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Mostrando postagens de Julho, 2008

cem palavras: para que serve a música

“A música não deve ser praticada por um só tipo de benefício que dela pode derivar, mas por usos múltiplos, já que pode servir para a educação, para proporcionar a catarse e, em terceiro lugar, para o repouso da alma e a suspensão das fadigas”.
(Aristóteles, Arte Poética).
Além do papel educativo da arte, há também a concepção de arte como expressão, em que, nas palavras de Marilena Chauí, “as artes transfiguram a realidade para que tenhamos acesso verdadeiro a ela”.

(Convite à filosofia, 1997, pp. 323-325)

Fábulas menores de moral mínima - 4

Anunciado nas fanáticas garagens paulistanas: “o rodízio de carros e caminhões será modificado mais uma vez. Agora será assim: casados na quarta, solteiros na quinta e corintianos na segunda”.

Isso não é nada perto da nova mania nacional: depois do rodízio de pizza e do rodízio de carros e caminhões, chegou o rodízio de presos. Como funciona: a criatura é presa de manhã, solta à tarde e volta na manhã seguinte para sair à noitinha. Sem essa modalidade organizacional, a prisão de Salvatore Cacciola seria humanamente impossível, convenhamos. Tudo o que o país não precisa é de uma rebelião nas penitenciárias por causa de dois banqueiros presos. Afinal, dois banqueiros presos já é superpopulação carcerária.

Esse estado de coisas inspira cuidados e também mais uma fábula menor de moral mínima:

A FANTÁSTICA FÁBRICA DE FRUTAS

Numa cela de um reino não tão-tão distante, dois alegres banqueiros discutem para ver quem tem o habeas corpus mais bonito.
- O meu é timbrado com as cores de um país tropic…

Música Impopular

Vassily Kandinsky, no ensaio “On the Spiritual in Art”, de 1910: Nossa alma, que somente agora acorda de um longo período de materialismo, oculta dentro de si as sementes da falta de esperança, de fé e de sentido. O pesadelo dos ideais materialistas ainda não passou, ideais que fizeram uma piada maldosa e sem graça do universo. A alma que desperta ainda se encontra sob a influência deste pesadelo.

Kandinsky acreditava que o despertar da alma do pesadelo do materialismo dependia de artistas que resistissem à dominação e ao determinismo do mundo exterior, descobrindo seus próprios mundos de valores estéticos intrínsecos. O principal interesse de Kandinsky era a arte visual, mas ele era um pianista e violoncelista amador, mas voltou-se à música, “a mais não-material das artes”, como fonte de inspiração:

A esse respeito, a música é a mais instrutiva das artes. Com algumas exceções e divergências, a arte musical jamais é um meio que reproduz ilusoriamente um fenômeno natural. Ao contrário, …

As loucuras dos tempos modernos

Em As Loucuras de Dick e Jane, o casal Jim Carrey e Téa Leoni tenta manter o elevado padrão de vida que tinham antes de ficarem, os dois, desempregados. Pelo título, o filme parece apenas um veículo de celebração das mímicas de Carrey. Mas não é. E o que vou dizer pode ser um anátema para alguns: esse filme é um divertido mas contundente painel da ganância e do espírito de competição gerados pelo capitalismo mais selvagem. Sobram farpas para a vaidade dos executivos, para a impessoalidade no trato com os funcionários, para o exibicionismo dos endinheirados (veja a disputa masculina por carrões), para a especulação das bolsas financeiras.

O casal demora a cair na realidade da pobreza, mas quando percebe, já está caindo também nas armadilhas do crime. Mas o casal 'novo-pobre' não começa a assaltar porque a pobreza os levou àquela situação de penúria, mas também para manter a aparência de família bem-sucedida. Sai a fácil explicação do sociologiquês mais barato – o de que o pobr…

As mensagens nada subliminares do rock

Diogo Mainardi, colunista de Veja, falou recentemente num podcast sobre a presença de mensagens subliminares demoníacas no rock dos anos 70. Uma das canções com recados satânicos seria a popularíssima Hotel California, dos Eagles. Como de praxe, a mensagem não aparece de forma linear numa frase cantada e só pode ser ouvida com o recurso da audição em reverso. Só com muita boa (ou seria má?) vontade pra entender o que Mainardi ouviu. E se você não souber de antemão o que supostamente está sendo dito, duvido que consiga descobrir o que está soando. Mainardi abusa do artifício grotesco de um modelo de mensagem subliminar que não encontra respaldo nos círculos de estudos mais sérios. 

Os “teóricos” da mensagem subliminar são como aqueles que crêem em discos voadores: eles enxergam exatamente aquilo que querem ver. Assim como balões, aviões e meteoritos (e até pratos de porcelana) tomam forma de espaçonaves de turistas alienígenas, diversas canções seriam manipuladoras da mente humana. É …

Babado novo em odres velhos

Para começar, uma fábula menor de moral mínima: Há muito tempo, ainda no século passado, Manoel Castro e Cal Adan esfregaram uma lâmpada e fizeram um pedido ao gênio de todas as festas: que eles fossem empresários de uma banda de muito sucesso. Seu desejo foi atendido e surgiu o É o Tchan. Surpreendentemente, ambos continuaram soltos por aí. Sendo assim, os dois empresários reincidiram e criaram o grupo Babado Novo. Cuidado, eles ainda têm um terceiro e último pedido a fazer, embora o gênio festeiro, aproveitando que está na terra das leis casuístas e dos abadás, já deva ter votado e alterado a lei dos três pedidos.

* * *
A indústria da axé-music continua crescendo. Quando Daniela Mercury começou a cantar que A cor da cidade era ela em decibéis supersônicos acabou-se o sono dos justos. Decibel é uma unidade de audição. Bel é como se chama o líder da banda Chiclete com Banana. Pondere o amigo, a amiga. Se um Bel já é uma indigência sonora, o que dizer de decibéis, ou seja, Bel elevado à …

Te Vejo Poeta

Te vejo Poeta quando nasce o dia
E no fim do dia, quando a noite vem
Te vejo Poeta na flor escondida
No vento que instiga mais um temporal
Te vejo Poeta no andar das pessoas
Nessas coisas boas que a vida me dá
Te vejo Poeta na velha amizade
Na imensa saudade que trago de lá
Contudo um poema, Tua obra de arte
Destaca-se à parte numa cruz vulgar
Custando o suplício do Teu Filho amado
Mais alta expressão do ato de amar

Certa vez, a crítica teatral Barbara Heliodora disse que as únicas imagens que não podiam ser criticadas eram as imagens reais da natureza. “Ninguém vê um pôr-do-sol e diz: ah, este pôr-do-sol está muito acadêmico”. De fato, para criticar a natureza é preciso níveis absurdos de rabujice. E quando falo natureza me refiro ao que o ser humano ainda não conseguiu destruir com seu mau gosto: a formação das nuvens, a alvorada, uma colina, uma árvore.

Os céus proclamam a glória da criação, cantava Davi, o rei-poeta, quando, maravilhado, ficava a pensar nas obras das mãos criadoras de Deus. Os…