31 julho, 2008

cem palavras: para que serve a música


“A música não deve ser praticada por um só tipo de benefício que dela pode derivar, mas por usos múltiplos, já que pode servir para a educação, para proporcionar a catarse e, em terceiro lugar, para o repouso da alma e a suspensão das fadigas”.
(Aristóteles, Arte Poética).

Além do papel educativo da arte, há também a concepção de arte como expressão, em que, nas palavras de Marilena Chauí, “as artes transfiguram a realidade para que tenhamos acesso verdadeiro a ela”.

(Convite à filosofia, 1997, pp. 323-325)

29 julho, 2008

Fábulas menores de moral mínima - 4

Anunciado nas fanáticas garagens paulistanas: “o rodízio de carros e caminhões será modificado mais uma vez. Agora será assim: casados na quarta, solteiros na quinta e corintianos na segunda”.

Isso não é nada perto da nova mania nacional: depois do rodízio de pizza e do rodízio de carros e caminhões, chegou o rodízio de presos. Como funciona: a criatura é presa de manhã, solta à tarde e volta na manhã seguinte para sair à noitinha. Sem essa modalidade organizacional, a prisão de Salvatore Cacciola seria humanamente impossível, convenhamos. Tudo o que o país não precisa é de uma rebelião nas penitenciárias por causa de dois banqueiros presos. Afinal, dois banqueiros presos já é superpopulação carcerária.

Esse estado de coisas inspira cuidados e também mais uma fábula menor de moral mínima:

A FANTÁSTICA FÁBRICA DE FRUTAS

Numa cela de um reino não tão-tão distante, dois alegres banqueiros discutem para ver quem tem o habeas corpus mais bonito.
- O meu é timbrado com as cores de um país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza – enfeita um deles.
- O meu é um primor de redação e ortografia – diz o outro.
- O meu foi escrito em três línguas: a da polícia, a dos advogados e a do juiz.
- Pois com o meu não tive que usar algemas.
Quando a discussão perigava degringolar para o baixo calão dos termos técnicos e jurídicos, a discussão foi encerrada com o mavioso som da voz do oficial de soltura, que dizia a um deles:
- Você está livre.
- Peraí! – disse o que ficava. – Você não foi preso pelo famoso policial BAN-ANA, o que prende sem dó?
- Isso mesmo – respondeu o feliz ex-prisioneiro. – Mas quem leu meu habeas corpus foi o juiz MA-MÃO!
De noite, o banqueiro que ainda estava preso não conseguia entender a saída do companheiro de cela e profissão. Por certo, como estivera tanto tempo escondido em outro reino, esquecera-se das virtudes das frutas tropicais e da sabedoria medicinal das vovós: se banana prende, mamão solta.

Moral mínima: podem acusar a justiça de ser cega; jamais de não ter paladar.


Mais fábulas menores na seção contos e versos.

25 julho, 2008

Música Impopular

Vassily Kandinsky, no ensaio “On the Spiritual in Art”, de 1910: Nossa alma, que somente agora acorda de um longo período de materialismo, oculta dentro de si as sementes da falta de esperança, de fé e de sentido. O pesadelo dos ideais materialistas ainda não passou, ideais que fizeram uma piada maldosa e sem graça do universo. A alma que desperta ainda se encontra sob a influência deste pesadelo.

Kandinsky acreditava que o despertar da alma do pesadelo do materialismo dependia de artistas que resistissem à dominação e ao determinismo do mundo exterior, descobrindo seus próprios mundos de valores estéticos intrínsecos. O principal interesse de Kandinsky era a arte visual, mas ele era um pianista e violoncelista amador, mas voltou-se à música, “a mais não-material das artes”, como fonte de inspiração:

A esse respeito, a música é a mais instrutiva das artes. Com algumas exceções e divergências, a arte musical jamais é um meio que reproduz ilusoriamente um fenômeno natural. Ao contrário, a música sempre utiliza seu meio de comunicação para expressar a vida emocional do artista e, a partir desse meio, cria uma vida original de tons musicais. O artista que não vê sentido em representar a natureza artisticamente e, enquanto criador, busca verter seu mundo interior em forma exterior inveja a música – a mais não-material das artes – por sua facilidade de atingir este objetivo.

Há tempo para toda música debaixo do sol. Música para o corpo, para o cérebro, para o coração. Música somática, dinamogênica, física. Música matemática, cerebral, racional. Música espiritual, música integral.

Obviamente, a música tem diferentes significados para diferentes pessoas. Para alguns, é um passatempo, um hobby cultivado. Para outros, é um veículo de relaxamento e distração. Música pode se tornar apenas um fundo sonoro para atividades díspares como varrer a casa e correr no parque. Música pode ser irritante dependendo do lugar e do volume: seja um concerto de Schumann nos alto-falantes de um ônibus ou um petardo do Latino na festa do vizinho.

Os atuais hits pop teleradiofônicos já tem apólogos demais, ondas de rádio demais, faustões demais, aficionados demais pra que eu abuse dos bits e bytes, pra que suas pupilas percam tempo lendo minhas e-missivas predestinadas ao anonimato (sigo rumo ao anonimato, ok, mas vou contrariado).

Por isso que é sobre a "música impopular" que vou escrevendo (expressão do livro do maestro Julio Medaglia). Impopular porque no anseio autoritário por novidade ela vai sendo esquecida. Impopular não é a música chamada erudita; é qualquer música que não se destine ao sucesso sazonal de um verão. Impopular porque se apresenta com mais sentido do que o duplo sentido. Impopular porque menos popular do que merece, mesmo que as vendas on-line de música impopular tenham aumentado animadoramente. Ao contrário do que se passa nos mais baixos sonhos dos mercadores da música, há uma gente que não quer só o pop, mas quer Pixinguinha e Bach, Tom e Stravinsky, Miles e Mozart, e claro, as novas gerações de competentes músicos impopulares (alguns, como eu, ainda acrescentariam Bill Gaither e Jader Santos).

Mas como querer algo que não se conhece? Como os meninos vão querer ser químicos se só os Ronaldos “se dão bem na vida”? Como querer ser violoncelista se as Grazis e Iris é que tem milhares de, vá lá, leitores? Como ainda querer a música impopular quando os etnomusicólogos lhe chamam de música elitizada, sendo “elite” uma ofensa na academia antropologicamente correta?

A família Médici, mecenas das artes de outros séculos, dá nome agora ao site http://www.medici.tv/, onde há diversos concertos com qualidade de imagem e de som (disponíveis por tempo limitado). E enquanto as nossas chances de assistir a um concerto ao vivo da Sinfônica de Berlim permanecerem diminutas, com alguns cliques você pode assisti-la aqui tocando Brams e Bartók no festival de Aix-en-Provence.

22 julho, 2008

As loucuras dos tempos modernos

Em As Loucuras de Dick e Jane, o casal Jim Carrey e Téa Leoni tenta manter o elevado padrão de vida que tinham antes de ficarem, os dois, desempregados. Pelo título, o filme parece apenas um veículo de celebração das mímicas de Carrey. Mas não é. E o que vou dizer pode ser um anátema para alguns: esse filme é um divertido mas contundente painel da ganância e do espírito de competição gerados pelo capitalismo mais selvagem. Sobram farpas para a vaidade dos executivos, para a impessoalidade no trato com os funcionários, para o exibicionismo dos endinheirados (veja a disputa masculina por carrões), para a especulação das bolsas financeiras.

O casal demora a cair na realidade da pobreza, mas quando percebe, já está caindo também nas armadilhas do crime. Mas o casal 'novo-pobre' não começa a assaltar porque a pobreza os levou àquela situação de penúria, mas também para manter a aparência de família bem-sucedida. Sai a fácil explicação do sociologiquês mais barato – o de que o pobre rouba por que é pobre – e fala-se de algo mais profundo e terrível: a soberba, a amoralidade e a vaidade humanas como principais causadoras da violência. Antes da luta de classes, vem a falência moral. Assim, vemos um casal que não rouba para sobreviver, mas para ostentar e ser bem visto outra vez pelos amigos e pela comunidade – a grama roubada é o sinal de como se importam com a fachada da casa, o signo da aparência de sucesso.

O filme falha em não punir o desempregado ladrão e castiga somente os executivos, mas isso também pode ser visto como a inversão farsesca da lógica de uma justiça branda para com os ricos e violenta para com os pobres. Apesar de subestimado, As Loucuras de Dick e Jane é um bom filme que segue o controle de qualidade hollywoodiano de edição, fotografia e cenário e ainda pode contar com um Jim Carrey comedido nas caretas (depois de O Show de Truman e O Mundo de Andy já se sabe do grande ator que ele é). Conte-se também com um roteiro de crítica social que não esquece que está tratando de uma comédia, e cenas impagáveis, como a corrida de candidatos a um emprego para chegar mais rápido à fila de entrevista (um retrato tragicômico da competição feroz das cidades) e os disfarces usados pelo casal nos assaltos (máscaras e roupas de bandidos e mocinhos – fictícios ou não - glamourizados pelo cinema).

Mas é possível conscientizar o espectador enquanto ele se diverte? O riso não espantaria a tomada de consciência? O filósofo Walter Benjamin, nos anos 1930, acreditava que os trabalhadores poderiam se conscientizar e elevar seu “espírito” na mesma medida em que se divertiam e se reconheciam nos personagens de uma obra. Benjamin admitia certas virtudes, artísticas e políticas, no cinema voltado para o entretenimento. Como exemplo dessa combinação de fruição estética e arte socialmente engajada, o filósofo alemão podia citar a obra-prima de Charles Chaplin, Tempos Modernos.

O filme de Chaplin tem imagens largamente conhecidas e tornou célebre a figura do operário submetido à mecanização do trabalho em série, ao avanço tecnológico agressivo, ao despreparo técnico diante do novo maquinário e à violência da repressão policialesca. Porém, o que poderia ser um tratado socialista é transformado pela genialidade de Chaplin em sátira demolidora tanto do capitalismo quanto do comunismo. Se o trabalhador se vê alienado de si mesmo ao ser cobaia de experimentos tecnológicos e escravo de patrões gananciosos, ele também é prejudicado pelas incessantes greves.

As cenas inesquecíveis se sucedem em profusão: Chaplin junta do chão uma bandeirola vermelha que caiu de um caminhão, segue atrás do veículo tentando devolvê-la e é tomado pela polícia por um líder de uma manifestação de grevistas que acaba de dobrar a esquina; seu primeiro emprego após a prisão e a forma como ele rapidamente se demite; Chaplin no casebre; trabalhando como garçom; preferindo ficar na prisão do que ter que voltar às ruas fervilhantes de violência e fome.

Ao contrário do casal exibicionista Dick e Jane do filme de 2005, em Tempos Modernos, de 1936, a mocinha rouba para ter pelo menos o que comer. Além disso, é claro que entre Chaplin (diretor, ator, roteirista e autor da trilha sonora) e Dean Parisot (o diretor do filme mais recente) há um oceano. Mas ambos os filmes têm finais pseudo-felizes: quando o casal comemora a indenização (justa mas tomada à força) há uma citação final à Enrom, a empresa real que afundou em contabilidade fraudulenta, que demonstra que o risco da história do casal se repetir em outra família nunca será erradicado.

Já a chance de felicidade do casal de Tempos Modernos subitamente se desvanece. É quando eles se vêem obrigados a abandonar o emprego recém-obtido e são encontrados na última cena numa estrada vazia. O rosto da mocinha é de tristeza e desamparo, mas Chaplin (ao som instrumental da famosa Smile/Sorria) insiste para que ela abra um sorriso. Otimismo ingênuo? Falsa esperança? Nada disso. Chaplin, um otimista incorrigível, sabe que, como diz uma antiga canção brasileira, “tristezas não pagam dívidas”.

16 julho, 2008

As mensagens nada subliminares do rock


Diogo Mainardi, colunista de Veja, falou recentemente num podcast sobre a presença de mensagens subliminares demoníacas no rock dos anos 70. Uma das canções com recados satânicos seria a popularíssima Hotel California, dos Eagles. Como de praxe, a mensagem não aparece de forma linear numa frase cantada e só pode ser ouvida com o recurso da audição em reverso. Só com muita boa (ou seria má?) vontade pra entender o que Mainardi ouviu. E se você não souber de antemão o que supostamente está sendo dito, duvido que consiga descobrir o que está soando. Mainardi abusa do artifício grotesco de um modelo de mensagem subliminar que não encontra respaldo nos círculos de estudos mais sérios. 


Os “teóricos” da mensagem subliminar são como aqueles que crêem em discos voadores: eles enxergam exatamente aquilo que querem ver. Assim como balões, aviões e meteoritos (e até pratos de porcelana) tomam forma de espaçonaves de turistas alienígenas, diversas canções seriam manipuladoras da mente humana. É como acreditar em alguém que diz que por trás de uma nuvem espessa tem um disco voador passando. Assim seriam as mensagens subliminares: por trás de uma camada de som, por trás de frases só escutadas em reverso são encontrados versos satânicos, apologia da violência, estímulo ao consumo e à perversão sexual.

A questão da mensagem subliminar acaba desviando o foco de algo muito mais contundente, e algo que é apresentado não ao subconsciente, mas ao consciente mesmo. Quero dizer que as mensagens mais daninhas estão explicitamente escancaradas ou subentendidas de forma nem sempre sutil. É possível ter a percepção de coisas mesmo quando não há clara consciência de percebê-las? Sim. Porém, se as mensagens estão encobertas pela música ou por outros sons e formas gramaticais, somente os sons que encobrem tais mensagens é que serão percebidos. Se a mensagem se destaca claramente não é subliminar.

Vamos então às mensagens explícitas ou subentendidas do rock dos anos 60 e 70, mesmo porque a tentativa de assustar os adolescentes impressionáveis com recados e imagens de sexo e satanismo só os deixa mais curiosos (pode parecer estranho ao mundo dos adultos, mas é assim que funciona).

O defensor do “discurso reverso (reverse speech)” David John Oates declarou que o disco Highway to hell, do AC/DC, tinha frases escondidas como “meu nome é Lúcifer”. Angus Young disse em resposta que “ninguém precisa tocar o álbum ao contrário, pois nunca usamos mensagens ocultas. Nós intitulamos o álbum de Highway to hell (estrada para o inferno), está bem na frente deles”.

1) Mitologia sexual do rock

O estilo de vida sexualmente bastante liberal de tantos astros do rock já serve de incentivo aos seguidores (as). Claro que o fato de ser uma estrela do rock tem maior apelo e facilidades. Mas também atrai uma repercussão em escala planetária.

O rock celebra o sexo como algo natural e irreprimível, com toques de dominação masculina e ambiguidade sexual, embora o componente de submissão masculina esteja presente - “your servant I am / and will humbly remain” (seu servo eu sou / e humildemente permanecerei) – Lady Jane, dos Rolling Stones; e, antes das cachorras do funk, Iggy Pop cantava “I wanna be your dog” (quero ser seu cachorro).

O roqueiro se vê como: uma máquina sexual: “get up I’m sexy machine” – James Brown não era roqueiro mas teve, digamos, uma atitude sexy-rocker bastante influente;
alguém que merece adulação sexual: como revelam as canções dos Stones "Let’s spend the night together" (vamos passar a noite juntos – certamente não para contar ovelhinhas) ou The last time, que diz “you don’t try very hard to please me / with what you know it should be easy” (você não se esforça muito pra me agradar / com aquilo que você sabe que deveria ser fácil).

2) Glorificação da juventude

O rock representa a esfera mítica do imaginário da juventude:
- eternização da juventude;
- dificuldade de amadurecimento;
- mitificação da morte juvenil

O último item era um modismo nos anos 60-70 – na sintomática canção My Generation, a banda The Who cantava “I hope I die before I get old” (espero morrer antes de ficar velho) enquanto o Circle Jerks repetia “live fast, die young” (viva rápido, morra jovem). Mesmo que envelheçam, a pose e a atitude (alguns mais pose que atitude) são as de estar bebendo da fonte da eterna mocidade (eles também bebem de fontes que passarinho não freqüenta, mas isso já é outra história).

3) Hostilidade à educação formal

“We learned more from 3-minute record, baby / than we ever learned in school” (aprendemos mais de uma gravação de 3 minutos do que já aprendemos na escola - No surrender, de Bruce Springsteen); e a famosa “hey, teacher, leave those kids alone” (ei, professor, deixe as crianças em paz - The Wall, do Pink Floyd). 
Brian May, guitarrista do Queen, estava no meio de um doutorado em física quando a banda estourou mundialmente. Com pesquisas publicadas na área científica, May tornou-se PhD em 2007 com a tese A Survey of Radial Velocities in the Zodiacal Dust Cloud. Exceção? Sem dúvida. Então seriam os roqueiros contra a educação escolar?

Para Robert Pattison, os roqueiros não propõem a substituição da razão pela anarquia, mas o reposicionamento da razão ditado pelo sentimento [1]. Entretanto, duas imagens não desapareceram: a imagem do punk e seu espírito de rebelião contra "tudo o que está aí", que contribuiu para um anti-autoritarismo viciado e violento; e a imagem da evasão escolar divulgada por meio das canções e do padrão de comportamento. A decadência da educação americana seria um reflexo do abandono governamental da periferia, entregue às mãos do tráfico e da violência, e do estímulo à auto-satisfação por meio do pop-rock, que naturalmente incentiva os sonhos juvenis de ser um popstar e não um cientista.

4) Estímulo à alteração de consciência

A banda Jefferson Airplane cantava em White rabbit: “One pill makes you bigger / and one pill makes you small / and the pills mother gives you don’t do anything at all” (uma pílula lhe faz maior / e outra lhe deixa menor / e as pílulas que sua mãe lhe dá não faz nada acontecer); os Ramones queriam ficar sedados: “I wanna be sedated”; e David Bowie cantava “I’m feeling fine / gonna lose my self-control” (me sinto bem / vou perder meu controle).

Contudo, essa busca por paz interior com tintas de bucolismo está em contradição com a gratificação tecnológica dos roqueiros. Por meio das drogas eles queriam permanecer em um estágio mental de tranqüilo e primitivo passeio campestre, mas ao mesmo tempo experimentavam toda sorte de equipamento musical mais avançado.

O satanismo proclamado nas letras e nas posturas de alguns roqueiros dos anos 70 era uma jogada de marketing. Porém, é bom lembrar que alguns deles, de forma marqueteira ou não, acabaram contagiando a sociedade juvenil com seus gritos primais de convocação anti-cristã, cujo maior êxito foi a banalização da figura do diabo, transformado em caricatura divertida, folclórica e personagem publicitário. Ou seja, bem distante do cruel personagem bíblico diretamente envolvida em um conflito cósmico.

É evidente que o rock dos anos 60-70 não se resume aos exemplos e características selecionadas acima. Havia também cantores e canções que participaram ativamente da conscientização política e social, nem sempre, porém, com resultados eficazes e meios apreciados pela sociedade tradicional. O rock é ao mesmo tempo sintoma e diagnóstico de um tempo e de uma sociedade adoecidas. Mesmo os uivos deliberadamente desafinados e toscos do punk podem ser vistos tanto como um grito de alerta quanto um pedido de socorro.

As mensagens subliminares, se é que podem ser percebidas nas canções “acusadas”, pouco deveriam significar diante dos incontáveis relatos de depressão, violência e decadência física e intelectual de quem não conseguiu ou não quis resistir às armadilhas do universo roqueiro. Os religiosos que denunciam supostas mensagens ocultas do rock deveriam atentar mesmo para mensagens anti-cristãs que soam em alto e bom som, bem audíveis e visíveis. 


[1] – Pattison, The triumph of vulgarity, p. 105.

Bibliografia de referência:
FRIEDLANDER, Paul. Rock and roll – uma história social. Ed. Record.
PATTISON, Robert. The triumph of vulgarity: rock music in the mirror of romanticism. Oxford Univ. Press.
WICKE, Peter. Rock music – culture, aesthetics and sociology. Cambridge Univ. Press.

09 julho, 2008

Babado novo em odres velhos


Para começar, uma fábula menor de moral mínima: Há muito tempo, ainda no século passado, Manoel Castro e Cal Adan esfregaram uma lâmpada e fizeram um pedido ao gênio de todas as festas: que eles fossem empresários de uma banda de muito sucesso. Seu desejo foi atendido e surgiu o É o Tchan. Surpreendentemente, ambos continuaram soltos por aí. Sendo assim, os dois empresários reincidiram e criaram o grupo Babado Novo. Cuidado, eles ainda têm um terceiro e último pedido a fazer, embora o gênio festeiro, aproveitando que está na terra das leis casuístas e dos abadás, já deva ter votado e alterado a lei dos três pedidos.

* * *

A indústria da axé-music continua crescendo. Quando Daniela Mercury começou a cantar que A cor da cidade era ela em decibéis supersônicos acabou-se o sono dos justos. Decibel é uma unidade de audição. Bel é como se chama o líder da banda Chiclete com Banana. Pondere o amigo, a amiga. Se um Bel já é uma indigência sonora, o que dizer de decibéis, ou seja, Bel elevado à décima potência.

Como tudo que está ruim sempre pode ficar pior, a cantora do Babado Novo, Cláudia Leitte, é lançada em carreira-solo (agora com dois “Ts” como recomenda o manual astral do show business). A justificativa é de que o grupo era um aquário muito pequeno para a cantora de tantos e louvados talentos (leia-se disposição para cantar, rebolar e obedecer tudo o que o empresário mandar). Mas, como a mentira tem pernas tão curtas quanto o figurino da cantora, soube-se que o último cd do grupo tinha vendido “apenas” 50 mil cópias. Um desastre para os números astronômicos da indústria da Música Prapular Brasileira.

Então, como nada se perde, transformou-se Cláudia Leitte no similar de Ivete Sangalo, a atual rainha de vendas de cds e produtos para a pele. Similar ou genérico, o que importa para uma cantora solista de trio elétrico é ser uma mistura bem sucedida de artista com maratonista. Como diz Nelson Motta, ao mesmo tempo em que se é artista tem que ser atleta pra pular junto com o povaréu imenso. O vozeirão não pode passar despercebido e nem podem faltar também os naturais cabelos esvoaçantes (leia-se dois superventiladores estrategicamente posicionados na frente do palco).

Mas, quando as trevas morais já encobriam o planeta da axé-music, eis que Cláudia Leitte declara seu cristianismo em entrevista. Ela conta que seu casamento foi celebrado pelo pastor Ivo Dias, da Comunidade Evangélica dos Artistas de Cristo (CEAC), e que ela já abriu um show com um hino da pastora-cantora Ludmila Ferber. Talvez seja essa sua idéia de testemunho para um público que usa a axé-music como trilha sonora para urros histéricos e beijos fugazes. Ela também afirma que não é vulgar, que usa “shortinho sem ofender a Deus”. Aí é que se vê que o evangelho de Cláudia Leitte é menos o de Jesus Cristo e mais o de Jesus Sangalo, o empresário e irmão de Ivete.

Veja você que há um tipo de evangélico moderno que não se arrepende nem da música que pratica. Há cantores que renunciam ao modo de vida que levavam antes da conversão; e há muitos astros que acreditam que não precisam renunciar a nada. Pode-se prosseguir na mesma velha e boa carreira artística e pensar que não se precisa fazer esforço algum, que tudo já foi feito por ele, que ele já recebeu a “unção”...

Há relatos que mostram como ex-artistas se aproximaram da comunidade evangélica. Em geral, os relatos mais sinceros são de artistas que estavam vivendo no ostracismo artístico. Por sua vez, cantores que estão surfando na crista da onda da mídia são mais reticentes em abandonar o padrão de vida que levam – e não deve ser fácil mesmo redirecionar todo um estilo de vida.

Diante de uma multidão, com a oportunidade de oferecer algo além de entretenimento rápido e indolor, vários artistas vendem a si mesmos e exaltam um arremedo de cristianismo bem apropriado para críticos que procuram uma boa desculpa para discriminar a religião. É assim que Cláudia Leitte, involuntariamente, acaba criando uma nova categoria de crente: a showgirl evangélica, para quem o cristianismo é somente um “negócio legal”, um babado anunciado como novo por dentro, mas que por fora é o mesmo odre velho. E enquanto não se apercebe disso, ela segue promovendo uma forma de religião tão banal e incoerente como as propagandas de refrigerante em que atua.

04 julho, 2008

Te Vejo Poeta

Te vejo Poeta quando nasce o dia
E no fim do dia, quando a noite vem
Te vejo Poeta na flor escondida
No vento que instiga mais um temporal
Te vejo Poeta no andar das pessoas
Nessas coisas boas que a vida me dá
Te vejo Poeta na velha amizade
Na imensa saudade que trago de lá
Contudo um poema, Tua obra de arte
Destaca-se à parte numa cruz vulgar
Custando o suplício do Teu Filho amado
Mais alta expressão do ato de amar

Certa vez, a crítica teatral Barbara Heliodora disse que as únicas imagens que não podiam ser criticadas eram as imagens reais da natureza. “Ninguém vê um pôr-do-sol e diz: ah, este pôr-do-sol está muito acadêmico”. De fato, para criticar a natureza é preciso níveis absurdos de rabujice. E quando falo natureza me refiro ao que o ser humano ainda não conseguiu destruir com seu mau gosto: a formação das nuvens, a alvorada, uma colina, uma árvore.

Os céus proclamam a glória da criação, cantava Davi, o rei-poeta, quando, maravilhado, ficava a pensar nas obras das mãos criadoras de Deus. Os autores dessa pequena-grande canção, João Alexandre e Guilherme Kerr Neto, deviam estar com a mente repleta de lembranças bonitas do contato rotineiro com a natureza. A pontualidade da maré, as nunca enjoativas cores do dia e da noite, o incansável surgir e desaparecer do sol no horizonte; tudo é tão cotidiano que é fácil perder a capacidade de nos maravilharmos com a natureza.

Os compositores estão aí para nos lembrar que o Criador é muito mais do que um arquiteto. É um Poeta. Um Poeta que espelha Seu amor no Filho e espalha Seu dom nos seres criados.

Te vejo Poeta quando nasce o dia
E no fim do dia, quando a noite vem
Te vejo Poeta na flor escondida
No vento que instiga mais um temporal

A letra da música fala de alguém que é capaz de perceber o Poeta revelado nas obras, como um pintor cuja autoria é identificada nas cores e traços de um quadro. O eu-lírico da canção vê a poesia tanto na aurora quanto no entardecer. Isso a canção deixa claro: Deus não está no dia, na noite, no vento, na flor. Antes, é a natureza que manifesta as digitais de um Criador.

Já se disse que o primeiro a rimar flor com amor foi um gênio; o segundo, um plagiador sem criatividade. A frase é um exagero, mas os autores de Te Vejo Poeta escapam da rima desgastada. Assim, a rima da última sílaba de um verso nem sempre vai encontrar uma outra rima pra chamar de sua no fim do verso seguinte; a rima às vezes está no centro do próximo verso (te vejo Poeta na flor escondida /no vento que instiga mais um temporal; te vejo Poeta no andar das pessoas / nessas coisas boas que a vida me dá).

O percurso melódico suave dos versos 1 e 5 é alternado com a subida vocal íngreme do início dos versos 2 e 6:
_________________________________fim do dia_______________
________________________________________________________
____________________________e no_________________________
Te vejo Poeta quando nasce o dia______________quando a noite vem

____________________________________coisas boas_____________
__________________________________________________________
______________________________nessas_______________________
Te vejo Poeta no andar das pessoas ________________ que a vida me dá

Esse contraste melódico contribui para que não sintamos falta da rima ao final dos versos.

Te vejo Poeta no andar das pessoas
Nessas coisas boas que a vida me dá
Te vejo Poeta na velha amizade
Na imensa saudade que trago de lá

A canção anuncia que há algo mais pra se olhar no andar das pessoas além do balanço de quem vem e que passa a caminho do mar. É o caminhar assim da humanidade, o transitar das pessoas tão diferentes na aparência mas tão semelhantes em seus anseios de busca e apreensão de felicidade, de sentido na vida.

Numa época de relações passageiras, líquidas, que escoam pelos desvãos do tempo e da egolatria, o companheirismo de uma longa amizade está se ausentando dos relacionamentos humanos. É que grandes amizades raramente se constroem nos escaninhos do orkut, tampouco na mudança constante de cidade do transitório trabalhador moderno. O rodízio de carros é seguido do rodízio de amigos; nem amigos mais, talvez meros colegas. Sabedores da rotatividade enlouquecedora de hoje, celebra-se a velha amizade ao mesmo tempo em que já se sente saudade dos amigos distantes.

Depois de iniciar com a percepção da obra perfeita revelada na natureza, os autores chegam ao homem, “a coroa da glória da Criação”, e após enxergar poesia na vida humana, eles percebem também que os relacionamentos, por mais fraternos e amáveis que sejam, são vítimas da finitude e da saudade. Nesse ponto, pouco restaria a falar do ser humano ou da natureza. A criatura reconhece que há outro painel desenhado. Desta vez, sem raios luminosos, sem noites enluaradas, sem flor, mas pintado com as cores dramáticas do sangue. Porém, para além da tragédia da morte de um Crucificado, os autores vêem beleza na rudeza da cruz, sabedores e beneficiários que são do plano de redenção.

Contudo um poema, Tua obra de arte
Destaca-se à parte numa cruz vulgar
Custando o suplício do Teu Filho amado
Mais alta expressão do ato de amar

Aquele Homem de dores desfigurado pela tortura, cortado da terra dos viventes por causa da transgressão de todos, é parte de um poema que não se quer recitar. É um quadro tão terrível e ao mesmo tempo tão belo e misterioso, que não pode ser contado entre os feitos artísticos já enunciados pelo eu-lírico da canção. É uma obra que destaca-se à parte porque não é de criação, mas de redenção. Essa obra é de arte não por causa dos painéis renascentistas ou quadros barrocos inspirados pelas cenas da cruz vulgar, mas porque é a mais alta expressão do ato de amar, e “ninguém tem maior amor do que esse: o de dar a própria vida em favor de seus amigos”.

A arte, assim, está na motivação, concepção e execução do plano. Um plano que faz do Criador o Redentor que experimenta a amizade e a inimizade, a infância e a morte, e troca inexplicavelmente de lugar com a criatura. O Poeta parece escrever algo trágico demais, mas o poema não pode somente falar da árvore, mas também do machado que a corta. A criação dá testemunho da arte do Poeta; a cruz revela a Sua missão.