o presidente da recém-fundada Academia Brasileira de Letras e havia publicado algumas obras-primas. Mas... para algumas pessoas, a grandeza literária e a dedicação ao trabalho não caracterizam a etnia de Machado. Para elas, deve ter havido malandragem no caminho...
Se a fala recente do general Hamilton Mourão distinguindo a malandragem como um componente típico dos africanos, e por tabela, dos afro-brasileiros, lhe parece reacionária e coisa de um passado vergonhoso, lembre que esse pensamento ainda representa muita gente.
Essas atitudes que reduzem etnias a uma categoria cultural negativa estão fortemente enraizadas no nosso tal “Brasil cordial”. Veja o que escreveram o crítico literário José Veríssimo e o embaixador Joaquim Nabuco sobre Machado de Assis quando o escritor faleceu em 29 de dezembro de 1908.
Veríssimo, no Jornal do Commercio: “Mulato, foi de fato um grego da melhor época, pelo seu profundo senso de beleza, pela harmonia de sua vida”.
Nabuco, em carta-resposta: “Eu não teria chamado o Machado de mulato (...). O Machado para mim era um branco, e (...) quando houvesse sangue estranho, isso em nada afetava a sua perfeita caracterização caucásica. Eu pelo menos só vi nele o grego”.
Foi preciso buscar no distante ideal grego um modelo para encaixar o grande romancista, contista, cronista e jornalista que foi Machado de Assis, e assim, negando-lhe a cor associada à “malandragem”, caracterizá-lo como “negro de alma grega” ou somente como “branco”.

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A foto anexada foi recém-descoberta pelo pesquisador Felipe P. Rissato, que a encontrou na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional da Espanha em uma matéria intitulada “Homens públicos do Brasil” publicada pela revista argentina Caras y Caretas, n. 486, de 25 de janeiro de 1908. A revista não informa a data da foto e nem o contexto. A legenda original diz: “El escritor Machado de Assis presidente de la Academia de la Lengua Brasileña”.

13 junho, 2018

a generosidade não está nos manuais


Corre na internet o vídeo em que um segurança impede que um cliente pague um almoço para uma criança que vendia chiclete no shopping. Nele, vemos duas formas de violência em estado bruto.
1) Uma criança pedindo (e não comprando, como é regra dos nossos shoppings) comida. E numa situação de viver da caridade de quem lhe detesta, uma criança com fome é a primeira violentada.
2) Um segurança que obedece cegamente ao manual de conduta dos nossos shoppings. E sob a condição de perder o emprego caso não cumpra zelosamente o manual, ele se obriga a perder a compaixão, a compostura, a humanidade.
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Quanta violência já não foi cometida por pessoas que não hesitam em dizer "estou apenas cumprindo o meu dever"?
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Mas nesse mesmo vídeo, "tanta violência, mas tanta ternura", como nos versos de Mário Faustino. O cliente resiste e vai "cometer" ali um "crime de generosidade". Oferecer um prato de comida a quem pede é uma violação do manual do shopping. Vai ver os proprietários temem que a generosidade se espalhe e uma horda de famélicos invada seu latifúndio.
Antes invadissem mesmo. E nos esfregassem no rosto nossa insensibilidade, nossa má vontade, nossas vis prioridades, já que os filmes, os bestsellers, as canções populares e os púlpitos, meu Deus, até os púlpitos não nos transtornam nem transformam, mas apenas nos contam histórias antes de irmos passear nos nossos shoppings enquanto o sono não vem.

Mas, divago.

Minha admiração por todos aqueles que vão além do manual, além do seu dever, e doam, pagam, partilham, adotam. São esses que diminuem o clamor de crianças violentadas.

05 junho, 2018

los perfeccionistas musicales: quando os jovens cantam


Certo dia, um grupo de perfeccionistas musicais veio até o mestre trazendo alguns desbravadores e jovens que estiveram num encontro cristão na Amazônia. Um dos principais do grupo disse:
- Mestre, estes jovens foram vistos cantando e pulando ao som de tambores. Cumpra-se, então, o manual.
Respondeu-lhes o mestre:
- Não são estes jovens os mesmos que estão estudando e trabalhando pela sua fé enquanto vós dormis a tarde inteira do sábado e acordais mais tarde na manhã de domingo?
O mestre seguiu lhes dizendo:
- Arregalai vossos olhos quando os mais jovens se excedem por poucos instantes ao som de uma música mais empolgante e fechai vossos olhos para o fato de que as festas religiosas que vossos pais também realizavam fora do templo eram muito mais animadas com adufes, pandeiros e danças. E digo-vos, ainda: Há entre vós mestres e doutores que criam músicas e revistas distintas para cada idade, mas que também criam somente discórdia e falso pânico quando crianças e jovens agem distintamente conforme a idade que possuem.  
Um a um, os perfeccionistas musicais começaram a se retirar contrariados, pois amavam mais a letra da tradição do que a um de seus jovens irmãos.

01 junho, 2018

Sabedoria x Estupidez nestes dias maus

"Nas minhas reflexões sobre estes tempos que vivemos no Brasil e a necessidade cada vez mais crescente de humanização e de paz, deparei-me com o ensaio "As Leis Fundamentais da Estupidez" [escrito pelo professor da Universidade da Califórnia em Berkeley (EUA), o italiano Carlo Cipolla, em 1976]. Com ele, veio a compreensão de que o que estamos vivendo em nosso país é a estupidez humana tornada pública em tal nível que ganha ares de triunfo pela visibilidade que as mídias digitais lhes proporcionam.
"Digo isto baseada na Terceira Lei Fundamental da Estupidez, que Cipolla chama de Lei de Ouro. É a própria definição do termo, muito mais profunda do que a que eu vivenciava: UMA PESSOA ESTÚPIDA É UMA PESSOA QUE CAUSA UM DANO A UMA OUTRA PESSOA OU GRUPO DE PESSOAS, SEM, AO MESMO TEMPO, OBTER QUALQUER VANTAGEM PARA SI OU ATÉ MESMO SOFRENDO UMA PERDA.
"Sim! Pedir intervenção militar num país cujas feridas dos 21 anos de ditadura militar ainda estão abertas, e que ainda sofre com práticas herdadas daquele período, é buscar causar mais dano a esta população sofrida, e prejuízo que pode se abater sobre as próprias pessoas que o demandam. 
[...]
"A Quarta Lei Fundamental da Estupidez também contribuiu nas minhas reflexões: AS PESSOAS NÃO ESTÚPIDAS SUBESTIMAM SEMPRE O POTENCIAL NOCIVO DAS PESSOAS ESTÚPIDAS. Com esta lei, emerge o alerta de que somos geralmente levados a acreditar que uma pessoa estúpida faça mal somente a si própria, mas isto significa, para Cipolla, “enfrentar a estupidez com a ingenuidade”. Como visto acima, o dano causado pela estupidez é coletivo.
"Cipolla expõe o desafio da busca da sabedoria (inteligência) para contrapor a estupidez. Para ele, os sábios 'são os que agem em busca de benefícios para as demais pessoas e grupos sociais e incluem a si próprios'.
[...]
"Na Bíblia cristã são muitas as expressões poéticas e de sabedoria popular que desafiam o tema, correspondendo ao que o italiano Carlo Cipolla indica. Compartilho algumas:
'Até quando, Senhor, os perversos, até quando exultarão os perversos? Proferem impiedades e falam coisas duras; vangloriam-se os que praticam a iniquidade. Esmagam o teu povo, Senhor, e oprimem a tua herança. Matam a viúva e o estrangeiro e aos órfãos assassinam. E dizem: O Senhor não o vê; nem disso faz caso o Deus de Jacó. Atendei, ó estúpidos dentre o povo; e vós, insensatos, quando sereis sábios?' (Salmos 94.3-8).
'Os sábios entesouram o conhecimento, mas a boca do estúpido é uma ruína iminente' (Provérbios 10.14)
'AS PALAVRAS DOS SÁBIOS, OUVIDAS EM SILÊNCIO, VALEM MAIS DO QUE OS GRITOS DE QUEM GOVERNA ENTRE ESTÚPIDOS' (Eclesiastes 9.1)
Ao final deste artigo compartilho que seguirei nas minhas reflexões, buscando superar a perplexidade, na trilha de ações baseadas na sabedoria cristã humanizante, pacificadora, misericordiosa e amorosa, incluídos os espaços digitais. Uma inspiração são as palavras do apóstolo Paulo:
'Desperta, ó tu que dormes, levanta-te de entre os mortos, e Cristo te iluminará. Portanto, vede prudentemente como andais, não como estúpidos, e sim como sábios, remindo o tempo, porque os dias são maus' (Efésios 5. 14-16)."

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Texto da Magali Cunha na sua coluna semanal Diálogos da Fé, no site da Carta Capital
O texto completo você acessa aqui: https://goo.gl/gwYFT1
"As Leis Fundamentais da Estupidez": http://leisdaestupidez.blogspot.com/

05 maio, 2018

Louvor Congregacional - parte 1: o som dos cultos


Antes da reforma musical de Martinho Lutero e João Calvino no século 16, quem ia à igreja raramente cantava. A parte musical era desempenhada exclusivamente por profissionais, que, além de tudo, cantavam num idioma desconhecido para a maioria das pessoas (o latim), enquanto a congregação praticamente só assistia à missa. Alguns reformadores protestantes devolveram a música de louvor e adoração para a congregação, e hoje ninguém imagina entregar o ato de louvor para um corpo profissional de “adoradores”.

No entanto, às vezes levamos o louvor congregacional de volta aos tempos anteriores à Reforma. Isso acontece por alguns motivos, dentre os quais destaco: (1) o volume alto da banda e das vozes que acompanham o momento de louvor e (2) o desconhecimento dos cânticos, tradicionais ou contemporâneos, selecionados para os cultos.


Aumentar o volume dos instrumentos musicais não vai aumentar o espírito de louvor da congregação. Como já sabemos, a igreja não vai tentar cantar mais forte que o som da banda (ou do playback), não importa quantas vezes o líder de louvor repita: “Cantem com todo entusiasmo!”. Dessa maneira, tudo o que teremos é música tocada em volume alto.

Nós, músicos e cantores, queremos que a igreja participe do louvor e que se envolva no canto. No entanto, pegamos cinco instrumentistas e dez cantores, todos com microfone, todos amplificados nas caixas de som, e depois reclamamos que a igreja continua sem cantar. Um problema pode estar no espírito de louvor que o indivíduo traz para o culto. Mas você já parou para pensar que outra razão para a igreja não cantar conosco pode estar no volume das vozes e da banda?

Acho muito bonito quando um grupo de pessoas canta o louvor a três ou quatro vozes. Mas, e a voz da congregação? Muitas vezes a voz da igreja é ouvida apenas na última estrofe ou no último refrão.
Com base em uma carta de Ellen White, alguns defendem que o louvor deve sempre ser dirigido por um grupo de cantores. Um dos parágrafos diz: “Escolha-se um grupo de pessoas para tomar parte no serviço do canto” (Carta 170, de 1902). Particularmente, acho uma ótima ideia envolver mais pessoas e tornar o momento de louvor congregacional mais harmonioso e bem realizado. No entanto, na época dessa carta, não havia caixas amplificadas, sistemas de som estéreo nem microfones para os cantores. Mal havia hinários disponíveis para todos. Então, um grupo de pessoas, de bons cantores, parecia bem adequado para conduzir todos no canto.


A participação de um grupo de pessoas no louvor congregacional não é indesejável. O problema está no alto volume dos microfones, o que faz com que seja difícil escutar a voz da congregação. Às vezes, a pessoa não consegue escutar a própria voz. Isso inibe a participação da igreja que, em vez de participar, passa a assistir ao louvor.

Desse modo, quando a música não é bem conhecida de todos, seja uma música proveniente do hinário ou dos DVDs contemporâneos de louvor, e quando o som das vozes e dos instrumentos musicais está alto demais, a congregação acaba terceirizando o louvor para um grupo seleto de pessoas. Infelizmente, quando essa conjunção de fatores acontece, recuamos aos tempos anteriores à Reforma.

Como podemos equalizar a participação de músicos, cantores e membros da congregação? Seguem algumas dicas:
  1. Não intensifique demais o volume dos instrumentos. Procure equilibrar o instrumental das bases rítmica e harmônica de modo a não sufocar as vozes e nem os instrumentos que dão o “chão” da tonalidade e da harmonia, como o violão e o piano.
  2. Evite solos durante as frases cantadas pela congregação. Não importa se você está tocando piano, guitarra ou saxofone. Estude a música que você vai acompanhar e selecione alguns trechos para reforçar a melodia e outros em que você possa fazer um contracanto à melodia, como as partes entre as frases cantadas.
  3. Instrua a equipe de louvor a controlar a intensidade da voz e/ou a distância em relação ao microfone. Uma boa qualidade das caixas de retorno também ajudam a equipe a se ouvir e, assim, evitar cantar forte demais. Outra alternativa é variar a quantidade de cantores: pode haver grupos de 8 pessoas, mas também grupos de 2 ou 3 cantores.
  4. Nossa equipe de louvor não está à frente da igreja para cantar mais alto que todos, nem para mostrar como se deve louvar, mas para apoiar, orientar e conduzir as vozes da congregação. No final da carta que citamos acima, Ellen G. White disse: “Nem sempre o canto deve ser feito apenas por alguns. Permita-se o quanto possível que toda a congregação dele participe”.
Somos chamados a cantar e tocar de todo o coração e de todo o entendimento, e não de todo volume. Vamos organizar, apoiar e orientar os momentos de louvor para que a igreja se sinta confortável e estimulada a participar também de todo coração e entendimento. Não nos esqueçamos de que o louvor é congregacional.

* Com este texto, inicio uma série de artigos sobre louvor congregacional. Espero contribuir para o crescimento e desenvolvimento dos ministérios de música da igreja.


05 abril, 2018

quando Martin Luther King discursou numa universidade adventista

Martin Luther King foi assassinado há 50 anos, em 4 de abril de 1968. Seu ativismo social pacifista transformador e o poder de seus discursos são bem conhecidos e estão eternizados em vídeos, livros e filmes [recomendo o ótimo "Selma"].
O que eu ignorava até outro dia é que o Dr. King esteve em Oakwood College, universidade adventista, em 19 de março de 1962 e proferiu um discurso semelhante ao famoso "I Have a Dream" [Eu tenho um sonho], feito em 1963 durante a Marcha sobre Washington.
Quando Luther King foi à cidade de Hunstville, o único lugar em que poderia discursar era a Oakwood College, instituição adventista criada em 1896, no Estado do Alabama, para proporcionar acesso à educação aos jovens negros do Sul dos Estados Unidos [vale lembrar que se tratava do mesmo Alabama em que Luther King liderara em 1955 um boicote aos ônibus da cidade de Montgomery].
O Prof. Dr. Mervyn Warren lecionava em Oakwood e lembra do impacto da presença de Luther King: "Ele falava como a consciência da nação". O professor Warren não somente guardou lembranças daquele dia, como o programa assinado pelo Dr. King e trechos gravados do discurso proferido, mas fez de King sua pesquisa de doutorado e tema de seu livro, "King Came Preaching: The Pulpit Power of Dr. Martin Luther King Jr.".
Na placa que homenageia aquela ocasião, lê-se: "O Dr. Martin Luther King discursou aqui pelos direitos civis em 1962. Devido à situação da época, o auditório N. E. Ashby foi o único local disponibilizado para o Dr. King [...]"
Em séculos de cristianismo, se encontrarão histórias de silêncio e até colaboracionismo com atrocidades, mas também relatos de corajoso envolvimento em favor da justiça social. Martin Luther King foi um desses cuja cosmovisão cristã ressoava o "abre a boca em favor dos que não podem se defender, seja o defensor dos desamparados" (Provérbios 31:8).

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- O professor Mervyn Warren é pai do produtor musical Mervyn Warren, multipremiado no Grammy.
- Acima, placa comemorativa da presença do Dr. King em Oakwood.

- Abaixo, programa do evento assinado por Martin Luther King:

- Dr. King discursando no ginásio da universidade (posterior auditório N. E. Ashby):

- Matéria da Adventist Today sobre o evento de Oakwood em 1962, aqui.
- Livro "King Came Preaching", disponível na Amazon, aqui.
- Sobre a fundação de Oakwood College, aqui.

22 fevereiro, 2018

los perfeccionistas musicales #3: decadência musical

- Mestre, quem é o culpado pela decadência musical: o cantor, o mercado ou a mídia?

Respondeu-lhes o mestre:

- Nenhum destes, e sim, vocês mesmos que ensurdecem os artistas, beijam a mão invisível do mercado e assentam diante do trono da mídia. Porque nisto verdadeiramente consiste a decadência: que as pessoas não vão ouvir música, mas venerar seus ídolos.


o adventista Little Richard

Foi num sábado que faleceu aos 87 anos o mais famoso ex-aluno da universidade adventista Oakwood College: o cantor Little Richard. Ele ...